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Posts na categoria "Ensaio"

Dramáticos legados da I Guerra

16 de outubro de 2014 0
Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Texto de Luiz Antonio Araújo

Lenço umedecido, zíper, horário de verão. Banco de sangue, tabagismo, “corredor polonês”. Aço inoxidável, saquinho de chá, comunicação por rádio a bordo de aeronaves. Genocídio, bombardeio aéreo, tanque de guerra. Nenhuma dessas expressões fazia sentido antes da I Guerra Mundial, e se hoje nos parecem familiares, é porque “é impossível entender o Breve Século 20 sem ela”, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm. Ou porque foi “a primeira calamidade do século 20, a calamidade da qual brotaram todas as outras”, no balanço mais explícito de outro historiador, o americano Fritz Stern.

A Grande Guerra, como batizada inicialmente pelos contemporâneos (a expressão “I Guerra Mundial” surgiu apenas ao final do conflito, quando ficou claro que seus horrores seriam reprisados), foi o apocalipse realmente existente para a civilização europeia. Antes dela, longas aventuras militares pareciam definitivamente confinadas a confins como Sudão e China. Depois, a linha de frente alcançou centros urbanos como Estrasburgo, Varsóvia e Salônica, onde havia cafés, automóveis e orquestras sinfônicas.

A guerra mobilizou 65 milhões de homens, demoliu quatro impérios e deixou 20 milhões de mortos entre militares e civis. Ao final de quatro anos, seis em cada 10 homens sérvios tinham perecido. Numa escala menor, um em cada quatro graduandos de Oxford e Cambridge, destinados desde o berço ao parlamento ou ao serviço colonial, foi parar nos cemitérios militares britânicos. Em pelo menos uma dimensão a profecia do presidente americano Woodrow Wilson, de que aquela seria “uma guerra para acabar com todas as guerras”, se realizou: os que nela combateram tornaram-se firmes partidários da paz. Entre as exceções, conta-se Adolf Hitler. O filósofo Karl Popper disse que o futuro não seria o que é se fosse possível conhecê-lo. Com a I Guerra, ocorre um fenômeno curioso: quanto mais a conhecemos, menos ela se parece com o que é, ou seja, um acontecimento que irrompeu há um século.

O historiador britânico Christopher Clark, autor do elogiado Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Tradução de Berilo Vargas e Laura Motta. Companhia das Letras, 704 páginas, R$ 69,50), tem uma explicação que pareceria surpreendente: “se o debate é antigo, o tema ainda é atual. Na verdade, é ainda mais atual e mais relevante agora do que 20 ou 30 anos atrás. As mudanças no mundo alteraram nossa perspectiva sobre os acontecimentos de 1914”. É impossível não se impressionar com a seguinte descrição da crise que levou à guerra e do papel nela desempenhado pelo grupo terrorista sérvio Mão Negra, do qual fazia parte Gavrilo Príncip, jovem estudante que matou a tiros o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando: “O processo começou com um esquadrão de homens-bomba suicidas e um cortejo de automóveis. Por trás do ultraje de Sarajevo estava uma organização declaradamente terrorista com um culto de sacrifício, morte e vingança; mas essa organização era extraterritorial, sem uma localização geográfica ou política clara; estava dispersa em células que transpunham fronteiras políticas, não tinha como ser chamada à responsabilidade, suas ligações com qualquer governo soberano eram indiretas, ocultas e certamente dificílimas de discernir fora da organização”. A força da obra de Clark, entretanto, não está num suposto recurso ao “presentismo”, que o historiador rejeita explicitamente. Ao contrário, ele enfatiza justamente o fato de que, morto o arquiduque, a chamada Crise de Julho adquiriu uma dinâmica própria, na qual teve peso decisivo o intrincado e pouco coerente sistema de alianças europeu e, no seu interior, a teia de interesses econômicos, políticos e por vezes pessoais que detonaram a matança. Os Sonâmbulos focaliza em detalhe a história dos Bálcãs, fronteira de três impérios (Austro-húngaro, Russo e Turco Otomano), e mostra como essa região crítica para a  Europa tornou-se, já no final do século 19, um barril de pólvora: a turbulência balcânica, assegura Clark, “forneceu a estrutura conceitual dentro da qual a crise, uma vez surgida, foi interpretada”. Voltando à analogia entre passado e presente, a desterritorialização da gestão de crises, hoje tornada possível por um sistema de governança global ainda incipiente, atua como freio contra colapsos incontroláveis como o de 1914, precipitado, segundo o britânico, por “rápidas interações entre centros de poder autônomos e pesadamente armados que confrontavam ameaças diferentes e cambiantes, e que operavam em condições de alto risco e baixa confiança e transparência”.

Em vez de se concentrar na Crise de Julho, O Horror da Guerra (Tradução de Janaína Marcoantonio. Planeta, 736 páginas, R$ 89,90), do britânico Niall Ferguson (publicado em 1998 e com edição brasileira em abril deste ano), é um opulento ensaio de 736 páginas em torno de 10 perguntas clássicas sobre a I Guerra. Algumas, como “A guerra foi recebida com entusiasmo popular?”, já foram exaustivamente respondidas (“Houve manifestações isoladas de entusiasmo chauvinista pela luta iminente, mas foram exceções”, afirma Clark). Outras, como “A propaganda, e especialmente a imprensa, mantiveram a guerra em curso, como acreditava Karl Kraus?”, só se justificam em função da admiração de Ferguson por Kraus. A pergunta fundamental do livro é a que permite ao autor exercitar sua veia polêmica, especialmente contra a visão estabelecida sobre a guerra entre historiadores britânicos: “A guerra era inevitável, seja por causa do militarismo, do imperialismo, da diplomacia secreta ou da corrida armamentista?”. As conclusões de Ferguson (em 1914, os europeus estavam dando as costas ao militarismo e abraçando a democracia, e a grande falha da Grã-Bretanha foi ter se omitido do ponto de vista político e militar em relação a esse fenômeno) são largamente baseadas em dados sobre a França e a Alemanha, evitando as águas profundas da Rússia e da Áustria-Hungria.

O livro de Ferguson tem o subtítulo Uma Provocativa Análise da I Guerra Mundial. Mas é O Adeus à Europa – A América Latina e a Grande Guerra (Tradução de Carlos Nougue. Rocco, 400 páginas, R$ 39,50), do francês Olivier Compagnon, o verdadeiro merecedor desse rótulo. Deixando de lado o mito conveniente de que a I Guerra foi um conflito europeu, ele muda o foco para seus efeitos na América Latina, a partir da dissecação da forma como a guerra foi vivida por Brasil e Argentina. Um dos alvos de Compagnon, especialista em história latino- americana, é a velha assertiva de que o período de 1889 a 1929 foi marcado, no subcontinente, pelo expansionismo americano (a política do “Grande Porrete” de Theodore Roosevelt), pela crise do modelo liberal-oligárquico e pelo crescimento das classes médias urbanas. O resultado é a instigante ideia, traduzida no título da obra, de que a guerra marcou o fim do idílio europeu das elites brasileiras e argentinas e permitiu o florescimento de um modernismo político e cultural que Compagnon relaciona à ascensão de correntes como o varguismo e o peronismo.

Secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund compõe um interessante painel da guerra a partir de cartas, diários, livros e entrevistas de 19 testemunhas da guerra. Dois são civis, quatro são mulheres e há um latino-americano, o venezuelano Rafael de Nogales, que, aos 35 anos, se junta às forças otomanas e assiste, horrorizado, ao massacre dos armênios da Anatólia.

Ainda que o material utilizado por Englund não seja inédito, A Beleza e a Dor – Uma História Íntima da Primeira Guerra Mundial está cheio de insights preciosos sobre a vida cotidiana no início do século passado e pode ser lido como uma biografia ou uma novela de aventuras. Catástrofe – 1914: A Europa Vai à Guerra, do britânico Max Hastings (Tradução de Berilo Vargas. Intrínseca, 672 páginas, R$ 49,90), é a estreia de um veterano historiador e jornalista, autor de mais de 20 livros sobre história militar, no território densamente povoado do caminho para a I Guerra. Trata-se de uma obra sob medida para os leitores que pretendem ter uma visão abrangente e vívida sobre o tema, com abundância de fontes e bibliografia e a prosa mais do que certeira de um grande narrador. Merecem destaque ainda as coleções de imagens de combates e de mapas – essenciais em qualquer livro sobre o assunto e infelizmente negligenciadas em outras obras – e a útil cronologia do ano de 1914.

Com tantos estudos e livros históricos, contudo, se há um lançamento da recente fornada sobre a I Guerra que merece ser comemorado, é uma ficção: a edição brasileira do romance As Aventuras do Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, com tradução diretamente do checo por Luís Carlos Cabral. Clássico da literatura da Europa Central, cujos méritos foram reconhecidos pela primeira vez por Max Brod, amigo responsável pela preservação da obra de Franz Kafka, Švejk permaneceu por muito tempo ignorado em parte pela particularidade linguística: foi escrito em checo, língua pouco conhecida no Brasil (Kafka, também checo, escrevia em alemão). O romance, que já foi associado a Dom Quixote, acompanha a saga de Josef Švejk, um ex-comerciante de cães (profissão que também foi exercida pelo autor) que se integra ao exército austro-húngaro nos primeiros anos da guerra. As Aventuras do Bom Soldado Švejk merece figurar em qualquer lista do legado da I Guerra Mundial – quem sabe no lugar do bombardeio aéreo e muitas posições acima do zíper e do lenço umedecido.

Todorov discute a obra de Goya

16 de maio de 2014 0
Quatro "Três de Maio de 1808", de Goya

Quatro “Três de Maio de 1808″, de Goya. Reprodução, ZH

Em uma de suas pinturas mais famosas, Três de Maio de 1808 em Madrid (imagem acima), o artista espanhol Francisco de Goya (1746 – 1828) usa a luz de forma quase sobrenatural para atrair a atenção do espectador para o personagem central. A cena é dramática: diante de um pelotão de fuzilamento, um homem levanta os braços, como o duplo de um Cristo crucificado. Soldados sem rosto, corpos ensanguentados no chão e o olhar de desespero de seus companheiros completam a cena. No ambiente de horror e trevas que cerca o condenado, sua camisa imaculadamente branca explode na tela como um clamor silencioso pela paz – e pela própria luz.

Em Goya – À Sombra das Luzes (Companhia das Letras, 281 páginas, R$ 49,50), Tzvetan Todorov, que esteve em Porto Alegre há dois anos no seminário Fronteiras do Pensamento, investiga luz e sombra na obra do pintor, mas não no sentido concreto do jogo cromático. As luzes, aqui, são as do Iluminismo, e as sombras, a obra “secreta” do pintor, criada à margem da atividade como artista oficial da corte que durante anos garantiu seu sustento.

A grande guinada de sua carreira, de pintor convencional a artista que retratava as angústias e os pesadelos de sua época (e de todas as épocas), acontece depois de uma doença que o acometeu por volta dos 40 anos. Seus quadros, antes repletos apenas por reis e rainhas em trajes de gala, passam a exibir também loucos, prisioneiros, velhos, crianças abandonadas, mulheres violentadas.

Interessa a Todorov apontar o diálogo desta vertente clandestina da obra de Goya – que ele cria para si mesmo e não para ganhar dinheiro ou para exibir ao público – com os ideais iluministas da sua época. Para o autor, Goya promoveu uma espécie de revolução pictórica ao colocar o homem comum no lugar de heróis, figuras religiosas ou representações mitológicas.

Retratando o humano no que ele tem de trágico e patético e o cotidiano da guerra do ponto de vista dos derrotados, Goya tornou-se eterno e universal. Como constatou certa vez o crítico de arte Fred Licht: “Quem quer que tenha olhado, mesmo apressadamente, os jornais do último meio século constatatará que as notícias mais significativas tinham sido ilustradas por Goya há mais de 150 anos”.

Para Zizek, menos é mais

15 de março de 2013 0

Hegel (1770 – 1831), em gravura de Lazarus Sichling (1812–1863)

Em sua famosa entrevista a Didier Eribon, De Perto e de Longe, o antropologo francês Claude Lévi-Strauss disse que, de seus estudos de filosofia alemã na juventude, reteve a noção de que a consciência humana tendia a “mentir para si mesma”. Com a elegância de estilo que caracteriza Lévi-Strauss, eis uma fórmula capaz de resumir um dos legados fundamentais do pensamento germânico, de Kant a Heidegger. Não estamos sozinhos no castelo do cogito, há algo na consciência que não é igual a ela mesma,“Eu é um outro” (Rimbaud) e “A verdade está lá fora” (Arquivo X) – mais do que uma noção, a filosofia alemã produziu um efeito de estranhamento no conhecimento e na cultura. O fato de esse efeito ser hoje inseparável da modernidade talvez seja sua maior realização.

Não é preciso ser leitor de filosofia para intuir que a obra de Sigmund Freud está profundamente alicerçada, desde o princípio, nessa tradição. Ainda que tenha realizado a parte principal de sua formação clínica e tido alguns de seus principais insights na França, a psicanálise não teria existido sem o efeito desestabilizador das ideias de consciência e de sujeito sistematizadas pelos alemães. Como nota, entre outros, Élisabeth Roudinesco, as resistências iniciais à doutrina de Freud na França devem-se a sua suposta “não-latinidade”. É curioso que, entre todos os sistemas de pensamento que procuraram explorar os múltiplos pontos de contato entre a moderna filosofia alemã e a psicanálise, nenhum tenha sido mais ousado e produtivo do que o do francês Jacques Lacan e sua imensa família de discípulos. Entre estes, um dos mais célebres, o esloveno Slavoj Zizek, tenta costurar esses dois legados em Menos que Nada – Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético (Boitempo Editorial, 656 páginas, R$ 79).

Antes de se tornar talentoso escritor e persona pública, Zizek formou-se em psicanálise em Paris com Jacques-Alain Miller, genro de Lacan. Não lhe escapou o fato de que, em Lacan, o interesse por Freud correu paralelamente a uma curiosidade filosófica incomum, que o levou a conviver com especialistas como Alexandre Kojève e Alexandre Koyré. Lacan intuiu que os legados de Hegel e de Freud se voltavam para questões chave da filosofia do conhecimento, como consciência e sujeito. Dissecados por Hegel de um ponto de vista dialético, esses temas passam por Marx, Freud, estruturalistas e pós-estruturalistas e ecoam em todo o pensamento pós-moderno. É nesse ponto que são retomados por Zizek, como destroços recolhidos à beira de uma praia.

Zizek é um ensaísta profundamente intuitivo e empático. Ele define – ou antes indefine – seu livro como uma espécie de Hegel para Imbecis: “Hegel para aqueles cujo QI está mais próximo da temperatura corporal (em graus Celsius), como diz o insulto… não é?”. O autor lembra que a palavra imbecil provavelmente deriva do latim baculum (bastão, cajado, báculo). Imbecil é alguém que não tem um bastão no qual se amparar, e na filosofia, esse instrumento corriqueiro de apoio, orientação e exploração não pode ser outra coisa senão a linguagem. Para Zizek, o horizonte filosófico-ideológico contemporâneo é um quadrilátero de forças delimitado por quatro pontos: do lado do materialismo, o naturalismo científico (neurociência, darwinismo) e o historicismo discursivo (Foucault, desconstrucionismo); e do lado do espiritualismo, o “budismo ocidental” e o pensamento da finitude transcendental. Sua tese é de que o “núcleo da subjetividade moderna” não está no interior desse campo de futebol, mas fora dele, e constitui aquilo que Freud denomina pulsão, relacionada à falta e ao desejo e preexistente à linguagem.

Buscar uma definição de real por meio do entrecruzamento das noções de falta, pulsão e desejo é um procedimento familiar na teoria psicanalítica – entre outros, o brasileiro Marco Antonio Coutinho Jorge já enveredou por esse caminho em Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan. A ideia de reconciliação entre Lacan e a filosofia tampouco é inédita, como mostra a obra do francês Alain Badiou, por sinal um dos interlocutores de Zizek. O que o escritor esloveno tenta fazer, com a ajuda do politicamente conservador Hegel, é uma leitura transgressora do politicamente conservador Lacan, apontando para a possibilidade de uma transgressão da ordem que não acabe por provocar apenas uma recomposição da dominação. Partindo da máxima de Lacan de que “não existe Grande Outro” (vale dizer, a linguagem, o signo ou a ordem simbólica não é o reflexo de um real imperativo, mas o produto decantado de processos de subjetivação), Zizek critica aqueles que, ainda assim, estacam diante da presença ameaçadora desse mesmo Outro e mergulham em distintas formas de passividade, seja teórica ou política. Se Hegel está certo ao sugerir que não se pode conhecer o futuro e Lacan tem razão em afirmar que a linguagem é a prisão do sujeito, a tarefa de Zizek é explorar as possibilidades de uma ética da revolta ancorada nesses dois pensadores.

O caudaloso livro de Zizek – são 656 páginas na edição brasileira, pela Boitempo – pode assustar os não iniciados, mas não constitui, de forma alguma, leitura monótona. Afinal, qual outro autor seria capaz de comentar Hegel com base em exemplos extraídos de Guerra nas Estrelas, de citar Veludo Azul, de David Lynch, a propósito de Derrida ou transitar da filosofia do conhecimento a uma piada judaica no mesmo parágrafo sem passar por superficial? Para os leitores menos vorazes, é do próprio Zizek a ideia de que talvez não seja necessário ler a obra do princípio ao fim para entendê-la.“Por exemplo, muitos ensaios sobre Ulisses, de Joyce – e com frequência os melhores – foram escritos por estudiosos que não leram o livro inteiro; e o mesmo vale para Kant ou Hegel, pois um conhecimento extremamente minucioso só produz uma entediante exegese especializada, em vez de nos fornecer insights”, sustenta. Ele mesmo parece ter levado essa ideia ao paroxismo ao admitir, em 2011, que escrevera sobre o filme Avatar antes de tê-lo assistido. Menos é mais.

Letras no litoral

08 de fevereiro de 2013 0

Foto: Ricardo Duarte, ZH

A maior parte do litoral gaúcho não é um oceano de beleza selvagem com promontórios e acidentes recortados caprichosamente contra o horizonte. Não. De certo modo,o Rio Grande do Sul se assemelha com sua costa marítima: sem ornamentos, de tons cinzas e castanhos. Não que essa descrição seja plenamente original. Está mais para um clichê cristalizado no imaginário que o gaúcho construiu de seu próprio litoral, e como a literatura lida, entre outras coisas, com representações do imaginário, não é de surpreender que as poucas incursões da literatura gaúcha pelas areias de suas praias sejam carregadas da mesma melancolia que se instala no espírito de quem observa o mar encapelado em uma tarde chuvosa.

O romance considerado o primeiro a fixar em letra escrita o gaúcho como um “tipo” na literatura nacional foi o também o responsável pela primeira representação ficcional da faixa litorânea do Estado: O Corsário, de José Antônio do Vale e Caldre Fião, publicado primeiramente em folhetim no jornal O Americano, que circulava na corte do Rio de Janeiro, de janeiro de 1849 a fins de 1851. Ao apresentar a Revolução Farroupilha como pano de fundo, poucos anos após o fim do conflito, Caldre e Fião ambienta a narrativa em uma longa faixa litorânea no norte do Estado, nas cercanias de Torres, lar de pescadores desassistidos. O mar já é, aí, a massa fria e feroz que castiga melancolicamente os paredões.

Mais de meio século depois, no texto que serve como prefácio a Contos Gauchescos (1912), Simões Lopes Neto se refere à “ardentia das areias desoladas do litoral”. Também O Louco do Cati (1942),de Dyonélio Machado, percorre o litoral, acompanhando uma a princípio despretensiosa excursão de jovens ao litoral. Em uma época sem Estrada do Mar, a longa viagem se torna uma odisseia rumo ao pesadelo – o litoral é o ponto em que a realidade da nunca nomeada mas sempre presente ditadura getulista desaba sobre o“louco”do título.

As estradas já são melhores nos anos 2000, mas a representação da praia como um cenário de melancolia, mais próprio a um acerto de contas do que a um batismo místico, também vai se repetir em dois romances da década passada: Longe da Água, de Michel Laub, e Cassino Hotel, de André Takeda, ambos de 2004. Imerso em atmosfera pop, Cassino Hotel leva seu personagem principal, um guitarrista em crise afetiva e profissional, a uma fuga para o Cassino, praia em que o jovem passava a infância e na qual pretende descobrir o que houve de errado com sua vida.

Longe da Água é uma narrativa de construção mais sólida e segura, recuperando, em um ritmo entrecortado que oscila entre passado e presente,a juventude de seu protagonista na praia de Albatroz, em Imbé. Apesar do tom nostálgico e carinhoso com que Laub reconstrói os meses em que a vida de um jovem no verão se transfere para a praia (ou se transferia, na época dos longos veraneios que não se fazem mais), é a praia ainda o cenário de uma tragédia – que dará ao protagonista uma cicatriz emocional definitiva.

Ao menos na ficção, o litoral gaúcho não é um local de encontros, no máximo, de melancólicos reencontros consigo mesmo.

Scliar é homenageado em coletânea de ensaios

04 de setembro de 2012 0

A partir de 1962 a cidade de Scliar é a mesma cidade de Erico Verissimo e Dyonélio Machado; no entanto, o cenário é inteiramente outro. Nos dias subsequentes à ascensão do nazifascismo e à eclosão da grande guerra, intensificara-se o processo imigratório, e o Rio Grande multiplicou o contingente de judeus oriundos de diversas procedências. Logo definindo um significado considerável não só nas relações empresariais e comerciais, mas também no panorama da cultura e das artes, eles terminaram agrupados num bairro que adquiriu características próprias e inconfundíveis. Era o Bom Fim. O judeu e o Bom Fim tornaram-se sinônimos no mapa geográfico e também no mapa mental de Porto Alegre.
Pertencendo à geração dos filhos dos primeiros imigrantes, foi justamente isso que Scliar percebeu com notável intuição ao escrever os seus textos, ora resgatando a memória da infância translata nesse espaço singular, ora fixando tipos, usos, costumes, também um acervo lendário praticamente inesgotável que ele não hesitou em aproveitar no seu mundo fictício.  Então a cidade de Erico e Dyonélio era aquela mesma, mas já era outra. Direi desde logo que a´nasce um novo território na literatura brasileira. Nem Porto Alegre fora desenhada sob esse ângulo, nem o judeu fora inserido como protagonista no mosaico brasileiro que a narrativa veio compondo de Alencar em diante. No Bom Fim de Moacyr Scliar o imigrante judeu e sua descendência ganharam a cidadania literária.

O trecho acima é do ensaio Scliar e a Diáspora de Todos Nós, publicado pelo professor e crítico Flávio Loureiro Chaves na coletânea Tributo a Moacyr Scliar (Edipucrs, 220 páginas, R$ 30). O livro, organizado pelas professoras Maria Eunice Moreira, Ana Maria Lisboa de Mello e Zilá Bernd, reúne estudos críticos sobre a obra literária de Moacyr Scliar e depoimentos de pessoas que o conheceram. Scliar morreu em fevereiro de 2011, aos 73 anos.

No primeiro eixo, o dos estudos críticos, Loureiro Chaves aborda  a construção, por parte de Scliar, de uma ficção que adicionou os questionamentos de identidade do imigrante judeu à vertente local do romance urbano; Soraya Lani discute as interrelações entre Scliar e a narrativa bíblica de onde ele declaradamente buscava inspiração; Ilana Heineberg debate a maneira como Scliar reviu as utopias fundadoras do século 20 em seu último romance, Eu Vos Abraço Milhões; Marie-Hélène Paret Passos apresenta um panorama do acervo literário de Moacyr Scliar presente no centro de documentação Delfos, da própria PUCRS.

Na parte dos depoimentos, o escritor e atual secretário de Cultura Luiz Antonio de Assis Brasil relembra sua amizade com um dos mais prolíficos e generosos escritores do Estado; o irmão Wremyr Scliar retraça histórias familiares;, o jornalista Nilson Souza fala sobre a convivência com o escritor, também cronista de imprensa; Jean-Marie Ozanne, editor de Scliar em francês, e Phillippe Poncet, seu tradutor, também recordam o autor. Ao final, uma cronologia dá conta da publicação de sua vasta produção literária – Scliar lançou mais de 80 livros, publicando durante boa parte da vida mais de um volume por ano.

O livro será lançado nesta quarta-feira, às 18h, no saguão da Biblioteca Central Irmão José Otão, prédio 16 da PUCRS (Ipiranga, 6.681). O livro estará á venda no lançamento e depois estará em livrarias. Ou pode ser adquirido no site da editora (www.pucrs.br/edipucrs)


Narrativas de Porto Alegre

31 de julho de 2012 0

Vista da Rua da Praia em foto do início do Século XX - Foto: Banco de Dados, ZH

Uma  cidade não se constrói apenas com pedra e asfalto, mas com representações.  Nesse sentido, examinar a maneira como os escritores retrataram Porto Alegre é também fazer um passeio elíptico pela imagem que a própria Capital faz de si mesma. É também reencontrar, ainda que na imaginação, uma Porto Alegre apenas entrevista nas ruínas urbanas que uma cidade em crescimento constante deixa atrás de si.

As representações urbanas da cidade no século 19 tendem a enfatizar seu caráter de sociedade paroquial, um lugar  que, embora grande em comparação às demais do Estado, ainda é uma comunidade de poucos habitantes e ritmo ameno. A concepção da Porto Alegre do século 19 e início do 20 como uma joia da Belle Époque é um clichê recorrente da literatura que se ocupou da cidade, e parece ter origem já nas obras daquele período, como no romance O Perdão, de Andradina de Oliveira (1878-1935), uma história de adultério que faz seus personagens passearem pela cidade em 1910, nascente metrópole com seus bondes, confeitarias chiques, fábricas, banda marcial e iluminação elétrica:

O bond parava de novo. Entrou um velho baixote, de roupa de brim pardo, chapéu de palha preto ficando russo, e um pala de inverno surrado.
– Ora, salvou-se uma alma do purgatório hoje! – exclamou outro velho, espigado, magro a mais não ser, com um pescoço de girafa, vermelho e pelancudo, olhos pretos, pequeninos e vivos, e sobrancelhas grisalhas, grandes, crespas. E como se fosse um poste enfiado num terno cor de cinza, atroou para o velhote:
– Então, seu Zé Silveira, sempre se resolveu a dar um nicolau à companhia Carris Urbanos, hein? – e apertou  fortemente a mão do outro que se sentara a seu lado, segurando sempre, ao ombro, o pala seboso. – É a primeira vez que o vejo de
bond.
– Caminhar a pé é bom para a saúde, seu Nicácio.
–  E para o bolso, seu Zé
.”
(O Perdão, Andradina de Oliveira)

Significativamente, Porto Alegre começa a ganhar espaço não só como pano de fundo, mas como cenário ficcional com caráter próprio, em simbiose com seus personagens, a partir dos anos 1930, quando a cidade também passa por um surto de expansão física e modernização urbana e tecnológica. Clarissa, de Erico Verissimo (1905 – 1975), um dos marcos dessa explosão urbana moderna na literatura do Estado, é de 1933. Os Ratos, de Dyonélio Machado (1895 – 1985), outro romance inaugural, é de 1935. O mesmo período de meados da década de 1930 testemunha a abertura da Avenida Borges de Medeiros e a construção do Viaduto Otávio Rocha – obras públicas de grande envergadura com as quais, lembra a arquiteta Cláudia Pilla Damásio em sua dissertação Porto Alegre na Década de 30: Uma Cidade Idealizada, Uma Cidade Real, a intendência municipal, de inclinação positivista, dedicava-se a um projeto de modernização de Porto Alegre. É o mesmo período em que Erico desenvolverá o seu “Ciclo de Porto Alegre”, inaugurado com Clarissa e encerrado com O Resto é Silêncio, de 1943.

– Embora se contem exemplos anteriores de literatura urbana, não é uma coisa significativa. A figura chave é mesmo a partir daquele momento. No Erico, com Clarissa, a cidade faz parte da experiência dos personagens, o modo como eles agem é condicionado pelos espaços do município em que atuam. A cidade no Erico não é só pano de fundo, é personagem – comenta a professora da UFRGS Regina Zilberman, autora de A Literatura no Rio Grande do Sul.

Erico apresenta uma visão ao mesmo tempo lírica e melancólica da cidade, descrita com a exuberância visual e plástica com que o autor construía os cenários de seus romances. É uma descrição de um autor maravilhado ele próprio com a Porto Alegre que se ergue a seu redor. Como apontou um dos primeiros críticos de Caminhos Cruzados, Dante Costa, a descrição que Erico faz da cidade “é uma espécie de exposição enternecida do quotidiano, com comentários e poesia. Assim como se o autor,de repente, se alçasse sobre a vida, e de uma distância breve, que permitisse a visão geral e também a sinuosidade dos detalhes, nos mostrasse o que acontece“.

Uma das cenas mais impactantes da obra de Erico vale-se desse mesmo recurso. É a morte de uma jovem no capítulo inaugural de O Resto é Silêncio, nascida de um suicídio real testemunhado pelo autor em 1941 na Praça da Alfândega:

Logo depois que o sol desapareceu, aquela praça ali no centro da cidade teve um minuto de esquisita beleza. As lâmpadas estavam ainda apagadas. Os anúncios de gás néon riscavam de coriscos coloridos as capotas dos automóveis parados junto da calçada. Quem olhasse para o lado do poente veria – silhuetas de casas, torreões, cúpulas, postes, cabos e armações de aço – uma escura massa arroxeada contra o gelo verde do horizonte.
Sons de buzinas distantes e de raras  vozes humanas subiam amortecidos na atmosfera de paina. Tinha-se a impressão de que os passantes esqueciam seus cuidados e propósitos, compreendiam que naquele instante eram apenas elementos dum quadro. Moviam-se sem pressa, numa calma silenciosa: andavam de leve, como que flutuando no ar.
Mas a cena durou apenas um rápido minuto. Acenderam-se os combustores, e de repente algo de inesperado aconteceu. Uma rapariga precipitou-se do décimo terceiro andar do edifício Império, deu uma viravolta no ar e caiu hirta e de pé contra as pedras  do calçamento, produzindo um ruído seco e agudo, que ecoou no largo como um tiro de pistola.

(O Resto é Silêncio, Erico Verissimo)

Dyonélio desce o olhar ao rés-do-chão para flagrar as figuras miúdas esmagadas pelo processo de urbanização. O crescimento de uma cidade capitalista nos moldes modernos exige uma multidão de trabalhadores anônimos engajados em sua construção – homens como o atormentado Naziazeno de Os Ratos. A Porto Alegre que emerge do romance é ao mesmo tempo mais difusa e mais crua do que a dos romances de Erico – poucas são as passagens de fato descritivas, e nenhuma delas com a exuberância plástica vista em O Resto é Silêncio ou Caminhos Cruzados. Dyonélio coloca o elemento central do capitalismo como o gatilho que faz se movimentar a trama de Os Ratos: o dinheiro, que não está só no centro do drama de Naziazeno, desesperado para arranjar dinheiro para o leite, mas em toda a cidade, repleta de comércio miúdo, operários, malandros, viradores e obras. Como afirma Cláudio Cruz em seu estudo fundamental sobre a literatura do período Literatura e Cidade Moderna, Dyonelio,”sem utilizar-se da descrição tradicional e empregando pequenas e breves indicações, situa firmemente suas ações em espaços bastante representativos da cidade real“:

É a segunda vez que consulta o relógio da Prefeitura esta manhã. Esse relógio, lá no alto, na torre, parece-lhe uma cara redonda e impassível…
Já pôs o pé na calçada do mercado. O ‘café do Duque’ fica na outra esquina. Toda essa calçada é uma sombra fresca e alegre, cheia de passos, de vozes. Quando defronta o portão central, abre-se-lhe, lá dentro, uma perspectiva de rua oriental, cheia de bazares, miragem remota de certas gravuras… ou de certas fitas… que viu. Não enxerga o Duque nos lugares habituais… E, entretanto, é a “hora dele”. Vai ficar por ali, pelas portas, alguns minutos.
Ele não poderá tardar. Nunca deixa de ir a esse café. Só por doença.
Naziazeno bem que sentaria.
Quem sabe?… talvez haja um conhecido nalguma mesa… Olha!… lá no fundo!… o Carvalho… Mas desvia vivamente a cara, faz que não vê o Carvalho. E esse seu gesto lhe traz à lembrança um gesto semelhante, essa manhã, com o Fraga… Está vendo, nitidamente, o Fraga na porta da casa, bronco e sorridente.
Ele, por sua vez,’teria’ de fazer-lhe uma cara de riso também. Depois, a mulher sabendo tudo pelas crianças e  contando-o ao marido… e o Fraga deixando cair quase até ao grosso ventre uns beiços moles de espanto…

(Os Ratos, Dyonélio Machado)

A elevação da cidade ao protagonismo da ficção gaúcha logo estabelece também as bases para um romance histórico que trate não do mítico passado guerreiro do pampa, mas da própria constituição do espaço urbano. É o que fará Darcy Azambuja (1903 – 1970), que passou à posteridade mais por sua trajetória como jurista e teórico do Direito – seus livros na área são reeditados até hoje, diferentemente de suas investidas na ficção. Seu Romance Antigo, publicado em 1940, reimagina, com minuciosa pesquisa, a Porto Alegre de 1816, ainda uma aldeota do reino português, em que a chegada de notícias do grande mundo dependia de viajantes e pregões rua afora:

Mandava o governador que a Câmara organizasse um bando, em que ele próprio se incorporaria, para anunciar à vila a morte da Rainha. Uma hora depois o extenso cortejo do bando saía do Palácio, na Praça da Matriz, entrada na Rua Pecados Mortais*, e descia para a Rua da Praia.
(…) Os sinos da Matriz, das Dores e dos Passos plangiam lugubremente no ar calmo da tarde de abril. Nas residências mais importantes, os postigos das janelas estavam cerrados; nas humildes, gente sem protocolo metia através das portas a cara curiosa para o
bando. Não raro, alguns apontavam a figura imponente do governador e diziam, numa admiração desrespeitosa: Olha, até o Diabo Coxo vai de charola!
Nos pontos mais centrais o
bando estacava, o andador da Igreja da Matriz fazia tatalar a matracar, o procurador
da Câmara adiantava-se e lia, em um pergaminho de onde pendiam longas fitas negras, a notícia da morte de D.Maria I, rainha de Portugal, Brasil e Algarves,que Deus chamou à Sua Santa Glória – Orai por ela.

* Rua Bento Martins
(Romance Antigo, Darcy Azambuja)

Também Luiz Antonio de Assis Brasil se ocupará da Porto Alegre histórica em mais de um romance, particularmente no melancólico Um Quarto de Légua em Quadro, um relato antiépico das origens do povoamento da região, e Cães da Província, mordaz retrato que vai na contramão da autoimagem de uma Porto Alegre Belle Époque, como mencionado antes:

A cabeça da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul é um promontório elevado que avança rio adentro, no sentido Leste-Oeste, não mais. No lado norte, o mais protegido, aquele que as pessoas escolheram para morar, estão as casas de residência, as lojas, os arsenais, as boticas, os seleiros, os correeiros e toda gente que trabalha no ímpeto de formar aqui uma grande cidade, flor e orgulho do Império, reluzente marco da presença brasileira nestas meridionais solidões. As casas e as ruas esparramam-se a deus-dará, desobedecendo quase por método às ordens de um famoso capitão Montanha, homem que em certa era e certo dia disse: “Aqui vai ser a rua principal, depois as outras serão paralelas e perpendiculares”, aplastando a ignorância dos primeiros moradores com tantas palavras difíceis. Imagine, o capitão Montanha querendo ser um novo Rômulo que com seu arado demarcou os limites da velha Roma, no tempo das antiguidades. As ruazinhas espremem-se e se chocam, caindo a ribanceira bem ao modo português, as moradias correndo parelhas umas às outras e tão grudadas que da casa em frente se ouve o que se fala aqui, é só apurar os ouvidos.
(Cães da Província, Luiz Antonio Assis Brasil)

Outro autor que, mesmo afastando-se por vezes no tempo e no espaço, tornou Porto Alegre um tema recorrente de sua ficção foi Moacyr Scliar, que pintou a cidade com tons oníricos e humorísticos num bom número de seus romances e contos – mais especialmente A Guerra no Bom Fim, Os Mistérios de Porto Alegre, O Centauro no Jardim, O Exército de um Homem Só e Os Voluntários:

Se não me engano, eu achava aquilo tudo muito interessante, muito bonito, mas, se estou bem lembrado, naquele momento eu pensava em outra coisa, pensava mesmo era em mulher. 1952? 1953? Em mulher. Só em mulher. E poderia pensar em outra coisa? NaVoluntários da Pátria?
Eu ajudava meu pai no bar até as sete, oito horas da noite, e então ia jantar. A esta hora os operários, os caixeiros, os funcionários já tinham ido para casa. De seus quartos nos velhos sobrados as mulheres começaram a emergir. Caminhavam lentamente, equilibrando-se nos altos saltos; ou então postavam-se nas esquinas, encostadas, à parede. Ou ficavam sentados no interior de bares sombrios, os olhos reluzindo na semi-obscuridade. Aquilo regurgitava de mulheres. Um rápido exame da geografia sensual de Porto Alegre mostraria uma cidade ocupada por esse amável exército. Na Pantaleão Telles, junto à ponte de pedra em que os Farrapos travaram furiosas batalhas. Um numeroso contingente entrincheirado nas casinhas da Cidade Baixa. Na Azenha, Cabo Rocha era um importante reduto. No Cristal, Mônica reinava solitária e esplêndida, com seu luxo, seu Quarto de Espelhos.Mas havia ainda lugares mais fantásticos: O Cabaré das Normalistas, onde, segundo a lenda porto-alegrense,as moças deixavam cair a máscara da inocência.(…)
Delírio à parte, o principal contingente de mulheres estava no Centro, na Voluntários. Mulheres para todos os gostos e todos os preços, menos os que eu podia pagar.

(Os Voluntários, Moacyr Scliar)

Scliar, no entanto, não hesitava quando pensava que deveria desenraizar seu texto do espaço de Porto Alegre para reenraizá-lo em temas bíblicos e no passado da humanidade. Outros autores contemporâneos de Scliar também farão o mesmo, detonando um processo que pode ser traçado até a atual geração de criadores. Caio Fernando Abreu mergulha suas histórias em uma atmosfera pop que a seu modo rejeita o realismo – e, por tabela, a representação urbana tradicional, ainda que algumas histórias sejam ambientadas em pontos reconhecíveis da cidade. João Gilberto Noll, por sua vez, descreve pouco o ambiente externo em que seus heróis se movimentam. Também desloca com desenvoltura o espaço físico de seus romances – algumas de suas principais e mais aclamadas obras se passam fora de Porto Alegre, como A Fúria do Corpo (no Rio), Harmada (em um país fictício) ou Lorde (em Londres).

Gralha: pega, mata e come

03 de fevereiro de 2012 5

No jargão editorial, “gralha” é o nome que se dá para os erros de edição, impressão e digitação que escaparam da revisão final e ganharam seu espaço na eternidade literária da página juntamente com a obra. Não sou editor, então talvez um dia pergunte a pessoas como o Samir Machado, o Rodrigo Rosp ou o Tito Montenegro qual a origem do nome – minha única hipótese, fruto de pura imaginação, é que uma gralha tipográfica se assemelha a uma mancha preta no lugar errado, como o pássaro pendurado num fio de luz, mas tenho a impressão que isso soa vagamente absurdo. E gralha é coisa séria, acreditem em mim. Dependendo de seu número e de sua natureza, podem ser um problema dos mais graves: a diferença crucial entre uma boa e uma péssima experiência de leitura.

Porque leitura também é resultado de um processo de sedução: o autor investe seus recursos estilísticos em trazer o leitor para dentro do mundo que está construindo, e isso é mais claro na ficção, mas não se restringe a ela. Quanto mais árido um texto de não ficção, maior é a nossa sensação de lê-lo “de fora”, de algum lugar puramente intelectual de onde o autor tenta nos acenar. A fluidez de um texto cumpre um papel no seu entendimento, por mais que a academia cheia de jargões relute em aceitar isso. E essa sedução do texto tem, na minha cabeça, uma função análoga à experiência acústica. As boas salas de concerto são construídas de modo a que o som se espalhe e crie um universo cálido no qual o ouvinte não apenas ouve, ele se vê imerso nas vibrações que ele não pode ouvir mas que ainda assim estão lá e ajudam a dar essa sensação de mergulho no ambiente sonoro _ esta também é a razão porque o som de um CD sempre foi um lixo se comparado so vinil: o CD limou do registro as frequências mais baixas e mais altas que o ouvido humano não alcançava. A ideia era deixar o som mais “limpo”, mas o efeito foi o contrário.

Pois penso, sem nenhuma prova que o demonstre, que a estrutura de um livro, a cadência da prosa, a escolha do mote justo é o equivalente formal na literatura a essa construção de ambiente, a esse lugar imaginário que se situa na intercessão entre o leitor e o livro aonde se chega pelo prazer da leitura como se por uma estrada. E a gralha tipográfica é o equivalente ao buraco na pista: é o que dificulta o trânsito e torna o viajante insuportavelmente consciente dos esforços da jornada. É como a nota em falso que quebra a ilusão tão custosamente construída.

O ótimo romance Raízes do Mal, de Maurice Dantec, por exemplo, uma mistura delirante de ficção científica e noir de primeira qualidade, foi editado pela Sulina aqui no Brasil no início de 2010, se não me engano, com tradução de Juremir Machado da Silva. Comprei meu exemplar uns três meses depois na Palavraria, após de um evento do qual participei – e após haver lido um texto do próprio Juremir sobre o livro. Peguei uma carona para casa e esqueci o livro no carro. Passaram-se outros dois meses até eu e o motorista que me deu a carona conseguirmos outra vez marcar um café para a devolução. Mas finalmente comecei a leitura, e foi uma experiência dolorosa.

A prosa de Dantec era, de fato, vertiginosa, e ele conseguia discutir em profundidade a violência e o isolamento no mundo contemporâneo usando a ficção científica como pretexto, como os melhores autores do gênero fazem. E tinha lances de imaginação tão fervilhantes que eu me perguntava, sempre admirado, “de onde esse cara tirou isso?”. Mas havia tantos erros no texto, tantas gralhas penduradas na leitura que eu submergia no universo inventivo do livro para ser puxado pelos cabelos na página seguinte. Meses depois conversei com o editor Luiz Gomes, durante a Feira do Livro, e ele me disse que, por vários problemas internos de comunicação, o livro havia sido impresso sem passar pelo revisor – que deveria ter feito o trabalho e não fez, algo assim. E que uma edição nova seria em breve colocada no mercado sem esses problemas. Não sei se isso de fato foi feito, mas espero que sim, a leitura desse livro em particular provavelmente seria muito mais alucinante sem tantos erros para te puxar “para fora” do romance.

Outro caso é Liberdade, de Jonathan Franzen. Um romance de mais de 600 páginas escrito com a intenção declarada de oferecer um panorama total da realidade americana contemporânea, à maneira dos grandes mestres do realismo europeu do século 19. Uma tarefa que, pela sua própria natureza, exige a sedução da prosa, a manha de tragar o leitor para dentro das páginas para só deixá-lo emergir horas depois, como quem sai de uma piscina em que prendera a respiração: ofegante e ainda todo molhado. Em alguns momentos da leitura, Franzen de fato consegue isso, mas o volume tem vários erros tipográficos que puxam o leitor de volta, alguns deles tão inacreditáveis que me pergunto se não houve algo semelhante ao que ocorreu com a edição de Raízes do Mal. Li o livro primeiramente em inglês, e portanto tais erros pareciam ainda mais flagrantes na edição em português, mas na época dei um desconto porque estava lendo uma prova de impressão encadernada enviada pela editora, a Companhia das Letras, e não o exemplar final. Conversando com outros leitores do livro já pronto, como os meus editores Ticiano Osório e Cláudia Laitano, percebi que os problemas ainda estavam lá.

Erros tipográficos são coisa tão séria que provocam crimes, ao menos em um dos romances protagonizados pelo detetive Cliff Janeway, o ex-policial bibliófilo e negociante de livros raros criado pelo escritor americano de romances policiais John Dunning. Em Impressões e Provas, outra edição da Companhia das Letras, Janeway investiga por que uma edição rara de O Corvo, de Edgar Allan Poe, impressa para uma confraria de bibliófilos, parece ser a causa de uma trilha de cadáveres. Mais não digo para não murchar a surpresa de ninguém. Só não posso deixar de registrar que o crime no livro tem a ver com uma gralha em uma edição de O Corvo.

Mas na verdade este post não foi escrito por causa de nenhum dos livros citados anteriormente, e sim porque comecei a ler ontem um livro chamado 27, um romance de um alemão chamado Kim Frank (Tordesilhas, 216 páginas, R$ 34,90) e que foi publicado aqui no Brasil no ano passado _ por uma mórbida coincidência, bem na época em que a morte de Amy Winehouse aos 27 anos revivia o tema central tratado no romance. 27 pertence àquela vertente que se convencionou chamar de “literatura pop” depois do sucesso que o Nick Hornby fez com Alta Fidelidade no fim dos anos 1990. Quem usa essa qualificação quase sempre confunde, na minha opinião, “literatura pop” com “music namedropping”, ou seja, a tentativa de tornar seu texto mais “esperto” tomando a música pop como tema e despejando o maior número de nomes de bandas e artistas que você conseguir. Um jovem alemão de nome Mika, um rapaz que não conhece o pai e mora com a mãe ausente — uma médica que passa o tempo todo em congressos —, torna-se um astro de rock após uma sucessão de episódios nos quais o acaso, mais do que sua própria vontade, parecem ser determinantes. Mika é obcecado pelo número 27, e ao encontrar no quarto do tio — um jornalista que passou os últimos dias, doente de AIDS, morando com o protagonista e sua mãe _ uma série de dossiês sobre astros de rock que morreram aos 27 anos — Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Jim Morrison.

Mika me parece um personagem inconsistente entre outras coisas por isso. Ele tem 17 para 18 anos e ainda não havia percebido nem ouvido falar dessa coincidência. Conhece música, o rock ao menos, com uma propriedade técnica maior que a minha (o autor do livro é ele próprio um roqueiro), mas nunca ouvira falar de Robert Johnson até encontrar os recortes (não passa A Encruzilhada na TV alemã, será?). Esses são problemas da construção do personagem, e poderiam ser menores, mas se tornam mais graves ao somar-se a uma inacreditável sucessão de erros de revisão – não sei se mantidos do original ou cometidos na versão nacional traduzida por Eduardo Simões. Menciono apenas dois deles:

* Mika se torna um roqueiro depois de arranjar um estágio numa gravadora. Em um diálogo com seu novo chefe, na página 53, Mika diz que o baterista de sua banda dos sonhos seria John BONHEM, do Led Zepellin. O estranho é que o chefe da gravadora não só não o corrige como diz que gostaria de ir ao show dessa suposta banda perfeita. Tá certo que executivos de gravadora não sacam nada de música, mas seria inferir demais achar que Mika se equivocou e o executivo não percebeu, bla bla.

* Em um momento que se pretende dramático nas páginas 61 e 62, Mika se encontra com seu único amigo, um jovem um pouco mais velho do que ele que trabalha cinzelando lápides no cemitério local. Lennart, o amigo, está podre de bêbado porque passou a  noite assentando seu próprio nome na pedra de um túmulo – a sepultura é a de um rapaz com a mesma idade e com o mesmo nome de Lennart. Mostrando que a cidade em que vivem é pequena pra dedéu, Mika não só conhecia o outro Lennart, o falecido, como esteve no enterro do jovem. E aí ele sai-se com esta ao recordar o sepultamento:
E eu me lembro de algo insólito. Os amigos cantam, num coro abafado, ‘Nevermind’, do Nirvana. Supostamente a CANÇÃO favorita de Lennart.

Provavelmente todos vocês perceberam que o baterista do Led era John Bonham, e que Nevermind é o nome de um disco do Nirvana, não de uma canção – a palavra nevermind está na letra de uma das canções do álbum, mas o nome dela é Smells Like Teen Spirit. Em outro romance, com outra proposta, talvez fosse possível relevar deslizes como esse. Mas nesse livro em particular, o de um ROQUEIRO obcecado com uma lenda macabra de que ASTROS DE ROCK morrem aos 27 anos, são duas gralhas que, a exemplo do carcará da Bethânia, “pega, mata e come” qualquer fruição que se pudesse estar experimentando com toda a dificuldade do mundo, uma vez que o livro não é nenhum primor de escrita ou construção.

Pamuk e os moldes do romance

12 de janeiro de 2012 3

Orhan Pamuk durante passagem por Porto Alegre, em 05/12/2011. Foto: Ricardo Duarte, ZH

Contrariando a sisudez que a palavra ” Nobel” costuma decalcar, como um rótulo, em seus laureados, o turco Orhan Pamuk, vencedor do prêmio em 2006, se apresenta em seu novo livro como uma das mais agradáveis companhias para discutir literatura.  Ou melhor, romances, tema de seu mais recente livro a sair no Brasil,  O Romancista Ingênuo e o Sentimental (Tradução de Hildegard Feist. Companhia das Letras, 152 páginas. R$ 34).

O livro compila seis conferências proferidas por Pamuk – autor de Meu Nome É Vermelho e Neve – no ciclo de palestras Norton, da universidade de Harvard. A cada ano, a instituição convida um artista ou pensador expoente em seu campo para ministrar seis conferências sobre tema à escolha do convidado. Tal projeto já deu origem a outros ótimos livros sobre arte narrativa, como Licões dos Mestres, de George Steiner; Seis Propostas para o Próximo Milênio, de Italo Calvino; ou Seis Passeios pelos Bosques da Ficção, de Umberto Eco. O livro de Pamuk, para escapar do óbvio “Seis Considerações sobre o Romance”, ou coisa do gênero, empresta o título de um ensaio de Friedrich Schiller, que dividia os poetas de seu século 18 entre ingênuos ( que escrevem de modo espontâneo, sem considerações sobre o processo – Goethe, no caso da divisão proposta por Schiller) e os sentimentais (reflexivos,  muito cônscios dos passos necessários para a literatura enquanto construção e artifício – como o próprio Schiller).

O Romancista Ingênuo e o Sentimental é dividido em seis conferências sobre aspectos do romance – e sobre as características que fizeram do gênero um fenômeno avassalador, capaz de assumir o protagonismo em qualquer ambiente literário para o qual foi transplantado.  Pamuk fala do que forma um romance, de como a imersão almejada ( e por vezes conseguida) por grandes romancistas na realidade representada em suas obras é análoga à apreensão visual de uma pintura.  O quanto elementos da realidade concreta transplantados para a narrativa romanesca sustentam a ilusão de verdade no leitor que se entrega à leitura.

Pamuk escreve com um ponto de vista subjetivo: é ele próprio um romancista de uma tradição tardia do romance, desenvolvido num país em que se mesclam retalhos de Ocidente e Oriente.  Algumas das intuições e leituras oferecidas nas seis conferências depuram temas já tratados nos ensaios reunidos em um livro anterior, Outras Cores (2010). Na abertura da quarta conferência, por exemplo, o Nobel turco escreve a respeito de Dostoiévski:

“Quando lemos os romances de Dostoiévski, às vezes achamos que deparamos com alguma coisa surpreendentemente profunda – que alcançamos um considerável conhecimento da vida, das pessoas e, sobretudo, do nosso próprio eu. Esse conhecimento parece tão familiar e, ao mesmo tempo tão extraordinário que por vezes nos enche de medo”.

Essa afirmação que retoma o que Pamuk já dissera sobre o mestre russo nos ensaios de Outras Cores sobre Notas do Subterrâneo e Os Demônios.

Embora Pamuk apresente as mecânicas do romance do ponto de vista de um romancista praticante, são seus insights de leitor o ponto forte do livro.  Para ele, o que diferencia a prosa romanesca de outras experiências narrativas como a poesia épica é que o romance tem um ” centro” oculto e impreciso, que reorganiza sob sua gravidade todos os elementos de que o livro é composto – descrições, frases, personagens, objetos.  Esse centro, por vezes difícil de capturar, é” uma profunda opinião ou insight sobre a vida, um ponto de mistério, real ou imaginado, profundamente entranhado”.  Pamuk é um romancista que, ao refletir sobre seu ofício, não esconde jamais a paixão e o maravilhamento sobre aquilo que a forma dominante da literatura dos últimos três séculos é capaz de fazer.

Sentimental na forma, mas ingênuo na paixão.

Descoberta do fim do ano

29 de dezembro de 2011 0

Mural de Diego Rivera que mostra Mussollini abençoado pelo papa pró-fascista Pio XI. Divulgação, L&PM

O escândalo dos abusos sexuais cometidos por padres tem levantado essas questões com maior evidência, mas existem outras violações e outros problemas causados pelos altos sacerdotes políticos que, por algum motivo teológico, incentivam o ódio, a violência ou a discriminação dentro de suas comunidades. A liberdade de religião não dá o direito a pregar o ódio, como descobriram alguns mulás radicais que foram condenados em Old Bailey, o tribunal judicial geral de Londres. Em 2009 a Grã-Bretanha barrou a entrada de vários evangelistas dos Estados Unidos e um apresentador de rádio texano no país por receio de que eles pudessem promover a homofobia; em 2010 um fanático religioso foi preso no centro de uma cidade por ter manifestado aos policiais locais suas ideias de que o homossexualismo era errado. Sensatamente, as autoridades decidiram não processar esse indivíduo, que era sem dúvida apenas um maluco qualquer. No entanto, esse não é o caso do papa Bento XVI. Caso volte a professar em público sua visão já muitoas vezes exposta de que o homossexualismo é “perverso” e de que todos os os homossexuais são pessoas com problemas de personalidade, ele estará fazendo pleno uso de seu cargo espiritual para demonizar uma camada da população protegida  pela igualdade perante a lei. Há sempre, é claro, um limite a ser respeitado em favor da liberdade de expressão, embora o poder das condenações papais seja muito maior do que o dos mulás e dos evangelistas norte-americanos banidos, mesmo (especialmente, na verdade) quando expressadas em uma linguagem decente para suas congregações religiosas. Caso o papa Bento XVI ameaçasse professar com força total suas visões, que já foram acusadas de incitar o espancamento de homossexuais no Brasil e em outros países católicos, o Ministério do Interior britânico também não poderia, sendo coerente quanto às suas decisões em outros casos, permitir sua entrada no país. No entanto, seria inconcebível  para o governo do Reino Unido barrar a entrada do papa. Pelo contrário, ele foi convidado para uma “visita oficial”, pela qual os contribuintes britânicos ainda serão obrigados a pagar metade da conta, estimada hoje em mais de US$ 32 milhões – o que não poderia acontecer caso o papa não fosse reconhecido como um chefe de Estado. Conforme previsto, ele deverá descer em Edimburgo de seu avião particular, resplandescente com seu manto de “chefe de Estado” (“um manto de cetim vermelho com bordas de pele por cima de um roquete, e uma estola papal bordada”), para uma reunião com sua  colega chefe de Estado, a rainha Elizabeth II (que deverá estar de preto, já que apenas rainhas católicas podem receber o papa de branco). Ele então voltará a aparecer no dia seguinte com seu modesto manto branco de “chefe da Igreja” para conduzir uma missa pública. Nesse segundo caso suas vestes merecem respeito, mas no primeiro é importante deixar claro que é um exagero.

Comecei apenas ontem a ler o exemplar de O Papa é Culpado? (Tradução de Otávio Albuquerque. L&PM, 280 páginas, R$ 44), livro de Geoffrey Robertson que havia sido enviado para mim pela editora , nas minhas férias. Robertson é um dos mais renomados juristas britânicos e discute longamente em seu livro os pontos técnicos que podem transformar ou não Bento XVI ou qualquer um que vier a ocupar o trono papal em responsável direto ou indireto pela prática e acobertamento de violações de direitos humanos. O questionamento principal levantado por Robertson é justamente o status de nação independente concedido ao Vaticano – que, como ele lembra muito bem, é resultado de um acordo assinado nos anos 1920 com… Benito Mussollini, é aquele mesmo.

Além de um tratamento absolutamente incomum não compartilhado com religião alguma no planeta, o status de Estado para a sede da Igreja Católica tem permitido na última década manobras legais de acobertamento dos escândalos envolvendo padres católicos acusados de pedofilia em suas paróquias, e é esse o foco principal do livro. Ainda não li todo o livro, deixo isso aqui bem claro, mas Robertson lista numerosos casos de denúncias e queixas de pedofilia levadas à Igreja Católica ao longo de 50 anos e acobertadas ou ignoradas pelas dioceses seguindo uma política oficial do Vaticano de resolver tais questões no âmbito interno da igreja – o que, lembra Robertson claramente, contraria dispositivos que são a base do Estado laico: a liberdade religiosa não autoriza ninguém a cometer crimes. Para piorar, a forma como a igreja muitas vezes trata de tais assuntos é praticamente uma garantia de impunidade: vários padres acusados de pedofilia em paróquias americanas foram realocados para outras comunidades em Roma, na América Latina e, principalmente, na África, sem menção alguma a sua folha corrida anterior, praticamente garantindo campo livre para a reincidência em uma nova paróquia desinformada.

Os argumentos de Robertson  referem-se muitas vezes a casos e leis específicas da common law aplicada na Grã-Bretanha, mas se estendem muitas vezes para questões gerais de direito e Justiça válidas para qualquer nação democrática. Afinal, como ele mesmo escreve em determinado trecho: “todas as  instituições que oferecem ensino ou orientação a jovens devem estar alertas para o perigo de que adultos abusem da confiança a eles conferida. Uma organização religiosa que impõe o celibato aos seus sacerdotes e concede ao clero o poder de dar orientação espiritual e amplas oportunidades para influencias crianças deveria estar particularmente alerta”.

O livro além de tudo, e talvez involuntariamente, é um libelo contundente contra o argumento sempre apresentado pelos críticos do ateísmo de que só pode existir um sistema de valores morais dentro de um sistema de fé religiosa. Como demonstra Robertson, assim como existe uma ética e uma moral laica humanista, há práticas religiosas de duvidosa qualificação moral…

Boa leitura para este fim de ano e início do próximo.

Entre tradições inventadas e verdades pré-moldadas

01 de setembro de 2011 0

Nota do editor: Nossa colega da editoria de Política, Letícia Duarte, partiu recentemente para uma temporada em Moçambique fazendo trabalho de campo para seua dissertação de mestrado. Antes de sua ida, sabedor de sua ligação com o país passei a ela o livro mais recente de Mia Couto, a coletânea de artigos E se Obama Fosse Africano. De lá, ela enviou hoje o seguinte texto, que divido com vocês aqui no Mundo Livro:

O título engana. Quem espera profundas digressões a partir das raízes do presidente dos Estados Unidos pode se decepcionar ao ler o livro E se Obama fosse Africano, de Mia Couto.

Em compensação, o autor escritor moçambicano oferece bem mais. Sem abandonar a prosa poética que caracteriza seus romances, apresenta nesta obra uma coleção de ensaios sobre a África contemporânea, sobre sua visão de mundo e o próprio ofício de escritor — revelando a influência de autores como Jorge Amado, “que fez pela projeção na nação brasileira mais do que todas as instituições diplomáticas juntas”, e Guimarães Rosa, “que provocou uma espécie de abalo sísmico” na sua alma, segundo suas palavras.

São reflexões que revelam a inquietação de um pensador diante do destino de um continente que escapa aos estereótipos que tentam enquadrá-lo. Ao longo dos textos, a maioria transcrições de palestras feitas pelo escritor em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil, Mia Couto propõe um exercício de desconstrução de verdades pré-moldadas sobre a África, criticando o sentimento de vitimização que ajuda a fecundar a pobreza, como se fosse uma semente própria das savanas africanas.

Com a legitimidade de um filho da terra, o autor analisa o choque entre a cultura tradicional, impregnada por rituais de feitiçaria, magia e curandeirismo, e a pretensão científica de resolução de problemas africanos com receitas prontas _ quase sempre estrangeiras e tecnológicas. Rejeitando a condição de refém da própria história, defende que todos são vítimas e culpados ao mesmo tempo, opondo-se à tentação de sempre colocar a culpa pelo subdesenvolvimento africano no outro – seja a escravidão, o colonialismo, o imperialismo. E adverte que até a pobreza é um conceito relativo: em algumas línguas de Moçambique, sequer existe a palavra pobre. “Um pobre é designado como sendo ‘chisiwana’, expressão que quer dizer órfão. Nessas culturas, pobre não é apenas quem não tem bens, mas é sobretudo quem perdeu a rede de relações familiares que, na sociedade rural, serve de apoio à sobrevivência. O indivíduo é pobre quando não tem parentes. A pobreza é a solidão, a ruptura com a família”, escreve. Embora o idioma oficial de Moçambique seja o português, o país tem 25 línguas, e só 12% da população tem como língua materna o alfabeto luso.

Se, para o leitor pouco familiarizado com a realidade africana, podem parecer um tanto anacrônicas as sucessivas referências ao embate entre a “modernidade” e a “tradição”, a reflexão é uma amostra significativa dos dilemas atuais do continente. Uma realidade multifacetada. Em Moçambique, por exemplo, enquanto mais de 80% da população ainda vive sem energia elétrica em casas de palha, entre a elite do país começa a se popularizar o hábito de viajar à China para comprar móveis para seus lares de alvenaria (ironicamente, boa parte dos produtos chineses é produzida com madeira extraída em Moçambique). Ao mesmo tempo em que são populares no interior do país cerimônias para pedir a chuva aos deuses, os moçambicanos são fãs de novelas brasileiras, cantam músicas de Leonardo e Zezé Di Camargo e Luciano e torcem para times de futebol europeus.

Diante de influências culturais tão distintas e entrecruzadas, o que seria autenticamente africano? Mia Couto também se questiona sobre isso, falando da armadilha da identidade, vista como uma outra forma de aprisionamento.

E defende que as tradições quase nunca são tão puras como alguns supõem. Como demonstra um anúncio de jornal em que um curandeiro oferece seus serviços em Moçambique: “Curamos asma, diabetes e borbulhas, tratamos de doenças sexuais e dores de cabeça, afastamos má sorte e… tiramos fotocópias”.  Afinal, até as tradições precisam um dia ser (re) inventadas. Seja na África ou em qualquer outro ponto do planeta.

Texto de Letícia Duarte