Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "Erico Verissimo"

Erico, o solo e o tempo

21 de setembro de 2012 0

Neste sábado publicaremos um caderno Cultura especial para marcar os 50 anos da conclusão de O Tempo e o Vento, a obra máxima de Erico Verissimo, que foi encerrada em 1962 com a publicação do último tomo de O Arquipélago. Aproveitando a oportunidade, republicamos aqui uma “entrevista imaginária” elaborada com o autor.

A história dessa pequena conversa que nunca houve entre este repórter e Erico pode ser remontada ao ano de 2005, quando se completaram 100 anos do nascimento do autor, transformando-o em um dos personagens mais festejados do país. Data daquela época também o começo da republicação integral da sua obra pela Companhia das Letras. O Caderno Donna, hoje editado pela Mariana Kalil, que mantém o blog Por Aí (acesse Por Aqui, hãn, sacaram?) naquela época estava sob o comando de Milena Fischer (ela também tem um blog, todo mundo tem um blog hoje em dia), e trazia a cada semana uma entrevista na Contracapa – eram feitas a entrevistados diferentes sempre as mesmas perguntas, inspiradas no famoso “questionário de Proust”. Aí surgiu a ideia de elaborar, para aquele final de semana em que se completavam os cem anos do escritor (17 de dezembro), respostas possíveis de Erico a perguntas do questionário, que se chamava “Auto-retrato“, sem o “r dobrado naqueles tempos pré-acordo ortográfico.

Escolhi respostas de Erico pinçadas de trechos dos dois volumes de Solo de Clarineta. Essa opção foi tomada porque esses dois livros reúnem memórias assinadas por Erico, e portanto eram frase e opiniões dele, e não interpretações delirantes recortadas de seus trabalhos de ficção, onde o autor gostava de ser “imparcial”, ou seja, dava aos seus personagens voz e ideias próprias, mesmo quando não concordava com elas. Abaixo, quem fala é o próprio Erico – para esta republicação, busco as respostas na íntegra (em 2005 o material precisou ser cortado):

Mundo Livro – Qual seu maior ídolo na adolescência?
Erico Verissimo
– Uma das maiores descobertas literárias de meus dez ou onze anos foi a dum livro encadernado que encontrei um dia no fundo duma gaveta. Sua capa, com desenhos em negro sobre um fundo vermelho, mostrava à esquerda uma jiboia enroscada numa bananeira, ao pé da qual estava sentado um leão que parecia olhar para um veleiro desarvorado e encalhado numa praia. Num céu escuro subia um balão. No alto da capa li um nome: Júlio Verne. Pouco abaixo, estas palavras: Viagens Maravilhosas. Contra a encosta dum rochedo, o título do romance: a casa a vapor. (…) Passei a ser um admirador fidelíssimo de Júlio Verne.

ML – Onde passou férias inesquecíveis?
Erico
– …um certo anoitecer de fevereiro de 1959, em Portugal. Tinha acabado de descer do automóvel de meu editor português em Conímbriga, nas proximidades de Coimbra. Íamos ver ruínas romanas. O céu, onde cintilava  a estrela vespertina, e o ar, que o frio hálito da noite embalsamava, pareciam feitos do mesmo translúcido cristal azulado. (…) Mafalda estava a meu lado, seu braço no meu braço.(…) Pensei: “Eis um momento que jamais poderei esquecer…”

ML – Qual a sua lembrança de infância mais remota?
Erico –
Vejo-me ou, melhor, sinto-me deitado num berço, num quarto em penumbra. Sentada numa cadeira a meu lado, minha mãe me aplica uma cataplasma de linhaça que me queima o peito, ao mesmo tempo que um odor acre me entra pelas narinas. Noutra ocasião, as mãos maternas me esfregam as costas com um linimento de cheiro penetrante. Mas há outro momento ainda mais nítido na minha memória. É noite, D. Bega me canta uma canção de ninar, e eu com o indicador e o polegar da mão direita seguro sua aliança, fazendo-a rolar dum lado para outro no dedo dela, como quem dá corda a um relógio. Fazia isso todas as noites para conseguir encontrar a porta do sono. Imagino que nesse tempo eu não teria mais de dois anos de idade.

ML – Qual a palavra mais bonita da língua portuguesa?
Erico
– li (…) um livro sobre Portugal, impresso em papel esponjoso e grosso, com muitas ilustrações em cor, uma das quais mostrava uma árvore com flores vermelhas, tendo por baixo a legenda: olaias em flor. A palavra “olaia” me agradou tanto aos olhos como ao ouvido. Quarenta anos mais tarde, visitando Portugal pela primeira vez numa fria mas luminosa primavera, procurei as olaias como quem procura amigos de infância há muito perdidos.

ML – Que filme você sempre quer rever?
Erico
Os Últimos dias de Pompéia, que vimos com considerável atraso em Cruz Alta, causou-me profunda impressão.

ML – Que livro você mais cita?
Erico
– Eu lia e traduzia Rabindranath Tagore.  Vejo agora aqui a meu lado, tirada do fundo duma gaveta quase esquecida, uma tradução que fiz de passagens do livro Pássaros Extraviados

ML – Que música não sai da sua cabeça?
Erico –
… uma frase musical duma esquisita e inesperada beleza, que me enfeitiçou: a viola desenhava a linha melódica dum andante, cuja melodia me ficou gravada na memória. Que era tocada por um quarteto de cordas, não havia a menor dúvida. também eu estava certo de que não ouvia a voz de Mozart nem a de Beethoven. Brahms, quem sabe?Não. A música me falava francês e não alemão, italiano ou qualquer outra língua. A frase do quarteto me perseguiu obsessivamente durante todo aquele fim de 1930. Parecia descrever musicalmente o meu estado de espírito naquela época de minha vida: doce e preguiçosa melancolia e ao mesmo tempo um hesitante desejo de fuga ou, melhor, de ascensão… Só quatorze anos mais tarde, quando já liberto da ópera — para ser preciso em 1944, em San Francisco da Califórnia — é que vim a saber que a frase mágica era o Andantino Doucement Expressif do Quarteto de Cordas em Sol Menor, de Claude Debussy.

ML – Um hábito de que não abre mão.
Erico –
Nossa casa está sempre de portas abertas. Nunca se sabe quem por elas vai entrar nem quando. Mafalda e eu podemos estar à noite completamente a sós, lendo ou escutando música, e minutos depois termos conosco dez, quinze, vinte pessoas — amigos e às vezes até desconhecidos, que aparecem para uma prosa, sem nenhum motivo relacionado com o calendário ou qualquer convite especial.

ML – Um hábito de que você quer se livrar
Erico –
….eu diria que é uma curiosa combinação de preguiça – física e mental – e timidez. Tenho passado a vida a combater ambas, muitas vezes com o mais positivo sucesso.

ML – Um elogio inesquecível.
Erico
– Alegra-nos [a ele e a sua mulher,Mafalda] saber que as pessoas geralmente sentem-se bem em nossa casa.

ML – Em que situação você perde a elegância?
Erico – …é muito desagradável, além de absurdo, quando um escritor passa a ser tratado mais como um assunto, uma notícia, do que como um ser humano. Reajo com a maior veemência, procurando manter o meu copyright individual e evitando cair em domínio público.

ML – Em que outra profissão consegue se imaginar?
Erico
– …o pintor e o poeta frustrados que coexistem em mim com o romancista.

ML – Eu sou…
Erico
– Palavra de honra, não sei e acho que tenho medo de saber.

Erico e o cometa

14 de fevereiro de 2012 1

Ô Halley, cadê você? Comprei luneta só pra te ver.

Poucos minutos depois das três da madrugada, a cauda do cometa apontou no céu, nas bandas de leste, por trás das coxilhas da Sibéria. Começou, então, o alvoroço na cidade. “Olha o bruto!”, exclamavam. Homens e mulheres, alguns em camisolas de dormir, apareciam às janelas. Houve correrias nas ruas, exclamações de triunfo e de pavor. Alguns fiéis bateram à porta da igreja e o pe. Kolb, que ainda não pregara o olho, mandou o sacristão abrir o templo, que dentro em pouco ficou cheio de mulheres ajoelhadas, a rezar.
Lucas e Rubim entraram no Sobrado, encontrando Rodrigo e os amigos completamente alheios ao grande acontecimento.
Dirigiram-se todos para a cozinha, de cuja janela ficaram a contemplar a cauda do cometa, que subia no céu como o feixe luminoso dum gigantesco holofote.
—Mas onde está o núcleo?
Ninguém respondeu.
— Vênus ainda não apareceu… — estranhou Rubim.
— Parece até que se a gente subir a coxilha da Sibéria pode agarrar o rabo do bruto.
— Olhem lá! — exclamou Saturnino. — Estrelas cadentes.
— Bólides — corrigiu o tenente de artilharia. Eram riscos luminosos que cortavam o céu por baixo da cauda do cometa.

Relendo na íntegra O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, para um projeto a respeito do qual vocês ficarão sabendo em breve, esbarro na passagem acima, situada em O Retrato: Parte II. Na cena, passada em 1910, a figura central das duas últimas partes da saga, Rodrigo Terra Cambará, filho de Licurgo e bisneto do Capitão de mesmo nome, abre o Sobrado a alguns amigos para uma noitada com comes e bebes para comemorar seu noivado, realizado naquele dia, e acaba testemunhando a passagem do Cometa de Halley, que vinha sendo citado desde o início da primeira parte de O Retrato, devido ao medo popular de que o astro pudesse representar o fim do mundo.

Esse trecho me faz tropeçar, ao mesmo tempo, em memórias relacionadas à primeira vez que li essa passagem – não vou me lembrar do momento exato, mas quando estava com 14 para 15 anos, em 1988 ou 1989, portanto – depois de pegar o livro na biblioteca pública de São Gabriel, na praça central da cidade, em um casarão antigo que era ele próprio um imóvel ancestral ao estilo daquele sobrado descrito pelo Erico. Minha maior motivação havia sido, claro, a minissérie que passara algum tempo antes na Globo. Havia pirado completamente pela pegada épica de O Continente, mas estava remando havia umas semanas com O Retrato e não conseguia avançar como gostaria – anos mais tarde, li em uma entrevista o próprio Erico admitir que muitos leitores do primeiro livro haviam se decepcionado pelo foco mais lento e intimista do segundo. Na época, leitor adolescente, eu havia sido um deles.

Essa passagem do Halley em particular foi a que me pareceu  mais ficcional do que qualquer outra coisa no livro. E isso porque algum tempo antes daquela leitura, o Halley havia sido um dos assuntos onipresentes na então chamada “mídia” – televisão, jornais e revistas, basicamente, num mundo sem internet, sem smartphones, com o rádio transistor e o videocassete ainda como as grandes inovações tecnológicas. Redes sociais, então, só mesmo as que os pescadores dividiam em parceria…

Eu tinha 12 anos em 1986, quando estava prevista mais uma passagem do Halley pela Terra, e uma enxurrada de produtos espertamente capitalizados para faturar em cima da chegada do cometa, desta vez sem a ameaça de fim do mundo. Misturando a passagem do cometa com uma mensagem riponga ao estilo “Era de Aquarius”, foram criados personagens de quadrinhos, uma família alienígena que acompanhava o cometa em sua jornada pelo Cosmos e chegavam à terra para espalhar uma mensagem de paz com o advento da “Era de Halley” (tudo isso não é delírio, estou falando sério).  Vendia-se lunetas, lancheiras, cadernos e uma revista em quadrinhos que durou seis números (e que, apesar do apelo mercantilista picareta que estava na origem do projeto, eram boas e bastante honestas histórias de ficção científica produzidas inteiramente no Brasil). Reportagens e especiais sobre o Halley lembravam sempre o pânico de fim de mundo que tomou conta das ruas com aquela luz tão intensa no céu no início do século 20.

Em suma: havia uma expectativa palpável de que o Halley, em sua nova passagem, oferecesse um espetáculo pirotécnico memorável nos céus do Brasil – o que não aconteceu. O Halley era um fiapinho de algodão no espaço, nem de perto tão magnífico quanto se esperava, de modo algum fácil de ver a olho nu, muito menos com aquelas lunetas amadoras que muita gente comprou crente de que ia ver o cometa como se estivesse à sua frente, como se pudesse estender a mão e tocá-lo, como na história do Erico. Muitos comentaram que a intensidade da luz das grandes cidades provavelmente havia dificultado a visualização, mas o fato é que eu morava em um loteamento habitacional afastado dois quilômetros do centro de uma cidade só um pouco acima do minúscula e naquele céu límpido de interior, com estrelas por toda parte, também não se via nada. O cometa pareceu uma grande enganação

Ao ler a cena do romance, portanto, dois anos depois, a única coisa que na época pude pensar foi “ah, tá, não me enrola”.

Dizem que na próxima passagem o cometa de fato estaria perto o bastante para ser visto como em 1910. Quem estiver vivo em 2061 que compare o que vir com o trecho do livro e diga se a imaginação de Erico fez jus ao cometa.

A Bibiana do Erico Verissimo - e a do filme...

20 de janeiro de 2012 11

No começo do capítulo Um Certo Capitão Rodrigo, de O Continente, primeira parte da saga O Tempo e o Vento, Erico Verissimo assim descreve a jovem Bibiana Terra (que, naquela altura, o leitor já conhecia como a avó-matriarca da família Terra Cambará sitiada no sobrado na praça central de Santa Fé durante a Revolução Federalista, em 1895):

Bibiana tinha um rosto redondo, olhos oblíquos e uma boca carnuda em que o lábio inferior era mais espesso que o superior. Havia em seus olhos, bem como na voz, qualquer coisa de noturno e aveludado. Os forasteiros que chegavam a Santa Fé e deitavam os olhos nela, ao saberem-na ainda solteira, exclamavam: “Mas que é que a rapaziada desta terra está fazendo?” E então ouviam histórias… Bento Amaral, filho do coronel Ricardo Amaral Neto, senhor dos melhores e mais vastos campos dos arredores do povoado, andava apaixonado pela menina, tinha-se declarado mais de uma vez, mas a moça não queria saber dele.
– O herdeiro do velho Amaral? – estranhavam os forasteiros.
– Sim senhor.
– Mas o moço é aleijado?
– Qual nada! É até um rapagão mui guapo.
Ninguém conseguia compreender. As outras moças invejavam Bibiana Terra e não entendiam como era que ela, não sendo rica, rejeitava o melhor partido de Santa Fé, aquele moço bonitão a quem elas de muito bom grado diriam sim no momento em que ele se declarasse.
Mas quem ficava mais perplexo que qualquer outra pessoa era o próprio Pedro Terra, que não atinava com uma explicação para a atitude da filha. Ele não morria de amores pelos Amarais. Tinha até queixas do velho Ricardo, que lhe tirara as terras e se recusara a ajudá-lo quando o trigo fora águas abaixo. Além disso, achava os Amarais prepotentes, vaidosos, gananciosos, e também sabia que Ricardo não fazia muito gosto no casamento do filho com Bibiana, pois queria que o rapaz casasse com alguma moça rica de Rio Grande ou Porto Alegre. Por todas essas coisas Pedro Terra não insistia com a filha para que aceitasse Bento Amaral. Mas mesmo assim não compreendia e ficava vagamente inquieto à idéia de morrer sem ver a filha casada com um homem de bem.
Fosse como fosse, os Amarais eram por assim dizer os donos de Santa Fé. E Bento visitava os Terras com alguma freqüência, tratava-os bem, dava presentes a Juvenal, a Arminda e principalmente a Bibiana, que os recebia sem nenhuma alegria, mal murmurando uma palavra de agradecimento, quase sempre sem olhar para o pretendente.
Pedro Terra às vezes inquietava-se pensando no gênio da filha. Era voluntariosa, duma teimosia nunca vista, e dum orgulho tão grande que era capaz de morrer de fome e de sede só para não pedir favores aos outros. No entanto, quem olhasse para ela julgaria, pelo seu suave aspecto exterior, estar diante da criatura mais meiga e submissa do mundo.

Não tive como não ir atrás dessa descrição para compará-la com a foto abaixo (de um ensaio para a revista Trip), já que foi recentemente anunciado que essa Bibiana, a Bibiana jovem que conhece o Capitão Rodrigo e se casa com ele, será vivida pela atriz e cantora Marjorie Estiano no longa que o diretor Jayme Monjardim prepara adaptando a saga – sim, parece que é a saga toda, mas não tenho informações mais detalhadas. Consultem a página oficial da produção.

"Bibiana, minha prenda, estás aquecendo água pro mate?" Foto: Trip/divulgação

A Bibiana matriarca do sobrado será vivida por Fernanda Montenegro. O interessante é que o Capitão Rodrigo nesta versão será Thiago Lacerda. E, embora a figura de Tarcísio Meira tenha se cristalizado como capitão devido ao sucesso da minissérie que anda até reprisando por aí, de acordo com o que me informaram, é possível que o capitão do Erico tivesse mais a ver com o Lacerda mesmo (a não ser a altura. Rodrigo é descrito como um homem de estatura média). O Capitão, na descrição do Erico no romance, era assim:

Um dia chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu de barbicacho puxado para a nuca, a bela cabeça de macho altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo meio da casa dos trinta, montava um alazão, trazia bombachas claras, botas com chilenas de prata e o busto musculoso apertado num dólmã militar azul, com gola vermelha e botões de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de 1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava no ar como uma bandeira

Prosseguindo na leitura, vemos Rodrigo entrar na birosca do Nicolau e quase arranjar briga com o irmão de Bibiana, Juvenal Terra devido a uma bravata que tinha a intenção de ser engraçada. Apaziguados os ânimos, ambos sentam-se a uma mesa para um trago. Rodrigo pede uma linguiça, que na época ainda devia ter trema, acredito. E é pelos olhos de Pedro Terra a partir daí que vemos mais um pouco da figura de Rodrigo:

Só o jeito de olhar é que não era lá muito agradável: havia naqueles olhos muito atrevimento, muita prosápia e assim um ar de superioridade. Depois, Juvenal sempre desconfiara de homem de olho azul… No entanto, podia jurar que nunca vira cara de macho mais insinuante. Os cabelos do capitão eram meio ondulados e dum castanho escuro com uns lampejos assim como de fundo de tacho ao sol. O nariz era reto e fino, os beiços dum vermelho úmido, meio indecente, e o queixo voluntarioso.

Vejamos como isso se traduzirá no filme, então.

__________________

PS:

– Vem cá, essa notícia de que a Marjorie Estiano vai ser a Bibiana não é da semana passada?

– É, é sim.

– Então pra que tocar neste assunto aqui no blog agora?

– Porque era uma boa oportunidade de colocar uma foto insinuante de uma garota bonita. Não é sempre que se consegue isso, mas todas as vezes que conseguimos, a audiência subiu à estratosfera. Por que não, então?

Duas Noites

05 de fevereiro de 2010 2

“Passamos aquele verão em Torres, onde fiz vãs tentativas para começar a escrever o último volume da trilogia, O Arquipélago.
Foi durante esse veraneio que produzi o livro mais controvertido de minha carreira de contador de histórias.
Quando afirmo que
Noite não passou dum exercício literário, sem razões profundas em problemas pessoais – espécie de divertimento, de morceau de bravoire – alguns de meus amigos sacodem a cabeça, negando-se a aceitar a ideia. Insisto em que não escrevi essa novela para exorcizar nem mesmo cutucar fantasmas que porventura assombrassem a casa de meu ser. (Num agudíssimo ensaio sobre minha obra, o crítico Moysés Vellinho por assim dizer me “desmascara”, afirmando, principalmente a propósito de Noite, que nesse livro se pode surpreender o outro lado, o lado clandestino de minha alma…)
A verdade é que alguns leitores ficaram chocados e até indignados quando leram essa estória sombria, que passou a ser uma espécie de ovelha negra no meu rebanho literário. Escrevi-a em menos de dois meses, à beira-mar, em dias geralmente luminosos que eram a negação do espírito da novela.
A ação de
Noite se passa numa única noite, e sua personagem central é um homem que o autor apanha no momento exato em que ele perde a memória e se sente um estranho numa cidade para ele – e também para o leitor (e o novelista) – completamente desconhecida. No decorrer dessa noite o desmemoriado encontra duas estranhas figuras que se apoderam dele e o carregam para os lugares mais sórdidos da cidade e da madrugada. Como os vesperitnos noticiaram que uma mulher fora assassinada a facadas ao anoitecer daquele dia, e que seu marido, sobre o qual recaem as suspeitas, se encontra desaparecido, os dois demônios (eu escrevi demônios?) convencem o Desconhecido de que ele é o assassino. O pobre homem, confuso aceita prontamente a culpa e daí por diante fica completamente à mercê das duas sinistras aves noturnas. E o trio continua sua caminhada rumo dos confins da noite…”

No fim do ano passado, a Companhia das Letras colocou nas bancas, no seu processo de reedição integral da obra de Erico Verissimo, a novela Noite – uma gema de estranhamento, um livro cuja singularidade o torna um objeto único e sem similares na vasta obra de Erico. Como vocês puderam ler no trecho acima, retirado do primeiro volume das memórias de Erico em Solo de Clarineta, o próprio autor compartilhava desse juízo sobre sua novela “publicada – e pouco lida – no Brasil em 1954″, nas palavras de Erico. Noite ainda é, contudo, uma obra intrigante e até certo sentido antecipatória da dissolução da identidade do homem contemporâneo. Aproveitando o gancho da reedição de Noite, republico aqui, além da análise do próprio Erico sobre a obra, que vocês leram acima, um texto do escritor Tailor Diniz sobre a novela, escrito em 2005 para a série Erico e os Escritores, que celebrava o centenário de nascimento do autor de O Tempo e o Vento. O Texto está sendo republicado, é lógico, com a gentil concordância de Diniz:

O reverso da identidade
Tailor Diniz

Um bom livro é também aquele que a realidade se encarrega de atualizar, independentemente de tempo ou espaço. Quem, recentemente, não ouviu ou leu algo sobre o pianista, aquele sujeito sem memória que apareceu numa praia da Inglaterra, de terno e gravata, caminhando ao léu, sem saber de onde veio nem para onde vai? Se invertêssemos os tempos, poderia se dizer que Erico Verissimo se inspirou nessa história real para escrever Noite, novela que se passa em poucas horas, na qual um homem vaga pela cidade, debatendo-se para recuperar a memória, em meio a um ambiente hostil e num cenário que, embora estranho, pode estar, a cada esquina, ocultando a chave de sua identidade.

Noite não é um livro sobre a falta de identidade, como se poderia supor, por ter como protagonista um homem sem memória, cercado de criaturas sem nomes circulando pelas ruas sem nome de uma cidade também sem nome. Erico trata do assunto identidade por um outro viés, oposto ao visto em Um Certo Capitão Rodrigo, por exemplo. Ali, logo na primeira frase (“Toda a gente tinha achado estranha a maneira como o cap. Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé.“), já se antecipa o contraste que vai marcar o conflito futuro, entre a personalidade do capitão e a moral intrínseca ao espaço onde passará a viver.

Se em Santa fé a tradição dos sobrenomes Terra, Amaral e Cambará dispensaria maiores explicações sobre o perfil de sua gente, em Noite ocorre o contrário, é a ausência de nomes próprios que põe em relevo a engrenagem formadora do ambiente e suas circunstâncias. Se em Um Certo Capitão Rodrigo o capitão não dá por finalizada uma briga sem antes gravar com ponta de faca a inicial de seu nome no inimigo, com o personagem de Noite a questão identidade tem caminho inverso. Ao invés de marcar, ele se empenha numa renhida luta consigo mesmo em busca de algo que lhe restitua a marca. E é por meio de um olhar perplexo diante de tipos característicos do submundo (cafetões, gigolôs, prostitutas, políticos e demais figuras que, durante o dia, longe dos tentáculos da noite, são alcunhadas de ilustres) que o autor vai lhe sugerindo, aos poucos, um passado atormentado.

Com algumas passagens bem-humoradas e outras próximas do sarcasmo, os personagens de Noite são criaturas marcantes. Como esquecer das lágrimas derramadas por uma viúva quando o Mestre, sentado sobre a cama do casal e diante de outros parentes, faz uma apologia à memória de um morto sem mesmo saber quem ele é? Está aí uma das chaves de Noite: não há necessidade de se conhecer a identidade de um cadáver para lhe ser atribuído um passado de glórias e virtudes.