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Posts na categoria "Esporte"

Como se faz um campeão

27 de dezembro de 2010 0

Se fosse para julgar o homem, este texto poderia ser mais longo e recheado de reflexões. Mas essa parte fica para o leitor – e mesmo a crítica americana tem se dividido ao falar do livro e da vida de Andre Agassi, um dos maiores tenistas da história contemporânea, vencedor dos quatro Grand Slams (Aberto da Austrália, dos Estados Unidos, da França Roland Garros – e Wimbledon), que ele conquistou oito vezes.

Agassi é criticado por atitudes que tomou na vida, as quais expõe no livro com uma boa dose de drama (como se a sua vida não tivesse sido dramática o suficiente): usou metanfetamina – quando sua carreira teve a pior fase, em 1997 —,  acusa grandes adversários como Pete Sampras (14 conquistas em Grand Slams) de “não terem e não precisarem de inspiração”, revela sua irritação com a imprensa especializada em esportes e deixa claro o quanto o casamento com Brooke Shields foi um erro desde o início — um erro o qual Agassi quase assume como dele, e que foi piorado pelo fato de a atriz não ter interesse pela carreira de tenista do marido. Agassi (Globo, 504 páginas R$ 59,90, tradução de Sílvia Mourão, Helena Londres e Rosemarie Ziegelmaier) traz revelações surpreendentes para quem é tenista ou fã de tênis – além do uso de drogas: o campeão passou a usar peruca (com a qual ia para a quadra, inclusive) quando a calvície se acentuou, resolveu não usar mais cuecas em jogos depois de uma grande vitória, entregava partidas nas quais não tinha interesse e, incrivelmente (mas não para quem passa pelas primeiras páginas do livro), odiava tênis. Odeia. Sempre odiou.

O Agassi maduro pós-casamento com Steffi Graf (22 títulos em Grand Slams) lamenta ter parado de estudar aos 14 anos, devido a uma natural rebeldia da idade e a outra nem tão natural, que vinha de uma infância na qual todos os caminhos foram resumidos ao tênis por um pai violentamente obcecado pelo esporte. Um pai que amarrou ao braço do Agassi bebê uma raquete de pingue-pongue para que ele atingisse um móbile de bolinhas e que fez o filho de sete anos rebater 2.500 bolas a 170km/h. Todos os dias. Parar de estudar seria naturalmente um caminho a mais que se abriria aos incansáveis treinos para atingir o topo do ranking entre todos os tenistas do planeta. Aos 36 anos, no Aberto dos Estados Unidos, quando entrou em quadra para o último campeonato de sua vida profissional, Agassi era um atleta veterano entre adolescentes, investido de um corpo de um homem de 90 anos, como ele mesmo descreve, tentando passar ao leitor as dores inimagináveis de uma vértebra deslocada, injeções de cortisona rente aos nervos e pernas que sequer o auxiliam a levantar do chão, onde ele prefere dormir, todas as manhãs. Um Agassi ao qual o pai implorava que parasse de jogar tênis.

Um dia, após assistir a um documentário do 60 Minutes, Agassi percebeu que, para ele, só era possível ter real satisfação na vida (além dos momentos em família com seus dois filhos e a esposa e alma gêmea no tênis, Steffi) ajudando os outros. Em 2006, construiu a Agassi Foundation em uma zona da periferia de Las Vegas, apoiado por milhões de dólares arrecadados junto à iniciativa privada (http://www.agassifoundation.org/). A “academia de Agassi” prepara as crianças desde o maternal para a faculdade e conta inclusive com simuladores de vôo e aulas de música erudita. Nas palavras dele, “o objetivo é fortalecer os jovens”. Talvez quem se saia tão fortalecido quanto as crianças seja ele mesmo, detentor de uma infância em que as escolhas foram retiradas do currículo de vida.

Para quem pergunta se esse livro envolvente da primeira à última página foi obra do próprio tenista que largou os estudos aos 14 anos a resposta é dada no fim: Agassi teve a companhia de J. R. Moehringer, amigo, vencedor de um Prêmio Pullitzer e autor do best seller Sede de Viver, que teria declinado do pedido do tenista de assinar o livro. “As memórias são dele, não nossas”, disse Moehringer ao New York Times. De qualquer forma, a leitura é surpreendentemente fascinante para a biografia de um atleta e merece ser degustada mesmo por aqueles que só assistiam tênis quando Guga era o número 1 do mundo.

Texto de Milena Fischer

Pelé 70

23 de outubro de 2010 0

Pelé em 1966, aos 26 anos – quando já era o Rei. – Reprodução

Na recente overdose de lançamentos sobre futebol desencadeados pela passagem da Copa do Mundo, pelo menos um livro se perfila como obra de craque, um lance que realmente vale o ingresso: Pelé – Minha Vida em Imagens. Trata-se da autobiografia do maior de todos os tempos. Está fartamente ilustrada com fotos inéditas ou raras e itens de colecionador — reproduções de documentos como a primeira carteirinha de jogador (a da Liga Bauruense de Esportes) e um memorando de Henry Kissinger ao então presidente americano Richard Nixon, por conta de uma visita do Rei à Casa Branca, em 1973, flâmulas, selos e o bilhete de entrada do derradeiro jogo (um amistoso entre Cosmos e Santos).

O livro é a versão brasileira de uma obra britânica de 2008, editada aqui com o esmero gráfico habitual da Cosac Naify (100 páginas, R$ 140). Talvez por ser uma tradução — a cargo de Bernardo Ajzenberg —, a prosa de Pelé carece de autenticidade em algumas passagens. Não se imagina o Atleta do Século usando palavras como “subjacente” ou empregando o pretérito mais-que-perfeito. Outros podem reclamar que falta distanciamento crítico, mas quem quer distanciamento crítico quando se pode se sentir tão próximo do ídolo ?

Dividido em seis capítulos, o volume abrange a infância de Edson Arantes do Nascimento (que completa 70 anos hoje), sua ascensão e glória, a polêmica do Gol Mil e os inúmeros adiamentos da hora de pendurar as chuteiras. Cada capítulo tem uma epígrafe digna de nota. Por exemplo, a do zagueiro italiano Burgnich na final da Copa de 1970: “Eu disse a mim mesmo: ele é de carne e osso, como eu. E estava errado“. Ou a de Andy Warhol: “Pelé é um dos poucos que contradizem minha teoria: em vez de 15 minutos, ele terá 15 séculos de fama”.

O capítulo sobre a meninice já vale o investimento. Com um lirismo insuspeito, Pelé recorda seus primeiros chutes em uma bola de meia com papel amassado ou panos rasgados, amarrada com barbante, e define-se como um legítimo nativo de Três Corações — referência aos lugares onde nasceu (a homônima cidade mineira), cresceu (Bauru, SP) e jogou futebol (Santos). Conta a origem de seu apelido e como custou a cultivá-lo – chegou a dar um soco em um colega de aula que o chamara de Pelé. A propósito da alcunha imortal, ele lembra que, antes, também era conhecido como Gasolina (“Pergunto-me o que teria acontecido se esse apelido tivesse pegado...”).

Bastante sincero, Pelé rememora problemas com dinheiro e com mulheres (cita o namoro com Xuxa, quando ela contava 16 anos, como um dos “menos felizes”, mas não entra em detalhes). Relata seu júbilo por conhecer Michael Jackson e Nelson Mandela. Revela o principal ensinamento do técnico Waldemar de Brito (“Tão importante quanto controlar e conduzir a bola é saber recebê-la“). E, como um rei, reconhece: “Tive tudo que um homem pode desejar“.

Testemunha das hordas

11 de março de 2010 2

Torcedor desesperado durante a final da copa europeia de 1985, entre Juventus e Liverpool,
em Heysel, na Bélgica, episódio narrado em Entre os Vândalos, de Bill Buford

Este post não deixa de ser uma curiosa junção de retalhos desimportantes da biografia deste que vos escreve, e não que vocês tenham realmente interesse nisso, mas se quiserem continuar lendo, tudo bem, senão, pulem direto ali para o título em letra maior e de cor marrom logo abaixo da imagem de capa do livro e podem continuar direto do ponto em que começa o texto de Luiz Zini Pires sobre a reportagem Entre os Vândalos, escrita pelo americano Bill Buford, uma radiografia ímpar do fenômeno do hooliganismo na Inglaterra dos anos 1980. O livro foi publicado em 1992 no Brasil, pela Companhia das Letras. Fui tomar conhecimento dele em 1994, quando ainda não era jornalista de ZH – para falar a verdade, não era sequer jornalista, estava na metade da faculdade, vivendo um ano de intensas descobertas em vários campos da vida e da profissão, mas isso não vem ao caso. Só fui comprar o livro anos mais tarde, e sua leitura provocou um impacto que  permaneceu comigo até hoje, pelo exemplo de peça jornalística que Entre os Vândalos é (jornalistas, vocês sabem, se consideram intelectuais porque leem livros-reportagem ou obras sobre o próprio jornalismo).

Buford, é melhor deixar claro, não é o baterista do Yes, aquele é o Bill Brufford (faço essa observação porque na época em que comprei o livro e o estava lendo, fui interpelado com a pergunta de se aquele era o “cara do Yes” por quatro dos meus amigos, mas vai ver o problema é com os meus amigos, não com vocês). Ele na época vivia em Londres há mais de uma década, embora fosse americano de nascimento. Para escrever o livro, passou a ir regularmente aos estádios ingleses com grupos de torcedores hooligans (destaque para a turma do Manchester United) e relatar o que viu. Buford é também autor de Calor, livro que foi publicado aqui no Brasil pela mesma Companhia e que alterna sua experiência como aprendiz de cozinha no Babbo, um restaurante chique de Nova York, e o perfil do dono desse restaurante, Mario Batali, destaque da gastronomia nova-iorquina. Buford, como se vê, é um jornalista adepto da imersão e da vivência do tema que está pesquisando (nem sempre com os melhores resultados, claro; em Calor ele narra humilhações, ferimentos, queimaduras e a exaustão física resultante do trabalho pesado em uma cozinha de alta gastronomia; em Entre os Vândalos conta como, viajando com os torcedores do Manchester a Turim, acabou levando uma linda sova no lombo quando a polícia encurralou os hooligans ingleses após o jogo e desceu o cacete).

Mas voltando à junção de fios passados: o que me fez saber do livro em 1994 – e que me levaria a comprá-lo mais tarde, lá por 2000, acho – foi um texto publicado em 6 de novembro de 1994 na Zero Hora (Um domingo, eu não sabia o dia exato, mas me lembrava de que havia sido um domingo. Na época eu era estagiário ganhando supermal na assessoria de imprensa da Febem e ia filar rango na casa da tia da minha então namorada, mais tarde esposa e mais tarde nada, e era na casa dessa tia que eu lia jornais). Esses dias, ao passar por uma livraria, vi que a Companhia está relançando Entre os Vândalos em formato bolso (não deixa de ser interessante notar que naquele primeiro ano do Real a edição em tamanho normal custava R$ 15,50. Hoje, a de bolso custa R$ 24). Aproveitando a oportunidade (o “gancho” como diríamos), fui ao banco de dados de Zero Hora para desencavar aquele primeiro artigo lá de 1994 que me despertou o interesse pelo livro – ele é assinado, e isso eu não me lembrava, pelo jornalista Luiz Zini Pires, titular da coluna Bola Dividida de ZH e do blog de mesmo nome (daquele tempo pra cá o ZIni já editou Mundo, Caderno Donna, a página 3, o Caderno Cultura e agora está de volta aos esportes). Consultei o Zini e ele me permitiu republicar aqui seu texto de 15 anos atrás. Aproveitem:

Uma viagem com os hooligans
Luiz Zini Pires

Uma inevitável pergunta persegue o norte-americano Bill Buford, 40 anos, jornalista e escritor, a cada entrevista: “você ainda frequenta estádios de futebol?” Buford sempre responde seca e rapidamente, sem qualquer cacoete visível, com um preciso e definitivo “não”. É natural. Para escrever o excelente Entre os Vândalos: a Multidão e a Sedução da Violência, da Companhia das Letras, Buford passou 10 anos, quase toda a década de 80, vivendo, bebendo e viajando com a mais alucinada e temida elite do “hooliganismo” inglês. Foi tempo suficiente. O resultado desta experiência é espantoso. Tem sabor de goleada para o leitor, de título inédito para o escritor, de derrota para os desordeiros.

O livro não tem a chatice de alguns tratados sociológicos, nem o mofo de certos escritos acadêmicos, nem mesmo o superficialismo de determinados artigos. Bufford recheou seu livro com histórias reais dos vândalos e de suas gangues. garantiu a descrição da violência não somente por parte de suas vítimas. Mas também por quem inventa essa violência. A leitura flui então como num romance. Só que os personagens não são fictícios. Os parentes das vítimas ainda buscam consolo para explicar mortes de gente tão jovem, tão cheia de vida.

INIMIGOS: Os vândalos, os temíveis e terríveis hooligans são um legítimo produto made in England, tipo exportação. Quando saem da Inglaterra então arrastam junto um nacionalismo barato e doentio. Vivem dopados de raiva, lotados de repulsa, tomados de fúria. Hoje são tratados como inimigos dentro e fora de casa. São a escória dos torcedores ingleses, uma vergonha para a mais fiel, mais barulhenta e mais festiva torcida do mundo.

Antes, durante e depois de atacarem as pessoas, preferencialmente negros, indianos e árabes, os hooligans depredam trens, quebram carros, arrasam bares e dão aos centros urbanos uma maquiagem típica de Bagdá depois das bombas. Não satisfeito em ser um espectador privilegiado da ação dos vândalos nem de ouvir as suas mais estranhas e terríveis histórias, o norte-americano Bill Buford foi viver com eles, ser um deles, mas não agiu como eles.

Não usou cassetete, nem correntes ou facas Stanley, o bem-equipado uniforme dos desordeiros bons de briga. Mas bebeu cerveja e vodka com os torcedores do Manchester United. Agitou com os skinheads do Chelsea e percorreu o sul do Tâmisa, o rio que banha Londres, com os ensandecidos fãs do Milwall, sequiosos por um combate contra as hordas do Tottenham Hotspur. Seguiu o rastro da torcida do Arsenal após uma derrota em Highbury, seu estádio.

GENERAIS: Buford fez ainda o perfil dos generais em comando da turba. Descobriu alguns ladrões em potencial. Contou os confrontos com a polícia. Deu nomes e datas. Somou feridos e mortos. Desmascarou um dos braços ingleses do National Front, o partido nazista do Reino Unido. Mostrou ainda como as gangues se movimentam antes dos jogos e ficou no meio da explosão, mas sempre estratigicamente distante dos terríveis retalhadores do Manchester United que, amparados em pequenas facas Stanley, fazem a linha de frente do Cockney Reds, uma das torcidas organizadas do time.

Bill Buford foi descobrir a maioria dos seus vândalos na decadente classe trabalhadora do Reino Unido. Viu e apontou uma geração entediada, desiludida, desempregada, oca e sem perspectivas. Uma geração que bebe e se droga mais do que o normal. Gente de excessos que ainda não tem 30 anos e que usa e abusa da violência para disparar uma energia má armazenada em corações de pedra. Sem nenhuma preocupação em medir a textura do seu alvo. Pedra, lata ou carne. Às vezes esta diferença simplesmente não existe. Tanto faz.

Tri legal

21 de junho de 2006 0

O homem que sabia ver o jogo/DivulgaçãoComo hoje comemoram-se 36 anos da conquista do Tri no México, deixo aqui também esta sugestão interessante: Vida Que Segue: João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970 um volume organizado pelo pequisador Raul Milliet Filho reunindo as principais crônicas publicadas pelo famoso “João Sem Medo” durante as copas da Inglaterra e do México – esta última aquela em que o Brasil garantiu o tri.

Polêmico, de personalidade forte e com um temperamento que não aceitava ingerência externa, João Saldanha foi quem iniciou o trabalho de preparação para a Copa, comprando briga já nas primeiras convocações, das quais deixou Pelé de fora com a desculpa de que o rei estava ficando cego. Num episódio até hoje mal explicado, Saldanha foi demitido às vésperas do Mundial e substituído por Zagalo – na época ele usava um L só –, que voltou “de Mejico” com a taça. O livro também traz a versão do próprio Saldanha sobre os motivos de sua saída – na época, muito especulou-se que a pressão da ditadura militar foi o estopim, já que Saldanha se recusava em convocar o favorito do general Médici, Dadá Maravilha

Ah, sim, outra coisa recomenda o livro: jornalista de ofício, João Saldanha escrevia muito bem.