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Posts na categoria "Fantasia"

Sonja, Sonya e o Abutre

05 de dezembro de 2012 0

Quem cresceu lendo quadrinhos nos anos 1980 no Brasil mais de uma vez deparou com a ruiva da imagem ao lado nas páginas da revista Heróis da TV – e mais tarde em histórias de A Espada Selvagem de Conan ou da revista Aventura e Ficção. Ela é Sonja (não sabíamos então que o nome deveria ser pronunciado “Sônia”, e dizíamos, os leitores, “SonJA”, declinando o “J” sem culpa), a guerreira, apresentada a nós, incautos ignorantes daquela época, como uma “personagem criada por Robert E. Howard”.

Howard, escritor americano nascido no Texas, tornou-se célebre como o criador de Conan, o Bárbaro, seu personagem mais conhecido, que já foi transplantado para cinema, TV e quadrinhos – quadrinhos que por vezes se inspiravam nos contos originais que o autor escreveu para revistas de fantasia e aventura dos anos 1930. Nos quadrinhos, Conan conhecia Sonja, guerreira hirkaniana, que jurou só “se entregar” (único eufemismo para sexo que se usava nos quadrinhos da época) ao homem que a vencesse em combate. Como ela era uma espadachim invencível mesmo com esse biquíni de placas metálicas altamente improvável para ser usado nos tempos antigos, ela continuava cumprindo seu juramento.

Só que no universo de Howard a coisa não era exatamente assim. Howard de fato criou uma Sonya (com Y), mas não necessariamente essa. A Sonja que se consolidou nos quadrinhos é mais resultado do trabalho do escritor americano Roy Thomas do que dos contos de Howard. Em 1973, Thomas era o roteirista regular da série de Conan para a Marvel. Buscando subsídios para os gibis em material original de Howard, fez uma devassa nos contos antigos, mesmo aqueles não protagonizados pelo bárbaro, e encontrou  A Sombra do Abutre – publicado na revista The Magic Carpet Magazine, em 1934, em que um dos personagens de destaque é uma ruiva de cabelos fulgurantes chamada Sonya Rubra (ou Ruiva, ou Vermelha) de Rogatino.

Diferentemente dos contos da Era Hiboriana protagonizados por Conan, nos quais Howard fazia uma salada de referências indiscriminadas para criar um mundo novo com elementos de diversas épocas e geografias, A Sombra do Abutre é um conto de aventura “histórica”, baseado em fatos e episódios até certo ponto verificáveis. Sonya, nesta narrativa, é uma guerreira russa do século XVI, hábil na espada, nas imprecações e no copo, que se junta a um guerreiro alemão e a outros aventureiros tentando furar um cerco imposto pelo imperador otomano Suleiman  a Viena. O cerco é um episódio histórico ocorrido em 1529, no qual Howard maneja personagens reais e fictícios. A Sonya descrita por ele é mais semelhante a uma rainha pirata do que propriamente a uma improvável guerreira seminua, como se pode ver na ilustração abaixo (de autoria de Michael Peters para um fanzine adaptando histórias de Howard):

Voltemos então a 1973: Roy Thomas pegou a trama básica de A Sombra do Abutre (que inclui ainda um assassino insidioso enviado para matar o protagonista, o guerreiro germânico Gottfried von Kalmbach), e reescreveu o bagulho transferindo-o do Século XVI para a era Hiboriana e usou a Sonya da história como modelo para a Sonja do gibi.  Também comparecem na personalidade e na história da Sonja dos quadrinhos elementos de outra guerreira criada por Howard, Agnes de Chastillon, também conhecida por Dark Agnes e Agnes de La Fere, também do século 16, mas francesa. O primeiro visual da Sonja dos quadrinhos, na história que manteve o nome A Sombra do Abutre, publicada em Conan The Barbarian nº 23, foi desenhado por Barry Windsor-Smith (mas na história original Sonja se vestia de modo mais apropriado para uma guerreira: cota de malha e calças de seda vermelha). A Sonja que se tornou célebre pelo seu impossível biquíni de metal foi criada pelo espanhol Estéban Maroto, e foi assim que a ruiva voltou à cena e mais tarde ganhou revista solo.

Como se vê, há a heroína dos quadrinhos, largamente conhecida, mas que só muito vagamente saiu das páginas do escritor, e há a guerreira do conto de Howard. É essa que pode ser conhecida agora na edição de A Sombra do Abutre publicada há algumas semanas pela editora Arte & Letra, de Curitiba, casa que vem publicando há algum tempo, também, uma revista de contos muito bacana chamada, justamente, Arte & Letra, cada edição identificada por letras em vez de números (leia aqui um texto sobre a edição “B”). A tradução é de Gabriel Oliva Brum (88 páginas, R$ 35), em uma série que inclui ainda O Cair da Noite, de Isaac Asimov. A Sombra do Abutre tem prefácio do escritor e editor Cesar Alcázar, um dos organizadores da Odisseia de Literatura Fantástica. É um bom exemplo do que é característico na prosa de Howard: uma imaginação vívida para a construção de cenários e circunstâncias, o encadeamento ágil de episódios vibrantes de pura aventura e diálogos rápidos que, por vezes, se excedem em sua função e são usados pelo autor como uma muleta para fazer a trama avançar ou apresentar informações que ele não conseguiu encaixar em blocos narrativos anteriores. Ainda assim, é uma das melhores histórias do autor.

Descongelando os subzeros - parte 2

06 de setembro de 2012 1

Uma coisa interessante que eu devia ter mencionado no primeiro bloco de resenhas: assim como a misteriosa ordem em que foram dispostos na coletâna os autores da Granta, também nesta Geração Subzero a forma como os contos foram organizados é idiossincrática. Eles não vêm em ordem de título, de nome ou de sobrenome de autor, por idades ou anos de nascimento. Sequer estabelecem eixos ou proximidades temáticas. O que isso importa? Felipe Pena, o autor da compilação, não esclarece que critério adotou para dispor os autores no livro, vai ver o critério é a ordem em que recebeu os contos. E isso não importa muito, também, apenas fico imaginando que tipo de classificação o autor pretendeu estabelecer naquele recorte quando claramente ele não parece ter seguido os parâmetros mais comuns de catalogação.

Como o post anterior ficou bastante longo, vamos tentar enxugar este um pouco mais, começando por cortar os preâmbulos. Vamos, diretamente, a mais cinco contos da coletânea Geração Subzero:

O Índio no Abismo sou Eu, de Luiz Bras
Sem enrolar: é o melhor texto da coletânea até aqui, casando com propriedade imaginação, limpidez da prosa, encadeamento narrativo. Escrito dentro de estritos padrões de gênero, o texto de Bras também consegue acenar com um olhar mais amplo sobre questões que vão além de sua narrativa e que têm algo a dizer sobre o mundo contemporâneo – na escola da boa ficção científica. Todos os demais contos até aqui apresentam algumas dessas características, mas não todas, e, principalmente, não todas em grau elevado: há, como frisamos, textos imaginativos com linguagem  descuidada, há um conto bem escrito que se perde ao contar uma história que circula como anedota, há pura fantasia desconectada de qualquer sentido do mundo e da realidade. O texto de Bras (que nasceu, civil e literariamente, como Nelson de Oliveira) é, a bem dizer, o primeiro deste livro que se sustenta sozinho dentro dos parâmetros estabelecidos pela própria coletânea.
A história é narrada pelo ponto de vista de um personagem que desperta. Concordo com o que o crítico Sérgio Rodrigues argumenta neste post sobre o perigo das histórias que começam com um “despertar”, mas neste caso o despertar é subvertido pela narrativa: o personagem não entende onde está e parece não ter uma percepção clara nem de si nem do que o cerca:
Sinto a eletricidade correr nos fios entrelaçados de minha consciência. Sem alvoroço. Antes não sentia, agora sinto. Antes eu não era nada, agora sou qualquer coisa que não sei bem o que é. Talvez eu seja só a própria eletricidade atravessando uns poucos neurônios. Talvez eu seja só uma folha que acaba de se desprender de um galho. Mas aqui não há galhos, árvores, paisagem. Aqui não há nada, apenas a serena eletricidade. Não há céu nem terra, direito e avesso. Nada. Somente eu. Se ao menos ventasse isso já seria reconfortante. E se estiver ventando? E se estiver ventando muito, sem que eu possa perceber? Sou uma folha e nada mais. Sem certezas nem equilíbrio. Uma folha elétrica.”
Não é um despertar corriqueiro: a personagem (é uma mulher) foi congelada por um longo período, quase nos estertores de uma longa doença terminal. Preservada, hibernou por duzentos anos até a medicina do futuro ter condições de tratá-la. É o que explica à paciente um médico que a atende em um cenário virtual no qual ambos se comunicam por telepatia – não sei se Bras já leu ou tinha em mente Lanark, de Alasdair Gray, mas as sequências dos diálogos entre o médico e a paciente no hospital me lembraram algumas cenas de Lanark, o personagem título, no Instituto no qual ele é tratado e mais tarde ajuda a tratar uma estranha doença. Voltando ao conto de Bras: por trás da maravilha daquela “ressurreição”, a personagem logo começa a perceber fissuras no mundo em que vive, expressas em uma dedução à qual chega após uma situação de crise se instalar no hospital: “O futuro jamais é para todos. O futuro é apenas para quem pode pagar.”
Mesmo os aparentes problemas da narrativa encontram solução em sua arquitetura interna. No início, para alguém que desconhece o mundo à sua volta, a personagem parece saber demais e usar termos e conceitos que não teria como compreender para uma consciência aparentemente surgida do nada, mas tudo se explica no momento em que se descobre que aquela mulher é alguém despertando de um sono longo, com os dados mantidos a salvo em seu cérebro emergindo desordenadamente. O final, elusivo como a boa ficção científica, mantém o tom melancólico e crítico ao tipo de  futuro que uma sociedade como a atual pode vir a engendrar.

A Filha do Diabo, de Luis Eduardo Matta
Para meu gosto de leitor, Matta é um dos primeiros desta seleção a encarar um desafio que eu talvez esperasse ver mais: o exercício de uma história de gênero transplantada para a realidade brasileira tentando dar conta tanto dos parâmetros mais restritos da literatura de entretenimento quanto das especificidades da nossa cultura. Em outras palavras: não faltam autores no mundo para escrever fantasias de cavalaria em cenários que lembram a Idade Média europeia, mas talvez fosse interessante ver uma história de horror usando elementos de que só um autor daqui ou mergulhado na cultura local poderia lançar mão.
Na pequena comunidade interiorana de Iguaúna, a chegada de “uma bela forasteira de procedência desconhecida e sem antepassados na região” não demora a despertar os receios e rancores supersticiosos dos habitantes da cidade, onde “os rumores mais sombrios sobre sua procedência e reais intenções na cidade começaram a circular...” Apenas duas pessoas do vilarejo mantêm contato frequente com a mulher: um adolescente que passa bastante tempo na casa alugada pela forasteira, fazendo serviços gerais, e a mãe dele, que presta ocasionais serviços de lavadeira e empregada. Um dia, a lavadeira aparece morta e a comunidade se mobiliza para resgatar o menino daquela casa isolada e sinistra, contando para isso com a ajuda de um padre especializado em exorcismos chamado pelo pai do garoto.
O conto de Matta é eficiente em sustentar a atmosfera de horror e suspense que pretende construir, com exceção do final, que estende  além da medida a antecipação de uma reviravolta previsível. 
No aspecto formal, Matta é uma grata e, aí sim, genuína surpresa (não conhecia nada de sua obra anterior, dedicada ao thriller). Seu conto é um dos que se ajustam com mérito ao que a coletânea apresenta como sua profissão de fé: uma história intrigante conduzida por uma narrativa sem firulas mas dedicada a cativar. Não há grandes voos formais na prosa de Matta, mas ela é correta e segura do início ao fim – não esqueçamos que os primeiros textos da série apresentavam grandes problemas nesse quesito.  Um bom conto.

Dê-me Abrigo, de Sérgio Pereira Couto
Esta história parte de um mote muito interessante: o uso, pelo exército dos Estados Unidos, do condicionamento musical como forma de despertar reações automáticas em seus combatentes.  A condução da narrativa, contudo, não é tão preciosa quanto o achado temático, uma vez que os blocos que constituem a trama não parecem apropriadamente concatenados.
O “condicionamento” é inserido como elemento de ameaça em uma história de aproximação amorosa. Certo dia, Cristina, uma mulher que se encaixa no padrão recorrente das protagonistas de comédias românticas (a certa altura, uma amiga a descreve como “executiva bem-sucedida de uma das maiores agências de publicidade do país”, que “nunca tem tempo para sair“) vê se mudar para a casa em frente à sua um homem que desperta seu interesse. O vizinho, Paulo, é, de acordo com o narrador onisciente em terceira pessoa da história, “alto, encorpado, com um ar militar e expressão séria no rosto.” Ele bate à casa dela pedindo um copo d’água e da atração mútua nasce um convite para sair. Enquanto Cristina some para se trocar, somos apresentados ao problema sombrio do homem. Cristina ouvia música em um IPod colocado numa estante. Quando Paulo está sozinho na sala, o aparelho começa a tocar a música Gimme Shelter, dos Rolling Stones, e o efeito é imediato: 
“Paulo percebeu que tudo sumira: os móveis, os tapetes, até mesmo a sala em si. Ele se via no meio de uma paisagem inóspita, sentindo o vento árido do deserto esparramar em seu rosto e o sol queimando as costas. Ao longe soavam explosões e tiros, cada vez mais altos, e uma língua que não entendia gritando ao longe”.
Para encurtar o caso: Paulo, um ex-soldado norte-americano (filho de brasileiro nascido nos Estados Unidos, o que explica sua presença no nosso país para o conto), foi submetido a experiências de “condicionamento musical” em seu regimento e surta toda vez que ouve essa canção específica dos Stones, recuperando um episódio traumático vivido em combate no Oriente Médio. Não vou estender muito a trama, por dois motivos: para não entregar demais a história e porque a própria trama pregressa ao encontro de Paulo e Cristina se enrola mais do que se entrega. Paulo, no passado, foi vítima de uma emboscada armada por uma companheira de exército que desertou usando como desculpa um estupro que o próprio Paulo foi convencido POR ELA, a desertora, a cometer (como é que é?). É sério:
Ela o seduziu e o convenceu a estuprá-la. Usou isso para ter uma desculpa para debandar para o lado da Al-Qaeda.” (p. 132)
Me parece de uma ligeireza atroz que algo assim seja colocado como um fato tão colateral ao centro da história. Afinal, uma mulher que convence o agressor, no fundo boa pessoa segundo os ditames da narrativa, a estuprá-la para ter uma “desculpa” para algo é uma construção de um grotesco tão grave  que não deveria estar tão à parte na narrativa. Há uma implicação ética em levar essa história, depois de esboçada, a um ponto crível. É como se a trama anterior do personagem tivesse sido orquestrada sem muito cuidado apenas para dar um trauma ao personagem masculino com uma certa moldura de historicidade (todo esse enrosco ocorreu na guerra do Afeganistão).
A prosa às vezes escorrega em um artificialismo que não combina com o conjunto, mas o maior senão do livro não é formal: é o pressuposto de que, devido ao condicionamento musical sofrido pelo personagem, qualquer reviravolta na trama depende muito de a música estar tocando em algum lugar ou circunstância, o que produz coincidências difíceis de engolir e ao menos uma decisão de Paulo tão esdrúxula que é praticamente inaceitável, claramente tomada para produzir um episódio dramático na história.

Ao Cortar os Cordões, de Estêvão Ribeiro
Dois homens em um bar partilham um “causo” da região: um psiquiatra chega a sua casa em determinado dia e encontra no lugar uma adolescente a quem tratou e que desenvolveu por uma ele uma obsessão doentia. Ambos conversam, ambos discutem, ela se insinua, ele resiste, ela expõe um insight perturbador sobre o mundo e tenta convencê-lo de que está certa… Até que uma circunstância sobrenatural vitima o desvalido terapeuta custando-lhe mais do que a imagem profissional. É um conto curto e de levada ágil, com uma história interessante. Mas o desfecho, no qual se retorna, com um twist de horror, aos dois homens que contavam a  história lá na primeira cena, me soou algo afetado. 
Como boa parte da narrativa é sustentada pelo diálogo entre o psiquiatra, Fernando, e a jovem paciente, Joana, alguns desvios de curso na estrutura das falas dos personagem podem representar um problema, bem como um que outro tropeço na carpintaria do texto, que não se eleva além de um arranjo por vezes piegas ou excessivo:
“Fernando encarou a garota, tentando ver sentido naquilo. Olhou-a nos olhos e viu nada mais que a verdade. Uma verdade que não podia ser sua ou real, mas a menina acreditava no que acabara de falar, seja lá o que fosse.”
No geral, contudo, é um bom conto, com uma história criativa que não tem medo de levar as suas circunstâncias internas até as últimas consequências.

O Primeiro Dragão, de Raphael Draccon
Não li os livros da série Dragões de Éter, de Draccon, para saber se aqui temos um excerto de um deles (mesma circunstância da narrativa de Eduardo Spohr). Me parece que não, que o texto tem a autonomia de um conto, com um final fechado que dota a peça de unidade sem depender de mais nada. Uma narrativa que, assim como a história escrita por Spohr, retrabalha temas consagrados da fantasia em estilo RPG medieval: o protagonista é um “paladino” a serviço de um deus para funcionar como elemento de equilíbrio nos assuntos dos homens e ajudá-los no combate contra criaturas monstruosas (neste caso, hobgoblins, criaturas do folclore nórdico semelhantes a duendes, lideradas por um “bugbear”, um monstro lendário “goblinoide” apropriado pela narrativa do RPG Dungeons and Dragons). O protagonista começa ferido e semimorto em um campo coalhado de cadáveres, tem suas feridas magicamente curadas pela benemerência de sua divindade, sai a perambular pela cidade destroçada, encontra cadáveres de entes queridos e entra em luta com oito hobgoblins em patrulha. Mata-os e liberta um contingente de três dezenas de humanos que seriam levados como escravos na retaguarda da horda de duendes malignos. O “primeiro dragão” ao que o título faz menção é um episódio do passado do paladino, que matou sua primeira fera justamente naquela cidade, anos antes – e teve um caso amoroso com uma jovem do local. Em companhia dos humanos libertados e inspirado pelo “fogo da justiça” de seu deus, ele persegue a vanguarda dos duendes, que executa um ataque a uma aldeia de elfos nas proximidades.
O conto é provavelmente o mais longo da antologia, tem 36 páginas, mas consegue ser o mais equilibrado dos três grandes “fantásticos” que apareceram até agora. É o que parece ter menos coisa “sobrando” dentro de suas próprias prerrogativas, mas ainda assim poderia se beneficiar de alguma edição, principalmente de algumas das perífrases comuns à literatura de fantasia e que por vezes confundem o épico com o sentimental:
“De fato, para um homem comum, aquilo sempre seria inacreditável. O renascido ergue-se como se o coração estivesse mais leve. Como se a cura fosse humana, como se o mundo fosse bom e propício a heróis”. (p. 151)
A mesma ideia voltará adiante em outra cena:
“Nuvens começaram a tomar o céu de repente, como se o mundo fizesse sentido.” (p.166)
A certo momento, o paladino  volta ao local em que matou seu primeiro dragão:
Ainda sem entender o motivo de seu deus dito justo lhe encaminhar até ali, afinal é o deus quem guia o coração de um paladino, mesmo o dos renascidos, ele iria se retirar para perguntar mais uma vez o porquê a um deus que respondia com trovões.” (pp.155-156)
A “resposta do deus” faz referência a um episódio anterior, quando, confrontado com a morte da aldeia, o paladino gritava sua raiva a “Hedryl. O nome que os aldeãos e paladinos davam a um deus cabeludo e bem-vestido, tachado como seu representante de justiça”
Aí a mesmíssima ideia do trovão volta adiante, mostrando que o autor está enamorado demais de seus achados para usá-los apenas uma vez:
“Dizem que os deuses na chuva respondem a seus fiéis com trovões.” (p. 167)
Ainda assim, é o que conta a história mais interessante dentro do seu campo. Draccon é um escritor que consegue dotar suas cenas de ação de dinamismo, embora ainda precise lidar melhor com a questão do tempo da prosa. Em uma entrevista a Zadie Smith incluída no livro Conversas entre Escritores (resenha aqui), Ian McEwan reconhece que foi um equívoco escrever repetidamente em seu livro A Seta do A Criança no Tempo que o personagem sentiu o tempo desacelerar. “Não é necessário dizer isso. A própria prosa se encarrega de diminuir o ritmo.” – diz McEwan. Draccon também recorre muito às perífrases mencionadas para paralisar o tempo de sua narrativa, como se a cada cena de luta ele se valesse de uma “câmera lenta” – que ressalta didaticamente os momentos de maior tensão e interrompe a dinâmica ágil que ele consegue construir no restante da cena de batalha.

Bom, o post ficou longo igual. Tentaremos fazer mais sintético na próxima – que, espero, não demorará tanto.

>>> Leia aqui a primeira parte da série de resenhas de Geração Subzero

Descongelando os subzeros - parte 1

22 de agosto de 2012 2

Eu bem que gostaria de assumir empreitadas como esta com mais frequência – e de cumpri-las com mais celeridade, também, mas com uma série de compromissos além deste blog, quando invento uma série de posts elas, embora com intenções periódicas, acabam dependendo das conveniências do blogueiro, infelizmente. Mas se conseguirmos concluir aos poucos cada desafio, já terá valido. Digo isso porque demoramos uma semana para publicar a primeira série de resenhas dos contos incluídos em Geração Subzero, mas aqui está ela. Vamos tentar diminuir o intervalo entre esta parte e a segunda. Mas antes de irmos ao que interesse, como conhecemos a internet e não é de ontem, vamos a dois postulados básicos de todas as nossas séries de resenhas aprofundadas conto a conto. A coisa funciona assim:

Sem (muito) spoiler
Nestes textos, tento não entregar muito da trama, mas as histórias, obviamente, serão comentadas para além do mero resumo. Quem achar que até isto afetará seu prazer de leitura, pare agora.

Eu não peço desculpas…
Ninguém precisa entrar no blog retrucando que algo comentado nestas resenhas é só uma opinião minha. Não vou ficar toda hora usando fórmulas que amenizem o fato de que, em uma resenha assinada por mim, é claro que qualquer opinião é minha – salvo no caso de citações de terceiros, que serão identificadas como se deve. Ah, sim, antes que eu me esqueça: como no caso da Granta, coincidentemente também aqui meu contato prévio com alguns dos autores foi puramente profissional – algumas entrevistas, por exemplo, a maioria delas realizada em edições variadas da Feira do Livro de Porto Alegre. Não tenho amigos nem desafetos entre os selecionados.

Vamos aos textos:

O Cão, de Juva Batella
Uma história que cria um curioso paralelo involuntário com a antologia da Granta, por abrir a seleção com um conto sobre a morte de um cachorro. As semelhanças, contudo, entre este relato de Juva Batella e Animais, de Michel Laub, se interrompem aí. A narrativa aqui não é fragmentada, e sim calcada em uma certa oralidade do conto falado – as primeiras duas frases do texto são, justamente: “Contaram-me. // Reconto.”, recuperando um estilo tradicional do conto escrito principalmente no século XIX: a atribuição da história que se quer contar a um personagem narrador que, por sua vez, diz ter ouvido aquela narrativa de alguém outro, identificado ou não. É um recurso que serve para ligar o narrado ao grande emaranhado de teias e histórias que formam a tradição literária, tentando restabelecer aquele fio narrativo da grande experiência humana que Walter Benjamin considerava irremediavelmente perdido.
A história de Juva Batella começa bem. Uma jovem que acaba de se mudar com dois grandes pastores para uma vizinhança de subúrbio percebe, horrorizada, que a vizinha do lado, uma senhora gentil, tem um minúsculo poodle, praticamente feito para se tornar presa fácil para seus animais – ainda mais porque apenas uma cerca-viva separa os dois terrenos. A narrativa acompanha com tensão crescente o medo que a jovem vizinha sente a cada chegada em casa, o quanto parece óbvio que apenas por sorte os dois cachorros vigorosos ainda não massacraram o animalzinho no outro lado da divisão. Até que um dia, a jovem chega em casa para encontrar o cenário de horror que havia imaginado, e tem de decidir o que fazer.
Como eu havia comentado, há uma aparente intenção de oralidade na forma como a história é contada, embora nem sempre cumprida. Como o próprio ensaio introdutório já havia declarado, “escrever fácil é muito difícil“, e em determinados trechos o conto soa redundante e mais enrolado do que o necessário, como no trecho abaixo, em que a última frase praticamente resume toda a argumentação construída pelo que vem antes:
“Era do tipo que não perdia a oportunidade de imaginar, sempre que possível, o pior, acreditando ao mesmo tempo, no fundo da sua alma, que o pior nunca haveria de acontecer, justamente porque as coisas nunca aconteciam do modo como as imaginamos. E era essa a sua fórmula: imaginar o pior justamente para que o pior não acontecesse.
Esse caráter meio fosco da linguagem se torna um problema se comparado ao que, para mim, foi a principal questão encontrada no conto: sua trama. A história que o conto narra é uma versão estendida e tensionada de uma anedota popular que ouvi pela primeira vez aos 13 anos quando morava em São Gabriel, e que já ouvi outras vezes desde então. Dado que a matriz não é original nem surpreendente – aliás, o final me decepcionou como leitor, uma vez que havia um horror crescente na construção da narrativa que não se cumpriu – ao menos a linguagem deveria ser. Mas o conto incorpora as já mencionadas repetições  da oralidade sem uma justificativa interna que as sustente – o conto é um “causo” recontado, fato que o narrador enuncia brevemente e ao qual não volta nem mesmo ao final.

Cristais de Prata, de Pedro Drummond
A história que Drummond tem a contar nesta peça é interessante: uma jornalista de TV narra sua tentativa de produzir um livro recuperando um caso no qual praticamente tropeçou por acaso. Ao alugar uma casa em São Paulo, a moça quebra o espelho de uma penteadeira e descobre colado atrás dele um retrato antigo de um jovem em pé defronte à Estação da Luz. Atrás da foto, um recado anotado: “espero você”. Intrigada com o achado, a jornalista se lança a uma investigação sobre a identidade do estranho na foto e, após algumas idas e vindas por antiquários, bairros distantes e cidades interioranas, recupera uma história de amor malfadado na São Paulo dos anos 1940. Uma mulher casada e seu enamorado haviam combinado uma fuga desesperada dos desmandos do autoritário e poderoso marido dela. E a fuga jamais acontece – por motivos trágicos que a jornalista vai desencavando aos poucos e que têm relação com um  fato histórico real: o incêndio da já mencionada Estação da Luz em 1946.
O final traz uma surpresa indeterminada que cria mais dúvidas do que soluções, mas isso não é um problema. O problema aqui é de linguagem. Ainda que a história possa, a priori, parecer propícia para um novelão, nada impede que, contada com linguagem enérgica e cativante ou com algum olhar renovado, ela se torne uma gema narrativa. Mas a prosa de Drummond não é fluente, embora se perceba o esforço realizado para que seja. Na tentativa de injetar o tal “olhar renovado” na frase, o autor enfileira sentenças cheias de descrições em que a narrativa tenta passear como uma câmera escolhendo um detalhe que revele o resto. Essas frases resultam apenas empoladas, truncadas, criando problemas de compreensão e mesmo incongruências para a mais elementar visualização ou verossimilhança da cena. Senão vejamos:
Quando a protagonista quebra o espelho, ela escreve: “Um pedaço afiado caiu da peça e a rachadura, larga, permitia ver a madeira que a sustentava“. (p. 31) Sustentava o quê, a rachadura ou a peça? E logo na página seguinte, temos a repetição da mesma estrutura na frase: “Olhei para o móvel e o que vi era realmente curioso: havia ali uma fotografia. Não havia caído acidentalmente entre o espelho e o fundo que o sustentava“. (p.32)
Ao encontrar a foto, essencial para o avanço da narrativa, a jornalista a descreve longamente, mas prestem atenção no trecho a seguir: “Não fosse sua pose ali, e o retrato poderia passar por um cartão postal da época. Sua aparência era alegre, sorriso ainda na validade dos primeiros segundos. Cabelo moreno e bastante curto, sugerindo seus vinte e poucos anos”. A imagem, como informa o autor, é em preto e branco. Portanto, como, numa foto com mais de 60 anos de idade, se pode afirmar com tanta certeza que cabelos “bastante curtos” são morenos? E como qualquer corte de cabelo poderia “sugerir” uma idade em período tão remoto em uma foto sem cores e que não é sequer um close?
A estrutura das descrições, longas a maioria delas, também não ajuda na fluência do texto – o que trava o avanço da leitura: “O homem levou-me até a sala escura, onde me apontou uma poltrona puída, e, tossindo, deitou-se no sofá, onde já o aguardava um velho cobertor. Ao lado, uma sacola de plástico translúcido permitia ver que estava repleta de remédios.” Por que esse pulo narrativo do homem para a sacola entregando a ela, a sacola, o comando da ação, já que ela, o objeto inanimado, de súbito “permite” ver alguma coisa? Depois, a prosa volta a se concentrar no homem, mostrando que a sacola foi mero torneio formal. 
Não que o conto se resuma a essas tentativas de frases de efeito, há bons achados (“‘Senhor, diversos móveis do local onde moro foram comprados nesse antiquário’, dirigi-me propositalmente à pessoa mais idosa que encontrei lá. Um jovem em um antiquário não inspira confiança“.) O saldo final, contudo, é que se tentou preencher com estilo deficiências da construção narrativa.

A canção de Maria, de André Vianco
Vianco é o primeiro autor da coletânea a de fato se ajustar a seu anunciado espírito: enfileirar autores “pop” para os quais a crítica torce o nariz. Best-seller nacional com seus livros de vampiros anos antes que Stephenie Meyer tornasse os dentuços moda outra vez com Crepúsculo, ele começa este conto parecendo que vai ousar, afastando-se de seu universo de referência para tentar algo novo. Em um ano indeterminado do que parece ser o Oriente Médio dos tempos bíblicos, mais especificamente os anos em que Jesus teria passado pela região, um lenhador de nome Ezra dá abrigo, em certo dia particularmente chuvoso, Maria, uma jovem menina prestes a parir. A menina dá à luz a filha e o velho, viúvo, acolhe ambas como um sopro de vida e alegria em uma existência incolor. Como a jovem já havia escapado de um apedrejamento, Ezra, para evitar problemas, apresenta-a ao povoado em que vive como uma meia-irmã que não via há muito tempo. Até que um dia, ao voltar para casa do trabalho, Ezra encontra um cenário de tragédia que o enluta e o coloca na desagradável posição de ter de lutar contra uma maldição que pode aprofundar ainda mais sua perda.
Fujo de dar muitos detalhes, o suficiente apenas para que vocês saibam que… sim, tem vampiro no meio. De novo.
Não que um conto de horror nos tempos bíblicos não seja uma bela ideia, e enquanto Vianco vai construindo a atmosfera de seu enredo, a coisa funciona. A delicada construção do sentimento que começa a unir, aos poucos, Ezra, Maria e a bebê desta, Miriam, consegue ser comovente, apesar de alguns tropeços de linguagem, como a insistência em chamar Maria de “jovem mãe” ou em descrições que resvalam no piegas: “Ezra apanhou um facão e suspendeu o corpo leve da menina com seu braço forte“.
O problema verdadeiro reside em o autor abandonar o mundo que vinha construindo, alicerçado na narrativa bíblica ocidental, para inserir nele seu tema de eleição. Vianco não está tentando algo novo, está só viajando pelo tempo carregando a bagagem de sempre. Não que ele precisasse fazer algo novo, mas a própria ambientação da narrativa nos tempos de Jesus – Ezra é identificado mais adiante como primo de João, o Batista, convalidando esta afirmação – pediria uma solução mais orgânica. Incluir um vampiro, identificado assim mesmo, com esta palavra, fere de morte a credibilidade da narrativa. Não pensem que vejo como um problema colocar vampiros em qualquer época (eu até vejo, mas não é o centro do meu argumento aqui). O que seria interessante em ver um vampiro em um período tão remoto é imaginar como aquela visão de mundo supersticiosa e religiosa entenderia tal criatura. E usar a palavra “vampiro” é oferecer uma interpretação a priori que negligencia qualquer tentativa de imaginar esse entendimento. E
mbora algumas narrativas folclóricas hebraicas, como os filhos de Lilith, devoradores de energia sexual, possam ser vistas como lendas ancestrais de vampiros, não seria assim que eles seriam encarados pela Israel do século I, e sim como demônios, íncubos ou súcubos, Dibuk – há até mesmo uma palavra à disposição naquele contexto, alukah, que significa literalmente “sanguessuga”, e que é usada em Provérbios 30:15: “A sanguessuga tem duas filhas: Dá e Dá. Estas três coisas nunca se fartam; e com a quarta, nunca dizem: Basta!”, no que poderia ser uma referência ancestral ao mito “vampiresco”.
Escrever é pesar as palavras, e ao escolher usar o termo “vampiro”, já tão carregado de interpretações extemporâneas ao conto que escreveu, Vianco não deixa de transformar sua narrativa de uma “história bem contada”, como a coletânea se anuncia, em… experimento literário. A chave de leitura passa a ser metaficcional:  desculpa-se o uso do termo vampiro porque isto é uma história “de André Vianco, autor de livros de vampiro”, não “a história de um lenhador judeu enfrentando um horror incompreensível no século I”. Busca-se no escritor e em sua carreira pregressa algo que atenue a impressão de que o autor não dotou a história de coerência interna.

Na Maternidade, de Thalita Rebouças
Uma divertida e bem-humorada narrativa de Thalita Rebouças que não chega a começar exatamente bem, mas se recupera até um final que abraça com sinceridade a emoção. Armando é um homem para quem pelada (o jogo, bem entendido) é “um troço muito importante” – e, por isso, ele está sempre arranjando problemas com sua mulher, Angela Cristina, que “como toda mulher de peladeiro, detesta o meu dia de pelada. Diz que não entende como um bando de marmanjos leva tão a sério ‘um jogo idiota’, como conseguimos deixar mulher de lado em prol de futebol e outras barbaridades do gênero“. Esse foi meu senão inicial com a obra: a insistência em reforçar estereótipos sexistas como o do “peladeiro de alma” e suas atribulações com a incompreensão das mulheres a respeito desse ritual sacrossanto do futebol semanal. Ainda bem que o texto é assinado por Thalita. Fico imaginando o que se poderia dizer dele se fosse escrito pelo David Coimbra, por exemplo. 
Mas voltemos ao conto. Armando e Angela estão esperando um bebê para breve. Ao saber dessa informação, o leitor não tardará a deduzir que a filha terminará por nascer perto de uma pelada marcada pelo pai com os amigos. E é aqui que o conto me surpreendeu, de certo modo, porque parecia se encaminhar para uma comédia em que a graça viria das trapalhadas do pai tentando estar presente nas duas situações, mas não é isso. A esposa de Armando tem o bebê, e ele de fato decide de súbito ir até a pelada já marcada. Imerso na tensão cômica que foi aguardar o parto com a mulher, Armando só percebe a imensidão do que acaba de acontecer com ele, tornar-se pai, depois do jogo, em uma cena que poderia ser piegas mas que tira proveito de uma linguagem leve, aparentada com a crônica, apropriada para a brevidade da história. 
Narrado em primeira pessoa, o conto produz humor por diálogos ágeis, na contraposição entre Armando, deslocado mas presente em um momento em que ele é necessário mas completamente inútil, como o do parto, e Angela, voluntariosa e tensa pelas dores. É uma boa história, como falei, e um entretenimento tecnicamente bem-executado.

Fogo e Trevas, de Eduardo Spohr
Confesso nunca li a série que tornou Spohr um fenômeno de público, A Batalha do Apocalipse, portanto não posso dizer se o texto publicado na coletânea é de algum modo parte dos romances do ciclo – a apresentação do autor, anterior ao conto, não discrimina se o texto é um conto ou parte de um romance inédito ou já publicado (Felipe Pena explica no ensaio introdutório que abriu mão do critério do ineditismo), e essa é uma crítica que pode ser feita à organização do volume. Este texto, contudo, não é um conto, é claramente um fragmento de um romance em progresso ou até mesmo algo que se insere nas brechas de uma narrativa maior, talvez até multimidiática, como uma fanfic de um RPG, algo assim, mas não posso apostar. Basicamente, é a condução de duas cenas em momentos distintos no tempo e no espaço, e o andamento e a coesão situam-se, consequentemente, fora dos parâmetros de análise.
A primeira parte narra a luta de um grupo multifacetado de aventureiros em uma câmara subterrânea contra um demônio de, como diz o título, “fogo e trevas” – algo que claramente se inspira, mesmo que por caminhos indiretos, na batalha contra o Balrog nas minas de Moria descrita por Tolkien em O Senhor dos Anéis. O grupo de aventureiros tem a variegada composição obrigatória em obras literárias de fantasia-mágica-medieval-ao-estilo-RPG-ou-videogame-adventure: Eu poderia enumerar, mas acho que podemos dar voz ao próprio autor:
“Quem vinha primeiro era Artimus, o cavaleiro, segurando sua enorme espada de duas mãos. Trajava uma armadura de placas de metal, com o visor do elmo levantado. Alana, a feiticeira, caminhava logo atrás, seguida pelo bruxo Zamir, com suas vestes negras e cajado de marfim escuro. Na retaguarda apareceu Grammal, um guerreiro bárbaro meio gente e meio orc com a força de três homens, carregando um pesado machado duplo com lâminas-irmãs duas extremidades.”
O trecho não diz, mas o grupo também é composto por um arqueiro e por um “halfling” – raça mágica recorrente em RPG, são humanoides pequenos e ágeis, parecidos com duendes para os não iniciados. A segunda metade da narrativa mostra, seis meses antes, o guerreiro Artimus em uma aprazível varanda em uma localidade nas montanhas, engajado em um diálogo com uma sacerdotisa no qual repassa os antecedentes que vão levar à aventura da primeira parte da história.
Com raras exceções, considero a literatura derivada de RPGs falha em reproduzir literariamente a diversão proporcionada aos participantes efetivos do jogo, mas estou mantendo minha mente aberta aos postulados da coletânea: não há novidade alguma no uso que  Spohr faz desse material, mas vamos analisar como ele é estruturado enquanto entretenimento. A luta na câmara subterrânea é uma cena de aventura narrada em ritmo ágil, embora padeça de alguns problemas, um deles recorrente dos quadrinhos de super-heróis: a descrição de um gesto é simultânea à enunciação de uma fala, e o gesto claramente deveria ser rápido demais para que essa fala pudesse ser proferida, ou o suspense é ralentado até muito além do que seria crível mesmo dentro dos postulados internos de uma obra de fantasia. Há também deslizes técnicos: algumas descrições, embora empolgadas, não são eficientes em fazer o leitor visualizar corretamente a ação:
Percebendo que Alana era uma feiticeira cujos encantamentos poderiam afetá-lo, usou sua mão esquerda para agredir a mulher. Por instinto, Alana pulou para trás e protegeu o rosto. Escapou das garras, mas o punho da fera a acertou no quadril“. Esse gesto me parece fisicamente impossível: ou Alana foi atingida por um punho fechado ou por garras de uma mão aberta. Ainda que o tal demônio fosse o Wolverine, com as garras projetadas do dorso da mão, não consigo imaginar como alguém, com um passo para trás, se esquivaria das garras mas não do punho.
Um pouco antes, um dos aliados vestidos em armadura já havia sido derrubado e pisado pelo demônio. Nessa cena temos outro problema:
A placa que protegia o tórax de Grammal era a única coisa que o mantinha vivo, mas esquentava a cada instante, feito chapa quente. Em pouco tempo, o semiorc seria esturricado.
Bom, até onde eu me lembro, uma placa peitoral é uma chapa metálica, que está ficando quente, no caso do conto. A menos que a metáfora “feito chapa quente” seja uma inserção deslocada de uma gíria carioca, é uma redundância que compromete. Sem falar que é estOrricado, e não estUrricado.
Dado que o objetivo era o entretenimento, esses problemas são, para mim, pedras no caminho que impedem a fruição de uma boa leitura em uma narrativa que já é na origem o reaproveitamento de clichês narrativos de fantasia. Sempre vai ter alguém dizendo que gostou, que o autor tem fãs (não discuto isso, ele tem mesmo, e eu não li o Batalha do Apocalipse). Entendo que provavelmente os textos de Spohr não se dirigem a leitores da minha idade ou com minha bagagem de leitor (no bom e no mau sentido), mas a jovens abertos a ler tudo como novidade porque, para um leitor recém-iniciado na leitura, tudo de fato é novidade. Só que estou analisando este texto da forma como  foi apresentado, em uma coletânea voltada para o leitor não iniciado e sem notas de rodapé.

Por hoje era isso. Espero vocês no próximo post sobre o livro.

Dançaram os dragões e os leitores

28 de junho de 2012 0

Antes de ir, um último comentário. Como vocês puderam ler hoje à tarde na rede (clique aqui), a editora Leya divulgou um comunicado informando que a edição nacional de A Dança dos Dragões, quinto capítulo da saga Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin (tornada best-seller mundial depois da veiculação das duas temporadas da série A Guerra dos Tronos, na HBO), saiu sem o 26º capítulo.

Sim, um capítulo inteiro simplesmente desapareceu da edição – a série, para quem ainda não leu nenhum dos volumes, é contada em capítulos breves centrados no ponto de vista de um personagem a cada vez. Imagino que o fato de eles não serem numerados ajudou na lambança. Cada segmento traz como título o personagem sob cujo ponto de vista a história está sendo contada (já escrevemos aqui mesmo no Mundo Livro uma resenha mais detalhada dos primeiros volumes da série. Se quiser ler, clique aqui). Imagino que quem tenha revisado o livro teria percebido a falta de um “26″ depois de um “25″, o que não ocorreu, uma vez que esse capítulo em particular se chama O Soprado pelo Vento (a partir do 4º volume Martin começou a expandir ainda mais os pontos de vista introduzindo dezenas de [mais] personagens novos, alguns identificados apenas por epítetos misteriosos).

Não é a primeira vez que um problema ocorre na edição brasileira da obra. Em 2010, o próprio tradutor português, Jorge Candeias, manifestou sua confusão (clique aqui) pelo fato de a editora ter simplesmente resolvido pegar sua tradução (feita para Portugal, lembremos) e dar uma maquiada às pressas nos termos mais lusitanos para lançar o mesmo material no Brasil sem consulta alguma ao tradutor, criando discrepâncias e estranhezas que eram bastante perceptíveis até por quem não tivesse conhecimento desse fato.

O caso agora parece ainda mais bizarro, uma vez que um capítulo inteiro de um livro (cuja estrutura se faz justamente da interligação de fragmentos breves oferecendo diversos pontos de vista de uma mesma linha narrativa) sumiu. Não se trata também dos mil ou 500 exemplares de uma novela de 120 páginas de um autor em começo de carreira, mas de um alentado romance de 860 páginas dando continuidade a uma série que está há meses nos topos das listas de  best-seller, vinha sendo anunciado em pré-venda por todas as redes online há quase dois meses e, portanto, deve ter saído com uma primeira edição considerável, coisa de dezenas de milhares de exemplares.

Não é à toa que a Leya está fazendo o primeiro “recall” de livros que eu me lembre no Brasil. As principais redes online já retiraram o produto de catálogo, informando que nova edição estará pronta a partir de 1º de agosto.

Quem não quis encarar o volume em inglês, esperando pela tradução, dançou (mas não com os dragões) e vai ter que esperar.

Tramas de Gelo, Fogo e Aço

05 de julho de 2011 9

A série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin, teve seu primeiro livro lançado nos anos 1990 nos Estados Unidos (de um total previsto de sete, quatro já foram publicados, dois deles traduzidos no Brasil). De lá para cá, a série se tornou uma das histórias de fantasia mais vendidas internacionalmente nos últimos anos, condição que deve se ampliar com a repercussão positiva da adaptação para a TV produzida pelo HBO. Vi apenas os primeiros cinco episódios, mas posso dizer que minha impressão é de que a série tem, sobre o livro, algumas vantagens consideráveis. O programa de TV condensa os principais méritos dos romances, como os diálogos afiados, personagens cativantes e uma trama inteligente e imprevisível, e ao mesmo tempo abrevia alguns de seus problemas, como uma certa pomposidade na prosa que frequentemente escorrega em clichês. Acrescente-se a isso os problemas graves e específicos da edição brasileira da Leya, sobre os quais falarei com mais calma daqui a alguns parágrafos, e ainda assim preciso tirar o chapéu para a inventividade da trama, capaz de capturar o olhar do leitor mesmo com tantos obstáculos

A saga se passa em um mundo imaginário, com inspiração nas sociedades feudais da Europa medieval. Uma diferença é que nesse mundo coisas mágicas e ameaçadoras espreitam das sombras e as estações do ano não são regulares – depois de um verão que durou nove anos, a série começa com um ameaçador inverno à espreita. A maior parte da ação transcorre no continente Westeros, no qual estão localizados “os sete reinos” que obedecem ao poder central de um monarca chamado Robert Baratheon. Antes dele, a linhagem real era exercida pela família Targaryen, descendentes do primeiro rei a conquistar e unificar os antigos sete reinos autônomos. Muitos anos antes do tempo em que a narrativa se desenrola, Robert e seus aliados levantaram-se em rebelião contra os desmandos de um rei Targaryen particularmente tirano chamado Aerys II, o louco. O louco foi deposto, seu filho, herdeiro do trono, assassinado, e seus últimos dois filhos foram levados por um nobre leal até as terras “além do mar estreito” — um outro continente a leste de Westeros. Não é, contudo, a clássica idealizada história de monarquia: Robert, embora tivesse motivos justos para se sublevar contra seu soberano juramentado (inclusive vingar o assassinato de seu irmão e o rapto, estupro e morte da mulher que amava), tornou-se um rei fraco e negligente, mais interessado em bebedeiras e bordéis (às vezes bebedeiras em bordéis) do que em administrar os negócios do Estado. Tampouco Viserys Targaryen, o herdeiro deposto, seria um rei melhor se retornado ao trono a que tinha direito. É um jovem fraco, mimado e arrogante, que tiraniza a sua irmã mais nova, Daenerys, e, para garantir as alianças militares necessárias para financiar seu retorno a Westeros, não hesita em cafetinar a garota entregando-a como esposa a um bárbaro de um povo guerreiro.

Martin é minucioso na criação de uma história pregressa para seu mundo medieval, apresentada ao longo da trama maior desenhada para os romances. Quando a história começa, Robert sobe em direção ao reino mais ao Norte, Winterfell, a terra gelada onde mesmo o verão é frio, para pedir a seu melhor amigo e aliado na conquista do trono, Eddard Stark, que retorne com ele à capital do Reino e assuma o posto de Mão do Rei, executor de suas ordens e chefe do conselho de governo. Stark não quer ir, não acha que se adaptaria à vida de conspirações palacianas na Corte, mas muda de ideia quando recebe uma carta da irmã de sua esposa. A cunhada acusa a família da mulher do rei, os Lannister, de assassinar o último homem a ocupar o posto de “Mão do Rei”, Jon Arryn, a quem Stark devotava respeito e amizade filiais. Stark avalia que, com os poderes vastos de “Mão do Rei” e morando na Corte, poderá descobrir o que aconteceu a seu mentor, e por aceita a nomeação – decisão que trará consequências drásticas para ele e sua família a partir dali.

Frente a esse pano desenrolam-se traições, batalhas, ameaças e crimes que podem vitimar qualquer um, não importa o quão fundamental seja seu papel para a trama, narrada em capítulos curtos que alternam os pontos de vista entre diversos personagens — a maioria deles pertencente à “casa Stark”: o próprio Eddard; sua mulher, Catelyn; as duas filhas de ambos, Arya e Sansa; um dos filhos mais novos, Bran; o primogênito, Robb; e por fim o filho bastardo de lorde Stark, Jon. Há outros personagens que também conduzem os olhos do leitor na narrativa, como já citada Daenerys e o carismático Tyrion Lannister, o irmão anão da rainha Cersei, esposa de Robert – o personagem tornou-se cativante também na série de TV, na qual o ator Peter Dinklage tem colhido muitos elogios com sua interpretação para o homúnculo, que pode ser tanto sarcástico e cruel quanto comovente em certas passagens.

Martin tem muitos méritos técnicos (a narração alternada é um artifício que dinamiza a narrativa e facilita a empatia com os personagens), mas não é um mestre da prosa. Ele não se detém tanto sobre as descrições do mundo que está criando, como o faz o J.R.R Tolkien com quem vem sendo incessantemente comparado. Mas quando o faz, ficam claras suas dificuldades para encontrar meios expressivos que não fujam das metáforas mais óbvias. Mais de um personagem é  descrito com cabelos “negros como a noite” (quem ainda usa isso a não ser Bianca e Sabrina?). Há claros problemas oriundos da tradução na edição nacional da Leya. Alguns deles são, como o próprio tradutor Jorge Candeias contou em seu blog, fruto de uma desastrada ideia de não contratar um tradutor brasileiro e sim usar uma versão já pronta, portuguesa, adaptando-a para o “brasilês” sem nem ao menos consultar o responsável pela tradução lusitana. Há, contudo, outros problemas que não podem ser debitados apenas a essa falha de percurso entre Portugal e Brasil.

O próprio título do primeiro volume, A Guerra dos Tronos, embora de aparência mais imponente, não funciona como deveria para traduzir A Game of Thrones – literalmente Um Jogo de Tronos. Em uma das passagens cruciais da narrativa, Eddard Stark confronta a rainha Cersei com um segredo que descobriu — o mesmo que levou Jon Arryn à morte — e recebe como resposta uma ameaça bem mais do que velada: “Quando se joga o jogo dos tronos, ou se ganha ou se morre“. A frase tem sua veracidade comprovada mais além e é repetida em diferentes contextos outras duas vezes, justificando seu emprego pelo autor como título e aumentando o questionamento sobre qual a razão para a mudança na tradução. Até por que a legítima Guerra dos Tronos também não se dá no primeiro livro, e sim no segundo, quando o reino se esfacela e mais de um personagem exige ser reconhecido como soberano dos sete reinos em todo ou em parte. O que nos leva ao título traduzido do segundo livro: A Fúria dos Reis. Embora também soe épico, não se adapta ao original A Clash of Kings. Como se trata da marcha para uma guerra total entre mais de uma casa, cada uma com pretensões ao trono, o sentido literal do título, Um Choque de Reis (ou a versão com o artigo direto, mais eufônica em português, O Choque dos Reis), seria mais adequado.

Há problemas de incongruência com a própria proposta esboçada pelos livros: o mundo criado por Martin é, embora fictício, um universo que compila características de vários períodos medievais da história ocidental, com ênfase no que Le Gofy e Duby classificam como Alta Idade Média, aquele logo em sequência à queda do Império Romano. Em Westeros há um poder central em conflito com as relações feudais de suserania e vassalagem entre nobres menores e maiores. Há torneios, uma elaborada heráldica e guerras disputadas com a estratégia militar clássica do período — movimentos de cavalaria e infantaria cobertos com a artilharia de companhias de arqueiros. Não há canhões, como não os houve na Idade Média até  o século XIV, devido principalmente ao primitivismo das técnicas de metalurgia (os melhores itens de metalurgia no universo de A Guerra dos Tronos são feitos do chamado “aço valiriano”, cujas refinadas técnicas de fusão, liga e forja se perderam com o passar dos séculos, como muitos avanços feitos pelos romanos regrediram a nada nos primeiros anos do Medievo). Se não há canhões, nem peças de artilharia, não há muito uso para barris de pólvora. Pois é exatamente a um “barril de pólvora” que a narrativa compara a instabilidade que se segue no reino após Catelyn Stark decidir, no primeiro livro, capturar um personagem para levá-lo preso até Winterfell. Comparar situações políticas turbulentas a um “barril de pólvora” já seria um clichê por si só desagradável, mas se torna particularmente estranho no contexto específico da série.

A prosa, já vimos, é um problema, mas é possível ignorar tal dificuldade em certa medida. É na agilidade dos diálogos, na riqueza de motivos de seus personagens, e na firmeza com que sustenta às vezes cinco focos narrativos simultâneos (em uma teia que se expande em direção aos confins de seu mundo imaginário) que Martin demonstra as qualidades que fazem o leitor virar a página ansioso pelo que virá em seguida. O desapego do autor por seus personagens é admirável, uma vez que não garante imunidade a ninguém. Se por um lado isso é louvável, por manter a expectativa do leitor em suspenso sobre os destinos do alto número de personagens, por outro parece ser um recurso do qual o autor abusa, eliminando abruptamente em ao menos dois casos pontuais figuras que poderiam ter rendido muito mais.

Sean Bean como Eddard Stark na série Game of Thrones

Aí vem mais Potter

23 de junho de 2011 0

Desde cedo a internet está em polvorosa devido ao anúncio de J.K. Rowling sobre o projeto Pottermore, um portal que deve reunir fãs em uma experiência de “leitura colaborativa” da saga Harry Potter: ou seja, o sujeito entra no site, escolhe um nome bruxo e vai passando pela leitura da história podendo acessar textos inéditos escritos para o portal pela própria autora. O leitor será “sorteado” pelo chapéu seletor no site para uma das quatro “casas” em que são distribuídos os alunos de Hogwarts: Grifinória, Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa. Nos livros, Harry faz parte da “Grifinória”, e portanto a maior parte da história é narrada do ponto de vista dessa casa, incluindo os dormitórios e a sala comum. Se o leitor for sorteado para uma casa que não a de Harry nos livros, será direcionado para uma seção do portal com novos pontos de vista narrativos escritos especialmente para o Pottermore.

O portal estará aberto a todos os internautas a partir de outubro, mas um milhão de fãs selecionados que tenham cadastrado seu e-mail no portal do projeto (www.pottermore.com) serão escolhidos para participar a partir de 31 de julho da própria construção do site – a data é o aniversário do próprio Harry Potter na saga.   O portal também será, em uma amostra do implacável tino comercial de Rowling, o local “exclusivo” de venda online de audiolivros e e-books dos exemplares da saga — eliminando o papel de fortes intermediários do setor, como a Amazon.

Já li a saga Harry Potter (até já escrevi a respeito do último capítulo da série aqui mesmo no blog). Mas não tenho essa paixão toda para ir participar de uma gincana na internet em busca de novas emoções relacionadas à leitura. Não sou um crítico implacável de Rowling, mas o livro não fez parte das minhas leituras de formação, então minha relação com ele é outra. Por isso, pedi à jovem colega Juliana Palma, estudante de jornalismo que começou a ler os primeiros Potters com oito anos de idade (senhor, como estou velho!) que escrevesse sobre a experiência. Vai abaixo o texto dela:

Juliana Palma. Foto: Jean Schwartz, ZH

Quem acompanha os lançamentos dos livros e filmes da série Harry Potter há, no mínimo, dez anos, recebeu uma notícia emocionate. No momento em que a saga está prestes a chegar ao fim nos cinemas, J. K. Rowling finalmente anunciou a possibilidade de publicar conteúdo inétido no portal Pottermore para seus ansiosíssimos leitores ao redor do mundo. A princípio, a iniciativa, que é apenas online, não pareceu ser tão emocionante quanto os livros, a não ser pelo fato de ter sido idealizada por Rowling, de quem podemos esperar as mais criativas ideias. O site colaborativo pode vir a se tornar a grande enciclopédia sobre o mundo bruxo.

A questão da enciclopédia já havia sido discutida pelos fãs antes, mas essa não seria como as que conhecemos. J. K. Rowling promete revelar histórias que nunca foram contadas nos livros e outras coisas que os fãs sequer imaginam. Desde que foi aberto, o site está completamente atolado de acessos, tornando praticamente impossível registrar e-mails para receber novas diretrizes sobre o projeto. Depois de mais cinco horas tentando ininterruptamente, deixei para me cadastrar outra hora. Os fãs de Harry Potter só falam nisso, mas o que mais me apaixona é a possibilidade de poder ajudar na construção do conteúdo que será disponibilizado em outubro através de um desafio sobre a série no fim do mês que vem. No próximo dia 15, todos estarão ávidos pelo lançamento do último filme e no dia 31 — data do aniversário do bruxo e da própria J. K. — o mundo estará em polvorosa para resolver o tal jogo que, provavelmente, fará um milhão de fãs mais felizes. Julho será definitivamente um mês agitado.

Mortos que andam

09 de junho de 2011 4

Confesso que não me entusiasmei quando li Apocalipse Z – O Princípio do Fim, livro de zumbis do espanhol Manel Loureiro. Ao final da leitura de suas quase 400 páginas, fiquei mesmo foi bravo com a maneira como ele tratou um determinado acontecimento da história que, ao meu ver, era importante demais para merecer o que considerei pouco caso _ sem contar aquela horrível sensação de “fui enganado”. Nem uma mísera resenha eu me animei a fazer, de tão pistola que estava com o autor.

O autor Manel Loureiro em um… cemitério

Mas passados alguns dias da conclusão da cruzada do sujeito (sem nome) que assiste ao mundo ser devorado por um vírus que transformar os vivos em mortos-vivos (ou não vivos, como Manel prefere), outros aspectos da história ficaram maiores que essa primeira má impressão e me animaram a ler sua continuação, o recém-lançado Apocalipse Z – Os Dias Escuros.

E digo que Manel está construindo _ tomara que ele continue, há franca abertura para tanto _ uma das melhores sagas de zumbis com que me deparei. A começar pelo protagonista, um advogado na faixa dos 30 anos que sai de sua casa em busca de ajuda como um John Wayne às avessas, vestido com um roupa de mergulho de neoprene, um arpão cruzado nas costas e seu gato persa a tiracolo. Nem herói, nem anti-herói, apenas um suburbano qualquer, assustado e perdido, tentando sobreviver (e se acostumar) a um mundo em ruínas.

Eis aqui outro lado explorado com vigor e vitória por Manel: como seriam as coisas após um apocalipse zumbis? Pouquíssimos filmes ou livros mostram com tanta clareza o limbo que o planeta se tornaria no caso do desaparecimento dos seres humanos — ou na sua substituição por criaturas em estado semi-catatônico. Que fim levariam os serviços essenciais? Como se comportariam os ambientes onde sempre existiu — para o bem ou para o mal — a intervenção do homem? Qual o perfil dos sobreviventes e que tipo de arquitetura social tentariam erguer?

O autor não é otimista em nenhuma das respostas que oferece, isso pode ser adiantado. Para Manel, o homem será lobo do homem até o fim dos tempos ou durante ele. Em muitos momentos, os protagonistas se questionam se não estariam melhores entre os não mortos do que sob a “proteção” dos vivos. Mesmo assim, há espaço para humor negro involuntário e até um lampejo de flerte.

O primeiro livro foi escrito em sistema de diário — começa no computador e depois, por razões óbvias, passa para um livro. O segundo abandona esse artifício e parte pra simples narrativa, ora em primeira pessoa _ quando o protagonista está no comando — ora em terceira pessoa — quando a ação é vista pelos olhos de outros, incluindo os de um zumbi. Mas em ambos reinam o suspense, o horror e a sensação de que tudo, dali por diante, sempre está por uma mordida contaminada. Os parágrafos acabam funcionando como esquinas tapadas por espigões: não dá pra saber o que iremos encontrar até dobrarmos e, quando o fizermos, estaremos por nossa conta e risco, como os personagens de Manel.

As duas brochuras também tem o mesmo (talvez único) problema: o tamanho. O autor às vezes exagera nas minúcias e gasta linhas demais descrevendo o estado de putrefação de um zumbi — coisa de quem leu muito Stephen King, acredito. É OK para, por exemplo, mostrar o quanto de tempo se passou desde que se transformaram — alguns estão completamente nus e encardidos, outra coisa que dificilmente é sugerida em histórias do gênero —, mas cansa quando se trata de um simples contato visual. Faz realmente diferença saber quantos dentes restam ao monstro se arrastando numa esquina qualquer de Madri? Ou se o braço está inteiro ou pendurado por um tendão? É pura curiosidade mórbida misturada a um certo cacoete cinematográfico: deixe o leitor imaginar, livro não é cinema, ora essa…

Mesmo assim, a leitura de Apocalipse Z é recomendada com força. Ainda mais em tempos da retomada das filmagens de The Walking Dead

O americano premiado

08 de junho de 2011 7

Christopher Kastensmidt. Foto de Adriana Franciosi, ZH

O escritor Christopher Kastensmidt, 38 anos, americano nascido no Texas mas radicado há uma década em Porto Alegre, foi eleito como autor do conto mais popular publicado na revista americana Realms of Fantasy, com uma história que narra o encontro de um aventureiro holandês com o Saci Pererê no Brasil-colônia.  O conto, originalmente escrito em inglês, foi publicado em edição nacional este ano pela Devir com o nome de O Encontro Fortuito de Gerard Van Oost e Oludara, em um volume duplo com a história A Travessia, do escritor brasileiro Roberto de Sousa Causo. Kastensmidt ambienta sua narrativa na Salvador do século 17, na qual o aventureiro holandês Van Oost encontra o guerreiro iorubá Oludara e compra a liberdade do africano – não sem antes precisar de uma ajuda do Saci-Pererê, entidade que vive no meio da mata e com a qual precisa barganhar em troca dos recursos necessários para financiar uma expedição.

Amparado em uma ampla pesquisa do Brasil colonial e usando o manancial mitológico com o qual tomou contato depois de mudar para o Brasil, Kastensmidt planeja para Van Oost e Oludara uma série de aventuras ambientadas em um Brasil colonial selvagem, cheio de mistério e de criaturas mágicas – o que, no mercado estrangeiro dominado ou por criaturas de horror sobrenatural como vampiros e zumbis ou por aventuras baseadas em mitologia derivativa do Senhor dos Anéis, contribuiu positivamente para chamar a atenção para a história. Kastensmidt estreou na literatura com o conto Daddy’s Little Boy, publicado na revista Deep Magic na edição 41, de outubro de 2005, e, afora a edição do conto em português, publicou suas histórias apenas em inglês, em revistas norte-americanas (nos Estados Unidos,as revistas literárias são o território por excelência da história curta). A aventura de Oludara e Van Oost saiu na edição de abril de 2010 da revista Realms of Fantasy, e foi indicada ao Nebula, um dos mais importantes prêmio internacionais para ficção fantástica, ao lado do Hugo.

Kastensmidt concorria na categoria “novelette“, que poderia ser traduzida por “noveleta”, um texto um pouco mais longo que o conto mas ainda curto o bastante para não ser um romance (e ainda um pouco menor que aquela categoria difusa que aqui no Brasil chamamos de “novela”). Não venceu o Nebula mas dividiu com Queen of the Kanguellas, escrita por Scott Dalrymple, na votação popular dos leitores, o título de melhor ficção publicada na revista Realms of Fantasy durante 2010 .

Kastensmidt  mudou-se para Porto Alegre em 2001. Com formação em engenharia de sistemas e arquitetura de processadores, ele trabalhava nos anos 1990 para a Intel, viajando pelo mundo como contato com outros programadores. Conheceu quatro jovens gaúchos sócios em uma empresa de criação de videogames e tornou-se o quinto sócio do empreendimento, estabelecendo-se em Porto Alegre. Em 2009, a empresa foi comprada pela multinacional Ubisoft, e algum tempo depois Kastensmidt desligou-se. Hoje atua como professor em universidades locais.

Editor de Polpa

23 de maio de 2011 0

Escritor e design gráfico, responsável pelo projeto gráfico da maioria dos livros da Não Editora e autor do blog especializado em capas de livros Sobrecapas, Samir Machado de Machado é também o editor dos quatro volumes publicados até agora da coleção Ficção de Polpa, reunindo contos de horror, fantasia, ficção científica e mistério (o nome é uma tradução literal de Pulp Fiction, que décadas antes de ser o nome de um filme já velho do Tarantino era o nome pelos quais eram chamadas as revistas de papel vagabundo e preço baixo, feitas com as partes moles da madeira, que publicavam histórias de crime, faroeste e ficção científica nos anos 1930 nos Estados Unidos). Foi por essas credenciais que eu o procurei para a matéria e ele respondeu as três perguntas que seguem abaixo, nas quais fala sobre o cenário da ficção produzida contemporaneamente:

Zero Hora – Como editor de quatro coletâneas voltadas para a literatura de gênero, como você vê o panorama de tais obras aqui no Rio Grande do Sul? Há algo próximo a uma cena semelhante de algum modo aos fandoms de São Paulo, por exemplo?
Samir Machado de Machado
– Quando lancei o primeiro volume de Ficção de Polpa em 2007, no RS parecia ser uma iniciativa isolada. Agora já há também a coleção Sagas, da editora Argonautas. Tendo dupla, já podemos dar as mãos e dançar, mas é cedo para se dizer que dá para organizar um baile.

ZH —  Os blogs são hoje uma ferramente poderosa para a divulgação de obras que não entram no radar das grandes editoras, mas que podem criar seu público. Podem também servir de algum modo para diminuir o preconceito quanto a esse tipo de literatura e garantir a chegada de tais livros ao público?
Machado —
Leitor que tem preconceito com literatura de gênero vai continuar chamando Admirável Mundo Novo de “fábula distópica” pra não ter que admitir que leu um livro de ficção científica, por exemplo. O que blogs de resenhas ajudam é a tirar a dúvida do leitor se vale a pena ou não investir seu tempo de leitura naquele livro, independente de gênero. Até porque o preconceito maior as vezes não é necessariamente com literatura de gênero, mas pelo fato de ela ser braslieira.

ZH –  É grande atualmente a força da literatura fantástica no interior – vários autores contemporâneos de fantasia no Estado. Que palpite você arriscaria para essa força do fantástico junto a autores de fora de Porto Alegre?
Machado —
Vergonhoso admitir, mas não conheço bem o cenário da literatura fantástica no interior do Estado, não o bastante pra opinar.

Vozes do Fantástico

23 de maio de 2011 2

Tiago (à esquerda) e Rafael Casanova. Imagem: Arquivo pessoal

No Segundo Caderno de Zero Hora de hoje, vocês puderam ler uma matéria sobre a atual cena de literatura fantástica e ficção científica que ainda luta por se consolidar no Estado. Entrevistamos escritores, editores e blogueiros responsáveis por fazer e divulgar a ficção fantástica no Rio Grande do Sul e, como é comum nessas matérias com pretensão de abarcar um tema por demais amplo, o texto final no jornal impresso é uma depuração concentrada da boa quantidade de material bruto que amealhei. Por isso, decidi compartilhar neste e nos próximos posts algumas coisas interessantes pesquisadas para o texto, e uma delas é estra entrevistas com os jovens Tiago e Rafael Casanova, 23 anos, moradores da cidade de Encantado e que mantêm um dos blogs de crítica literária especializada na literatura de gênero, o Sobre Livros. A página tem  uma média de 4.493 visitas e 11.594 visualizações por dia e conta com um grupo de colaboradores de vários pontos do Brasil, responsáveis por resenhas e artigos sobre a ficção fantástica contemporânea. Gentilmente, eles toparam responder a umas perguntas sobre o site — que agora eu publico aqui na íntegra. A entrevista foi concedida por e-mail, as respostas de ambos foram redigidas em conjunto, a não ser no caso da segunda pergunta:

Zero Hora — Como surgiu a ideia do Sobre Livros?
Rafael e Tiago Casanova —
 A ideia inicial para a criação do Sobre Livros surgiu no fim de 2009, quando planejávamos criar uma rede social literária. Começamos pesquisando possíveis parceiros e constatamos que não havia muitos sites voltados apenas para literatura de gênero no país. Depois nos perguntamos que tipo de notícias e informações gostaríamos de ler, e como nenhum dos poucos sites encontrados preenchia os requisitos pensados por nós, decidimos criar o Sobre Livros, para tentar conseguir e propagar essas informações. Hoje o site alimenta não só os gaúchos, mas a todos brasileiros com notícias e conteúdo literário diferenciado diariamente.

ZH – Vocês conseguem lembrar o momento em que tiveram despertado o gosto pela literatura de gênero?
Rafael —
Meu gosto pela leitura em si surgiu no início do 2º grau com Arthur Conan Doyle e seu famoso personagem Sherlock Holmes, um dos meus favoritos. Porém foi com Harry Potter que a literatura de gênero deu aquele estalo, aliás, Harry Potter e O Senhor dos Anéis são os responsáveis pela iniciação de pelo menos 98% das pessoas de minha faixa etária nesse tipo de literatura.
Tiago -  Despertei o interesse pela leitura, como a maioria dos leitores da minha época, com a febre por Harry Potter, isso foi mais ou menos no ínicio do ensino médio.

ZH — Como é o processo de edição do blog? Vocês realizam algo como uma “pauta” ou vai muito do gosto e da disponibilidade do que estiverem lendo no momento?
Rafael e Tiago —
A equipe do Sobre Livros é ampla, temos vários resenhistas, colunistas, tradutores e legendadores de diversos estados, o que gera muito conteúdo de qualidade. Resenhas são programadas e colunas possuem dias fixos para serem postadas durante a semana, já as notícias e informações são colocadas no ar conforme vão surgindo. Eu posso não gostar de algo, mas pode ter algum leitor que goste. Temos conteúdos especiais como jogos, tirinhas e entrevistas, todos voltados para a área literária, esses sim vão surgindo conforme a disponibilidade da equipe. Em um desses especiais surgiu o Libris, um personagem fictício com uma personalidade diferenciada criado por nós, ele é um dos xodós dos visitantes e já apresentou a primeira premiação do site, o Sobre Livros Awards, dividindo o palco com várias personalidades literárias como Marvin, Galdalf, Emilía e até mesmo a Morte.

ZH — Os blogs são hoje uma ferramenta poderosa para a divulgação de obras que não entram no radar das grandes editoras, mas que podem criar seu público e cativar leitores. A internet hoje é a ferramenta do boca-a-boca literário que pode fazer uma obra se transformar em sucesso de venda, como os livros de André Vianco ou os de Eduardo Spohr?
Rafael e Tiago —
Concordamos que a internet ajude bastante a divulgar trabalhos, inclusive até para conseguir contratos com editoras, como é o caso do Eduardo Spohr e seu A Batalha do Apocalipse, e até mesmo do escritor gaúcho Fábio Henckel e seu Binno Oxz, esses são excessões. Para se tornar um sucesso de vendas grandioso como André Vianco há vários fatores determinantes como um enredo instigante, escrita de qualidade e muita divulgação focada em leitores assíduos, como por exemplo nos próprios sites literários, é uma tríade que deve ser mantida. O boca-a-boca literário serve mais como uma “apresentação” do escritor para uma faixa de leitores, se o seu livro tiver qualidade, as vendas virão naturalmente, cedo ou tarde.
 
ZH — É grande atualmente a força da literatura fantástica no interior – vários autores contemporâneos de fantasia no Estado – muitos deles citados na própria lista de vocês dos “brazucas”. Vocês mesmos moram no Interior do Estado. Que palpite vocês arriscariam para essa força do fantástico junto a autores de fora de Porto Alegre?
Rafael e Tiago — 
Na nossa opinião é algo praticamente confirmado: autores do interior, muitos até auto-publicados, não teriam qualquer força de divulgação fora de seu âmbito regional se não tivessem acesso a uma principal ferramenta, a internet, e em consequência a colaboração e ajuda dos sites literários. Posso dar um exemplo recente que ocorreu esse mês: como eu saberia do lançamento do livro Morgan: O Único, do escritor gaúcho Douglas Eralldo, que mora em Pantano Grande se não fosse através da internet? Não teria como saber. O livro nunca chegaria aqui e eu não tomaria conhecimento do mesmo, então a internet possibilita que esses autores possam se divulgar mais facilmente. O principal desafio agora é quebrar o preconceito que os leitores tem com autores nacionais: já estou há bastante tempo com o site para saber que nossos escritores são tão bons como os de fora, basta dar uma chance.