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Posts na categoria "Feira do Livro 2007"

De Cabul (2)

01 de novembro de 2007 2

Åsne Seierstad na Praça da Alfândega. Foto: Jéfferson Botega, ZH

- Eu nunca tinha visto uma burca antes - contou Åsne Seierstad em uma das entrevistas concedidas durante sua passagem pela Capital (a essa hora, com a bênção do caos aéreo, ela deve estar no Salgado Filho aguardando o embarque para São Paulo, onde fará mais uma sessão de autógrafos).

A escritora lembrou o encontro com a família de Shah Muhammed Rais, personagem inspirador do romance O Livreiro de Cabul que na narrativa recebeu o nome de Sultan Khan. Como é hábito no país, foi convidada para jantar na casa do afegão, homem de duas mulheres e 10 filhos.  inglês, situação financeira muito acima da média, amante da literatura – ao conhecê-lo, Åsne pensou que a família renderia um livro. Pediu permissão para morar com eles por um tempo, período que durou três meses, e recebeu pronta permissão.

– Você é bem-vinda – autorizou o anfitrião.

Para não interferir nos episódios que presenciava, a repórter freqüentemente se escondeu sob uma burca para sentir ela própria o tratamento dispensado às mulheres que viviam de acordo com a cartilha talibã. Um dia, ao pegar um táxi, foi colocada no porta-malas, uma vez que os bancos do automóvel eram destinados aos homens.

Redigido e publicado o livro, a autora enviou um exemplar ao livreiro, momento em que começaram as desavenças entre ambos.

– Ele pulou da literatura para a realidade e protestou: “Não sou eu no livro” – relembrou a norueguesa. - Parte da raiva se deve à expectativa que ele tinha. A minha e a dele eram diferentes. Meu livro é puro jornalismo. Contei aquilo que vi e o que me disseram. Ele não esperava que as mulheres fossem tão francas.

Como a maioria da população daquele país - um total de 71,9%, segundo dados de 2006 -, as companheiras de Sultan Khan são analfabetas. Sobre o best-seller, portanto, tiveram apenas a versão da história contada por ele. Uma delas reclamou em uma entrevista que Åsne a teria chamado de “vaca estúpida” no texto.

Khan fez propostas à escritora: queria que ela reescrevesse o livro, ou que ambos o reescrevessem. Propôs passar algumas semanas na Noruega para redigirem uma nova versão. Como não apontou nenhum equívoco objetivamente, a autora não aceitou fazer mudanças. Mesmo sem acordo, o afegão foi à casa de Åsne, conheceu os pais dela, foi convidado para jantar e conversar. Aproveitou a repercussão mundo afora e lançou a sua versão: Eu Sou o Livreiro de Cabul.

- Ele me contou antes o que diria no livro, quando estávamos na casa dos meus pais, em Lillehammer. Achei uma abordagem original - disse a jornalista. - Acho muito bom que ele o tenha escrito. Que bom que todos os conflitos pudessem se resolver assim - concluiu, acrescendando que o livreiro deve estar aproveitando as excursões para divulgação do trabalho.

De Cabul (1)

31 de outubro de 2007 0

Åsne Seierstad recebeu flores dos fãs na Feira. foto: Genaro Joner, ZH

Åsne Seierstad, linda e loira como a média das nativas da Noruega, mas com um bronzeado certamente arranjado longe dos fiordes nórdicos, foi um sucesso fazendo Feira. Acessível, simpática, falante e nada econômica nas respostas, participou de entrevistas coletivas, programas de TV, falou a jornais, revistas, rádios e sites e nunca perdeu o bom humor – nem com as dezenas de perguntas quase idênticas que se repetiram desde a manhã de ontem, quando chegou a Porto Alegre. À noite, foi uma das conferencistas do ciclo Fronteiras do Pensamento, ao lado do gaúcho Moacyr Scliar.

O Livreiro de Cabul, 3 milhões de exemplares vendidos em quase cem países, traduzido para 40 idiomas, foi o livro mais solicitado para dedicatórias nesta quarta, a partir das 20h30min. A fila imensa de leitores dava voltas em torno da Praça de Autógrafos. Na mesa, flores dos fãs e uma cuia de chimarrão, que a jornalista pediu para experimentar. Provou, mas não terminou. Deixou de lado quando a multidão apareceu – porque não gostou ou porque não teve tempo de ir até o fim do mate já frio.