Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "Feira do Livro 2010"

A poeta e a performance

10 de janeiro de 2011 1

Telma Scherer. Foto de Adriana Franciosi/ZH

 

Acompanho mais de perto o trabalho de Telma Scherer desde 2008, quando ela veio à redação de ZH com um exemplar de Rumor da Casa, seu segundo livro, uma coletânea de poemas que havia sido lançada naquele ano e que fora gestada ao longo de de seis anos de performances artísticas e poéticas em lugares
variados (livrarias, bares, bibliotecas, comunidades carentes), nas quais Telma se deixava contaminar pela interação com o público, uma conexão circular que mais tarde voltava aos poemas, retrabalhados até a forma final apresentada no livro. O resultado eram versos que trabalhavam com oposições entre silêncio e rumor, entre carne e espírito, solidão e erotismo, e tinham filiação assumida com Virginia Woolf, Ana Cristina César e Clarice Lispector. A “casa” do título também faz referência ao feminino, recuperando em epígrafe versos de João Cabral de Melo Neto que já faziam essa comparação entre a sedução feminina e a sedução da casa, moradia e abrigo. Há também uma conexão com “casa da família”, com poemas que fazem referência direta a uma vó que narra histórias enquanto tece seu crochê. A performance artística e seus elos entre o poema, as artes plásticas e as artes dramatúrgicas estava já há tempos no centro do trabalho da autora – que fala um pouco mais sobre seu trabalho nesta entrevista concedida ao blog em maio do ano passado.

Durante a Feira do Livro do ano passado, acompanhei como repórter a performance que Telma apresentava na área central da Praça da Alfândega para falar sobre a figura do artista no sistema literário atual.  Depois de não conseguir nem pagar o apartamento em que morava em Porto Alegre, obrigando-a a se mudar para Florianópolis, nem concluir o livro no qual trabalhava, um romance que seria a reescritura de Clarissa, de Erico Verissimo, Telma apresentou-se aos transeuntes da Feira amarrada a uma casa de cachorro repleta de contas em seu nome. A performance em um primeiro momento pareceu incomodar, os responsáveis pela segurança da Feira se aproximaram e pediram que ela se retirasse, mas nenhuma iniciativa mais dura foi tomada e a performance se encerrou após quase uma hora em que Telma declamou poemas, falou com o público, apresentou as contas em seu nome como cartões de visitas. Voltei para a redação e redigi uma nota sobre o evento. Só quando já saía da redação fiquei sabendo que a performance seguinte de Telma, que seria realizada meia hora depois em um dos corredores da Feira, ao lado da banca da editora com que Telma estava acertada para publicação de seu próximo livro, terminou com a Brigada Militar recolhendo a poeta para o posto da BM que fica ali próximo ao Mercado Público (para quem conhece Porto Alegre). Vocês podem ver as imagens da detenção no vídeo incorporado abaixo:

Como se pode imaginar, a falta de tato com que o assunto foi conduzido repercutiu nacionalmente: a detenção de uma poeta que se apresentava em uma praça em que ocorria uma feira de livro (e apesar da Câmara do Livro ter se manifestado em um tom no qual se eximia da responsabilidade por haver chamado a BM, é bastante clara no vídeo a presença de integrantes da equipe de apoio da Feira que não apenas acompanham a ação sem dizer nada como tomam o partido da BM quando ela é levada). Depois desse episódio, acertei durante algum tempo com Telma, que já havia voltado para Santa Catarina, uma entrevista por e-mail no qual ela avaliaria o episódio depois de passado algum tempo –  a entrevista finalmente se desenrolou depois de alguns atrasos da parte dela e da minha em fazer o papo acontecer. Uma versão editada foi publicada hoje no Segundo Caderno, e compartilho com vocês agora a íntegra da entrevista.

Zero Hora – Passado algum tempo, qual a sua avaliação do episódio de sua detenção na Feira?
Telma Scherer  –
Passou o choque, ficou a memória. A memória nem sempre é passiva e geralmente está grávida de outros acontecimentos. A vida gerou sofrimentos, o sofrimento gerou textos. Depois da performance, pude acompanhar um pouco dos desdobramentos, de longe, observando as reações que ela gerou na sociedade. Passei, portanto, de falante a ouvinte a fim de acompanhar a repercussão, que não cabe a mim controlar, desejar ou julgar. Meu papel, como artista, foi realizado durante a elaboração da performance e na sua execução. O que veio depois é outra coisa. Penso que não é da minha alçada avaliar o acontecimento, já que estou muito envolvida nele e, por isso, não me é possível fazê-lo de forma imparcial ou desinteressada, o que seria de se exigir de uma “avaliação”. Posso falar dos meus sentimentos, idéias e opiniões do ponto de vista da poeta e performer, sem retirar ou despir da minha voz essas marcas características. Escrevi bastante a respeito do que aconteceu no blog: www.telmascherer.blogspot.com.
Os acontecimentos foram divulgados pela imprensa, pessoas que estiveram presentes filmaram e postaram cenas no youtube. De posse das informações, cabe a quem se interesse pelo caso fazer a sua avaliação. Minha performance não teve a intenção de criticar nenhuma pessoa ou instituição em particular, e sim a de propor reflexões sobre o sistema literário. Fico contente com as reflexões geradas. Algumas são brilhantes. Nenhuma instituição controla esse sistema, que é complexo e formado por muitos e variados atores. Um deles, o que é geralmente o menos privilegiado, é o escritor. É do ponto de vista deste que estou falando. Senti um apoio e uma solidariedade muito fortes da parte dos escritores, e também do público leitor. Pude perceber, de imediato, uma recepção interessada e sensível da parte do público que estava presente no momento da performance. As pessoas se manifestaram prontamente, seja me abraçando, elogiando, fazendo perguntas, declarando que haviam se identificado. Algumas falaram seus poemas ou pediram que eu apresentasse os meus versos a elas. Isso demonstra o interesse dos leitores pela poesia e a simpatia que eles têm em relação a ela. Também percebi que na era dos reality shows e das revistas de fofoca, da supervalorização do ter sobre o ser, da redução das pessoas ao seu poder de compra, e da baixeza estética vigente, criar e executar uma performance em praça pública é algo visto como um ato de coragem. Não calculei quantas vezes ouvi e li essa palavra nas últimas semanas, porém de todos os emails recebidos e textos lidos sobre o assunto, ela é a que mais se repetiu, até agora. Saída da voz de professores, de comunistas, de escritores ou de um padre. Dizem que fui protagonista de ato de “coragem”. Isso me preocupa. Há trabalhos muito mais radicais do que o meu, na história ou na arte contemporânea. Nenhum artista deveria precisar de “coragem” para fazer uma intervenção na praça, ainda que polêmica ou mordaz. Não era meu objetivo questionar a liberdade de expressão, mas é para este ponto que se direcionam muitos dos comentários.

Telma durante a perfomance. Foto: Jefferson Bottega/ZH

 

ZH – Você se apresentou amarrada a uma casinha de cachorro recheada de contas em seu próprio nome. Qual era o objetivo da performance?
Telma –
Os objetivos da performance foram anunciados previamente no release da atividade, que publiquei em meu blog dias antes. O release contém uma descrição da performance e os motivos de sua realização, e foi gentilmente divulgado em sites como o Artistas Gaúchos, circulando antes por email: www.telmascherer.blogspot.com. Apresentei uma imagem poética formada por uma combinação de elementos, todos eles escolhidos com vagar, após estudo e preparação. Como imagem poética, a minha performance é radicalmente plurissignificativa e não tenho qualquer controle sobre a recepção e reação, que são sempre livres. Do ponto de vista da intenção criadora, meu objetivo era o de proporcionar aos espectadores a visão de uma cena forte e inquietante, que convidasse-os à reflexão. A intenção da escolha dos elementos foi a de trazer à tona aspectos do processo criativo dos escritores que ficam geralmente à margem, desvanecidos e ocultados pela finalização desse processo e o conseqüente oferecimento (à compra e venda) de um produto, o livro. Quis mostrar o quanto existe de vida real, sofrimento e danação por trás da feitura dos “objetos transcendentes” (como canta o Caetano). Uma gota de sangue em cada página? Muito mais. Penso em Fernando Pessoa escrevendo cartas para pedir dinheiro aos amigos, em Qorpo-Santo gritando “Rebanho!” da sua janela na Praça da Alfândega, em Quintana cambaleando pelas esquinas depois de algumas doses. Penso no “intelectual do ânus“, como se audodenominou Roberto Piva, que morreu entre pedidos de doação. Nada disso parece assunto polêmico, e pouco disso chegará para o grande público, e o mercado do livro poderá utilizar esses incidentes como motivos para o seu lucro. Os escritores aparecem sorrindo nas capas das revistas bacanas, entre prêmios e contratos para filmagem dos seus grandes sucessos. Vivemos, hoje, a Ditadura da Felicidade - e os escritores são aqueles que tem de chafurdar o lodo dos homens, conhecê-los por dentro para manipular as personagens, viver o escuro da existência para proferir um estado humano, humano. Escritores são malabaristas de sentimentos, eles equilibram no ar todo tédio e toda ruína, o êxtase e a loucura – porque, enfim, o cidadão comum, quando procura um livro, quer vivenciar através dele tudo o que não lhe é possível na vida comezinha de todo dia. Emoções: nosso material de trabalho. E é a partir das minhas experiências pessoais que eu crio meus poemas e minhas performances. Misturando aspectos de literalidade (para dar consistência de realismo e comunicabilidade com o cidadão comum) a aspectos de irrealidade, fantasia, complexidade lógica e absurdo. Absurdo, sim. Sem o que os russos chamaram de “estranhamento” nenhuma literatura tem graça, e sou muito influenciada pelo chamado “teatro do absurdo” (nomenclatura que nem tem muita pertinência, mas procura abarcar uma estética em que a quebra com a racionalidade linear pode causar impactos. Por exemplo: um homem amarrado a uma coleira). Esperando Godot é uma referência direta para a minha performance – na qual vivenciei, como Lucky de Beckett, a experiência de estar acorrentada, tolhida, humilhada, sub-humanizada. Lucky, na peça, foi o senhor do senhor que hoje lhe escraviza, porém vive amarrado a uma corda que o enorme Pozzo segura e comanda. Pozzo declara, no segundo e último ato, que aprendeu tudo o que sabe com Lucky. Eu às vezes me considero uma sortuda.
Essa performance surgiu, como idéia, há meses, quando eu encaixotava todas as minhas coisas a fim de deixar o apartamento onde residi nos últimos quatro anos. Com três meses de aluguel não pagos, muitas dívidas, alguns trabalhos agendados, um filme e um romance em fase de finalização, eu fazia uma triagem em minha morada, procurando selecionar o que seria vendido, o que seria doado, o que seria guardado na casa de meus pais. Quando deparei com aquele conjunto de papéis inúteis – boletos bancários, avisos de cobrança, cartas do SPC e Serasa – comecei a formular uma idéia que se transformaria posteriormente na performance. A idéia foi maturada em esboços consecutivos, estudei várias possibilidades e conversei com outros performers. Assim como o compositor faz um samba para se aliviar, ou o autor sente a necessidade de escrever porque um poema ou um conto assim o obrigam (Cortázar o declarou muitas vezes), um poeta-performer também tem, às vezes, o seu chamado imperioso e inegável. Senti a necessidade de criar e realizar essa performance, cuja temática dialoga com a vida cotidiana de milhões de pessoas e, penso, tem um caráter urgente. A partir de elementos da minha própria vida e dos recentes acontecimentos, com meu nome e meu corpo em cena.

ZH — Você já sabe quem chamou a BM para interromper a apresentação?
Telma —
Não.

ZH — Depois da sua detenção houve comentários de que o real motivo teria sido a presença, durante a performance, de uma garrafa de bebida alcoólica que você estaria oferecendo ao público. O que você tem a dizer sobre isso?
Telma —
Não alimente o escritor” ofereceu, como imagem poética complexa, uma gama de signos misturados, colocados em cena a partir de uma escolha refletida e intencional e, nesse sentido, houve um motivo artístico para a escolha de tudo o que estava em cena. O critério de escolha dos elementos foi o poder de criarem, enquanto signo e em conjunto, uma cena forte, impactante, capaz de gerar questionamentos. Para falar aos transeuntes, chocá-los e provocá-los, foi preciso utilizar de contundência, não apenas beleza; escândalo, e não só suavidade.
Havia um conjunto extenso de elementos:
1. os objetos (cobertor vermelho, casa de cachorro, coleira, corrente, contas e boletos bancários em meu nome, placa com a frase “Não alimente o escritor”, copo e garrafa de rum barato com as palavras “Carta Branca“, espelho de mão, bolhas de sabão, caleidoscópio, pote de comida recheado de comprovantes de banco, bloco de anotações com leão na capa, borracha de dez centímetros com frase grafada: “Para grandes erros, BORRACHINHA de Itu“, e lousa a giz com as informações da obra: “Telma Scherer – performance – 2010“);
2. meu corpo em cena (vestido preto retrô com colar preto, maquiagem com olheiras, meu aspecto físico: olhos, cabelos, altura, idade, tom de voz, etc.);
3. minha atuação (minhas expressões faciais e vocais, a manipulação dos objetos, a  interação com o público e as conseqüências delas em meu corpo, como é típico da arte da performance).
A interpretação que isola a bebida alcoólica dos outros elementos e julga o todo pela parte é, no mínimo, redutora. O público não estava incomodado, pelo contrário; ele exigiu que eu continuasse, não se distanciou de mim mesmo com a presença dos policiais e me defendeu sem que eu pedisse. Dizer que o público estava incomodado por causa da presença de bebida alcoólica é fingir que os outros elementos não estavam lá e que mais nada estava acontecendo. Se alguém interpreta a minha performance desse modo, não interpreta a minha performance. Lembro de Barthes em Mitologias. Tomar o signo por um de seus significantes é a forma mais fácil de impor a ele outros significados, exteriores, que geralmente são impostos por critérios extra-linguísticos (ideológicos ou políticos). Por que reduzir uma performance cheia de signos contundentes a uma garrafa de rum? Se se enuncia: “uma escritora alcoolizada” já temos, no mínimo, dois elementos para tecer uma reflexão. Pode-se pensar o “alcoolizada” juntamente a “uma escritora“, e quem sabe a partir disso tecer juízos que tragam à tona a história da escrita e suas relações com o alcoolismo (desde os primórdios da arte performática, com os rituais a Dionísio, a bebida esteve relacionada aos processos criativos, até o exemplo mais próximo a nós das anedotas sobre a embriaguez freqüente de Mario Quintana). Quando se diz uma dessas coisas em separado, de forma isolada, é muito diferente. Por que ignorar os outros elementos, qual a intenção por trás de uma fala que deixa no silêncio justo os elementos que poderiam evidenciar diretamente a temática crítica, os questionamentos? Que tipo de intenção está por trás de uma interpretação como essa e em qual contexto ela se insere? Há várias versões para o “real motivo” do que aconteceu. Eu estaria “prejudicando as vendas”, “atrapalhando a feira”, “obstruindo a passagem”, “oferecendo bebida alcoólica” e, até mesmo, “gritando muito”. Mesmo os policiais que me abordaram deram informações díspares a respeito do que estava acontecendo. O fato é que não houve prisão, não fui fichada, não foi registrada queixa contra mim e o próprio Capitão Fernandes, que me recebeu na delegacia, assegurou-me de que eu não estava cometendo nenhum crime.

ZH — Como você avalia a atuação da Câmara Rio-Grandense do Livro no episódio?
Telma —
Prefiro não fazer qualquer avaliação, e deixo como sugestão a leitura da nota que a Câmara do Livro lançou sobre o acontecimento, publicada junto da matéria de ZH, do dia 13 de novembro. Informo apenas que meu nome figurou na programação do evento desde o ano de 2001, quando apresentei a minha primeira performance, “Pôiesis-Desconjunto“. Desde lá, tive muitas ocasiões de contato com a Feira que, embora negociasse valores, nunca rejeitou minhas propostas de atividades nem me excluiu de sua programação. Nas últimas edições, tive sempre variadas atividades: saraus, performances, oficinas. Na 55a, 2009, ministrei uma oficina de três dias no Centro Cultural CEEE, apresentei um recital na Tenda de Pasárgada e fiz três performances no Feira Fora da Feira (atividade da Câmara que leva o evento aos bairros da cidade). É um trabalho que demanda muita energia do escritor, com público numeroso e heterogêneo, espaços às vezes muito ruidosos e dificuldades estruturais inerentes a um grande evento. Este ano, não enviei propostas, mas estive no Feira Fora da Feira, para três apresentações, a convite da própria Câmara, e com pagamento de cachê. Estranhei a abordagem da nota, na qual a Câmara não parece ciente da minha relação com a Feira. Procurei a produção do evento para conversar sobre isso, porém a conversa não me proporcionou o reconforto que eu imaginara.

ZH — A prisão de uma artista durante uma perfomance em praça pública gerou uma grande discussão no Estado e fora dele. Pela discussão, valeu o episódio?
Telma —
A minha performance surtiu muitos efeitos. O primeiro foi o encanto do público, que esteve ao meu lado, interagindo, pensando, identificando-se, perguntando, emocionando-se com a performance. Esse, para mim, é o mais importante dos efeitos. O mais terrível foi o incidente daquela noite com a Brigada e a Câmara do Livro, um incidente indesejável que, em alguns momentos, eu gostaria muito de esquecer. Todas as manifestações de apoio foram muito importantes para mim, e vieram dos espaços mais próximos e mais longínquos, partindo de poetas, leitores, jornalistas, artistas, políticos (houve uma moção de solidariedade proposta pela vereadora Fernanda Melchionna e aprovada na Câmara de Vereadores)… Recebi emails de alguns dos criadores que mais admiro no país, e ainda não consegui responder a todos os contatos. A reação das pessoas se sobrepõe à minha vontade, extrapola a minha alçada; dela sou uma observadora curiosa e motivada, pois fico contente com as reflexões não apenas como artista mas como cidadã. Alguns dos textos publicados (tanto aqui quanto em São Paulo) destrincham o sistema literário de uma forma que considero pertinente e brilhante. Cada um que se manifesta sobre a performance e o incidente propõe uma nova visada e isso é muito bom. Instalou-se um debate, um debate que é urgente para muitos – ele tomou proporções coletivas e apenas utilizou o caso como motivação. Estou ciente de que raras vezes, quando falam sobre o ocorrido, estão falando realmente sobre a minha performance. Como escreveu Wilde no prefácio de um romance cuja temática o levaria à prisão: “A mais elevada, como a mais baixa, das formas de crítica é uma espécie de autobiografia“. Esse prefácio ainda vem ao caso. Se estão falando sobre o mundo, sobre as suas vidas, sobre os contextos onde lemos, escrevemos e procuramos sobreviver, isso é ótimo. Demonstra apenas que a arte ainda tem essa potência. Há um fluxo constante de relações entre o artista e seu meio (como propôs a curadoria da última Bienal, com os conceitos de grito e escuta). É nessa dialética, sim, que podemos criar. Farei outras performances, muitas, e pretendo continuar utilizando os espaços públicos. Espero que os artistas que assim o desejarem possam continuar celebrando a sua arte nos espaços públicos. É da natureza da arte e das pessoas. A minha performance foi a catalisadora de um grito inaudível a muitos que já se fazia soar. Ela foi uma condensadora de sentidos e uma disparadora de processos, e é justo por isso, justo por isso que havia um espelho em cena.


Um Balanço da Feira

15 de novembro de 2010 3

Esta Feira que termina hoje me fez chegar a duas impressões absolutamente distintas.

A primeira é que para sujeitos como eu e outras pessoas com quem conversei – colegas jornalistas ou escritores, gente que frequenta livrarias o ano todo e costuma comprar livros a intervalos mais ou menos frequentes ao longo dos 12 meses do ano —, a Feira não anda tão atraente assim há tempos: os amplos e suculentos descontos que sempre fizeram a graça e a chama do evento ou andam sumidos ou, quando praticados, não chegam a constituir um atrativo de fato, principalmente quando oferecidos, em plena Feira, pelas lojas de grandes redes do setor. E o livro muitas vezes já é caro na origem, e o desconto amortiza o impacto, mas não o dilui (o que vale para a literatura de ficção que eu consumo ou os livros técnicos que gente que eu conheço compra). Venho notando um gradativo declínio no número de livros que eu costumava comprar de uma Feira para outra – o que é engraçado, porque chego à conclusão de que adquiria mais livros nos balaios da Feira quando ganhava uma merreca em estágios intermediados pelo CIEE em meados dos anos 1990 do que hoje, quando sou um profissional muito melhor remunerado em comparação com aquela época. Claro, isso é uma questão minha e não pode ser generalizada para a Feira, mas acho que é uma sensação que se conecta com coisas que as demais pessoas citadas ali na primeira frase deste parágrafo também comentam (não esqueçamos que, se fosse uma impressão só minha, talvez não tivesse passado pela feira uma caravana como a dos “saldosistas“).

Outro ponto que reforça esta impressão é que um certo caráter paroquial que a Feira tinha até ali os primeiros anos da década de 2000 se foi, e eu particularmente não estou lamentando por isso, apenas constatando. Não sei se isso é melhor ou pior – provavelmente para quem via a praça como um ponto de encontro de uma certa comunidade cultural seja uma decepção, mas a expansão de qualquer evento que cresceu ininterruptamente ao longo de meio século levaria inevitavelmente a este ponto — e além do mais, as possibilidades de contato frequente não são necessariamente escassas nesta era digital (dois dos meus melhores amigos, quase irmãos, hoje vivem um em Florianópolis e outro em Curitiba, e nem por isso deixei de manter contato quase diário, no mínimo semanal, via e-mails, gtalques e emessenes). Logo, a praça como pretexto de encontro ainda está lá para quem quiser usá-la, embora este não venha sendo mais o centro da questão – e provavelmente será cada vez menos. Acho que a Feira vai se tornar mais um evento centrado em palestras e mesas sobre temas relevantes do mercado literário e da literatura (o que não é ruim, também, é só outro jeito de fazer a Feira). Ainda que o episódio da poeta Telma Scherer, que começou uma performance de poesia na praça e a terminou em um posto da Brigada Militar, mostre que ainda se tem de avançar muito se se quer criar um espaço de arte e diálogo aberto, e não apenas sujeito à programação oficial.

Por outro lado, o que me leva à segunda impressão, não se pode ignorar os números (talvez apenas gênios do porte de um Nelson Rodrigues possam declarar impunemente que a objetividade é idiota e que a estatística é burra). E o fato é que esta feira, mesmo convivendo com um General Osório ensacado, canteiros esburacados e um espelho d’água quase transformado em criadouro de mosquitos registrou números muito melhores do que o ano passado e provavelmente o ano anterior também (talvez até mesmo o antepenúltimo ano, mas isso é melhor esperar os números oficiais da Feira toda para dizer). E muitas das pessoas com quem conversei na Feira, o passante eventual, o sujeito que espera justamente a Feira para ver livros (e às vezes comprar só um), o frequentador que gosta da Praça como um programa social no Centro já tão abandonado, para esses a Feira é um sucesso, e a Feira deles é tão válida quanto a minha. O ponto deixou de ser da tal comunidade intelectual/artística, mas é uma oportunidade de encontro das pessoas com os livros no meio da praça, não no ambiente por vezes demais protegido de uma livraria. A Feira no cais é um passeio no qual crianças associam livros e histórias à beleza natural daquela paisagem oculta durante o resto do ano, e quem sabe o que isso poderá fazer no futuro na cabeça desses potenciais leitores? Talvez transformar livros em uma memória associada às melhores experiências de infância, criando um afeto pela literatura que a escola na maioria das vezes não consegue. E assim, não se pode dizer que a Feira não esteja mais executando o projeto que motivou sua própria criação, 55 anos atrás: levar os livros ao povo e ao espaço público, porque isso é sim feito. A Feira é notícia, e tema para discussão mesmo quando as avaliações são mais pessimistas do que otimistas, como foi o tom de muitos dos comentários sobre a Feira feitos no ano passado. São duas semanas em que o livro volta à arena pública. Quem pode dizer que isso é ruim? Márcio Renato dos Santos, escritor e jornalista da Gazeta do Povo do Paraná e do jornal Rascunho, no debate sobre Literatura e Novas Mídias ocorrido na tarde de sábado no Centro Cultural Erico Verissimo, chegou a dizer que sempre se fascinava ao vir a Porto Alegre e encontrar aquela Feira tão tradicional e funcionando ano após ano, algo que, ele lamentava, Curitiba ainda não conseguiu fazer:

– Vocês que vivem aqui, talvez não percebam a real dimensão do que é ter uma feira como esta. Eu gostaria que a organização daqui fosse ao Paraná para ministrar cursos lá sobre como manter uma iniciativa desta por mais do que três anos. – foi o comentário

São essas duas feiras que convivem na Praça. E por isso, não se pode dizer agora que uma prevaleça sobre a outra. Até porque, pensando bem, não são duas feiras, esqueçam a imagem inapropriada. O que temos são dois modos de enxergar a mesma feira. Que cada um escolha o seu ou faça como eu: tente buscar o equilíbrio entre essas duas visões. E entre muitas outras.

Os Saldosistas na Feira

10 de novembro de 2010 3

Como vocês puderam ler aqui, no site especial de Zero Hora sobre a Feira do Livro de Porto Alegre, um bem-humorado movimento de leitores “saldosistas”, reivindicando mais e melhores balaios a preços baixos, prometia passar hoje pelos corredores da Praça da Alfândega. Pois eles cumpriram. Por volta de 19h30min desta quarta-feira, os Saldosistas voltaram à Feira para entregar pirulitos aos passantes. Entregaram também ao presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), João Carneiro, o seu manifesto em favor de mais saldos e de uma caixa de promoções em cada banca instalada na Praça (como vocês podem ver na foto acima. Crédito: Rômulo Valente/CRL).

– Estamos entregando este manifesto em favor de mais promoções atraentes na Praça – explicou Rejane Guariglia, uma das coordenadoras do movimento.

– Achei o movimento de vocês muito “saldável”, muito divertido – respondeu, sorrindo, Carneiro, devolvendo o trocadilho que dá nome ao grupo – mas discordo em parte da necessidade de se ter um balaio em cada banca. Temos bancas em que se fazem promoções diárias com os livros de catálogo. O objetivo é tornar o livro acessível, e há mais de uma maneira de fazer isso, não apenas o saldo – respondeu Carneiro.

O grupo aproveitou e entregou mais dois pirulitos ao presidente. Carneiro agradeceu, mas, por ser vegetariano, pediu para trocar os seus pirulitos, de iogurte sabor laranja e morango, por outros, de sabor morango e uva, simplesmente. Os saldosistas deixaram a praça acreditando que seu movimento foi bem sucedido em um primeiro momento.

– Nosso objetivo era pôr o assunto em discussão, e isso conseguimos, de modo bem-humorado e sem nenhuma estrutura. – disse Rejane.

– Nossas passagens pela Feira mostraram que muitos leitores e até alguns livreiros se identificam com nosso manifesto – comentou João Brites, outro dos organizadores

Os Saldosistas adotaram até um hino informal, uma versão bem própria da canção Balaio, de autoria de Barbosa Lessa e do patrono desta Feira, Paixão Côrtes:

Balaio meu bem, balaio Sinhá
Balaio do Coração
Banca que não tem balaio, Sinhá
Bota seus livros no chão.

Notas sobre Romances Coletivos

10 de novembro de 2010 2

Daqui a pouco, às 18h, na Feira do Livro, no térreo do Memorial do Rio Grande do Sul, uma turma de alunos da oficina de criação literária ministrada pelo patrono da Feira do Livro 2006, Alcy Cheuiche, autografa dois romances históricos escritos a várias mãos: Porto Alegre dos Casais:  Chegadas e Partidas e Nos Caminhos do Banrisul. O primeiro é uma saga histórica que acompanha Porto Alegre da época da povoação guarani até a Revolução de 1930. O segundo, uma reconstituição ficcional da implantação do banco que dá título ao livro. E não, não li nenhum dos dois, estou tirando estas informações da sinopse que está na orelha. Não é a primeira vez que os alunos de Alcy Cheuiche escrevem ao fim de sua oficina um romance a várias mãos – li dois deles, Ituzaingô, a Saga das Lutas na Fronteira Sul e Banco Não Dá Bom Dia (seria o “romance bancário coletivo” um gênero em ascensão?) quando fui jurado do Prêmio Açorianos na categoria Narrativa Longa, no ano passado (a propósito, o Açorianos divulgou esta tarde sua lista de finalistas. Leia mais aqui, no site do Segundo Caderno). É que a circunstância desses dois autógrafos em particular me despertou o mote para alinhavar algumas notas a esmo sobre a própria existência dessa criatura a princípio tão impróvavel quanto o basilisco: o romance coletivo.

***

Está lá no já clássico A Ascensão do Romance, estudo publicado em 1957 por Ian Watt sobre a trinca de fundadores do gênero em língua inglesa, Defoe, Richardson e Fielding (e que acabou de ser relançado em formato bolso pela Companhia das Letras – capa ao lado, tradução de  Hildegard Feist, R$ 25,50, 352 páginas, para quem estiver interessado). Watt vincula a afirmação do romance na Inglaterra da primeira metade do século 18 a circunstâncias históricas como o surgimento da classe média e o individualismo burguês.

O romance, na visão de Watt, devia muito à concepção de verdade instaurada a partir do pensamento de Descartes: “Uma questão inteiramente individual, logicamente independente da tradição do pensamento e que tem maior probabilidade de êxito rompendo com essa tradição“. A contraparte literária dessa visão, portanto, seria o romance, “cujo critério fundamental era a fidelidade à experiência individual – a qual é sempre única e, portanto, nova”, diz Watt. Expressão literária da modernidade, o romance é, assim, a visão de mundo de um indivíduo sobre sua época – algo levado ao máximo pelos gênios Dostoiévski, Balzac e Zola, entre outros.

***

Logo, pensar em “romance coletivo” seria uma contradição em termos. Como imprimir uma visão única numa obra fruto de negociações, concessões e até choques de duas ou mais vontades diferentes? Talvez já prevendo que seria difícil jogar esse tipo de jogo colaborativo na chamada literatura “séria” do grande realismo, várias tentativas foram efetivadas – algumas com sucesso — nos nichos da literatura de gênero tributários do folhetim. Na seara dos romances policiais, para dar só um exemplo, não são raras as experiências de um “pseudônimo coletivo” debaixo do qual se esconderiam vários escritores que escreviam cada qual um livro, como Ellery Queen, mas há os casos dos romances escritos efetivamente em parceria — um deles é o dos franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac, que sob o nome de Boileau-Narcejac assinaram vários títulos policiais, alguns bastante famosos, como As Diabólicas. Nos anos 1940, eras antes de esse tipo de procedimento ser facilitado com as modernas tecnologias de comunicação escrita em tempo real, os dois trocavam ideias ou capítulos inteiros pelo correio (um morava em Paris e o outro em Nice, e ambos se visitaram pessoalmente pouquíssimas vezes).

***

Mas a produção coletiva também atendeu por algum tempo o desafio imposto a si mesmo por mestres que se dedicaram a isso como uma brincadeira intelectual refinada. Jorge Luis Borges e Bioy Casares conceberam juntos, sob a assinatura de H. Bustos Domecq, o detetive Don Isidro Parodi, mestre da dedução que resolve os crimes sem sair de sua cela de prisão — algo que remete ao Dupin de Allan Poe, outro que não deixa seu gabinete para resolver crimes que lê pelos jornais, ou ao imenso gourmet Nero Wolfe, da série de romances de Rex Stout, que prefere ficar degustando pratos elaborados em casa enquanto o seu assistente Archie Goodwin faz o serviço sujo na rua.

Mesmo dois ferrenhos cultores do realismo literário à portuguesa, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, dedicaram-se no início de suas carreiras a um romance que mistura o romantismo gótico de Victor Hugo com intrigas à inglesa em O Mistério da Estrada de Sintra, que em seu prefácio da reedição (ao menos da reedição que eu li, faz muitos anos, ainda morava em São Gabriel) Eça desdenhava como uma “travessura de pura imaginação” cujo maior valor era, para ele, uma recordação da amizade que tivera com Ortigão, já falecido. Nos dois casos, contudo, a parceria permanece, como antes mencionado, vinculada à literatura de gênero, um intervalo na obra regular de seus autores – e que não alcança as realizações individuais dos parceiros na empreitada.

***

Com a explosão das restrições de gênero na chamada pós-modernidade e o questionamento da própria noção de autoria, esse tipo de experiência se intensificou. A ideologia vigente no pós-modernismo é, de algum modo, herdeira da visão de Duchamp nas artes: no momento em que a obra se faz sobre uma colcha de retalhos ou sobre elementos produzidos em série pela sociedade industrial, é a junção dos elementos que garante a visão única – como no caso das histórias de diversas fontes rearranjadas por Georges Perec em A Vida: Modo de Usar (outro que ganhou recente reedição pela Companhia de Bolso). Mas as experiências mais intensas de literatura em parceria, curiosamente, parecem ainda restritas à literatura de gênero sobreviveram – são exemplos  o duo entre Stephen King e Peter Straub no romance de terror O Talismã e o de Neil Gaiman e Terry Pratchett na narrativa fantástica Belas Maldições.

***

Há também famosos exemplos no Rio Grande do Sul, alguns remontando à época dos folhetins de imprensa do século 19, como a novela Estrychnina, fantasia romanceada sobre um crime real publicada em 1897 e assinada coletivamente por Mário Totta, Paulino Azurenha e Sousa Lobo. Mas o mais famoso exemplar de obra coletiva gaúcha completou 25 anos em 2007 e ganhou nova edição pela L&PM: Pega pra Kapputt, paródia de folhetim escrita por Luis Fernando Verissimo, Moacyr Scliar e Josué Guimarães e com trechos em quadrinhos de Edgar Vasques. Em que pese a expectativa gerada por um encontro de quatro grandes artistas, o livro permanece mais como uma curiosidade do que algo que pode ser arrolado entre o melhor da obra de seus autores — o que parece ser uma tendência do livro composto em parceria. Uma tendência com alguns desvios, como no caso do recente O Verão do Chibo, romance escrito por Vanessa Bárbara e Emílio Fraia e que foi bem recebido pela crítica.

 

Conversa de Primos

09 de novembro de 2010 0

A escritora carioca Tatiana Salem Levy, (com o microfone na foto, de autoria de Bruno Alencastro/CRL) autora do impactante A Chave de Casa (sobre o qual você pode ler mais aqui) comentou na mesa realizada ontem na 56ª Feira do Livro o quanto o livro Primos (Record, 2010), organizado por ela e Adriana Armony, tinha a pretensão de ser contra a corrente que enxerga na relação entre árabes e judeus uma história ancestral de conflito. Ao menos ontem no Salão Barbosa Lessa do Centro Cultural Erico Verissimo, na mesa sobre as representações de árabes e judeus na literatura brasileira que reuniu Tatiana, Moacyr Scliar, Cíntia Moscovich e Fabrício Carpinejar, esse objetivo foi cumprido. Na conversa, mediada pelo jornalista Reinaldo Azeredo, todos preferiram ressaltar, na maior parte do tempo, as semelhanças e a convivência de séculos entre uns e outros do que as relações tempestuosas dos últimos 50 anos.

A mesa começou sem Scliar – um problema de comunicação fez com que o integrante da Academia Brasileira de Letras ficasse mais de meia hora esperando pela mesa em outro local, Scliar só chegou às 19h20 no encontro marcado para 19h. Primeiro a falar – precisava sair mais cedo para ministrar uma aula – Carpinejar, descendente de libaneses por parte do pai, Carlos Nejar, narrou o quanto sua convivência com o ramo árabe da família se fez descobrindo que as relações numa família árabe parecem feitas de puro presente, sem menções ao passado.

– Os homens não falavam sobre o passado. Não se podia perguntar nada, a curiosidade sobre o passado soava como uma invasão. Havia um piano de cauda trancado na casa, e ninguém tocava, e nós sabíamos que não podíamos perguntar nada.

Essa relação de silêncios, contudo, não era árida, e sim carinhosa.

– Os homens árabes se cumprimentam com beijo no rosto, é comum. Só descobri que isso era estranho para os outros quando entrei no colégio e ia cumprimentar os coleguinhas. Fiuquei com fama de veado. – disse o performático poeta.

Tatiana Salem Levy foi então chamada para explicar o projeto do livro Primos, que reúne contos de autores de ascendência familiar judaica (como a própria Tatiana, Moacyr, Cíntia, Bernardo Ajzenberg e Leandro Sarmatz, entre vários outros) e árabe (Salim Miguel, Carpinejar, Georges Bourdoukan, Alberto Mussa, Samir Yazbek, para citar alguns).

– Queríamos mostrar que no Brasil as duas comunidades sempre conviveram, que mantêm laços, e contrariar as rivalidades do noticíario. Para quem não conhece as duas culturas, a ideia é que árabes e judeus nasceram para se odiar e que sempre foi assim, quando a história registra séculos de convivência.

Intervindo, Cíntia Moscovich comentou que o silêncio sobre o passado não era necessariamente uma característica árabe. Lembrou da mãe, que não falava íidiche, porque seus avós, judeus chegados da Bessarábia na década de 1910, só falavam com os filhos em português.

– Acho que havia uma vontade de integração que passava pelo idioma. – arriscou Cíntia.

Quando Tatiana Salem Levy comentou que sua família era de judeus sefarditas, e não azquenazi, e que falavam o hoje correndo risco de extinção idioma ladino, ela e Cíntia se dedicaram a elucidar o público sobre as diferenças entre ambos: os sefarditas judeus, da península ibérica, os azquenazi mais presentes no leste europeu.

Já com o papo bastante adiantado, chegou Moacyr Scliar – que pegou o mote da convivência ancestral que Tatiana vinha desenvolvendo e lembrou o quanto judeus e árabes conviveram durante os tempos de dominação islâmica na Espanha. Ao falar dos sombrios tempos atuais com o conhecimento de quem já esteve muitas vezes em Israel desde a décad de 1970, Scliar criticou tanto os radicais islâmicos palestinos quanto o radicalismo de parte dos israelenses ortodoxos.

– Vi um documentário na TV recentemente que entrevistava uma americana emigrada para Israel de uma comunidade no Brooklyn que dizia, fervorosamente: “Esta terra é nossa, Deus nos deu esta terra, os árabes é que têm de sair daqui”. E depois foi entrevistada uma mulher palestina: “Minha família mora aqui há 800 anos. Não temos para onde ir”. – contou Scliar, antes de defender que a conciliação é a única saída possível para o drama do Oriente Médio e sugerir a leitura de três grandes escritores israelenses também eles defensores da convivência entre os dois povos: Amos Oz, David Grossman e A.B. Yeoshoua.

Três perguntas para Ivo Bender

03 de novembro de 2010 3

Um dos dramaturgos mais conceituados do teatro contemporâneo, Ivo Bender narrou ontem, em uma conversa com a professora Regina Zilberman no Centro Cultural Erico Verissimo, durante a tarde, o impulso que o fez lançar-se como escritor em prosa depois de décadas dedicadas à dramaturgia. Em uma sala O Retrato lotada, contou histórias e mapeou as amplas relações que existem entre os nove relatos reunidos em Contos (L&PM) e casos de seu próprio passado como jovem que cresceu em região de colonização alemã. Ao fim da conversa, Bender gentilmente respondeu a três perguntas:

Mundo Livro – O que é mais difícil de compor, a prosa de ficção ou o texto dramatúrgico?
Ivo Bender - A prosa de ficção é muito mais fácil. Enquanto no teatro o autor tem de lidar o tempo todo com diálogos, tem de sustentar a ação dramatúrgica com as falas, no texto de ficção há um narrador, uma liberdade enorme para avançar a narração, com descrições. No teatro não se tem isso, a não ser que em uma peça brechtiana, o que é exceção.

Mundo Livro – Seus contos têm o nome das localidades do interior nos quais são ambientados. É uma espécie de mapa afetivo das mitologias do interior?
Ivo Bender -
Sim, o nome original até seria O Mapa do Coração, mas depois mudou. Eu trato sim das mitologias de província, mitologias familiares, mitologias gaúchas.

Mundo Livro – As pequenas cidades e os núcleos familiares são um tema de sua predileção, estão tanto em suas peças quanto em seus recém-lançados contos. O interesse de sua ficção é o detalhe?
Ivo Bender -
Quando escrevo, me lembro muito do que já disse Aristóteles: o círculo familiar é o espaço ideal para a irrupção das tragédias.

O argentino e o uruguaio

02 de novembro de 2010 0

Amanhã, o escritor de Jaguarão Aldyr Garcia Schlee estará em Porto Alegre para o lançamento do monumental Dom Frutos, uma biografia do caudilho uruguaio Dom José Fructuoso Rivera, um dos 33 orientales que  foram fundamentais para a independência do Uruguai – e que mais tarde se tornaria o primeiro presidente constitucional do país vizinho.

Rivera morreu em Jaguarão, terra natal de Schlee, e o romance centra foco no período de 10 meses em que o caudilho passou aquartelado na cidade, tentando recuperar-se de uma doença para prosseguir viagem em direção a Montevidéu, onde comporia o governo com Lavalleja e Venâncio Flores. Desse período, o presente da narrativa romanesca (ou “diegético”, como preferm os mais técnicos), a história faz saltos ao passado para narrar a trajetória do político e militar, utilizando, para isso, muitas vezes documentos transcritos ou mesmo inventados. Para mergulhar na psique de uma figura tão instigante, Schlee precisou imaginar até mesmo a linguagem do caudilho. E para isso, foi fundamental um argentino: Domingo Faustino Sarmiento, autor de Facundo, clássico ensaio sobre a mentalidade caudilhesca que Schlee traduziu para a Editora da UFRGS nos anos 1990.

– Muito da linguagem pessoal do Rivera, a linguagem de tratamento cotidiano, saiu dali – conta Schlee.

Trecho do Dia: Ivo Bender

02 de novembro de 2010 0

Na manhã seguinte, mal clareava o dia, rosto lavado mas barba por fazer, Felipe estava na cozinha. Guilhermina, ao fogão, fritava ovos para servir aos homens no café. Ele rompeu o silêncio:
– Essa noite, quando no escuro abriste a porta do meu quarto… – aqui sua fala foi cortada pela pergunta de Guilhermina:
– Como assim?
Felipe prosseguiu:
– Essa noite, quando me procuraste…
– Não te entendo.
– Se já esqueceste o que aconteceu ou se não queres lembrar…
O diálogo apenas iniciado foi subitamente suspenso pelo cumprimento dos dois peões que chegavam. Com um “dá licença, Dona Guilhermina, bom dia ‘Seu’ Felipe”, sentaram à mesa e o desjejum foi servido.

Aquele dia foi longo e penoso para Felipe. Não conseguia tirar da mente a conversação interrompida e que, seguramente, já não teria continuidade. Ao correr das ideias que lhe atropelavama mente, a impressão que ficou era a de que a mulher que à noite estivera em seu quarto não era a mesma que encontrara pela manhã.
Nos dias que se seguiram, Felipe enfrentou alguma dificuldade ao se dirigir a Guilhermina. Continuava sem entender a recusa da moça em admitir o encontro de que haviam desfrutado. Guilhermina, porém, inexplicavelmente, estava mais afável do que jamais estivera e o tratava com certo carinho que, no entanto, tinha o cuidado de não acentura. Talvez, pensou Felipe, ela fosse dessas mulheres lunares, sobre as quais o padrinho o alertara. Mulheres que sempre mantêm o homem a uma desamparada distância, de humor instável e que sustêm o companheiro preso numa teia de insegurança. Tais sentimentos e a obsessiva busca de explicação foram abrandados quando, em longa conversação por Guilhermina iniciada, Felipe contou-lhe alguns episódios engraçados de seu tempo de estudante. E quando a conversa derivou para o trabalho, a convenceu da compra de um pequeno trator e de como seria mais lucrativo diversificarem as lavouras. A partir desse momento, ele percebeu um brilho novo, uma cintilação de contentamento no olhar da moça. E, finalmente, ao ficarem acertadas as melhorias a serem implantadas, ela disse:
– Penso que chegou a hora de saberes um pouco mais a respeito da minha família e de mim mesma. Eu fui a primeira menina, em gerações, a nascer entre os Hartmann. O pai nunca desculpou minha mãe por ter gerado uma mulher. Rompera-se a tradição da família e, como consolo, lhe restou me vestir como um garoto até a adolescência. Minha mãe era uma pessoa bondosa e levou o resto da vida assim, ordeira e trabalhadora. Eu recebia seu carinho. apenas quando o olhar controlador do pai se fazia ausente. Assim foi até o dia em que ela morreu. Então, com as primeiras menstruações, me dei conta de que se tenho sangue dentro do corpo para esbanjar a cada mês e nem por isso morro, devo carregar em mim alguma força desconhecida. Fugi para São Sebastião, certo dia, com algum dinheiro que surrupiei do velho. O menino que saíra daqui pela manhã voltou à tarde como menina. Ao me ver, o pai grunhiu feito um bicho, sentiu-se mal e me pediu ajuda. Dei-lhe um copo d’água. Ao se recuperar, não mais falou no assunto. Nem naquele dia, nem nunca mais.

O trecho acima foi extraído de Contos (L&PM), obra que reúne nove relatos curtos escritos por Ivo Bender (na foto acima, de 2008. Crédito: Fernando Gomes, ZH)– um dos maiores dramaturgos contemporâneos, agora arriscando-se na seara da prosa de ficção. Bender participa hoje, às 16h30min, na Sala O Retrato do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, de uma conversa com a professora de literatura Regina Zilberman, que também assina o prefácio da coletânea. Em Contos, o leitor encontra nove histórias que enfocam o imaginário, a vida diária, os mistérios cotidianos de cidades do interior do Estado, com ênfase nos municípios de colonização alemã.

Na história da qual foi retirado o excerto que vocês leram acima, Pedra Marcada, Felipe, um jovem técnico agrícola, chega a uma estância no interior, na cidade de São Sebastião, e é envolvido imediatamente pelo caráter misterioso, por vezes algo sobrenatural, de Guilhermina, filha única de um idoso e adoentado proprietário. São narrativas que vão buscar no tom do causo a forma para trabalhar o desconhecido nas comunidades do interior. No relato que abre o livro, por exemplo, Campos de Santa Maria do Egito, é por meio das hipóteses para o nome de um rio/arroio que cruza determinada cidade, o Rio do Corpo, ou Arroio do Corpo, que Bender constrói o conto, montando assim em poucas páginas uma história da região e mostrando o quanto as crendices religiosas e supersticiosas influem na mentalidade de uma comunidade interiorana. Como diz Regina Zilberman no prefácio:

…a maioria das histórias inicia-se por uma descrição meticulosa do espaço onde transcorre a narrativa, conferindo particular ênfase às características da natureza. Destacam-se sobretudo as estações próprias aos climas temperados, como o inverno e o outono, períodos menos solares e mais inclementes, nem sempre favoráveis à ação humana, como se o contista desejasse demarcar a diferença e a excepcionalidade do espaço vivido pelas figuras ficcionais. A ausência de menções à modernidade ou à tecnologia – os meios de transporte são precários ou inexistentes ( em Aljofres, o caseiro sugere ao tradutor que passeie a cavalo; em Sonora, Romano chega a pé às terras de Bertholdo; em Pedra Marcada, Felipe caminha até a fazenda de Guilhermina); os agrupamentos humanos carecem de aparelhos típicos da vida urbana (em Vale das Tílias, não há hotel e o narrador hospeda-se  em uma residência que ocasionalmente funciona como pensão; situação similar ocorre com Felipe, em Pedra Marcada) – complementa a estruturação do ambiente, que se mostra anacrônico ou primitivo, mesmo quando os eventos se desenrolam nas últimas décadas do século XX ou no começo do século XXI.

Como é bom ser best-seller

01 de novembro de 2010 0

Antes mesmo de o livro 1808 se tornar o best-seller avassalador dos anos seguintes, o jornalista Laurentino Gomes veio lançar a obra na Feira do Livro de 2007, em Porto Alegre. O livro, que reconta a viagem ao Brasil da corte portuguesa com Dom João à frente e a subsequente instalação de um Estado de fato no Brasil tornado reino unido com a metrópole, recém havia sido publicado.

Ainda não havia chegado o ápice da repercussão de 1808, que viria no ano seguinte, com os 200 anos da chegada da corte e a concessão do Jabuti de melhor livro na categoria Não Ficção. Daí porque a sessão de autógrafos não foi das mais concorridas – fato que Laurentino lembra até hoje.

— Foi uma situação muito engraçada. Eu fiquei sentadinho ali esperando os meus seis ou sete leitores e olhei para o lado e havia um escritor autografando um livro chamado Como é Bom Ser Gremista (de Natal Augusto Dornelles, editora BesouroBox). E eu ali, humilhado com a minha fila reduzida — conta, rindo, Laurentino.

De lá para cá, a situação mudou, claro. Laurentino voltou à Feira em 2008, foi alvo da atenção de muito mais gente, e agora autografa 1822, a continuação de sua obra (sobre a qual é possível ler mais aqui mesmo no blog), desta vez voltada para a Independência do Brasil. Devido à grande recepção do livro, as sessões de autógrafos de Laurentino são concorridas.

— Meu medo é que desta vez tenha alguém do meu lado autografando Como é bom ser Colorado — brincou.

Temor infundado. Embora ser colorado seja, sim, muito bom, Laurentino autografou para um bom número de leitores.

Memórias de Setorista: Alma lacônica

29 de outubro de 2010 1

Felipão e o professor  na Feira em 2002. Fotos de Ricardo Chaves, ZH

Participei da primeira cobertura de uma Feira do Livro em 2002.  Na época eu ainda não fazia parte da equipe fixa do Segundo Caderno. A responsável pela área de livros era a escritora Cíntia Moscovich, e eu trabalhava na editoria de esportes, como setorista de Internacional. Como a Cíntia precisaria se ausentar bem no período da Feira, a equipe montada para a cobertura precisaria de um repórter a mais, emprestado de alguma outra editoria do jornal. Minha amiga Camila Saccomori sugeriu o meu nome para a editora-executiva, Cláudia Laitano, e foi assim que eu acabei passando aquela quinzena no vaivém entre a redação e a Praça da Alfândega.

Dada a minha procedência esportiva, não houve muita dúvida sobre com quem ficaria a capa do Jornal da Feira no dia 12 de novembro, data em que o técnico Luiz Felipe Scolari estaria em Porto Alegre para autografar, ao lado do Professor Ruy Carlos Ostermann, o livro A Alma do Penta. A obra mesclava os trechos de um diário mantido por Felipão durante a campanha do Brasil na Copa da Ásia com a biografia do técnico escrita por Ruy Ostermann – que vinha a ser também o patrono daquela Feira 2002. O livro já havia tido um lançamento um tempo antes, em setembro, mas a presença do técnico Campeão do Mundo em plena Praça da Alfândega dava àquela sessão de autógrafos nova feição.

Prometia ser uma das mais concorridas da Feira – e de fato foi. Felipão começou a autografar às 17h22min. Eram outros tempos, de uma Feira menor e até mais paroquial, com seu pavilhão de autógrafos instalado exatamente no centro geográfico da Praça. No horário marcado para a sessão, 17h – Felipão se atrasou em um compromisso anterior, em Canoas – a fila se estendia como uma gorda jibóia em direção à estátua do Marechal Osório e prosseguia inexorável até acabar na Rua da Praia, quase em frente ao Clube do Comércio. Felipão só sai da mesa às 19h30min, e  ele e Ruy quase não tiveram chance de trocar uma palavra – autografavam direto na capa do livro e já iam para o próximo, como numa linha de montagem. Na imprensa, cotovelaços, pisões de pé, um empurra-empurra selvagem para tentar se aproximar do pavilhão congestionado (como se pode ver na foto abaixo) .

Felipão no Pavilhão de autógrafos (ali perto do garçom) e a fila que se estendia até a Rua da Praia.

Mas isso tudo foi com Felipão já em Porto Alegre. Antes, havia que falar com ele para a matéria de capa do próprio dia 12 de novembro, dia da sessão de autógrafos. Depois de muita negociação com agentes e assessores, nos foi passado na tarde do dia 11 de novembro o número de telefone de um hotel em Buenos Aires, no qual Felipão estava hospedado se preparando para uma conferência que faria a convite da Associação Argentina de Técnicos. O combinado era ligar às 19h em ponto e gravar o que ele falasse para uma entrevista ao estilo “pingue-pongue”, como se chamam no jargão jornalístico as entrevistas publicadas no formato pergunta e resposta. Como setorista de esportes, contudo, eu já sabia de antemão que o sucesso da empreitada dependia do sempre inconstante humor do entrevistado. Foi com esse espírito de esperar um desastre à espreita que me preparei para fazer a ligação.

O telefonema é feito pontualmente. Felipão atende com aquela candura de sempre, bem conhecida até hoje por quem acompanha ainda que de longe o noticiário esportivo:

– Estou saindo do banho. Quem mandou ligar agora?

O repórter, deste lado da linha, avisa que foi a própria pessoa que nos passou o fone que havia determinado o horário. Pergunto se posso ligar então em 10 ou 15 minutos para conversarmos sobre o livro. A resposta vem gotejante da bonomia e da boa vontade próprias ao treinador:

– Mas de jeito nenhum. Tenho de me preparar para uma palestra agora na Associação de Técnicos, não tenho como pensar nisso agora. Feira, só na hora.

Explico outra vez que para nós seria importante tentar falar com ele, nem que seja em outro horário. É importante ter alguma palavra do treinador sobre o livro e seus bastidores.

– Isso aí foi ideia do Ruy, ele que me disse para ir mantendo o diário. O livro é do Ruy, eu sou só convidado. Eu sou técnico de futebol, não escritor, escritor é ele. Tenho de ir.

Tentando agarrar-se àquele fiapo de conversa – ainda que enviesada – o repórter pergunta rapidamente algo que possa amenizar o clima e fazer o entrevistado abrir-se um pouco mais para as próprias recordações: “Mas e a Feira? O senhor quando morava aqui frequentava a feira?”

– Sim, eu ia. Costumava passear lá. Agora tchau que eu tenho de ir.

Dado o número e a extensão das frases ditas por Luiz Felipe ao longo da conversa, a suposta ideia de um “pingue-pongue” havia desabado mais rápido que a zaga da China ao enfrentar Rivaldo, Roberto Carlos, Ronaldo e Companhia na Copa daquele ano. Não havia como “derrubar a pauta”, para usar outro jargão do ofício. O técnico do penta em Porto Alegre era o assunto mais palpitante do dia, independentemente das agruras do repórter.  Havia, contudo, como contornar contando exatamente o motivo da pressa, o laconismo do entrevistado, sua reticência em ser um autor na praça dos autógrafos. E um papo com o sempre cortês professor Ruy forneceu outros subsídios para um texto de perfil mais trabalhado e menos cru, e com mais algumas fotos retiradas do próprio livro estava lá mais um texto na página impressa.