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Posts na categoria "Feira do Livro 2011"

Cinco verdades sobre o futuro dos livros e da escrita

15 de novembro de 2011 2

O time reunido na Sala dos Jacarandás era, como disse o mediador Juremir Machado da Silva, tão bom quanto o do Internacional vencedor do Mundial. Reunidos, Eric McLuhan, Federico Casalegno, William Uricchio , Georges Bertin e Jean-Bruno Renard tomaram para si a difícil tarefa de atualizar a célebre frase de outro McLuhan, Marshall, que afirmava que “o meio é a mensagem”. Será que o meio ainda é a mensagem? A pergunta não foi respondida, mas o time de acadêmicos deixou clara uma série de pressupostos que, se não respondem à pergunta, pelo menos encaminham uma resposta.

1) Não lemos com a mesma atenção de antes

A afirmação vem de McLuhan:

- Trabalho com um público de 25, 30, 35 anos. Eles não são mais jovens em idade universitária – tratando aqui a universidade como algo ainda extraordinário -, eles são pessoas ordinárias. E o que se vê é que eles sabem ler. Eles só não querem.

Se, em 1960, a velocidade média de leitura do americano era de 400 palavras por minuto, atualmente, esta média diminuiu para 300 palavras. Ou menos, diz McLuhan, afirmando que muitos de seus estudantes, durante a leitura silenciosa, leem mais lentamente do que em voz alta:

-  Em voz alta, lemos cerca de 180 palavras por minuto. Eles leem mais devagar do que falam.

O clímax da atenção é quando se é tão absorvido por uma leitura que um “pequeno filme” se forma em nossa mente:

- Sem filmezinho… sem atenção – diverte-se McLuhan, mesmo que, como ele mesmo fala, trate-se de um assunto muito triste.

2) O copyright acabou

Bertin é cético ao afirmar que “a internet é o lar da falsidade”:

- Qualquer um pode reproduzir conteúdo e dizer que é seu. A internet faz crescer a figura do autor, em detrimento do texto.

E encontra eco em McLuhan:

- O copyright é uma coisa boa, mas acabou.

O teórico propõe ao público o que ele julga ser o futuro (avisando, antes, que obviamente pode estar mortalmente enganado): fazer do público o mecenas. O que tem nome, o crowdsourcing.

- Senão, de onde vem sua renda? – ri McLuhan.

3) A estrutura formal do romance é passado

Foi-se o tempo em que líamos capítulos de 50, 60 páginas. A narrativa moderna, de acordo com McLuhan, tem seus próprios métodos:

- Há um autor chamado James Patterson que escreve capítulos de três páginas. Ou seja, se você leu 300 páginas, é de se esperar que esteja no centésimo capítulo.

Isso corrobora com a questão da nossa capacidade de prestar atenção. A tendência, diz McLuhan, é de que o livro de mesa se torne cada vez mais popular. Ou seja, o livro cada vez mais como um objeto de arte, e não um meio tão focado, surpreendentemente, à leitura.

4) Estamos escrevendo mais

Bertin, Casalegno e Renard apontam as redes sociais como “uma batalha ganha para a escrita”. Há tanto um aumento da produção individual de conteúdo quanto uma maior consciência das especificidades da palavra escrita, da palavra falada e das imagens, afirma Uricchio.

Casalegno faz uma ressalva, no entanto:

- Há uma maior produção de conteúdo, mas com repetição. Copiamos e colamos tanto no Facebook quanto no Twitter, então temos como medir não nossa produção de conteúdo, mas a repercussão do conteúdo que é produzido.

5) Sim, o livro tem uma vida longeva pela frente

Embora os e-readers e o smart paper tenham como promessa democratizar o acesso à literatura, o consenso da mesa é de que o livro sobrevive. O arauto mais exaltado da longevidade do livro em papel é Uricchio, que fala dele como uma tecnologia perfeita:

- Não precisa de luz, não precisa de internet, não fica sem baterias, é reciclável, e o mais importante: o compramos só uma vez.

Agora é a hora

15 de novembro de 2011 0

Grande parte do público que ficou em Porto Alegre para o feriado da Proclamação da República deve ter tido a mesma ideia: aproveitar o 15 de novembro para dar aquela conferida de última hora na programação da Feira do Livro. Enquanto a Praça da Alfândega encontra-se cheia, mas nem tanto, a área infantil quase não tem espaço para os pequenos leitores.

No Teatro Sancho Pança, a fila, que chegava a dar voltas, era para assistir à apresentação do musical infantil As Histórias Mais Loucas do Mundo, do Grupo Cuidado que Mancha (Fotos: Fernanda Grabauska).

Na área infanto-juvenil, o movimento era em torno dos últimos saldos da Feira e da visitação ao navio Patrulha Benevente, da Marinha do Brasil, ancorado ali no Cais do Porto até as 18h.

O contador de histórias

15 de novembro de 2011 0

O escritor paquistanês Tariq Ali. Foto: Arquivo Pessoal, Divulgação Record

Que não se diga que a Feira descuidou da programação no final. No último dia do evento, a Praça da Alfândega recebe um convidado de peso, um dos intelectuais mais polêmicos e discutidos da contemporaneidade: o paquistanês Tariq Ali. Um dos grandes ídolos da esquerda contemporânea por suas críticas ferozes ao que considera o imperialismo do Ocidente capitalista, Ali vem a Porto Alegre também para divulgar sua mais recente obra de ficção, o romance A Noite da Borboleta DouradaAli tem sessão de autógrafos às 17h30min e uma palestra às 16h na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul. O livro, passado na contemporaneidade, é o quinto e último episódio do Quinteto do Islã, uma série de cinco romances nos quais Ali retrata ficcionalmente momentos-chave do Islamismo como forma de discutir a importância da contribuição islâmica para a história da Humanidade (os anteriores são Sombras da Romãzeira, O Livro de Saladino, Mulher de Pedra e Um Sultão em Palermo). Por e-mail, Ali concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora, publicada editada na cobertura da Feira e que você lê na íntegra aqui  no blog.

Zero Hora – O romance que o senhor está lançando agora, A Noite da Borboleta Dourada, é o quinto e ultimo de sua série Quinteto do Islã, produzida ao longo das últimas duas décadas. Qual a sensação agora que o projeto está completo?
Tariq Ali –
Eu me sinto ao mesmo tempo liberto e triste. O projeto está concluído, mas muitos amigos africanos estão me perguntando por que eu ignorei o Islã na África. Assim, talvez outro livro venha a aparecer – ou não. Mas quando eu comecei, alguns dos meus editores acharam que o Quinteto jamais seria concluído. Provei que estavam errados.

ZH – O senhor situa parte da história na Lahore contemporânea, e escreve sobre a amizade de um grupo de estudantes unidos pela descoberta do marxismo e da poesia. É, de alguma forma, seu testemunho sobre a experiência de sua própria geração?
Ali –
Sim, em parte, mas o romance é sobre muito mais do que isso. É sobre memória, migração e história. Por exemplo, a ascensão do Islã na provínicia de Yunnan, na China, no século 19, que eu retreto no romance, foi um grande acontecimento. E hoje não são muitos os chineses comuns que sabem sobre isso. Eu suponho, de algum modo, que o romance é também um adeus ao mundo de minha geração. Muitos de meus amigos estão mortos, e Platão, o personagem pintor, está morrendo mesmo enquanto o romance que ele queria que fosse escrito está sendo produzido.

ZH – O narrador de seu romance é um escritor – a quem um amigo pede que escreva um romance sobre sua vida. Os seus personagens discutem e citam no livro pilares da literatura ocidental, como Diderot e Stendhal, e a poesia Urdu também desempenha um papel importante na história. É seu modo de enfatizar em seu retrato ficcional o quanto a literatura cria o imaginário e, em consequência, a própria realidade?
Ali –
Sim, em certo sentido é verdade. Stendhal é um dos meus romancistas europeus favoritos. Sua intransigência política e a energia de sua escrita são características com as quais sempre me identifiquei, e estou feliz de poder fazer referência a ele em A Noite da Borboleta Dourada. E no Oriente a poesia sempre superou o romance, no passado recente. Fui criado nela e muitos amigos de minha família eram poetas.

ZH – O senhor discute em seu romance conceitos como exílio e pertencimento. Essa dicotomia no livro tem a função de ser uma rima temática à dualidade entre a força da identidade local e a expansão do mundo globalizado?
Ali –
A dualidade é antiga, criada pelos impérios europeus nas Américas, na Ásia e na África e pelo transporte de escravos. Os grandes escritores brasileiros, como Machado, Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, são resultado da mistura que produziu o Brasil. Escritores afro-americanos nos Estados Unidos criaram sua própria linguagem especial. O mesmo é verdade em outros lugares. E esta dualidade é importante porque sempre acreditei que as culturas fortes são uma síntese. Culturas “puras” são fracas e raramente duram muito tempo.

ZH – O senhor foi um dos mais atuantes críticos da política externa da administração Bush, especialmente para o Oriente Médio. O que, sem opinião, mudou durante os anos de Obama na Casa Branca?
Ali –
No meu mais recente ensaio publicado como livro (Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad – “Síndrome de Obama: Rendição em Casa e Guerra no Exterior”, em tradução livre) afirmei com todas as letras que a administração Obama é uma continuação da de Bush, como a de Bush foi da de Clinton. Isto não é posto e discussão hoje nos Estados Unidos. Após o colapso do comunismo, em 1991, a noção de Edmund Burke, de que “em todas as sociedades formadas por diferentes classes algumas classes devem necessariamente ser superiores” e que “os apóstolos da igualdade só mudam e pervertem a ordem natural das coisas”, tornou-se o senso comum do tempo. O dinheiro corrompe a política. Muito dinheiro corrompe a política absolutamente. Em todos os grandes centros do capital nós testemunhos o surgimento de um centro de extremos: Republicanos e Democratas nos Estados Unidos; Trabalhistas e Conservadores no estado vassalo da Grã-Bretanha; Socialistas e Conservadores na França; as coalizões alemãs; centro-direita e centro-esquerda na Escandinávia, e assim por diante. Em praticamente cada caso o sistema bipartidário se transformou em um governo efetivo nacional. Um novo extremismo do mercado entrou em jogo.

ZH – Que quadro o senhor especula que emergirá do Oriente Médio após as recentes manifestações e rebeliões em países como Egito e Líbia?
Ali –
O mundo árabe está em transição. Tudo é fluido. Nada está definido. Por isso, é um pouco cedo para qualquer julgamento definitivo. E o triunfalismo ocidental na Líbia pode ser de curta duração, seja lá o que se pense sobre Kadafi. E eu sempre fui um crítico de seu governo, ao contrário dos líderes ocidentais que riam enquanto ele estava sendo morto da maneira mais brutal. Sarkozy, Blair e Condoleeza Rice foram muito próximos a Kadafi – a decisão da BBC e da CNN de mostrar seu assassinato sem qualquer crítica é um sinal do caráter espúrio da cultura política no coração da democracia.

A biblioteca que cumpriu sua missão

14 de novembro de 2011 0

Maurício Veloso Brun (à esquerda) lê para a filha Chiara (de rosa) na Biblioteca Moacyr Scliar. Foto: Emílio Pedroso

Durante seus 18 dias de atividade na Feira, a Biblioteca Moacyr Scliar, no Cais tornou-se o foco de concentração dos jovens leitores na Feira. Uma multidão de crianças e adolescentes em idade escolar estiveram no espaço durante a Feira, embora, de acordo com a bibliotecária responsável, Maria da Graça Artioli, a organização não tenha eios para calcular o número exato.

– Todos os dias havia muita gente, com exceção dos horários de meio dia e fim de tarde. Nos dias de semana, muitas escolas. Finais de semana, muitos pais com crianças. – diz ela.

Na tarde de ontem, o clima era parecido com o dos fins de semana. Devido à véspera do Feriadão, muitos pais levaram suas filhas à Praça, como o médico veterinário Maurício Veloso Brun, 38 anos, pai de Chiara, de 7 anos.  Morador de Passo Fundo, embora nascido em Porto Alegre, Maurício está na Capital visitante parentes, aproveitando o embalo do Feriadão. Como tem feito todos os anos desde que ela era uma menina de colo, Maurício levou Chiara à Feira. Na tarde quente à beira do cais, ambos liam, deitados nos tapetes e almofadas que compõem a ambientação da biblioteca, o livro O Menino Paciente, de Letícia Wierzchowski e Marcelo Pires. Na sacola, Chiara levava um livro de caligrafia que precisará para a escola – está na 1ª série do Ensino Fundamental – e um livro indicado pelo pai: O Caso da Borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida, da Coleção Vaga-Lume.

– Meu pai leu e me disse que é bom – contava ela, logo seguida pela confirmação do pai:

–  Vi o livro e indiquei: ó, esse é do tempo do pai no colégio e é muito bom.

Ecologia e os brinquedos inventados

14 de novembro de 2011 0

- Não penso em ensinar com meus livros, e sim em divertir. Quero que meus poemas cheguem às mãos das crianças como brinquedos – diz o escritor, poeta e ex-patrono da Feira Carlos Urbim.

Os brinquedos são o exemplo que o escritor usa para falar da ecoalfabetização, objeto de discussão na Sala dos Jacarandás nesta segunda-feira dedicada à ecologia. O professor e ecologista Francisco Milanez explica brevemente o conceito:

- A ecoalfabetização pretende fazer uma iniciação que permita, em primeiro lugar, entender o que descobrimos sobre a natureza, o que já conhecemos sobre a natureza e entender a ética ambiental.

Urbim faz seu comentário sobre o assunto baseado no livro “Saco de Brinquedos”:

- Sou de uma época e de uma classe social onde nunca se ganhou brinquedos, e sim roupas: uma camisa, uma calça, um par de sapatos, e tudo para durar até o ano que vem – brinca – Sou da época em que se saía para inventar brincadeiras.

O comentário coletivo é de que tanto professoras quanto crianças não conhecem brincadeiras inventadas, como as tropas de ossinhos retirada de sopas ou as petecas feitas de sabugo de milho, mas que a literatura – no caso, o Saco de Brinquedos de Urbim – ajuda a recuperar as brincadeiras sem brinquedos e alfabetiza, mesmo que não tenha este propósito, no âmbito da ecologia uma geração de crianças mais consciente em relação à natureza.

Promoções de última hora

14 de novembro de 2011 1



Ainda dá para encontrar literatura de qualidade a bons preços nos saldos. Foto: Fernanda Grabauska

Estamos próximos do fim (da Feira, calma). E, com isso em vista, os descontos aumentam consideravelmente nas caixas de saldo. Mas não vá pensando que não dá para encontrar coisa boa. Em um giro pela Feira, dá pra encontrar clássicos da literatura brasileira e universal por preços mais do que amigos.

Leituras obrigatórias

Alguns dos autores cobrados nas aulas de Literatura do ensino médio estão bastante em conta nos saldões: na Isasul, dá para encontrar edições novas de O Cortiço por R$ 20 e O Uraguai por R$ 10. Na banca da Traça, encontramos os dois volumes de Solo de Clarineta dando sopa, por R$ 8 cada um.

Clássicos atemporais

Também na Traça (e também por módicos R$8), dá para sair com essa edição antiga da Eneida de Virgílio. Na Pradense, em frente ao Santander Cultural, Dom Quixote e A Divina Comédia, em edições novas, estão a R$ 20. Nas caixas da banca também é possível encontrar O Fiasco, romance do Nobel de Literatura em 2002, Imre Kertész, por R$ 9. Um pouco mais caros, mas com descontos bastante interessantes (de cerca de 50%) são as antologias reunidas pela Real Academia Espanhola, que passam de Gabriela Mistral a Pablo Neruda, com preços entre R$ 30 e R$ 45. Outra edição bacana de levar é a de Cem anos de solidão, também da Real Academia, por meros R$ 35.

Leia no original

A casa da SBS na Área Internacional praticamente transbordava de tanta gente por um motivo bastante claro (e quase um clássico do final de Feira): a liquidação dos exemplares das coleções Wordsworth e Penguin Classics. É um espetáculo: obras completas de Jane Austen e trabalhos selecionados das irmãs Brontë por R$ 30 e obras como Peter Pan, A volta do parafuso, Conto de duas cidades e outras, todas no texto original em inglês, por R$ 7 (Wordsworth) e R$ 5 (Penguin).

Gentileza na Praça

13 de novembro de 2011 0

Jane Tutikian recebe um abraço gratuito no Dia da Gentileza da 57ª Feira do Livro

Domingo foi o Dia da Gentileza na praça. Você sabe, a Feira do Livro inaugurou em 2011 os dias temáticos. Cada dia, um tema é celebrado. As bancas, então, fazem promoções de títulos ligados ao tema em questão. E o clima da feira se transforma um pouquinho.

Neste domingo da gentileza, a mudança era constatável na programação – uma roda de chimarrão foi aberta pela patrona, Jane Tutikian, ao lado de João Carneiro, Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro. O mate ia passando de mão em mão enquanto Carneiro lia um poema dedicado à bebida.

Simultaneamente à roda, um grupo de garotas e garotos foi para a feira de coração aberto e cartazes que anunciavam: “Abraços Gratuitos”. Motivados pela temática do dia, deram e receberam abraços incontáveis.

- Abraço é bom e é disso que o mundo precisa – justificou-se a “abraçadeira” Marina Schneider.

Depois de tomar seu mate, a patrona Jane Tutikian foi pescada para um abraço e se declarou satisfeita:

- Abraço grátis é muito bom.

Para quem enfrentou filas como as que se formaram durante as sessões de autógrafos de Jane Tutikian e José Antônio Pinheiro Machado, o chimarrão e os abraços poderiam ter chegado mais tarde, junto com o frio que anunciou a caída da noite.

Feira estendida

Estivéssemos em outros anos, este domingo seria o dia de encerramento da Feira do Livro. Mas nesta 57ª edição, um bem-posicionado feriado da Proclamação da República, na próxima terça-feira, estendeu a feira por mais dois dias. Dá tempo de aproveitar os “saldos dos saldos” e as “promoções das promoções”, que costumam surgir nos momentos finais da feira.

Um trecho para hoje

13 de novembro de 2011 2

Tinha, na infância, dado brilho aos meus reinos mais absurdos. Tinha dado vida às cercas que me separavam dos outros e feito delas multidões.Tinha, depois, amado o Elvis, os Beatles, o Chico. Tinha enchido o arquivo com fotos e fotos para que nos tornássemos mais íntimos. Tinha copiado um filme inteiro, no cinema mesmo, sob olhares curiosos, porque fazia parte do sonho. Tinha amado cada amor com a capacidade maior do que a realidade permite. Assim: de sonhar de brindar no meio da noite até sentir o coração de ouro pulsar na corrente. Assim: salva no oscilar do caminho torto, da mais absoluta certeza à mais profunda insegurança. Assim: a mão dada, no sofá, o olho nas janelas, o ouvido no portão, a grande aventura. Bilhetes e bilhetes explosivos, autodestrutíveis, condenados a morrer por um de nós indecifrável, não revelado, real no sonho. Assim: de buscar pedras no temporal de um lugar que não existe. Avançar e ter vergonha. Tomar um porre e pedir desculpas. Fingir despreocupação para ter um certo charme. Ah! Confissões apaixonadas mudas a derramar pelos furos, pelos olhos, pelos poros. Ah! Que tinha acreditado mais no poder do sonho para a fazer a vida do que na realidade, que realidade, às vezes, assusta tanto!

E agora?

Coisa Viva, de Jane TutikianO trecho acima é de Um Homem-Futuro, conto incluído na coletânea Coisa Viva (232 páginas, Território das Artes) , que a patrona da Feira, Jane Tutikian, autografa hoje às 19h30min, na Praça de Autógrafos. A obra reúne 25 contos publicados pela autora ao longo de 30 anos de carreira literária, do primeiro livro de contos, Batalha Naval (1981), até Entre Mulheres (2005). Também conhecida pela faceta infantojuvenil de sua obra, Jane apresenta aqui uma seleção dos trabalhos em literatura voltada para adultos, narrativas curtas que, nas origens, mostram-se ainda bastante tributárias do trato de Clarice Lispetor com as emoções e a linguagem, e vão, à medida que o livro avança, adquirindo voz própria.

Hannah Arendt e o "mal banal" em discussão

12 de novembro de 2011 0

A tarde deste sábado dedicado aos direitos humanos trouxe à Feira do Livro uma discussão sobre o Holocausto. Mais especificamente, sobre o julgamento de Adolf Eichmann, responsável pela logística de extermínio de judeus durante a Segunda Guerra Mundial e considerado o “executor-geral” do Terceiro Reich.

Presentes, estiveram Edna Brocke, sobrinha de Hannah Arendt, autora de “Eichmann em Jerusalém”, e Simone Matthaei, presidente da Sociedade Hannah Arendt. A palestra girou majoritariamente ao redor de questões morais do julgamento e da polêmica causada pelo lançamento de Eichmann em Jerusalém, inicialmente um relato dos tribunais enviado ao The New Yorker que foi editado posteriormente em livro. Arendt cunha o termo “banalidade do mal”, ao supor que Eichmann, em seu papel de burocrata, não tinha ideia daquilo que fazia – que ele tinha de fato deixado de responder por seus atos, como declarou em sua defesa no tribunal.

Edna Brocke afirma que tanto para ela quanto para Hannah, Eichmann surpreendia por não parecer o “monstro” que era:

- Ele não agia como o esperado. Ele era um homem simples, banal, um burocrata, mas suas ações não eram perdoáveis. Havia uma grande desproporção entre sua pessoa e os atos que havia cometido. Ele não tinha sangue nas mãos. Como se condena alguém que nunca matou um judeu fisicamente, mas que ordenou o assassinato de milhões deles?

Hannah Arendt chega a ser execrada pelo público e também por seus amigos na Alemanha por levantar a questão da consciência judaica em relação ao Holocausto:

- Pelo menos até 1961, o mundo aceitava tacitamente o Holocausto – diz Edna – Tudo seria diferente se mais histórias de resistência e de colaboração pacífica fossem contadas, dizia Hannah.

Ela cita como uma dessas histórias a do sargento Anton Schmidt, que ajudou cerca de 250 judeus a fugir do extermínio por meio de papéis forjados. Schmidt foi aludido no julgamento de Eichmann por Aba Kovner, escritor e militante do Partido Comunista judeu:

- Neste momento, dois minutos de silêncio à memória de Schmidt foram feitos no tribunal. Foi a primeira vez em que as emoções afloraram no julgamento – afirma Edna.

Hannah era da opinião de que os socialistas judeus queriam encenar um julgamento sensacionalista aos moldes dos realizados na Europa Oriental, e que provavelmente Eichmann seria julgado mais dignamente por um tribunal internacional como a Corte de Haia. Mesmo assim, ela afirmava admirar os juristas que atuaram no caso por conseguiram fazer valer o Direito, dispensando o sensacionalismo.

Eichmann foi condenado à morte em 1961 – sentença inédita na lei israelense, que não prevê a pena capital – e executado em 1962.

Por um fio

12 de novembro de 2011 0

Depois do ataque à estátua de Carlos Drummond de Andrade, que foi quase derrubada por uma mulher na manhã de sexta-feira, a estátua foi liberada do cercadinho ao qual foi confinada. Mas está segura pela coxa ao banco onde senta Mário Quintana por um fio de arame, apenas, ainda bastante instável. No entanto, o enjambre facilita o acesso às estátuas, cenário preferido do público da Feira do Livro para ter fotos tiradas pelo último lambe-lambe da Capital.

Veja como ficou a solução temporária em duas fotos de Jean Schwarz: