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Posts na categoria "Ficção Científica"

O homem que viu o amanhã

25 de junho de 2012 0

O escritor Philip K. Dick

Texto de Luiz Domingues

Philip Kindred Dick não viu suas histórias serem levadas ao cinema. Nascido em Chicago, em 1928, o escritor morreu na Califórnia, vítima de ataque cardíaco, em março de 1982, três meses antes da estréia de Blade Runner. A coincidência acabou por impulsionar a venda das obras de Dick, que, em 1963, já ganhara o prêmio Hugo,um dos mais importantes da ficção científica, com O Homem do Castelo Alto, sobre um mundo onde os aliados haviam perdido a II Guerra.

Dick escreveu 36 romances e mais de cem contos. Entre as traduções para o português estão Loteria Solar (Ediouro), Minority Report (Record), O Homem Duplo (Rocco), Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, Ubik, Vialis Valis (os três pela Aleph) e A Invasão Divina (Melhoramentos). O Caçador de Andróides (Andróides Sonham com Ovelhas Eletrônicas?), de 1963, foi publicado no Brasil 20 anos depois, pela Francisco Alves, e reeditado em 2007 pela Rocco. A coletânea de contos O Vingador do Futuro (E Nós Podemos Lembrar Você por Atacado) saiu em 1991, e mais tarde o mesmo conto foi republicado, com o título de Podemos Recordar para Você, por um Preço Razoável na coletânea Minority Report: a Nova Lei, desta vez batizada com o nome da adaptação para o cinema da vez.

No futuro imaginado por Dick, nada é o que parece ser. Seus personagens, repentinamente, vivem o impossível, têm o destino alterado e retorcido, perdem o controle e a compreensão da realidade. Debatem-se mais e mais, até encontrarem as fundações do que deve ser real. Mas que nem sempre é. Dick trabalha com uma frágil visão da realidade, a humanização das máquinas e visões polêmicas do futuro. Conflitos religiosos e sociais são freqüentes em seus livros, assim como invenções cibernéticas e seus efeitos sobre os homens. Sua obra é decididamente pessimista – parece não acreditar que um dia seremos capazes de usar com discernimento a tecnologia.

O escritor, que desconfiava das autoridades e simpatizava com a contracultura, tinha esquizofrenia paranoide e medo de lugares abertos. Casado cinco vezes, passou os anos 70 envolvido com drogas (como anfetaminas) e experiências religiosas: “Nós vivemos em uma sociedade na qual realidades falsas são manufaturadas pela mídia, pelos governos e pelas grandes corporações“, escreveu. Num mundo em que identidades e cartões de crédito são clonados por computadores e celulares, e-mails podem ser falsificados, câmeras nos vigiam e inovações tecnológicas nos impõem novos dilemas éticos e morais, as visões sombrias do futuro profetizadas por Philip K. Dick não parecem assim tão distorcidas.

A réplica dos androides

25 de junho de 2012 1

São significativas as diferenças de superfície e forma que separam O Caçador de Androides (Do Androids Dream of Electric Sheep?), o romance de Philip K. Dick, de O Caçador de Androides, o filme de Ridley Scott que está completando 30 anos hoje (a morte de Dick também ocorreu em 1982, no mês de março, antes de a obra estrear. Leia mais sobre ele no próximo post). No livro, que teve uma reedição no Brasil pela Rocco em 2007, com 256 páginas e tradução de Ryta Vinagre, a história se passa não em um futuro decadente, superpopuloso e coberto de neon, e sim um mundo sombrio assolado por uma permanente chuva de pó radiativo, resultado de guerras atômicas recentes.

O planeta Terra de K. Dick é uma espécie de gueto reservado aos pobres e aos perdedores, poucos são os que ainda vivem no planeta radioativo e com a fauna quase extinta – razão por que a posse de animais de verdade é um luxo caro, algo também mencionado no filme. Na edição original do livro, em 1968 (traduzida no Brasil pela Francisco Alves), a história se passava, textualmente, em 1992. Como 1992 chegou e se foi, as filhas de Dick, responsáveis pelo seu espólio, decidiram alterar o ano para 2021 (desta vez apenas no material paratextual, como orelha e contracapa) para que o livro não parecesse datado ou, pior, ultrapassado.

O número de fugitivos caçados por Rick Deckard também não é o mesmo. O caçador recebe a incumbência de recapturar seis de um grupo de oito androides – replicantes é um termo criado para o filme – fugitivos de Marte que já mataram um policial. No roteiro do filme, o número foi reduzido para cinco, um deles já neutralizado quando Deckard entra na história – e quando as câmeras começaram a rodar, pressões de orçamento limaram ainda mais um dos androides, ficando o número final em quatro: Roy (Rutger Hauer), Leon (Brion James), Pris (Darryl Hannah) e Zhora (Joanna Cassidy). Ainda assim, na edição original do filme, lançada há 30 anos, o letreiro inicial permanecia com a informação de que SEIS androides haviam fugido e que um havia sido destruído na chegada à Terra.

Os androides são escravizados em trabalhos que os humanos não poderiam realizar, como mineração em planetas de gravidade proibitiva para os terráqueos, e portanto a fuga não é injustificada, mas os humanoides do livro são mais frios, com menos “grandeza de alma”, digamos, do que os interpretados por Darryl Hannah, Sean Young e, principalmente, Rutger Hauer. São mais truculentos e, por não entenderem os processos que regem as emoções humanas, não são hábeis em imitá-las – essa diferença é responsável, também, por um dos elementos de aparência mais aleatória do filme: o teste que determina se uma pessoa é ou não replicante. Chamado de Voight-Kampff no livro (não me lembro se também no filme), o teste funciona com base em reações emocionais automáticas visíveis na dilatação da pupila. Certas perguntas do exame (tiradas literalmente do livro) são de tal sorte que provocariam horror em um humano, mas não em um androide.

Por isso, inclusive, as perguntas parecem tão exóticas fora do contexto construído por K. Dick em seu mundo ficcional: no futuro de O Caçador de Androides, o romance,  os animais quase desapareceram do planeta Terra, como já dissemos. Ao mesmo tempo, houve a ascensão do Mercerismo, uma nova religião que substituiu o cristianismo. Em vez de Cristo, no futuro de Dick as pessoas cultuam o sacrifício de William Mercer, martirizado por motivos não muito claros, apedrejado enquanto tentava subir uma colina. Em vez de “rezar”, os terráqueos conectam-se a uma “caixa de empatia”, um dispositivo de realidade virtual no qual o fiel vivencia em primeira pessoa o martírio de Mercer, sofrendo na carne as pedras jogadas contra o homem santo.

Como Mercer ama tudo o que é vivo, os animais, cada vez mais raros, tornaram-se sagrados. Ter um animal em casa é essencial para o mercerismo, mas a maioria deles não existe mais, logo, os mais pobres fazem o que podem com réplicas robóticas de animais de verdade. Animais vivos são símbolos de status. Um dos motivos que levam Deckard, no livro, a aceitar a contragosto a missão de eliminar os replicantes fugitivos é justamente o valor da recompensa, que ele pretende usar para realizar o desejo de sua mulher (sim, ele é casado no livro, voltaremos a isso) de ter uma ovelha de verdade (com a recompensa ele acaba comprando um bode).  Portanto, no universo do livro O Caçador de Androides, as perguntas reveladoras têm a ver com animais, e foram transplantadas para o filme: o questionário sobre se Leon ajudaria um cágado virado com o casco para baixo no deserto, a questão que Deckard formula a Rachael sobre a posse de uma carteira de couro de crocodilo legítimo. Isso nunca comprometeu o entendimento do filme, claro, é apenas uma amostra de o quanto o enredo do livro é mais complexo e cheio de camadas.

E sim, há Rachael (Sean Young), e a sua linha narrativa é mais ou menos a mesma do filme: ela trabalha na poderosa corporação Tyrell e ela é uma replicante. Mas o fato de ela não saber de sua condição de replicante é uma sacada que aumenta a dramaticidade do filme, mas não existe no livro. Rachael sabe o que é: uma androide feminina atraente anteriormente usada como escrava sexual – e enviada a Deckard com um propósito obscuro que está longe da atração que ela sente pelo detetive no filme. O Deckard do livro é um homem derrotado de meia idade, sem o glamour jovem do galã Harrison Ford. Se o filme se encerrava com um tom otimista (que, depois veio-se a saber, era imposição dos produtores, e não de Ridley Scott, cuja “versão autoral” interrompe a história uma cena antes), o livro é melancólico, triste e desencantado, investigando por que o avanço tecnológico do tempo descrito não ajuda os homens a desenvolverem a empatia que é justamente a mais humana das características (uma das androides no livro chega a dizer que considera a compaixão humana a característica mais misteriosa e interessante da espécie).

Em uma coisa, no entanto, tanto o filme quanto o livro se assemelham: no olhar original que lançam aos clichês da história de mistério. O personagem de Dick é um ex-policial e caçador de recompensas empenhado na busca de um grupo de fugitivos. Como outros detetives dos livros do autor, contudo, as investigações de Deckard não revelam uma verdade que restabelece a ordem, como nos policiais convencionais, e sim algo que expõe as entranhas de uma realidade torta ou manipulada. Dick permanece atual no mundo contemporâneo porque sua ficção é visionária e seu texto tem o dom de mergulhar o leitor na atmosfera peculiar de cada livro. E talvez porque, ao contrário de grandes humanistas da ficção científica como Júlio Verne ou Isaac Asimov, Dick era um distópico. Onde Verne via progresso, ele via decadência. Onde Asimov via humanidade, ele vê paranóia e uma progressiva desumanização dos indivíduos.

>>> No blog Cineclube ZH, Marcelo Perrone escreve sobre os 30 anos de Blade Runner, o filme que influenciou de modo definitivo o cinema de ficção científica

Alegorias marcianas

08 de junho de 2012 0

Imagem da adaptação em HQ de "Crônicas Marcianas', de Dennis Calero

E morreu, no dia 5 de junho, Ray Bradbury.

Mesmo que não fosse o autor do clássico distópico Farenheit 451, ainda que não tivesse escrito centenas de obras entre contos, romances e roteiros, Bradbury mereceria, mesmo assim, um lugar de honra no panteão dos grandes escritores universais por ser o criador de um dos livros fundamentais da ficção científica: As Crônicas Marcianas.

Diferentemente de tantos autores que falam do futuro enfatizando e detalhando os aspectos tecnológicos dos universos que imaginam, Bradbury, já devidamente alcunhado “o poeta da ficção científica” preferia escrever sobre os aspectos humanos da exploração do espaço.

Em As Crônicas Marcianas, livro escrito entre o fim dos anos 1940 e o início dos anos 1950, o autor transpõe para um futuro então quase distante (o começo do século 21) algumas das questões mais importantes do seu próprio tempo: a Guerra Fria, o racismo, o imperialismo, a industrialização e os problemas ecológicos.

No livro, uma série de contos e microcontos interrelacionados, a colonização de Marte pelos terráqueos é apresentada em linguagem singela e poética. É quase infantil o quadro pintado por Bradbury, que mostra foguetes enormes partindo para o espaço carregados de tábuas e pregos para construir as primeiras cidades na nova colônia ou levando padres para catequizar os marcianos nativos.

As histórias apresentadas nas crônicas são histórias sobre pessoas. Pessoas como os primeiros viajantes que chegam ao planeta vermelho e deparam com os últimos estertores de uma civilização milenar decadente, que ajudam, quase sem querer, a extinguir.

Pessoas como o astronauta Spender, que se revolta contra os próprios colegas de expedição humanos ao vislumbrar o contraste entre a sabedoria ancestral da cultura marciana e os modos rudes e grotescos da sua própria tripulação.

Pessoas como Benjamin Driscoll, que, tal e qual o Johnny Appleseed do folclore americano, assume a missão de partir pelas planícies inóspitas de Marte a plantar sementes e mais sementes de árvores.

Pessoas como Sam Parkhill, o feliz proprietário de uma barraca de cachorros-quentes destinada a fechar antes mesmo de ser inaugurada, já no período de declínio da colônia terráquea e da própria humanidade.

O futuro imaginado por Bradbury no livro, apesar de estar embebido em pessimismo, traz, lá no fundo, a visão otimista do autor a respeito do indivíduo: aquela ideia, presente em outras obras suas, de que é possível que a humanidade dê certo se começarmos tudo de novo, com um grupo de pessoas boas em um lugar ainda não contaminado pela maldade.

O recado dado na última história de As Crônicas Marcianas, o excelente conto O Piquenique de Um Milhão de Anos, revela a intenção do escritor de nos dizer que tudo que lemos até a página final é uma alegoria – e que os marcianos somos nós.

Descanse em paz, Ray.

Good-bye, Illustrated Man

06 de junho de 2012 0

Ray Bradbury em uma sessão de autógrafos em 1997. Foto: AP

Ray Bradbury, um dos autores responsáveis por tirar a ficção científica do gueto restrito dos fãs e alçá-la à estratosfera da grande literatura morreu na noite da última terça-feira, aos 91. O anúncio foi feito por Alexandra Bradbury, que disse que seu pai, autor de clássicos como Crônicas Marcianas e Fahrenheit 451, faleceu na Califórnia, onde vivia.

Nascido em Waukegan, no estado americano do Illinois, Bradbury começou a escrever contos e histórias de ficção científica para revistas populares pouco depois de completar 21 anos, nos anos 1940. Em 1950, com 30 anos recém-completos, ele se tornou um nome referencial dentre os autores de ficção científica com a publicação da coletânea de contos Crônicas Marcianas – até hoje um de seus livros de maior reputação crítica, cujo débito com o personagem John Carter de Marte, de Edgar Rice Burroughs, o próprio Bradbury admitiu em um texto para a revista New Yorker. Na obra, a colonização de Marte é usada como pretexto para que o jovem autor abordasse as questões prementes de seu tempo, no auge da Guerra Fria. Os terráqueos se dirigem a Marte para escapar de uma Terra em perigo devido à iminente Guerra Nuclear, e lá encontram uma civilização autóctone diante da qual repetem os mesmos conflitos da colonização europeia das Américas.

Ainda nos anos 1950, Bradbury apresentaria ao mundo outra gema que transcendia os limites da ficção científica: Fahrenheit 451, publicado em 1953. No livro, um bombeiro, em vez de apagar incêndios, faz parte de uma equipe encarregada de queimar livros – com seus proprietários junto, se preciso. Enquanto a literatura se torna clandestina, os cidadãos preferem a companhia dos seres imaginários de uma novela holográfica transmitida diariamente – numa antecipação visionária do potencial narcotizante da ainda recente televisão e da própria cultura de massa. Clássico do gênero, o livro foi transformado em um dos grandes filmes do cineasta François Truffaut, em 1966 (a propósito, cliquem aqui e leiam o texto do meu camarada Daniel Feix no Cineclube ZH a respeito do Bradbury cinematográfico).

Bradbury conheceu seu auge de popularidade entre os anos 1950 e 1980, quando publicou ainda obras com legiões de fãs como S is for Space, Dandelion Wine (que a Bertrand Brasil deve lançar em breve como O Licor do Dente-de-Leão) e Illustrated Man. Seu último livro, a coletânea de contos The Cat’s Pajamas, é de 2004. Apesar de sua crítica à televisão, o autor também trabalhou para o veículo, como roteirista em séries fantásticas como Além da Imaginação ou de suspense, como Alfred Hitchcock Apresenta. Nos anos 1980, teve seu próprio programa, The Ray Bradbury Theatre, para o qual ele próprio adaptou 65 de seus contos. Também foi o roteirista da adaptação cinematográfica de Moby Dick, dirigido por John Huston em 1956 a partir da obra de Herman Melville. Em seus últimos anos, contudo, Bradbury insistia em declarar que sua obra não era ficção científica, era tão-somente ficção.

O autor teve um impacto definitivo na cultura pop e, ao lado de nomes como Arthur C. Hailey, Isaac Asimov e Robert A. Heinlein, deu feição e respeitabilidade à ficção científica como um gênero que, para além das traquitanas tecnológicas, explorava de modo alegórico os desvãos da condição humana. Suas obras venderam mais de 8 milhões de exemplares e foram traduzidos para mais de três dezenas de idiomas, além de terem sido adaptados para cinema, TV e quadrinhos.

Gralha: pega, mata e come

03 de fevereiro de 2012 5

No jargão editorial, “gralha” é o nome que se dá para os erros de edição, impressão e digitação que escaparam da revisão final e ganharam seu espaço na eternidade literária da página juntamente com a obra. Não sou editor, então talvez um dia pergunte a pessoas como o Samir Machado, o Rodrigo Rosp ou o Tito Montenegro qual a origem do nome – minha única hipótese, fruto de pura imaginação, é que uma gralha tipográfica se assemelha a uma mancha preta no lugar errado, como o pássaro pendurado num fio de luz, mas tenho a impressão que isso soa vagamente absurdo. E gralha é coisa séria, acreditem em mim. Dependendo de seu número e de sua natureza, podem ser um problema dos mais graves: a diferença crucial entre uma boa e uma péssima experiência de leitura.

Porque leitura também é resultado de um processo de sedução: o autor investe seus recursos estilísticos em trazer o leitor para dentro do mundo que está construindo, e isso é mais claro na ficção, mas não se restringe a ela. Quanto mais árido um texto de não ficção, maior é a nossa sensação de lê-lo “de fora”, de algum lugar puramente intelectual de onde o autor tenta nos acenar. A fluidez de um texto cumpre um papel no seu entendimento, por mais que a academia cheia de jargões relute em aceitar isso. E essa sedução do texto tem, na minha cabeça, uma função análoga à experiência acústica. As boas salas de concerto são construídas de modo a que o som se espalhe e crie um universo cálido no qual o ouvinte não apenas ouve, ele se vê imerso nas vibrações que ele não pode ouvir mas que ainda assim estão lá e ajudam a dar essa sensação de mergulho no ambiente sonoro _ esta também é a razão porque o som de um CD sempre foi um lixo se comparado so vinil: o CD limou do registro as frequências mais baixas e mais altas que o ouvido humano não alcançava. A ideia era deixar o som mais “limpo”, mas o efeito foi o contrário.

Pois penso, sem nenhuma prova que o demonstre, que a estrutura de um livro, a cadência da prosa, a escolha do mote justo é o equivalente formal na literatura a essa construção de ambiente, a esse lugar imaginário que se situa na intercessão entre o leitor e o livro aonde se chega pelo prazer da leitura como se por uma estrada. E a gralha tipográfica é o equivalente ao buraco na pista: é o que dificulta o trânsito e torna o viajante insuportavelmente consciente dos esforços da jornada. É como a nota em falso que quebra a ilusão tão custosamente construída.

O ótimo romance Raízes do Mal, de Maurice Dantec, por exemplo, uma mistura delirante de ficção científica e noir de primeira qualidade, foi editado pela Sulina aqui no Brasil no início de 2010, se não me engano, com tradução de Juremir Machado da Silva. Comprei meu exemplar uns três meses depois na Palavraria, após de um evento do qual participei – e após haver lido um texto do próprio Juremir sobre o livro. Peguei uma carona para casa e esqueci o livro no carro. Passaram-se outros dois meses até eu e o motorista que me deu a carona conseguirmos outra vez marcar um café para a devolução. Mas finalmente comecei a leitura, e foi uma experiência dolorosa.

A prosa de Dantec era, de fato, vertiginosa, e ele conseguia discutir em profundidade a violência e o isolamento no mundo contemporâneo usando a ficção científica como pretexto, como os melhores autores do gênero fazem. E tinha lances de imaginação tão fervilhantes que eu me perguntava, sempre admirado, “de onde esse cara tirou isso?”. Mas havia tantos erros no texto, tantas gralhas penduradas na leitura que eu submergia no universo inventivo do livro para ser puxado pelos cabelos na página seguinte. Meses depois conversei com o editor Luiz Gomes, durante a Feira do Livro, e ele me disse que, por vários problemas internos de comunicação, o livro havia sido impresso sem passar pelo revisor – que deveria ter feito o trabalho e não fez, algo assim. E que uma edição nova seria em breve colocada no mercado sem esses problemas. Não sei se isso de fato foi feito, mas espero que sim, a leitura desse livro em particular provavelmente seria muito mais alucinante sem tantos erros para te puxar “para fora” do romance.

Outro caso é Liberdade, de Jonathan Franzen. Um romance de mais de 600 páginas escrito com a intenção declarada de oferecer um panorama total da realidade americana contemporânea, à maneira dos grandes mestres do realismo europeu do século 19. Uma tarefa que, pela sua própria natureza, exige a sedução da prosa, a manha de tragar o leitor para dentro das páginas para só deixá-lo emergir horas depois, como quem sai de uma piscina em que prendera a respiração: ofegante e ainda todo molhado. Em alguns momentos da leitura, Franzen de fato consegue isso, mas o volume tem vários erros tipográficos que puxam o leitor de volta, alguns deles tão inacreditáveis que me pergunto se não houve algo semelhante ao que ocorreu com a edição de Raízes do Mal. Li o livro primeiramente em inglês, e portanto tais erros pareciam ainda mais flagrantes na edição em português, mas na época dei um desconto porque estava lendo uma prova de impressão encadernada enviada pela editora, a Companhia das Letras, e não o exemplar final. Conversando com outros leitores do livro já pronto, como os meus editores Ticiano Osório e Cláudia Laitano, percebi que os problemas ainda estavam lá.

Erros tipográficos são coisa tão séria que provocam crimes, ao menos em um dos romances protagonizados pelo detetive Cliff Janeway, o ex-policial bibliófilo e negociante de livros raros criado pelo escritor americano de romances policiais John Dunning. Em Impressões e Provas, outra edição da Companhia das Letras, Janeway investiga por que uma edição rara de O Corvo, de Edgar Allan Poe, impressa para uma confraria de bibliófilos, parece ser a causa de uma trilha de cadáveres. Mais não digo para não murchar a surpresa de ninguém. Só não posso deixar de registrar que o crime no livro tem a ver com uma gralha em uma edição de O Corvo.

Mas na verdade este post não foi escrito por causa de nenhum dos livros citados anteriormente, e sim porque comecei a ler ontem um livro chamado 27, um romance de um alemão chamado Kim Frank (Tordesilhas, 216 páginas, R$ 34,90) e que foi publicado aqui no Brasil no ano passado _ por uma mórbida coincidência, bem na época em que a morte de Amy Winehouse aos 27 anos revivia o tema central tratado no romance. 27 pertence àquela vertente que se convencionou chamar de “literatura pop” depois do sucesso que o Nick Hornby fez com Alta Fidelidade no fim dos anos 1990. Quem usa essa qualificação quase sempre confunde, na minha opinião, “literatura pop” com “music namedropping”, ou seja, a tentativa de tornar seu texto mais “esperto” tomando a música pop como tema e despejando o maior número de nomes de bandas e artistas que você conseguir. Um jovem alemão de nome Mika, um rapaz que não conhece o pai e mora com a mãe ausente — uma médica que passa o tempo todo em congressos —, torna-se um astro de rock após uma sucessão de episódios nos quais o acaso, mais do que sua própria vontade, parecem ser determinantes. Mika é obcecado pelo número 27, e ao encontrar no quarto do tio — um jornalista que passou os últimos dias, doente de AIDS, morando com o protagonista e sua mãe _ uma série de dossiês sobre astros de rock que morreram aos 27 anos — Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Jim Morrison.

Mika me parece um personagem inconsistente entre outras coisas por isso. Ele tem 17 para 18 anos e ainda não havia percebido nem ouvido falar dessa coincidência. Conhece música, o rock ao menos, com uma propriedade técnica maior que a minha (o autor do livro é ele próprio um roqueiro), mas nunca ouvira falar de Robert Johnson até encontrar os recortes (não passa A Encruzilhada na TV alemã, será?). Esses são problemas da construção do personagem, e poderiam ser menores, mas se tornam mais graves ao somar-se a uma inacreditável sucessão de erros de revisão – não sei se mantidos do original ou cometidos na versão nacional traduzida por Eduardo Simões. Menciono apenas dois deles:

* Mika se torna um roqueiro depois de arranjar um estágio numa gravadora. Em um diálogo com seu novo chefe, na página 53, Mika diz que o baterista de sua banda dos sonhos seria John BONHEM, do Led Zepellin. O estranho é que o chefe da gravadora não só não o corrige como diz que gostaria de ir ao show dessa suposta banda perfeita. Tá certo que executivos de gravadora não sacam nada de música, mas seria inferir demais achar que Mika se equivocou e o executivo não percebeu, bla bla.

* Em um momento que se pretende dramático nas páginas 61 e 62, Mika se encontra com seu único amigo, um jovem um pouco mais velho do que ele que trabalha cinzelando lápides no cemitério local. Lennart, o amigo, está podre de bêbado porque passou a  noite assentando seu próprio nome na pedra de um túmulo – a sepultura é a de um rapaz com a mesma idade e com o mesmo nome de Lennart. Mostrando que a cidade em que vivem é pequena pra dedéu, Mika não só conhecia o outro Lennart, o falecido, como esteve no enterro do jovem. E aí ele sai-se com esta ao recordar o sepultamento:
E eu me lembro de algo insólito. Os amigos cantam, num coro abafado, ‘Nevermind’, do Nirvana. Supostamente a CANÇÃO favorita de Lennart.

Provavelmente todos vocês perceberam que o baterista do Led era John Bonham, e que Nevermind é o nome de um disco do Nirvana, não de uma canção – a palavra nevermind está na letra de uma das canções do álbum, mas o nome dela é Smells Like Teen Spirit. Em outro romance, com outra proposta, talvez fosse possível relevar deslizes como esse. Mas nesse livro em particular, o de um ROQUEIRO obcecado com uma lenda macabra de que ASTROS DE ROCK morrem aos 27 anos, são duas gralhas que, a exemplo do carcará da Bethânia, “pega, mata e come” qualquer fruição que se pudesse estar experimentando com toda a dificuldade do mundo, uma vez que o livro não é nenhum primor de escrita ou construção.

Capa Brega sci-fi do Dia

04 de novembro de 2011 3

A ficção científica é um gênero que ainda sofre preconceito – e por vezes o justifica. Mesmo que alguns autores da mais rematada excelência tenham trabalhado ou ainda trabalhem com a chamada “ficção antecipatória”, como Júlio Verne, Philip K. Dick, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Kurt Vonnegut, Maurice Dantec, William Gibson, Arthur C. Clarke, Neil Stephenson, etc, etc, a FC por vezes mergulha em um círculo de incompreensão no qual é impossível mapear a origem do problema: se o fandom do gênero é tão sectário por ser alvo da imagem distorcida de ser uma literatura obcecada com a técnica e sem alma ou se os fãs do gênero alimentaram essa desconfiança com sua postura algo desconfiada. O fato é que uma das maiores editoras do Brasil, a Companhia das Letras, há pouco tempo ainda mantinha em sua página na internet o aviso a quem estava interessado em enviar originais que não recebia trabalhos de Ficção Científica – o que eu particularmente acho muito estranho vindo de uma editora que tem em seu catálogo J.G. Ballard, por exemplo.

Por outro lado, é inegável reconhecer que muito da ficção científica é hermética, irrepreensível do ponto de vista técnico mas completamente falho do ponto de vista literário, não conseguindo casar as duas coisas satisfatoriamente: a estética (literatura sem estética vira o quê?) e a precisão científica. Os autores antes citados conseguiram. Outros, nacionais, vêm trilhando a mesma senda, como Luiz Brás (o pseudônimo sci-fi de Nelson de Oliveira), Berilo Neves, Jorge Calife, Bráulio Tavares e Fábio Fernandes. Os livros desses autores também hoje contam com um cuidado editorial praticamente ausente das publicações anteriores do gênero (como as capas praticamente todas iguais da série Perry Rhodan, lembram?), e em alguns deles, como as coletâneas de Contos Brasileiros do gênero editados por Roberto de Souza Causo ou os volumes de Ficção de Polpa, já conseguem mesmo utilizar alguns dos clichês mais associados ao gênero de modo elegante e inovador.

Isso não deixa de ter muito valor quando lembramos que as capas associadas ao gênero eram como esta de Orion Renascerá, fotografada por mim mas encontrada nas caixas da Feira pela nossa jovem repórter online Fernanda Grabauska em uma banca ali perto do Santander Cultural. É uma obra de um dos mestres do gênero, Poul Anderson, autor de extensas sagas que trabalhavam seus temas ao longo não dos anos de vida de um ou outro personagem, mas durante décadas e às vezes séculos. Anderson também dedicava especial atenção à construção de sus personagens, Anderson foi brindado na edição nacional da Francisco Alves para este romance de 1983 com essa capa que:

1 – É ilustrada com um desenho no limite do amador e que descaradamente tenta pegar carona em Blade Runner (reparem como a figura masculina parece ter sido decalcada do Rutger Hauer no filme)

2 – Só consegue traduzir o clima do livro, situado em um futuro pós-apocalíptico no qual a tecnologia retrocedeu a períodos ancestrais e que enfrenta o dilema de saber se vale a pena retomar uma sociedade industrial em larga escala, apresentando um casal de olhos vidrados como uma espécie de peregrinos neopentecostais interestelares.

Em tempo: no Facebook, o amigo do blog Bruno Leite indicou este site britânico que é uma  verdadeira pérola de capas bregas da Ficção Científica.

Em tempos de Batman...

23 de julho de 2008 6

Me lembrei de falar de um livro que não chega a ser novo, foi lançado há três anos, e constitui uma leitura bem interessante para conciliar entretenimento e divulgação científica. Aproveito o gancho do Batman porque filmes de super heróis sempre me fazem lembrar dos dias de infãncia, nos quais, como um bom nerd, passava meus dias mais preocupado com o que iria acontecer no próximo número de Superaventuras Marvel do que quando seria a próxima festa (na minha cidade e naqueles tempos idos, a gente chamava de boate).

E um dos cacoetes mais clássicos que definem o que é ser um nerd leitor de quadrinhos é justamente ficar gastando tempo discutindo assuntos de vital importância para a humanidade como o quão verossímil ou fisicamente viável seriam os poderes de um super herói no mundo real — e isso que naquela época os gibis de herói ainda não tinham descoberto o marketing de se vender como ficção científica, uma jogada que veio com os filmes, e da qual os cientistas discordam veementemente. Como já comentamos no post sobre a morte de Arthur C. Clarke, há um tempo, uma ficção científica em que a “ciência” que embasa a aventura a não passa de chute só pode almejar a ser um outro ramo da literatura de fantasia

Mas como eu dizia, na minha época de guri (imagino que na de hoje também) era um assunto de suma importância discutir se o Flash realmente poderia vibrar suas moléculas para atravessar objetos sólidos, ou como o Super Homem cortava o cabelo se era invulnerável, ou como as ferramentas cabiam no modelo antigo do cinto de utilidades do Batman?

Pois dois autores, a escritora Lois Gresh e o jornalista e escritor de quadrinhos Robert Weinberg, levaram essa discussão a sério e publicaram A Ciência dos Super-Heróis (Ediouro, 2005, 232 páginas, R$ 39,90). É um daqueles livros que à primeira vista parece nerd demais para ser levado a sério, mas a leitura revela uma obra fantástica que usa os quadrinhos de super-heróis como pontos de partida para interessantes (agora sem ironia) reflexões sobre física, química, astronomia, biologia e outros ramos da ciência, de forma simples, abrangente e muito esclarecedora.

Seria provavelmente muito decepcionante se o livro ficasse apenas apontando coisas como: a história do super homem ser energizado pelo sol amarelo da Terra é bobagem, ele ser um alienígena chegado do espaço é pouco provável ou coisas assim. O livro faz tudo isso, claro, mas usa cada caso como um pretexto, e se detém na razão científica de por que isso é possível ou impossível: O Super Homem é usado como exemplo para uma informativa visão das teorias sobre vida extraterrestre (uma delas uma equação matemática proposta por um cientista para calcular o número provável de planetas habitados na nossa galáxia, outra delas uma teoria recente que rebate essa equação e defende que as circunstâncias que propiciaram a vida na Terra são tão raras que não espantaria se esse fosse um fenômeno único em todo o universo). Ah, sim, e luz é sempre luz, a impressão de “cor” de uma determinada estrela se dá pela quantidade de poeira ou atmosfera à sua volta, portanto um sol vermelho em Krypton ou amarelo na Terra não fariam diferença alguma.

Outro personagem citado é o Gigante, ou Golias (ao lado), um herói integrante dos Vingadores, principal grupo de heróis da Marvel, que já contou com Homem de Ferro e Capitão América, por  capaz de aumentar de tamanho, serve como um ilustrativo exemplo de como a gravidade age sobre a massa. O personagem Golias é inviável porque qualquer criatura que chegasse à altura que ele atinge quando se expande teria sua massa aumentada em proporção direta — e não há como, em um mundo com gravidade como a nossa, uma criatura de 20 metros ser bípede, o peso do tronco esmagaria as pernas.

O livro não é só uma coleção de desmitificações, ele usa também como exemplo para ensinar ciências os acertos das histórias em quadrinhos. Os mutantes X-Men, imaginados por Stan Lee têm poderes que são um exagero, mas a própria vida na Terra é resultado de mutações constantes (e ao chegar nesse ponto do livro os autores oferecem um detalhado e compreensível resumo das circunstâncias que levaram Darwin a chegar a suas conclusões sobre a origem das espécies).

E o Batman, justamente por não ter poderes, é um herói viável, e as engenhocas em seu cinto são tão prováveis que algumas delas já existem e fazem parte do equipamento de exércitos regulares: bombas de gás, corda retrátil para escaladas, minilanterna, sinalizador luminoso. Tanto que nas cenas do filme em cartaz atualmente, o equipamento usado pelo ator Christian Bale era em sua maior parte real.

Curiosamente, Gresh e Weinberg também apontam quem, na sua opinião, manejou melhor conceitos científicos para criar aventuras cativantes, repletas de ação e ainda assim impecáveis do ponto de vista da ciência. Para quem esperava alguma aventura escrita para os super-heróis, com sua pretensão mais “realista”, será uma surpresa saber que se trata de Carl Barks, desenhista e roteirista que, à frente do Pato Donald, criou uma série de numerosos coadjuvantes que deram brilho à família Pato, entre eles o Tio Patinhas.

Barks criava as histórias de caça ao tesouro da família de Patinhas usando idéias científicas realmente plausíveis, e uma delas, por mais fantasiosa que parecesse, era tão possível que um físico que cresceu lendo quadrinhos mais tarde desenvolveu um método de resgate de embarcações náuticas baseado numa delas.

Para retirar do fundo das águas um galeão espanhol naufragado, Huguinho, Zezinho e Luizinho sugerem ao tio que o encha de bolas de pingue-pongue, e ele passa a flutuar. E usando esferas de espuma com o mesmo conceito e com a mesma finalidade, anos depois, o tal cientista provou que Barks e sua imaginação estavam certos. O mais engraçado foi que ele tentou patentear o método e seu caso foi rejeitado justamente porque ele havia tirado a idéia de um gibi, e não desenvolvido um método original. Ah, sim, quem assiste ao Fantástico, da Globo, deve ter visto no ano passado os “caçadores de mitos” suspenderem um navio naufragado usando bolas de pingue-pongue para provara que era possível. Palmas para mestre Carl.

Viram como o livro é legal?

Morreu Arthur C. Clarke

18 de março de 2008 4

Arthur Clarke em sua biblioteca em Colombo, no Sri LankaA notícia vem do Sri Lanka: morreu na madrugada desta quarta-feira o escritor Arthur C. Clarke, um dos mestres da literatura de ficção científica, autor de mais de uma centena de livros – e co-autor, com Stanley Kubrick, de uma das obras-primas do gênero no cinema: o roteiro de 2001: Uma Odisséia no Espaço. Ele tinha 90 anos e morreu de insuficiência respiratória em Colombo, no Sri Lanka, onde vivia.

Mais do que um escritor de ficção científica, Clarke é tido, ao lado de uns poucos como Isaac Asimov, William Gibson e Ray Bradbury, por exemplo, como autor do que se pode chamar com propriedade de ficção “científica”, já que a invenção está a serviço dos conhecimentos científicos reais que temos sobre o mundo e o universo. E mesmo aquilo que não se mostra possível nesse tipo de ficção normalmente tem uma base científica real tão forte que coisas que não eram possíveis quando o livro foi escrito tornam-se realidade com o passar dos anos. É a chamada “literatura de antecipação”, termo que muitos fãs usam para diferenciá-la do que seria a “fantasia científica”, histórias aventurescas em que a ciência mais parece calcada em livro-texto de 5ª série.

Definitivamente, Clarke foi um “antecipador”. Antes de se tornar um escritor, foi um técnico e um cientista com reputação consolidada. Serviu como operador de radar na Real Força Áerea durante a II Guerra Mundial e fui um dos responsáveis pela pesquisa tecnológica que desenvolveu o sistema defensivo de radar utilizado pelas forças britânicas durante o conflito. Depois de dar baixa com o posto de tenente-aviador, formou-se em Física e Matemática no King’s College, em Londres, e está documentado que foi um dos primeiros cientistas do mundo a propôr a idéia, ainda nos anos 1950, de que satélites geoestacionários (em órbita fixa ao redor da Terra) seriam grandes suportes para uma rede mundial de telecomunicações.

Embora tenha escrito contos desde muito cedo, começou a publicar em bases mais profissionais após o fim da II Guerra, na segunda metade dos anos 1940. É dessa mesma década o conto O Sentinela, que inspiraria o filme de Kubrick e que até hoje é um repositório das principais características associadas a sua ficção: precisão técnica, um humanismo metafísico e a exploração do paradoxo entre a desumanização da técnica e um sentido místico maior para a existência.

Clarke permaneceu tão focado nas idéias e conceitos apresentados em O Sentinela que voltou a eles em uma série de livros apelidada, por seus leitores, como a “série 2001″. O romance-título, 2001: Uma Odisséia do Espaço, foi redigido enquanto o escritor colaborava com Kubrick no roteiro do filme, nos anos 1960, e ficou pronto antes da obra cinematográfica. O romance, como o filme, discute as origens do homem, o lugar da espiritualidade, o desenvolvimento da inteligência. Suas seqüências, embora também populares, foram menos bem sucedidas em termos estéticos e até mesmo de público. São elas 2010: Uma Odisséia no Espaço 2 (também transformado em um filme, O Ano em que Faremos Contato, ruim de doer, dirigido por Peter Hyams e estrelado por Roy Scheider), 2061: Uma Odisséia no Espaço 3 e 3001: a Odisséia Final, todos publicados no Brasil pela Nova Fronteira, mas alguns já fora de catálogo. O elo comum entre os romances, além de personagens recorrentes, é o “monolito negro” (no filme, no livro ele é descrito como um “monolito de cristal”) tornado célebre pelo filme de Kubrick, de origem alienígena.

Outro eixo da produção literária de Clarke é a série Encontro com Rama, também focado em um elemento externo ligando a humanidade a seres de outros planetas. Desta vez, o centro da narrativa é uma nave cilíndrica (a “Rama” do título) que cruza o nosso sistema solar até ser interceptada por um grupo de exploradores que passam a tentar desvendar os segredos e a tecnologia da nave (publicado nos anos 1970, esse argumento voltaria ao cinema em filmes Bs que resolveram copiar a idéia, tantos quanto as voltas que a Terra dá em torno do Sol). Também este livro renderia a Clarke três seqüências: Rama II, O Jardim de Rama e A Revelação de Rama. Novamente, todos tiveram edição no Brasil pela Nova Fronteira, alguns ainda são fáceis de achar, outros só em sebo.

Clarke vivia no Sri Lanka havia mais de 50 anos, e desde os anos 1980 lutava contra uma síndrome chama pós-polio, que o obrigava a passar a maior parte do tempo em uma cadeira de rodas. Já nos anos 1990, quando estava às vésperas de ser condecorado pela monarquia britânica, ele foi alvo de reportagens difamatórias do tablóide inglês The Sunday Mirror, no qual era acusado de pedofila e aliciamento de garotos do Sri Lanka. As autoridades locais investigaram o caso, a condecoração foi adiada, Clarke foi inocentado e o Sunday Mirror publicou uma retratação. Em 2000, finalmente recebeu a condecoração. Além disso, Clarke ganhou várias vezes o Hugo e o Nebula, os prêmios mais importantes da ficção científica internacional. Ah, sim, se alguém tinha curiosidade, o C. de Arthur C. Clarke era de Charles.