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Posts na categoria "filosofia"

Pano pra manga na praça

14 de novembro de 2013 0
Rousseau de Pano  na banca da Tomo Editorial. Foto: Carlos André Moreira

Rousseau de Pano na banca da Tomo Editorial. Foto: Carlos André Moreira

Na barraca da Tomo Editorial, numa das extremidades do corredor da Rua da Praia, um pequeno autor vinha aguardando imóvel há dias pela sua sessão de autógrafos, que foi realizada hoje às 19h, na Praça de Autógrafos. O Rousseau de pano que está exposto na banca foi criado pela designer Sirlei Chiminazzo e marca o lançamento do oitavo volume da editora dedicado à coleção Filosofinhos/Les Petits Philosophes.

O livrinho dedicado a Rousseau é de autoria de Cauê Borges (texto) e Francisco Juska Filho (ilustrações). Os títulos da coleção pretendem apresentar em formato de história para crianças ideias de grandes filósofos do pensamento ocidental. Descartes, Freud, Sócrates, Platão, Marx, Kant e Sartre e Simone de Beauvoir (dividindo um mesmo volume) são os autores que já ganharam edição pela série.

Para Zizek, menos é mais

15 de março de 2013 0

Hegel (1770 – 1831), em gravura de Lazarus Sichling (1812–1863)

Em sua famosa entrevista a Didier Eribon, De Perto e de Longe, o antropologo francês Claude Lévi-Strauss disse que, de seus estudos de filosofia alemã na juventude, reteve a noção de que a consciência humana tendia a “mentir para si mesma”. Com a elegância de estilo que caracteriza Lévi-Strauss, eis uma fórmula capaz de resumir um dos legados fundamentais do pensamento germânico, de Kant a Heidegger. Não estamos sozinhos no castelo do cogito, há algo na consciência que não é igual a ela mesma,“Eu é um outro” (Rimbaud) e “A verdade está lá fora” (Arquivo X) – mais do que uma noção, a filosofia alemã produziu um efeito de estranhamento no conhecimento e na cultura. O fato de esse efeito ser hoje inseparável da modernidade talvez seja sua maior realização.

Não é preciso ser leitor de filosofia para intuir que a obra de Sigmund Freud está profundamente alicerçada, desde o princípio, nessa tradição. Ainda que tenha realizado a parte principal de sua formação clínica e tido alguns de seus principais insights na França, a psicanálise não teria existido sem o efeito desestabilizador das ideias de consciência e de sujeito sistematizadas pelos alemães. Como nota, entre outros, Élisabeth Roudinesco, as resistências iniciais à doutrina de Freud na França devem-se a sua suposta “não-latinidade”. É curioso que, entre todos os sistemas de pensamento que procuraram explorar os múltiplos pontos de contato entre a moderna filosofia alemã e a psicanálise, nenhum tenha sido mais ousado e produtivo do que o do francês Jacques Lacan e sua imensa família de discípulos. Entre estes, um dos mais célebres, o esloveno Slavoj Zizek, tenta costurar esses dois legados em Menos que Nada – Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético (Boitempo Editorial, 656 páginas, R$ 79).

Antes de se tornar talentoso escritor e persona pública, Zizek formou-se em psicanálise em Paris com Jacques-Alain Miller, genro de Lacan. Não lhe escapou o fato de que, em Lacan, o interesse por Freud correu paralelamente a uma curiosidade filosófica incomum, que o levou a conviver com especialistas como Alexandre Kojève e Alexandre Koyré. Lacan intuiu que os legados de Hegel e de Freud se voltavam para questões chave da filosofia do conhecimento, como consciência e sujeito. Dissecados por Hegel de um ponto de vista dialético, esses temas passam por Marx, Freud, estruturalistas e pós-estruturalistas e ecoam em todo o pensamento pós-moderno. É nesse ponto que são retomados por Zizek, como destroços recolhidos à beira de uma praia.

Zizek é um ensaísta profundamente intuitivo e empático. Ele define – ou antes indefine – seu livro como uma espécie de Hegel para Imbecis: “Hegel para aqueles cujo QI está mais próximo da temperatura corporal (em graus Celsius), como diz o insulto… não é?”. O autor lembra que a palavra imbecil provavelmente deriva do latim baculum (bastão, cajado, báculo). Imbecil é alguém que não tem um bastão no qual se amparar, e na filosofia, esse instrumento corriqueiro de apoio, orientação e exploração não pode ser outra coisa senão a linguagem. Para Zizek, o horizonte filosófico-ideológico contemporâneo é um quadrilátero de forças delimitado por quatro pontos: do lado do materialismo, o naturalismo científico (neurociência, darwinismo) e o historicismo discursivo (Foucault, desconstrucionismo); e do lado do espiritualismo, o “budismo ocidental” e o pensamento da finitude transcendental. Sua tese é de que o “núcleo da subjetividade moderna” não está no interior desse campo de futebol, mas fora dele, e constitui aquilo que Freud denomina pulsão, relacionada à falta e ao desejo e preexistente à linguagem.

Buscar uma definição de real por meio do entrecruzamento das noções de falta, pulsão e desejo é um procedimento familiar na teoria psicanalítica – entre outros, o brasileiro Marco Antonio Coutinho Jorge já enveredou por esse caminho em Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan. A ideia de reconciliação entre Lacan e a filosofia tampouco é inédita, como mostra a obra do francês Alain Badiou, por sinal um dos interlocutores de Zizek. O que o escritor esloveno tenta fazer, com a ajuda do politicamente conservador Hegel, é uma leitura transgressora do politicamente conservador Lacan, apontando para a possibilidade de uma transgressão da ordem que não acabe por provocar apenas uma recomposição da dominação. Partindo da máxima de Lacan de que “não existe Grande Outro” (vale dizer, a linguagem, o signo ou a ordem simbólica não é o reflexo de um real imperativo, mas o produto decantado de processos de subjetivação), Zizek critica aqueles que, ainda assim, estacam diante da presença ameaçadora desse mesmo Outro e mergulham em distintas formas de passividade, seja teórica ou política. Se Hegel está certo ao sugerir que não se pode conhecer o futuro e Lacan tem razão em afirmar que a linguagem é a prisão do sujeito, a tarefa de Zizek é explorar as possibilidades de uma ética da revolta ancorada nesses dois pensadores.

O caudaloso livro de Zizek – são 656 páginas na edição brasileira, pela Boitempo – pode assustar os não iniciados, mas não constitui, de forma alguma, leitura monótona. Afinal, qual outro autor seria capaz de comentar Hegel com base em exemplos extraídos de Guerra nas Estrelas, de citar Veludo Azul, de David Lynch, a propósito de Derrida ou transitar da filosofia do conhecimento a uma piada judaica no mesmo parágrafo sem passar por superficial? Para os leitores menos vorazes, é do próprio Zizek a ideia de que talvez não seja necessário ler a obra do princípio ao fim para entendê-la.“Por exemplo, muitos ensaios sobre Ulisses, de Joyce – e com frequência os melhores – foram escritos por estudiosos que não leram o livro inteiro; e o mesmo vale para Kant ou Hegel, pois um conhecimento extremamente minucioso só produz uma entediante exegese especializada, em vez de nos fornecer insights”, sustenta. Ele mesmo parece ter levado essa ideia ao paroxismo ao admitir, em 2011, que escrevera sobre o filme Avatar antes de tê-lo assistido. Menos é mais.

Ferry, a família e a filosofia

20 de maio de 2010 2

Luc Ferry em Porto Alegre em 2007 - Foto: Carlos Rodrigues

A editora executiva do Segundo Caderno e colunista de Zero Hora, Cláudia Laitano, entrevistou, via e-mail, o intelectual francês Luc Ferry, ex-ministro da Educação na França e professor de filosofia tido como um dos grandes responsáveis pela “onda pop” da disciplina nos últimos anos. Com livros que unem rigor e didatismo mas não se furtam de falar também para o leitor leigo sem formação filosófica profissional, Ferry tornou-se um filósofo de amplas vendas com o conjunto formado pelos livros Aprender a Viver e A Sabedoria dos Mitos Gregos. Ferry é um militante da ideia de que a filosofia precisa lutar para recuperar seu espaço na vida intelectual da gente comum, e que deve ser uma fonte de questionamentos espirituais e de ação concreta. Em suma, que deve ser, como o foi na Antiguidade, a ciência da vida boa. Ou, nas palavras da apresentação da entrevista feita por Cláudia, também chamada de “a chefe”: “Falar de filosofia, acredita Ferry, é tratar dos temas cotidianos da existência humana: o outro, o amor, a morte, a felicidade, a dor, a transcendentalidade.”

Essa urgência da filosofia de voltar ao âmago da vida política e social levou Ferry a agir politicamente como ministro da Educação na França. Durante sua gestão, assinou a polêmica disposição proibindo aos alunos da rede pública o uso de símbolos religiosos (incluindo aí crucifixos cristãos, o véu islâmico e a estrela de David judaica).  Em 2007, quando esteve em Porto Alegre como o convidado inaugural da primeira conferência do primeira edição do Fronteiras do Pensamento, Ferry foi questionado pela plateia a respeito da decisão, controversa por ser tomada pela França berço do pensamento liberal iluminista. Respondeu: “É preciso avaliar o contexto. A França tem a maior comunidade islâmica da Europa e a terceira maior comunidade judaica do mundo, atrás apenas de Israel e Estados Unidos. O que aconteceu no início dos anos 2000, à época da aprovação da lei, foi um recrudescimento do conflito árabe-israelense. Pequenos judeus e magrebinos estavam usando símbolos como se fossem armas em um conflito ideológico. O objetivo daquela lei foi impedir a guerra de se introduzir no ambiente escolar.

Três anos depois, Ferry estará de volta a Porto Alegre amanhã, como como um dos convidados do 6º Fórum Político Unimed/RS, que se realiza das 9h às 17h30min, no BarraShoppingSul (Diário de Notícias, 300) – e para antecipar um pouco dos temas que o filósofo deve abordar em sua palestra, Cláudia Laiano fez a  entrevista abaixo – que, infelizmente, não coube toda no espaço restrito da página de jornal, mas que pode ser lida na íntegra aqui no blog. Uma entrevista na qual Ferry discorre sobre a filosofia hoje, o papel da família no mundo contemporâneo, o declínio das vanguardas e uma pá de outros temas. Divirtam-se:

Zero Hora — Há um “novo ateísmo” defendido por autores célebres como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e o senhor mesmo? Nossa época é mais receptiva a esse tipo de reflexão?
Luc Ferry —
Eu sou descrente, agnóstico, mas o ateísmo militante sempre me pareceu absurdo. Primeiro, porque respeito as religiões, mas também porque não se pode evidentemente demonstrar a inexistência de Deus mais do que sua existência.

ZH — A polêmica sobre a proibição da burca está viva na França e na Bélgica. Não é o caso da Grã-Bretanha, um país com muitos imigrantes. O senhor tem  uma explicação para esse fenômeno?
Ferry —
Francamente, a burca é um horror, e todas as mulheres livres no mundo árabe suplicam literalmente aos ocidentais que não deixem o islamismo radical mais fanático se desenvolver. Eu respeito profundamente a religião muçulmana, mas a burca não é um signo religioso. É uma postura política agressiva. A Grã-Bretanha se deixa de quando em quando devorar pelo fanatismo em nome de uma lógica de tolerância de guetos que considero detestável. É um pouco como os guetos negros americanos, que não deram nada de bom e mesmo levaram à catástrofe. Eu creio que meus amigos ingleses acabarão pagando muito caro por isso…

ZH — O senhor escreveu sobre a importância da redescoberta da filosofia pelos jovens na série Aprender a Viver. Mas há muitos leitores mais velhos que compram e leem essas obras. O que é mais difícil: a conquista de novos leitores para a filosofia ou o convívio com a crítica de colegas que temem uma suposta banalização dos conceitos filosóficos?
Ferry —
O que ocorreu foi que vimos na arte como na literatura e na filosofia o fim das vanguardas. Por definição, os autores de vanguarda não se dirigiam ao povo, à massa, mas sempre a uma elite. Eles estavam “à frente”, eles eram os guias geniais, como Stalin ou Kim il Sung. Hoje, todos os filósofos e escritores de minha geração se reconciliaram com a democracia, como antes de nós haviam feito os maiores. Sejam de esquerda ou de direita, se dirigem a todos e escrevem claramente. Nos reencontramos com o ideal democrático. Lembro que Rousseau, Voltaire ou Sartre eram lidos pelo povo, como Kundera, Philip Roth ou García Márquez hoje. Derrida é um total desconhecido assim que você deixa o solo das universidades americanas. Jamais encontrei um não-universitário que tenha lido Derrida. Essa época vanguardista, que não construiu nada de bom ou grandioso, ficou para trás. Por outro lado, devo lhe dizer que sou professor universitário há 30 anos, dei aulas em todos os níveis, orientei teses de doutorado ao longo dos anos e nunca tive a menor crítica de meus colegas sobre a questão da popularização da filosofia porque mais de 3 mil entre eles utilizam meu livro em suas aulas! Passei em torno de 20 anos de minha vida traduzindo, editando e comentando os maiores filósofos alemães, Kant, Fichte, Schelling, Hegel, Adorno, Horkheimer, Cassirer e outros mais. Não sou um desses intelectuais midiáticos que vivem à margem da universidade e que não conhecem seus clássicos. Na verdade, meu livro não se dirige especialmente às crianças. É uma forma de dizer, um artifício literário, um procedimento retórico que usei para me forçar a contar a história da filosofia e explicar os conceitos mais difíceis de maneira simples.

ZH — No livro Famílias, Amo Vocês, o senhor escreveu que a família, as crianças em particular, tomou o lugar da religião e das ideologias na vida espiritual do homem moderno. Quais serão as consequências desse fenômeno num país como o Brasil, onde não existe uma tradição republicana sólida?  Esse “retorno ao lar” pode ser contraditório com a construção de uma sociedade mais justa?
Ferry —
É preciso saber que, na Idade Média, não se casava jamais por amor. Pode-se dizer que houve, desde o Antigo Regime, três idades da família. Na Idade Média, como os historiadores das mentalidades nos mostraram, não se casava jamais por amor. O objetivo do casamento era sobretudo a transmissão do nome, do patrimônio, mas também a necessidade econômica: se trata de fabricar os braços para fazer viver o negócio. Isso não se discute mais. O nascimento do trabalho assalariado vai subverter essa situação porque vai levar a emancipar os indivíduos do peso das comunidades tradicionais e por uma razão simples: o mercado de trabalho que nasce com o capitalismo constrange os indivíduos à ir trabalhar nas cidades. De um só golpe, eles se libertam das formas tradicionais de controle social e, ao mesmo tempo, eles adquirem, graças ao salário, precisamente, uma autonomia financeira. O que os levará a querer não se casar mais à força, mas por escolha, e portanto, se possível, por afinidade eletiva, ou seja, por amor. É o nascimento do casamento por amor. Mas antes desse último se tornar a regra para todas as uniões (ou quase), como é o caso de hoje, há uma época intermediária, a da família burguesa, que mistura o casamento arranjado e o casamento sentimental em proporções variadas. Bem entendido, há um ponto fraco: nas grandes cidades europeias, pode-se dizer que cerca de 50% dos casamentos terminam em divórcio — a vitória do casamento por amor é também a do divórcio! Com efeito, se se casa exclusivamente por razões sentimentais, o amor dá lugar ao ódio, que, como sabemos, uma vez presente, não deixa motivo para se permanecer juntos e ocorrem as separações. O problema, certamente, são as crianças, que vivem frequentemente mal essa situação. Ou seja, é preciso evitar idealizar as épocas onde as pessoas se divorciavam menos. Na família burguesa do início do século passado, certamente, ninguém se separava: isso não se fazia em um meio decente! Mas o preço a pagar era muito pesado, notadamente para as mulheres que sacrificavam com frequência sua vida profissional, e muito rapidamente, sua vida privada, a um marido que lhes passava para trás alegremente. Hoje, as pessoas se divorciam e se separam, mas, paradoxalmente, se ocupam por vezes mais e melhor das crianças por meio de um “divórcio seguro” do que por um casamento falido, minado pelas mentiras, as hipocrisias e os segredos de família…

ZH — O que a filosofia pode ensinar aos jovens que usam antidepressivos?
Ferry —
Nossas sociedades, pelo menos na Europa, têm os direitos do homem e o mercado, ou seja, o respeito ao outro e à riqueza. Em sentido contrário, elas carecem de espiritualidade, elas são desprovidas de sentido e é isso que empurra os jovens em direção à droga ou às seitas. Para compreender bem isso, é preciso evitar uma confusão que, por ser muito frequente, sacrifica de saída toda compreensão da noção de espiritualidade laica: é, de fato, indispensável distinguir claramente dois tipos de valores, os valores morais de um lado e os valores espirituais, de outro. Nada é mais prejudicial ao entendimento da filosofia, mas sobretudo da realidade humana, do que misturar essas duas esferas claramente distintas. Constantemente, a confusão se instala entre elas, não somente no interior do debate público e político, mas por vezes também na literatura filosófica onde o termo vago e geral “ética”, empregado a torto e a direito, vem borrar permanentemente as fronteiras. As coisas são, porém, muito simples. A moral, em qualquer sentido que a entendamos e qualquer que seja sua doutrina de referência, é, em primeiro lugar e antes de mais nada, o respeito ao outro, a quem é preciso dar as boas-vindas, a generosidade e mesmo, usemos a palavra, a bondade. Pode-se com certeza consagrar, se for o caso, um seminário universitário de um ano a essa definição de moral, mas pode-se também dizer as coisas simplesmente: eu me conduzo moralmente com meus vizinhos e próximos quando os respeito e os ajude, quando lhes reconheço um direito imprescritível a pensar diferentemente de mim e que, mesmo nessa hipótese, faço o que posso para que lhe tornar a vida mais doce e mais fácil. Para nós, europeus de hoje, a moral comum tomou essencialmente a forma de uma declaração, a dos direitos do homem, à qual é bom acrescentar, como tenho sugerido, a vontade de fazer o bem, de ajudar ativamente os outros _ aquilo que se chama, na acepção correta, a benfeitoria. A organização humanitária Irmã Emmanuelle, os direitos do homem e a bondade, o respeito ao outro e a generosidade, a moral comum da qual comungam hoje a maior parte de nossos concidadãos.

ZH — Desse ponto de vista, qual é a fronteira entre moral, religião e filosofia?
Ferry —
Sonhemos um pouco e imaginemos um instante, pelo prazer da reflexão, que dispomos de um bastão mágico que nos permitiria fazer, de um só golpe, todos os seres humanos deste mundo se conduzirem de maneira perfeitamente moral em relação ao outro. Não haveria mais neste planeta nem massacres nem violações, nem roubos nem mortes, nem injustiças, nem guerras, nem genocídios. No limite, as nações não teriam mais necessidade de exército, de polícia, de prisões nem de sistema judiciário repressivo. Isso seria simplesmente uma revolução. Porém, e aí aparece em plena luz a diferença entre valores morais e valores espirituais, isso não nos impediria nem de envelhecer, nem de morrer, nem de perder um ente querido, de experimentar a dor de um ser amado, nem mesmo de ser infelizes no amor, estar enamorados de quem não nos ama, de sofrer um acidente ou, simplesmente, de nos aborrecer no curso de uma vida cotidiana engolida pela banalidade. Quem nunca sonhou com outra existência? Ou pensou alguma vez, como Rimbaud, que a “verdadeira vida está lá fora”? Quem jamais se cansou de acordar cada manhã com o mesmo homem ou a mesma mulher na mesma cama, com o mesmo trabalho, os mesmos narizes das mesmas pessoas ao redor de si? A lógica do amor e a da moral são coisas muito diferentes. A literatura é cheia de histórias sentimentais que terminam mal porque as pessoas corretas moralmente não são amadas por aqueles pelos quais se enamoram. De resto, nós poderíamos nos conduzir como santos, viver na generosidade, o respeito e a bondade mais admiráveis que existam, aplicar os princípios da moral mais sublime da maneira mais perfeita que isso não mudaria nada: não apenas o amor não é questão de razão nem de ética, mas também perdemos aqueles que amamos, não escapamos do sofrimento, da doença, da banalidade e do tédio. Quem ousará imaginar que esses diferentes temas existenciais não são investidos de valores, e mesmo de valores mais poderosos e mais preocupantes que os valores morais? Você pode viver como um santo ou uma santa, respeitar e ajudar os outros, aplicar os direitos do homem como pessoa… e envelhecer, e morrer, e sofrer. Porque essas realidades, como disse Pascal, são de outra ordem, que releva bem a que a filosofia tem, de fato, pela “vida do espírito”, e que chamo aqui, com fidelidade à tradição, as “espiritualidades”, que vão além da moral, mas não se confundem com as religiões. Mesmo que os valores espirituais não se reduzam em nada aos valores morais, deve-se compreender que existem dois tipos muitos diferentes de espiritualidades. Um deles trata de Deus, e são as religiões, e os outros não, e são as grandes filosofias. Para dizer as coisas da forma mais simples possível, as espiritualidades religiosas tentam definir a boa vida, a vida feliz como diz Santo Agostinho, em referência a um deus. Daí vem a ênfase que elas colocam em geral sobre as virtudes de certa humildade em nome da qual se remete ao Ser Supremo para o que é saudável. As grandes filosofias, ao contrário, culminam sempre numa tentativa de propor uma resposta laica à questão da vida boa, por uma operação de sabedoria que não passa nem por um deus nem pela fé, mas pelos meios laterais, aceitando a condição de mortal, e pela simples ludicidade da razão. Os teólogos não falham jamais, desde o início dos tempos, em denunciar a fatuidade da filosofia, de acusá-la a todo momento de pecar por orgulho à maneira de Santo Agostinho, chamando “Vós, os soberbos” aos filósofos neoplatonianos que tanto gostaria de convencer a aderir a sua fé.

ZH — A filosofia tem cumprido o seu papel no mundo contemporâneo?
Ferry —
Uma das grandes falhas intelectuais do período contemporâneo é que, sob efeito do fortalecimento das ciências humanas e do pensamento do inconsciente, a filosofia cedeu muito frequentemente à tendência de desertar das interrogações sobre a sabedoria e a vida boa, a deixar, sendo resolutamente laica, o terreno das espiritualidades às religiões. De repente, a filosofia se reduziu na maior parte do tempo a ser a crítica da tradição, a ser a desconstrução, genealogia ou arqueologia dos sistemas de pensamento anteriores. E quando quis ser mais positiva, limitou-se no essencial a uma reflexão sobre a esfera moral e política, como se vê, por exemplo, em autores, de resto muito respeitáveis, como Rawls e Habermas. Essa redução da filosofia a uma simples moral foi acompanhada por vezes do que se chama uma epistemologia, uma reflexão sobre o conhecimento tocante às ciências duras (Popper é um bom exemplo) em relação às ciências humanas (Habermas é outro). Mas, em todo caso, desertou-se do essencial da filosofia, que fazia seu nome e seu objetivo: a sabedoria, essa aprendizagem da vida boa sem a qual a noção mesma de filosofia não teria nenhum sentido nem a menor razão de ser.

Tempestade e Ímpeto

16 de abril de 2010 0

Na próxima segunda-feira, o Instituto Goethe (Rua 24 de Outubro, 112) recebe em seu auditório, às 19h30min, o historiador e filosófo alemão Rüdiger Safranski (Na foto acima: Crédito de Peter-Andreas Hassipen/divulgação). O autor, que publicou notáveis biografias de Schopenhauer, Heidegger e Nietzsche, vai fazer uma palestra sobre a história e o legado artístico do Romantismo alemão surgido no século 18 e que atravessou o século 19 com manifestações estéticas que pretendiam retratar o indivíduo e suas turbulentas paixões, bem como o lugar que ocupava diante da esmagadora natureza. A palestra será seguida de uma sessão de autógrafos do livro que a originou: o ensaio Romantismo: uma Questão Alemã (Estação Liberdade), mais recente obra de Safranski a sair aqui no Brasil.

Safranski não é um viajante de primeira viagem em Porto Alegre. Ele já esteve aqui em 2001 para autografar, como parte da programação da Feira do Livro daquele ano, os livros Nietzsche – Biografia de uma Tragédia e Heidegger – Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal, que haviam sido recentemente publicados no Brasil pela Geração Editorial. Na época, ele foi entrevistado pela colega Camila Saccomori, hoje titular do blog Fora de Série, sobre seriados de televisão. Para ter uma palhinha de quem é o palestrante que o Goethe trouxe para esmiuçar um dos movimentos artísticos mais influentes da História, republico abaixo a entrevista, que saiu na ZH em 3/11/2001:

Assim Falou Safranski

Camila Saccomori

Como escritor, Rüdiger Safranski é um fenômeno editorial na Alemanha. Como filósofo, atua na direção e na consultoria do programa Filosofia Hoje, no canal WDR. Como acadêmico, procura espraiar o conhecimento dos grandes pensadores para além dos muros universitários. Durante esta semana, Safranski esteve participando de atividades na programação da 47ª Feira do Livro de Porto Alegre. Além da sessão de autógrafos de Nietzsche – Biografia de uma Tragédia e Heidegger – Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal, fez palestras na PUCRS e discorreu sobre A Importância da Filosofia Hoje na tarde de terça-feira, no Santander Cultural.

A trilogia biográfica dos pensadores Nietzsche, Heidegger e Schopenhauer (esta última ainda não traduzida para o português) tornou-se best-seller em pouco tempo na Alemanha. Lançada em 1994, Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal é tida como uma das melhores biografias de Martin Heidegger (1889 – 1976) até hoje escritas. Safranski traça com vigor a trajetória intelectual e pessoal da vida do pensador e as forças que moldaram sua personalidade. O entusiasmo político do filósofo alemão ao se filiar ao partido nazista – um dos pontos mais controversos de sua carreira – e sua breve mas agitada passagem pela reitoria da Universidade de Friburgo são abordados com detalhes laboriosamente pesquisados.
Em Biografia de uma Tragédia, são 364 páginas de pesquisa e informação sobre a vida trágica e o pensamento de Friedrich Nietzsche, um dos autores que mais influenciaram a história das idéias, da política e da arte em todo o mundo. Do nascimento do filósofo na Prússia, em 1844, até sua morte, tido como louco em Weimar, em 1900, Safranski aborda os principais fatos da tumultuada existência do autor de Assim Falou Zaratustra e O Nascimento da Tragédia, inserindo-os no pano de fundo histórico de forma a juntar as peças de um quebra-cabeça. Assim como a biografia de Heidegger, também essa foi traduzida diretamente do alemão pela escritora gaúcha Lya Luft. O professor de Filosofia da Unicamp Oswaldo Giacoia Júnior fez a revisão técnica do livro, para adaptar a terminologia própria do filósofo aos conceitos-chaves. A seguir, Safranski comenta algumas das antíteses filosóficas com que deparou:

Racional X irracional
“Escrevo biografias porque me interessa o nexo entre o pensamento e a vida, o drama de como um influencia o outro. A trilogia é uma grande narrativa para compreender e explorar a complexa e monstruosa aventura das origens da filosofia. Quando Schopenhauer for traduzido no Brasil, vocês perceberão como as três figuras estão conectadas umas às outras. Esses homens fizeram um esforço extraordinário para compreender a complexidade enigmática da vida e, nesse sentido, foram os pensadores racionais de tudo que é irracional. E vocês todos conhecem a distinção abismal entre racional e irracional. As maiores coisas que fazem parte da nossa vida são irracionais. A dimensão é essencialmente cerebral. Colocar um monte de pulgas num saco é tentar controlar racionalmente algo que foge do nosso controle.”

Filosofia X política
“É uma questão polêmica e fascinante. Em 1933, Heidegger compactuou com o nazismo e contaminou-se. Foi colocado sob suspeita. A relação com ele ficou difícil, perigosa e delicada. Como esse escândalo político realmente existiu, o fato foi tomado como desculpa para que os intelectuais não mergulhassem no conteúdo de sua obra. Para mim, esse escândalo foi um desafio, porque Heidegger mostra que a grande filosofia também pode sucumbir à sedução do poder político. Até mesmo Platão experimentou essa tentação. No livro, estabeleço a relação tumultuada entre filosofia e política.”

Nós X nós mesmos
Heidegger faz parte dos que ajudaram a constituir a linhagem de pensamento do existencialismo. Todos vamos morrer e temos apenas uma vida, isso é inevitável. Temos, enfim, uma existência. Esse impulso foi renovado posteriormente em Sartre, seu aluno por influência dos livros, não no sentido de discípulo seguidor. Existe ainda um segundo aspecto em Heidegger que poderia ser denominado de ecológico tardio. Ele colocou o homem e o universo no centro de suas perguntas: o que nós fazemos a favor ou contra nós mesmos e o que fazemos em relação ao planeta?”

Técnica X processo
“A idéia subjacente de Heidegger está relacionada à técnica, mas não com propósito meramente instrumental, como se fosse um martelo. A técnica afeta nosso modo de pensar, agir e sentir. Promove uma mutação da intelectualidade do homem. Vivemos numa época em que se pedem resultados. Na filosofia, também, mas me interesso mais pelo caminho e pelo processo. Nietzsche é tão-somente processo. É um autor que está sempre a caminho, viajando no pensamento.”

O filósofo X o psicólogo
“As pessoas me perguntam a que se deve a popularidade de Nietzsche, o popstar da filosofia. Ele é um dos poucos autores capaz de modificar pensamentos dos outros pela força das palavras. Credito essa fama ao pensamento que, por excelência, percorre diferentes estágios, dissecando as forças motrizes da cultura. É uma influência muito poderosa que se prolonga até hoje, mesmo na fase em que ele se deslocou e passou a ser um psicólogo frio, cortante como uma faca. Tanto o Nietzsche filósofo da cultura como o Nietzsche psicólogo nos permitem sacadas muito interessantes. Ele nos atirou na cara suas descobertas e depois nos abandonou. O conhecimento verdadeiro só é possível de forma restrita.”

Globalização X filosofia
“A filosofia se empenha em dar respostas específicas sobre como o homem deve viver, na individualidade e na totalidade. É aí que se insere o processo de globalização como um desafio para a filosofia. A justiça social não poderia ser derivada das forças do mercado. É preciso enfrentar esse império do mundo guiado pelo economicismo atual.”

Lá vai Slavoj

13 de fevereiro de 2010 2

Slavoy Zizek. Foto: Princeton, Divulgação

>>> NOTA DO EDITOR: No caderno Cultura deste sábado, vocês podem ler um artigo escrito por um mestrando em Sociologia que resenha First as Tragedy, Then as Farse, o novo livro do pensador esloveno Slavoj Zizek (tem uns acentos nas consoantes do nome que eu não vou conseguir reproduzir digitando em um teclado configurado em português). Como já havia feito na semana passada com um texto muito bacana sobre seu encontro com Tomás Eloy Martínez, o editor do caderno, Luiz Antônio Araújo, complementa o material publicado no jornal impresso com um artigo aqui no blog sobre a filiação intelectual de Zizek a Lacan e seu cruzamento da filosofia com a psicanálise. Aproveitem, folks, a erudição elegante do Araújo, e manifestem-se nos comentários para que eu tenha argumentos para convencê-lo a fazer isso com regularidade. O blog e vocês, leitores, só têm a ganhar, com perdão do clichê, mas é que está tarde e eu estive de plantão a noite inteira e não consegui pensar numa frase melhor:

O Pensamento de Zizek

LUIZ ANTÔNIO ARAUJO
Editor de Cultura

Entre todos os sistemas de pensamento que procuraram explorar os múltiplos pontos de contato entre a moderna filosofia alemã e a psicanálise, nenhum foi mais ousado do que o do francês Jacques Lacan e seus discípulos. Os fatos da vida e o percurso intelectual do analista da Rue de Lille fizeram com que seu interesse pela obra de Sigmund Freud corresse paralelamente a uma curiosidade filosófica incomum, que o levou a conviver com especialistas como Alexandre Kojève e Alexandre Koyré. Lacan intuiu que os legados de Hegel e de Freud se voltavam para questões chave do conhecimento, como os papéis do sujeito e da consciência. Nisso não fez mais do que se conduzir como um homem de seu tempo. Amigo de Lacan, o antropólogo Claude Lévi-Strauss diria em sua mais famosa entrevista que, da filosofia alemã, retivera a noção de consciência humana tendia a “mentir para si mesma”. Trata-se de uma concepção que remonta a Hegel, passa por Marx e ecoa no pensamento pós-moderno, e à qual Lacan dificilmente recusaria apoio.

O século 20 preparou numerosas armadilhas para o pensamento de Hegel e seus herdeiros e tampouco foi clemente com as conclusões de Freud. É significativo que a Europa Central, campo de provas da psicanálise e de distintas correntes do marxismo – do austromarxismo a Tito -, tenha explodido no início dos anos 1990 na guerra civil iugoslava. Mas foi justamente dessa região que emergiu um pensador dedicado a revisitar o pensamento de Hegel e de Freud pelo viés lacaniano. O empreendimento de Slavoj Zizek, psicanalista formado em Paris com o genro de Lacan e professor visitante de universidades dos dois lados do Atlântico, não se volta preferencialmente para a ação política ou para a prática clínica. É na crítica cultural que Zizek se exercita com maestria, por meio de um diálogo vigoroso com a literatura, o teatro, o cinema e a comunicação de massa. Como outros intelectuais do outro lado da antiga Cortina de Ferro, ele não se furta a intervir nos grandes debates públicos, às vezes como protagonista – chegou a ser candidato à presidência da Eslovênia logo depois que o país se separou da Iugoslávia. E volta sua erudição para a análise de fenômenos tão díspares como o 11 de Setembro, os reflexos da queda do Muro de Berlim, a emergência da China como potência mundial e os reality shows da TV.

Zizek já esteve no Brasil, e entre seus livros publicados em português estão Bem-Vindo ao Deserto do Real (Boitempo, 2003), As Portas da Revolução (Boitempo, 2005) e Mao – Sobre a Prática e a Contradição (Jorge Zahar, 2008). Um exemplo do caráter inquieto do intelectual pode ser encontrado no vídeo abaixo, que reproduz a os primeiros 10 minutos do documentário The Pervert’s Guide to Cinema, um filme no qual ZIzek, partindo do pressuposto de que o desejo humano é um fator cultural e não natural, analisa como o cinema contribui para a construção desse desejo. Zizek fala inglês como a caricatura de um imigrante do leste europeu, mas o trecho postado abaixo traz legendas em espanhol que devem ajudar na compreensão.

O caminho da desobediência civil

09 de maio de 2008 1

O termo “desobediência civil” ficou mundialmente conhecido após ser utilizado como uma das bandeiras de luta do líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), o idealizador da revolução que tornou a Índia independente do império britânico. Através da mobilização popular, da não-violência e da negação às obrigações impostas por um Estado autoritário, a Índia se tornou um exemplo mundial de como enfrentar um opressor violento sem usar a violência, mas sim a consciência e o poder da força coletiva. A obra que influenciou Gandhi e também outros revolucionários, como Martin Luther King, é de 1848, mas possui uma atualidade incrível. A Desobediência Civil, escrita pelo americano Henry David Thoreau (1817-1862), pode ser um livro, um discurso ou um ensaio.

O texto não tem mais do que 30 páginas, mas cada palavra contém uma força impressionante. Thoreau foi um filósofo, ensaísta e poeta que buscou na simplicidade da vida e no poder da natureza a razão da sua existência. Ao buscar esta essência do simples e se negar a apoiar a guerra dos Estados Unidos contra o México, ele conclamou os seus conterrâneos a lutarem contra o autoritarismo e buscarem a liberdade dentro do seu próprio ser. O trecho abaixo ilustra a idéia central de Thoreau sobre como o indivíduo deve se comportar perante uma injustiça evidente. Um século depois, Gandhi usaria estas letras para libertar milhões de indianos:

Se mil homens se recusassem a pagar seus impostos este ano, isso não seria uma medida violenta e sangrenta, como o seria pagá-los e capacitar o Estado a cometer violências e derramar sangue inocente. Esta é, na realidade, a definição de uma revolução pacífica, se tal for possível. (…) Mas suponhamos, mesmo, que deva correr sangue. Não corre algo como sangue quando a consciência é ferida? Por esse sofrimento esvai-se a verdadeira virilidade e imortalidade do homem, que sangra até morrer para sempre.

Thoreau foi tão insistente na sua busca pela simplicidade que viveu durante dois anos no meio da floresta, construindo sua própria casa e cozinhando seu próprio alimento. Ele relatou esta experiência no livro Walden, que acabou se tornando um clássico americano. Por se recusar a pagar impostos que achava injustos, Thoreau foi preso e, ao invés de ficar revoltado ou aborrecido, sentiu uma espécie de liberdade que o próprio Gandhi e seus seguidores experimentariam depois.

Vi que, além do muro de pedra, erguia-se entre mim e meus concidadãos outro muro ainda mais difícil de escalar ou de romper para que pudessem vir a ser tão livres quanto eu era. Nem por um momento me senti encarcerado, e os muros pareciam um grande desperdício de pedra e argamassa. (…) Não nasci para sofrer coação. Respirarei como me aprouver. Veremos quem é o mais forte.

Apesar de ter sido escrito há mais de 150 anos, A Desobediência Civil continua sendo um guia para quem busca se libertar de diversas formas de repressão do cotidiano. Thoreau, Gandhi, Luther King e outros líderes ensinaram que não basta reclamar e jogar a culpa para os políticos, é preciso agir. Vá ao sebo ou à biblioteca mais próxima e experimente este novo horizonte.

Texto de Maurício Tonetto

Páginas a esmo

22 de junho de 2006 0

Se foire, é pra não voltaire.../Divulgação
Por que o mais escrupuloso dos cristãos ri hoje, sem qualquer remorso, de todos esses Evangelhos, de todos esses Atos, que não estão mais no cânon, e não ousa rir daqueles que são adotados pela Igreja? São mais ou menos os mesmos contos; mas o fanático adora sob um nome o que lhe parece o cúmulo do ridículo sob outro. Página 63.

Voltaire (1694 – 1778), escritor e filósofo francês, que acreditava na razão como a única força digna de governar e iluminar o mundo, e que votava ao fanatismo religioso um desprezo quase perverso. Este trecho é de O Túmulo do Fanatismo (186 páginas, R$ 32,50), obra que a Martins Fontes está relançando, um ataque feroz ao fanatismo religioso e falhas lógicas nas narrativas da fé. Este e outros cinco livros do escritor foram formalmente condenados pela corte de Roma em 1771. Como a passagem acima mostra, essa polêmica sobre evangelhos apócrifos é antiiiga.

 

Postado por Carlos André Moreira