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Posts na categoria "Fotografia"

Leitura no Mercado Público: uma galeria

06 de julho de 2012 0

Este post deveria ter ido ao ar ontem à tarde, mas eu precisei viajar para Pelotas e não tive tempo de programá-lo, mas o atraso não é de todo irreversível. Até amanhã, sábado, está sendo realizada no Mercado Público, no Centro de Eventos do espaço, no térreo, ali mais próximo da entrada que dá para os ônibus mais próximos do Largo Glênio Perez, a 1ª Festa da Leitura, uma série de atividades de incentivo à descoberta do livro, com leituras ao vivo, apresentações de escolas e bibliotecas. E também livros – há bancas de editoras locais apresentando suas obras com desconto. Eu estive lá para fazer uma matéria e um vídeo para o site do Segundo Caderno (ambos podem ser vistos aqui).A Festa da Leitura funciona pela manhã com palestras e à tarde, a partir das 14h, com a feira de livros e as apresentações e leituras. Fica até amanhã no Mercado.

Me acompanhou na empreitada o fotógrafo Ricardo Duarte, o Maionese, que, como sempre, voltou de lá com imagens belíssimas que traduzem também o quanto a localização dessa Festa da Leitura contribui para a atmosfera acolhedora do evento. Qualquer coisa no Mercado Público se reveste imediatamente de autenticidade. As fotos do Maionese são uma grande oportunidade de fazer aqui no Mundo Livro mais uma das nossas galerias de imagens

Os livros iluminam o ambiente. Ricardo Duarte, ZH

Festa da Leitura tem a presença de grandes vultos. Ricardo Duarte, ZH

A leitura provê molduras para olhar o mundo. Ricardo Duarte, ZH

Victor Heitor Brito, nove anos, lendo na Festa. Ricardo Duarte, ZH

Feira tem lugar no espaço de Eventos, no Térreo. Ricardo Duarte, ZH

Alunas da Escola Rincão, no Belém Velho. Ricardo Duarte, ZH

O legítimo Mercado literário. Ricardo Duarte, ZH

>>Veja aqui outras galerias de imagens do Mundo Livro

Escritores bem na foto

29 de março de 2011 3

Vai lá mais declaração da série “confissões sinceras de um setorista”: na maioria das vezes, ilustrar o material que acompanha uma resenha literária ou entrevista com um escritor é um problema. Basicamente isso se dá por dois motivos que conduzem a uma única circunstância, a de que fotos de escritores, na media, não costumam ser imagens daquelas que se pode estourar numa página inteira de um jornal sem parecer que tem só um carão na página – poucos escritores são reconhecíveis imediatamente pela foto, também, o que só aumenta a dificuldade do desafio.

O primeiro motivo para isso é que escritores são pessoas cujo labor artístico não se presta necessariamente a altos voos imagéticos, seu trabalho não está associado à sua imagem física nem pode ser reencenado em frente ao público ou à câmera sem cair na mesmice (por isso temos tantas fotos de escritores na frente do computador, imagem clichê que substituiu o retrato na frente da máquina de escrever e o instantâneo do autor com a caneta na mão sobre o papel). O segundo é que escritores, pelo menos a maioria dos que já encontrei profissionalmente, e eu encontrei um bom número ao longo deste anos, não se sentem muito confortáveis tirando fotos. Existe uma razão para que modelos ganhem dinheiro parados na frente de uma câmera: há algo na imagem daquelas pessoas (o que poderia ser um fascínio natural ou o equivalente de talento no ofício) que consegue se transportar para a imagem estática de uma fotografia e ainda irradiar luz, carisma, personalidade ou aquele “não sei o quê” que faz da imagem algo belo, dinâmico, com um encanto próprio. Já outras pessoas não parecem tão bem assim quando fotografadas pelo simples fato de que não nasceram para isso ou não desenvolveram tal instinto. Muitos escritores são pessoas tímidas, retraídas, com problemas para se soltar diante de a) uma câmera, b) jornalistas e c) estranhos. E às vezes numa entrevista o repórter e o fotógrafo representam essas três coisas juntas.

Então foto de escritor nunca fica boa? Não, pequeno gafanhoto, não foi isso que eu disse. Há autores que de fato têm, naturalmente, a capacidade de sair bem na foto, e há, por outro lado, o talento do fotógrafo para captar não apenas o escritor mas parte de seu universo artístico e pessoal com uma imagem criativa que se vale da composição da imagem, da iluminação, do cenário circundante para tornar especial um retrato de um escritor  que não seja apenas a velha “foto-do-autor-no-computador-ou-com-um-exemplar-do-livro-na-mão“. E ao longo deste anos em que acompanhei fotógrafos de ZH em entrevistas com escritores variados, pude ver in loco a produção de muitas dessas imagens bacanas. Às vezes o tema do livro, seu mote central, mesmo uma pequena atmosfera  sugeria uma ideia ao fotógrafo – muitas vezes premido pela urgência de ter de sair em meia hora para acompanhar outra pauta. Mesmo assim, cabe ao fotógrafo fazer o entrevistado sentir-se bem o bastante para expressar naturalidade e não aquela postura travadaça de quem preferia estar arrancando o siso sem anestesia. E ainda dar uma ideia geral não apenas do livro em questão mas – quando a foto fica boa – de um universo particular do autor. Difícil? Claro que é difícil, e é isso que torna ainda melhores os bons profissionais na matéria

Como no ano passado me diverti bastante montando esta galeria de fotos de montagem da Feira do Livro, me ocorreu esta semana que eu poderia fazer o mesmo com algumas das imagens mais legais que os fotógrafos de Zero Hora já registraram daqueles que fazem a literatura do Estado. São 15 fotos recentes (todas de 2005 para cá) de autores ainda em atividade – a exceção, claro, é a imagem de Moacyr Scliar que aqui vai como homenagem. Vejam abaixo como é possível até mesmo descobrir um olhar novo sobre os clichês da imagem de escritor que falamos há pouco: o computador, a estante de livros, o livro nas mãos.

Daniel Pellizzari, o Mojo, em sua casa, em 2005, na época do lançamento de Dedo Negro com Unha. Foto de Genaro Joner

Cíntia Moscovich, em seu gabinete – e com seu material de ciclismo, em  2005. Foto de Eduardo Liotti

Charles Kiefer em sua casa em 2005, quando do lançamento de A Poética do Conto. Foto de Júlio Cordeiro

Sérgio Faraco em sua casa, na época em que lançava um livro sobre Sinuca, em 2005. Foto de Adriana Franciosi

Manoela Sawitzki em 2006, no estúdio fotográfico de Zero Hora, quando estreava a montagem de sua peça Calamidade. Foto de Júlio Cordeiro

Moacyr Scliar em 2006, no Mercado Público de Porto Alegre, para onde o levamos na época do lançamento de Os Vendilhões do Templo. Foto de Emílio Pedroso

Luiz Antonio de Assis Brasil em 2006, na PUCRS, na época do lançamento do romance Música Perdida. Foto de Adriana Franciosi

Lya Luft em sua casa em Porto Alegre, em 2008, quando havia recém lançado o livro de contos O Silêncio dos Amantes. Foto de Daniel Marenco

Fabrício Carpinejar em 2008, em Caxias do Sul, para o lançamento da coletânea de crônicas Canalha!. Foto de Ricardo Wolffenbüttel

Michel Laub à janela do apartamento de seus pais em Porto Alegre, em 2009, na época do lançamento de O Gato Diz Adeus. Foto de Tadeu Vilani

João Gilberto Noll em 2009, pouco depois de haver recebido o Fato Literário e quando preparava o lançamento de seus livros infanto-juvenis Sou Eu e O Nervo da Noite. Foto de Genaro Joner.

E já que falávamos de janelas, o professor, poeta, tradutor e helenista Donaldo Schüler em 2009. Foto de Tadeu Vilani

Carlos Urbim, em 2009, depois de ser eleito patrono da Feira do Livro do Porto Alegre. Foto de Adriana Franciosi.

Cláudia Tajes durante um passeio pelo bairro Ipanema em 2010. Foto de Tadeu Vilani

Carol Bensimon em janeiro deste ano, também em Ipanema, quando começava a publicar em ZH os contos da série Pelo Menos 8 Pessoas Ficaram em Porto Alegre Neste Verão. Foto de Genaro Joner

Montando a Feira: uma galeria

20 de outubro de 2010 4

Quem passa pela Praça da Alfândega já pode ver a Feira do Livro se erguendo do solo num lento e operoso ritual que se repete a cada ano: os trabalhadores contratados pela Câmara Rio-Grandense do Livro se esfalfam na montagem da cobertura que encobre a praça, esticando cordas, cravando espeques por entre o calçamento e amparando com escoras os pilares de aço que sustentam a estrutura que permite, a cada feira um passeio literário sem chuva. Todo ano a Feira representa, para nós aqui da Redação, um desafio em termos de cobertura jornalística, porque é um evento que se realiza todo ano e já tem mais de cinco décadas de história – ou seja, a busca por um ângulo inesperado ou mesmo interessante em algo que se cobre anualmente é uma tarefa complicada. Que ideia ainda não se teve? Como fazer diferente.

Um dos aspectos dessa dificuldade é justamente a montagem das barracas e da cobertura da Feira. Elas estão lá todo ano. E quando começam a ocupar a praça, é o momento de se fazer o registro. Os fotógrafos de Zero Hora se dirigem à praça e muitas vezes voltam de lá com ensaios belíssimos, imagens que encantam pela composição, pela beleza plástica, pela luminosidade – diferenciais em imagens de um fato que, em essência, não difere muito da construção de um andaime. Nem sempre todo esse material é aproveitado no jornal impresso – o que é uma pena, porque se não publicarmos uma foto das montagens das barracas num determinado ano, ela perde o valor jornalístico, não faria sentido republicar em 2010 a montagem das bancas em 2009, a não ser em uma matéria de memória.

Ou em uma galeria, como a que apresentamos abaixo, uma breve seleção de imagens feitas por fotógrafos de Zero Hora ao longo da última década. Cada imagem vem acompanhada, embaixo, do nome do fotógrafo e do ano em que foi tirada. Para quem já quiser entrar no clima da Feira.  E aos apreciadores de fotografia em geral, fica aqui a sugestão: visitem o blog da fotografia de Zero Hora, o Focoblog, editado pelo fera Jefferson Bottega:

Pondo ordem na banca – Jefferson Bottega: 56ª Feira (2010)

Então martela, martela o martelão“. Tadeu Vilani: 56ª Feira (2010)

A 56ª Feira também toma forma no Cais, como mostra Tadeu Vilani (2010)

Sparks will fly“. Marcelo Oliveira, do Diário Gaúcho –  55ª Feira, em 2009

Livros são o coração das bancas. André Feltes, do Diário Gaúcho – 55ª Feira, em 2009

Arte abstrata? Não, montagem da cobertura por Daniel Marenco – 54ª Feira, em 2008

Trabalhadores do Brasil...” Júlio Cordeiro, na 52ª Feira, em 2006

Mario, será que vai chover?” Genaro Joner: 51ª Feira, em 2005

“Daqui do Céu dá pra ver tudo…” Emílio Pedroso: 51ª Feira, em 2005

Humana geometria… Mauro Vieira: Feira de nº 50. 2004

Mergulhado nos preparativos. Ricardo Chaves – 50ª Feira, em 2004

Para cima com a viga, moçada…” Júlio Cordeiro. 50ª Feira – 2004

O Sol é para Todos“. Ricardo Duarte. 49ª Feira, em 2003

Por dentro da banca. – Mário Brasil. 47ª Feira, em 2001

Uruguai em perspectiva

27 de fevereiro de 2010 0

DO CADERNO CULTURA DESTE SÁBADO

No dia 1º de março, José Pepe Mujica toma posse na presidência do Uruguai. Nos anos 70, a transição uruguaia da democracia à ditadura foi acompanhada de perto pela imprensa brasileira, como mostram imagens feitas pelo editor de Fotografia de Zero Hora, Ricardo Chaves.

O Homem e a Imagem

21 de fevereiro de 2010 2

E aqui, vocês podem ler o texto do Ricardo Chaves, editor de Fotografia de ZH, sobre a morte do personagem da foto da que documenta a queda de Berlim nas mãos dos soviéticos (acima). Este material também é complementar ao que saiu no Cultura deste fim de semana.

A Sacralidade da Imagem

Ricardo Chaves

Com a morte do soldado Ismailov, último ator da cena (imortalizada pelo fotógrafo Yevgeny Khaldei) em que uma bandeira soviética tremula sobre o Reichstag proclamando a queda de Berlim e decretando a derrota dos nazistas na Segunda Guerra, volta a velha discussão sobre verdades e mentiras na fotografia.

Fotografia é um tipo de comunicação tão extraordinário que algumas imagens, possuidoras de magnífica forma e consistente conteúdo, acabam sacralizadas pelo tempo, adquirindo status de ícones de uma época e de um fato. Tudo que é consagrado e célebre torna-se, simultaneamente, alvo de inconformados críticos e convictos iconoclastas. É natural, e até saudável, que seja assim.

Com a famosa foto de Khaldei não é diferente. Cada vez que ela aparece ou é citada, lá vem o esquadrão de detratores sempre dedicados à inútil tarefa de combater mitos. Munidos de informações, tão precisas quanto irrelevantes, contam detalhadamente a história da foto sem levar em conta que se trata, tão somente, de uma foto histórica.

Análises mais serenas levam, inevitavelmente, à conclusão que, na grande maioria das vezes, são as circunstâncias que estabelecem o roteiro e escalam os protagonistas que estarão, ou não, à altura de suas responsabilidades. O isolamento, o mistério, a falta de acesso, a ignorância, podem ajudar a consolidar equívocos. Na atual era da informação on line, isso tudo está mais longe, pelo menos para quem estiver disposto e ligado. O que aconteceu no passado deve ser visto naquele contexto. Tudo está diferente. Agora, numa inundação de informações visuais e comunicação imediata, nada se destaca. Temos que ser mais espertos. Quase tudo está à mostra e nada aparece. A velha e única foto do nosso bisavô é muito mais importante do que as centenas de fotos que tiram da gente toda hora. Melhor usar nosso rigor para examinar o que se faz hoje.

Para começar, é bom atribuir à fotografia o que ela realmente é (e sempre foi): um misto de realidade e ficção. Se a foto no Reichstag foi feita dois dias depois, se a bandeira foi levada pelo fotógrafo, isso tudo, no momento, pouco importa. Temos que entender a fotografia desse jeito e ela é tão fantástica que, devido ao seu vínculo com o real, mesmo quando “armada”, ou feita sob encomenda, contém grande teor explosivo e poder revelador. Os dois relógios (um em cada braço, provavelmente fruto de saques) que o herói, agora morto, Ismailov ostentava na foto original, posteriormente retocada, falam tanto sobre a guerra quanto o cenário de destruição que se vê ao fundo. Fotografar, editar, publicar é estabelecer uma parceria, o fotógrafo entra com uma parte e o espectador com outra.

O jornalista mais cínico é capaz de afirmar que, no caso em que a versão esteja mais interessante que os fatos, melhor que se publique a versão. Já o poeta, mais honesto e romântico, lembrou: a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer…

E aí? As coisas são mais complicadas do que parecem, né?

Para ver Clarice

04 de junho de 2008 0

Conforme prometido em matéria veiculada no Segundo Caderno de hoje, segue, abaixo, a íntegra da entrevista com Nádia Battella Gotlib, professora da USP e organizadora de Clarice Fotobiografia (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 656 páginas, R$ 90), o belo livro-álbum de Clarice Lispector que acaba de chegar às livrarias.

Como conta abaixo, Nádia, que é especialista em literatura brasileira e portuguesa e já havia lançado Teoria do Conto (Ática, 1985), Clarice – Uma Vida que se Conta (Ática, 1995) e Tarsila do Amaral – A Modernista (Senac, 1998), viajou para todos os locais nos quais a grande escritora morou, de Maceió a Torquay (Inglaterra), de Washington (EUA) a Nápoles (Itália), do Rio de Janeiro a Berna (Suíça). Passando, inclusive, pela pequena e, conforme a própria Clarice, insignificante Tchechelnik, aldeia da Ucrânia onde ela nasceu.

O resultado é um livro completo, que desvenda diversos pequenos segredos da autora de uma vasta obra de contos, crônicas e correspondências, e de grandes romances como Perto do Coração Selvagem (1944), A Paixão Segundo G.H. (1964) e A Hora da Estrela (1977).

A entrevista (preste atenção no trecho em que ela fala sobre a sua própria viagem a Tchechelnik e no anúncio de que um dos próximos lançamentos pode ser uma “fotobibliografia”) foi concedida por e-mail desde São Paulo.

Zero Hora – O livro apresenta um número muito grande de imagens, algumas inéditas, muitas raras, outras de alto valor informativo. Na apresentação, a senhora relata que Clarice Fotobiografia é um projeto antigo. Foi uma surpresa deparar com tanto material ou foi justamente o seu conhecimento deste material que a fez dedicar-se a este projeto?
Nádia Gotlib –
Tinha noção da quantidade de fotos e de documentos logo no início da pesquisa, quando tomei conhecimento do material depositado na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Não sabia, naquela altura, que lá havia também pastas com fotos “não-identificadas”, o que me levou a um trabalho demorado de identificação de lugares e pessoas. Esse primeiro repertório foi se complementando. Recebi a colaboração de parentes e amigos de Clarice, de seus colegas jornalistas e escritores, que me cederam fotos da própria Clarice e de outros. Havia, ainda, as fotos de arquivos de museus, jornais, agências de imagens. De tais instituições selecionei sobretudo imagens dos lugares onde Clarice viveu ou por onde ela passou. Na realidade, o material consultado foi muito extenso. Foram milhares e milhares de fotos. Desse material selecionei apenas os registros que atendiam a uma exigência: o da contextualização dos espaços em que Clarice viveu e de situações de vida por ela experimentadas. Mas a idéia de quantas imagens seriam necessárias só se tornou clara mesmo quando eu terminei o livro.

ZH – Em Clarice Fotobiografia a senhora repetiu a estrutura de capítulos de outro livro que já havia publicado sobre a escritora, Clarice – Uma Vida que se Conta. Por quê? Esta estrutura representa algum tipo de “modo mais adequado de ler Clarice”?
Nádia -
Essa sequência atende a um propósito: o de organizar cronologicamente o material que consegui reunir. Posso afirmar que meu objetivo nos dois livros foi o de acompanhar Clarice, ao longo da vida, atenta a situações que considerei mais significativas, tendo em vista, sempre, o seu perfil de artista. Os dois livros existem porque Clarice foi uma excelente escritora. É claro que a organização do material traduz, já, um “modo de ler” Clarice. No caso do primeiro livro, a partir dos textos que li (de Clarice e de outros), sobre os quais discorro. No caso do segundo, a partir das imagens que vi (fotos, documentos) e que selecionei para registrar no livro, acompanhados de legendas, citações e, no final, comentários. Ainda no caso do segundo livro, a própria disposição das imagens na página, com realce a umas e não a outras, também traduz um “modo de ler” Clarice, mesmo porque procuro, sempre que possível, estabelecer um diálogo entre as imagens e alguns textos por ela escritos.

ZH – O que uma fotobiografia pode trazer de novo em se tratando da leitura de um autor literário? O caso de Clarice é diferenciado neste sentido?
Nádia -
Pode reforçar pontos de vista já propostos e divulgados pela crítica e pode acrescentar novos, abrindo novas frentes de leitura. Dou um exemplo. Clarice escreveu muito sobre Berna em crônicas belíssimas. Refere-se à vieille ville, à parte medieval da cidade onde morou durante algum tempo, na rua da Justiça, onde havia, bem em frente à casa dela, uma estátua da Justiça com uma fonte embaixo, com gerânios, no verão. Ao passar por essa rua, senti o “clima” da cidade histórica; ao ver a estátua, vi os “reis esmagados” a que ela se refere; e apesar de ser verão, não havia ainda gerânios na fonte… Essa visão provocou em mim mudanças de comportamento de leitura. Certos detalhes da crônica tornaram-se mais vivos. E não há como voltar atrás. A visão foi fatal. Agora não há como ler a crônica sem visualizar o espaço que ela ali registra. Tentei passar esse ponto de vista do narrador da crônica para o leitor da fotobiografia, montando uma sequência de imagens da casa, da janela da casa, da rua, da estátua, e procurando, dessa forma, refazer o percurso do olhar do narrador (ou narradora) da crônica. Mais um dado sobre Berna: justamente nessa cidade medieval, que guarda ainda ruínas da muralha que a cercava, Clarice terminou o romance que intitulou A Cidade Sitiada

ZH – Que surpresas a pesquisa iconográfica da vida da escritora lhe revelou? Ou aquilo que a senhora encontrou era previsível?
Nádia –
Houve muitas surpresas. Ao pesquisar, no Ministério do Exército, a atuação da FEB na Segunda Guerra Mundial, encontrei a major Elza Cansanção Medeiros, que não só me cedeu fotos de Clarice, como identificou funcionários do Consulado e militares brasileiros que apareciam em várias fotos com Clarice, em Nápoles. A major Elza conheceu Clarice quando trabalhava como enfermeira no hospital em que Clarice atuou como voluntária. Encontrei uma excelente colaboradora por acaso, onde não esperava encontrar.

ZH – Por que é tão raro vermos publicadas outras fotobiografias das grandes personalidades do Brasil? Na sua opinião, trata-se de um fenômeno semelhante ao que ocorre com biografias, que existem em número muito maior em países de primeiro mundo, na comparação com o nosso país?
Nádia -
Temos uma boa tradição de fotobiografias em língua portuguesa feitas em Portugal. Gosto, particularmente, da fotobiografia de Fernando Pessoa, feita por Maria José de Lancastre e publicada em 1986. E há outras fotobiografias de outros escritores portugueses que foram feitas depois dessa primeira, com excelente nível de qualidade. No Brasil há trabalhos de caráter fotobiográfico, entre outros, em torno de Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. E há muitos a serem feitos ainda. É um campo fértil, disponível ao pesquisador.

ZH – Você percorreu praticamente todos os lugares em que Clarice morou, tendo feito pesquisas detalhadas de sua vida e do contexto dos locais em que ela viveu. Depois de mergulhar tão profundamente em sua vida, o que mudou na sua avaliação da obra da escritora?
Nádia -
Lembro-me que um dos títulos de Água Viva que antecederam o definitivo foi Atrás do Pensamento. Eu diria que a obra de Clarice permanece, íntegra, por trás das imagens. Entre os ganhos que resultaram dessa pesquisa, em termos de leitura, posso citar o diálogo que acabei entabulando com a escritora. Acho que desfaço alguns dos “mitos” de Clarice. Ao se referir a suas origens, ela afirma que havia nascido numa aldeia que, de tão pequena, acha que nem figura no mapa. Eu encontrei a aldeia no mapa. E fui até lá. Descobri a força da tradição judaica na sua família. E a violência da perseguição que sofreu e que acabou provocando a emigração e a viagem para o Brasil. Os dados históricos definem situações, alinhavam motivações, possibilitam conclusões. Mas como lutar contra o poder da palavra do escritor? Quando leio a crônica, a literatura de Clarice me leva novamente para a aldeia da autora, a que ocupa um lugar indefinido, que talvez nem exista no mapa, onde ela situa o território das suas origens.

ZH – Como foi o trabalho de pesquisa em países diferentes e, particularmente, na Ucrânia, onde Clarice nasceu? A língua foi um obstáculo?
Nádia – Em cada país passei por experiências bem específicas. Na Ucrânia, por exemplo, a pesquisa rendeu porque organizei, antes, e contando com a colaboração da Embaixada do Brasil, um programa que foi seguido rigorosamente. Em primeiro lugar, tive a ajuda de um intérprete, pois não falo russo nem ucraniano. Pude, pois, me comunicar com as pessoas. A viagem de carro me permitiu praticamente atravessar a Ucrânia, de norte a sul. Justamente entre Kiev e Odessa está a região habitada pelos ascendentes de Clarice. Na aldeia onde ela nasceu, Tchechelnik, eu e minha amiga, Elza Miné, fomos recebidas calorosamente pelo prefeito, que nos ofereceu um excelente almoço, regado a vôdka, muita vôdka, e informações importantes sobre a participação dos judeus na formação cultural da região, patente, por exemplo, nas ruínas da sinagoga. Fiquei comovida quando vi a placa em homenagem a Clarice na entrada do prédio que abriga hoje a prefeitura e a biblioteca. Conversei com as bibliotecárias e as professoras que solicitam livros de Clarice para mostrar às crianças da cidade. Na Ucrânia, fui também a museus e arquivos, onde consegui completar o repertório de imagens importantes para o capítulo referente às “raízes” de Clarice.

ZH – O livro traz fotografias feitas por Clarice e até uma foto em que Clarice aparece com uma câmera fotográfica. Como era a relação da escritora com a fotografia, com as artes visuais? Ela era uma escritora que se dedicava às palavras, mas que também valorizava a imagem? Em que nível?
Nádia –
Valorizava, e muito. Curiosamente, consegui uma foto que foi tirada por Clarice criança, na presença de outra criança e da prima de Clarice, Cecília. Há várias referências a fotografias na sua correspondência. E a menção à fotobiografia permeia sua obra toda. Em A Paixão Segundo G.H., há uma rede de figuras ligadas às artes visuais, incluindo aí a fotografia. E é possível fazer uma leitura do livro a partir do modo como tais figuras se entrelaçam no livro.

ZH – No livro você anuncia que vai publicar uma fotobibliografia de Clarice. Que projeto é este?
Nádia –
É um projeto antigo, que iniciei há alguns anos e que propõe a reprodução visual de publicações de Clarice, com realce às dos anos 1940. Trata-se, no fundo, de uma luta pela preservação da memória visual dos jornais e revistas em que Clarice publicou seus primeiros textos, cujas páginas encontram-se, algumas, já em estado avançado de degradação física. Esse projeto nasceu da admiração que tenho pela fotobibliografia de Fernando Pessoa, de João Rui de Sousa, com prefácio de Eduardo Lourenço, publicada em Portugal em 1988. Já comecei a reunir os registros. Um dia, quem sabe, esse livro ficará pronto

Texto de Daniel Feix