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Posts na categoria "Fronteiras do Pensamento"

Fronteiras da Justiça

01 de março de 2012 1

Amartya Sen. Foto: Fronteiras do Pensamento, Divulgação

Foi divulgado esta tarde o nome do primeiro palestrante da edição deste ano do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento. A palestra de abertura, marcada para o dia 25 de abril, uma quarta-feira, será do economista indiano Amartya Sen. Os nove outros participantes confirmados para o Fronteiras serão anunciados na tarde da próxima segunda-feira.

Nascido em em Bengala Ocidental (então parte da Índia britânica), Sen recebeu em 1998 o Prêmio Nobel de Economia. Os trabalhos de sua carreira orientam-se para tentativas de incluir fatores sociais na equação do desenvolvimento das economias nacionais. Sen é um dos idealizadores do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) adotado pela Organizações das Nações Unidas para o ranqueamento de seus países membros, agregando fatores como educação e expectativa de vida dos cidadãos aos indicadores puramente econômicos.

A importância do indivíduo na sociedade é um dos temas mais abordados por Amartya Sen em seus trabalhos. No livro Desenvolvimento e Liberdade, publicado no Brasil em 2000 pela Companhia das  Letras e relançado em 2010 em edição de bolso, associa os indicadores de desenvolvimento de uma nação ao grau de liberdade desfrutado por seus cidadãos.

Em sua mais recente obra publicada no Brasil, A Ideia de Justiça (2011), Sen retoma essa perspectiva: tenta elaborar uma teoria da Justiça focando não nas instituições da sociedade – como fizeram historicamente os contratualistas a partir de Hobbes, incluindo aí Locke, Rousseau e John Rawls – mas sim nas comparações entre sociedades de fato e as possibilidades reais de diminuição de injustiças dentro dessas sociedades. Em outras palavras: Sen tenta estruturar uma teoria de Justiça aplicável a uma sociedade com pessoas reais no mundo real, não a utopia de um modelo social. Como ele mesmo diz no livro: “É claro que existe um contraste radical entre uma concepção de justiça focada em arranjos e uma concepção focada em realizações: esta necessita, por exemplo, concentrar-se no comportamento real das pessoas, em vez de supor que todas sigam o comportamento ideal”.

Sen vê essas injustiças como entraves ao desenvolvimento econômico – unindo as ferramentas da filosofia política com sua linha de atuação. Para ir tomando contato com a obra de Amartya Sen e ter uma ideia de seus possívels temas em Porto Alegre, leia abaixo um trecho de A Ideia de Justiça (Companhia das Letras, tradução de Denise Bottmann e Ricardo Doninelli Mendes, 496 páginas). As notas de rodapé ao fim são do próprio autor, incluídas no livro:

Cerca de dois meses e meio antes da tomada da Bastilha em Paris, que foi de fato o início da Revolução Francesa, o filósofo político e orador Edmund Burke disse no Parlamento em Londres: “Deu-se um acontecimento sobre o qual é difícil falar, e impossível silenciar”. Era 5 de maio de 1789. O discurso de Burke não tinha muito a ver com a tempestade que se formava na França. Em vez disso, a ocasião era o impeachment de Warren Hastings, então no comando da Companhia Inglesa das Índias Orientais, que estava estabelecendo a supremacia britânica na Índia, iniciada com a vitória, pela Companhia, da Batalha de Plassey (em 23 de junho de 1757).
No impeachment de Warren Hastings, Burke invocou as “leis eternas da justiça”, que, segundo ele, Hastings havia “violado”. A impossibilidade de manter silêncio sobre um assunto é uma observação que pode ser feita a respeito de muitos casos de patente injustiça que nos enfurecem de um modo até difícil de ser capturado por nossa linguagem. Ainda assim, qualquer análise da injustiça também demanda uma enunciação clara e uma análise arrazoada.
Burke de fato não deu mais mostras de embaraço com as palavras: falou com eloquência não só de um delito de Hastings, mas de um grande número deles, e então apresentou simultaneamente várias razões diferentes e bastante distintas para sustentar a necessidade de incriminar Warren Hastings e a natureza do surgente domínio britânico na Índia:
Eu acuso o sr. Warren Hastings de graves crimes e contravenções.
Eu o acuso em nome dos Comuns da Grã-Bretanha reunidos em Parlamento, cuja confiança parlamentar ele traiu.
Eu o acuso em nome de todos os Comuns da Grã-Bretanha, cujo caráter nacional ele desonrou.
Eu o acuso em nome do povo da Índia, cujas leis, direitos e liberdades ele subverteu, cujas propriedades ele destruiu e cujo país ele deixou arruinado e abandonado.
Eu o acuso em nome e em virtude das leis eternas da justiça que ele violou.
Eu o acuso em nome da própria natureza humana que ele cruelmente ultrajou, feriu e oprimiu, em ambos os sexos, em todas as idades, posições sociais, situações e condições de vida.

Nenhum argumento é identificado aqui como a razão para o impeachment de Warren Hastings – como um golpe isolado produzindo o nocaute.  Ao contrário, Burke apresenta um conjunto de razões distintas para o impeachment de Hastings.1 Examinarei neste livro o procedimento que pode ser chamado de “fundamentação plural”, isto é, o uso de várias linhas diferentes de condenação, sem buscar um acordo sobre seus méritos relativos. A questão subjacente é se temos de concordar com uma única linha específica de censura para chegarmos a um consenso fundamentado no diagnóstico de uma injustiça que exige reparação urgente. O que é importante observar aqui, como fundamental para a ideia de justiça, é que podemos ter um forte senso de injustiça com base em muitos fundamentos diferentes, sem, contudo, concordarmos que um fundamento específico seja a razão dominante para o diagnóstico da injustiça.
Talvez um exemplo mais imediato, e mais contemporâneo, dessa observação geral sobre as implicações da congruência possa ser oferecido pela análise d e um acontecimento recente, envolvendo a decisão do governo norte-americano de deflagrar uma invasão militar no Iraque, em 2003. Há diversas maneiras de julgar decisões desse tipo, mas o ponto a ser considerado aqui é que é possível que vários argumentos distintos e divergentes levem, ainda assim, à mesma conclusão – nesse caso, à conclusão de que a política escolhida pela coalizão liderada pelos Estados Unidos de começar a guerra no Iraque em 2003 foi um erro.
Consideremos os diferentes argumentos apresentados, todos bastante plausíveis, como críticas da decisão de ir à guerra no Iraque.
2 Primeiro, a conclusão de que a invasão foi um erro pode ser baseada na necessidade de um maior acordo global, em particular através das Nações Unidas, antes que um país possa justificadamente desembarcar suas tropas em outro. Um segundo argumento pode enfocar a importância de estar bem informado, por exemplo, sobre os fatos relacionados à presença ou à ausência de armas de destruição em massa no Iraque antes da invasão, antes de tomar tais decisões militares, que inevitavelmente colocariam inúmeras pessoas em risco de serem assassinadas, mutiladas ou desalojadas. Um terceiro argumento pode estar relacionado com a democracia como “governo por meio do debate” (para usar uma antiga expressão com frequência associada a John Stuart Mill, mas que foi usada antes por Walter Bagehot), e se concentrar por sua vez no significado político da distorção de informações contida no que é apresentado ao povo de um país, incluindo o cultivo da ficção (como as conexões imaginárias de Saddam Husseincom os acontecimentos de Onze de Setembro ou com a Al-Qaeda), dificultando aos cidadãos dos Estados Unidos a avaliação da proposta do Executivo de entrar em guerra. Um quarto argumento poderia ver a questão principal como não sendo nenhuma das listadas acima, mas, em vez disso, como as consequências reais da intervenção: ela levaria paz e ordem ao país invadido, ou ao Oriente Médio, ou ao mundo, ou se esperaria que ela reduzisse os perigos da violência e do terrorismo globais em vez de intensificá-los?Todas essas considerações são sérias e envolvem elementos avaliativos muito diferentes, nenhum dos quais sendo facilmente excluído como irrelevante ou sem importância na apreciação de ações desse tipo. E, em geral, podem não levar à mesma conclusão. Mas, se for mostrado, como nesse exemplo específico, que todos os critérios sustentáveis levam ao mesmo diagnóstico de erro gigantesco, então tal conclusão específica não necessita esperar pela determinação das relativas prioridades para ser anexada a esses critérios. A redução arbitrária de princípios múltiplos e potencialmente conflitantes a um único e solitário sobrevivente, guilhotinando todos os outros critérios avaliativos, de fato não é um pré-requisito para chegar a conclusões úteis e robustas sobre o que deve ser feito. Isso se aplica tanto à teoria da justiça quanto a qualquer outra parte da disciplina da razão prática.

1 – Não estou comentando aqui a veracidade factual das alegações de Burke, mas apenas sua abordagem geral deapresentação de uma pluralidade de fundamentos para sustentar o indiciamento. A tese específica de Burke sobre a perfídia pessoal de Hastings foi, na verdade, bastante injusta com Hastings. Surpreendentemente, Burke havia defendido antes o ardiloso Robert Clive, cuja responsabilidade era muito maior pela pilhagem ilícita da Índia sob o domínio da Companhia – algo que Hastings não procurou conter, dando maior ênfase à lei e à ordem (tampouco injetando uma dose de humanidade, antes gravemente em falta, na administração da Companhia). Discuti esses acontecimentos históricos em um discurso comemorativo no City Hall de Londres, por ocasião do aniversário de 250 anos da Batalha de Plassey (“The significance of Plassey”), em junho de 2007. A conferência foi publicada, em versão ampliada, como “Imperial illusions: India, Britain and the wrong lessons”, The New Republic, dez. 2007.

2 – É claro que também foram apresentados argumentos favoráveis à intervenção. Um deles se baseava na crença de que Saddam Hussein era o responsável pelo terrorismo de Onze de Setembro; outro, na crença de que Saddam e a Al-Qaeda eram mão e luva. Nenhuma dessas acusações se revelou certa. É verdade que Saddam era um ditador brutal, mas, pensando bem, havia, e há, em todo o mundo muitos outros com a mesma característica.

Wolfe vem aí

13 de março de 2009 1

Quem leu hoje o Segundo Caderno de Zero Hora, foi informado da lista dos convidados deste ano para o Fronteiras do Pensamento – em versão pocket devido aos efeitos da crise. Ainda assim, a lista traz nomes que valem uma visita ao Salão de Atos da UFRGS, com destaque para o papa do Novo Jornalismo, Tom Wolfe (foto), e para o cientista da linguagem e psicólogo Steven Pinker. Wolfe a maioria já conhece, é um dos eixos que consolidou o Novo Jornalismo nos anos 1960, um estilo de fazer jornalismo que investia na apuração minuciosa e no texto literário, com o uso de ferramentas antes restritas à literatura de ficção, para apreender a “totalidade” do mundo — e aqui uso o conceito de Lukács intencionalmente. Wolfe — ele assumidamente, e os outro praticantes do Novo Jornalismo de movo mais velado — miravam-se no exemplo dos grandes romancistas realistas europeus do século 19, cujas obras apreendiam com vigor e precisão a realidade que retratavam. Os princípios fundamentais, a “profissão de fé”, digamos, do estilo, foi defendida por Wolfe no ensaio  O Novo Jornalismo, que foi relançado pela Companhia das Letras há alguns anos em uma coletânea com outros textos clássicos de Wolfe, como Radical-Chique. É desse livro o trecho abaixo, em tradução de João Baptista da Costa Aguiar. No próximo post, falaremos de Steven Pinker e de seu livro mais recente, o mais que interessante Do que é feito o pensamento?

O Jogo das Reportagens Especiais

Duvido que a maioria dos craques que vou exaltar neste texto tenham entrado para o jornalismo com a mais remota idéia de criar um “novo” jornalismo, um jornalismo “superior”, ou mesmo uma variedade ligeiramente melhorada. Sei que eles nunca sonharam que nada que fossem escrever para jornais e revistas provocasse tamanho torvelinho no mundo literário… causando pânico, tirando do romance o trono de gênero literário número um, inaugurando a primeira novidade da literatura americana em meio século… No entanto, foi isso que aconteceu. Bellow, Barth, Updike — até o melhor da turma, Philip Roth —, os romancistas todos aí estão agora revirando a história literária, resistindo, tentando entender a posição que ocupam. Que droga, Saul, os hunos chegaram…

Deus sabe que eu não tinha em mente nada de novo, muito menos algo literário, quando arranjei meu primeiro trabalho em jornal. Eu tinha uma fome voraz e nada natural de outra coisa inteiramente diferente. Chicago, 1928, uma coisa assim… Repórteres bêbados na marquise do News fazendo xixi no rio Chicago ao amanhecer… Noites em claro no saloon ouvindo “Back of the yards” [No fundo dos quintais] cantada por uma voz de barítono que era apenas uma sapatona cega e solitária com bolotas de vidro leitoso no lugar dos olhos… Noites em claro num escritório de detetive – era sempre noite nos meus sonhos de vida jornalística. Repórteres não trabalhavam durante o dia. Eu queria o filme inteiro, sem deixar nada de fora…

Tinha plena consciência do que havia me reduzido a esse estado de pieguice estudantil. Mesmo assim, não tinha como evitar. Acabara de passar cinco anos na pós-graduação, coisa que pode não significar nada para gente que não viveu uma experiência dessas e, entretanto, explica tudo. Não sei se sou capaz de dar sequer uma remota idéia do que é um curso de pós-graduação. Ninguém é. Milhões de americanos agora fazem pós-graduação, mas basta pronunciar a palavra — pós-graduação —, e qual é a imagem que vem à mente? Imagem nenhuma, nem ao menos um borrão. Metade das pessoas que conheci na pós-graduação iam escrever um romance a respeito dela. Eu mesmo pensei nisso. Ninguém jamais escreveu esse livro, que eu saiba. Todo mundo farejava o ar. Que mórbido! Que venenoso! Nada era igual àquilo no mundo! Mas esse assunto sempre derrotou a todos. Sempre resistiu ao desenvolvimento literário. Um romance desses seria um estudo sobre frustração, mas uma forma de frustração tão especial, tão inefável, que ninguém consegue descrever. Tente imaginar a pior parte do pior filme de Antonioni que você já viu, ou ler O planeta do sr. Sammler de uma sentada, ou mesmo apenas ler esse livro, ou ficar trancado dentro de uma cabine de trem da Seaboard Railroad, a 25 quilômetros de Gainesville, Flórida, indo em direção norte pelo Miami-Nova York, sem água, com o aquecedor ficando vermelho de tão loucamente superaquecido e George McGovern sentado a seu lado, falando de sua filosofia de governo. É por aí.

De qualquer modo, no momento em que recebi meu doutorado em estudos americanos, em 1957, eu me encontrava nas garras tortuosas de uma doença do nosso tempo que leva o sofredor a sentir uma esmagadora necessidade de fazer parte do “mundo real”. Então, comecei a trabalhar para jornais. Em 1962, depois de uma xícara de café aqui e ali, cheguei ao New York Herald Tribune… Aqui é o meu lugar!… Olhava a editoria de Cidade do Herald Tribune, cem míseros metros ao sul da Times Square, com uma sensação de perplexa felicidade boêmia… Ou isto aqui é o mundo real, Tom, ou não existe mundo real… O lugar parecia o latão de doações da Legião da Boa Vontade… um monte promíscuo de lixo… Destroços e cansaço por toda parte… Se alguém como o editor de Cidade tinha uma cadeira giratória, a junta central estava quebrada, de forma que toda vez que ele se levantava, o assento virava, como se tivesse sido atingido por um golpe lateral. Todo o intestino do edifício ficava à mostra nas alças e linhas de uma diverticulite – conduítes elétricos, canos de água, canos de aquecimento a vapor, dutos de chuva, sistemas de sprinklers, tudo pendurado e gemendo no teto, nas paredes, nas colunas. A bagunça toda era pintada, de alto a baixo, com um lodo industrial, Cinza-Chumbo, Verde-Metrô, ou aquele inacreditável vermelho morto, aquela horrenda têmpera de pigmento e sujeira com que pintam o chão da sala de máquinas. No teto, havia escaldantes carreiras de luz fluorescente colorindo a atmosfera de azul-radiativo, queimando manchas de calvície na coroa dos revisores, que nunca se mexiam. Era uma grande fábrica de tortas… Um Sonho de Senhorio… Não havia paredes internas. A hierarquia corporativa não ficava dividida em espaços de escritório. O editor executivo trabalhava num espaço tão miserável e infecto quanto o do mais ínfimo repórter. A maioria dos jornais era assim. Esse cenário fora instituído décadas antes, por razões práticas. Mas era mantido vivo por um fato curioso. Nos jornais, pouquíssimos empregados editoriais lá de baixo – especificamente, os repórteres – tinham alguma ambição de subir, de se tornar editores locais, editores executivos, editores-chefes, ou qualquer outra coisa. Os editores não sentiam nenhuma ameaça vinda de baixo. Não precisavam de paredes. Os repórteres não queriam muito… simplesmente ser estrelas! e tão apagadinhas!

Essa é uma coisa sobre a qual nunca se escreveu em livros a respeito de jornalismo, nem naquelas memórias camaradas da década de 20, da sapatona cega, das botas apoiadas nos canos de latão, dos bares clandestinos onde se bebia muito, dos dias de jornal e dos filhos do século… precisamente, os pequenos arabescos da competição por status dentro dos jornais… Por exemplo, na mesa atrás da minha na editoria de Cidade do Herald Tribune sentava-se Charles Portis. Portis era o protótipo do exibicionista lacônico. Um dia, foi convidado a uma espécie de Encontro com a Imprensa de Malcolm X, e Malcolm X cometeu o erro de fazer um pequeno sermão aos repórteres antes de eles entrarem, dizendo que não queria que ninguém o chamasse de “Malcolm”, porque ele não era garçom de vagão-restaurante – seu nome era “Malcolm X”. Quando terminou a entrevista, Malcolm X estava furioso. Estava subindo pelas paredes de tijolos acústicos. O protótipo de exibicionista lacônico, Portis, tinha invariável e continuadamente se dirigido a ele como “mr. X”… “Agora, mr. X, poderia nos falar sobre…” Então, a mesa de Portis era atrás da minha. Num cubículo no extremo da sala ficava Jimmy Breslin. De um lado, sentava-se Dick Schaap. Estávamos todos envolvidos numa forma de competição jornalística que nunca vi ninguém sequer mencionar em público. Schaap, porém, havia se demitido do posto de editor de Cidade do New York Herald Tribune, um dos postos legendários do jornalismo – em outras palavras, descera na escala organizacional -, só para participar desse jogo secreto.

Todo mundo conhece uma forma de competição entre repórteres de jornal, a competição pelo furo jornalístico. Repórteres de furos competiam com suas contrapartidas em outros jornais, ou nas agências de notícias, para ver quem conseguia primeiro uma matéria e escrevia mais depressa; quanto mais importante a matéria — isto é, quanto mais ela tivesse a ver com o poder ou com catástrofes —, melhor. Em resumo, eles se ocupavam da questão principal do jornal. Mas havia também aquela outra turma de repórteres… Esses tendiam a ser conhecidos como “repórteres especiais”. O que todos tinham em comum era que consideravam o jornal um motel onde você se hospedava para passar a noite a caminho do triunfo final. A idéia era conseguir emprego num jornal, conservar inteiros o corpo e a alma, pagar o aluguel, conhecer “o mundo”, acumular “experiência”, talvez eliminar um pouco da gordura do seu estilo – depois, em algum momento, demitir-se pura e simplesmente, dizer adeus ao jornalismo, mudar-se para uma cabana em algum lugar, trabalhar dia e noite durante seis meses, e iluminar o céu com o triunfo final. O triunfo final era conhecido como O Romance.

Isso era Algum Dia, entenda-se bem… Nesse meio-tempo, esses sonhadores lá estavam martelando, em todo lugar da América onde houvesse um jornal, competindo por uma minúscula coroa de que o resto do mundo nem tinha conhecimento: Melhor Repórter Especial da Cidade. “Reportagens especiais” era a expressão jornalística para uma matéria que escapava à categoria da notícia pura e simples. Abrangia tudo, desde pequenos fatos “divertidos”, engraçados, geralmente do movimento policial… Tinha aquela do sujeito de fora da cidade que se registrou num hotel em San Francisco a noite passada, querendo se suicidar, e se atirou da janela do quinto andar — despencou três metros e torceu o tornozelo. O que ele não sabia era que o hotel ficava numa encosta íngreme!… até “matérias de interesse humano”, relatos longos e quase sempre hediondamente sentimentais sobre almas até então desconhecidas colhidas pela tragédia ou sobre hobbies estranhos dentro da área de circulação da folha… Em todo caso, as reportagens especiais davam ao sujeito certo espaço para escrever.

Ao contrário do repórter de furos, o repórter especial não admitia abertamente a existência do concorrente, nem mesmo entre eles dois. Tampouco havia algum placar de contagem de pontos. E, no entanto, todo mundo no jogo sabia precisamente o que estava acontecendo, e passava pelos mais mortificantes ataques de inveja, até de ressentimento, ou por ataques de euforia, dependendo de como ia indo o jogo. Ninguém jamais admitia uma coisa dessas, e, no entanto, todo mundo sentia isso, quase todo dia. A arena do repórter especial era diferente da do repórter de furos também sob outro aspecto. Seu concorrente não trabalhava necessariamente para outra publicação. Podia-se muito bem competir com gente do próprio jornal, o que queria dizer que era ainda menos provável que se falasse a respeito.

Herald Tribune era como a principal arena de Tijuana para repórteres especiais… Portis, Breslin, Schaap… Schaap e Breslin tinham colunas, o que lhes dava maior liberdade, mas eu achei que conseguiria tirar as duas coisas deles. Era preciso ser valente. No Times, havia Gay Talese e Robert Lipsyte. No Daily News, Michael Mok. (Existiam outros concorrentes também, em todos os jornais, inclusive no Herald Tribune. Só menciono agora aqueles de que me lembro melhor.) Mok, eu já tinha enfrentado antes, quando trabalhava no Washington Post e ele no Washington Star. Mok era um concorrente duro, porque estava disposto a arriscar a pele por uma boa matéria com a mesma louca coragem que depois demonstrou cobrindo a Guerra do Vietnã e a guerra árabe-israelita para a Life. Mok fazia coisas… do além. Por exemplo, o News manda Mok e um fotógrafo fazer uma matéria sobre um gordo que tentava perder peso isolado num veleiro ancorado no estreito de Long Island (“Sou daquele tipo que passa em frente a uma doceira, respira fundo e engorda cinco quilos”). O barco a motor que eles alugaram quebra a pouco mais de um quilômetro do veleiro do gordo, faltando quatro ou cinco minutos para se esgotar o prazo. O mês é março, mas Mok mergulha e começa a nadar. A temperatura da água está em torno de cinco graus. Ele nada até ficar meio morto, e o gordo tem de pescá-lo com um remo. Então, Mok consegue a matéria. Cumpre o prazo. No News aparecem fotos de Mok nadando furiosamente no estreito de Long Island para obter a saga do regime desse grande bolha para 2 milhões de leitores. Se, em vez disso, ele tivesse se afogado, tivesse se acabado junto com as ostras naquele muco hepatítico do estreito, ninguém teria mandado gravar uma placa para ele. Os editores guardam suas lágrimas para os correspondentes de guerra. Quanto aos repórteres especiais — quanto menos se falar deles, melhor. (Outro dia mesmo vi um dos chefões do New York Times reagir com perplexidade aos elogios superlativos feitos a um dos escritores mais populares de seu jornal, Israel Shenker, da seguinte forma: “Mas ele é um repórter especial!”.) Não, se Mok tivesse comprado uma fazenda de ostras naquela tarde, não teria merecido nem o prêmio mais discreto do jornalismo, que é o meio minuto de silêncio do jantar do Overseas Press Club. Ainda assim, ele mergulhou no estreito de Long Island em março! Chegava a esse ponto a furiosa competição dentro da nossa estranha e minúscula caverna!

O Negocismo do Iluminócio

24 de março de 2007 2

Robert Darnton no Fronteiras do Pensamento. Foto: Marcos Nagelstein, ZH

No caderno de Cultura desta semana temos uma entrevista exclusiva com o historiador Robert Darnton, 68 anos, um escritor de livros sobre livros.A obra que
consolidou seu prestígio acadêmico como um pioneiro na história do livro – não como literatura mas como produto – foi O Iluminismo como Negócio (1979), um ambicioso e magistral retrato da empreitada intelectual dos filósofos franceses que organizaram a Enciclopédia.Darnton esmiuça o processo de organização, de encomenda de artigos, as progressivas edições, os lucros produzidos pela obra e até esboça um perfil do público leitor da primeira edição do mais ambicioso projeto literário do Iluminismo.

Embora declare a obra do sociólogo francês Pierre Bourdieu como fundamental para seu próprio trabalho,Darnton prosseguiu com lançamentos que se aprofundavam mais no aspecto histórico e menos nas representações de ideologia. Seus textos recriam o século 18, buscando aspectos como a disseminação das obras iluministas como agentes fomentadores de revolta, e retratam as elites e os camponeses. Darnton vem a Porto Alegre na próxima semana para uma palestra no seminário Fronteiras do Pensamento, promovido pela Copesul Cultural. No dia 27, às 19h30min, no Salão de Atos da UFRGS, ele fala sobre os assuntos que mais o tem ocupado ao longo de uma profícua carreira acadêmica: Voltaire, Rousseau e Nós, traçando os fios que ainda nos ligam aos ideais do Iluminismo.

Como sempre acontece quando temos um material muito bom que não pôde ser usado por questões de espaço, remetemos para este blogue a íntegra. Conversei com Darnton por telefone numa tarde de sexta-feira, ainda na semana retrasada, no meio de uma redação barulhenta (usamos uma salinha de entrevistas envidraçada, normalmente, mas estava ocupada no dia). A ligação estava meio assim… mas felizmente a gravação ficou perfeita, o que facilitou a transcrição da fita (e sua tradução, obviamente). Aproveitem, crianças.

Cultura – O senhor poderia contar como surgiu seu interesse pelo Iluminismo?
Robert Darnton –
Bem, deixe ver. Nos Estados Unidos,  nós temos algo como uma Religião Cívica. Quando você é criança, você jura lealdade à bandeira, memoriza as palavras da Declaração da Independência, estuda a Constituição, tem aulas sobre o pensamento de Thomas Jefferson e James Madison. Muitas crianças norte-americanas adquirem muito cedo uma visão nacional das idéias do Iluminismo. Quando garoto, sempre me impressionava com a famosa frase da Declaração da Independência dos Estados Unidos: “Vida, liberdade e busca pela felicidade”. Eu não sabia o que essa “busca pela felicidade” significava. Depois disso, em minhas pesquisas e leituras, fui descobrindo que a “busca pela felicidade” era uma nova orientação para o mundo, uma concepção de que nós temos o direito a coisas boas em nossa vida, agora e aqui, na Terra, e não na vida eterna. Esse direito pode envolver serviços fundamentais que nos são assegurados, como assistência previdenciária, salário mínimo e outros princípios necessários para construir um “estado de bem-estar”. Então, isso está muito distante da idéia original de felicidade que eu, com minha mente simples, imaginava quando criança. Como muitos cidadãos dos Estados Unidos, eu tinha um entendimento pueril do pano de fundo da História da América, e, quando isso se tornou um objeto real de estudo para mim, o tema ganhou novas formas. Uma é a tradição dos direitos civis e garantias fundamentais – e há uma série de exemplos disso nos debates políticos dos Estados Unidos e de outros lugares. Outra tradição é o direito de resistir à opressão. Por exemplo, estive em Berlim em 1989, quando o Muro caiu, e gastei lá muito tempo e esforço entrevistando pessoas, tentando entender o colapso do Império Soviético. Fiquei muito impressionado com o fato de que as pessoas usavam a noção de direito natural para justificar a oposição ao regime absolutista da Alemanha Oriental. Eu costumava ir às passeatas em Leipzig e em Halle, e as pessoas carregavam cartazes nos quais se podia reconhecer o Iluminismo como modelo: “Liberdade e busca por felicidade”. Outro cartaz dizia: “1789/1989”. Ou seja, as pessoas estavam inspiradas pela herança revolucionária do século 18. Você poderia dizer, e eu sei que essa foi uma resposta longa para a sua pergunta, que eu descobri que algo que conheci de forma pueril quando garoto permanece de grande relevância no mundo em que vivo como adulto.

Cultura – Que fios ligam o discurso conservador do governo George W.Bush ao discurso dos chamados pais da pátria americana, de declarada inspiração iluminista?
Darnton –
Acho que Thomas Jefferson foi mais radical do que George W. Bush. Eu, particularmente, suspeito que se os cidadãos dos Estados Unidos tivessem que votar hoje a Declaração de Direitos, eles votariam contra, por ser tão radical. Por outro lado, a separação entre Igreja e Estado, que era fundamental no modo de pensar de Jefferson, é o extremo oposto da infiltração religiosa que George W.Bush e os integrantes de seu governo estão praticando hoje. Eles favorecem a religião em sua política e usam suas convicções religiosas para se opor a demandas sociais como o aborto ou alguns tipos de pesquisas. Sinto que a administração Bush está  promovendo uma espécie de reação contra o Iluminismo.

Cultura – Que razões o senhor vê para essa reação, ainda mais em um momento em que vemos crescer de novo os fundamentalismos religiosos, tanto nos Estados Unidos quanto no Oriente Médio?
Darnton –
Não tenho uma boa resposta para isso. Quando olho para a História dos Estados Unidos no século 18, tanto antes quanto depois da Revolução Americana, vejo grandes exemplos de fundamentalismo religioso. Houve algo chamado “O Grande Despertar“, um movimento fundamentalista passional que existia na mesma época da filosofia de Jefferson, James Madison e Benjamin Franklin, e você tinha essas duas visões de realidade que competiam, uma profundamente religiosa e baseada na Bíblia e outra baseada na convicção nas leis naturais, na importância de criar um Estado secular. Ou seja, é possível dizer que Bush e os outros fundamentalistas apelam àqueles outros aspectos da história cultural americana que sempre estiveram presentes. Em alguns casos, esses aspectos foram uma força para o bem, como no caso da campanha anti-escravagista. Mas agora, no meu ponto de vista, não é mais uma força benéfica. É um perigo.

Cultura – Após os ataques de 11 de Setembro, o governo Bush declarou que a América estava em guerra e que qualquer crítica à política governamental era antipatriótica. Com a invasão do Iraque e os problemas subseqüentes, há hoje uma maior disposição à crítica?
Darnton
– Exatamente. Também temos aqui pesquisas de opinião pública, como vocês no Brasil, e nunca a aprovação do presidente Bush esteve tão baixa. Depois das últimas eleições parlamentares, em novembro, ficou claro que a maioria da população norte-americana se opõe à política de Bush no Iraque e em outros lugares. Mas levou um longo tempo para que a maioria ficasse informada e se mobilizasse contra o governo. O que aconteceu? Acho que percebemos, pouco a pouco, que o governo Bush havia deturpado a situação no Iraque, e o povo americano foi levado, pela noção corrompida apresentada pelo governo, a acreditar na existência de armas de destruição em massa no Iraque para justificar a invasão americana. A invasão de um país estrangeiro é uma coisa muito séria. Acho ultrajante que os Estados Unidos tenham invadido o Iraque movidos por premissas falsas. E não estou sozinho, eu diria que hoje a maioria dos cidadãos dos Estados Unidos compartilha desse ponto de vista. Você poderia perguntar: “Como isso aconteceu?”. Parte da resposta é que temos uma imprensa livre. A primeira emenda da Constituição americana, no começo da Declaração de Direitos, garante a liberdade de imprensa. E outra vez voltamos aos princípios do Iluminismo: o povo tem direito à informação, e o governo não tem o direito de suprimir a informação. A imprensa fez o seu trabalho, um pouco lentamente, acredito, mas foi crucial para esse retrocesso nos abusos de poder cometidos pela administração Bush. Podemos dizer que há um ingrediente iluminista nessa reação.

Cultura – Em que medida podemos apelar para o Iluminismo para entender o mundo de hoje?
Darnton –
Uma idéia central do Iluminismo é expressa em um lema que diz: “Ouse saber”. Ousadia envolve idéias desafiadoras, e eu acho que há hoje nos Estados Unidos muito conformismo intelectual. As pessoas deveriam ter a ousadia de criticar o governo, deveriam criticar a autoridade, deveriam pensar por si mesmas e, então, fazendo isso, direcionar essa crítica contra a pobreza de qualquer natureza. Para qualquer país, acredito, se você pega os princípios de Condorcet ou Rousseau ou outros filósofos do Iluminismo, você tem uma base para protestar contra a injustiça. O que me impressiona em Voltaire é a sua paixão por corrigir abusos. Não é apenas a sua ironia.Voltaire, quando já era um homem velho, permanecia lutando, opondo-se à perseguição contra os protestantes na França, defendendo a tolerância religiosa.

Cultura – A qual texto iluminista o senhor sempre retorna? Por quê?
Darnton –
Na verdade, vou discutir isso em minha conferência em Porto Alegre. Um dos melhores textos, que qualquer estudante de Ensino Médio pode ler, é o Cândido, de Voltaire. Eu o leio todos os anos, eu dou aulas sobre ele para os meus estudantes em Princeton. Sempre pergunto qual o sentido da última frase desse romance, que provavelmente é a mais famosa última frase da literatura francesa: “Precisamos cultivar nosso jardim”. O que isso significa? Às vezes, os estudantes dizem que o sentido é o de retiro: você se recolhe em algum mundo privado onde você pode controlar as coisas e ser feliz sozinho. Mas eu acho que significa o oposto. Cultivar, em francês naturalmente, tem o significado agrário de “cultivo”, é o sentido literal, mas há ainda um sentido figurativo que significa “tornar-se culto”, participar do mundo cultural à sua volta. E era isso que Voltaire estava fazendo em seus últimos dias, quando estava escrevendo seus panfletos sobre o caso Calais, sobre injustiças em geral, tentando incitar a opinião pública a pensar por si mesma e a questionar a autoridade. E isso também envolve “cultivar”em um sentido de educação, razão, tolerância etc. Cândido é o exemplo de uma história à qual todos podem desfrutar e achar interessante, mas também de um desafio: como interpretar e alcançar o sentido do que Voltaire estava fazendo em seus últimos dias.

Cultura – O senhor diz que o historiador é alguém que brinca de ser Deus e julga os personagens históricos, com poder para salvá-los ou condená-los. Que riscos ele corre?
Darnton –
Sim, está correto. Mas quando escrevi esse ensaio, intitulado Como os Historiadores Podem Brincar de Deus, eu estava sendo irônico. A razão pela qual eu o escrevi, em parte, foram duas descobertas que fiz em arquivos. Uma delas foi de que o famoso revolucionário Marat não era ladrão. É dito em grande parte da literatura sobre o período que Marat havia roubado medalhas e moedas de ouro antes da Revolução Francesa. Encontrei uma carta de Marat que provava que ele não havia roubado essas moedas. É um pequeno detalhe, mas eu estava declarando Marat inocente, eu o estava julgando. Em outro caso, encontrei um documento do chefe de polícia de Paris que mostrava que outro revolucionário francês, Jacques-Pierre Brissot, foi espião da polícia durante os anos 1780, recebeu dinheiro pela espionagem. Publiquei isso, e isso provocou muita polêmica: eu estava, com efeito, declarando Brissot culpado por espionagem da mesma forma que havia declarado Marat inocente por roubo. Comecei a refletir naquilo de uma forma mais filosófica: o que estou fazendo? O que me faz pronunciar juízos sobre a inocência e a culpa de pessoas no passado? Estamos sim brincando de Deus.

Cultura – Nesse mesmo texto sobre Jacques-Pierre Brissot, o líder dos girondinos durante a Revolução Francesa, o senhor diz que o biógrafo deve tomar cuidado quando começa a antipatizar com seu objeto de estudo. Mas a simpatia não seria um risco também? É possível – ou desejável – um meio caminho na pesquisa histórica entre a simpatia e a antipatia?
Darnton –
Gosto dessa idéia. A questão é: como fazê-la acontecer? Você conhece alguém em um café e pensa: “Essa pessoa é simpática ou antipática”.Você não pode evitar suas próprias reações emocionais. De forma similar, quando pesquiso em arquivos, leio centenas de cartas de alguém e formo uma idéia do que gosto nessa pessoa. Tenho, obviamente, de ser objetivo, neutro, e tento ser justo. No entanto, formo uma noção da personalidade dessa pessoa. Descobri que, quando estudo História, minhas paixões estão ativas o tempo todo. Bem, talvez não o tempo todo, às vezes é preciso descansar um pouco. Mas freqüentemente, para minha surpresa, me descobri furioso, ou triste, ou indignado com tudo o que eu estava evocando no estudo da História. Não é uma questão de razão. Provavelmente, a maioria dos leitores pensa que os autores de livros de História são distintos especialistas, senhores de idade que acompanham tudo cuidadosamente, objetivamente. Ora, eu tento ser objetivo, mas encontro a emoção cruzando meu caminho o tempo todo. Na verdade, acho que é melhor que eu seja capaz de reconhecer isso. Às vezes, penso que essa emoção não é necessariamente ruim, pode ser algo que faz o passado se tornar mais vivo.

Cultura – O senhor gostaria de ter vivido na França do século 18? Já se imaginou naquele cenário?
Darnton –
Sempre me fazem essa pergunta, e a resposta que eu dou é: “Sim,mas não como um camponês”. E então completo: “E gostaria de ter bons dentes”. É uma brincadeira, claro, devido ao fato de ter lido tantas vezes em cartas as pessoas reclamando de dor de dente.Os dentes das pessoas eram terríveis no século 18, e os dentistas conseguiam ser ainda piores. Essa foi a razão de eu ter escolhido como título de meu último livro Os Dentes Falsos de George Washington. Achei muito interessante que esse grande e famoso homem sofresse com seus dentes estragados o tempo todo – assim como todos na época. As pessoas constantemente perdiam os dentes, e eles doíam muito. Hoje temos bons dentistas, bons tratamentos, que basicamente evitam que as pessoas sintam tanta dor, mesmo quando seus dentes estão ruins.Pode parecer um dado minúsculo e trivial, mas o que estou tentando dizer é que o século 18 teve muitos aspectos atraentes, como a arquitetura, que é extremamente bonita. Mas, ao mesmo tempo, tenho informação suficiente para saber que a maior parte da humanidade vivia na miséria. Isso me faz lembrar de Thomas Jefferson, por exemplo. Ele teve escravos e nunca os libertou, como Washington fez no fim da vida. Benjamin Franklin, que tinha poucos escravos, libertou todos e ainda apoiou a causa anti-escravagista. Eu não gostaria de ser um escravo – e nem um proprietário de escravos – no século 18. Em outras palavras: não tenho a noção ingênua de que tudo naquele tempo era melhor. Era sim um mundo em que havia espírito, gosto e humor. Então, se eu pudesse conversar com Diderot, seria um homem feliz. Ou se eu pudesse ter um exemplar da Enciclopédia, ou ler os livros do século 18 em suas edições originais, sentir o papel em minhas mãos… Faço isso todos os dias atualmente, e isso me faz muito bem. Pode parecer romântico ou sentimental, mas sinto o contato com o passado, porque o papel do século 18 transmite ao tato sensações completamente diferentes. Escrevi estudos sobre papel e livros, então sei como ele foi fabricado. Algumas vezes, quando olho para um livro do século 18 e vejo um pequeno pedaço de fio, penso que aquilo poderia ser parte da anágua de alguma garota. Sempre seguro o papel contra a luz e tento ver: será essa fibra vestígio das roupas de alguém ou parte do papel? Os franceses têm uma palavra para esse tipo de atitude: passéisme,o amor ao passado e pelo passado.

Cultura – Em português, há também uma palavra para esse sentimento: passadismo, ou mesmo saudosismo.
Darnton –
Sim, admito essa fraqueza. Minha mulher caçoa de mim freqüentemente por isso. Adoro ver filmes sobre o século 18, já vi esse filme recente sobre Maria Antonieta [dirigido por Sophia Coppolla]. Ele é provavelmente um filme muito ruim,mas eu o adorei. Pude ver os erros e equívocos históricos. A atriz que a interpretava [Kirsten Dunst] não parecia austríaca e sim uma beldade cheia de frescor da Califórnia. Mas isso não importa, a razão porque gostei tanto é que ele mostra tão bem as roupas, as jóias, a mobília, era como uma série de quadros em movimento. A fotografia, a maneira como a câmera foca a textura dos vestidos, a maneira como descreve os passeios nos jardins de Versalhes. Vi o filme no dia seguinte a ter visitado a Coleção Wallace, em Londres, uma das grandes coleções de pinturas e porcelanas do século 18. Então, eu havia visto as coisas reais e as reencontrei no filme de uma forma muito artística, focada nas roupas, na maquiagem, nos penteados, na comida, na maneira como as pessoas comiam, no Palácio de Versalhes… Sou membro de um conselho consultivo que está implantando no Palácio um centro de pesquisa. Logo, vou a Versalhes muitas vezes por ano e o conheço bem. Vê-lo no filme, com as pessoas vestidas com o figurino do século 18, foi para mim maravilhoso. Acho que um dos prazeres de se estudar História é ser transportado para outro mundo, é aumentar seu conhecimento sobre a condição humana entendendo o desenvolvimento físico e mental das pessoas no passado. Penso que isso é importante sobretudo nos Estados Unidos, porque não temos uma história muito longa, e nossos estudantes não conseguem muitas vezes imaginar que as pessoas viviam do jeito que viveram 200 anos atrás. Eles podem ler sobre isso nos livros, mas não podem sentir isso em seu íntimo. Quero comunicar esse sentimento de como a vida era experimentada no passado.

Cultura – Sabemos que em suas pesquisas o senhor dialoga, por exemplo, com abordagens da antropologia. Como vê a Interdisciplinaridade, a qual está, inclusive, na base deste seminário?
Darnton –
Eu estou convencido de que a História e a Antropologia estão destinadas ao matrimônio. E a um matrimônio muito feliz. Claro que, como em muitos casamentos, há atritos e desentendimentos. Para mim, a História e a Antropologia estão tentando fazer a mesma coisa: entender um mundo estrangeiro. No caso da Antropologia, esse mundo está distante no espaço, como a Amazônia, por exemplo. No caso da História, é um mundo distante no tempo, mas o problema básico é o mesmo: qual o sentido que essas outras pessoas dão ao mundo? Como elas constróem a realidade em suas mentes? Como elas expressam em seu comportamento sua maneira de entender o mundo? Já trabalhei muito bem  com antropólogos, e é verdade que há tipos diferentes de antropólogos, mas, penso, ainda que isso vá soar simples, que a ambição básica é a mesma. Ministrei um curso em Princeton sobre História e Antropologia por 25 anos. Sempre aplicamos aos estudantes textos históricos e antropológicos sobre o mesmo assunto e analisamos os métodos usados por antropólogos e historiadores. Você ficaria surpreso por quão freqüentemente esses métodos pareciam similares, mesmo que os historiadores não pudessem falar diretamente com as pessoas do passado.

Cultura – Como o senhor vê o papel do intelectual hoje? Há ainda espaço para o intelectual engajado que o Iluminismo anunciava e que a figura de Zola consagrou na virada do século 19 para o 20?
Darnton –
Na minha opinião, há sim um papel para esse tipo de intelectual, mas não vejo muitos intelectuais desempenhando esse papel.  Os franceses estão toda hora publicando artigos dizendo: “O intelectual está morto”, “O intelectual é um tipo social”. Quando Pierre Bourdieu morreu, os artigos nos jornais franceses diziam: “O último dos intelectuais”. Talvez haja algo estranho sobre como a esquerda em Paris tem o poder de nos enviar mensagens e criar um culto ao redor de alguns intelectuais como Bourdieu, Lévi-Strauss, Derrida, você conhece o resto da lista. Assim como você disse que Zola foi a epítome do intelectual engajado no século 19, no século 18 inquestionavelmente foi Voltaire. Eu defenderia ainda que Voltaire foi o início desse papel intelectual na França. Houve outros antes dele, é certo, mas ele personifica esse novo tipo, que não é apenas um grande escritor, mas um grande lutador por causas em que acredita. Esse modelo persistiu pelos dois séculos seguintes. Temos lutadores como ele nos dias de hoje? Não vejo muitos. Mas alguém há de vir, e talvez ele nem seja francês. Pode até ser um brasileiro, quem sabe? O único desafio seria o idioma.