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Posts na categoria "História"

Dramáticos legados da I Guerra

16 de outubro de 2014 0
Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Soldados nas trincheiras de La Lys, em Flandres, durante a I Guerra

Texto de Luiz Antonio Araújo

Lenço umedecido, zíper, horário de verão. Banco de sangue, tabagismo, “corredor polonês”. Aço inoxidável, saquinho de chá, comunicação por rádio a bordo de aeronaves. Genocídio, bombardeio aéreo, tanque de guerra. Nenhuma dessas expressões fazia sentido antes da I Guerra Mundial, e se hoje nos parecem familiares, é porque “é impossível entender o Breve Século 20 sem ela”, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm. Ou porque foi “a primeira calamidade do século 20, a calamidade da qual brotaram todas as outras”, no balanço mais explícito de outro historiador, o americano Fritz Stern.

A Grande Guerra, como batizada inicialmente pelos contemporâneos (a expressão “I Guerra Mundial” surgiu apenas ao final do conflito, quando ficou claro que seus horrores seriam reprisados), foi o apocalipse realmente existente para a civilização europeia. Antes dela, longas aventuras militares pareciam definitivamente confinadas a confins como Sudão e China. Depois, a linha de frente alcançou centros urbanos como Estrasburgo, Varsóvia e Salônica, onde havia cafés, automóveis e orquestras sinfônicas.

A guerra mobilizou 65 milhões de homens, demoliu quatro impérios e deixou 20 milhões de mortos entre militares e civis. Ao final de quatro anos, seis em cada 10 homens sérvios tinham perecido. Numa escala menor, um em cada quatro graduandos de Oxford e Cambridge, destinados desde o berço ao parlamento ou ao serviço colonial, foi parar nos cemitérios militares britânicos. Em pelo menos uma dimensão a profecia do presidente americano Woodrow Wilson, de que aquela seria “uma guerra para acabar com todas as guerras”, se realizou: os que nela combateram tornaram-se firmes partidários da paz. Entre as exceções, conta-se Adolf Hitler. O filósofo Karl Popper disse que o futuro não seria o que é se fosse possível conhecê-lo. Com a I Guerra, ocorre um fenômeno curioso: quanto mais a conhecemos, menos ela se parece com o que é, ou seja, um acontecimento que irrompeu há um século.

O historiador britânico Christopher Clark, autor do elogiado Os Sonâmbulos – Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial (Tradução de Berilo Vargas e Laura Motta. Companhia das Letras, 704 páginas, R$ 69,50), tem uma explicação que pareceria surpreendente: “se o debate é antigo, o tema ainda é atual. Na verdade, é ainda mais atual e mais relevante agora do que 20 ou 30 anos atrás. As mudanças no mundo alteraram nossa perspectiva sobre os acontecimentos de 1914”. É impossível não se impressionar com a seguinte descrição da crise que levou à guerra e do papel nela desempenhado pelo grupo terrorista sérvio Mão Negra, do qual fazia parte Gavrilo Príncip, jovem estudante que matou a tiros o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando: “O processo começou com um esquadrão de homens-bomba suicidas e um cortejo de automóveis. Por trás do ultraje de Sarajevo estava uma organização declaradamente terrorista com um culto de sacrifício, morte e vingança; mas essa organização era extraterritorial, sem uma localização geográfica ou política clara; estava dispersa em células que transpunham fronteiras políticas, não tinha como ser chamada à responsabilidade, suas ligações com qualquer governo soberano eram indiretas, ocultas e certamente dificílimas de discernir fora da organização”. A força da obra de Clark, entretanto, não está num suposto recurso ao “presentismo”, que o historiador rejeita explicitamente. Ao contrário, ele enfatiza justamente o fato de que, morto o arquiduque, a chamada Crise de Julho adquiriu uma dinâmica própria, na qual teve peso decisivo o intrincado e pouco coerente sistema de alianças europeu e, no seu interior, a teia de interesses econômicos, políticos e por vezes pessoais que detonaram a matança. Os Sonâmbulos focaliza em detalhe a história dos Bálcãs, fronteira de três impérios (Austro-húngaro, Russo e Turco Otomano), e mostra como essa região crítica para a  Europa tornou-se, já no final do século 19, um barril de pólvora: a turbulência balcânica, assegura Clark, “forneceu a estrutura conceitual dentro da qual a crise, uma vez surgida, foi interpretada”. Voltando à analogia entre passado e presente, a desterritorialização da gestão de crises, hoje tornada possível por um sistema de governança global ainda incipiente, atua como freio contra colapsos incontroláveis como o de 1914, precipitado, segundo o britânico, por “rápidas interações entre centros de poder autônomos e pesadamente armados que confrontavam ameaças diferentes e cambiantes, e que operavam em condições de alto risco e baixa confiança e transparência”.

Em vez de se concentrar na Crise de Julho, O Horror da Guerra (Tradução de Janaína Marcoantonio. Planeta, 736 páginas, R$ 89,90), do britânico Niall Ferguson (publicado em 1998 e com edição brasileira em abril deste ano), é um opulento ensaio de 736 páginas em torno de 10 perguntas clássicas sobre a I Guerra. Algumas, como “A guerra foi recebida com entusiasmo popular?”, já foram exaustivamente respondidas (“Houve manifestações isoladas de entusiasmo chauvinista pela luta iminente, mas foram exceções”, afirma Clark). Outras, como “A propaganda, e especialmente a imprensa, mantiveram a guerra em curso, como acreditava Karl Kraus?”, só se justificam em função da admiração de Ferguson por Kraus. A pergunta fundamental do livro é a que permite ao autor exercitar sua veia polêmica, especialmente contra a visão estabelecida sobre a guerra entre historiadores britânicos: “A guerra era inevitável, seja por causa do militarismo, do imperialismo, da diplomacia secreta ou da corrida armamentista?”. As conclusões de Ferguson (em 1914, os europeus estavam dando as costas ao militarismo e abraçando a democracia, e a grande falha da Grã-Bretanha foi ter se omitido do ponto de vista político e militar em relação a esse fenômeno) são largamente baseadas em dados sobre a França e a Alemanha, evitando as águas profundas da Rússia e da Áustria-Hungria.

O livro de Ferguson tem o subtítulo Uma Provocativa Análise da I Guerra Mundial. Mas é O Adeus à Europa – A América Latina e a Grande Guerra (Tradução de Carlos Nougue. Rocco, 400 páginas, R$ 39,50), do francês Olivier Compagnon, o verdadeiro merecedor desse rótulo. Deixando de lado o mito conveniente de que a I Guerra foi um conflito europeu, ele muda o foco para seus efeitos na América Latina, a partir da dissecação da forma como a guerra foi vivida por Brasil e Argentina. Um dos alvos de Compagnon, especialista em história latino- americana, é a velha assertiva de que o período de 1889 a 1929 foi marcado, no subcontinente, pelo expansionismo americano (a política do “Grande Porrete” de Theodore Roosevelt), pela crise do modelo liberal-oligárquico e pelo crescimento das classes médias urbanas. O resultado é a instigante ideia, traduzida no título da obra, de que a guerra marcou o fim do idílio europeu das elites brasileiras e argentinas e permitiu o florescimento de um modernismo político e cultural que Compagnon relaciona à ascensão de correntes como o varguismo e o peronismo.

Secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund compõe um interessante painel da guerra a partir de cartas, diários, livros e entrevistas de 19 testemunhas da guerra. Dois são civis, quatro são mulheres e há um latino-americano, o venezuelano Rafael de Nogales, que, aos 35 anos, se junta às forças otomanas e assiste, horrorizado, ao massacre dos armênios da Anatólia.

Ainda que o material utilizado por Englund não seja inédito, A Beleza e a Dor – Uma História Íntima da Primeira Guerra Mundial está cheio de insights preciosos sobre a vida cotidiana no início do século passado e pode ser lido como uma biografia ou uma novela de aventuras. Catástrofe – 1914: A Europa Vai à Guerra, do britânico Max Hastings (Tradução de Berilo Vargas. Intrínseca, 672 páginas, R$ 49,90), é a estreia de um veterano historiador e jornalista, autor de mais de 20 livros sobre história militar, no território densamente povoado do caminho para a I Guerra. Trata-se de uma obra sob medida para os leitores que pretendem ter uma visão abrangente e vívida sobre o tema, com abundância de fontes e bibliografia e a prosa mais do que certeira de um grande narrador. Merecem destaque ainda as coleções de imagens de combates e de mapas – essenciais em qualquer livro sobre o assunto e infelizmente negligenciadas em outras obras – e a útil cronologia do ano de 1914.

Com tantos estudos e livros históricos, contudo, se há um lançamento da recente fornada sobre a I Guerra que merece ser comemorado, é uma ficção: a edição brasileira do romance As Aventuras do Bom Soldado Švejk, de Jaroslav Hašek, com tradução diretamente do checo por Luís Carlos Cabral. Clássico da literatura da Europa Central, cujos méritos foram reconhecidos pela primeira vez por Max Brod, amigo responsável pela preservação da obra de Franz Kafka, Švejk permaneceu por muito tempo ignorado em parte pela particularidade linguística: foi escrito em checo, língua pouco conhecida no Brasil (Kafka, também checo, escrevia em alemão). O romance, que já foi associado a Dom Quixote, acompanha a saga de Josef Švejk, um ex-comerciante de cães (profissão que também foi exercida pelo autor) que se integra ao exército austro-húngaro nos primeiros anos da guerra. As Aventuras do Bom Soldado Švejk merece figurar em qualquer lista do legado da I Guerra Mundial – quem sabe no lugar do bombardeio aéreo e muitas posições acima do zíper e do lenço umedecido.

A utopia como caso de polícia

14 de janeiro de 2014 0
À esquerda, Ramón Mercader. Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado à direita). Divulgação, Boitempo

À esquerda, Ramón Mercader del Río na época da Guerra Civil Espanhola
Nas imagens seguintes, Trosky (com a esposa ao centro e uniformizado,
como líder do Exército Vermelho, à direita). Divulgação, Boitempo

Nos interstícios entre dois gêneros de formas bem demarcadas, o romance policial e o de espionagem, o livro O Homem que Amava os Cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura, retrata a degradação de uma das principais utopias do século 20. O romance, a obra mais ambiciosa de um escritor que fez nome como respeitado autor de literatura de crime, monta uma complexa rede narrativa para retratar as trajetórias paralelas do líder revolucionário soviético Leon Trotsky (1879 – 1940) e do homem que o assassinou a mando de Josef Stalin (1879 – 1953), o militante espanhol Ramón Mercader del Río (1913 – 1978).

O Homem que Amava os Cachorros  (Tradução de Helena Pitta, Boitempo Editorial, 590 páginas, R$ 69) pega seu nome emprestado de um conto de Dashiell Hammett (incluído na coletânea Assassino na Chuva, publicada pela L&PM). Essa filiação já declara tacitamente a proposta de Padura: mesclar um romance de ficção histórica com uma narrativa em ritmo de thriller, para reconstituir: o instável quadro político da primeira metade do século 20; as sucessivas quedas e expurgos de soviéticos à medida que a tirania de Stalin se tornava mais paranoica e cruel; a cambiante política de alianças dos comunistas submetidos à autoridade de Moscou e, principalmente, a trajetória errante de Trotsky, um dos homens que fizeram a Revolução Russa, como um exilado indesejável em boa parte do mundo.

No centro da trama está o complô para matar Trotsky – consolidado, em 1940, quando Mercader, ex-combatente da luta contra Franco na Espanha, assassinou o soviético em seu último pouso, no México, com um golpe de picareta. Até o desenlace fatal, o romance acompanha alternadamente o exílio de Trotsky, de 1928 até sua morte, e a transformação de Mercader de guerrilheiro em agente infiltrado. À parte as vidas paralelas de ambos, Padura Fuentes – que, curiosamente, é identificado apenas como Leonardo Padura na edição do romance pela Boitempo – acrescenta um terceiro elemento que serve como a voz contemporânea a avaliar os resultados dos esforços de ambos, um escritor cubano chamado Iván Marturell. Após um bem recebido livro de contos, Marturell cai em desgraça junto ao regime dos irmãos Castro e passa por diversas etapas de aniquilação pessoal em conflito com a marcha da História na Ilha.

Marturell gradualmente abandona a literatura enquanto seu caráter lentamente se degrada à medida que cumpre funções burocráticas para o regime. Seu irmão, homossexual forçado a esconder sua condição, desaparece após tentar fugir de Cuba em uma balsa improvisada que naufraga. Desiludido com a marcha da revolução cubana que se tornou autoritarismo, ele encontra na Havana dos anos 1970 um misterioso estrangeiro que parece saber tudo sobre o complô stalinista para matar Trotksy – algo bem pouco conhecido na Cuba alinhada com a política oficialista da União Soviética. O relato, uma espécie de lado B da utopia comunista defendida pela propaganda oficial da ilha, será fundamental para que ele tente recuperar a literatura que havia abandonado.

Embora o foco se divida, a rigor, entre três personagens, Trotsky, Mercader e Marturell, são combinações binárias entre temas e motivos especulares que sustentam o romance. A derrisão da identidade de Trotsky provocada pela perseguição de Stálin (de líder comunista a voz de oposição, de dissidente perigoso até um homem solitário transformado em bicho-papão da utopia) encontra seu reflexo nas várias trocas de identidade do próprio Ramón ao longo de sua preparação, de militante comunista movido por paixão genuína a um agente cheio de dúvidas que mesmo assim executa sua missão (Mercader também muda de nome ao longo da sua preparação, até assumir a identidade de Jacques Mornard Vandendreschs, um belga envolvido em negócios no México, que se aproxima do círculo de confiança de Trosky).

Em outro caso de temas que se refletem, Trotsky, embora esteja sempre em cena, se constitui, na narrativa de Padura, em uma figura com a qual Stálin, ausente das cenas mas presente nas sombras, estabelece uma relação simbiótica. Para que Stálin se erga como o líder e guardião incontestável dos valores da Revolução, precisa transformar Trotsky em um líder dissidente de igual poder, capaz de complôs e alianças com os mais perigosos inimigos dos soviéticos, como os nazistas – embora Trotsky tivesse um prestígio cada vez mais restrito e um grupo cada vez menor de seguidores, sua apresentação pela propaganda comunista como um grande conspirador fornecia a cobertura necessária para as tramas que o próprio Stálin tecia, inclusive um acordo com os mesmos nazistas que Trotsky foi acusado de apoiar em certo momento.

Também as trajetórias de duas revoluções se espelham na forma como Padura urde sua trama: a Russa, matriz da Cubana, ambas corrompidas pelo autoritarismo e pela politicagem. Os expurgos e os desmandos de Stálin, que resultam em perseguições e fome para a população, têm eco na forma como a própria revolução cubana vai se deteriorando, da utopia sustentada pelo dinheiro soviético nos anos 1970 e 198o até a pobreza extrema dos anos 1990, agravada pela queda do comunismo e pelo embargo norte-americano.

Autor de policiais bastante apreciados pelos fãs do gênero, como Adeus Hemingway ouVentos de Quaresma, Padura se vale de sua habilidade adquirida no ofício e tem sucesso em criar uma atmosfera de suspense e interesse para um episódio real cujo fim é hoje amplamente conhecido. O que deixa a desejar é justamente o território novo que o escritor tem a desbravar em uma trama tão extensa e ambiciosa: a construção psicológica dos personagens. O retrato íntimo de Trotsky como um homem exilado e perseguido contrapõe- se com eficiência à imagem demoníaca que Mercader forma do adversário depois da doutrinação stalinista (em mais uma elegante construção especular). Mas, como o retrato esboçado por Padura é abertamente simpático a um Trotsky derrotado e sem poder, são reduzidas algumas contradições importantes de seu comportamento como um dos comandantes revolucionários, ele próprio responsável por fuzilamentos durante os primeiros anos da Revolução. Até se menciona de passagem esse episódio, mas a voz de Trotsky, colada à do narrador, é rápida em justificar que as circunstâncias de seus fuzilamentos eram outras e não se volta a esse tema.

Ao menos no início, é uma obsessão amorosa o grande motivo para que Mercader embarque em sua missão de morte, a paixão por Africa de las Heras, uma militante stalinista radical e totalmente devotada às ordens do Kremlin (e outra personagem real, a propósito). Ainda que o romance possa ter base histórica, o destaque que Padura dá a esse caso de amor é uma solução pouco imaginativa, que de algum modo enfraquece o universo interior, moral e ideológico de Mercader, melhor apresentado em A Segunda Morte de Ramon Mercader, de Jorge Semprun, por exemplo, que também aborda o mesmo episódio.  Á medida que os destinos de Trotsky e Mercáder convergem, contudo, O Homem que Amava os Cachorros cresce, na forma como consegue interligar a estrutura especular habilmente montada à história real, montando um grande painel de vidas levadas de roldão pela História, essa abstração pela qual tanto se matou e morreu.

Mandela nos livros

06 de dezembro de 2013 0

Foi através do teatro que, pela primeira vez na minha vida, nos anos 60, ouvi falar de Nelson Mandela. Estudante, depois professor de direito internacional e, desde o início, militante do anticolonialismo e do anti-racismo, eu me opunho ao apartheid, mas o homem que liderava a luta ainda não tinha um rosto para mim. No Festival de Nancy, encontre Jean Guiloineau, diretor do Grupo de Teatro Antigo da Sorbonne, que ia apresentar Ajax, de Sófocles. Grande conhecedor da África do Sul, ele traçou para mim o retrato de Mandela, cujas memórias viria a traduzir muitos anos depois. Sua admiração pelo prisioneiro de Robben Island me impressionou muito. Talvez tenha sido a forma como se deu esse primeiro encontro o que me levou a perceber dede o início o gosto que o líder africano manifestou durante toda sua vida pela cultura e pelo teatro. E a colocar minha narrativa sob a invocação da dramaturgia universal, de Sófocles a Corneille e de Shakespeare a Cesaire.
Aparementemente, a paixão pela arte não é uma característica importante de Nelson Mandela. Os analistas a negligenciam, com frequência, mas eu acho que se trata de uma das chaves de sua personalidade. Quando ele era estudante, representou, numa companhia amadora, o papel de assassino do presidente Lincoln. “Meu papel era pequeno, mas eu era o elemento motor da moral da peça, segundo a qual os homens que assumem grandes riscos devem estar preparados para as pesadas consequências daí decorrentes.” Ele continuou sendo o elemento motor o resto da vida.

Como a esta hora a maioria de vocês já ficaram sabendo, morreu ontem o líder sul-africano Nelson Mandela, um dos personagens que com sua vida e atuação resumem parte do século 20. Em sua condição de símbolo planetário, Mandela sempre foi alvo de grande atenção pública – primeiro com a comunidade internacional protestando contra seu confinamento, depois, ao provar na prática que poderia ser o governante de um tempo em que as pesadas e infames feridas do Apartheid pudessem cicatrizar – ainda que demoradamente, em um processo que não acabou até hoje.

Um personagem dessa dimensão não poderia, portanto, deixar de ser alvo de um bom número de biografias. Já deve andar perto da centena o número de livros publicados sobre o ex-prisioneiro que se tornou presidente e símbolo de uma das vitórias da Humanidade contra a Barbárie (infelizmente elas são menos do que gostaríamos). Muitas delas já têm tradução no país – Mandela é provavelmente uma das personalidades estrangeiras com o maior número de histórias de sua vida editadas por aqui. Uma delas é o livro de onde foi extraído o trecho que vocês leram acima: Mandela – uma Lição de Vida, de Jack Lang (Tradução de  Rubia Prates Goldoni, Mundo Editorial, 240 páginas) – um livro que tem lá seu tom de particularidade interessante porque Lang não é um biógrafo comum, é o ex-ministro da Cultura da França, e estrutura sua biografia de Mandela como quatro atos correspondentes a mitos históricos da dramaturgia ocidental: Antígona no primeiro; Espártaco no segundo; Prometeu acorrentado no terceiro e o sonhador Próspero de Shakespeare no quarto. O quinto o apresenta como o protótipo do rei sábio presente em muitas culturas.

Menos ambiciosa intelectualmente, mas com maior poder de comoção talvez seja Mandela, Retrato Autorizado, de Mac Marahaj e Ahamed Kathrada (Tradução de Alexandre Moschella e Joana Canedo. Editora Alles Trade, 356 páginas) – um livro que, como seu título já anuncia, é um texto autorizado pelo próprio Mandela e que trabalha para construir a imagem épica do estadista africano, seja por meio de narrativa de sua vida em tons elevados, seja com depoimentos de personalidades que conheceram Mandela, como o bispo sul-africano Desmond Toutou, o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton e o cantor Bono Vox ou ainda por uma ampla coleção de imagens da trajetória de Mandela. É o Mandela “oficial” dos livros de história, o líder aclamado por um mundo abismado com a força de sua trajetória e de seu exemplo.

MandelaA mais recente biografia de Mandela a aportar nas livrarias brasileiras é Mandela: O Homem, a História e o  Mito, de Elleke Boehmer (Tradução de Denise Bottmann, L&PM, 224 páginas). É uma biografia que tenta avançar além da biografia de estilo jornalístico, mesclando os relatos sobre a vida de Mandela com interpretações históricas e acadêmicas sobre sua trajetória. É um dos textos desta série mais sólidos em analisar as circunstâncias e o pano de fundo da trajetória de Mandela para além do binômio “homem x mito” estabelecido pela persona pública do político sul-africano após a sua libertação. Não se tem aqui nem o herói admirável nem o militante de atuação controversa. Mandela é mostrado – a certa altura, em paralelo com Gandhi – como um personagem que lutava contra o imperialismo que, a seu modo, o tornou possível. Após décadas de domínio opressor, formou-se, a duras penas, uma massa crítica de figuras de proa nascidas no país com vontade de questionar o sistema em que viviam. Uma boa biografia para quem quer mergulhar em um panorama geral de Mandela e seu tempo.

mandela (1)Outra biografia, esta narrada por meio das próprias palavras do estadista sul-africano é Mandela: Conversas que Tive Comigo (Tradução de Ângela Lobo de Andrade, Nivaldo Montingelli Jr. e Ana Deiró. Rocco, 415 páginas), compilação de cartas e documentos pessoais de Mandela, gravações e depoimentos reunidos pela fundação que leva seu nome e reúne reflexões do personagem sobre o lado íntimo de seu sofrimento: a ausência na vida da família por quase três décadas de prisão imposta pelo regime racista do apartheid; os conflitos de uma vida dividida entre a luta política e a família – essa oposição, em configurações diferentes, levaria ao fim de dois casamentos, com Evelyn Mase ( 1944 a 1957) e Winnie Mandela (1957 – 1996). Embora o material tenha sido compilado por uma instituição oficial ligada a Mandela, o tom não é celebratório ou condescendente. Há diversas passagens em que Mandela faz uma autoanálise bastante dura sobre seus anos de juventude – e fala muito, também, sobre a dor de quase três décadas de encarceramento. Um texto sobre o livro pode ser lido aqui:

Esse é apenas um dos livros em que se pode ler a vida de Mandela pelas palavras dele próprio. Como menciona o biógrafo Lang no texto citado, Mandela foi também um um esteta além de estadista. Suas memórias foram publicadas nos Brasil também há duas décadas, pela Globo, com o nome de Nelson Mandela: A Luta é a Minha Vida - mas hoje duvido que se ache fora de sebo ou da Estante Virtual. E há uns dois anos a Martins Editora publicou uma coletânea de contos infanto-juvenis escolhidos pelo próprio Mandela, com o nome de Meus Contos Africanos (Tradução de Luciana Garcia, 156 páginas, R$ 54,80), reunindo histórias tradicionais do continente.

Há ainda Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul, de John Carlin, que inspirou o filme Invictus, de Clint Eastwood, e sobre o qual já publicamos um texto aqui.

Um trecho para hoje - Getúlio

06 de novembro de 2012 0

Uma visão retrospectiva dos fatos ajudaria a mostrar que, de fato, Getúlio se encontrava em considerável dívida política com Borges de Medeiros. Em 20 de fevereiro de 1921, fora reeleito para a Assembleia dos Representantes, com 78.381 votos (sexto colocado) e a necessária chancela do chefe do PRR. No ano seguinte, em outubro de 1922, tivera seu nome apontado, por decisão do mesmo Borges, para a Câmara Federal. Com a ajuda da máquina estadual republicana, foi confirmado nas urnas, por uma eleição extraordinária, para cumprir um mandato-tampão. Iria completar o período de pouco mais de um ano que restava do mandato pertencente originalmente ao deputado federal rio-grandense Rafael Cabeda, falecido em 12 de setembro de 1922. Portanto, Getúlio estava perto de trocar o Rio Grande do Sul pelo Rio de Janeiro.
“A esta hora estás eleito deputado federal, e tuas virtudes, lato sensu, reconhecidas e proclamadas”, escreveu-lhe Érico Ribeiro da Luz, ex-intendente de São Borja. “Bem se diz – e uma vez me repetiste – que para vencer, às vezes, basta esperar”, alegrava-se o amigo na carta a Getúlio.
É inegável que a escolha do nome de Getúlio Dornelles Vargas para a Câmara obedecia a uma série de conveniências do borgismo. A rigor, pela lera exata da lei, Getúlio – ou qualquer outro filiado ao PRR – não poderia sequer ter concorrido ao carto de deputado federal naquele momento. Isso porque o partido comandado por Borges já dispunha de quatro das cinco cadeiras relativas ao terceiro distrito eleitoral do Rio Grande. Como a quanta cadeira pertencera ao oposicionista Cabeda e a Constituição Federal assegurava o direito de representação das minorias, a vaga teria que obrigatoriamente ser preenchida por outro representante dos federalistas.
“O candidato apresentado pelo Partido Republicano Rio-grandense é um verdadeiro intruso, um pretendente à usurpação dos direitos da minoria”, protestou a posição, em ofício às mesas eleitorais.
A reclamação foi ignorada e Getúlio, declarado eleito. Havia poucos meses, ainda no fim de 1921, ele seguira a orientação ditada por Borges de Medeiros, quando da campanha pela sucessão do então presidente da República, Epitácio Pessoa. O candidato oficial do Catete para as eleições presidenciais de 1922, apoiado por Minas Gerais e São Paulo, fora o mineiro Artur Bernardes, conforme o figurino de alternância do poder entre os dois estados mais poderosos na nação. Pessoa, a despeito de ser paraibano e apelidado pela imprensa de “Patativa do Norte”, recebera apoio dos cafeicultores paulistas, ao defender medidas de valorização permanente do produto no mercado internacional. Era, portanto, a vez de Minas dar as cartas, mantendo os termos do pacto inalterados. O gaúcho Borges de Medeiros, contudo, resolveu insurgir-se contra a hegemonia da conhecida “República do café com leite”.Borges aderiu à Reação Republicana, aliança que tentava construir um eixo alternativo de poder, composto pelo Rio de Janeiro e pelas oligarquias da Bahia e Pernambuco, estados que, um dia poderosos no Império, haviam aos poucos perdido relevância econômica e se tornado forças políticas periféricas após o advento da República, com a ascensão do baronato paulista do café. Ao somar-se a esse bloco, o emergente Rio Grande do Sul, por meio da resolução de Borges de Medeiros, declarou apoio oficial ao candidato oposicionista, o fluminense Nilo Peçanha, que durante a campanha pregou ardorosamente contra o “imperialismo dos grandes estados” e acenou com a promessa de “arrancar a República das mãos de alguns para as mãos de todos”.
João Francisco, a Hiena do Cati, voltou à cena  para recriminar a opção eleitoral de Borges: “Parece mentira mas é verdade! Borges de Medeiros está agora abraçado com o algoz de Pinheiro Machado”, escreveu, alardeando de novo a teoria conspiratória de que Nilo Peçanha estava por trás do assassinato do senador gaúcho. “Eu conhecia bem a hipocrisia do sr. Medeiros e sabia que ele e seus íntimos se sentiram melhor e até se regozijaram com o desaparecimento de Pinheiro Machado”, denunciou a Hiena. “Quando Pinheiro Machado caiu atravessado pelo punhal de um miserável sicário ao serviço de miseráveis políticos, Medeiros chorou lágrimas de crocodilo”, acusou João Francisco.
Getúlio, ainda líder do governo estadual na Assembleia dos Representantes, evitou uma resposta direta às acusações de João Francisco contra Nilo Peçanha, mas na sessão de 30 de novembro de 1921 partiu em defesa da candidatura presidencial abraçada por Borges de Medeiros, opção duramente criticada pela oposição interna dos federalistas rio-grandenses.
“Quando queremos a eleição de um nome nacional, escolhido em uma convenção livre, sem compromissos prévios, os federalistas se rebelam, opinando por um desconhecido”, condenou Getúlio, que julgava Artur Bernardes, governador de Minhas Gerais, uma insondável e perigosa incógnita.
Contra Bernardes havia um episódio rumoroso, no qual cartas atribuídas a ele desacatavam um ícone da caserna, o marechal Hermes da Fonseca, referido nas tais mensagens como um “sargentão sem compostura”, paparicado por oficiais que não passariam de um “canalha” que precisava “de uma reprimenda para entrar na disciplina”. As cartas, soube-se logo depois, eram escandalosamente falsas. Mas o estrago em relação à imagem de Bernardes junto aos militares já estava feito.
Não era isso, entretanto, que sustinha o discurso de Getúlio Vargas contra o candidato oficial ao Catete. Getúlio alegava que Bernardes não teria a expressão política e o conhecimento da questão nacional de Nilo Peçanha, já testado na presidência da República, mesmo brevemente, entre junho de 1909 e novembro de 1910, ao assumir, como vice, após a morte do então titular Afonso Pena.
“Vossas Excelências assinaram um cheque em branco para descontar no banco do Catete, em troca de favores oficiais”, acusou Getúlio em discurso na Assembleia dos Representantes, levantando desconfianças em torno dos reais motivos da preferência dos adversários federalistas pela candidatura de Artur Bernardes.

O trecho acima foi retirado das páginas 176, 177 e 178 do primeiro volume da biografia Getúlio, do jornalista Lira Neto (leia resenha do livro aqui). Também biógrafo de Padre Cícero, de José de Alencar e de Maysa, Lira Neto lançou em maio a biografia do maior personagem político do Brasil no século 20. Volta a Porto Alegre agora para participar de Feira em um dia lotado de atrações sobre a história remota ou recente do Brasil. Lira Neto conversa às 19h, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul, com a historiadora Mary Del Priore, que vem autografar em Porto Alegre seu recente estudo A Carne e o Sangue, sobre o triângulo amoroso entre Dom Pedro I e suas mulheres Imperatriz Leopoldina e Domitila de Castro e Canto Melo (leia entrevista com a autora aqui).

O dia também tem debate entre os jornalistas Leonencio Nossa, autor da reportagem Mata!, sobre a guerrilha do Araguaia, e Mario Magalhães, que vem lançar na Feira a biografia do líder guerrilheiro Carlos Marighella.

O Ano da Feira do Livro

10 de outubro de 2012 0

Imagem da 1ª edição da Feira do Livro, em 1955. Foto: Léo Guerreiro / Revista do Globo

Nota do editor: No próximo dia 26, terá início em Porto Alegre a 58ª Feira do Livro, marco do calendário cultural da cidade. Como vocês devem ter visto sem que eu precise apontar, mas vou apontar assim mesmo porque sou um maldito retórico, a constância das postagens por aqui andou menos frequente justamente porque estamos preparando nossa cobertura da Feira do Livro. Mas aproveitando justamente a chegada da Feira, achei que não haveria mal em aproveitar este pretexto para republicar aqui uma reportagem que fiz em outubro de 2004 reconstituindo o ambiente em Porto Alegre durante o ano em que foi realizada a primeira Feira, em 1955. Justamente pelo caráter arqueológico, mais ligado ao passado e menos ao presente, creio que este texto continua apropriado para marcar a aproximação do início de mais uma Feira:

1955

A Feira do Livro de Porto Alegre começou com 14 bancas numa Praça da Alfândega que era o ponto de convergência do lazer da cidade, defronte a uma Rua da Praia em que ainda transitavam veículos, na qual as pessoas passeavam no fim da tarde, em meio a bondes elétricos, confeitarias acolhedoras e cinemas de calçada. Mas principalmente: a primeira Feira do Livro, inaugurada em novembro de 1955, nasceu em outra Porto Alegre, uma metrópole em gestação com pouco mais de 400 mil habitantes, ares de província, um ritmo mais lento e uma vida social e econômica fortemente ancorada no Centro.

– As pessoas se conheciam por nome e havia a possibilidade de famílias inteiras estenderem cadeiras preguiçosas na frente das casas e ficarem conversando noite afora – relembra o porto-alegrense Paulo Sant’Ana, que tinha 16 anos em 1955.

Porto Alegre contava naquela época 50 mil analfabetos, 10 jornais diários e era uma cidade em que as famílias passeavam olhando vitrines, à tarde, numa Rua da Praia ainda sem o Calçadão. Sem televisão, ia-se muito ao cinema, e a cidade dispunha de vários.

– Eram cerca de 60 cinemas naquela época em Porto Alegre. Apenas na Rua da Praia havia o Rex, o Imperial, o Guarani, o Cine Rio e o Cinema Central – conta o historiador Sergio da Costa Franco, com 33 anos à época. Ironicamente, Costa Franco raramente freqüentava algum desses, preferindo as sessões do cine Eldorado, próximo à sua residência, no bairro São Geraldo.

As corridas dominicais do Prado, à época ainda não localizado no Cristal, mas no Moinhos de Vento, também eram uma grande atração. O Grande Prêmio Bento Gonçalves– em 1955 realizado em seis de novembro e vencido pelo alazão Salomão – era o ápice da temporada turfística, ao qual compareciam senhores engalanados e senhoras e senhoritas vistosas em seus chapéus, adorno que à época já deixava de ser usado com freqüência.

Paqueras de juventude

Mas voltando à Praça da Alfândega. Já foi visto que era, portanto, programa de família, mas equivalia também ao que a juventude de hoje chamaria de ponto da “balada”. Lá pelo fim da tarde, a partir de umas 17h, rapazes se posicionavam estrategicamente na Rua da Praia, cabelos curtos irrepreensivelmente penteados e mantidos no lugar com fixador Glostora. Trajando camisa social aberta no colarinho – para dentro da calça de tergal, obviamente –, os galantes moços aguardavam, um pé sobre o cordão da calçada e outro no leito da Andradas, a passagem das jovens que transitavam pela Rua da Praia como se num desfile.

– Ficavam os aprendizes de cafajestes, eu incluído, na calçada observando as moças. Trocávamos olhares. Se alguma garota correspondia, aqueles com mais cara de pau deixavam a calçada, cumprimentavam-na e ficavam andando ao lado dela, “encostavam” nela, como se dizia– conta o patrono da Feira de 2003, Walter Galvani, à época com 21 anos e repórter recém-contratado para a redação do Correio do Povo.

O jovem casanova se dedicava então a acompanhar a moça em seu footing, já tentando conseguir informações preciosas. A principal delas, a que baile ela iria no fim de semana. O baile era um divertimento. Era chique envergar a melhor roupa (os rapazes, terno e gravata borboleta, as moças, vestidos longos) e acompanhar as noitadas do Clube do Comércio, embaladas pelo Conjunto Melódico Norberto Baldauf, no qual o crooner Edgar Pozzer despontava como o galã dos sonhos de muita moça casadoira. Mas o Clube do Comércio não era exatamente uma unanimidade.

– Era muito seleto, não era para o bico de qualquer um,e por isso eu e meus amigos da vizinhança do Bom Fim íamos aos bailes da Casa do Estudante, na Riachuelo, ou do Círculo Social Israelita, no andar de cima do cinema Baltimore – recorda o escritor Moacyr Scliar, na época um jovem esquerdista de 18 anos, prestes a concluir o curso Científico no Colégio Júlio de Castilhos.


O conjunto melódico de Norberto Baudalf (ao piano). Banco de Dados, ZH

Um gênio em gestação

Ainda no ano anterior, em um dos ensaios do grupo Norberto Baldauf, o radialista Paulo Deniz havia apresentado à trupe um expansivo prático-farmacêutico de Santiago do Boqueirão, Túlio Piva, que de vez em quando se abalava de sua cidade para a Capital apenas para mostrar nas rodas boêmias seus sambas de batida cativante. Naquele ensaio mesmo, Baldauf acertou agravação em disco do samba Tem que Ter Mulata. A canção se tornaria sucesso imediato e seria requisitada constantemente não apenas na Casa Victor, a grande loja de discos da época, na Rua da Ladeira, como nas rádios da cidade. O sucesso da gravação foi tal que incentivou Piva a mudar de mala e cuia de Santiago para Porto Alegre e a abrir em (adivinhem) 1955 sua Drogaria Piva, no Centro. Além de farmácia propriamente dita, logo o estabelecimento seria também ponto de encontro para os boêmios da cidade.

Outro artista ainda iniciante que perambulava macambúzio por Porto Alegre naquele ano de 1955 era um baiano franzino de 24 anos, bigodinho fino, quieto, vozinha sussurrante acompanhada ao violão bem tocado –às vezes a voz em um andamento e o instrumento em outro. João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira provocou estranheza e admiração em apresentações nas noites da cidade, especialmente no Clube da Chave, na Rua Castro Alves, cuja especialidade era um suculento carreteiro de linguiça. O inventor da bossa nova ainda era chamado de Joãozinho quando passou cinco meses em Porto Alegre entre o verão e o inverno de 1955, em companhia de seu amigo mais próximo, o músico Luis Telles, e conversando com o pianista e compositor erudito Armando Albuquerque.

João viera do Rio por insistência do amigo Telles, para curar os estragos em sua autoestima provocadospor uma fase ruim. Era reservado demais para acompanhar o footing diário na Rua da Praia – preferia passar o tempo em seu quarto com banheiro no Hotel Majestic – mas não se furtou, em algumas ocasiões, a flertar com as jovens presentes à requintada Confeitaria Central, no Largo dos Medeiros (esquina da Andradas com a General Câmara), um dos bons endereços da cidade para se levar uma “pequena” a um encontro romântico ou trocar ideias com amigos.

Sob a sombra de Getúlio

A instituição atual da “happy hour” era desconhecida, mas as confeitarias e cafés espalhados pelo Centro eram pontos certos para encontrar amigos, conversar ou mesmo impressionar uma garota durante um encontro. Além da Central, dominavam a paisagem a Confeitaria Cruz de Malta, os cafés Old Viena, Rex, Roxy, além da tradicional Nova Confeitaria Matheus, na Andradas, defronte à Praça da Alfândega. Bebia-se café – os mais jovens tomavam refrigerante mesmo – e conversava-se muito. E 1955 foi um ano que deu o que falar.

Falava-se muito de política. Os mais fortes candidatos à prefeitura de Porto Alegre eram Leonel Brizola (que seria eleito) e Euclides Triches. O trauma do suicídio de Getúlio Vargas, no ano anterior, ainda era tema de muita discussão, sem falar dos acalorados debates sobre a eleição presidencial, para a qual concorriam Adhemar de Barros, Juarez Távora, Plínio Salgado e Juscelino Kubitschek. Juscelino venceria as eleições em 3 de outubro de 55, mas até que tomasse posse, em 31 de janeiro de 1956, o Brasil teve três presidentes, e a feira começou com o Exército de prontidão. Café Filho, vice de Getúlio, empossado após a renúncia, pediu licença por alegados motivos de saúde em 5 de novembro, e deixou o presidente da Câmara de Deputados, Carlos Luz, em seu lugar. Convencido de que se tramava um golpe contra o presidente eleito, o marechal Teixeira Lott pôs suas tropas na rua, depôs Carlos Luz e empossou o presidente do Senado, Nereu Ramos.

– Havia uma instabilidade política muito grande, que a vitória do Juscelino não amenizou, mas também não havia uma apreensão generalizada, antes uma expectativa – analisa Ruy Carlos Ostermann, que na época tinha 20 anos e ainda vivia em São Leopoldo, vindo a Porto Alegre esporadicamente. – Era um acontecimento a vinda à Capital. Vinha-se pela estrada do Horto Florestal, demorava-se uma hora ou mais – relembra.


Inter campeão gaúcho em 1955. Arquivo pessoal, Osvaldo Menezes

Paixões – da carne e da bola

Também falava-se muito de futebol. Novembro, o mês da feira, foi também o da definição do Campeonato Citadino, no qual o Inter havia começado em quarto lugar e, depois de uma arrancada fulminante e um returno invicto, ultrapassara o Grêmio, conquistando o título metropolitano em 20 de novembro, no estádio dos Eucaliptos, contra o Força e Luz. Mais tarde, o time do Inter – apelidado de “Rolinho”, como se fosse um segundo “Rolo Compressor”, equipe histórica dos anos 40 – conquistaria também o título estadual, batendo o Brasil de Pelotas, campeão do Interior, em dois jogos. O esquadrão vencedor? Lapaz; Florindo e Oreco; Mossoró, Odorico e Lindoberto; Luizinho, Bodinho, Larry, Jerônimo e Chinesinho. Apesar de tudo, aquele ano não foi apenas de revezes para o Grêmio. Havia o Estádio Olímpico, construído no ano anterior e estalando de novo, e o Grêmio passava sua primeira temporada sob o comando daquele que devolveria ao tricolor a hegemonia em 1956, baseado num estilo inédito de força e disciplina tática: Oswaldo Rolla, o Foguinho.

Mesmo em uma época sem videoteipe, o futebol mobilizava paixões. E Porto Alegre em 1955 era uma cidade de intensas paixões, embora o romance fosse casto. O “ficar” dos dias de hoje era uma impossibilidade. O comedimento nas relações entre garotos e garotas revestia de importância fundamental gestos como a primeira vez em que o casal pegava na mão ou o primeiro beijo. Sexo, teoricamente, só depois do casamento, embora, como em qualquer outra restrição, houvessem rapazes e moças que burlavam as rígidas interdições. Muitas vezes, com resultados desastrosos.

– Eram tristemente comuns na época os suicídios das pessoas que, muitas vezes fora de si de paixão, se atiravam do alto do Viaduto da Borges. O pior não era a queda, mas a passagem dos bondes logo abaixo – lembra Moacyr Scliar.

Alguns podem pensar que eram tempos mais inocentes, ma non troppo. Com a gravidade nas relações românticas e a mentalidade mais conservadora da época, os cabarés eram muito requisitados para que se desafogassem os apelos da carne preservando “a honra das famílias”. Algumas casas mais célebres da Capital em 1955 incluíam o American Boîte e o Marabá, próximos à Gare da Viação Férrea, e o seleto e muito dispendioso Mônica, no Cristal, do qual era habitué em seus tempos de solteiro o pecuarista e mais tarde presidente da República João Goulart. Não importando de onde os boêmios viessem, contudo, muitos deles acabavam no mesmo lugar, claro que no Centro: o Restaurante Treviso, no Mercado Público, aberto dia e noite e que recebia sambistas, frequentadores de clubes e mesmo uma ou outra das “profissionais” do American Boîte, certos de que às três ou quatro da manhã aquele último porto seguro estaria aberto para receber os famélicos e os exaustos.

No dia seguinte,a vida retomaria seu curso – e ele com certeza passaria pelo Centro.

Galeano, o fim de semana e as olimpíadas

10 de agosto de 2012 0

11 de Agosto
Família

Como se sabe na África negra e na América indígena, a sua família é a sua aldeia completa, com todos os seus vivos e os seus mortos.
E a sua parentela não termina nos humanos.
Sua família também fala com você na crepitação do fogo,
nos rumos da água que corre,
na respiração do bosque,
nas vozes do vento,
na fúria do trovão,
na chuva que beija
e na cantoria dos pássaros que saúdam os seus passos.

12 de Agosto
Atletos e atletas

Em 1928, terminaram as olimpíadas de Amsterdã
Tarzan, vulgo Johnny Weissmuller, foi o campeão da natação, e o Uruguai, campeão de futebol. E pela primeira vez a tocha olímpica, acesa numa torre, acompanhou as jornadas do princípio ao fim.
Mas essas olimpíadas acabaram sendo memoráveis por causa de outra novidade: pela primeira vez, as mulheres participaram.
Nunca antes na história das olimpíadas, da Grécia em diante, se havia visto nada igual.
Nas olimpíadas gregas,  as mulheres eram proibidas de competir, e não podiam nem mesmo assistir aos espetáculos.
E o fundador das olimpíadas modernas, o Barão de Coubertin, se opôs à presença feminina enquanto seu reinado durou:
– Para ela, a graça, o lar e os filhos. Para eles, a competição esportiva
.

Os dois excertos acima são do livro mais recente do escritor uruguaio Eduardo Galeano, Os Filhos dos Dias (Tradução de Eric Nepomuceno, L&PM, 432 páginas, R$ 49). A exemplo do que já fizera na trilogia Memória do Fogo (Os Nascimentos, As Caras e as Máscaras, e O Século do Vento) e no seu livro mais recente, Espelhos, Galeano recupera nesta obra episódios históricos narrados em textos curtos, vinhetas entre a prosa e a poesia. O fio condutor desta obra, contudo, não é uma cronologia histórica linear, como nos anteriores citados, e sim um passeio pelos dias do calendário. Para cada dia do ano, Galeano recupera uma história real relacionada com a data em algum ano da trajetória humana. Os textos se imaginam  no presente a cada data, em uma viagem literária no tempo. O livro é ilustrado com colagens feitas pelo próprio autor.

Deixo com vocês os dois textos relativos a este fim de semana – em que, 84 anos depois, encerra-se outra edição dos Jogos Olímpicos.

Guerra à deriva

30 de julho de 2012 0

O Baependy, navio afundado pelo U-507 na costa brasileira. Foto: Reprodução

Texto de Léo Gerchmann

Muito já se falou da astúcia de Getúlio Vargas, que vendeu caro a entrada do Brasil na II Guerra Mundial e, em troca, recebeu o apoio americano para alavancar a indústria brasileira, com a Companhia Siderúrgica Nacional. Também muitas e justas homenagens foram feitas aos militares que colocaram o Brasil do lado certo da História ao combater na Itália e ajudar os aliados a soterrar o nazifascismo. Pouco se falou, porém, do motivo que fez o povo clamar pela entrada no confronto. E nada poderia ser mais apropriado: foi um submarino alemão, o U-507, que “afundou o Brasil na II Guerra Mundial”, em 1942.

Só por essa breve introdução ao assunto, pode-se constatar o que há de mais atraente no livro U-507 – O Submarino que Afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial, do jornalista gaúcho Marcelo Monteiro. Com prefácio de Luis Fernando Verissimo, a obra já vale pela síntese contida no próprio título. Em meio a uma guerra, é natural que os dramas humanos se vejam jogados para uma análise futura. No calor dos disparos de fogo, os feitos grandiosos ganham força, em detrimento das individualidades tidas como pouco importantes em momentos como esses.

A questão é: quando parte-se para a busca do universo de cada individualidade, pode-se gerar uma emoção diferente. E, se a grandiloquência se justifica, vamos a ela. Os números chocam ao mostrar, com toda a sua frieza, que 607 pessoas morreram nos ataques do submarino alemão U-507 a cinco navios brasileiros: Baependy, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará. Tudo isso no nosso Nordeste, às margens das costas da Bahia e de Sergipe. Por ironia, no front de guerra, em território italiano, morreram 465 militares brasileiros. No livro, há momentos em que o leitor é chamado a presenciar remotamente o drama de 70 anos atrás:

“De relance, a algumas dezenas de metros, Dálvaro vê alguma coisa sair da água e voltar rapidamente para o fundo.
– Ué, um coqueiro de cabeça para baixo? – diz o jovem, tentando entender o que acaba de enxergar nas águas – na verdade, o periscópio do U-507. (…)
Segundos depois, sem imaginar o que está acontecendo, Homero vê o torpedo aproximar-se do casco:
– Olhe que peixe enorme.
Mal termina a frase, e o projétil atinge o navio em cheio, abaixo da escotilha do porão número três, próximo à popa, onde estão as baleeiras. Um estrondo ensurdecedor toma conta da cabine do Itagiba

O texto, daqueles que puxam o leitor ao natural, colocando-o na cena da trama, também pode fazê-lo refém cativo, conseguindo uma proeza. Além de contar dramas de vítimas, faz o que pode ser definido como “segundo resgate”, recupera histórias de pessoas que já haviam sido fisicamente retiradas do mar de sangue que se tornou a costa brasileira naquele 1942 em que o Eixo, integrado por Alemanha, Itália e Japão, começava a perder a guerra, e a humanidade vinha à tona para respirar aliviada.

O Brasil ajudou nesse respiro, três anos antes de o conflito chegar ao fim. E contou com o irônico impulso de um monstro de aço que o agrediu. O submarino alemão, sob as ordens do comandante Harro Schacht, espreitava suas presas, os navios, feito uma fera de tocaia. E as abordou sem piedade com seus torpedos disparados entre 15 e 17 de  agosto de 1942, provavelmente com a intenção de barrar a rota para a borracha que as embarcações conduziam e que era artigo de luxo em tempos de guerra.

Um dos eixos do livro, talvez o mais significativo pela simbologia que carrega, é a história das meninas Walderez  Cavalcante, 4 anos, e Vera Beatriz do Canto, 5. As duas são sobreviventes do navio Itagiba. Walderez se salvou flutuando dentro de um caixote de leite condensado Moça. Vera chorou a perda do seu bonequinho – o brinquedo, avariado, ainda teve a roupa utilizada como tecido para a confecção de uma bandeira da paz. E sua mãe chegou a ter uma premonição do que ocorreria.

(…) Noêmia enxergara um navio negro, com um número 13, no qual todos os passageiros e tripulantes vestiam roupas pretas, dos pés à cabeça. Ao guardar seus pertences no camarote B, cedido pelo comandante José Ricardo Nunes (…), ela volta a se assustar: olhando bem, aquele B se parece muito com um 13 – com os lados afastados. O dia é 13 de agosto, e o Itagiba parte justamente do armazém 13, às 13h

Walderez e Vera posaram juntas para fotos em 1942. Reencontraram-se em uma reunião articulada pelo autor Marcelo Monteiro em 8 de maio de 2011. Walderez, que chegou a dizer que conversou com um peixe e que o peixe recomendou que ficasse calma, viveu momentos que muitos definiram como milagre.

“(…) Na correria para abandonar a pequena embarcação que afunda rapidamente, um dos náufragos coloca a menina de apenas quatro anos dentro de uma caixa de madeira de transporte de Leite Moça vazia. Walderez não entende o que está se passando. A caixa, milagrosamente, flutua em meio ao mar de aflição”

Nisso, o pai de Walderez, Octavio Cavalcante, já a imagina morta. Momento de intensa emoção. Desesperado, ele diz, chorando:

– Se minha filha não sobreviver, também não tenho razão para seguir vivendo.

O comandante do iate Aragipe, que resgatou os náufragos do Itagiba, fica condoído. Manoel Balbino dos Santos, seu nome. Pede a todos os presentes que comecem uma busca. E se dá, então, um instante de magia, inesquecível:

“(…) Minutos depois, alguém enxerga, ao longe, algo que parece ser um destroço. Balbino decide verificar de perto. Ao aproximar-se do objeto, a surpresa e a alegria tomam conta. (…) A pequena Walderez boia, sã e salva, dentro de uma caixa (…)”

Um dos méritos da meticulosa apuração feita por Monteiro é que ainda foi possível ouvir depoimentos de  sobreviventes lúcidos das tragédias ocorridas em 1942. O autor teve a feliz ideia de intercalar depoimentos de sobreviventes com trechos do diário de bordo do submarino – não faltavam, é claro, definições das vítimas como “negros” e “mulatos”. A crueldade do nazismo estava às nossas margens.

“(…) No momento em que o iate Aragipe seguia para o litoral, levando cerca de 150 náufragos do navio Itagiba, o comandante admite que até pensou em utilizar as metralhadoras e as armas de deck contra a inofensiva embarcação, carregada de homens, mulheres e crianças recém-resgatadas – uma clara violação aos princípios humanitários mais elementares até mesmo em tempos  de guerra. (…) A decisão de não usar as metralhadoras não foi tomada por escrúpulos humanitários, mas puramente por uma impossibilidade técnica (…)”

O autor faz uma boa descrição da época. Depreende-se a precariedade dos meios de comunicação. Hoje, a história seria contada de forma mais minuciosa e instantânea. Por exemplo: o canto dos soldados que haviam se misturado ao público do Itagiba, todo o clima dos navios que viriam a ser abatidos, com seus romances, idiossincrasias, brincadeiras, crianças, jogos de xadrez, carteados, camaradagens, decepções. Toda uma vida.

“Quem parte leva
Saudades de alguém, que fica chorando de dor
Por isso não quero lembrar
Quando partiu meu grande amor”

Parece profecia. O livro é permeado por descrições de mortes. Por gente que viu companheiros sendo abocanhados por tubarões ou simplesmente se afogando  enquanto pediam desesperadamente por socorro ou, delirantes,  jogando-se ao mar. O horror cru e em minúcias, que fez  o Brasil abandonar a neutralidade oficial para adotar a “beligerância” – e, depois, a declaração de guerra ao Eixo. Era o inferno da guerra no nosso litoral.

“O mar revolto está coberto de destroços, fardos, pedaços de pau, malas, roupas e até o bumbo pérola rajado da bateria de Higino. Por todos os lados, homens, mulheres e crianças gritam, desesperados, por socorro. Alguns urram e desaparecem de supetão, puxados por tubarões. Para completar, há pequenos focos de incêndio em destroços que, banhados no óleo, seguem em chamas desde a segunda explosão”

“Homens, mulheres e crianças que estão dormindo ou tentando levantar-se de suas camas afogam-se em poucos
segundos e são sugados com a embarcação para o fundo do mar”

E houve solidariedade.

“- Não posso mais…Vou desistir… – diz um tripulante do Baependy, quase sem esperanças.
Ao mesmo tempo em que incentiva o companheiro de infortúnio, Lauro também se anima.
– Aqui! Aqui! Não desista! O náufrago, enfim, consegue agarrar-se à tábua de salvação. Exausto e ainda ofegante, agradece, ainda comovido, às palavras do novo amigo, que acabara de estender-lhe a mão”

Sim, há muita solidariedade, também por parte das populações ribeirinhas da Bahia e do Sergipe.Também é boa a descrição dos salvamentos e das surpresas de quem vê corpos mutilados e sobreviventes esfarrapados. Há o acolhimento em cidades como a baiana Mangue Seco, na divisa com território sergipano. E também a revolta. O povo exige nas ruas que o governo entre na guerra.Afinal, a guerra veio até o Brasil. O apelo popular se mostra na prisão de supostos “quinta-coluna” (colaboradores fascistas) e na depredação indiscriminada de casas comerciais. Havia um sentimento de vingança que se expandia país afora. E, especialmente para dois sobreviventes, essa vingança se tornou real, quando, em 1944, mais de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram à luta na Europa banhada pelo sangue:

“Entre os brasileiros,estavam os soldados Dálvaro José de Oliveira e Pedro Paulo de Figueiredo Moreira, sobreviventes do naufrágio do Itagiba que, depois de resgatados, juraram vingança às margens do Rio Una, em Valença”

Por fim, dois anos depois, conseguiram o que queriam


Um império entre dois amores

07 de junho de 2012 0

Retrato de Domitila de Castro Canto e Melo, Marquesa de Santos.

O panorama das intrigas políticas e amorosas que atormentaram a corte brasileira no período da Independência até a abdicação, em 1831, é o tema do mais novo livro da historiadora Mary Del Priore. A carioca, autora de Histórias Íntimas (Planeta), um dos mais recentes best-sellers históricos, agora lança A Carne e o Sangue – A imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a marquesa de Santos (Editora Rocco, 272 páginas, R$ 34,50).  O livro faz um retrato da intimidade de três personagens históricos conhecidos. Trechos inéditos de cartas de D. Pedro I (1798 – 1834), de sua mulher, D. Leopoldina (1797-1826), e de sua amante, Domitila de Castro e Canto Melo (1797 – 1867), são o ponto de partida para a obra que mostra o triângulo amoroso que enfraqueceu o monarca politicamente.

– Queria despi-los do mito que os cerca. A torrente de paixões e ódios nos mostra gente de carne e osso e uma nova página da história do Brasil – explicou Mary a Zero Hora, por e-mail.

No novo trabalho, a historiadora desmistifica as figuras centrais da narrativa a partir das correspondências dos três personagens. Após as viagens pelo país para divulgar A Carne e o Sangue, Mary se dedicará a seu próximo trabalho: a biografia da princesa Isabel e do seu marido, Gastão, o Conde d’Eu. Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Zero Hora – O que a levou a se interessar sobre o tema de A Carne e o Sangue?
Mary Del Priore –
A vontade de trazer três personagens bastante conhecidos de nossa história, para muito perto do leitor. Queria despi-los do mito que os cerca e apresentá-los sob nova visão. Quase como se pudéssemos ouvi-los atrás da porta. Do outro lado, uma torrente de paixões e ódios, gente de carne e osso e uma nova página da história do Brasil escrita a partir de uma enorme pesquisa em arquivos e documentos. O triângulo amoroso foi ao mesmo tempo alimento e veneno para D. Pedro I, que se enfraqueceu politicamente ao trazer sua vida privada para a praça pública. Se antes reis e monarcas eram vistos como fortes e viris, por ter favoritas e bastardos, depois das revoltas liberais que varreram a Europa desde a Revolução Francesa, amantes como a Marquesa de Santos passaram a ser sinônimo de fraqueza.

ZH – O que seu livro traz de novo sobre as personagens?
Mary
– Muita coisa. Trata-se de três biografias entrelaçadas e baseadas em documentos inéditos. Encontrei cartas de Leopoldina que desmistificam a figura da imperatriz favorável à emancipação do Brasil. Ao contrário, ela temia terminar com a cabeça na guilhotina como sua tia-avó, Maria Antonieta. O tempo todo ela demonstrava pouco apreço pelo que chamava de “rebelião”  e temia as reações do “povinho ou da canalha”. Sua correspondência revela que, apesar de ser muito culta, não conseguia transitar com facilidade na cultura brasileira ou portuguesa. Sua vida é feita de isolamento e falta de comunicação. Além do mais, o sofrimento e as humilhações impostas pelo adultério do marido fazem dela uma mulher profundamente depressiva, abandonada e miserável. Podemos mesmo dizer que ela morreu de tristeza. Encontrei, também, bilhetes escritos por Domitila para D. Pedro, nos quais se revela a personalidade forte e determinada da favorita. Exigente, ela não se afastou da Corte enquanto não foi indenizada. Tive, igualmente, uma surpresa ao constatar que apesar de péssimo marido, D. Pedro foi pai dedicadíssimo, cuidando de seus filhos pessoalmente em suas doenças, vigiando sua caligrafia e estudos, enfim, falando de saudades e carinhos.

ZH – Em projeto a senhora está agora trabalhando?
Mary –
A biografia da princesa Isabel e do seu marido, Gastão, Conde d’Eu. Já estou encontrando documentos que revelam novas facetas desta que gostava mesmo era de cuidar de casa, do jardim e dos filhos. O império nunca fez parte de seus planos e o interesse pela Abolição durou pouco!

Retrato de Maria Leopoldina D'Áustria, Imperatriz do Brasil

 

O Getúlio de Lira Neto

29 de maio de 2012 3

Getúlio Vargas em seu gabinete no Palácio Piratini. Foto de Sioma Breitman

Getúlio Vargas (1882 – 1954) é um personagem tão invulgar no horizonte da política brasileira que praticamente qualquer grande biografia sobre figuras do Brasil no século 20 esbarra, em algum momento, no homem ou em seu legado. Getúlio tem amplo destaque em Chatô e Olga, de Fernando Morais. Também está em O Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, entre tantas outras trajetórias. Textos já foram escritos defendendo o Brasil contemporâneo como um produto de Getúlio e sua trajetória. Agora que ele ganha nova biografia, escrita pelo jornalista Lira Neto, o enfoque do primeiro volume (de três previstos) é, a seu modo, diverso. O Brasil criado por Getúlio ficará para os próximos volumes, já que, neste capítulo inaugural, Lira Neto prefere enfocar Getúlio ele próprio como um produto do Rio Grande do Sul.

Getúlio, 1882 – 1930: Dos Anos de Formação à Conquista do Poder (Companhia das Letras, 664 páginas, R$ 52,50) concentra-se na primeira fase da vida do político de São Borja, do nascimento em 1882 à vitória na Revolução de 1930. O Vargas que emerge da biografia, escrita com a ginga narrativa que o autor já mostrou em Padre Cícero e O Inimigo do Rei, não é (ainda) o ditador do Estado Novo, o populista do “retrato do velho”, o industrializador, o homem envelhecido e acuado dos anos 1950. É o Vargas do Partido Republicano, ligado a uma família de históricas raízes castilhistas, filho de um rigoroso positivista – personagem cauteloso que, talvez por sua tendência à procrastinação, começará a se projetar nacionalmente mais tarde.

Lira Neto compõe a biografia de Getúlio em forma de mosaico. Embora siga de modo quase linear sua trajetória, o texto se aproveita de uma consequência da centralidade de Getúlio na história. Para dar um panorama multifacetado, o texto contrapõe relatos de dezenas de fontes sobre Getúlio: familiares, como Lutero e Alzira Vargas; relatos de opositores, como o general Gil de Almeida, comandante militar do Rio Grande destituído pela Revolução de 1930; depoimentos de aliados com quem manteve relações turbulentas, como João Neves da Fontoura; e os diários e cartas de Getúlio Vargas, também já publicados – embora a maior parte do material já tenha circulação em livro, há documentos inéditos. Isso atenua, ainda que não muito, a falta de grandes novidades.

– A ausência de testemunhas oculares ainda vivas foi suplantada pelo arquivo monumental do biografado e de pessoas próximas, como Oswaldo Aranha, todos sob a guarda do CPDOC da FGV.  Muita coisa ali, por incrível que possa parecer, ainda é inédito – diz Lira Neto.

Antes de virar ele próprio um substantivo, Getúlio foi destacado integrante das hostes do castilhismo e do borgismo – e Lira Neto esmiúça as relações políticas que o cercavam. Getúlio cresceu em uma família historicamente ligada aos republicanos – seu pai, o general Manuel Vargas, lutou de lenço branco no pescoço na Revolução Federalista. O temperamento conciliador se desenvolve em um Estado marcado por revoltas e pelas ditaduras positivistas de Castilhos e Borges. Talvez para o leitor do Rio Grande do Sul, imerso na história contada, já repisada em incontáveis livros, de ficção ou não, a impressão de falta de novidades se acentue, embora o livro valha como um novo ponto de vista expresso em um texto sedutor.

Um biógrafo trabalha com o que tem à disposição. No caso de Getúlio,o material para um voo sobre sua psique é restrito. Getúlio começou a escrever seus diários quando irrompeu a Revolução de 1930 – sabia, portanto, que àquela altura estava redigindo as atas de uma trajetória histórica. Suas cartas, também fonte da biografia, mostram um político tão hábil quanto dúbio. O que mostra por que escritores de ficção têm se sentido mais à vontade para invadir a mente de Getúlio do que seus biógrafos.

Legalidade em pauta

08 de novembro de 2011 0

Esta segunda-feira de literatura é dedicada à História. E, naturalmente, grande parte da programação em palestras neste dia voltou-se para a discussão da Campanha da Legalidade de 1961. Um dos pontos altos da programação foi o debate entre Juremir Machado da Silva, Paulo Markun e Duda Hamilton, o primeiro, autor de Vozes da Legalidade, que detalha o levante em Porto Alegre, e os últimos, autores de 1961 – O Brasil entre a ditadura e a guerra civil, que reconta o que aconteceu em Brasília.

Entre as ideias trocadas durante o debate, que apontou a moderação de Jango ao “evitar por duas vezes jogar o Brasil em uma guerra civil”, Juremir celebrou a fartura de comemorações aos 50 anos da Legalidade:

- O Rio Grande do Sul se orgulha de comemorar uma revolução que perdeu. Digo que Brizola e Jango são tão bons ou melhores quanto Bento Gonçalves, General Neto, Canabarro…

Ambos os livros têm sessões de autógrafo ainda hoje: Duda e Paulo autografam às 19h30min e Juremir, às 20h30min.