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Posts na categoria "Horror"

Sarau Sombrio na Praça

06 de novembro de 2013 0
heinz

O ator Heinz Limaverde lê no projeto Contos de Gelar o Sangue.
Foto: Bruno Alencastro, ZH

Esta tem sido uma Feira de dias ensolarados e luminosos e com temperaturas amenas, mas as criaturas sombrias também têm seu lugar na praça. Todos os dias, às 18h, na sala O Retrato do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, um convidado especial ligado às artes cênicas se apresenta para a plateia lendo contos clássicos de horror pela programação do Contos de Gelar o Sangue, uma atividade paralela que tem no terror literário seu centro. Com o bom tempo que vem fazendo, é meio difícil gelar o sangue à tarde na primavera de Porto Alegre, mas algumas precauções foram tomadas. Para ajudar na ambientação, a sala tem janelas vedadas por chapas escuras, e a luz, baça e difusa, concentra-se no leitor, mergulhando o público na penumbra. Tudo para simular um sarau noturno. Nesta quarta-feira, o ator Heinz Limaverde leu Um Esqueleto, de Machado de Assis. O cardápio dos próximos dias inclui Edgar Allan Poe, Bram Stoker, Guy de Maupassant, Mary Shelley

Descongelando os subzeros - parte 2

06 de setembro de 2012 1

Uma coisa interessante que eu devia ter mencionado no primeiro bloco de resenhas: assim como a misteriosa ordem em que foram dispostos na coletâna os autores da Granta, também nesta Geração Subzero a forma como os contos foram organizados é idiossincrática. Eles não vêm em ordem de título, de nome ou de sobrenome de autor, por idades ou anos de nascimento. Sequer estabelecem eixos ou proximidades temáticas. O que isso importa? Felipe Pena, o autor da compilação, não esclarece que critério adotou para dispor os autores no livro, vai ver o critério é a ordem em que recebeu os contos. E isso não importa muito, também, apenas fico imaginando que tipo de classificação o autor pretendeu estabelecer naquele recorte quando claramente ele não parece ter seguido os parâmetros mais comuns de catalogação.

Como o post anterior ficou bastante longo, vamos tentar enxugar este um pouco mais, começando por cortar os preâmbulos. Vamos, diretamente, a mais cinco contos da coletânea Geração Subzero:

O Índio no Abismo sou Eu, de Luiz Bras
Sem enrolar: é o melhor texto da coletânea até aqui, casando com propriedade imaginação, limpidez da prosa, encadeamento narrativo. Escrito dentro de estritos padrões de gênero, o texto de Bras também consegue acenar com um olhar mais amplo sobre questões que vão além de sua narrativa e que têm algo a dizer sobre o mundo contemporâneo – na escola da boa ficção científica. Todos os demais contos até aqui apresentam algumas dessas características, mas não todas, e, principalmente, não todas em grau elevado: há, como frisamos, textos imaginativos com linguagem  descuidada, há um conto bem escrito que se perde ao contar uma história que circula como anedota, há pura fantasia desconectada de qualquer sentido do mundo e da realidade. O texto de Bras (que nasceu, civil e literariamente, como Nelson de Oliveira) é, a bem dizer, o primeiro deste livro que se sustenta sozinho dentro dos parâmetros estabelecidos pela própria coletânea.
A história é narrada pelo ponto de vista de um personagem que desperta. Concordo com o que o crítico Sérgio Rodrigues argumenta neste post sobre o perigo das histórias que começam com um “despertar”, mas neste caso o despertar é subvertido pela narrativa: o personagem não entende onde está e parece não ter uma percepção clara nem de si nem do que o cerca:
Sinto a eletricidade correr nos fios entrelaçados de minha consciência. Sem alvoroço. Antes não sentia, agora sinto. Antes eu não era nada, agora sou qualquer coisa que não sei bem o que é. Talvez eu seja só a própria eletricidade atravessando uns poucos neurônios. Talvez eu seja só uma folha que acaba de se desprender de um galho. Mas aqui não há galhos, árvores, paisagem. Aqui não há nada, apenas a serena eletricidade. Não há céu nem terra, direito e avesso. Nada. Somente eu. Se ao menos ventasse isso já seria reconfortante. E se estiver ventando? E se estiver ventando muito, sem que eu possa perceber? Sou uma folha e nada mais. Sem certezas nem equilíbrio. Uma folha elétrica.”
Não é um despertar corriqueiro: a personagem (é uma mulher) foi congelada por um longo período, quase nos estertores de uma longa doença terminal. Preservada, hibernou por duzentos anos até a medicina do futuro ter condições de tratá-la. É o que explica à paciente um médico que a atende em um cenário virtual no qual ambos se comunicam por telepatia – não sei se Bras já leu ou tinha em mente Lanark, de Alasdair Gray, mas as sequências dos diálogos entre o médico e a paciente no hospital me lembraram algumas cenas de Lanark, o personagem título, no Instituto no qual ele é tratado e mais tarde ajuda a tratar uma estranha doença. Voltando ao conto de Bras: por trás da maravilha daquela “ressurreição”, a personagem logo começa a perceber fissuras no mundo em que vive, expressas em uma dedução à qual chega após uma situação de crise se instalar no hospital: “O futuro jamais é para todos. O futuro é apenas para quem pode pagar.”
Mesmo os aparentes problemas da narrativa encontram solução em sua arquitetura interna. No início, para alguém que desconhece o mundo à sua volta, a personagem parece saber demais e usar termos e conceitos que não teria como compreender para uma consciência aparentemente surgida do nada, mas tudo se explica no momento em que se descobre que aquela mulher é alguém despertando de um sono longo, com os dados mantidos a salvo em seu cérebro emergindo desordenadamente. O final, elusivo como a boa ficção científica, mantém o tom melancólico e crítico ao tipo de  futuro que uma sociedade como a atual pode vir a engendrar.

A Filha do Diabo, de Luis Eduardo Matta
Para meu gosto de leitor, Matta é um dos primeiros desta seleção a encarar um desafio que eu talvez esperasse ver mais: o exercício de uma história de gênero transplantada para a realidade brasileira tentando dar conta tanto dos parâmetros mais restritos da literatura de entretenimento quanto das especificidades da nossa cultura. Em outras palavras: não faltam autores no mundo para escrever fantasias de cavalaria em cenários que lembram a Idade Média europeia, mas talvez fosse interessante ver uma história de horror usando elementos de que só um autor daqui ou mergulhado na cultura local poderia lançar mão.
Na pequena comunidade interiorana de Iguaúna, a chegada de “uma bela forasteira de procedência desconhecida e sem antepassados na região” não demora a despertar os receios e rancores supersticiosos dos habitantes da cidade, onde “os rumores mais sombrios sobre sua procedência e reais intenções na cidade começaram a circular...” Apenas duas pessoas do vilarejo mantêm contato frequente com a mulher: um adolescente que passa bastante tempo na casa alugada pela forasteira, fazendo serviços gerais, e a mãe dele, que presta ocasionais serviços de lavadeira e empregada. Um dia, a lavadeira aparece morta e a comunidade se mobiliza para resgatar o menino daquela casa isolada e sinistra, contando para isso com a ajuda de um padre especializado em exorcismos chamado pelo pai do garoto.
O conto de Matta é eficiente em sustentar a atmosfera de horror e suspense que pretende construir, com exceção do final, que estende  além da medida a antecipação de uma reviravolta previsível. 
No aspecto formal, Matta é uma grata e, aí sim, genuína surpresa (não conhecia nada de sua obra anterior, dedicada ao thriller). Seu conto é um dos que se ajustam com mérito ao que a coletânea apresenta como sua profissão de fé: uma história intrigante conduzida por uma narrativa sem firulas mas dedicada a cativar. Não há grandes voos formais na prosa de Matta, mas ela é correta e segura do início ao fim – não esqueçamos que os primeiros textos da série apresentavam grandes problemas nesse quesito.  Um bom conto.

Dê-me Abrigo, de Sérgio Pereira Couto
Esta história parte de um mote muito interessante: o uso, pelo exército dos Estados Unidos, do condicionamento musical como forma de despertar reações automáticas em seus combatentes.  A condução da narrativa, contudo, não é tão preciosa quanto o achado temático, uma vez que os blocos que constituem a trama não parecem apropriadamente concatenados.
O “condicionamento” é inserido como elemento de ameaça em uma história de aproximação amorosa. Certo dia, Cristina, uma mulher que se encaixa no padrão recorrente das protagonistas de comédias românticas (a certa altura, uma amiga a descreve como “executiva bem-sucedida de uma das maiores agências de publicidade do país”, que “nunca tem tempo para sair“) vê se mudar para a casa em frente à sua um homem que desperta seu interesse. O vizinho, Paulo, é, de acordo com o narrador onisciente em terceira pessoa da história, “alto, encorpado, com um ar militar e expressão séria no rosto.” Ele bate à casa dela pedindo um copo d’água e da atração mútua nasce um convite para sair. Enquanto Cristina some para se trocar, somos apresentados ao problema sombrio do homem. Cristina ouvia música em um IPod colocado numa estante. Quando Paulo está sozinho na sala, o aparelho começa a tocar a música Gimme Shelter, dos Rolling Stones, e o efeito é imediato: 
“Paulo percebeu que tudo sumira: os móveis, os tapetes, até mesmo a sala em si. Ele se via no meio de uma paisagem inóspita, sentindo o vento árido do deserto esparramar em seu rosto e o sol queimando as costas. Ao longe soavam explosões e tiros, cada vez mais altos, e uma língua que não entendia gritando ao longe”.
Para encurtar o caso: Paulo, um ex-soldado norte-americano (filho de brasileiro nascido nos Estados Unidos, o que explica sua presença no nosso país para o conto), foi submetido a experiências de “condicionamento musical” em seu regimento e surta toda vez que ouve essa canção específica dos Stones, recuperando um episódio traumático vivido em combate no Oriente Médio. Não vou estender muito a trama, por dois motivos: para não entregar demais a história e porque a própria trama pregressa ao encontro de Paulo e Cristina se enrola mais do que se entrega. Paulo, no passado, foi vítima de uma emboscada armada por uma companheira de exército que desertou usando como desculpa um estupro que o próprio Paulo foi convencido POR ELA, a desertora, a cometer (como é que é?). É sério:
Ela o seduziu e o convenceu a estuprá-la. Usou isso para ter uma desculpa para debandar para o lado da Al-Qaeda.” (p. 132)
Me parece de uma ligeireza atroz que algo assim seja colocado como um fato tão colateral ao centro da história. Afinal, uma mulher que convence o agressor, no fundo boa pessoa segundo os ditames da narrativa, a estuprá-la para ter uma “desculpa” para algo é uma construção de um grotesco tão grave  que não deveria estar tão à parte na narrativa. Há uma implicação ética em levar essa história, depois de esboçada, a um ponto crível. É como se a trama anterior do personagem tivesse sido orquestrada sem muito cuidado apenas para dar um trauma ao personagem masculino com uma certa moldura de historicidade (todo esse enrosco ocorreu na guerra do Afeganistão).
A prosa às vezes escorrega em um artificialismo que não combina com o conjunto, mas o maior senão do livro não é formal: é o pressuposto de que, devido ao condicionamento musical sofrido pelo personagem, qualquer reviravolta na trama depende muito de a música estar tocando em algum lugar ou circunstância, o que produz coincidências difíceis de engolir e ao menos uma decisão de Paulo tão esdrúxula que é praticamente inaceitável, claramente tomada para produzir um episódio dramático na história.

Ao Cortar os Cordões, de Estêvão Ribeiro
Dois homens em um bar partilham um “causo” da região: um psiquiatra chega a sua casa em determinado dia e encontra no lugar uma adolescente a quem tratou e que desenvolveu por uma ele uma obsessão doentia. Ambos conversam, ambos discutem, ela se insinua, ele resiste, ela expõe um insight perturbador sobre o mundo e tenta convencê-lo de que está certa… Até que uma circunstância sobrenatural vitima o desvalido terapeuta custando-lhe mais do que a imagem profissional. É um conto curto e de levada ágil, com uma história interessante. Mas o desfecho, no qual se retorna, com um twist de horror, aos dois homens que contavam a  história lá na primeira cena, me soou algo afetado. 
Como boa parte da narrativa é sustentada pelo diálogo entre o psiquiatra, Fernando, e a jovem paciente, Joana, alguns desvios de curso na estrutura das falas dos personagem podem representar um problema, bem como um que outro tropeço na carpintaria do texto, que não se eleva além de um arranjo por vezes piegas ou excessivo:
“Fernando encarou a garota, tentando ver sentido naquilo. Olhou-a nos olhos e viu nada mais que a verdade. Uma verdade que não podia ser sua ou real, mas a menina acreditava no que acabara de falar, seja lá o que fosse.”
No geral, contudo, é um bom conto, com uma história criativa que não tem medo de levar as suas circunstâncias internas até as últimas consequências.

O Primeiro Dragão, de Raphael Draccon
Não li os livros da série Dragões de Éter, de Draccon, para saber se aqui temos um excerto de um deles (mesma circunstância da narrativa de Eduardo Spohr). Me parece que não, que o texto tem a autonomia de um conto, com um final fechado que dota a peça de unidade sem depender de mais nada. Uma narrativa que, assim como a história escrita por Spohr, retrabalha temas consagrados da fantasia em estilo RPG medieval: o protagonista é um “paladino” a serviço de um deus para funcionar como elemento de equilíbrio nos assuntos dos homens e ajudá-los no combate contra criaturas monstruosas (neste caso, hobgoblins, criaturas do folclore nórdico semelhantes a duendes, lideradas por um “bugbear”, um monstro lendário “goblinoide” apropriado pela narrativa do RPG Dungeons and Dragons). O protagonista começa ferido e semimorto em um campo coalhado de cadáveres, tem suas feridas magicamente curadas pela benemerência de sua divindade, sai a perambular pela cidade destroçada, encontra cadáveres de entes queridos e entra em luta com oito hobgoblins em patrulha. Mata-os e liberta um contingente de três dezenas de humanos que seriam levados como escravos na retaguarda da horda de duendes malignos. O “primeiro dragão” ao que o título faz menção é um episódio do passado do paladino, que matou sua primeira fera justamente naquela cidade, anos antes – e teve um caso amoroso com uma jovem do local. Em companhia dos humanos libertados e inspirado pelo “fogo da justiça” de seu deus, ele persegue a vanguarda dos duendes, que executa um ataque a uma aldeia de elfos nas proximidades.
O conto é provavelmente o mais longo da antologia, tem 36 páginas, mas consegue ser o mais equilibrado dos três grandes “fantásticos” que apareceram até agora. É o que parece ter menos coisa “sobrando” dentro de suas próprias prerrogativas, mas ainda assim poderia se beneficiar de alguma edição, principalmente de algumas das perífrases comuns à literatura de fantasia e que por vezes confundem o épico com o sentimental:
“De fato, para um homem comum, aquilo sempre seria inacreditável. O renascido ergue-se como se o coração estivesse mais leve. Como se a cura fosse humana, como se o mundo fosse bom e propício a heróis”. (p. 151)
A mesma ideia voltará adiante em outra cena:
“Nuvens começaram a tomar o céu de repente, como se o mundo fizesse sentido.” (p.166)
A certo momento, o paladino  volta ao local em que matou seu primeiro dragão:
Ainda sem entender o motivo de seu deus dito justo lhe encaminhar até ali, afinal é o deus quem guia o coração de um paladino, mesmo o dos renascidos, ele iria se retirar para perguntar mais uma vez o porquê a um deus que respondia com trovões.” (pp.155-156)
A “resposta do deus” faz referência a um episódio anterior, quando, confrontado com a morte da aldeia, o paladino gritava sua raiva a “Hedryl. O nome que os aldeãos e paladinos davam a um deus cabeludo e bem-vestido, tachado como seu representante de justiça”
Aí a mesmíssima ideia do trovão volta adiante, mostrando que o autor está enamorado demais de seus achados para usá-los apenas uma vez:
“Dizem que os deuses na chuva respondem a seus fiéis com trovões.” (p. 167)
Ainda assim, é o que conta a história mais interessante dentro do seu campo. Draccon é um escritor que consegue dotar suas cenas de ação de dinamismo, embora ainda precise lidar melhor com a questão do tempo da prosa. Em uma entrevista a Zadie Smith incluída no livro Conversas entre Escritores (resenha aqui), Ian McEwan reconhece que foi um equívoco escrever repetidamente em seu livro A Seta do A Criança no Tempo que o personagem sentiu o tempo desacelerar. “Não é necessário dizer isso. A própria prosa se encarrega de diminuir o ritmo.” – diz McEwan. Draccon também recorre muito às perífrases mencionadas para paralisar o tempo de sua narrativa, como se a cada cena de luta ele se valesse de uma “câmera lenta” – que ressalta didaticamente os momentos de maior tensão e interrompe a dinâmica ágil que ele consegue construir no restante da cena de batalha.

Bom, o post ficou longo igual. Tentaremos fazer mais sintético na próxima – que, espero, não demorará tanto.

>>> Leia aqui a primeira parte da série de resenhas de Geração Subzero

Reencontros de leitura

01 de maio de 2012 1

Quanto eu tinha 15 anos, já era um adolescente que gostava de ler, mas não havia ainda dedicado praticamente nada de meu tempo à leitura de autores rio-grandenses (a própria categoria “autores rio-grandenses” não passava muito pela minha cabeça na época, meu colégio ao menos não chegou a abordar isso), com exceção do Tempo e o Vento – que eu havia lido mais por causa da série de TV que passara uns anos antes do que por indicação do colégio – e de A Balada do Falso Messias, de Moacyr Scliar.  Até que um dia uma professora distribuiu na aula algumas provas de vestibular da UFRGS e da UFSM para vermos como era. E a parte de literatura vinha cheia de perguntas sobre uma gente que eu nunca tinha ouvido falar: José Clemente Pozzenato, Tabajara Ruas, Pedro Geraldo Escosteguy e Josué Guimarães. Se eu tivesse que responder aquela prova valendo, estaria ralado.

Cabreiro com o que identifiquei como uma lacuna, resolvi, na saída do colégio, passar na Biblioteca Pública de São Gabriel (desde sempre um dos meus ambientes favoritos: ficava no andar de cima de um casarão antigo na praça central da cidade, com uma sala cheia de estantes em janelas que davam para a rua) e pegar o primeiro livro que eu achasse de algum daqueles nomes. Topei então com O Cavalo Cego, de Josué Guimarães – na verdade, eu topei com um monte de livros de Josué Guimarães, todos bem longos: Dona Anja, Camilo Mortágua, os dois de A Ferro e Fogo. Peguei O Cavalo Cego porque era o mais curto.

A leitura de O Cavalo Cego me faria voltar reiteradas vezes à biblioteca para apanhar os outros livros maiores que eu havia deixado para trás. Embora não tenha sido uma leitura de estreia, aquele magrinho livro de contos com pouco mais de 150 páginas havia sido uma espécie de iniciação.

O Cavalo Cego reúne seis contos unidos pela temática do fantástico e do sobrenatural, mas nada a ver com a atual profusão de zumbis e vampiros planejados para adolescentes. Era um horror adulto, no qual a morte, embora muitas vezes vista como não sendo um fim definitivo, era motivo de melancolia e sofrimento, físico ou emocional. Li os seis relatos numa rapidez assombrosa, e durante muito tempo conservei as histórias e os episódios comigo.  O conto que dá título ao livro era uma narrativa contata por um velho combatente das revoluções gaúchas a um homem mais jovem, um pesquisador ou repórter; A Visita, que abre o livro, era a lírica despedida entre um idoso e sua mulher já falecida. Uma Noite de Chuva tinha ares de Além da Imaginação ao narrar o horror de um homem que teme ter perdido a esposa em um acidente de carro. A Travessia focava uma chacina sobrenatural em outra das revoluções pampeanas. Renato, Meu Amor, era uma narrativa que explorava a perversidade infantil – na época soou bastante perturbadora.

Dia desses, um sábado em que passeava no centro da cidade, encontrei o livro em um sebo da Rua dos Andradas, a R$ 6 reais. A mesmíssima edição, com uma capa perturbadora de uma janela aberta em fundo preto com uma fantasmagórica figura entrevista através dela (essa que ilustra o post lá em cima). Tomado de carinho por aquela lembrança afetiva e incentivado pelo preço, comprei o exemplar e levei para casa.

De cara, uma surpresa: havia outro conto do qual eu havia me esquecido. Chamava-se O Elevador, e ao ver o título me lembrei de que fora a história que mais demorei a vencer naquela época. A releitura do livro foi ainda mais rapidamente assombrosa do que a daqueles meus juvenis anos. E embora desta vez eu visse muitos problemas nas histórias que haviam arrebatado o leitor ainda inexperiente que eu era na adolescência (a linguagem talvez o maior deles. Josué escrevia bem, com uma linguagem tomada de empréstimo de sua atividade jornalística, mas às vezes sua prosa perdia o brilho justamente por isso), conseguia também entender de cara o que havia me atraído tanto naquele primeiro contato.

Josué era um fabulista imaginativo, e conseguia colorir as descrições do que seus personagens viam e faziam de modo dinâmico, deixando na mente de seu leitor imagens vívidas. A Travessia narrava a dramática tentativa de uma tropa perseguida de atravessar o vau de um rio em busca de refúgio dos inimigos que os perseguiam. A descrição da fome, do cansaço e das condições desumanas da marcha forçada eram mesmo das que marcam:

– Vi matarem três bois. Jorrava tanto pus das feridas causadas pelas cangas durante a marcha que prefiro morrer de fome a enfiar na boca essa porcaria.

A Travessia e O Cavalo Cego me pareceram as narrativas mais bem realizadas nesta segunda leitura. A Visita revelou-se mais sentimental do que eu me lembrava. Calcado em diálogos, era um conto que parecia ter envelhecido muito mal, embora ainda preservasse certa ternura. Eu não me lembrava mais da história detalhada de Uma Noite de Chuva, mas ela me foi voltando à medida que eu lia e me dei conta de que a tentativa de estender o suspense para a revelação final se alongava em demasia. Renato, Meu Amor, ao contrário, parecia ainda muito bem estruturado. O Elevador era um conto que buscava estranhamento com um episódio que foge à lógica cotidiana, mas que parecia mais um exercício do que uma realização.

O livro era ruim? Não, nada disso, ainda é um belo livro. Talvez a segunda leitura não dissesse tanto sobre o que o livro era, mas sobre o leitor que me tornei – até porque O Cavalo Cego de fato não me parece figurar com destaque no próprio conjunto da obra de Josué. A Ferro e Fogo, Camilo Mortágua e Os Tambores Silenciosos talvez ocupassem os meus primeiros lugares, se me pedissem para fazer uma lista. Mas a coletânea ainda tinha as virtudes evidentes que me fizeram gostar dela da primeira vez, ainda que eu guardasse um retrato mais colorido dela na memória devido ao papel que teve na minha formação como leitor. Imagino que seja assim que nos afeiçoamos todos – a pessoas e livros.

P.S.: O dia começou com uma nota curiosa. Comprei o livro já faz algum tempo, e vinha protelando a escrita deste texto – tanto que nesse meio tempo a L&PM lançou uma nova edição, cuja capa vocês podem ver abaixo. Hoje, ao me preparar para vir para a Zero Hora, decidi, por um impulso, que seria um bom modo de aproveitar o feriado: finalmente falar do que havia pensado durante a releitura. Procurei o exemplar na estante na estante e trouxe para a redação. Ao chegar aqui, fui informado de que a viúva do escritor, Nydia Guimarães, faleceu nesta madrugada. Um toque quase tão sobrenatural quanto os do livro.

Mortos que andam

09 de junho de 2011 4

Confesso que não me entusiasmei quando li Apocalipse Z – O Princípio do Fim, livro de zumbis do espanhol Manel Loureiro. Ao final da leitura de suas quase 400 páginas, fiquei mesmo foi bravo com a maneira como ele tratou um determinado acontecimento da história que, ao meu ver, era importante demais para merecer o que considerei pouco caso _ sem contar aquela horrível sensação de “fui enganado”. Nem uma mísera resenha eu me animei a fazer, de tão pistola que estava com o autor.

O autor Manel Loureiro em um… cemitério

Mas passados alguns dias da conclusão da cruzada do sujeito (sem nome) que assiste ao mundo ser devorado por um vírus que transformar os vivos em mortos-vivos (ou não vivos, como Manel prefere), outros aspectos da história ficaram maiores que essa primeira má impressão e me animaram a ler sua continuação, o recém-lançado Apocalipse Z – Os Dias Escuros.

E digo que Manel está construindo _ tomara que ele continue, há franca abertura para tanto _ uma das melhores sagas de zumbis com que me deparei. A começar pelo protagonista, um advogado na faixa dos 30 anos que sai de sua casa em busca de ajuda como um John Wayne às avessas, vestido com um roupa de mergulho de neoprene, um arpão cruzado nas costas e seu gato persa a tiracolo. Nem herói, nem anti-herói, apenas um suburbano qualquer, assustado e perdido, tentando sobreviver (e se acostumar) a um mundo em ruínas.

Eis aqui outro lado explorado com vigor e vitória por Manel: como seriam as coisas após um apocalipse zumbis? Pouquíssimos filmes ou livros mostram com tanta clareza o limbo que o planeta se tornaria no caso do desaparecimento dos seres humanos — ou na sua substituição por criaturas em estado semi-catatônico. Que fim levariam os serviços essenciais? Como se comportariam os ambientes onde sempre existiu — para o bem ou para o mal — a intervenção do homem? Qual o perfil dos sobreviventes e que tipo de arquitetura social tentariam erguer?

O autor não é otimista em nenhuma das respostas que oferece, isso pode ser adiantado. Para Manel, o homem será lobo do homem até o fim dos tempos ou durante ele. Em muitos momentos, os protagonistas se questionam se não estariam melhores entre os não mortos do que sob a “proteção” dos vivos. Mesmo assim, há espaço para humor negro involuntário e até um lampejo de flerte.

O primeiro livro foi escrito em sistema de diário — começa no computador e depois, por razões óbvias, passa para um livro. O segundo abandona esse artifício e parte pra simples narrativa, ora em primeira pessoa _ quando o protagonista está no comando — ora em terceira pessoa — quando a ação é vista pelos olhos de outros, incluindo os de um zumbi. Mas em ambos reinam o suspense, o horror e a sensação de que tudo, dali por diante, sempre está por uma mordida contaminada. Os parágrafos acabam funcionando como esquinas tapadas por espigões: não dá pra saber o que iremos encontrar até dobrarmos e, quando o fizermos, estaremos por nossa conta e risco, como os personagens de Manel.

As duas brochuras também tem o mesmo (talvez único) problema: o tamanho. O autor às vezes exagera nas minúcias e gasta linhas demais descrevendo o estado de putrefação de um zumbi — coisa de quem leu muito Stephen King, acredito. É OK para, por exemplo, mostrar o quanto de tempo se passou desde que se transformaram — alguns estão completamente nus e encardidos, outra coisa que dificilmente é sugerida em histórias do gênero —, mas cansa quando se trata de um simples contato visual. Faz realmente diferença saber quantos dentes restam ao monstro se arrastando numa esquina qualquer de Madri? Ou se o braço está inteiro ou pendurado por um tendão? É pura curiosidade mórbida misturada a um certo cacoete cinematográfico: deixe o leitor imaginar, livro não é cinema, ora essa…

Mesmo assim, a leitura de Apocalipse Z é recomendada com força. Ainda mais em tempos da retomada das filmagens de The Walking Dead

O conto segundo H.P. Lovecraft:

19 de maio de 2011 0

Quanto a como eu escrevo um conto: não há um único modo. Cada um de meus contos tem uma história diferente. Uma ou duas vezes, eu literalmente relatei um sonho; mas usualmente eu começo com uma atmosfera ou uma ideia que gostaria de expressar, e a reviro em minha mente até que eu possa pensar em uma boa maneira de incorporá-la em alguma sequência de ocorrências dramáticas capaz de ser relatada em termos concretos. Costumo fazer uma lista mental das condições ou situações básicas melhor adaptáveis a essa atmosfera, ou ideia, ou imagem, e então começo a especular a respeito das explicações lógicas e naturais de uma certa atmofera ou ideia ou imagem nos termos das condições e situações básicas escolhidas.

O mestre do horror psicológico H.P. Lovecraft no ensaio Notas sobre a escrita de ficção de horror. O trecho acima foi traduzido meio na corrida por mim mesmo. O ensaio na íntegra pode ser lido, em inglês, aqui.


Os vampiros de del Toro

29 de abril de 2010 3

Tenho em Drácula de Bram Stoker, do Coppola, um dos meus filmes prediletos. Também gostei bastante do primeiro Blade. E acho o game Batman: Arkham Asylum uma obra de arte. Mas nunca li muito a respeito dessa galera quiróptera. Na verdade, nem me lembro se um dia li algum livro com vampiros. Dessa série adolescente de chupadores de sangue vegetarianos eu passei longe. Vi o primeiro filme até o fim por pura e mórbida curiosidade, certo de que poderia ter desligado a TV muito antes.

Então decidi pegar Noturno, parceria do cineasta Guillermo del Toro e do escritor Chuck Hogan, lançado no Brasil em 2009 pela Rocco. E o fiz apenas pela certeza embasbacante de que as livrarias estão a ponto de dedicarem um espaço exclusivo para livros sobre e com vampiros. Quer dizer, eu tinha que ler pelo menos uma obra escrita durante esses anos de febre. Sei lá, esperava pelo menos entender seu zeitgeist.

Mas Noturno foi um negócio tão difícil de engolir quanto _ suponho _ sangue.

Não sei sobre o que versa essa nova literatura vampiresca, mas del Toro optou pelo cruzamento do tradicional com o moderno. Então seu vilão vem da Romênia e dorme num caixão preto cheio de terra. Mas ele está em Nova York a fim de provocar o apocalipse vampiro. Chega de avião e nele faz suas primeiras vítimas. Na cidade está também um velho judeu que conheceu o monstro num campo de concentração nazista e, desde então, se prepara para o derradeiro encontro.

Mas quem aparece antes é um médico de uma divisão governamental treinada para evitar e combater terrorismo biológico. Ele é cético, claro, e custa a acreditar _ Arquivo X feelings. Mas começa a mudar de ideia quando vê os humanos transformados em ação. Aqui, del Toro recicla seus vampiros de Blade 2 (que eu particularmente não simpatizei…). Eles não possuem dentes, e sim um tentáculo munido de ferrão que fica alojado embaixo da língua e pelo qual sugam o sangue de suas vítimas ao mesmo tempo que transmitem o vampirismo _ que, descobre-se depois, é uma espécie de vírus que transmuta seres humanos em bestas mortas-vivas acéfalas sugadoras de… sangue.

E que não morrem tão fácil. Precisam ter a cabeça decepada com uma lâmina de prata. Do contrário, o sistema continua vivo, necessitando apenas de sangue. O velho exterminador de vampiros tem, em seu bunker (que fica embaixo de sua loja de penhores, por deus…), um jarro contendo um coração extraído de uma vampira na década de 70 e que, até hoje, fica todo excitado quando “sente” sangue fresco por perto. Basta uma gota de sangue no jarro para que ele volte a funcionar, como um órgão independente. Pois é.

Capinha style em alto relevo, anyway...

Um plus: esses vampiros são como aquele inseto que transmite a Doença de Chagas, o Barbeiro. Ele se empolga tanto sugando o sangue de sua vítima que seu estômago vai inchando e espremendo outros órgãos, incluindo os intestinos _ que, apertados, o fazem defecar por toda parte, quando transmite a doença. Os vampiros de del Toro fazem o mesmo. Não, eu não sei o porquê e deveria ter parado nessa parte, mas como ficou claro, possuo curiosidade mórbida de sobra.

Cabeças pra lá, sangue pra cá, tripas pra todo lado e é formada então uma equipe de caçadores: o velho judeu dos Cárpatos, o médico e sua assistente e um exterminador russo de ratos. Eles tentam, matam os primeiros contaminados, mas o estrago  já está feito. Até o mestre-vampiro eles chegam perto de destruir. Termina o livro com o surgimento de vampiros caçadores de vampiros (Blade de novo, del Toro, pô rapaz…), a mulher do médico transformada, uma conclave de anciãos vampiros declarando guerra e uma miríade de perguntas sem respostas.

Sei lá, mas acho que como filme daria certo. Bota um filtro azulado, trilha sonora de suspense, cenas de correria com câmera no ombro e uma meia dúzia de sustos que tá feito. Nego vai dar cinco estrelinhas fácil. Mas não, como livro não dá. Talvez melhore no segundo, mostrando como vai ser esse mundo tomado por vampiros, um pequeno grupo de humanos na resistência tentando achar uma maneira eficaz de reverter a situação. Só que ainda assim, pensando bem, ficaria melhor no cinema.

Garota Infernal

13 de novembro de 2009 0

Divulgação
Garota Infernal, o filme, não é lá grande coisa. Podia ser pior, é fato, mas Diablo Cody faz valer seu Oscar por Juno e salva o longa de ser mais uma comédia de horror bobalhona para adolescentes com hormônios em chamas. Dái que _ não sei porque _ mas alguém teve a ideia de que, se o filme não era tão ruim, um livro feito com base nele também poderia dar certo. E aí chamaram uma tal de Audrey Nixon.

Quem? É, também nunca ouvi falar. A adaptação do roteiro de Diablo é seu primeiro livro, até onde consta. Nem o Google ajuda muito. Mas, vá lá, isso não tem importância. Quando menos se espera, Audrey Nixon é um pseudônimo da própria DC e aí vai ficar todo mundo com cara de pastel…

Bom, digamos que Garota Infernal, o livro (Record, 256 páginas, R$ 32,90), é quase um complemento para Garota Infernal, o filme. Narrado através de uma das protagonistas, Needy, ele funciona como um famigerado off, que explica passagens que no cinema são apenas insinuadas (embora o inverso também aconteça, em especial no final).

Ele também dá voz aos pensamentos de Needy, mostrando-a menos assexuada e tola que nas telonas. Nas páginas, diferente da película, ela pensa em garotos que não o namorado, é orgulhosa dos próprios peitos e gosta de fazer sexo.

E embora siga fiel ao filme, descrevendo cenas completas e transcrevendo diálogos na íntegra, a brochura de quase 200 páginas tem lá sua personalidade. Além de botar mais pimenta em determinadas conversas e cenas, ele prima por um humor negro que equilibra-se magistral e perigosamente na linha que o divide da total idiotia americanóide. Eu vejo mérito nisso, há quem enxergue apenas sorte.

Por outro lado, o filme tem o poder da imagem. E estamos falando de um filme estrelado por Megan Fox, quer dizer, não dá para simplesmente ignorar o sex appeal que escorre aos litros por aquela cútis alva e perfeita _ principalmente quando, nua em pelo, contrasta com a placidez negra do lago onde vai se refrescar após um lanchinho no bosque.

Ou quando as duas protagonistas dão um beijo (cuja duração, intensidade e até validade variam de acordo com a idade do espectador…) de língua, não há descrição, por mais rococó que seja, capaz de substituir os segundos que duram o enlace de lábios e saliva.

Meu conselho? Veja o filme.

Postado por Gustavo Brigatti