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Posts na categoria "Humor"

Adeus ao gênio

28 de março de 2012 3

Millôr, José Antônio Pinheiro Machado e Jorge Polydoro durante a entrevista, em 1981. L&PM: Arquivo pessoal

O Estado está fracassado definitivamente. O Estado não existe, o Estado já fodeu com 70% da humanidade. Nós temos hoje, em números absolutos e relativos, você sabe disso, mais miseráveis do que em todos os tempos. Claro, se fosse só em números absolutos você diria: ‘Claro, em Roma tinha 10 mil miseráveis, hoje tem 100 mil’”. Mas em números relativos também, se o mundo tinha 50% de miseráveis, hoje tem 90%. Então vamos esquecer o Estado e vamos entrar na metafísica, a possibilidade de um indivíduo atravessar a vida, o span of lif, o período que lhe foi dado a viver, que hoje no Brasil é 61 anos, em Roma é 82. Entrando nos fatores ocasionais considero que eu devo já ter terminado, como brasileiro, a minha média de vida; posso viver mais cinco anos, ou mais 10, ou mais 20, mas já estou no lucro. Enquanto eu vivo eu tenho também uma glândula que me faz feliz, uma glândula otimista! Não foi a sociedade que me deu isso! Quando eu acordo e vejo aquele puta céu de Ipanema e eu corro na praia, isto me faz extremamente feliz. Por exemplo, o meu trabalho: agora eu estou traduzindo o Rei Lear. De repente eu comecei a me chatear com o negócio e tal, mas também descobri a Aventura, que não tem nada a ver com o negócio; eu mergulhei no século XVI e concluí que só eu no mundo, ou pelo menos no Brasil, estou fazendo isso. A gente começa a entrar naquele negócio de descobrir as palavras, o significado, o que é que elas queriam dizer há 400 anos, aquelas coisas todas. Então a pessoa que tem este temperamento, que é capaz de correr na praia, de gostar, de gostar intensamente, veja bem, não é só sexual, não, de gosta intensamente da sua relação com mulher, bom essa pessoas está noutra. (Se as feministas soubesse como eu gosto de mulher totalmente, elas viriam aprender comigo.) De gostar da minha relação puramente dinâmica. Olha eu aqui, eu estava dizendo aqui no começo da noite, quando alguém perguntou onde nós íamos, eu falei, ‘olha, não vamos sair daqui, não. Vamos ficar conversando aqui, e se de repente não tiver mais ninguém pra conversar, eu fico conversando com a cozinheira até as 4 horas da manhã, para mim está sempre tudo muito bem’. E, se você tem esta possibilidade de vida, você não pode ser senão otimista em relação à vida. Mas esta posição, este sentimento, tem muito menos a ver com a sociedade em que eu vivo do que com a metafísica que me dirige.

O depoimento acima, que resume a postura ávida de Millôr pela vida que ele teve de deixar provavelmente a contragosto hoje, está em um dos últimos livros sobre o autor lançados recentemente. No primeiro trimestre de 2011, a L&PM lançou Millôr Fernandes: A Entrevista (L&PM 104 páginas, R$ 22.), reedição em livro de uma extensa conversa entre o gênio Millôr e os então jovens homens de imprensa Ivan e José Antônio Pinheiro Machado, Paulo Lima, José Onofre e Jorge Polydoro. Os três primeiros seriam fundamentais para a criação da L&PM. José Onofre e Polydoro tornaram-se nomes referenciais do jornalismo do Estado.

Na entrevista,  Millôr fala sobre sua trajetória, sobre a política e o cenário de um Brasil numa era pré- internet e até pré- democracia, uma vez que ainda vigorava a ditadura militar no país. A conversa de Millôr com o quinteto foi realizada em uma noite de 1981, durou sete horas e foi publicada na revista Oitenta, publicação cultural da própria L&PM que marcou época em Porto Alegre lançando ficção inédita, resenhas, entrevistas de grandes autores. Lembro que era uma das coisas que representava um oásis na bibllioteca da Fabico, em 1992, entre as milhares de obras sobre Teoria da Comunicação que encontrei por lá quando mudeu para Porto Alegre para estudar jornalismo. Na mesma época, fui a uma palestra de Millôr no centro municipal de cultura e muito do que vi e ouvi aquela noite me marcou para sempre. Tanto que estou até agora tentando organizar o que representa, para mim, a morte desse homem que li e admirei por boa parte da vida. É mais fácil especular o que a morte dele representa para o Brasil: um desastre e uma falta, imensa.

Mafalda, atemporal com qualquer idade

26 de março de 2012 0

Mafalda acaba de realizar o sonho de milhares de mulheres. Completou 50 anos e, por decreto, voltou a ter 48. Mal começaram a se multiplicar as homenagens pelo meio século de vida da mais famosa personagem do quadrinista  argentino Quino, criada para uma campanha publicitária jamais divulgada em 15 de março de 1962, o autor se manifestou adiando o aniversário em dois anos: o nascimento oficial da garota preocupada com os rumos do mundo seria em 29 de setembro de 1964, quando ela apareceu pela primeira vez em uma tira.

A confusão deixa margem à pergunta: entre todas as mulheres (de carne e osso ou papel), Mafalda comemoraria a chance de protelar os emblemáticos 50 anos? Sua amiga Susanita — aquela apaixonada por si mesma e que acreditava que a conjugação do verbo amar no presente perfeito era “filhos” — com certeza adoraria a possibilidade. E Felipe? O dentuço perdido em reflexões, provavelmente precisaria de uma superdose de Nervocalm diante da incerteza do dia do próprio nascimento. Mas Mafalda…

O mais fascinante sobre a garotinha que saiu de cena em 1973, mas segue cultuada por fãs fiéis ao redor do mundo, é seu olhar agudo sobre a realidade e as pessoas. Garimpando suas tiras, entre um comentário irônico sobre o embate entre o capitalismo e o comunismo naqueles agitados anos 1960, as aspirações da classe média e temas universais como a relação pais e filhos, ela aparece refletindo sobre o passar do tempo. Ao pensar no futuro, dali a 30 anos, quando a Terra teria 7 bilhões de habitantes e ela e seus amigos a idade de seus pais, ela conclui que estariam, além de apertados, velhos. Em outro momento, pergunta quantos anos alguém precisa ter para ser velho, ao que a mãe  responde que o importante é ser jovem de espírito. Então, Mafalda arremata: “E quando o espírito começa a precisar de maquiagem?“.

Mas, a despeito da certeza infantil de que qualquer idade além dos 20 é velhice, Mafalda certamente estaria agora, seja aos 48, seja aos 50, mais preocupada com os desdobramentos da Primavera Árabe ou o novo bate-boca pelo domínio das Ilhas Malvinas do que com crises etárias. A garota que ainda na pré-escola se questionava sobre os rumos do movimento feminista e, olhando as roupas passadas, a louça lavada e o chão brilhando, perguntou certa vez à mãe o que ela gostaria de ser se vivesse, é anticonvencional demais para se preocupar com idade.

Aliás, mesmo cinquentona, Mafalda, pelas artes do traço, seguirá sendo a criança que ainda hoje, quando seus leitores se aproximam ou há muito passaram dos 50, é capaz de nos desconcertar. Afinal, como ela mesma disse, entre as pequenas e as grandes questões do mundo, “a humanidade não é nada mais que um sanduíche de carne entre o céu e a terra”.

Os causos e a ironia de Chico Anysio

23 de março de 2012 2


Pantaleão Pereira Peixoto, menor na idade, fez muito carinho em dona casada, em moça donzela — e — contam — até uma meninota de quinze anos, filha-de-maria e neta de doutor, sentiu nas trancas a mão ensinada de Pantaleão Pereira Peixoto a lhe ensinar o que era bom.
— Terta, espia. . . Amanhã é dia de ter noite de lua.
— Será?
— Ora será. Não tou dizendo que é? Se eu digo que é, é porque é, ô xente.
E quem é a lua pra ter coragem de não vir na noite seguinte? Ela era necessária. Nas noites em que ela vem é que Pantaleão, desde as galinhas dormirem até os pintos piarem, com o pé calçado na alpercata de rabicho comprada em Campina Grande, vestido no pijama folgado, do tempo em que era mais gordo, tem, pra quem dê a honra de aparecer, uma estória a contar.
— Seu Pantaleão, conte a estória da vaca que usava óculos. . . — insinua Pedro Bó, conhecedor do repertório do padrinho, olho brilhando pela alegria de saber que vai escutar outra vez a estória já ouvida muitas tantas.
— Isso é estória besta, Pedro Bó. Nem é estória. Isso é um causo que nem vale a pena tomar o tempo de ninguém — rebate Pantaleão, já se preparando para contar, que ele não resiste.
Dona Terta pega o bastidor para cuidar do bordado que nunca termina. A espingarda reluz, chega a encandear pelo brilho terrível produzido graças ao alisar constante da flanela de Pedro Bó. O pé de Pantaleão sobe, pousa no assento da cadeira de balanço. O visitante se ajeita para melhor escutar. E tome conversa. Tudo coisa vivida. Tudo verdade verdadeira que quem tiver coragem que caia na besteira de duvidar.
— É mentira, Terta? — a pergunta é feroz, exigindo afirmação na resposta.
— Verdaaade — a resposta é mansa como Terta, humilde como Terta, submissa como Terta, mulher como agora já não existe mais.
— Pois bom.
E começa a estória. Da vaca de óculos, do veado capenga, do bode que voa, do ganso que fala.
A de hoje não sei qual é. Nem sei, também, qual será a de amanhã. Mesmo a de ontem eu já esqueci. Só sei que, diariamente, quando a noite se apresenta, desde o deitar das galinhas até o piar dos pintos, a voz de Pantaleão Pereira Peixoto troveja pelo sertão, no causo pedido.
— Pois bom.

Chico Anysio (1931– 2012) era um homem de TV, é certo. Sua carreira está ligada ao veículo que viu nascer e que ajudou inclusive a desenvolver no Brasil – alguns dos mais “espertos” efeitos especiais dos primórdios da TV brasileira estavam no programa Chico City, na década de 1970, ainda em preto e branco, e no qual Chico por vezes, caracterizado ora como um ora como outro de seus personagens,  contracenava consigo próprio.

Mas Chico também foi popular em livro nos anos 1970 – hoje sumidos, talvez até desconhecidos.  Editoras como Sabiá e José Olympio lançaram várias coletâneas de textos de humor escritos por Chico, alguns deles baseados em esquetes que o próprio escrevia para seu programa de TV ou para suas apresentações de teatro – se hoje o stand up é mania, não se pode esquecer que comediantes de gerações anteriores, como Chico, Jô Soares, Ary Toledo, Costinha e Juca Chaves foram pioneiros populares do humor de palco. Coletâneas de textos e contos humorísticos que saíam em livros como O Batizado da Vaca ou O Enterro do Anão – que eu, na época com 13 anos, confundia com O Anão no Televisor, do Moacyr Scliar, sei lá por quê.

Como a maioria dos brasileiros de uma determinada faixa social, muito vi Chico Anysio na TV durante a infância – não Chico City, claro, Chico City é anterior a meu nascimento, mas seu sucessor, Chico Total, o programa dos anos 1980, em que os quadros eram mais independentes. E talvez  por eu ser guri na época, Chico me parecia, aos meus olhos de espectador infantil, um tanto irregular. Algumas coisas achava muito engraçadas, outras não. Achava mais graça, e provavelmente entendia mais, os programas de humor mais popularesco como Balança mas Não Cai e o próprio Viva o Gordo.

Um dos quadros do Chico que não me diziam nada era justamente o de Pantaleão – um velho de pijama com um tapa-olho contando causos – era, claro, uma referência à cultura popular de narrativa oral ainda muito presente nas comunidades do interior, como as do Nordeste de onde Chico vinha ou as do interior do Estado, onde eu morava. Talvez por conhecer muita gente na cidade que ficava sentado na varanda ou no pátio da frente, de pijama, contando história, não achava exatamente engraçado aquilo tudo quando via na TV, não sei, é uma elaboração que estou fazendo agora.

Mas houve um momento em que Pantaleão fez sentido: quando seu personagem ganhou seu próprio livro: quando encontrei na biblioteca municipal um volume de É Mentira, Terta?, publicado pela José Olympio em 1973. O livro, aproveitando carona na popularidade do personagem, o dotava de uma biografia mais detalhada. Nome completo (Pantaleão Pereira Peixoto), a razão do Tapa-Olho (furou a vista no galho de um espinheiro desbravando o mato)  e por que não saía de casa (uma enfermidade na perna que dificultava a locomoção), entre eles.  E por escrito, o livro pareceu fazer muito mais sentido do que o quadro na TV jamais fez. Chico escrevia bem. Tinha uma maneira de criar o colorido do cenário com pinceladas ao mesmo tempo graciosas e elegantes, enquanto dotava Pantaleão da voz dos grandes contadores de histórias. Claro que para quem comprou o livro nos anos 1970 o sabor deve ter sido de coisa requentada, uma vez hoje sei que muitos daqueles textos haviam sido escritos a partir dos roteiros de episódios do programa.

Mas eu, naquela época, só ouvira falar de Chico City, sem ter visto. E embora o xingamento “Pedro Bó” fosse corrente, por algum motivo, ali por meados dos anos 1980, o personagem já não aparecia mais no quadro. Talvez esta fosse a chave: os textos de Chico lidavam, principalmente nas réplicas tumultuadas entre Pantaleão e Pedro Bó, com um recurso que talvez fosse tão sofisticado que eu só fui entender por escrito: a ironia.

Pedro Bó interrompia seu padrinho com perguntas estúpidas que eram respondidas com uma brutal ironia. Não chegava a ser Machado de Assis, nunca chegou, mas eu não conhecia Machado de Assis aos  13 anos. Para um guri, a ironia de Chico era uma bela apresentação, e por escrito o espírito do “causo” finalmente ganhava uma razão de ser. Não eram textos exatamente engraçados, mas eram textos com bastante graça. Leiam uma das histórias do livro e tirem suas próprias conclusões:

EIS O MODO DE PANTALEÃO CONTAR UM FATO ACONTECIDO COM A RAPOSA E NO FIM DO QUAL A RAPOSA É FIGURA DE MENOR EXPRESSÃO

– ATÉ QUE ENFIM APARECEU! – gritou Pantaleão, feliz, ao perceber que o compadre Roberval despontava. O zaino riscou junto ao batente do alpendre, Roberval desmontou e entregou a rédea do animal a Pedro Bó, que o conduziu ao quintal, onde lhe daria água e descanso.
– É Deus quem lhe traz, meu compadre. Entre, se acomode, a casa é sua. Dona Terta chegou com os braços afastados para o abraço no compadre.
Conversaram o inevitável trivial, perguntando e sabendo das coisas e das gentes. A melhora da comadre Inocência, esposa de Roberval, foi motivo de alegria para Dona Terta, que andava muito preocupada com o estado de saúde da amiga.
– Só não veio comigo porque a gente não queria deixar a casa só – explicou Roberval. – Tem uma raposa que anda cercando o galinheiro, e Inocência tem muito jeito pra fazer armadilha de pegar raposa.
Pantaleão suspirou fundo, tirou os óculos, com o indicador dobrado coçou o lugar onde antes tivera um olho, recolocou os óculos. Terta percebeu.
– Meu velho se lembrou daquela raposa, não foi?
Era isso. A estória da raposa não podia ser esquecida numa hora em que o nome do animal fora falado.
– Conte esse causo, compadre – pediu Roberval, já bebendo a caneca, água fresquinha recém-tirada da quartinha.
Dona Terta tomou a frente.
– Agora, não. Deixe Pedro Bó voltar que se ele não escutar essa estória ele morre. Pedro Bó é doidinho por esse causo da raposa.
Não foi preciso esperar muito. Mais uns minutinhos e já vinha Pedro Bó maquitolando, mordendo um pedaço de capim, enxugando a testa com a manga da camisa.
– O cavalo tá bebido e comido, Seu Roberval – anunciou ao entrar. – Oh, cavalo mais lindo. Botei ele na sombra. Ele tá que parece um bispo, de tão quietinho. Dona Terta, então, pôde anunciar:
– Pedro Bó, vem pra cá que Pantaleão vai contar pro compadre Roberval a estória da raposa.
– Eita! – Pedro Bó deu um pulo de alegria. Os olhos se encheram de lágrimas. – O senhor pra contar estava esperando por mim?
– Não, Pedro Bó. Tava esperando pelo Dr. Getúlio Vargas. Tá vendo, Terta? Foi pra escutar essa besteira que eu esperei. Pedro Bó, vá lá pra dentro e escreva cem vezes “preciso aprender a deixar de ser besta”.
Dona Terta controlou o marido, evitou o castigo, consolou Pedro Bó, serviu um cafezinho e Pantaleão velho de guerra tomou a palavra.
– O causo se deu em Penedo, em 1927. Como voimicê sabe, compadre Roberval, bicho que raposa aprecia é galinha. Bote uma paca, bote um jumento, bote uma capivara, a raposa se vê, nem faz conta. Mas por galinha o diacho da raposa é doidinha. É feito Terta por missa: não enjeita. Pois bom. Um dia, era já de meio-dia pra tarde, se não fosse duas horas, era por aí. Eu tava mastigando uma tora de rapadura, deitado em minha rede armada na varanda, quando comecei a escutar um barulho que vinha do terreiro. Era um tal de có-có-có, có-có-có.
– Era uma galinha?
– Não, Pedro Bó, era um jegue. Tinha acabado de botar um ovo e tava festejando. Terta, traga aquela chibata que coronel Heliodoro me deu no dia dos meus anos.
Ora, que mania. Pedro Bó não tinha mesmo jeito. Só se alguém lhe passasse um esparadrapo na boca. Dona Terta, mulher santa, mais uma vez acomodou as coisas.
– Siga adiante, compadre – pediu Roberval, pernas cruzadas, mostrando ostensivo a espora de prata.
– Pois bom. Aquele cacarejo aperreado não parava. Era có-có-có e mais có-có-có. . . e tome có-có-có. Eu pensei comigo: “homem, as galinhas tão afuleimadas”. Saltei da rede e entrei em casa. Mal eu entrei, escutei o latido do lado de fora. Ora, mas será possível? Eu tou lá, tem coisa aqui, venho pra aqui, tem coisa lá? Mas o latido de cachorro era diferente do latido normal, compadre. Era um latido triste, lamentoso, não sabe? Corri pra ver, era meu cachorro Rompe-Ferro. Sozinho. Eu me azucrinei: “Rompe-Ferro, cadê os teus irmão?” – o cachorro não respondeu, compadre, que cachorro não fala. Mas entende, que parece gente. Rompe-Ferro sacudiu o rabinho, espiou triste, como quem diz “desapareceram”. Não era um dia bom, compadre. Aqueles três cachorros – Rompe-Ferro Fura-Nuve e Corta-Vento – eram a alegria da minha vida, sem botar nisso Terta, que Terta é coisa de outro valor. Mas entre os cachorros e Pedro Bó eu nem sei quem preferia. Pulei o muro do alpendre, atravessei o terreiro da frente, corri pro mato gritando: “Fura-Nuve! Corta-Vento!”. Foi quando eu ouvi uma voz dentro do mato gritar: “Pantaleão, corre aqui!” Correndo como eu vinha, correndo eu segui no rumo do grito. Era Inacinho, um menino que trabalhava comigo na ocasião. O que foi, Inacinho? Espie aqui, Seu Pantaleão. Compadre, Inacinho tinha nas mãos as penas de quatro galinhas que a raposa tinha comido.
– Cruas?
– Não, Pedro Bó. Na cabidela. A raposa botou um avental, foi pra beira do fogão e preparou as galinha de cabidela pra tu comer mais tua mãe. Hoje você dorme no sereno, que é pra ver se pega um difluxo.
– Continue, compadre – pediu Roberval, menos interessado do que aparentava. Ninguém lhe notara as esporas de prata.
– Pois bom!
A perda das galinhas irritou o homem. Tinham sido quatro e isto significava que a terça parte do galinheiro havia sido devorada pela raposa. Era preciso tomar uma providência e o homem capaz de uma atitude no caso era ele mesmo, Pantaleão Pereira Peixoto, criado, desde menino, de modo a nutrir um ódio enorme pela covardia daquele bicho miserável que come o almoço dos domingos. Inacinho afirmara que vira a raposa ganhar o mato na direção do engenho. Pantaleão, com o ódio nas veias, pegou sua espingarda coió, chumbeiro de chumbo grosso, tabaqueiro de chifre de bode e saiu na cata da raposa. Andou mais de duas léguas farejando o rastro. Nenhum perdigueiro tinha faro melhor. Ele sabia, numa simples olhada, o trilho da raposa. Na volta do bananal, avistou a loca de pedra. Ali acabava o rastro. Por onde sair, a raposa não tinha. Mas não era uma raposa que havia na loca, eram muitas. Sem que ele esperasse, as raposas começaram a sair.
– E sai uma e sai outra e sai outra. Compadre, era um tal de sair raposa que não tinha cristão que desse jeito. Quando chegou em oitenta, eu parei de contar porque já tava saindo era de três em três, de quatro em quatro. Eu nem imaginava que naquela loca coubesse tanta raposa. E sai mais uma e sai mais cinco, eu me embaralhei na conta. Só sei, compadre, que uma delas me viu, avisou pras outras, quando eu dei fé, em vez de eu caçar as danada, elas é que iam me caçar. Pensei comigo: vou subir num pé de pau.
– Pra escapar delas?
– Não, Pedro Bó. Ia subir num pé de pau pra fazer um discurso: meus senhores, se vós conhece gente mais besta do que Pedro Bó, me amostreis. . . Hoje você dorme de botina, pra sonhar com o cão.
– Continue, homem de Deus – pediu o compadre. – Acabe essa estória enquanto eu tiro minhas esporas de prata.
– Pois bom – seguiu Pantaleão, sem prestar atenção nas esporas já citadas. – Eu botei reparo numa coisa: eu tava debaixo de um pé de imburana. O galho mais baixo não estava a menos do que quinze metros.
As raposas se formavam em grupos de cinco, de oito. Eram muitas. Não importava, agora, saber qual delas tinha comido as quatro galinhas. A vida de Pantaleão estava em perigo. Se as raposas se enfurecessem e resolvessem atacar, tudo podia acontecer. Ele mediu a altura do galho mais próximo e preparou o salto.
– Eu me encolhi, compadre, e me preparei mode pular pra cima. Pedi a proteção de São Francisco de Assis – santo de palavra, que nunca me deixou em necessidade – e vupt, subi.
– Compadre, você estará querendo me dizer que num pulo subiu quinze metros e pegou o galho?
Pantaleão exasperou-se. Não gostava que duvidassem do que dizia e, muito menos, que o julgassem homem de menor competência. E o modo como o compadre falara, insinuava mais coisas.
– Não apreciei o jeito de você fazer essa pergunta, compadre Roberval. Estou lhe recebendo na minha casa com muito amor, pra você pagar essa gentileza com uma pergunta safada como essa.
– É que eu acho que quinze metros – desculpava-se o compadre – é muita altura. Você, num salto, subir quinze metros…
– Eu vou ser sincero, Roberval. Eu não peguei o galho no pulo que dei, não.
– Ah, bem.
– Quando eu pulei, eu passei pelo galho, mas na descida do pulo, caí escanchado nele, que foi uma beleza.
– Bem, a prosa está boa, mas as esporas de prata estão me apertando – disse o compadre, levantando-se e saindo à busca do seu zaino. O que ouvira já era o bastante. E havia a raiva das esporas não terem sido elogiadas. Nem notadas, sequer. Despediu-se com um aceno, já galopando pela estrada.
– Foi-se embora e nem ouviu a estória da raposa … – lastimava-se Pantaleão. – E me diga uma coisa, Terta: ele estava de espora?