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Posts na categoria "Internet"

A justiça selvagem das redes

22 de dezembro de 2015 0
Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Ao longo dos séculos, a humilhação pública foi uma punição tradicional no Ocidente, até ser gradativamente abolida, entre outros motivos, por seu caráter desumano. Mas e se estivermos resgatando essa prática no tribunal em massa das redes sociais? Essa é a pergunta que move Humilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento Público, livro mais recente do jornalista inglês Jon Ronson (Tradução de Mariana Kohnert, Best Seller, 304 páginas, R$ 39).

Ronson é um autor com uma prosa de tom particular. Em livros como Os Homens que Encaravam as Cabras e O Teste do Psicopata (ambos também lançados no Brasil pela mesma editora), mescla a apuração de uma grande reportagem, o tom confessional de um escritor que apresenta o passo a passo de suas próprias pesquisas e uma pegada humorística que brinca com as dificuldades de pesquisa e com as ideias que o perturbavam no início do projeto.

É algo que se repete parcialmente em Humilhado – talvez pelo tom mais pesado inevitável na narrativa de pessoas arrastadas à vergonha pública, Ronson é mais contido no humor. O autor analisa episódios em que declarações infelizes ou segredos revelados na rede provocaram um aluvião de humilhação pública. Casos como o de Jonah Lehrer, divulgador científico caído em desgraça depois que vieram à tona citações alteradas em alguns de seus livros, ou o da relações-públicas Justine Sacco, que publicou uma piada considerada racista no Twitter quando estava embarcando em uma viagem para a África e cuja vida desmoronou, sem que ela soubesse, durante as 12 horas que o voo durou.

Ronson os entrevista, bem como  a alguns participantes dos frenesis de justiça na rede. Pesquisa a humilhação pública como punição (exposição na praça amarrado  no pelourinho ou na berlinda, chibatadas) e os motivos pelos quais ela foi sendo abandonada. Ao associá-la ao atual tribunal das redes, Ronson faz analogias felizes, mas sua abordagem tende mais à perplexidade do que propriamente à análise, o que pode ser considerado um dos pontos fracos do livro.

Entre as virtudes, contudo, está a honestidade com que o autor também confessa suas próprias dubiedades com relação ao tema. Ele próprio viu com entusiasmo os primeiros episódios de humilhação na rede, dirigidos a grandes redes e corporações: “Hierarquias eram horizontalizadas. Os silenciados ganhavam voz. Era como a democratização da justiça”.

Ronson, contudo, não tarda a cair em si: ninguém parece estar no comando dessa “Justiça”. E sem regras ou leis de execução explícitas, um tuíte pode ser a diferença entre justiça e massacre.

A Rede e os Livros: uma conversa com Ronaldo Lemos

28 de maio de 2012 0

Ronaldo Lemos. Foto: Cris Isidoro, Divulgação

Ainda no assunto da polêmica entre a Associação Brasileira de Direito Reprográfico e os defensores e apoiadores do site Livros de Humanas, tirado do ar por determinação da Justiça de São Paulo, fomos ouvir um dos principais especialistas em Direito e univerdo digital do Brasil, Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. Lemos prepara ele próprio para breve o lançamento de um livro que já sairá, em papel (coedição entre a PUCRS e a editora gaúcha Sulina), sob licença do selo Creative Commons, que permite modalidades de uso e reprodução não comercial de uma obra artística ou intelectual. Lemos nos falou sobre o substrato jurídico da polêmica, numa entrevista cuja íntegra pode ser lida abaixo:

Mundo Livro – O senhor está acompanhando o caso do site Livros de Humanas? Acha que a interdição do espaço virtual e a subsequente reprovação por parte de artistas e professores pode vir a se tornar um problema de relações públicas para a entidade?
Ronaldo Lemos
– Li, sim, sobre a suspensão do site. Há na verdade um problema de relações públicas que é também um problema jurídico, porque o site foi retirado contendo livros que podem não estar cobertos pelos direitos representados pela ABDR como entidade. O repertório total do site tem livros sobre os quais ela não comprovou nenhum direito de representação.

ML – O fato de todo o site ter sido tirado do ar mosta que a Justiça ainda não encontrou a medida justa e sutil para julgar demandas típicas da contemporaneidade altamente tecnológica?
Lemos –
A questão principal é que a lei de direitos autorais brasileira é uma das mais restritivas do mundo. Ela praticamente veda quaisquer condutas que não a compra integral do livro. Ela proíbe inclusive a disponibilização dos chamados “livros órfãos”, aqueles fora de catálogo há muito tempo, esgotados ou com representações incertas ou que não se pode encontrar. Em outras leis de outros países, há exceções que incluem a liberdade de publicação de livros nessa categoria.

ML – Mas faltou para o Judiciário exigir a comprovação de que a ABDR tem direito de representação para todas as obras no site, não? Preferiu-se a proibição integral do que  uma mais trabalhosa análise obra a obra.
Lemos –
O uso do judiciário para tirar do ar livros que você nem sequer prova que detém os direitos é muito preocupante. A ABDR representa um grupo específico e tem direito de pedir a retirada de qualquer material coberto por lei que esteja sob sua representação. O que está na lei tem de ser coberto, assim como livros que o autor ou a editora não desejam compartilhar têm de ser retirados se assim for a vontade de seus legítimos titulares. A questão que fica são livros que poderiam estar em domínio público, livros já previamente autorizados por seus autores ou editores ou que não fazem parte do catálogo da ABDR. É como se eu fosse acionar um direito que não me pertence. Se as pessoas puderem mover ações com relação a direitos que elas não têm, abre-se um precedente muito perigoso

ML – É hora de repensar a lei do Direito Autoral no Brasil?
Lemos –
O conflito principal ocorre pela ausência de possiblidades de acesso eletrônico legal. Esses mesmos livros que a ABDR tirou do ar, as pessoas não têm como acessar. Um dos aspectos a discutir é se a existência desses serviços de venda digitalmente também não desestimularia a necessidade de existência de sites como esses. Se o preço fosse bom e fácil, o site não teria razão de ser.

ML – Defensores do site também argumentam que um curso universitário exige leituras que seriam financeiramente inviáveis e que a comunidade intelectual sabe disso, que há um acordo tácito quanto aos xerox que qualquer universidade mantém, com pastas para os professores, mas na internet a ABDR parece ir à forra desse contexto. Qual sua opinião?
Lemos –
Nesse caso a questão é comercial. Se você vai a outros países, os alunos têm acesso a livros garantidos porque há outras modalidades de licenciamento de direitos. No Brasil, o único meio de acesso legal permitido comercialmente ao conteúdo de um livro é comprar o livro integral pelo preço de capa, enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, já é possível a universidade pagar pro rata, percentualmente, por um determinado número de páginas que pretende indicar em seus currículos. Para um aluno ler as 10 páginas de um livro que o professor reuniu em um polígrafo no Brasil, ele tem de desembolsar pelo livro inteiro, e o licenciamento parcial que vigora nos Estados Unidos é muito mais flexível no sentido de assistir a essas demandas. Essas 10 páginas poderiam muito bem ser pagas.

ML – Há esperanças de alguma mudança dada a atual situação do Ministério da Cultura e suas medidas que vão na direção oposta da gestão anterior da pasta?
Lemos –
Esse é o grande problema. Comparada com outras legislações de outros países, a lei de Direito Autoral no Brasil ficou como a Quinta Pior do mundo no que consiste à produção e difusão de conhecimento em um levantamento da organização Consumers International.  É uma lei desequilibrada que estava em processo de reforma, mas a troca de gestão na Cultura paralisou o processo.

A rede e os livros: as manifestações a favor do Livros de Humanas

28 de maio de 2012 0

Foto: Daniela Xu/ Pioneiro

Como mencionamos no último post, há uma polêmica atualmente no ar envolvendo a ABDR, entidade que representa editoras, e uma corrente de apoio ao site Livros de Humanas, retirado do ar por uma notificação da Justiça de São Paulo. Imediatamente a suspensão do site, acusado pela entidade de fazer pirataria digital, gerou uma série de adesões espontâneas a um movimento em apoio ao Livros de Humanas, qualificado por seus defensores como “biblioteca digital”, e contrário aos poderes que a ABDR se arroga como representante de todo o mercado editorial (uma vez que muitas editoras não são filiadas à entidade). Professores, escritores e até editoras vieram a público para protestar contra a decisão que tirou o blog do ar e discutir mudanças nas leis brasileiras de Direitos Autorais – uma das mais restritivas do mundo. As manifestações em apoio ao Livros de Humanas estão sendo reunidas em um único endereço na internet, o Direito de Acesso.

Outra das manifestações me defesa do blog Livros de Humanas veio de artistas, escritores e professores que resolveram disponibilizar livros recentemente lançados de graça, em versões em PDF, em endereços da rede, numa manifestação voluntária de apoio ao site e de relativização dos direitos autorais. Um dos primeiros a se erguer nessa iniciativa foi o poeta Eduardo Sterzi, que disponibilizou no portal Scribd uma cópia de seu livro Aleijão, para ler e baixar. Outros intelectuais também fizeram o mesmo, como os poetas Angélica Freitas (que jogou na rede seu livro de estreia, Rilke Shake) e Ricardo Domeneck (seu  mais recente livro, Cigarros na Cama, está aqui) e a escritora Verônica Stigger, que publicou me rede seu elogiado Os Anões (aqui).

Mandei para Eduardo Sterzi algumas perguntas sobre sua participação no movimento. A íntegra da entrevista pode ser lida abaixo:

Mundo Livro – Você disponibilizou para download, em apoio ao site Livros de Humanas, seu livro mais recente, Aleijão. O que o levou a essa iniciativa?
Eduardo Sterzi –
Há tempos, simpatizo e, na medida do possível, apoio o site Livros de Humanas, no qual reconheço uma das mais democráticas bibliotecas públicas do nosso país. Conheço vários estudantes e professores brasileiros e estrangeiros que encontraram nessa biblioteca textos fundamentais para a realização de suas dissertações de mestrado, teses de doutorado, artigos e livros: textos esgotados ou simplesmente não encontráveis nas bibliotecas físicas dos lugares onde moram. Eu mesmo já digitalizei e enviei links de vários textos, meus e alheios, para serem disponibilizados no Livros de Humanas. Como professor universitário, frequentemente indico textos a meus alunos; entre deixar esses textos num “xerox” em que só eles teriam acesso e deixá-los disponíveis na internet para que todos que os estejam procurando possam lê-los, qual é a melhor opção? Oferecer o Aleijão [que é, na verdade, meu penúltimo livro; o último é Cavalo sopa martelo] em apoio ao site foi um gesto modesto, que, para minha satisfação, foi seguido por vários outros autores comprometidos com a causa da plena difusão da cultura e do conhecimento, como Veronica Stigger, Angélica Freitas, André Vallias, Idelber Avelar, Eduardo Viveiros de Castro e Ricardo Domeneck, entre outros. Gostaria de lembrar que, com este gesto, apenas busco ser coerente com uma disposição que já está expressa numa nota que fiz acompanhar meus últimos livros, Aleijão (2009) e Cavalo sopa martelo (2011): “O autor permite a reprodução parcial ou integral deste livro por qualquer meio, desde que sem objetivos comerciais”.

ML – Outros autores também estão fazendo o mesmo, pode-se falar de uma campanha da classe criativa por uma flexibilização das normas determinadas pela atual lei de direitos autorais em vigor?
Sterzi –
Sim, felizmente está ocorrendo uma mobilização de alguns autores, tanto de ficção quanto das chamadas ciências humanas, em prol da plena difusão do conhecimento e da cultura, que passa, claro, pela flexibilização das leis atuais sobre direitos autorais – os quais, na verdade, deixemos claro, têm hoje muito pouco a ver com os autores. Basta lembrar que as entidades que protestam em nome dos “direitos autorais” nada fazem para garantir que os autores recebam a porcentagem mínima de 10% estabelecida por lei. Há várias editoras, inclusive entre as grandes, que pagam apenas 5% do valor de um livro vendido a seus autores. E, pior que isso, há todo um mercado de editoras que cobram dos autores para publicar seus livros. Só aceito discutir direitos autorais, sem aspas, com entidades que reconheçam tal situação e demonstrem estar fazendo alguma coisa para mudá-la. Quanto à mobilização dos autores, só lamento que seja ainda muito tímida, que muitos escritores prefiram ignorar esta questão – como, de resto, preferem ignorar qualquer questão política. E esta, a questão do livre compartilhamento da cultura, é uma questão política fundamental dos nossos dias, que nos diz respeito diretamente. Virar as costas para ela me parece algo vergonhoso.

ML – Os autores da ação impetrada pela ABDR contra o blog Livros de Humanas argumentam que a disponibilização do conteúdo online fere a lei dos direitos autorais. Os apoiadores, por sua vez, o definem como uma biblioteca online. A solução da polêmica passa pela reforma da lei?

Sterzi – Sim, é preciso reformar a lei, que é irreal. Não esqueçamos que vivemos num país que não dispõe de bibliotecas físicas compatíveis com a sua estrutura de ensino e no qual algumas editoras cobram preços verdadeiramente extorsivos por seus livros. Há um descompasso trágico entre o desejo de conhecimento e cultura de nossos estudantes e pesquisadores e os meios de que dispõem para satisfazer tal desejo. Foi essa carência de boas bibliotecas que levou à formação de toda uma estrutura alternativa de fotocópias, cujas matrizes são realizadas, na maioria das vezes, a partir de livros dos acervos pessoais dos professores. Vale lembrar que o Livros de Humanas surgiu de uma situação específica envolvendo a central de fotocópias do prédio de Letras da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP): de um dia para outro, a cópia de uma página, que custava R$ 0,10, passou para R$ 0,15. Ou seja, já se trata de uma alternativa à alternativa. Temos que revisar as leis de direitos autorais, mas temos também de criar uma política consistente de formação de bibliotecas públicas – e, sobretudo, precisamos discutir os preços dos livros no Brasil. Também temos de ver com clareza, na discussão sobre “direitos autorais”, o papel das editoras de livros didáticos na perseguição aos sites de livre compartilhamento. A ABDR, que move o processo contra o Livros de Humanas, está dominada por tais editoras. O livro didático é um negócio milionário em nosso país, um negócio cujo principal financiador são os governos federal, estaduais e municipais. O que o Ministério da Educação tem a dizer sobre o assunto? Nem falo do Ministério da Cultura, que, na atual administração, com os lamentáveis vínculos entre a ministra e o ECAD, sofreu um terrível retrocesso em relação à administração anterior, de Gilberto Gil-Juca Ferreira.

ML – A disponibilização online ajuda ou prejudica a carreira de um livro – ou talvez não tenha influência tão determinante nem em um sentido nem em outro?
Sterzi –
Talvez tenhamos de distinguir, antes de tudo, duas concepções de “carreira de um livro”. Se acreditamos que o fundamental na carreira de um livro seja sua leitura pelo maior número possível de pessoas, a disponibilização online só pode ajudá-la. Se, porém, acreditamos que o essencial seja converter o número de leitores em valores monetários, a situação não é tão clara. No entanto, temos o testemunho de autores como Paulo Coelho, que dizem que passaram a vender mais livros depois que tiveram suas obras disponibilizadas na internet. Há também o caso da editora Hedra, que, depois que deixou alguns de seus livros disponíveis integralmente no Google Books, passou a vender mais exemplares. Eu mesmo, que, como a imensa maioria dos poetas e ensaístas, estou longe de ser um grande vendedor (embora tenha dois livros com primeiras edições esgotadas, Prosa e Cavalo sopa martelo), percebo que a maioria dos leitores que me contam ter comprado meus livros o fizeram depois de ter lido ao menos algum de meus textos na internet. Para além de qualquer discussão comercial, o importante, porém, é perceber que o livre compartilhamento veio para ficar, porque ele é a realização de um ideal de busca do conhecimento e de comunhão cultural que sempre esteve na base dos grandes momentos de afirmação de nossa humanidade. Estamos diante de uma nova Renascença, de um novo Iluminismo – nada menos do que isso. Pouco me importa que esse livre compartilhamento ajude ou prejudique as vendagens de meus livros ou de qualquer livro. Pouco deveria importar também aos autores conscientes de sua função no mundo, aqueles que sabem, como bem disse o cineasta Jean-Luc Godard, que um autor não tem direitos: tem deveres.

A rede e os livros: três perguntas para a ABDR

28 de maio de 2012 0

Foto: Bruno Alencastro/ZH

Publicamos hoje em Zero Hora um texto sobre a recente polêmica envolvendo o blog Livros de Humanas, uma página na rede fundada por um estudante da USP que disponibilizava arquivos em PDF de livros de áreas como filosofia, teoria literária, sociologia. Por meio de uma ação judicial na Justiça de São Paulo, a entidade classista Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) conseguiu retirar o site inteiro do ar, pedindo primeiramente a antecipação de tutela à retirara de dois livros específicos, um publicado pela editora Forense e outra pela Contexto. Depois de obter o “sim” a sua pretensão, a ABDR conseguiu tirar o site inteiro do ar solicitando a extensão do que havia adquirido a todo o conteúdo do site, mais de 2 mil livros, alguns em domínio público e outros esgotados. Enviei um e-mail à ABDR e recebi as seguintes respostas do advogado da entidade, Dalizio Barros. Como a entrevista foi enviada pela caixa de “fale conosco” do site da associação e a resposta chegou em cima do laço para a publicação no jornal, não pude estender outras perguntas que se impunham das respostas às primeiras. Vocês podem lê-las na íntegra logo abaixo:

Mundo Livro – o que levou a ABDR a ingressar na justiça solicitando a retirada do site Livros de Humanas do ar?
Dalizio Barros –
a abdr tem um trabalho de identificação dos principais sites que disponibilizam obras intelectuais para download na rede sem autorização e os monitora através de notificações e etc., porém, quando se percebe uma demanda muito alta de conteúdo e de acessos e também de que os responsáveis pelos sites não atendem as notificações da entidade, a saída é buscar o socorro do poder judiciário para tentar cessar os prejuízos suportados pelas editoras;

ML – Em que grau está atualmente o processo? a retirada do site do ar foi concedida em liminar, não? Têm ideia de quando o mérito será julgado?
Barros –
O processo é bem recente e conseguimos há cerca de quinze dias a liminar para o site retirasse o conteúdo apontado do ar. Agora o processo está aguardando a manifestação em defesa pelos responsáveis do site. não há previsão de definição ainda.

ML – Uma campanha está sendo movida pela internet, com escritores disponibilizando suas obras na rede em apoio ao site. o que os senhores pensam dessa manifestação?
Barros –
A abdr representa algumas editoras (cerca de 90% do mercado) e somente pode falar por elas. os escritores que por ventura disponibilizem suas obras na rede provavelmente o fazem porque são independentes.

Como você lerá o seu jornal?

25 de agosto de 2011 2

Enquanto uns aprenderam a ler folheando jornal, a nova geração cresce na era da internet. Resistir ou se entregar? A transição entre o impresso e o digital não permite escolher. Inseridos no universo virtual, os veículos de comunicação repensam formatos e se reinventam na busca da melhor forma de comunicar.

Às 20h desta quinta-feira, a conferência A comunicação do impresso ao digital, conduzida por especialistas que atuam nos principais meios de comunicação do país, levará o dilema a debate no Circo da Cultura. Estarão no palco da Jornada Roberto Dias (Editor de Novas Plataformas da Folha de São Paulo), Rinaldo Gama (Editor de O Estado de S. Paulo e Doutor em Comunicação e Semiótica), Eduardo Diniz (Editor de O Globo online) e Pedro Dias Lopes (Editor-chefe de notícias online do Grupo RBS no RS). Em discussão, o futuro dos jornais diante do desafio contrastante entre a perda de envergadura física e a necessidade de encorpar conteúdos.

Com um leque de jornais embaixo do braço, o professor de história Paulo da Silva Monteiro, 66 anos, distribuía ontem, na entrada do Circo da Cultura, a história da legalidade impressa em 16 páginas. Para ele, por mais que o virtual seja ágil e prático, a possibilidade de tatear o jornal o torna um companheiro insubstituível.

— A internet é uma livraria sem fundo, mas prefiro o papel. Os dois vão conviver bem no futuro – arrisca.

Enquanto isso, na praça de alimentação, a professora Márcia Silva dos Santos, 32 anos, usava o jornal impresso para calçar o notebook sobre a mesa. Na tela, as notícias se amontoavam em tempo real. Para a educadora, a interatividade e a rapidez fazem o mundo virtual se sobrepor ao impresso.

— Até leio o jornal de papel, mas na internet posso compartilhar e debater os conteúdos — revela.

Diante do paradigma que se atreve a reinventar a comunicação, o cenário de transição divide opiniões. Da desconfiança à adaptação, o coordenador de debates nas Jornadas Literárias, Alcione Araújo, conta que passou a ler mais ao trocar o impresso pelo digital e prevê um amadurecimento social diante das tecnologias.

— O impresso tende a desaparecer diante da praticidade, agilidade e interação da internet — pondera.

Principal destaque da 14ª Jornada, o franco-tunisiano Pierre Lévy ressalta a eficiência das novas tecnologias para proliferar a informação. Ele diz passar até duas horas diárias conectado ao Twitter e confessa não ler mais jornais nem ver TV. Uma mudança na rotina sem perder o principal: o conteúdo.

— Obtenho as informações de forma tão eficiente quanto na época em que era mais novo e, de fato, lia jornais — destaca.

A busca por maneiras de sobreviver e dialogar com as tecnologias regenera a ideia de comunidade imaginada proposta por Benedict Anderson. A diferença é que não há mais fronteiras para se comunicar. Diante do dilema entre a vanguarda do impresso e o futuro digital, prevalesce a tendência de uma transição de contrastes.

— Prefiro o papel, mas o futuro é a internet. O mais importante, porém, é circular a informação — resume a professora Caroline Rebelato Piccoli Carbonari, 29 anos, participante da Jornada.

Texto de Leandro Becker / Casa Zero Hora – Passo Fundo

Dois links bacanas

19 de fevereiro de 2010 2

Duas coisas legais descobertas por este seu blogueiro enquanto zapeava por aí na rede. A primeira delas é uma entrevista com a antropóloga Lília Moritz Schwarz, autora, entre outros, do livro As Barbas do Imperador, sobre Dom Pedro II, e que organizou recentemente, em parceria com André Botelho, a coletânea Um Enigma Chamado Brasil: 29 intérpretes e um país. Como Lília e Botelho escrevem na apresentação:

O livro apresenta as obras de 29 autores, as quais, tendo em vista as questões dos seus respectivos momentos históricos, e com os recursos intelectuais neles disponíveis, contribuíram de modo crucial para a compreensão da sociedade brasileira, dos seus problemas, dilemas e possibilidades. O resultado é uma visada geral sobre a nossa formação, nas várias dimensões desse processo – cultural, política e social – e tal como ele foi abordado por diferentes intérpretes em obras capitais da nossa tradição intelectual que, sinuosamente, remontam ao Império e chegam aos nossos dias. Estadistas e atores políticos do Império que, diante de problemas relativos à construção do Estado no plano político-administrativo, se viram desafiados a formalizar suas posições também no plano intelectual; os teóricos do racismo científico e seus críticos na Primeira República; modernistas de 1920 e ensaístas clássicos dos anos 1930; a geração pioneira dos cientistas sociais profissionais e seus primeiros discípulos são alguns dos personagens que comparecem nas páginas que se seguem.

Saber que Lília Moritz Schwarcz deu uma entrevista de rádio sobre o livro seria irrelevante antes do advento da internet, mas agora um podcast com a intelectual fica armazenado na rede e pode ser escutado um bom tempo depois de ter ido ao ar pela primeira vez. É o caso desta entrevista que Lília concedeu ao site Rio Bravo – de uma consultora de gestão e investimentos, por incrível que pareça. O link é este aqui, e para ouvir o podcast, infelizmente, é preciso ter o Quicktime, que não é lá essa maravilha. Mas a entrevista vale.

A segunda coisa com a qual esbarrei é o blog de livros do jornal Gazeta do Povo, do Paraná – sempre é bom descobrir que tem mais gente correndo em direção aos mesmos objetivos nesta imensidão infinita que é a internet, por isso saúdo sites literários bacanas quando eles aparecem. Na verdade, o site não “apareceu”, eu que descobri só agora, e curti a abordagem da turma em textos como este, uma crônica sobre o uso do lápis para sublinhar livros:

Levei muito tempo para conseguir escrever a lápis nos meus livros. Antes disso, minha postura era indiana: livro é um negócio sagrado, é preciso respeitá-lo e nunca deixá-lo tocar o chão. E, mais importante, jamais, em hipótese alguma, deve-se rabiscar as suas páginas. Hoje, quando leio para mim ou para o trabalho, continuo usando lápis. Não só porque ele pode ser apagado (curiosamente, nunca apago nada), mas, pensando agora, porque o lápis é esteticamente superior.

O grafite funciona melhor com as letras impressas e, além disso, o universo do lápis é atraente. Basta lembrar do William Faulkner, o autor de Enquanto Agonizo, que costumava apontar dezenas de lápis (com estilete e não com apontador) antes de começar a escrever.

O blog da Gazeta do Povo pode ser encontrado aqui.


O Clone no escuro

14 de agosto de 2009 7

Dia desses fui parar em um site ligado a uma publicação hypada e li uma coluna de livros assinada por uma jornalista e escritora brasileira. Tinha um texto grande sobre os dois recentes vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura, Galiléia, de Ronaldo Correia de Britto, e A Parede no Escuro, do gaúcho Altair Martins. Fui lendo, fui lendo, estava gostando, confesso. Até que chegou na parte em que a autora da coluna dedicava-se a falar um pouco do romance. E alguma coisa me soou muito familiar na primeira frase. E me soou mais familiar ainda em outros trechos adiante.

Não que eu não soubesse de onde vinha aquela sensação estranha de familiaridade, eu sabia, era essa a questão. O texto parecia um tanto com o texto que eu próprio escrevi e que foi capa do Segundo Caderno em outubro do ano passado. logo no lançamento do romance. Não era uma cópia integral, mas parecia que a maneira como o pensamento era encadeado era muito semelhante à descrição que eu próprio havia feito no meu texto. Para não ser leviano em minhas impressões, fui até o post publicado aqui mesmo no blog em 14 de julho, onde havia republicado o texto por conta da indicação do romance entre os semifinalistas do prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon. E comprovei que, ao menos para mim, há coisas bem semelhantes.

Para não dizer que eu sou paranoico, transcrevo abaixo o meu texto e o texto da escritora/colunista, com as passagens que me soaram familiares destacadas, e pergunto aos considerados leitores. Não parece ter havido uma inspiração bastante acentuada, ao ponto de ultrapassar a simples coincidência? Palpites nos comentários:

O meu texto:
Chove a cântaros quando o padeiro Adorno estaciona a Kombi velha na qual faz as entregas à frente de uma padaria onde vai deixar um lote de pãezinhos. No meio do vendaval, não vê nem é visto por um carro que entra na mesma rua no exato momento em que ele tenta atravessá-la.
O acidente na chuva é um dos pontos-chave da narrativa de A Parede no Escuro, primeiro romance do escritor Altair Martins, 33 anos, até aqui conhecido pela originalidade e pelo cuidado com a linguagem em seus contos, nos livros Se Choverem Pássaros, Dentro do Olho Dentro e Como se Moesse Ferro - um cuidado que lhe valeu duas vezes o prêmio Guimarães Rosa, organizado pela Rádio France Internationale, em 1994 e 1999. A Parede no Escuro é narrado por uma profusão de narradores que se cruzam no mesmo capítulo e às vezes na mesma cena.
- Nesse livro eu me propus um desafio: buscar a possibilidade de colocar mais de um narrador no mesmo espaço narrativo em cena sem quebra.
Tive alguns contos anteriores nos quais experimentei coisas assim, mas no romance em particular eu queria trabalhar na forma a idéia central do tema, a de as pessoas invadindo abruptamente o espaço e o discurso umas das outras – conta o autor, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS em 2006 com uma dissertação na qual defendia os procedimentos narrativos desse mesmo primeiro romance, na época provisoriamente chamado de Desencanto.
Uma série de personagens se cruzam numa narrativa circular na manhã do já descrito atropelamento. Adorno, padeiro doente mas ainda na ativa, acorda depois de um sonho opressivo e de passar mal, discute com a mulher, Onilda, acende o forno e faz seus pães. Sai e é colhido na frente da padaria por um carro dirigido pelo professor de matemática Emanuel. Este, por sua vez, dirigia-se à casa do pai, Fojo, para apanhá-lo e levá-lo a uma consulta médica. Emanuel vinha, perturbado, do apartamento em que dormiu com uma aluna, Lisla – que vem, pelas artes circulares do romance, a ser colega de quarto de Maria do Céu, filha do padeiro atropelado. Cada um deles, e outros personagens colaterais que a trama vai agregando, narra um fragmento da história, numa polifonia narrativa quebrada às vezes por um narrador em terceira pessoa, distante, que também tem voz nas transições entre um episódio e outro.

O texto dela:
O romance “A Parede no Escuro” é resultado de dissertação de mestrado do autor, sobre discurso narrativo. O objetivo de Altair era mostrar a possibilidade de colocar mais de um narrador no mesmo espaço narrativo, no caso do livro, no mesmo capítulo, ou na mesma cena. O ponto de partida é um acidente: chove a cântaros, quando o padeiro Adorno sai para cumprir sua rotina de entregas de pães. Ele havia passado uma noite péssima, para piorar, ao acordar, discutira com a mulher, Onilda. No meio da tempestade, não vê nem é visto por um carro que entra numa rua no exato momento em que ele tenta atravessá-la. O motorista, o professor de matemática Emanuel, dirigia-se à casa do pai, Fojo, para levá-lo a uma consulta médica. Emanuel, assim como Adorno, estava desorientado, vinha do apartamento em que dormira com uma aluna, Lisla, que, por sua vez, é colega de quarto de Maria do Céu, filha do padeiro atropelado. Esses personagens, além de outros que vão surgindo no desenrolar do enredo, relatam fragmentos da história, produzindo um texto polifônico, o qual, às vezes, é interrompido por um narrador em terceira pessoa, descolado da trama, e que também aparece nas transições entre um episódio e outro.

Ah, antes que perguntem: Não, não vou declinar o nome da moça. Primeiro porque espero a opinião de vocês, e segundo porque não é do meu feitio subir nas tamancas quando sou plagiado - se plagiado fui, não terá sido a primeira vez que texto meu foi parar sem crédito em outros pontos da rede, por aí.

Século 18 na rede

17 de julho de 2006 2

Esta é daqui e é mais uma grande pedida para quem roda pelo espaço virtual à procura de livros online. A Biblioteca Central da PUCRS colocou no ar vínculos de acesso à base de dados Eighteenth Century Collections On-line, – uma coleção virtual de mais de 150 mil livros publicados no século 18 – com o texto completo.

Ouça o papai aqui para saber como se faz: você abre a página da Biblioteca da PUCRS e clica no link Recursos de Pesquisa. Depois, vai em Periódicos.

Em seguida, selecione a opção Eighteenth Century Collections On-line, (também à direita), nos destaques que vão abrir na página. As pesquisas podem ser feitas por meio de busca por autor, título, palavra-chave ou texto completo, e podem ser impressas, salvas e/ou enviadas por e-mail.

As obras estão separadas em História e Geografia; Artes; Ciências Sociais; Medicina, Ciência e Tecnologia; Literatura e Línguas; Religião e Filosofia; Direito. Além dos títulos das referidas áreas, há também mais de 4 mil obras referência, incluindo enciclopédias, almanaques, dicionários e catálogos.

Quem preferir ir direto até o portal da Capes, pode ir pelo endereço www.periodicos.capes.gov.br/

Vilões

28 de junho de 2006 0

Ainda da série brincadeiras inúteis: apesar da alta literatura refletir o mundo – ou ao menos tentar – respeitando a complexidade do real, grandes livros, antigos e modernos, ainda se assentam no carisma de um grande vilão, perverso, insidioso e por vezes maniqueísta. Principalmente no que aqui se costuma chamar de literatura infantil – uma distinção que não existe tão claramente nos países de língua inglesa, onde livros para crianças ainda são livros antes de qualquer coisa.

Pensando nisso, a livraria Bloomsbury colocou no ar um site com uma enquete sobre qual o maior vilão da literatura infantil em língua inglesa. Veja aqui.

A lista de indicações já foi previamente definida pelo pessoal que pôs o site no ar, por critérios que eu desconheço, são quarenta nomes que englobam de clássicos a autores contemporâneos e até – aqui alguns puristas vão chiar – quadrinhos.

A página está em inglês, mas a maioria dos vilões indicados são nomes conhecidos nossos. Estão lá Artemis Fowl, o menino gênio do crime, curiosamente um vilão que é protagonista de sua série de livros; o Lobo Mau da história de Chapeuzinho Vermelho; Blofeld, chefe da S.P.E.C.T.R.E das aventuras de James Bond; o Capitão Gancho da peça Peter Pan; o Conde Olaf das Desventuras em Série dos irmãos Baudelaire; o Fagin de Oliver Twist e o inevitável Lord Voldemort dos livros de Harry Potter. Além da Cruella De Vil dos 101 Dálmatas – que toda minha vida eu chamei de Malvina Cruela antes de essa nova versão cinematográfica com a Glenn Close resolver usar o nome original em inglês, lá no fim dos anos 90.

Batem ponto também Magneto, dos X-Men, Lex Luthor, das histórias do Superman, e o insano Coringa, do Batman.

Quem se achar em condições de dar pitaco nesta eleição, confira a lista completa aqui.