Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "James Joyce"

Os dias em flor de James Joyce

16 de junho de 2010 3

James Joyce em foto de 1915 do fotógrafo Alex Ehrenzweig

Desde que fizemos, há duas Feiras do Livro, uma seção no caderno da Feira intitulada de A a Z, eu tinha vontade de colocar aqui no blogue algo semelhante – não tenho uma justificativa técnica de por que o formato de verbetes em abecedário a respeito de um único tema me parece uma forma bastante agradável de apresentar um assunto, mas o fato é que gosto deles. Pois como eu dizia, fazia horas que vinha pensando em publicar um A a Z sobre alguma coisa, qualquer coisa, mas parar e fazer é um pouco diferente com o tempo exíguo que se tem. A oportunidade surgiu agora com o Bloomday, que se comemora hoje. O Bloomsday, como alguns aí podem saber, é o dia em que malucos por James Joyce realizam leituras, eventos, conferências, festas, bebedeiras em homenagem ao radical romance Ulisses, do autor irlandês, que se passa em um único dia: 16 de junho de 1904. É mais ou menos aquele momento em que os mergulhados na cultura literária erudita se assemelham aos nerds de Star Wars, celebrando de forma alegre seu tema de eleição. Em 2004, quando o Bloomsday completou cem anos, eu e a então colega de redação Cíntia Moscovich elaboramos um material especial sobre a data, publicado em Zero Hora, de onde retirei o necessário para o Joyce de A a Z que publico aí embaixo:

Alter Ego - Um dos personagens centrais do romance Ulisses é o jovem poeta e professor Stephen Dedalus, uma representação do próprio Joyce que já havia aparecido em Retrato do Artista quando Jovem. Episódios vividos por Dedalus em Ulisses - como a perda da mãe – são relato de experiências vividas pelo próprio Joyce. Dedalus também seria o protagonista do romance autobiográfico inconcluso Stephen Hero, que foi abandonado e totalmente reescrito como Retrato do Artista…

Bloom – sobrenome de Leopold Bloom, o personagem mais conhecido de Joyce. Bloom é um vendedor de anúncios, judeu, e Ulisses é um relato de suas andanças por Dublin ao longo do dia 16 de junho de 1904, o chamado Bloomsday. Ele acorda, come rins no café da manhã, visita uma biblioteca, um jornal e um bordel – no meio do caminho, Bloom, o Ulisses prosaico, encontra Stephen Dedalus, a representação joyceana de Telêmaco na busca por um pai “espiritual”.

Ciclope - Em um dos momentos-chave de Ulisses, Leopold Bloom, depois de ferrenha discussão, é agredido por um antissemita que usa um tapa-olho. É a versão joyceana da luta de Ulisses com o ciclope Polifemo, na Odisséia. Bloom, como o astucioso Odisseu, foge.

Dublinenses - Reunião de 15 contos sobre cenas e personagens de Dublin, escritos quando Joyce tinha 23 anos. Os textos apresentam retratos de gente comum de Dublin e ainda são influenciados pelo naturalismo. Concluído em 1907, só foi publicado em 1914, e provocou revolta pela feroz caricatura que Joyce fez de seus conterrâneos. Como o tempo – e o reconhecimento dos outros – cura tudo, hoje a cidade se orgulha de seu filho ilustre.

Ezra Pound – Crítico e poeta. Amigo e mentor de Joyce. Foi um de seus grandes incentivadores na composição do Ulisses. Pound publicou, em capítulos, na revista que editava, The Egoist, a primeira novela de Joyce, Retrato do Artista quando Jovem, veiculada entre 1914 e 1915. Foi também Pound o responsável por dar a público alguns capítulos avulsos de Ulisses, na revista The Little Review, em 1918.

Finnegans Wake - Última e mais radical obra de Joyce, publicada em 1939. Um relato das camadas mais fundas da consciência recriadas numa linguagem fragmentada e escrita em uma profusão de línguas.
Nos anos 2000, ganhou sua primeira tradução integral para o português, feita por Donaldo Schüler, com o título Finnicius Revém – este emprestado da tradução de trechos feita por Haroldo de Campos.

Glaucoma – De 1923 até o fim da vida, Joyce sofreu com problemas de visão. Nos últimos anos de Paris, já não conseguia ler.

HCE – Iniciais que aparecem várias vezes em Finnegans Wake: Howth Castle and Environs; Here Comes Everybody; Haveth Children Everywhere e Haroun Childeric Eggenberth. Escrito em tom de pesadelo, o livro enumera episódios aparentemente desconexos que pretendem apresentar, pelo ponto de vista de uma família, um relato da evolução da própria humanidade.

Introibo Ad Altare Dei -  Frase proferida no início de Ulisses, pelo blasfemo Buck Mulligan, estudante de medicina amigo de Stephen Dedalus. Significa “Eu me aproximarei do altar de Deus” e faz parte da liturgia católica. Seu uso no livro, com Mulligan segurando um vaso de barbear em vez de um ostensório, já apresenta o tom paródico e insolente da obra.

Judaísmo – Filho de católicos que estudou em um colégio jesuíta, Joyce criou com a jornada de Leopold Bloom uma metáfora da errância judaica da diáspora. Bloom, um judeu, busca sua identidade no seio de seu povo e de sua cidade, sem deixar de sofrer preconceito.

Lucia - filha de Joyce, nascida quando o escritor morava em Trieste. Viveu um breve romance com o autor Samuel Beckett, mas, depois de começar a apresentar sinais de instabilidade no início dos anos 1930, sofreria um colapso mental em 1932. Sua instabilidade, com surtos de demência temporários, perdurou por toda vida – o que foi causa de muito sofrimento para o escritor. Ela chegou a ser tratada pelo famoso psiquiatra Carl Gustav Jung.

Molly Bloom – mulher de Leopold Bloom, é a voz do capítulo final, um longo monólogo interior, escrito em um caudaloso fluxo sem pontuação, no qual ela recapitula a relação com o marido depois de ele haver voltado para casa após sua “odisséia”.

Nora Barnacle – mulher e musa de Joyce, com quem teve dois filhos. O dia em que transcorre o Ulisses, 16 de junho de 1904, é tido como o dia em que ambos “saíram juntos” pela primeira vez, quando ela ainda era uma jovem camareira de hotel. Para consumo público, essa teria sido a data em que Joyce e Nora teriam passeado pelas ruas da cidade – versão popularizada principalmente pela imprensa irlandesa. Mas o fato mais aceito é que esse foi o dia em que ele e Nora fizeram sexo pela primeira vez – conforme Joyce conta em uma das muitas cartas apaixonadas e lascivas enviadas à esposa. Casaram-se no mesmo ano.

Odisséia - Joyce escreveu Ulisses tendo por modelo paródico o poema épico de Homero. A cada um dos 18 capítulos do Ulisses pode ser atribuída uma correspondência, ainda que muito sutil, ao do original grego.

Paris – Joyce mudou-se para a capital francesa com sua família em 1920, logo após o fim da I Guerra  Mundial. Viveu lá por duas décadas.

Quebra-cabeças - Joyce é considerado o ponto culminante do modernismo literário pela forma como semeou em suas obras, nas suas próprias palavras, enigmas que levariam cem anos para ser desvendados. Ulisses Já foi apontado como um imenso catálogo de modos de narrar: os fluxos de consciência que tentam representar o ritmo e a estrutura do pensamento, principalmente na caminhada de Dedalus pela praia no capítulo três ou o torrencial monólogo de Molly Bloom no capítulo 18; as vinhetas que conduzem o capítulo 10 ou o formato teatral, com rubricas e tudo, do capítulo 16.

Riverrun – primeira palavra do caudaloso Finnegans Wake e espécie de símbolo de seu enigma, uma vez que o próprio livro é um caudal, um fluxo. Foi traduzida por Donaldo Schüler como Rioquecorre.

Sylvia Beach – proprietária da livraria Shakespeare & Company, conheceu Joyce quando ele se mudou para Paris. Foi por meio dela que Joyce publicou a primeira edição do Ulisses, em 1922 (imagem ao lado). A autobiografia de Beach, com narrativa centrada em seus anos fundamentais à frente da livraria, foi publicada há alguns anos no Brasil com o nome de Shakespeare And Company: Uma Livraria Na Paris Do Entre-Guerras. (Casa da Palavra, 2004, 272 páginas, tradução de Cristiana Serra)

Trieste - Cidade da Itália para onde Joyce se mudou com sua mulher pela primeira vez em 1905, logo após o nascimento do primeiro filho, Giorgio. Joyce obteve um cargo de professor na cidade com a ajuda de seu irmão mais novo, Stanislaus. Em Trieste nasceu a segunda filha do casal Joyce, Lucia. Lá, o escritor também conheceu Italo Svevo, de quem se tornou amigo, e publicou sua novela Giacomo Joyce, única em toda sua obra que não tem a Dublin natal como cenário.

Ulisses – O romance mais revolucionário do século 20. Em uma linguagem que vai do cômico ao poético, com neologismos e monólogos que intercalam atos e pensamentos dos personagens, Joyce escreveu o épico moderno: 24 horas de um dia comum na vida de um sujeito banal.

Vocabulário - Ulisses tem 18 capítulos e seu original em inglês lida com um vocabulário de 30 mil palavras, muitas delas inventadas pelo próprio Joyce (a estimativa do vocabulário médio de um adulto instruído é de 12 a 15 mil). De acordo com a edição, o livro pode ter de 700 até mil páginas. edição traduzida por Antônio Houaiss para a Civilização Brasileira tem 960 páginas. A de Bernardina da Silveira Pinheiro para a Alfaguara/Objetiva tem 908.

Xenofobia – joyce também foi um peregrino do entreguerras. Por diversas vezes ao longo da vida, o escritor precisou se mudar com a família de país em país à medida em que o ambiente tornava-se prejudicial a estrangeiros em geral e a ele como um autor considerado “porongráfico” em particular.

Zurique – O último lar de Joyce. Ele morreu na cidade em 13 de janeiro de 1941, aos 58 anos, depois de ter
se mudado para a Suíça após a eclosão da II Guerra. Antes disso, já havia morado lá entre 1914 e 1919.

Lembrando Ulisses

02 de fevereiro de 2010 3

Já que estamos no dia 2 de fevereiro, data que marca não apenas o nascimento do escritor irlandês James Joyce (em 1882) como a publicação da primeira edição, em Paris, de sua obra Ulisses (editada pela lendária Sylvia Beach da mais lendária ainda Shakespeare & Co. depois de uma porrada de rejeições editoriais de outras “boas casas do ramo”), vai lá o trecho inicial do romance, na tradução mais recente para o português, de Bernardina da Silveira Pinheiro. Imagino que a maioria aí esteja ciente do que trata o livro, considerado a suprema obra do modernismo literário e o romance mais revolucionário do Século XX. Em uma linguagem que vai do cômico ao poético, com neologismos e monólogos que intercalam atos e pensamentos dos personagens, Joyce escreveu o épico moderno: 24 horas de um dia comum na vida
do judeu Leopold Bloom, um sujeito banal que atravessa a cidade de Dublin e encontra durante essa jornada com um jovem e atormentado poeta, Stephen Dedalus, de formação católica e ex-aluno de um seminário jesuíta. A tradução de Bernardina desmente, um pouco, a fama de ilegível do texto, recuperando alguns elementos de coloquialidade e humor presentes no original e deixando de lado a algo rebarbativa riqueza vocabular da versão de Antônio Houaiss. Divirtam-se:

Majestoso, o gorducho Buck Mulligan apareceu no topo da escada, trazendo na mão uma tigela com espuma sobre a qual repousavam, cruzados, um espelho e uma navalha de barba. Um penhoar amarelo, desamarrado, flutuando suavemente atrás dele no ar fresco da manhã. Ele ergueu a tigela e entoou:
– Introibo ad altare Dei.
Parado, ele perscrutou a escada sombria de caracol e gritou asperamente:
– Suba, Kinch! Suba, seu temível jesuíta!
Solenemente ele avançou para a plataforma de tiro. Olhou à volta e seriamente abençoou três vezes a torre, o terreno à volta e as montanhas que despertavam. Em seguida, avistando Stephen Dedalus, ele se inclinou em direção a ele e fez cruzes rápidas no ar, gorgolejando na garganta e sacudindo a cabeça. Contrariado e sonolento, Stephen Dedalus apoiou os braços no último degrau da escada e olhou friamente para o rosto sacolejante e gorgolejante que o abençoava, para a cabeça eqüina e os cabelos claros sem tonsura, tingidos e matizados como carvalho descorado.
Buck Mulligan espreitou por um instante por baixo do espelho e depois cobriu a tigela rapidamente.
– De volta pro quartel! – disse implacavelmente.
E acrescentou em tom sacerdotal:
– Pois isto, meus bem-amados, é a verdadeira cristina: corpo e alma e sangue e feridas. Música lenta, por favor. Fechem os olhos, senhores. Um momento. Um pequeno problema com esses corpúsculos brancos. Silêncio, todos.
Ele olhou de soslaio para cima e soltou um longo e lento assobio de chamada, depois fez por um momento uma pausa em atenção enlevada, com seus dentes iguais e brancos brilhando aqui e ali pontilhados de ouro. Crisóstomo. Dois fortes assobios estridentes responderam através da calma.
– Obrigado, meu velho – gritou vivamente. – Isto é o bastante. Desligue a corrente, está bem?
Saltou fora da plataforma de tiro e olhou seriamente para o seu observador, juntando em volta das pernas as dobras soltas de seu penhoar. A cara rechonchuda e sombria e a queixada oval e taciturna lembravam um prelado, patrono das artes na idade média. Um sorriso agradável desabrochou em seus lábios.
– A ironia das coisas! – disse ele alegremente. – Seu nome absurdo, um grego antigo!
Ele apontou com o dedo num gesto amigável e se encaminhou para o parapeito rindo consigo mesmo. Stephen Dedalus se aproximou, acompanhou-o e a meio caminho cansado se sentou na beira da plataforma de tiro, observando-o enquanto ele apoiava o espelho no parapeito, molhava o pincel na tigela e passava a espuma na face e no pescoço.
A voz alegre de Buck Mulligan prosseguia.
– Meu nome também é absurdo: Malachi Mulligan, dois dátilos. Mas soa helênico, não soa? Saltitante e radioso como o próprio cervo. Nós precisamos ir a Atenas. Você vem se eu conseguir que a tia me dê vinte libras?
Ele pôs o pincel de lado e, rindo com prazer, gritou:
– Será que ele vem? O jesuíta subnutrido!
Parando, ele começou a fazer a barba com cuidado.
– Diga-me, Mulligan – falou Stephen tranqüilamente.
– Sim, meu anjo?
– Quanto tempo Haines vai ficar nesta torre?
Buck Mulligan mostrou um rosto barbeado por cima do ombro direito.
– Meu Deus, ele não é horrível? – disse francamente. – Um saxão enfadonho. Ele não acha que você seja um cavalheiro. Meu Deus, esses malditos ingleses! Estourando de dinheiro e indigestão. Porque ele vem de Oxford. Você sabe, Dedalus, você tem o verdadeiro estilo de Oxford. Ele não consegue entender você. Ó, meu nome para você é o melhor: Kinch, a lâmina-de-faca.
Ele raspou cautelosamente o queixo.
– A noite inteira ele esbravejou em sonho a respeito de uma pantera negra – disse Stephen. – Onde é que está o estojo da arma dele?
– Um miserável lunático! – disse Mulligan. – Você ficou apavorado?
– Fiquei – Stephen disse energicamente e com um medo crescente. – Aqui no escuro com um homem que eu não conheço esbravejando e ameaçando aos gemidos atirar numa pantera negra. Você salvou homens de afogamento. Porém eu não sou um herói. Se ele ficar aqui eu estou fora.
Buck Mulligan franziu a testa ao olhar para a espuma em sua navalha. Ele saltou de seu poleiro e começou a dar apressadamente uma busca nos bolsos de sua calça.
– Droga! – bradou guturalmente.
Ele veio para a plataforma de tiro e, enfiando a mão no bolso superior de Stephen, disse:
– Faça-nos empréstimo de seu traponasal para limpar minha navalha.
Stephen suportou que ele puxasse para fora e exibisse erguido por uma das pontas um lenço amarrotado e sujo. Buck Mulligan limpou a lâmina da navalha cuidadosamente. Em seguida, lançando um olhar por cima do lenço, disse:
– O traponasal do bardo! Uma nova cor artística para os nossos poetas irlandeses: verdemeleca. A gente quase pode sentir o gosto, não é?