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Posts na categoria "Jornada Nacional de Literatura"

Os finalistas do Prêmio Passo Fundo

13 de agosto de 2013 0

PASSOFUDNOForam anunciados hoje os 10 finalistas do Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon de Literatura, que paga R$ 150 mil àquele que for considerado o melhor romance em língua portuguesa publicado entre o período de uma jornada e outra. Para quem quiser conhecer um pouco mais dos livros selecionados, vai abaixo um microcomentário de cada um seguido de um link para resenha maior no caso de termos abordado o romance aqui no Mundo Livro.

A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge.
Romance no qual uma das escritoras mais relevantes do Portugal contemporâneo discute os mecanismos da cultura da fama ao abordar uma banda formada por mulheres no universo da música pop dos anos 1980. Leya

Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera
Um jovem com uma desordem neurológica que o impede de recordar os rostos dos demais muda-se para Santa Catarina, no rastro de um mítico avô que teria sido assassinado. A busca pela solução do crime se torna uma busca pela própria identidade. Companhia das Letras. Leia um texto sobre o livro aqui.

Domingos sem Deus, de Luiz Ruffato
Exemplar que encerra o ciclo Inferno Provisório criado por Ruffato, enfocando por meio de um mosaico de personagens a história do proletariado industrial brasileiro. O título faz referência aos que precisam trabalhar mesmo no “dia do Senhor”. Record. Um texto sobre a série como projeto aqui.

Habitante Irreal, de Paulo Scott
Romance que entrecruza os caminhos de vários personagens, entre eles Paulo, um jovem advogado desiludido politicamente, uma jovem índia a quem ele pretende ajudar e com quem termina por se envolver e o filho de ambos, que cresce afastado de sua origem. Objetiva. Uma resenha aqui.

Infâmia, de Ana Maria Machado
Romance no qual a veterana Ana Maria Machado narra duas histórias paralelas, focadas em uma família de diplomatas e em seu círculo mais restrito de amigos e conhecidos, abalados todos pelo aparecimento de um envelope com documentos antigos e comprometedores. Objetiva.

Lívia e o Cemitério Africano de Alberto Martins
Escrita por um romancista que é também poeta, esta breve novela narra, com prosa seca e limítrofe à poesia, o cotidiano angustiante de um arquiteto em crise com seu trabalho e sua relação com os que o cercam: a mãe, um sobrinho e a namorada de um irmão morto. Editora 34.

O Céu dos Suicidas, de Ricardo Lísias
Outro exercício no território da ficção biográfica, narra a história de um homem com o mesmo nome do autor. Abalado com o suicídio de um amigo de longa data, André, o protagonista Ricardo busca encontrar um sentido ao retomar o hábito antigo de colecionar coisas. Objetiva.

O Que os Cegos Estão Sonhando?, de Noemi Jaffe
Narrativa na qual Noemi Jaffe reconstitui a experiência da própria mãe, Lili Jaffe, como prisioneira do campo de Auschwitz, de onde foi salva em 1945 e depois enviada para a Suécia. Noemi faz dos diários da mãe matéria de reflexão e ficção sobre a experiência. Editora 34.

Solidão Continental, de João Gilberto Noll
Um brasileiro residente em Chicago para dar aulas em uma universidade tem de lidar não apenas com o desejo, mote recorrente da literatura de Noll, mas com o lento e melancólico apagar desse desejo, perdido na anomia do protagonista. Objetiva. Aqui, uma longa entrevista com Noll sobre sua obra, incluindo Solidão Continental.

Uma/Duas, de Eliane Brum
O relato minucioso e angustiado dos conflitos que envenenam e tumultuam a relação da jovem jornalista Laura com sua mãe, um relacionamento feito de embates, conflitos, sabotagens e chantagens emocionais de parte a parte. Leya. Aqui, uma resenha do livro.

O bate-boca da Jornada

03 de setembro de 2011 0

Affonso Romano de Sant'Anna e Manguel no traço de Paulo Caruso

Há muitos eventos e instituições que promovem o livro, em geral com o interesse de fomentar o que se chama de economia do livro, ou seja, de vender mais livros. São feiras, salões, bienais, todos muito badalados. A Jornada de Passo Fundo é outra coisa, o grande objetivo é fomentar não necessariamente o livro, mas a leitura, a literatura, independente de suporte. E parece que essa natural e progressiva institucionalização de novos suportes para leitura tem irritado muita gente.

Não por acaso, na própria Jornada houve um acalorado bate-boca sobre o tema. O escritor e ensaísta argentino Alberto Manguel discutiu asperamente com a editora escocesa Kate Wilson depois que ela apresentou um aplicativo interativo da Cinderela para crianças, durante o debate “Formação do Leitor Contemporâneo”. Manguel pediu a palavra e disse: “Eu não sabia que faria parte dessa discussão a deformação do leitor defendida com argumentos comerciais, de vender este ou aquele produto. O livro não é um produto comercial. É nocivo que uma crianças de 3 ou 4 anos seja introduzida à leitura dessa forma, aprendendo a ler na tela.

Essa afirmação de Manguel, embora reflita muito do pensamento de uma geração assustada com as rápidas mudanças tecnológicas (o termo evolução não é o mais adequado), traz primeiro uma inverdade, depois um preconceito. Primeiro, é evidente que o livro é um produto comercial, sim, e um produto com uma cadeia articulada e lucrativa, até porque o setor, infelizmente, prescinde da alta literatura, ele sobrevive vendendo best-sellers, enlatados vindos do exterior, paradidáticos e séries de auto-ajuda. Segundo, não há nada de errado em uma criança aprender a ler em telas, assim como um dia se leu em pedras, pergaminhos, papiros, com livros em formato de rolo, de códice, manuais ou impressos.

A leitura e a literatura, senhor Manguel, nasceram antes do livro impresso e a ele sobrevierão. Claro que nossa geração guarda um carinho tão grande pelo livro que não será assim, em anos ou décadas, que deixaremos de ter bibliotecas, livrarias, estantes. Mas não podemos, por outro lado, cegar para o surgimento de tecnologias como os tabletes que mudam sobremaneira a forma de se produzir, comercializar, distribuir e ler literatura. Em minha pesquisa de doutorado sobre o tema, descobri mais de uma dezena de títulos já produzidos apenas para o aplicativo da Apple, como Alice, ToyStory e o excelente e brasileiro Narizinho Arrebitado.

Se quisermos avançar, podemos até discutir se esse tipo de livro digital, animado e interativo é melhor ou pior do que os impressos que conhecemos. Assim como um dia houve a discussão sobre se livros fartamente ilustrados são melhor ou pior do que livros em que o texto ainda era protagonista. Essa discussão, entretanto, é inócua: nem melhor nem pior, são apenas diferentes. Mas são, ainda, e isso é o importante, literatura.

Texto de Marcelo Spalding, jornalista, escritor, vice-presidente da Associação Gaúcha de Escritores e um dos conferencistas da 14ª Jornada de Passo Fundo

O Analógico e o Digital na terra das letras

03 de setembro de 2011 0

Alberto Manguel e Kate Wilson no traço de Paulo Caruso

A Jornada de Passo Fundo encerrou, na semana passada, com uma altercação das boas entre Alberto Manguel, crítico argentino autor, entre outros, de Uma História da Leitura e A Biblioteca à Noite, e a editora escocesa Kate Wilson, à frente de sua própria casa publicadora, a Nosy Crow, que produz livros infantis e aplicativos para dispositivos digitais de leitura. Foi justamente um desses aplicativos que provocou a grande discussão.

Foi no último debate da Jornada, que contou ainda com os brasileiros Fabiano dos Santos e Affonso Romano de Sant’Anna. Sant’Anna abriu a conversa com um relato de como o Brasil abraçou um projeto de desenvolvimento que separou leitura e educação e que não previu o incentivo à leitura. Manguel e Sarlo compararam a leitura à sexualidade, duas atividades pessoais e subversivas de ensino “muito mais complexas do que se pensa”.

Wilson, uma mulher alta e de olhar intenso, apresentou números para dar uma panorâmica de o quanto as crianças hoje estão expostas a telas e dispositivos eletrônicos. É esse o ambiente que as editoras devem abordar para interessar os pequenos na leitura. O que talvez tenha detonado todo o mal estar foi que o exemplo apresentado por ela foi um aplicativo de sua própria editora, um Cinderela com animações, recursos de interação, possibilidade de umm leitor ver a si próprio em um dos espelhos do castelo, possibilidade de trocar a música que o príncipe e a gata borralheira dançam na festa no palácio, etc.

Manguel, um senhor barbudo de ares entre bonachões e formais, tomou o microfone quando Kate encerrou, sem sequer dar tempo para o mediador Fabiano dos Santos abrir oficialmente o debate, e em espanhol, promoveu um ataque frontal surpreendente ao que havia visto e ouvido:

– Achei que esta mesa falaria de formação de leitores, e não de deformação. Leitura não é comércio. – disse, em uma crítica ao que considerou pura propaganda de um produto de segunda categoria. Manguel sequer disse o nome de Kate Wilson durante todo o arranca-rabo (que era transformado em charge por Paulo Caruso, que vinha acompanhando as mesas e desenhando de improviso a cada debate, assim como faz no programa Roda Viva. Suas charges, mostradas no telão ao auditório, despertaram gargalhadas de uma palteita que aplaudia cada intervenção, de Kate, de Manguel, de Beatriz Sarlo, que também criticou muito a ideia de confundir leitura com mercado editorial, e de Affonso Romano de Sant’Anna, que tentava apresentar uma posição mais moderada). Você ler mais sobre o caso em si aqui.

Para mim, em particular, parece uma daquelas discussões que, vistas no futuro, intrigarão muitos desavisados: por que tinha de ser uma coisa ou outra, por que não a síntese?

* É fato que está cada vez mais difícil convencer alguém que não gosta de ler a ler

* Mas ao mesmo tempo nunca se publicou tanto livro

* Ao mesmo tempo, exponencialmente, não se publicou tanto livro ruim

* Se a vida das crianças é hoje ocupada em boa parte pelo ambiente digital, não há mal em o mercado livreiro se dirigir a ele, é um argumento totalmente válido.

* Ao mesmo tempo, a tecnologia, se não mata suas predecessoras (Beatriz Sarlo falou muito do fato de a bicicleta ainda estar em uso), as transforma de alguma maneira. A disseminação do 3D parece estar transformando o cinema para ser visto em salas em espetáculos descerebrados em que o grande barato é alguém na tela jogar alguma coisa em ti, enquanto os filmes menos cheios de piruetas e pirotecnias estão relegados ao computador ou ao DVD em casa. Um livro eletrônico cheio de recursos não poderia fazer o mesmo com suas menos espetaculosas contrapartes em papel?

Como a discussão ainda continua rendendo (como vocês puderam ver na edição de hoje do Caderno Cultura, com um texto com a doutora em Letras Ana Cláudia Munari), publicamos nos próximos dois posts artigos de Ignácio de Loyola Brandão e de Marcelo Spalding, ambos presentes em Passo Fundo e testemunhas oculares da ronha (adoro essa palavra).

Como você lerá o seu jornal?

25 de agosto de 2011 2

Enquanto uns aprenderam a ler folheando jornal, a nova geração cresce na era da internet. Resistir ou se entregar? A transição entre o impresso e o digital não permite escolher. Inseridos no universo virtual, os veículos de comunicação repensam formatos e se reinventam na busca da melhor forma de comunicar.

Às 20h desta quinta-feira, a conferência A comunicação do impresso ao digital, conduzida por especialistas que atuam nos principais meios de comunicação do país, levará o dilema a debate no Circo da Cultura. Estarão no palco da Jornada Roberto Dias (Editor de Novas Plataformas da Folha de São Paulo), Rinaldo Gama (Editor de O Estado de S. Paulo e Doutor em Comunicação e Semiótica), Eduardo Diniz (Editor de O Globo online) e Pedro Dias Lopes (Editor-chefe de notícias online do Grupo RBS no RS). Em discussão, o futuro dos jornais diante do desafio contrastante entre a perda de envergadura física e a necessidade de encorpar conteúdos.

Com um leque de jornais embaixo do braço, o professor de história Paulo da Silva Monteiro, 66 anos, distribuía ontem, na entrada do Circo da Cultura, a história da legalidade impressa em 16 páginas. Para ele, por mais que o virtual seja ágil e prático, a possibilidade de tatear o jornal o torna um companheiro insubstituível.

— A internet é uma livraria sem fundo, mas prefiro o papel. Os dois vão conviver bem no futuro – arrisca.

Enquanto isso, na praça de alimentação, a professora Márcia Silva dos Santos, 32 anos, usava o jornal impresso para calçar o notebook sobre a mesa. Na tela, as notícias se amontoavam em tempo real. Para a educadora, a interatividade e a rapidez fazem o mundo virtual se sobrepor ao impresso.

— Até leio o jornal de papel, mas na internet posso compartilhar e debater os conteúdos — revela.

Diante do paradigma que se atreve a reinventar a comunicação, o cenário de transição divide opiniões. Da desconfiança à adaptação, o coordenador de debates nas Jornadas Literárias, Alcione Araújo, conta que passou a ler mais ao trocar o impresso pelo digital e prevê um amadurecimento social diante das tecnologias.

— O impresso tende a desaparecer diante da praticidade, agilidade e interação da internet — pondera.

Principal destaque da 14ª Jornada, o franco-tunisiano Pierre Lévy ressalta a eficiência das novas tecnologias para proliferar a informação. Ele diz passar até duas horas diárias conectado ao Twitter e confessa não ler mais jornais nem ver TV. Uma mudança na rotina sem perder o principal: o conteúdo.

— Obtenho as informações de forma tão eficiente quanto na época em que era mais novo e, de fato, lia jornais — destaca.

A busca por maneiras de sobreviver e dialogar com as tecnologias regenera a ideia de comunidade imaginada proposta por Benedict Anderson. A diferença é que não há mais fronteiras para se comunicar. Diante do dilema entre a vanguarda do impresso e o futuro digital, prevalesce a tendência de uma transição de contrastes.

— Prefiro o papel, mas o futuro é a internet. O mais importante, porém, é circular a informação — resume a professora Caroline Rebelato Piccoli Carbonari, 29 anos, participante da Jornada.

Texto de Leandro Becker / Casa Zero Hora – Passo Fundo

Supergêmeos: palestrar

24 de agosto de 2011 0

Paulo, Chico, Gabriel e Fábio: talento em dobro. Foto: Jean Schwarz, ZH

Na lona vermelha do Circo da Cultura – um picadeiro auxiliar onde ocorrem encontros com escritores como programação da Jornadinha – as duplas de gêmeos Paulo e Chico Caruso e Fábio Moon e Gabriel Bá quadruplicaram os risos na plateia lotada por bem mais do que os 1,5 mil lugares. Parte da Jornight, a programação voltada para os jovens na festa literária, a conversa entre os dois pares de clones naturais versou.

Se Paulo e Chico são fisicamente muito semelhantes, os mais jovens tentam se diferenciar. Não assinam com o mesmo sobrenome e há cinco anos Gabriel cultiva uma barba que o distingue do irmão. O desenho, contudo, é a marca comum.

– Para nós desenhar era a “coisa de gêmeos” que tínhamos. Estávamos sempre juntos e quando íamos à escola éramos os únicos que sabiam desenhar. Desenhar era o nosso amigo imaginário – definiu Fábio, que lembrou também que desde o início da carreira a dupla sempre manteve em mente a ideia de não fazer quadrinhos para crianças.

– Começamos a querer contar histórias lendo livros, de Jorge Amado, Guimarães Rosa, então queríamos contar histórias que gostássemos de ler – completou Gabriel.

Ao tomar a palavra, os hilários Paulo e Chico improvisaram um jogral, declarando em uníssono.

– Queremos dizer que não somos clones. Somos pessoas completamente diferentes. Eu trabalho em um grande jornal do Rio e ele em uma revista de São Paulo, e ele não (apontando um para o outro).

Depois, ambos recordaram que o incentivo ao desenho veio da família, mais especificamente do avô materno – perguntados por Paulo, Bá e Moon também recordaram que o incentivo veio da família, no caso deles a mãe. Ao comentar a complementaridade do trabalho de ambos, Chico brincou com o multitalentoso irmão:

– O Paulo não só desenha, ele toca bateria, piano, e eu não toco nada. Sou o Mick Jagger e o Zagallo dele nesta banda. Ele tem de me engolir – disse Chico, numa referência ao fato de que ambos também mantém um grupo musical, que se apresentou ao fim da palestra com a adição do também cartunista Aroeira.

Paulo levou um conjunto de imagens – parte de uma exposição do trabalho da dupla e do amigo Aroeira, para falar sobre o trabalho como cartunista. Quando o projetor entrou em pane e mostrou apenas a luz branca, Caruso, rápido no gatilho, aproveitou a deixa, arrancando gargalhadas.

– A tela branca, por exemplo. É muito importante para o começo do trabalho.

Uma Viagem a Passo Fundo

24 de agosto de 2011 0

Gonçalo M. Tavares chegou com o semblante cansado à Jornada de Passo Fundo, na tarde de ontem. Um dos mais importantes escritores da literatura portuguesa atual, Tavares é também um dos mais solicitados, e tem feito muitas viagens físicas para falar de uma jornada imaginária, a de seu livro Uma viagem à Índia, com o qual o autor tenta traduzir para a contemporaneidade o gênero épico versificado ao qual se filia Os Lusíadas.

Tavares falou nesta tarde em uma mesa com a participação do crítico Luiz Costa Lima (UERJ) e dos escritores Maria Esther Maciel, Nilson Luiz May e Tatiana Salem Levy. O tema é justamente o da identidade na era da globalização, um dos pontos tangenciados por Uma Viagem À Índia, que narra a viagem de um homem comum, Bloom (o homem comum arquetípico de Joyce) não apenas pelo nosso mundo físico, mas pela atmosfera do atual século. Ao mesmo tempo em que divaga e viaja muito em sua própria cabeça (e aqui a referência é a Viagem Ao Redor do Meu Quarto, de Xavier de Maïstre), Bloom também é o tema de uma reflexão sobre a própria maneira como um épico versificado pode ser composto nos dias de hoje.

– Minha ideia com esse livro foi responder à pergunta de como podemos construir uma epopeia no século 21, um épico que responda às nossas questões de hoje, focando o personagem, os defeitos e a situação absolutamente comum do personagem. Não é mais tratar das andanças de um herói como antigamente, e sim levar um homem banal, absolutamente comum, mesquinho, a uma longa viagem de Lisboa a Índia, refazendo o percurso dos Lusíadas mas em um tempo sem lugar para grandes e desconhecidas aventuras. – disse.

No fim da tarde, ele ainda conversou com um dos mediadores recorrentes da Jornada, Ignácio de Loyola Brandão, na praça de alimentação lotada do centro de convivência da universidade. E falou bastante sobre os contos surreais de sua série O Bairro, cada um protagonizada por um diferente “senhor”.

- Cada um desses livros é como uma enciclopédia de conceitos protagonizados pelos senhores. O Senhor Juarroz é o pensamento. O Senhor Vallery é a lógica.

Elisa Lucinda e o Pago

23 de agosto de 2011 0

Elisa Lucinda na abertura da Jornada. Foto: Jean Schwarz

Na cerimônia de abertura da Jornada Nacional de Literatura, na noite de ontem, Elisa Lucinda foi chamada para prestar um tributo ao escritor homenageado desta edição, o Josué Guimarães entusiasta da festa de Passo Fundo desde a primeira edição. Lucinda declamou um texto no qual mesclava suas reflexões sobre o lirismo e a leveza da prosa de Josué com trechos marcantes da obra do autor, como o diálogo entre marido e mulher no conto A visita, o primeiro de O Cavalo Cego, ou a dura recebida por Camilo Mortágua de um policial arbitrário enquanto tentava pacatamente almoçar nos muquifos da Cabo Rocha que frequenta regularmente.

Ainda não era o fim da homenagem gaúcha feita pela poetisa e atriz nascida em Vitória. No fim de sua apresentação, ela fez o elogio de como a poesia pode aproximar mundos, ao ponto de ela, nascida capixaba, entender perfeitamente a “saudade do pago” expressa na poesia Querência, de João da Cunha Vargas, musicada por Vitor Ramil. Apesar do vocabulário marcadamente regionalista, a canção passa sua mensagem a alguém que não cresceu na mesma cultura mas que compartilha do mesmo sentimento essencial.

– Eu ouço e me identifico, uma capizaba, aquilo sou eu, porque eu também deixei o meu “pago” cedo, saí, fui embora, e ainda tenho em mim a minha “querência”, disse ela, antes de emendar com a interpretação à capela da canção (aquela do “eu vou voltar para a Querência, lugar em que fui parido”, para quem não se lembra.

Márcia Tiburi e o Virtual

23 de agosto de 2011 0


Marcia Tiburi. Foto: Jean Schwarz


A filósofa Márcia Tiburi veio a Passo Fundo para um debate sobre arte e literatura na era dos bits, um tema que ela considera afim com seu livro mais recente, Olho de Vidro, uma análise sobre a TV e sobre a experiência de ter participado do Programa Saia Justa, do GNT.

— É um debate sobre nossa relação com o virtual, palavra que tem sido usada para o universo da internet, mas que também abrange a TV, Eu vim conversar sobre a perda da existência em nome do virtual, nossa relação com as telas, seja de computador, seja de televisão.

Márcia desenvolveu em seu livro o conceito de que a TV se torna depois de uma convivência muito duradoura a TV se torna uma prótese – sustentando elementos ausentes da vida do espectador, o que também ocorre com a internet.

– As pessoas não têm se dado conta de que as tecnologias são apenas os meios. O mecanismo não é criativo, ele organiza, mas não se cria a partir dele, não pdoe ser um fim em si mesmo.

Márcia está em sua primeira Jornada. O fato de que vários outros nomes também estão estreando nesta 14ª edição é um ponto positivo, de acordo com ela.

— Prova que a Jornada se renova, não são sempre as mesmas pessoas.

Sobre o vencedor do Prêmio Zaffari & Bourbon

23 de agosto de 2011 0

O escritor João Almino. Foto de Jean Schwarz, ZH

Escritor e diplomata de carreira, João Almino veio diretamente de Madri para receber ontem à noite o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura.

– Foi um grande contraste. Lá está fazendo 40 graus – disse ele, sem precisar enunciar que aqui em Passo Fundo ontem à noite a temperatura estava por volta de 6°C.

Almino vem se dedicando em sua ficção, sistematicamente, a tratar do que ele considera um campo vazio na literatura nacional: Brasília. Cidade Livre, o romance escolhido pela comissão julgadora do prêmio de Passo Fundo, é o quinto romance de Almino sobre a capital brasileira, e enfoca o período de construção da cidade pelo ponto de vista dos trabalhadores que a ergueram. O livro aproveita a estrutura de um blog escrito por um homem que recupera sua infância e a juventude do pai com base nas anotações deixadas por este último.

– Brasília é parte de um projeto de modernização nacional, um projeto estrangeiro. É a única cidade do mundo com um núcleo construído com a arquitetura modernista, e hoje já podemos olhar para ela e para esse projeto com um olhar crítico, porque muito da sua ideologia artística está datada. E é uma cidade na qual os problemas das cidades brasileiras se tornam ainda mais visíveis, como a grande desigualdade entre o Plano-Piloto e as cidades-satélites. É onde os problemas do Brasil ganham caráter visível.

Em dezembro passado, publicamos em Zero Hora um texto de Kathrin Rosenfield sobre o romance, que reproduzimos agora para quem quer ter uma ideia do livro:

Um Romance-documento

Kathrin Rosenfield

Brasilia – um mito, uma cidade, um divisor de águas: ou se adora, ou se detesta – eis o clichê sempre repetido. Mas raramente vemos de Brasilia surgir uma imagem tangível ou, talvez seria melhor dizer: envolvente, pois Brasilia tem algo de fantasmagórico – irreal na topografia cósmica que dá a sensação de estarmos no topo do mundo; e irreal também pela combinação de majestade faraônica e de desleixo mesquinho. A monumental falta de cuidado é prova de um déficit de sensibilidade estética (e ética) que rodeia os magníficos prédios. O patente desleixo espalha a atmosfera de decadência pequeno burguesa, acomodada nas frinchas, frestas e ferrugens do concreto armado, com os alagamentos e vidros quebrados e sujos. Todo o cuidado, mimo e protocolo estão voltados para as meteóricas aparições dos homens poderosos que deslizam entre o aeroporto, os escritórios e gabinetes, hotéis e restaurantes em carros oficiais, rodeados por motoristas e secretárias diligentes. As mulheres e filhos destes homens (quando vivem na mesma cidade, o que não é a regra) se parecem com acessórios, que ocasionalmente abrem a porta, atendem o telefone e acompanham esses homens sem serem registrados como parceiros e pessoas pelos assessores, sub-chefes e vice-presidentes que falam da política (e do seu fantasmático e efêmero poder) com a volúpia pedestre dos homens médios.

Eis a realização dos sonhos que entusiasmaram Aldous Huxley como “jornada dramática através do tempo e da história! Uma jornada do Ontem para o Amanhã, do que terminou para o que vai começar, das velhas realizações, para novas promessas.” (171) Para quem teve a oportunidade de mergulhar no fascínio de Brasília de hoje, é apaixonante a leitura do mais recente romance de João Almino, Cidade Livre.  Poucos sabem que em 1959 Cidade livre (hoje o Núcleo Bandeirante) era o nome de um “aglomerado de casas esparsas com cerca de trezentas pessoas, quase todos homens, junto com o acampamento da Candangolândia, a única nova aglomeração de população da região da nova capital.” (p.101) É dessa cidade que se lembra um bloguista-jornalista, num relato extraído em parte do pai encarcerado e a beira da morte. Esse relato – deliberadamente descuidado e errático, como é de costume num blog – torna incrivelmente plástica a essência de Brasília vista através da vida de um menino (porém não mais n’”As margens da alegria” rosiana). O menino é o próprio bloguista anônimo que aí chega com duas tias e um pai biológico que, recentemente, substitui o pai de criação – o traçado deste menino quase se parece com uma modulação (mais urbana, mais recente) da aventura de Riobaldo. Porém despojada da aura mítico-lendária, mais voltada para uma alegoria das derivas tão freqüentes da grande família Brasil nas suas variações pessoais, sociais e políticas. Os perfis quase alegóricos de certas figuras antropológicas da sociabilidade brasileira aparecem em filigrano na história caótica do bloguista, amigo ou alter-ego de infância de João Almino. Ele debita no seu blog a torrente de recordações que recolheu junto ao pai em desgraça numa cela de prisão, acuando impiedosamente o velho moribundo em busca de esclarecimentos de alguns mistérios que rodeiam a instável existência do pai alcoólatra, seus fracassos financeiros e deslizes passionais, e, seu possível envolvimento na morte de um amigo humilde, Valdivino.

Como o próprio livro-blog, construído por mentes fantasmas de outras mentes, Brasília, os homens e mulheres que a construíram, se desdobram em fantasmas simultaneamente tangíveis e irreais, cuja verdade adivinhamos sem jamais trazê-la totalmente à luz. O que vemos desfilar é a versão urbana e ‘moderna’ do “sertão que está dentro da gente” – histórias que repetem as estruturas do mando clientelista, a dependência da gente miúda (inclusive do pai do menino) à espera de apadrinhamento e proteção, os clãs (políticos, policiais, empresariais…) que reproduzem, no seio do milagre utópico, como um deboche da sociabilidade masculina que remonta à ‘genesia violenta’ dos colonizadores solitários de antanho.

A meninice pré-adolescente e adolescente do narrador dá um colorido particularmente erotizado aos fragmentos  que retornam do passado, o que permite aos múltiplos ‘eus’ do bloguista intuir os desejos ávidos e predadores dos homens que circulavam pela cidade em construção, e que o menino, na época, observava apenas de fora. Dessa técnica multi-focal resultam interessantes sobreposições de imagens ‘inocentes’ – descrições muito palpáveis de corpos e roupas femininos, ou da vestimenta masculina com suas conotações hierárquicas e sociais: botas caprichosamente enceradas, por exemplo -, e de vislumbres que adivinham e antecipam os gestos predadores, cálculos assombrosos e armações infames que resultarão pouco a pouco das rivalidades veladas desses conquistadores do novo-nosso Brasil.

A aventura dos engenheiros e políticos, especuladores imobiliários e policiais que mandam na cidade livre entretece-se com a trajetória semi-oculta (e ocultista-espiritista) de Lucrécia – puta baiana, ‘princesa’ brasiliense e sacerdotisa de uma seita de fracassados e criminosos –, que enfeitiça todos os homens da Cidade Livre, destruindo sua paz como uma labareda, mas ao mesmo tempo vítima ‘protegida’, explorada e destruída pelos mais valentes destes mandões. A morte misteriosa e suspeita de Valdivino, seu companheiro baiano marginalizado pelos mais poderosos, é o mistério que intriga o bloguista e o fio vermelho da narrativa.

Não é um romance apenas, é um documento precioso que capta o mundo submerso da história recente de uma cidade, de um pais e de uma forma de vida profundamente ancorada nas tradições (talvez esquecidas) do Brasil.

A contralto entre os tenores

22 de agosto de 2011 0

Há várias jornadas o papel de mestre-de-cerimônias dos debates e conferências cabe a três escritores nacionais: Ignácio de Loyola Brandão, Alcione Araújo e Júlio Diniz, e em edições anteriores da festa foi cunhado o apelido “Os Três Tenores” para referir-se ao trio, em menção direta ao trio de cantores clássicos que se apresentavam em recitais conjuntos, Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo. Os “três tenores” de Passo Fundo sempre juraram que eram tão bons no gogó quanto na escrita, mas nas poucas vezes em que deram mostras de seu talento vocal  os tímpanos da audiência sacudiam mais do que a lona do circo em dia de vento forte.

Pois agora há uma nova coloratura no elenco dos três tenores. Júlio Diniz não estará no evento este ano, e será substituído pela escritora carioca de livros infanto-juvenis Luciana Savaget. Jornalista e também autora, ela esteve pela primeira vez na Jornada de 2007 para falar da própria obra, que inclui quase três dezenas de livros, como Sua Majestade: o Elefante, Operação Resgate na Jordânia e O Dia em que o Mundo Acabou. Na Jornada de 2009, Luciana voltou para falar a jovens pela programação paralela, e agora pela primeira vez encara a mediação diante de um público que pode chegar a cinco mil pessoas – ela garante que a expectativa é imensa, mas que a empolgação com a jornada entusiasma além de qualquer nervosismo.