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Posts na categoria "Jornalismo"

A justiça selvagem das redes

22 de dezembro de 2015 0
Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Capa de Humilhado, de Jon Ronson

Ao longo dos séculos, a humilhação pública foi uma punição tradicional no Ocidente, até ser gradativamente abolida, entre outros motivos, por seu caráter desumano. Mas e se estivermos resgatando essa prática no tribunal em massa das redes sociais? Essa é a pergunta que move Humilhado: Como a Era da Internet Mudou o Julgamento Público, livro mais recente do jornalista inglês Jon Ronson (Tradução de Mariana Kohnert, Best Seller, 304 páginas, R$ 39).

Ronson é um autor com uma prosa de tom particular. Em livros como Os Homens que Encaravam as Cabras e O Teste do Psicopata (ambos também lançados no Brasil pela mesma editora), mescla a apuração de uma grande reportagem, o tom confessional de um escritor que apresenta o passo a passo de suas próprias pesquisas e uma pegada humorística que brinca com as dificuldades de pesquisa e com as ideias que o perturbavam no início do projeto.

É algo que se repete parcialmente em Humilhado – talvez pelo tom mais pesado inevitável na narrativa de pessoas arrastadas à vergonha pública, Ronson é mais contido no humor. O autor analisa episódios em que declarações infelizes ou segredos revelados na rede provocaram um aluvião de humilhação pública. Casos como o de Jonah Lehrer, divulgador científico caído em desgraça depois que vieram à tona citações alteradas em alguns de seus livros, ou o da relações-públicas Justine Sacco, que publicou uma piada considerada racista no Twitter quando estava embarcando em uma viagem para a África e cuja vida desmoronou, sem que ela soubesse, durante as 12 horas que o voo durou.

Ronson os entrevista, bem como  a alguns participantes dos frenesis de justiça na rede. Pesquisa a humilhação pública como punição (exposição na praça amarrado  no pelourinho ou na berlinda, chibatadas) e os motivos pelos quais ela foi sendo abandonada. Ao associá-la ao atual tribunal das redes, Ronson faz analogias felizes, mas sua abordagem tende mais à perplexidade do que propriamente à análise, o que pode ser considerado um dos pontos fracos do livro.

Entre as virtudes, contudo, está a honestidade com que o autor também confessa suas próprias dubiedades com relação ao tema. Ele próprio viu com entusiasmo os primeiros episódios de humilhação na rede, dirigidos a grandes redes e corporações: “Hierarquias eram horizontalizadas. Os silenciados ganhavam voz. Era como a democratização da justiça”.

Ronson, contudo, não tarda a cair em si: ninguém parece estar no comando dessa “Justiça”. E sem regras ou leis de execução explícitas, um tuíte pode ser a diferença entre justiça e massacre.

Ricardo Alexandre e a música dos últimos 20 anos

24 de janeiro de 2014 0
Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Como jornalista Ricardo Alexandre acompanhou de perto as últimas duas décadas do cenário musical brasileiro. Passou pelas redações das revistas Bizz, General, Superinteressante, Carta Capital, Capricho, Revista MTV e dos jornais Folha de São Paulo e Estadão. Foi também gerente de conteúdo do site Somlivre.com e diretor de redação na última fase da revista Bizz, em meados dos anos 2000. É também reconhecido como autor de Dias de Luta, um dos melhores levantamentos jornalísticos sobre a música do Brasil, uma grande reportagem abrangente sobre a chegada do rock ao Brasil e o estouro do gênero a partir dos anos 1980. Considerado ainda uma referência após uma década, o livro foi relançado em edição comemorativa no ano passado pela editora gaúcha Arquipélago (leia entrevista aqui).

Agora, Ricardo Alexandre retorna à música como tema no seu novo livro, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar (Arquipélago Editorial, 256 páginas, R$ 34,90). O tom, contudo, é outro. Se Dias de Luta era uma reportagem com apuração intensa, Cheguei Bem a Tempo… assemelha-se mais a um livro de memórias. Não é Ricardo Alexandre contando a história de um período musical, mas relatando sua própria história como um coadjuvante no universo da música – ainda assim, apresentada com um detalhado pano de fundo. O novo livro abre os trabalhos exatamente no ponto em que Dias de Luta parou. E, em 50 textos curtos, perpassa a música brasileira dos anos 1990 e 2000: a entrada em cena de bandas nacionais que mudaram o panorama da música, como Skank, Raimundos, Charlie Brown Jr; a dominação da indústria por uma visão mercadológica e padronizada; a queda final do rock e de parte da imprensa musical com ele – inclusive a Bizz que Ricardo Alexandre dirigia. Por telefone, Ricardo Alexandre concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Embora esse livro não seja estritamente uma continuação, pelo viés mais pessoal adotado, em que momento veio a ideia de fazer um novo livro abordando o período posterior àquele vislumbrado em Dias de Luta
Ricardo Alexandre – Eu acho que a ideia desse livro me rondava desde que o Dias de Luta foi lançado, mas era uma coisa que me parecia distante e muito pouco provável. Essa ideia voltou com uma certa força quando eu comecei a pensar no relançamento do Dias de Luta, quando houve a possibilidade de o livro sair em uma edição comemorativa dos 10 anos do livro, e essa ideia começou a ser conjecturada e surgiu uma editora interessada, a Arquipélago, aí de Porto Alegre. Aí essa sequência ganhou sentido para mim. O passo seguinte foi pensar no formato, de fato que fosse ao mesmo tempo relevante para o leitor mas totalmente diverso do Dias de Luta. Aí chegamos a esse formato de posts, o livro funciona como uma coleção de postagens, tanto que surgiu a ideia de ele estrear primeiramente em um blogue.

ZH – Sim, ele foi publicado como um blog no portal do Msn.
Alexandre – Sim, eu ainda mantenho o blog, publicando agora coisas mais atuais, mas o contrato com o msn foi formado por conta do projeto do livro.

ZH – O fato desses anos abordados em Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar coincidirem com seu período de atuação na imprensa musical foi o que o levou a escolher um formato mais pessoal, mais aparentado com o depoimento e menos com a grande reportagem que era o livro anterior?
Alexandre – Sem dúvida, foi exatamente isso que me manteve longe da ideia por esses anos todos. Porque o formato que me vinha na cabeça era o mesmo usado no Dias de Luta. Só considerei a possibilidade de fazer outro formato quando esta prestes a completar 20 anos de carreira, quando eu comecei a ser mais acionado ou requisitado para falar a respeito dessa geração dos anos 1990. Aí eu vi que de alguma maneira eu também fazia parte daquela história e que fazia sentido esse formato mais pessoal.

ZH – Ao mesmo tempo, este é um dos primeiros livros em português a tentar elaborar uma crônica das radicais transformações no ramo da música nos últimos 20 anos: a digitalização da música, o virtual desaparecimento do CD, a dúvida sobre como
Alexandre – Sem dúvida isso me despertou como assunto, mas não foi a fagulha inicial. Eu arriscaria dizer que essa fagulha foi tentar discutir a mídia, o meu papel como jornalista. É uma movimentação que considero muito interessante e que tem começado a surgir de uns anos para cá: algo que me chamou a atenção foi o trabalho do jornalista Paulo Nogueira no blog Diário do Centro do Mundo. O Paulo é uma pessoa com quem já trabalhei, eu o cito no livro e tudo, eu vi ali um esforço dele em tentar colocar a mídia como um objeto a ser discutido, assim como os objetos que a mídia discute. Isso foi uma coisa que me influenciou bastante, a possibilidade de discutir o ambiente em que eu estava inserido, o ambiente das redações, da MTV, e o interesse que há em torno disso ficou muito claro com os comentários sobre o final das trasmissões da MTV, o interesse pela revista Bizz… A fagulha original para que o livro tivesse essa toada foi essa. E no meio do caminho eu percebi que esse trabalho dizia muito respeito aos bastidores da indústria cultural como um todo, e aí entra de tudo: festivais, indústria fonográfica.

ZH – O título, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar, alude a um episódio real que você acompanhou. Mas também pode ser lido, metaforicamente, como uma alusão ao cenário musical, as gravadoras, a indústria do CD. Esse é o “palco que desabou”?
Alexandre – Sim, claro. Mas eu acho que a minha mente talvez esteja mais focada na parte do “cheguei bem a tempo” do que na do palco desabando. É quase uma paráfrase daquela frase que eu cito no livro: “cheguei muito tarde para um mundo muito velho”, eu acho que eu me coloco um pouco ali. O fato de eu fazer parte de uma espécie de última geração que ainda viveu o charme de escrever e trafegar no mundo musical. As pessoas têm reforçado bastante esse aspecto melancólico do livro, de tal maneira que eu acredito que ele acabe traduzindo uma certa frustração. Por outro lado, eu acredito que tudo é cíclico e que a gente deve passar em algum momento por um período de maior recuperação desse charme de escrever.

Os mineiros do Skank

Os mineiros do Skank

ZH – Quando conversamos por ocasião do relançamento de Dias de Luta, no ano passado, você comentou que a sua impressão é que o cenário musical hoje é menos uma arena pública e mais um conjunto de tribos ligadas por gostos afins, o que fazia com que artistas não precisassem mais passar por um circuito que os faria tocar para um grupo de pessoas que não tinham motivo para gostar de seu trabalho. Lendo o livro de agora, você parece descrever a banda Los Hermanos como uma espécie de marco desse cenário, ao cercar-se de um grupo de fãs que os veneram acriticamente, como um culto.
Alexandre – Interessante. Nunca tinha pensado no Los Hermanos desse jeito que você descreveu tão bem. Acho que de fato é uma banda que se alicerçou sobre um culto que eles mesmos alimentaram. Cara, é que eu vejo esse período retratado no meu livro com uma dobra ali muito clara, o momento em que o Brasil se torna um grande mercado de discos. Ali eu acho que algma coisa se rompe, eu acho que aquele romantismo, aquela naturalidade que havia nos anos 1980 começa a se perder. A gente começa a ver a indústria se tornando muito mais “industrial” mesmo. E esses processos mais naturais de amadurecimento da arte começam a ficar truncados. Essa característica de o artista ter de enfrentar um público que não é o seu acaba se perdendo, e eu acho que até meados dos anos 1990 isso ainda existia. Eu me lembro de muita clareza do Skank no palco do Hollywood Rock, ou os Raimundos tocando pela primeira vez na Globo… Ainda havia esse sabor do breakthrough, de você romper um estágio para entrar em outro… Mas acho que depois, quando os departamentos de marketing tomam as músicas pelas mãos, não só essa característica, mas várias outras ligadas ao amadurecimento do artista ficaram muito embaralhadas.

livrochegueiZH – O formato mais pessoal parece ter dado mais liberdade para exercitar uma veia opinativa que faz declarações por vezes polêmicas e por vezes inusitadas.
Alexandre – É que na verdade, e eu gostaria que isso tivesse ficado claro, ou ao menos mais claro do que eventualmente ficou, essa é a minha história. Talvez essa seja a grande diferença do Dias de Luta. O Dias de Luta tem uma pretensão de ser um retrato com mais acuidade das proporções dos anos 1980. E este livro não tem essa pretensão. Alguém me chamou a atenção: “cara, você não falou nada do Sepultura“. E é verdade, eu não falei, porque eles não fizeram parte da minha vida, e o que eu talvez precisasse dizer sobre o Sepultura já estava lá no Dias de Luta. Cheguei a pensar, depois, que devesse ter falado, mas o fato é que, se eles não vieram à mente em um primeiro momento, é porque o formato do livro os excluiu naturalmente. Por outro lado, bandas irrelevantes, como a Catedral, têm um espaço generoso no livro, porque teve a ver com a minha história. Então acho importante esclarecer isso para o leitor para ele não levar gato por lebre.

ZH – Seu livro fala sobre a retomada da Bizz, mas ao analisar as questões que levaram ao segundo e definitivo fim da publicação, você em nenhum momento menciona também que essa segunda fase da revista foi aquela em que ela precisou enfrentar a concorrência da Rolling Stone, que chegou no Brasil na mesma época.
Alexandre – Na minha opinião, as questões da Bizz estavam muito ligadas ao DNA daquela operação, não tinham muito a ver com o mundo exterior. Pelo contrário. Como eu já disse em algumas entrevistas, o surgimento da Rolling Stone veio confirmar algumas teorias que eu defendia ali dentro da Abril. Como o fato de que a revista precisava ter mais opção em banca, mais investimento em marketing, que precisava custar um pouco mais barato. Isso acabou não entrando no livro por questões de espaço, mas uma capa da Rolling Stone com o Coldplay foi o que me fez dormir tranquilo. Porque a capa era idêntica à da Bizz, as chamadas de capa eram idênticas, as matérias em paralelo eram semelhantes, e eu particularmente acredito que a nossa reportagem sobre a vinda do Coldplay era mais interessante. E no entanto, eles venderam 10 vezes mais. Por quê? Tenho convicção de que não foi por motivos editoriais, porque no editorial ambas eram muito semelhantes. A Rolling Stone em nenhum momento me desestimulou.

ZH – A cena roqueira de Porto Alegre também ganha muito mais destaque neste livro do que em Dias de Luta. É nos anos 1990 que você começa a tomar mais conhecimento dela como jornalista?
Alexandre – Eu tinha uma predileção pessoal pelo que acontecia aí. Eu sempre gostei do rock dos anos 1960, que era uma influência muito comum aí em Porto Alegre para as bandas dos anos 1990. E também porque eu via aí uma espécie de peça de resistência da profissionalização marquetológica da música. Aí a gente ainda conseguia focos de pessoas que trabalham com viés artístico. Me parecia que aí ainda havia se preservado algumas características do romantismo do rock brasileiro dos anos 1980. Então foi por isso. É um cenário que eu acompanhei muito de perto e do qual gosto muito até hoje.

Rubem Braga no centro do mundo

09 de maio de 2013 0

Pois não é que máquinas do tempo também podem ser construídas com papel? Vejamos o exemplo de Retratos Parisienses, reunião de reportagens escritas por Rubem Braga na França, reunidas pela primeira vez em livro. Retratos Parisienses, que está sendo publicado dentro das comemorações do centenário do autor, celebrado este ano, reúne 31 textos, a maioria deles escritos em 1950, quando Rubem Braga, então no fim da casa dos 30, residia em Paris, atuando como correspondente para a Folha da Tarde e o Correio da Manhã, ambos do Rio de Janeiro. De Paris – e de Roma, nos últimos textos –, Braga radiografa uma Europa ainda metrópole cultural, em processo de reconstrução depois da guerra e, de modo geral, alarmada com a possibilidade de eclosão de um novo conflito, entre a União Soviética comunista e os Estados Unidos, centro do capitalismo.

São essas as questões que atravessam boa parte das reportagens enviadas por Braga do estrangeiro: ele faz uma recapitulação do feroz debate entre os intelectuais franceses a respeito do antissemitismo de Louis-Ferdinand Céline, então em vias de ser julgado como colaboracionista. Ouve Thomas Mann, em uma palestra, lamentar a ocupação alemã de Paris, ocorrida uma década antes. Também escuta Jean-Paul Sartre vaticinar que a guerra entre capitalismo e comunismo talvez não fosse mais evitável e que, quando o conflito explodisse, seria “difícil de terminar a não ser depois de muitos e muitos anos, quando a maior parte do mundo estiver reduzida a tal estado de miséria que ninguém saberá o que foi que venceu”.

Com bons contatos na cidade, como o artista Cícero Dias, o escritor Gilberto Amado ou o jornalista Louis Wiznitzer, Braga tem acesso aos personagens que formam o centro do panorama artístico de seu tempo, e não apenas na literatura. Fala com o escritor Georges Duhamel, participa de um encontro no café em que se reúnem os remanescentes do surrealismo liderados por André Breton, mas também conversa com Pablo Picasso, Marie Laurencin e Marc Chagall, grandes nomes das artes plásticas, e com o mímico e ator Jean-Louis Barrault e o cineasta Henri-Georges Clouzot. Neste ponto, é possível fazer uma observação sobre o trabalho editorial do volume: falta ao livro um trabalho mais sólido de contextualização de alguns pontos levantados nas entrevistas. Clouzot, por exemplo, declara a Braga, entusiasmado, seu plano de ir ao Brasil para fazer um filme. O cineasta havia recém casado com Vera Amado, filha do já mencionado Gilberto Amado, e planejava levar uma equipe de filmagem ao Brasil para rodar lá um documentário sobre o país de sua mulher. Não seria mal uma nota ou algo semelhante dando conta dos acontecimentos posteriores – Clouzot de fato veio ao Brasil, mas teve problemas (que surpresa) com as tacanhas autoridades nacionais por estar muito interessado em filmar a pobreza do país em vez de suas belezas naturais. A produção do documentário se estendeu demais, os custos foram à Lua e o filme jamais foi finalizado, o que poderia ter sido informado no livro.

Outro ponto que chama a atenção é como estes textos de Braga, para além da qualidade estética que de fato apresentam, traem também o provincianismo autocentrado da vida cultural no Rio de Janeiro de então.Em uma das visitas que relata, Braga ouve Duhamel dizer que, mesmo com a produção ficcional intensa, faz questão de escrever artigos para imprensa como forma de ampliar seu público.“Fiz um cálculo: meus artigos atingem cerca de quatro milhões de pessoas. Espero que muitas dessas pessoas me leiam e pensem no que escrevo.” Pois Braga parece ter a noção oposta. Ao enviar artigos periódicos para dois grandes jornais da Capital Federal, com um suposto grande número de leitores, portanto, Braga se compraz em comparar seus entrevistados a artistas brasileiros de seu grupo mais próximo, como se escrevesse – e talvez o fizesse – para seus amigos. Jean Cocteau “parece um pouco com Sérgio Milliet” ou com “um Olegário Mariano desidratado”. Jacques Prévert lhe recorda “um irmão mais moço de Jayme Ovalle”. Sartre se apresenta a seus olhos como um Portinari “mais forte e mais rústico”.

Essa insistência na piada interna não deixa de ser a outra face do elemento de maior interesse do livro: o fato de que nestes textos Braga é menos um repórter ou correspondente jornalístico strictu sensu, e sim um escritor, o cronista que logo se tornaria o maior do Brasil narrando não “entrevistas”, mas “visitas” a seus pares. Não é um livro de entrevistas com personalidades. É, antes, uma visão pessoal de um mundo no qual Braga circulava com a segurança de quem a ele pertencia.

ELES POR ELE:

PABLO PICASSO
“Pede notícias do casal amigo, faz-me sentar, e quer saber se pinto ou desenho, quando cheguei etc. Está, como eu,  de short e sapato – tênis e uma camisa esporte. É um pouco mais baixo do que eu esperava, retaco, musculoso e belo, com sua grande cabeça bronzeada. Sei que vai fazer neste verão 69 anos – e eu não lhe daria mais de 54. Conheço bem e tenho prazer em ver pessoalmente essa bela cabeça de homem à qual todas as marcas da passagem do tempo só fizeram ajuntar energia e firmeza…”

MARIE LAURENCIN
“Reparo em sua cabeça, sob os cabelos brancos. Deve ter tido certo encanto em moça, com esses olhos vivos, a pele rosada; hoje se parece com a minha concierge. Apesar de tudo é simpática, e quando o marchand Barreiros aparece e lhe pergunta se é verdade que ela vai se casar, tem um sorriso quase de jeune fille antes de dizer e explicar que não, mas é verdade que tempos atrás um grande cirurgião a pediu em casamento. Uma de suas amigas presentes conta a história.”

THOMAS MANN
Todo vestido de preto, com gestos sóbrios, Thomas Mann começou a falar: ‘Sofri profundamente quando, há dez anos, a Alemanha celebrou sua miserável vitória sobre a França’. Mas advertiu, a certa altura, falando do seu livro: ‘A tendência pactuar com o demônio, da qual muito se falou a propósito de Fausto, não se limita à Alemanha.’ E depois: ‘Nunca fui e nunca serei um homem de partido. Cada homem que atiça o ódio deve sempre pensar que está apressando a catástrofe.’”

JEAN-PAUL SARTRE
“À primeira vista, o dono da casa lembra Portinari; um Portinari que fosse mais forte e mais rústico. Esse parisiense que deriva da Borgonha e da Alsácia tem alguma coisa de camponês do Norte. É vermelho, tem a pele grosseira e os cabelos cor de palha suja. Os pedaços de costeleta que passam sob os ganchos dos óculos já embranqueceram. É impossível saber se está falando com Roberto Assumpção ou comigo, pois cada olho verde fixa um de nós, formando um ângulo de 45 graus.”

Jornada (ao) interior

04 de dezembro de 2012 0

Carpinejar em aventuras pelo Interior. Foto: Adriana Franciosi, ZH

Durante o ano de 2011, o escritor, jornalista e poeta Fabrício Carpinejar dedicou-se a viajar pelo interior do Estado, levantando fatos pitorescos, inusitados, belos, poéticos e cômicos do que via nos municípios em que chegava. O resultado foi uma série de 52 semanas publicada em Zero Hora sob o título de Beleza Interior. A série, que rendeu fãs e desafetos ao autor gaúcho, sai agora em livro pela Arquipélago Editorial. Beleza Interior, a coletânea tem sessão de autógrafos marcada para esta quarta-feira, às 19h30min, na Livraria Cultura (Túlio de Rose, 80). Por e-mail, de São Paulo, Carpinejar concedeu a seguinte entrevista sobre os bastidores da série:

Zero Hora – Seu trajeto para a série não seguiu um traçado necessariamente geográfico, assemelhando-se mais a um ziguezague pelo Estado. Como era feita a escolha das cidades visitadas para a série? Você partiu de um plano com um número predeterminado e depois foi improvisando?
Fabrício Carpinejar
– Parti apenas de Caxias, minha cidade natal, e fui perseguindo histórias divertidas e personagens interessantes. Não havia um mapa traçado previamente. A série foi se fazendo semana a semana, a partir de sugestões de leitores e palpites de amigos. Houve o desejo de abraçar as regiões de modo igualitário. Vivi a adrenalina da aventura: de repente viajar e não achar nada de relevante. Corria o risco de errar. Era um jornalismo romântico, entrar nas cidades, conversar, descobrir se havia algo novo e peculiar, explorar os costumes e me infiltrar nos causos. A curiosidade foi minha bússola. se algo fugia do normal, me interessava. Como em Lagoa dos Três Cantos, uma padaria vendia 1, 6 mil cucas, o mesmo número dos habitantes da cidade?

ZH _ Qual a história da série que mais o marcou?
Carpinejar
– Felicidade, a última protagonista das reportagens, moradora de Livramento. Nunca imaginei que terminaria todo o longo roteiro com uma lavadeira que é pura alegria, de 106 anos, despachada, independente, morando sozinha. Ela é um tapa na cara da preguiça. Um exemplo de como superar as adversidades e não se acomodar na vitimização da velhice.

ZH _ Qual foi a descoberta mais surpreendente que você fez ao longo da série? Algo que não tinha a menor ideia e que encontrou durante as viagens?
Carpinejar
_ Os tipos humanos me comovem. O vendedor de rapadura de porta em porta que sustentou seis filhos na universidade, por exemplo, encarnando a teimosia generosa dos pequenos comerciantes. Tudo me fez crescer, me inspirou, errar o caminho significava desvendar novos pontos. Nossa coragem estava em fugir da cobertura tradicional do jornalismo, enfrentar o mistério e falar com locais que nunca saíram no jornal. Remontamos um On the Road pampiano. Viajei a Alecrim, mais de 400 km, sem saber o que tinha lá, somente pela sonoridade do nome. Localizei um inacreditável festival de canção de terceira idade, onde as pessoas envelhecem com gosto para poder subir ao palco. Fiquei com a impressão de que Beleza Interior nunca teria fim. De pergunta a pergunta, localizaria enredos fantásticos e sobrenaturais. O realismo mágico é monótono diante do Rio Grande do Sul.

ZH _ Em que cidade você viveu a situação mais estranha ou engraçada ao apurar o material?
Carpinejar
– Fui expulso de um salão de beleza em Alegrete, por tentar fazer as unhas. O Nauro Júnior (fotógrafo de Zero Hora) pode testemunhar a meu favor. A dona do espaço disse que não faria unha de homem, isso não cheirava bem. Eu respondi que iria cheirar igual a acetona. Ou quando uma moradora de Alpestre queria que eu depenasse uma galinha. Ou quando fiz concurso de estátua com o chefe da Polícia de Sério. Ou quando ganhei um coelho empalhado de presente de um dos entrevistados e terminei pego por uma blitz do exército contra tráfico de animais.

ZH _ Qual foi a cidade em que o trabalho foi mais difícil, que você demorou mais a encontrar o tom ou o aspecto que gostaria de retratar?
Carpinejar
– Nosso papel não era fazer turismo. Viajávamos – eu, o motorista e o fotógrafo da ZH – para resgatar um estado diferente do habitual, apresentar cidades fora de seus clichês. Evitamos os municípios que são conhecidos, como Gramado, Canela e Nova Petrópolis ou os muito próximos da capital como Canoas, Viamão e Alvorada. Enfrentei dificuldade ao desmistificar localidades, que esperavam o fácil elogio comercial e não entenderam a natureza literária do projeto.

ZH _ Neste mesmo ano você publicou uma coletânea em que convidada autores a escrever contos sobre cidades brasileiras de nomes sugestivos. Este projeto tem alguma relação ou inspiração com as viagens da série “Beleza Interior”?
Carpinejar
_ Houve uma convergência. A antologia Bem-Vindo (leia mais aqui), que reúne dez contistas abordando cidades de batismo poético, surgiu antes de Beleza Interior. Mas é um processo complementar. Mostrar o país a partir da imaginação de seus moradores.

ZH _ Há alguma cidade que, finda a série, você gostaria de ter ido mas não foi?
Carpinejar _
Nossa, haveria cancha para mais quatro séries, no mínimo. Escrevi sobre 52, mas fizemos vídeos de mais de 70 cidades. Uruguaiana é uma delas. Victor Graeff, outra. Bah, o mapa do estado está dobrado em minha mesa como se fosse minha camisa predileta.

Anatomia de um fim

29 de novembro de 2012 0

Texto de Cláudio Rabin

Quando Christopher Hitchens morreu, em 15 de dezembro de 2011, a notícia se espalhou pela internet com a mesma força das palavras que um dia ele fora capaz de expressar. Agora, a voz do jornalista britânico volta a se projetar nas livrarias brasileiras com o lançamento do livro Últimas Palavras (editora Globo Livros, 96 páginas), que reúne seus artigos derradeiros publicados na revista americana Vanity Fair (todos disponíveis em inglês no site da publicação), nos quais narra a descoberta e o tratamento de um agressivo câncer no esôfago.

As palavras finais do jornalista britânico não foram de esperança nem de autocomiseração ou arrependimento. Foram fiéis ao autor: provocativas, céticas e coerentes com sua trajetória intelectual. Hitchens não pediu água ao além, a divindades ou a qualquer religião – objetos de ataques e ironias frequentes do autor de Deus Não é Grande.

Antes: aspectos da própria mortalidade (aliás, o título do livro em inglês é Mortality), e o que representou seu encontro com o câncer em termos físicos e morais é o principal assunto dos ensaios. Ironiza eufemismos médicos como “equipe de gestão de dor”, quando narra as consequências de um tratamento de ponta que lhe permite viver um pouco mais, mas que parece uma forma de tortura. A memória da dor, ele escreve, o fez repensar se teria optado pelo tratamento caso soubesse pelo que passaria. O paradoxo, o jornalista pondera, é que a recusa significaria a própria extinção.

Provavelmente é uma misericórdia que a dor seja impossível de descrever de memória. Também é impossível alertar contra ela“, registra, deixando impresso na memória do leitor o nível de sofrimento físico que uma doença terminal pode causar.

Pela verborragia agressiva, rapidez na escrita e capacidade de intelectual, Hitchens lembra, de certo modo, Paulo Francis. Sua origem e seu talento, porém, são distintos: longe de ser um ensaísta ou cronista, ele segue a tradição do também inglês George Orwell (seu grande ídolo) de estar onde os conflitos acontecem e se guiar por uma moral política sem ceder ao partidarismo.

Foi assim que Hitch (apelido dado pelo escritor e amigo Martin Amis) surpreendeu os que acompanhavam sua carreira ao decidir, por exemplo, apoiar a Guerra do Iraque. Ele havia visto pessoalmente as covas coletivas criadas por Saddam Hussein depois de testar armas químicas na população curda. Por coerência, acreditou que o tirano deveria ser chutado do poder.

O apoio ao poder jamais seria acéfalo. Quando os Estados Unidos se engajaram no debate sobre tortura de prisioneiros acusados de terrorismo, o inglês se submeteu ao procedimento de waterboarding (um método de afogamento), apontou o dedo para as forças armadas americanas e escreveu um artigo cujo título era óbvio mas emblemático: “Acredite em mim, é tortura“. Na sua última coletânea de artigos, ele relembra a experiência e compara o medo que sentiu com alguns tipos de tratamento a que foi submetido.

Com o avanço da doença, se aproxima do fim sua persona. A voz sempre pronta para o debate, para a conversa, para o discurso, acompanha sua saúde e se esvai. “Certamente é morrer mais que um pouco“, relata no quinto capítulo. O cabelo, a massa muscular, a barba mal feita e até os pelos do nariz, vão embora juntos com suas forças.

O maior medo de Hitchens, ao receber uma dose de analgésico para reduzir a dor nas mãos, ele relata em um dos melhores momentos do livro, é não poder mais escrever. É a forma que este jornalista encontrou para existir no mundo. O silêncio forçado, portanto, era uma forma de morrer.

O capítulo final do livro é uma metáfora trágica do momento: não é um artigo como os anteriores. Suas últimas palavras são um conjunto de frases, referências e ideias que Hitchens, muito debilitado pelo câncer, não conseguiu completar. Quando não pôde mais escrever ou falar, quando não foi mais capaz de projetar suas palavras para o mundo, a chama se extinguiu.

As crônicas de Scliar

23 de outubro de 2012 0

O escritor Moacyr Scliar

Leon Tolstói (1828 – 1910) foi não apenas um grande escritor, foi um tipo humano fascinante que, sob alguns aspectos, antecipou formas de pensamento e estilos de vida que depois viriam a caracterizar o século XX. Podemos dizer que foi, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros hippies, o resultado de uma trajetória intelectual e espiritual em que não faltaram momentos surpreendentes. O centenário de seu nascimento está sendo lembrado em todo o mundo este ano. De família rica e tradicional, filho de um conde, Tolstói nasceu em 1828 em Iásnaia Poliana, grande propriedade familiar. Frequentou a universidade, estudando Direito e idiomas, mas, aluno rebelde, abandonou o curso. Passava muito tempo em Moscou e em São Petersburgo,levando uma vida boêmia e acumulando pesadas dívidas de jogo. Talvez para escapar a esta situação, alistou-se no exército e começou a escrever. Resultou daí uma notável obra, expressa em contos, em romances, como Anna Kariênina e Guerra e Paz, em ensaios. Seus textos conquistaram a admiração de escritores como Flaubert, Dostoiévski e Tchekhov, e tornaram-no famoso.
Aos poucos, Tolstói foi optando por um caminho que, filosoficamente e politicamente, caracterizava a sua independência e sua rebeldia. Depois de presenciar uma execução pública em Paris, concluiu que o Estado “é uma conspiração para explorar e corromper cidadãos”. Embora influenciado pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (de quem copiou o título de um livro,
La Guerre et la Paix), não aderiu ao anarquismo; mas resolveu dedicar-se à gente pobre, comum. Em Iásnaia Poliana, fundou várias escolas que proporcionavam um ensino livre, democrático. Era um cristão fervoroso, mas não convencional, que buscava sua própria interpretação dos livros sagrados. Admirador de Buda e de São Francisco de Assis, acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, e, numa época, era vigiado pela polícia do tsar. Pacifista convicto, influenciou o líder hindu Mahatma Gandhi, que, através do movimento de resistência não-violenta, conseguiu que a Índia se tornasse independente da Grã-Bretanha. Achava que a aristocracia era opressora, opunha-se à propriedade privada e ao casamento; valorizava a castidade, não bebia nem fumava, era vegetariano e usava roupas simples de camponês, renunciando inclusive à sua riqueza e até aos direitos autorais (um escritor que era, portanto, o sonho dos editores).
A família (era casado com a filha de um famoso médico e teve com ela 13 filhos) não aceitava o que era considerado um extravagante modo de vida. Aos 82 anos, Tolstói decidiu fugir de casa; fê-lo de trem, em gélidos vagões de terceira classe. Contraiu pneumonia e morreu em 20 de novembro de 1910, na estação ferroviária de Astapovo. Àquela altura era uma personalidade universal e, apesar de não ter nada a ver com o comunismo, foi prestigiadíssimo na finada União Soviética. Para os hippies dos anos 1960, tornou-se um modelo, e havia até colônias com seu nome. Certamente no musical Hair, celebração desse movimento, ele teria um papel importante. Basta lembrar uma única frase dele,que aparece no começo de Anna Kariênina: “Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Bota sabedoria nisso.”

Durante quase 40 anos, entre o início dos anos 1970 e janeiro de 2011, o escritor Moacyr Scliar (1937 – 2011) publicou crônicas regularmente em Zero Hora. Os assuntos eram os mais variados possíveis: das questões de saúde abordadas no caderno Vida aos temas mais leves desenvolvidos no caderno Donna, passando pelos assuntos cotidianos da cidade e do Estado reservados para a coluna das terças-feiras na página 2 do jornal.

Está chegando às livrarias a coletânea A Poesia das Coisas Simples (Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 29,50), organizada e prefaciada pela professora Regina Zilberman, reúne 82 dessas crônicas, escritas entre outubro de 1977 e novembro de 2010. Dividido em três grandes eixos temáticos (Leituras, Livros, Literatura, Pessoas e Personagens – de onde saiu a crônica reproduzida acima  – e Outras Histórias) organizados em ordem cronológica, o livro revela pelo menos três temas que seriam recorrentes ao longo de toda a trajetória do escritor como cronista: a paixão pela literatura, o legado da cultura judaica e as lembranças familiares da infância no Bom Fim.

Scliar escreveu mais de 70 livros em gêneros como romance, conto, ensaio, crônica e ficção infantojuvenil, mas, paralelamente à produção extensa e variada, fazia questão de manter uma vida literária intensa e movimentada. Viajava pelo mundo todo para congressos de literatura, mas não recusava os convites das pequenas Feiras do Livro do interior do Estado. Entre os textos selecionados, há saudações à Jornada de Passo Fundo e à vindoura Feira do Livro de Porto Alegre, assim como o registro de encontros com celebridades literárias internacionais como Gabriel García Márquez e relatos sobre a convivência com escritores como Erico Verissimo, Jorge Amado e Antonio Callado.

O título do livro foi retirado de um texto sobre outro escritor com o qual Scliar conviveu e a quem dedicou uma cordial despedida em dezembro de 1990, quando Rubem Braga morreu. Falando sobre o cronista mais celebrado da literatura brasileira, aquele que, ao contrário do próprio Scliar, dedicou-se a um único gênero, o escritor gaúcho acaba fazendo o elogio do texto breve que exercitou durante toda sua vida literária: “Há quem julgue o jornal um veículo inadequado para a literatura: o livro, diz-se, tem permanência (mesmo que esta permanência por vezes só beneficie as traças) ao passo que o jornal é um objeto descartável (…). Braga, porém, nunca acreditou nesta lógica ‘macluhanesca’. Preferiu seguir o caminho de Machado e de Lima Barreto, e transformou o cotidiano em matéria-prima para um trabalho literário de primeira grandeza”.

Maldito Fruto

11 de setembro de 2012 0

A diva Billie Holiday

Texto e entrevista de Cauê Marques

O ano é 1939. Com os Estados Unidos prestes a encarar a Segunda Guerra Mundial, crimes contra pessoas negras – abusos de autoridade, linchamentos e segregação social – eram comuns no país. Billie Holiday, a primeira grande diva do jazz, grava uma música que seria um divisor na história recente da música. Strange Fruit – Billie Holiday a Biografia de uma Canção, do jornalista americano David Margolick (Tradução de José Rubens Siqueira. Cosac Naify, 138 páginas, R$ 39,90), trata deste importante capítulo da carreira da intérprete americana.

Escrita por Abel Meeropol, um professor nova-iorquino, branco e judeu, Strange Fruit fala de um linchamento ocorrido no interior dos EUA, no estado de Indiana, em que os corpos de dois homens negros foram fotografados depois de um enforcamento público. A letra da canção, que descrevia em tristes versos a terrível situação, foi gravada por Billie Holiday em 1939 e acabou se tornando um dos símbolos da luta contra o preconceito nos EUA. Em todos os seus shows a partir desta data, Billie teria em Strange Fruit um elemento que a completava enquanto artista. Negra e de origem humilde, Billie parecia encarnar a tristeza da canção na sua voz. A história da música e a adoção dela por Holiday são o foco do livro. Lançada no Brasil pela editora Cosac Naify, a obra trata da influência e da amplitude que a mensagem da música alcançou com a ajuda de Billie Holiday. David Margolick explica como o compositor judeu nova-iorquino acabou conhecendo a maior cantora de jazz da época (e de todos os tempos), encontro que fez com que a luta pelos direitos dos negros na sociedade norte-americana fosse pauta de discussão dos grandes jornais das décadas de 1930/1940.

A pesquisa de Margolick sobre como surgiu Strange Fruit é minuciosa e alguns detalhes quase colocam o livro a perder em um dos capítulos, mas passadas essas páginas, o que o leitor encontra é uma série de depoimentos sobre como Holiday, que no início da década de 1940 já enfrentava problemas com álcool e heroína, arrebatou plateias com a canção-denúncia. O livro, com acabamento caprichado, é mais um documento da biografia da primeira grande voz feminina do jazz, além de contextualizar a importância da arte como parte das mudanças sociais.

Leia abaixo entrevista com o autor do livro, concedida por telefone, e ao fim do post assista a uma rara filmagem de Billie Holiday interpretando a canção:

Mundo Livro – Por que o senhor quis pesquisar sobre a canção? Quando começou seu interesse pela música Strange Fruit e a história com Billie Holiday?
David Margolick – Eu me interessava pelo assunto havia anos. Sabia da música, sempre fui curioso sobre a história. Eu escrevi um artigo sobre o filho de Abel Meeropol, autor da música, para o jornal norte-americano “The New York Times” durante os anos 1990. Tive a oportunidade de conhecer Robbie Meeropol e me lembro de ter conversado com ele sobre a música. Ele me deu um livro de poesias do seu pai naquela situação. Então, este assunto ficou na minha cabeça durante anos antes de eu escrever o livro. Gosto de jazz e de música, mas sou bastante interessado sobre a história dos direitos civis, e a história da América – da história dos judeus e do radicalismo americano. Todos esses tópicos se encontram na história da música.

Mundo Livro – Casos de músicas que mudam o pensamento das pessoas ou abraçam uma causa ainda são possíveis nos dias de hoje?
Margolick –
Acho que a consciência do público está saturada nos dias atuais. Acho que é muito mais difícil de afirmar algo com uma música do que era antigamente, a indústria da música é muito mais restrita atualmente do que naqueles tempos. Ela era controlada por poucas pessoas. Era muito mais fácil de se destacar com uma música antigamente. Atualmente, em termos musicais, já se discutiu quase tudo. Chocar as pessoas hoje seria mais difícil.

Mundo Livro – O trabalho de Billie em StrangeFruit inspirou outros artistas que vieram depois dela?
Margolick –
Bem, esta canção é um elemento estranho na carreira dela. Era completamente atípico para a época, e ela não fez nada parecido em toda a sua carreira, mas ao mesmo tempo parecia que aquilo havia se tornado a vida dela. Ela personificou a música, a tristeza de Strange Fruit parecia ser a tristeza vivida por Billie. Ela nunca foi uma ativista política, mas essa música e a vida dela falavam por si.

Mundo Livro – Os artistas negros de hoje ainda enfrentam preconceito como Billie enfrentava?
Margolick
– Não sou especialista neste assunto, mas entendo que em nações com muitas misturas étnicas, como os Estados Unidos ou o Brasil, o preconceito nunca desaparecerá por completo. É o tipo de coisa que pode afetar qualquer pessoa de outra etnia. E é por isso que músicas como Strange Fruit são simbólicas – não porque ainda existam linchamentos acontecendo nas ruas, mas porque o preconceito de que fala a música é o tipo de coisa com que a humanidade terá de lutar continuamente ao longo da história, é o tipo de coisa que nunca desaparecerá definitivamente.

Veja abaixo Billie Holiday interpretando a canção Strange Fruit:

Guerra pelos leitores

10 de setembro de 2012 0

Há algum tempo, escrevemos aqui umas breves considerações sobre o quanto os quadrinhos talvez ainda precisem de uma fortuna crítica consolidada para serem mais reconhecidos como expressão artística séria. Citei no artigo uma série de bons livros sobre o gênero disponíveis em português, mas deixei um bom título de fora, o que só percebi depois que uma moça perguntou em um grupo do qual faço parte no Facebook se alguém já havia lido A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Júnior (Companhia das Letras, 433 páginas, 2004).

Na época a omissão fez sentido, mas não deixa de ser injusta, uma vez que A Guerra dos Gibis é um daqueles livros preciosos que mistura pesquisa rigorosa sobre um campo de estudo pouco explorado com o texto fluente e a obsessiva apuração de uma grande reportagem. A obra narra a consolidação das histórias em quadrinhos no Brasil, nos anos 30, e o papel fundamental que tiveram nesse processo dois homens: os jornalistas Adolfo AizenRoberto Marinho (é, aquele mesmo que você pensou).

Filho de imigrantes russos residente no Brasil desde a infância, Aizen viajou aos Estados Unidos em 1932, passou lá cinco meses e, ao voltar, estava encantado com uma novidade que os periódicos americanos exibiam: suplementos semanais ilustrados com contos policiais, notícias esportivas e histórias em quadrinhos. Empolgado, elaborou um projeto de publicação de suplementos para jornais e o ofereceu ao seu empregador, Roberto Marinho, que recusou a oferta. Aizen deixou o emprego como repórter em O Globo e dedicou-se ao projeto, levando-o a efeito no periódico getulista A Nação. Foi em um desses cadernos, o Suplemento Juvenil, que Aizen passou a publicar personagens estrangeiros representados pelo escritório do King Syndicate no Brasil. Dentre eles, Jim das Selvas e Flash Gordon.

O fulminante sucesso do Suplemento Juvenil, logo desvinculado de A Nação e tornado um semanário próprio, levou Marinho a mudar de ideia, lançando ele próprio suas páginas de quadrinhos no suplemento Globo Juvenil. Com recursos financeiros que Aizen não tinha, Marinho fez mais do que criar sua própria versão de um caderno de quadrinhos: ele esmagou a concorrência, comprando por mais dinheiro os mesmos heróis que Aizen havia apresentado ao público primeiro no Suplemento Juvenil.

Caso para uma rivalidade para a vida toda? Pior que não. A Guerra dos Gibis mostra também como Aizen e Marinho precisaram mais tarde unir forças contra um inimigo comum: a censura, reivindicada por grupos conservadores preocupados com o “desvirtuamento da juventude” pelos quadrinhos, considerados alienantes e emburrecedores.

O livro traz um subtítulo auto-explicativo que mais parece saído daquelas áridas teses repletas de jargões tecnicistas: A Formação do Mercado Editorial Brasileiro e a Censura aos Quadrinhos (1933-64). Impressão equivocada que logo se desfaz. Documentado com o rigor de uma pesquisa acadêmica, A Guerra dos Gibis é também um livro fluente, escrito com leveza e carinho pelo assunto que aborda. O livro teve uma continuação publicada em 2010, Maria Erótica e o clamor pelo sexo: Imprensa, Pornografia, Consumismo e Censura na Ditadura Militar (1964 – 1985), pela editora Peixe Grande, mas esse eu não li, então não posso opinar.

Ele próprio roteirista de quadrinhos, Gonçalo Júnior tornou-se na última década um dos principais pesquisadores da cultura pop nacional. Publicou a biografia de mestres da ilustração no Brasil, Benício (Clusq, 2006), sobre o ilustrador de centenas de icônicos pôsteres cinematográficos, entre outros trabalhos e Alceu Pena e as Garotas do Brasil (Amarylis, 2010), sobre o artista famoso em todo o Brasil por suas charges para a revista Cruzeiro (e que também publicou na americana Esquire). A biografia de Pena recebeu o Jabuti da categoria no ano passado, e depois foi desclassificada pela comissão julgadora, que considerou que uma versão anterior do livro, publicada em 2004, desqualificava o trabalho como “inédito”, requisito para concorrer ao prêmio.

Cony, cães, máquinas de escrever e navios

28 de agosto de 2012 0

Carlos Heitor Cony na Feira do Livro de Joinville em 2006. Foto: Kátia Nascimento, AN

Trabalhei na TV Manchete em um período em que eles queriam fazer teledramaturgia. O diretor, então, me pediu que eu escrevesse uma novela. Eu não quis. Mas fiz algumas sinopses: Dona Beija (1986), Kananga do Japão (1989), Marquesa de Santos (1984). Eu dava as ideias e contratava os diretores. Contratei a Glória Perez, o Wilson Aguiar Filho (1941 – 1991)… Dava ideias, mas me recusava a escrever. Tinha preguiça. Mas a vida continua, tem um processo, uma dinâmica. O tempo foi passando, o casamento acabou e eu passei a amar cachorros. Eu detestava cachorros, mas depois acabei descobrindo neles uma porção de virtudes. Há um tempinho, fiz uma crônica na Folha de S. Paulo comparando o cão à máquina de escrever. O computador é o gato. Porque a máquina de escrever é fiel, como o cachorro. E o computador é independente, tem vida própria, como o gato. A máquina só faz o que você pede, já o computador apaga umas coisas, aparecem outras que você não quer. Aparece um Papai Noel tocando um sininho. Às vezes, eu estou fazendo uma coisa séria e vem aquele Papai Noel batendo o sininho. Quem botou aquele Papai Noel ali? Não sei, é vírus. Minha máquina de escrever nunca teve vírus. Envelheceu dignamente. Só que, por causa desse texto, recebi e-mails desaforados, dizendo que cachorros são poluidores e não servem para nada. E eu fiquei indignado porque, afinal de contas, amava a minha cachorra. Quando voltei a escrever, dediquei meu livro à minha cachorra. Comecei quando ela ficou doente. Eu estava começando a mexer com o computador. Eu queria dormir, mas a cachorra não me deixava. E eu ligava o computador. Mas, quando ela percebia que eu queria desligá-lo, começava a gemer. Aí eu tinha que ligar o computador de novo. Eu escrevia de tudo, passei a limpo uma porção de coisas e, de repente, não tinha mais nada para passar a limpo. Eu dormia de dia e cuidava da cachorrinha à noite, e foi aí que recomecei a escrever. Foi assim que saiu o romance. Quando ela morreu, botei o ponto final. Não escrevi uma linha a mais. O Ruy Castro, uma pessoa muito extrovertida, leu e disse que estava muito bom. Levou para o Luiz Schwarcz, (o editor) da Companhia das Letras, e ele editou o Quase Memória, que teve um bom retorno. Com o dinheiro que ganhei com essa primeira edição, tomei um navio – gosto muito de navios – e levei um notebook. Escrevi O Piano e a Orquestra (1996). Depois me descobri, novamente, num brinquedo. Mas tem uma coisa: não é que eu vá parar de repente. Agora eu não posso, porque tenho vários compromissos. Trabalho muito sob encomenda. Há uma verdadeira demonização de quem escreve sob encomenda. Mas a arte ocidental foi quase toda feita de encomenda. A arte grega, a Renascença. Mozart morreu fazendo uma missa fúnebre de encomenda. Os Sertões foi uma obra encomendada. Coelho Neto e Olavo Bilac escreveram muitos livros – inclusive pornográficos – de encomenda.

O trecho acima foi extraído da entrevista de Carlos Heitor Cony concedida a José Castello em novembro de 2002 e publicada no jornal literário Rascunho. A entrevista é uma das conversas com escritores reunidas em As Melhores Entrevistas do Rascunho – Volume 2, que a editora gaúcha Arquipélago Editorial lança na quinta-feira, dia 30 de agosto, às 19h, na livraria Palavraria (Vasco da Gama, 165, Bom Fim). O lançamento terá bate–papo entre Luís Henrique Pellanda, organizador da compilação de entrevistas, e Ivan Angelo, que vai autografar seu livro de crônicas Certos Homens, da mesma editora – a atividade comemora os seis anos da casa publicadora.

O primeiro volume de As Melhores Entrevistas do Rascunho, publicado em 2010, é um dos mais saborosos livros de entrevistas sobre literatura disponíveis no pedaço (leia resenha aqui), com autores relevantes da produção contemporânea discorrendo sobre suas motivações para escrever, sua concepção de arte e literatura, a visão de mundo que preside sua escrita.

Agora, sai a segunda compilação de grandes entrevistas com escritores brasileiras publicadas pelo Rascunho. Como no primeiro volume, são 15 os entrevistados desta segunda coletânea. Participam, além de Cony e do próprio Ruy Castro por ele citado no trech0, Adriana Lunardi, Affonso Romano de Sant’Anna, Ariano Suassuna, Joca Reiners Terron, Marçal Aquino, Marcelo Backes, Miguel Sanches Neto, Raimundo Carrero, Rodrigo Lacerda, Ronaldo Correia de Brito, Sérgio Rodrigues, Silviano Santiago e Vilma Arêas.

Guerra à deriva

30 de julho de 2012 0

O Baependy, navio afundado pelo U-507 na costa brasileira. Foto: Reprodução

Texto de Léo Gerchmann

Muito já se falou da astúcia de Getúlio Vargas, que vendeu caro a entrada do Brasil na II Guerra Mundial e, em troca, recebeu o apoio americano para alavancar a indústria brasileira, com a Companhia Siderúrgica Nacional. Também muitas e justas homenagens foram feitas aos militares que colocaram o Brasil do lado certo da História ao combater na Itália e ajudar os aliados a soterrar o nazifascismo. Pouco se falou, porém, do motivo que fez o povo clamar pela entrada no confronto. E nada poderia ser mais apropriado: foi um submarino alemão, o U-507, que “afundou o Brasil na II Guerra Mundial”, em 1942.

Só por essa breve introdução ao assunto, pode-se constatar o que há de mais atraente no livro U-507 – O Submarino que Afundou o Brasil na Segunda Guerra Mundial, do jornalista gaúcho Marcelo Monteiro. Com prefácio de Luis Fernando Verissimo, a obra já vale pela síntese contida no próprio título. Em meio a uma guerra, é natural que os dramas humanos se vejam jogados para uma análise futura. No calor dos disparos de fogo, os feitos grandiosos ganham força, em detrimento das individualidades tidas como pouco importantes em momentos como esses.

A questão é: quando parte-se para a busca do universo de cada individualidade, pode-se gerar uma emoção diferente. E, se a grandiloquência se justifica, vamos a ela. Os números chocam ao mostrar, com toda a sua frieza, que 607 pessoas morreram nos ataques do submarino alemão U-507 a cinco navios brasileiros: Baependy, Araraquara, Aníbal Benévolo, Itagiba e Arará. Tudo isso no nosso Nordeste, às margens das costas da Bahia e de Sergipe. Por ironia, no front de guerra, em território italiano, morreram 465 militares brasileiros. No livro, há momentos em que o leitor é chamado a presenciar remotamente o drama de 70 anos atrás:

“De relance, a algumas dezenas de metros, Dálvaro vê alguma coisa sair da água e voltar rapidamente para o fundo.
– Ué, um coqueiro de cabeça para baixo? – diz o jovem, tentando entender o que acaba de enxergar nas águas – na verdade, o periscópio do U-507. (…)
Segundos depois, sem imaginar o que está acontecendo, Homero vê o torpedo aproximar-se do casco:
– Olhe que peixe enorme.
Mal termina a frase, e o projétil atinge o navio em cheio, abaixo da escotilha do porão número três, próximo à popa, onde estão as baleeiras. Um estrondo ensurdecedor toma conta da cabine do Itagiba

O texto, daqueles que puxam o leitor ao natural, colocando-o na cena da trama, também pode fazê-lo refém cativo, conseguindo uma proeza. Além de contar dramas de vítimas, faz o que pode ser definido como “segundo resgate”, recupera histórias de pessoas que já haviam sido fisicamente retiradas do mar de sangue que se tornou a costa brasileira naquele 1942 em que o Eixo, integrado por Alemanha, Itália e Japão, começava a perder a guerra, e a humanidade vinha à tona para respirar aliviada.

O Brasil ajudou nesse respiro, três anos antes de o conflito chegar ao fim. E contou com o irônico impulso de um monstro de aço que o agrediu. O submarino alemão, sob as ordens do comandante Harro Schacht, espreitava suas presas, os navios, feito uma fera de tocaia. E as abordou sem piedade com seus torpedos disparados entre 15 e 17 de  agosto de 1942, provavelmente com a intenção de barrar a rota para a borracha que as embarcações conduziam e que era artigo de luxo em tempos de guerra.

Um dos eixos do livro, talvez o mais significativo pela simbologia que carrega, é a história das meninas Walderez  Cavalcante, 4 anos, e Vera Beatriz do Canto, 5. As duas são sobreviventes do navio Itagiba. Walderez se salvou flutuando dentro de um caixote de leite condensado Moça. Vera chorou a perda do seu bonequinho – o brinquedo, avariado, ainda teve a roupa utilizada como tecido para a confecção de uma bandeira da paz. E sua mãe chegou a ter uma premonição do que ocorreria.

(…) Noêmia enxergara um navio negro, com um número 13, no qual todos os passageiros e tripulantes vestiam roupas pretas, dos pés à cabeça. Ao guardar seus pertences no camarote B, cedido pelo comandante José Ricardo Nunes (…), ela volta a se assustar: olhando bem, aquele B se parece muito com um 13 – com os lados afastados. O dia é 13 de agosto, e o Itagiba parte justamente do armazém 13, às 13h

Walderez e Vera posaram juntas para fotos em 1942. Reencontraram-se em uma reunião articulada pelo autor Marcelo Monteiro em 8 de maio de 2011. Walderez, que chegou a dizer que conversou com um peixe e que o peixe recomendou que ficasse calma, viveu momentos que muitos definiram como milagre.

“(…) Na correria para abandonar a pequena embarcação que afunda rapidamente, um dos náufragos coloca a menina de apenas quatro anos dentro de uma caixa de madeira de transporte de Leite Moça vazia. Walderez não entende o que está se passando. A caixa, milagrosamente, flutua em meio ao mar de aflição”

Nisso, o pai de Walderez, Octavio Cavalcante, já a imagina morta. Momento de intensa emoção. Desesperado, ele diz, chorando:

– Se minha filha não sobreviver, também não tenho razão para seguir vivendo.

O comandante do iate Aragipe, que resgatou os náufragos do Itagiba, fica condoído. Manoel Balbino dos Santos, seu nome. Pede a todos os presentes que comecem uma busca. E se dá, então, um instante de magia, inesquecível:

“(…) Minutos depois, alguém enxerga, ao longe, algo que parece ser um destroço. Balbino decide verificar de perto. Ao aproximar-se do objeto, a surpresa e a alegria tomam conta. (…) A pequena Walderez boia, sã e salva, dentro de uma caixa (…)”

Um dos méritos da meticulosa apuração feita por Monteiro é que ainda foi possível ouvir depoimentos de  sobreviventes lúcidos das tragédias ocorridas em 1942. O autor teve a feliz ideia de intercalar depoimentos de sobreviventes com trechos do diário de bordo do submarino – não faltavam, é claro, definições das vítimas como “negros” e “mulatos”. A crueldade do nazismo estava às nossas margens.

“(…) No momento em que o iate Aragipe seguia para o litoral, levando cerca de 150 náufragos do navio Itagiba, o comandante admite que até pensou em utilizar as metralhadoras e as armas de deck contra a inofensiva embarcação, carregada de homens, mulheres e crianças recém-resgatadas – uma clara violação aos princípios humanitários mais elementares até mesmo em tempos  de guerra. (…) A decisão de não usar as metralhadoras não foi tomada por escrúpulos humanitários, mas puramente por uma impossibilidade técnica (…)”

O autor faz uma boa descrição da época. Depreende-se a precariedade dos meios de comunicação. Hoje, a história seria contada de forma mais minuciosa e instantânea. Por exemplo: o canto dos soldados que haviam se misturado ao público do Itagiba, todo o clima dos navios que viriam a ser abatidos, com seus romances, idiossincrasias, brincadeiras, crianças, jogos de xadrez, carteados, camaradagens, decepções. Toda uma vida.

“Quem parte leva
Saudades de alguém, que fica chorando de dor
Por isso não quero lembrar
Quando partiu meu grande amor”

Parece profecia. O livro é permeado por descrições de mortes. Por gente que viu companheiros sendo abocanhados por tubarões ou simplesmente se afogando  enquanto pediam desesperadamente por socorro ou, delirantes,  jogando-se ao mar. O horror cru e em minúcias, que fez  o Brasil abandonar a neutralidade oficial para adotar a “beligerância” – e, depois, a declaração de guerra ao Eixo. Era o inferno da guerra no nosso litoral.

“O mar revolto está coberto de destroços, fardos, pedaços de pau, malas, roupas e até o bumbo pérola rajado da bateria de Higino. Por todos os lados, homens, mulheres e crianças gritam, desesperados, por socorro. Alguns urram e desaparecem de supetão, puxados por tubarões. Para completar, há pequenos focos de incêndio em destroços que, banhados no óleo, seguem em chamas desde a segunda explosão”

“Homens, mulheres e crianças que estão dormindo ou tentando levantar-se de suas camas afogam-se em poucos
segundos e são sugados com a embarcação para o fundo do mar”

E houve solidariedade.

“- Não posso mais…Vou desistir… – diz um tripulante do Baependy, quase sem esperanças.
Ao mesmo tempo em que incentiva o companheiro de infortúnio, Lauro também se anima.
– Aqui! Aqui! Não desista! O náufrago, enfim, consegue agarrar-se à tábua de salvação. Exausto e ainda ofegante, agradece, ainda comovido, às palavras do novo amigo, que acabara de estender-lhe a mão”

Sim, há muita solidariedade, também por parte das populações ribeirinhas da Bahia e do Sergipe.Também é boa a descrição dos salvamentos e das surpresas de quem vê corpos mutilados e sobreviventes esfarrapados. Há o acolhimento em cidades como a baiana Mangue Seco, na divisa com território sergipano. E também a revolta. O povo exige nas ruas que o governo entre na guerra.Afinal, a guerra veio até o Brasil. O apelo popular se mostra na prisão de supostos “quinta-coluna” (colaboradores fascistas) e na depredação indiscriminada de casas comerciais. Havia um sentimento de vingança que se expandia país afora. E, especialmente para dois sobreviventes, essa vingança se tornou real, quando, em 1944, mais de 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram à luta na Europa banhada pelo sangue:

“Entre os brasileiros,estavam os soldados Dálvaro José de Oliveira e Pedro Paulo de Figueiredo Moreira, sobreviventes do naufrágio do Itagiba que, depois de resgatados, juraram vingança às margens do Rio Una, em Valença”

Por fim, dois anos depois, conseguiram o que queriam