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Posts na categoria "José Saramago"

O 1984 de Saramago

18 de junho de 2010 2

“Os habitantes da cidade doente de peste estão reunidos na praça grande que assim ficou conhecida porque todas as outras se atulharam de ruínas

Foram tirados das suas casas por uma ordem que ninguém ouviu

Porém segundo estava escrito em lendas antiquíssimas haveria vozes vindas do céu ou trombetas ou luzes extraordinárias e todos quiseram estar presentes

Alguma coisa podia talvez suceder no mundo antes do triunfo final da peste nem que fosse uma peste maior

Ali estão pois na praça angustiados e em silêncio à espera

E depois nada mais se ouve que uma aérea e delicada música de cravo

Qualquer fuga composta há duzentos e cinqüenta anos por João Sebastião Bach em Leipzig.

É então que os homens e as mulheres sem esperança se deixam cair no pavimento estalado da praça.”

Uma das primeiras pessoas em quem pensei ao saber da morte de José Saramago, hoje, foi Priscilla Ferreira, ex-colega de redação e ex-colaboradora deste blog (na verdade ela poderia continuar sendo colaboradora se não andasse sempre viajando atrás do agrobusiness como repórter do Canal Rural). Doutoranda em Literatura Portuguesa pela UFRGS, Priscilla fez de O Ano da Morte de Ricardo Reis o tema de sua dissertação de mestrado, e era uma das pessoas mais apaixonadas por Saramago que eu já conheci. Quando ela trabalhou conosco aqui no Segundo Caderno, foi exatamente na época em que a Companhia das Letras estava lançando O Ano de 1993, um objeto um tanto inclassificável no conjunto da obra de Saramago: uma coletânea de textos alegóricos, misto de prosa e poesia, lançada em 1975 e que projetava seu fiapo de história para um futuro distópico quase vinte anos no futuro, contando a história de um mundo tiranizado por máquinas – essa ambientação e o título do livro, remetendo a um ano, dialogam abertamente com o 1984 de Orwell. A linguagem, como vocês podem ler no trecho ali em cima, é elusiva, metafórica, escrita com frases sem pontos finais, distribuídas na página como estrofes de um poema (o livro é muitas vezes enquadrado entre os livros de poesia de Saramago). Em 2008, O Ano de 1993 ganhou sua primeira edição no Brasil, e Priscilla escreveu o seguinte texto sobre ele, que eu aproveito para republicar aqui em homenagem a todos os que, a exemplo dela, tinham com a obra de Saramago uma ligação que transcendia a leitura e transbordava para o afeto:

O Futuro do Passado

PRISCILLA FERREIRA
Um livro difícil de classificar, seja pela estrutura, pela linguagem ou pelo conteúdo. Assim é O Ano de 1993, do escritor prêmio Nobel de Literatura José Saramago. A obra, escrita em 1975 – cinco anos antes do autor adotar seu peculiar estilo narrativo -, causa certo estranhamento. São 30 pequenas histórias alegóricas, unidas pelo discurso distópico.
Em
O Ano de 1993, somos apresentados a um Saramago diferente, que usa uma escrita sintética, cheia de elipses e sugestões, indeciso entre a prosa e a poesia. Os textos são compostos de frases sem rima, sem vírgula, sem ponto. Por isso, muitas vezes é apontado como um livro de transição, onde já seria possível observar indícios do futuro estilo ficcional do escritor. Mas não é só a linguagem narrativa que chama a atenção, alguns temas abordados também nos remetem para obras escritas posteriormente.
Ao descrever uma cidade doente de peste, onde os moradores, tirados de suas casas, são reunidos em uma praça, Saramago estaria antecipando em 15 anos o cenário do célebre
Ensaio Sobre a Cegueira (1995). A praça parece o sanatório onde irão parar os cegos do romance em que o premiado escritor mostra o desmoronamento de uma sociedade que, por causa da doença, perde tudo aquilo que considera civilização.
Saramago afirma que escreveu a primeira história de
O ano de 1993 em 1974, um mês antes da revolução que pôs fim à ditadura salazarista em Portugal. E só teria voltado ao texto no ano seguinte, quando a situação política do país já era bem outra. Mas ao invés de celebrar a revolução e a queda de Salazar, o que vemos no livro é um certo desencanto e uma descrença no futuro.
Misto de narrativa fantástica e ficção científica, as várias histórias mostram cidades destruídas, homens em guerra, gente sem esperança. Em 1975, o futuro de Saramago não era nada animador. As sociedades em 1993 são dominadas por torturadores cruéis, por máquinas potentes ou até por animais mecânicos,  comedores de carne humana. Os habitantes desse mundo devastado e caótico são escravizados e oprimidos.
Mas nem tudo está perdido, ainda resta uma esperança. E por isso mesmo, o livro é definido pelo próprioautor como um manifesto contra todas as formas de violência e de opressão.

O Gênese segundo Saramago

19 de outubro de 2009 29

Depois de enfurecer a Igreja no início dos anos 1990 com seu ateísmo militante expresso em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, uma leitura iconoclasta ainda que poética da vida de Cristo, José Saramago agora volta à Bíblia, desta vez para acompanhar, como o título de seu novo romance deixa entrever, o “primeiro assassino da história humana”, Caim. O que Saramago faz em Caim é desviar o foco para a primeira mão ensanguentada da narrativa ocidental e focar quem ele considera o verdadeiro autor do crime, seu instigador e planejador, o próprio Deus (que Saramago no livro grafa em minúsculas, bem como todos os nomes próprios). Não é um mote inédito na obra de Saramago, que já em O Evangelho Segundo Jesus Cristo apresentava Deus como um planejador cínico e meticuloso que sabia de antemão todos os martírios que as ações de Jesus provocariam no futuro e mesmo assim insiste na realização do plano até o fim (o que merece um comentário ao mesmo tempo amargo e irônico do Diabo, feito durante a conversa entre Jesus, Deus e o Adversário em um barco no meio do mar: “É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue“).

Conforme prometemos na capa de hoje do Segundo Caderno (foi mal, gurizada, mudaram a capa e não fui avisado para desprogramar o post), vai abaixo um trecho de Caim, que a Companhia das Letras está jogando nas livrarias esta semana:

Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.
Set, o filho terceiro da família, só virá ao mundo cento e trinta anos depois, não porque a gravidez materna precisasse de tanto tempo para rematar a fabricação de um novo descendente, mas porque as gónadas do pai e da mãe, os testículos e o útero respectivamente, haviam tardado mais de um século a amadurecer e a desenvolver suficiente potência generativa. Há que dizer aos apressados que o fiat foi uma vez e nunca mais, que um homem e uma mulher não são máquinas de encher chouriços, as hormonas são coisa muito complicada, não se produzem assim do pé para a mão, não se encontram nas farmácias nem nos supermercados, há que dar tempo ao tempo. Antes de set tinham vindo ao mundo, com escassa diferença de tempo entre eles, primeiro caim e depois abel. O que não pode ser deixado sem imediata referência é o profundo aborrecimento que foram tantos anos sem vizinhos, sem distracções, sem uma criança gatinhando entre a cozinha e o salão, sem outras visitas que as do senhor, e mesmo essas pouquíssimas e breves, espaçadas por longos períodos de ausência, dez, quinze, vinte, cinquenta anos, imaginamos que pouco haverá faltado para que os solitários ocupantes do paraíso terrestre se vissem a si mesmos como uns pobres órfãos abandonados na floresta do universo, ainda que não tivessem sido capazes de explicar o que fosse isso de órfãos e abandonos. É verdade que dia sim, dia não, e este não com altíssima frequência também sim, adão dizia a eva, Vamos para a cama, mas a rotina conjugal, agravada, no caso destes dois, pela nula variedade nas posturas por falta de experiência, já então se demonstrou tão destrutiva como uma invasão de carunchos a roer a trave da casa. Por fora, salvo alguns pozinhos que vão escorrendo aqui e ali de minúsculos orifícios, o atentado mal se percebe, mas lá por dentro a procissão é outra, não tardará muito que venha por aí abaixo o que tão firme havia parecido. Em situações como esta, há quem defenda que o nascimento de um filho pode ter efeitos reanimadores, senão da libido, que é obra de químicas muito mais complexas que aprender a mudar uma fralda, ao menos dos sentimentos, o que, reconhe­ça-se, já não é pequeno ganho. Quanto ao senhor e às suas esporádicas visitas, a primeira foi para ver se adão e eva haviam tido problemas com a instalação doméstica, a segunda para saber se tinham beneficiado alguma coisa da experiência da vida campestre e a terceira para avisar que tão cedo não esperava voltar, pois tinha de fazer a ronda pelos outros paraí­sos existentes no espaço celeste.

Efeito Tela Grande...

22 de setembro de 2008 4

Como é de se esperar que façam, editoras aproveitam qualquer oportunidade para aumentar um pouco a venda de seus livros, e isso inclui aproveitar a ferramenta monumental de marketing que é um filme baseado em um determinado livro. Pense um pouco o leitor: quantas obras recentes o considerado já viu nas prateleiras com edições novas reproduzindo a imagem do cartaz do filme?

Dou uma ajuda. Peguemos uma das maiores editoras do Brasil, a Record, e vejamos quantos livros ela pôs no mercado nos últimos anos com capas que remetem diretamente a imagens ou ao cartaz de um filme baseado na obra? as edições novas de Dália Negra, de James Ellroy, de o Perfume, de Patrick Süskind, e de Cassino Royale, de Ian Fleming.  E primeiras edições de Notas sobre um Escândalo, de Zoë Heller, e de Fora de Rumo, um livro que eu não li, de um autor que não me lembro, mas que me reputaram muito ruim e que gerou um filme particularmente horrível com Jennifer Aniston e Clive Owen.

A L&PM lançou há alguns anos, em formato pocket, Netto Perde sua Alma, de Tabajara Ruas. com uma foto de Werner Schünemann como o general farroupilha, ligando o filme ao livro.

E a Companhia das Letras colocou na capa de Olga um frame da adaptação para o cinema dirigida há alguns anos por Jayme Monjardin, substituindo a foto de Olga Benário pelos grandes olhos tristes de Camila Morgado no filme.

Quando veio a Porto Alegre lançar sua biografia de Paulo Coelho, a propósito, Fernando Morais, o autor de Olga, comentou que o efeito “tela grande” é realmente assombroso na venda de um livro. Depois do lançamento de Olga, o filme, sucesso de público do cinema brasileiro recente, Olga, o livro, que nunca esteve fora de catálogo e sempre vendia, de acordo com Morais, uns 70 ou 80 exemplares por mês, pulou para a casa das centenas de exempares vendidos mensalmente logo depois da estréia da produção.

Claro que, como todo recurso desses, a taxa de sucesso vai depender de fatores que dizem respeito ao livro E ao filme. A Martins Fontes há alguns anos estampou uma cena épica do filme de Peter Jackson na capa da edição completa de O Senhor dos Anéis juntando os três livros da saga de J.R.R. Tolkien em um único volume, mas aí trata-se, obviamente, de uma superprodução de cinema-pipoca associada a um dos livros mais objeto de culto de nerds mundo afora. O Perfume e Dália Negra, já citados, eram livros cult antes de virar filme.

E agora, aproveitando a onda da adaptação de Fernando Meirelles para Ensaio sobre a Cegueira, a Companhia das Letras lançou novas edições do livro com diferentes capas que retratam “frames” do longa, aguardadíssimo por aqui antes mesmo de estrear pela popularidade de José Saramago no Brasil (a rigor o único autor português contemporâneo realmente famoso por estas bandas, além de único autor em português a ganhar o Nobel) e pela onda que se faria de qualquer modo pela adaptação estar nas mãos de Meirelles, diretor de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel (que, a propósito, também foram relançados pela Companhia e pela Record, respectivamente, com capas que remetem a cenas dos filmes). Um deles mostra Julianne Moore, a “mulher do médico” no escuro, à luz de um fósforo ou isqueiro, no que é provavelmente uma cena dentro do hospital para onde os contaminados pela “epidemia branca” são confinados ou mais adiante, em algum dos prédios pelos quais o bando de desgarrados perambula depois de todo mundo deixar o sanatório para encontrar um cenário de desolação – o mesmo cenário no qual a trupe de cegos se movimenta, guiados por ela, na outra capa, que traz uma das cenas filmadas em São Paulo.

A Companhia já havia liberado essas edições novas em junho, antes mesmo de o filme estrear, apostando na curiosidade provocada pelo livro. E pelo que temos visto das listas de mais vendidos que as livrarias nos mandam, tem funcionado. Ensaio sobre a Cegueira está no topo do ranking da Livraria Cultura e é o nono na lista da Saraiva – a da Saraiva não discrimina ficção e não-ficção, a da Cultura sim. De qualquer forma, ótimos resultados para uma obra que já tem uma década de lançamento mas que, provavelmente graças ao filme, está conquistando novos leitores.