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Posts na categoria "Literatura Alemã"

Adão e Eva no paraíso socialista

02 de agosto de 2013 0

O escritor Ingo Schulze passou boa parte da vida na Alemanha Oriental pré-queda do muro de Berlim. Fez dos traumas e das arestas da reunificação das duas Alemanhas tema central de seu livro mais reconhecido internacionalmente, o caudaloso romance Vidas Novas, sobre o qual ele fala nesta entrevista ao blog que você pode ler aqui. Neste livro mais curto, Adam e Evelyn ( Tradução de Sergio Tellaroli, 380 páginas, R$ 63) que a Cosac Naify está publicando agora, Schulze também se vale do fim dos regimes comunistas na Europa como pano de fundo, mas usa a história de um jovem casal de amantes como estrutura especular à crise que varreu os países comunistas e provocou a queda das autocracias socialistas.

Adam e Evelyn vivem em uma cidade do interior da Alemanha Oriental, em 1989. Ele é design de roupas, ela trabalha na imensa e já insustentável máquina burocrática do Estado. Até que Evelyn descobre que o namorado mantém com suas clientes relações além do simples corte e costura, e rompe a relação. Se antes havia problemas para que ambos conseguissem fazer coincidir suas férias para partir em uma planejada viagem à Hungria, Evelyn agora parte sozinha, de carona com uma amiga e o primo desta, vindo da Alemanha Ocidental, enquanto um atormentado Adam a segue pela mesma estrada, no próprio carro. No meio do caminho, a viagem de Evelyn transforma-se em uma tentativa de fuga do comunismo no exato momento em que o próprio comunismo parece entrar em colapso.

Assim como Vidas Novas era uma forma de reler o Fausto no contexto da reunificação, por meio da biografia de um homem que, de artista e aspirante a escritor, se torna um bem-sucedido industrial aproveitando as oportunidades criadas pela reunificação, aqui o próprio título já denuncia um novo modelo mítico: Adão e Eva. As transformações históricas que se realizam à volta do casal, envolvido com seus próprios problemas amorosos, assemelham-se a um contemporâneo fim da inocência edênica, saídos de um regime não apenas centralizador e totalitário, mas também tutelar, para o enganoso paraíso capitalista, em que a regra do desperdício consumista parece demasiado agressiva e o dinheiro e onde obtê-lo é uma preocupação com muito mais peso do que na pobre sociedade comunista em que viviam. É algo que voltaria em Vidas Novas, um mergulho muito mais detalhado na psique de um homem que aprende não apenas a viver no capitalismo já na vida adulta, mas que aprende a negociar com a própria consciência para aceitar sem culpa, gradativamente, a própria ganância, central no sistema capitalista.

Três coisas sobre Stefan Zweig

24 de fevereiro de 2012 0

No dia 23 de fevereiro de 1942, o intelectual e escritor judeu Stefan Zweig e sua esposa Charlotte foram encontrados mortos na casa em que residiam, em Petrópolis. Zweig havia encontrado no Brasil um refúgio da guerra em 1940, após o Anschluss, a anexação de sua Áustria natal à Alemanha nazista, e se encantou pelo país de tal modo que redigiu um ensaio-panfleto apaixonado: Brasil: um País do Futuro (criando a expressão que nos últimos 70 anos foi uma espécie de assombração do destino nacional). Sua morte foi na época e até hoje é considerada suicídio, embora o contexto permitisse cogitar também o homicídio. A carta de despedida deixada por ele, no entanto, parece bater o martelo em favor da autoaniquilação. Sobre Zweig, três coisas:

Nota: Este post havia sido automaticamente programado para entrar no ar ontem, data redonda da morte de Zweig, mas fiz alguma barbeiragem e não notei que ele não havia sido publicado .Por isso corrijo o problema agora.

1 – Brasil, um País do Futuro, teve uma reedição recente em formato bolso pela editora gaúcha L&PM. Com tradução de Kristina Michahelles. É um ensaio que discorre do Descobrimento até a sociedade brasileira que ele havia encontrado naquele momento e argumenta por que o país tinha potencial para ser uma espécie de farol nos tempos que viriam, em especial pelo que considerava a “forma básica natural das relações humanas”, a polidez (fico imaginando o que ele diria hoje). Leia um trecho:

É a frota portuguesa sob o comando de Pedro Álvares Cabral, que partiu da foz do Tejo em março de 1500, a fim de repetir a viagem inesquecível de Vasco da Gama em torno do Cabo da Boa Esperança rumo à Índia, aquele “feito nunca feito” decantado por Camões em Os Lusíadas. Diz-se que ventos adversos desviaram os navios da rota de Vasco da Gama ao longo da costa africana para tão longe, até a tal ilha desconhecida – pois é Ilha de Santa Cruz o nome que se dá a essa costa, cuja extensão ainda é ignorada. Sem levar em conta as viagens de Alonso Pinzon, que chegou às proximidades do rio Amazonas, e a duvidosa viagem de Vespúcio, o descobrimento do Brasil parece ter caído nas mãos de Portugal  e Pedro Álvares Cabral apenas graças a uma singular combinação de ventos e ondas. Mas os historiadores há muito tendem a não mais acreditar nesse “acaso”, pois Cabral levava consigo o piloto de Vasco da Gama, que conhecia muito bem o caminho mais curto, e a lenda dos ventos adversos cai por terra com o testemunho de Pero Vaz de Caminha, que estava a bordo e confirmou expressamente que a frota continuou viagem de Cabo Verde “sem haver tempo forte ou contrário”. Portanto, como nenhuma tempestade os desviou tanto para Oeste que viessem parar no Brasil, em vez de contornar o Cabo da Boa Esperança, deve ter sido uma determinada intenção ou – o que é ainda mais provável – uma ordem secreta do rei que fez com que Cabral resolvesse tomar o rumo para Oeste. Isso reforça a probabilidade de que a Coroa portuguesa já tivesse conhecimento secreto da existência e da situação geográfica do Brasil bem antes do descobrimento oficial. Este ainda é um grande mistério, cujos documentos desapareceram para todo o sempre por causa da destruição dos arquivos com o terremoto de Lisboa, e o mundo provavelmente nunca saberá o nome do primeiro e verdadeiro descobridor do Brasil. Parece que, logo depois do descobrimento da América por Colombo, um navio português foi enviado para conhecer esta nova parte do globo, voltando com novas notícias. Ou então – e também para isso existem determinados indícios – já antes da audiência de Colombo a Coroa portuguesa tinha maior ou menor certeza desse país no longínquo Ocidente. Mas o que quer que soubesse, Portugal cuidava para não entregar o ouro ao vizinho invejoso. Na era dos descobrimentos, a Coroa tratava cada nova notícia sobre descobertas náuticas como segredo de Estado militar ou comercial, cuja divulgação para potências estrangeiras era punida com a pena de morte. Mapas, portulanos, rotas náuticas, relatórios de piloto eram trancados na Tesouraria de Lisboa, como ouro e pedras preciosas, e principalmente nesses casos uma divulgação prematura era inadequada, pois segundo a bula papal Inter Caetera todas as regiões até o limite de cem milhas a oeste de Cabo Verde pertenciam de direito aos espanhóis. Um descobrimento oficial depois daquela zona, naquele momento, apenas teria aumentado o patrimônio do vizinho, não o próprio. Portanto, não era do interesse de Portugal
anunciar antecipadamente uma tal descoberta (se é que de fato aconteceu). Antes, era preciso ficar legitimamente assegurado que aquele nova terra não pertenceria à Espanha, e sim à Coroa portuguesa, e isso Portugal, com evidente previdência, garantiu por meio do Tratado de Tordesilhas, que em 7 de junho de 1494 – ou seja, pouco depois do descobrimento da América – ampliou a zona portuguesa das cem léguas originais para 370 a oeste de Cabo Verde, exatamente o necessário, portanto, para abranger a até então supostamente ainda não-descoberta costa do Brasil. Se isso foi um acaso, então combinou estranhamente com o inexplicável desvio de Pedro Álvares Cabral de sua rota original.
Essa hipótese defendida por alguns historiadores de um conhecimento prévio do Brasil e de uma instrução secreta do rei dada a Cabral para desviar tanto para oeste a fim de que ele lá descobrisse “milagrosamente”, como escreveu ao rei da Espanha, as novas terras, ganha muito em credibilidade pela forma com que o cronista da frota, Pero Vaz de Caminha, relatou ao rei a descoberta do Brasil. Ele não manifesta nenhuma surpresa ou admiração de ter topado inesperadamente com terras novas, mas registra secamente o fato como algo muito natural. Da mesma forma, o segundo cronista, desconhecido, manifesta apenas “che ebbe grandíssimo piacere”. Nenhuma palavra do triunfo, nenhuma das suposições usuais entre Colombo e seus sucessores de que, com isso, se tivesse chegado à Ásia – nada mais do que a fria notícia que mais parece confirmar um fato conhecido do que anunciar um novo. Assim, a fama de Cabral de ter sido o primeiro a descobrir o Brasil – a qual já é colocada em dúvida pela chegada de Pinzon ao norte do Amazonas – pode vir a ser modificada com futuros documentos que vierem a ser achados. Enquanto nos falta esse documento, aquele dia 22 de abril de 1500 vigora como o ingresso dessa nova nação na História do Universo.

2 – Lotte & Zweig é o nome de um romance que o escritor Deonísio da Silva acabou de lançar (Leya, 128 páginas, R$ 39,90), reconstituindo os últimos meses de vida do autor e de sua esposa no Rio de Janeiro. Leia um trecho:

Vou me matar hoje. Aguardo apenas a noite chegar. A escuridão será a ponte entre o dia e a longa e misteriosa treva da qual tão pouco sabemos por evitar estudá-la, ainda que estudemos assuntos dos quais jamais trataremos.
A morte é mais certa do que o nascimento. os seres vagam potencialmente no universo, mas muitos não chegam a nascer. os que nacem, porém, morrem!
Sou um judeu austríaco que, vagando pelo mundo como folha ao vento ou nave ao lé, veio parar no Brasil, onde espera que enterrem seus ossos. A linda e jovem judia polonesa, minha segunda esposa, que dorme aqui no outro cômodo de nosso bangalô petropolitano, vai morrer também. Ela tem poucos amigos, de sua existência quase ninguém sabe nada. Por enquanto.
Meu nome é Stefan Zweig. Faz dois anos que moro no Brasil, depois de ter vivido em mutos lugares. O último deles foi Nova York, onde cheguei em 1941, vindo de Londres, onde estava exilado, como estive sempre nos últimos anos.
Nasci na Áustria. Meus pais, ricos e cultos, me deram boas escolas. Não apenas no meu país, mas também na França e na Alemanha. Tenho dois diplomas: de Filosofia e de Letras.
Sou amigo de gente fina, figuras solares deste mundo que ora despenca e mergulha na escuridão. Algumas dessas personalidades todos conhecem. Romain Rolland, Rainer Maria Rilke, Thomas Mann e Sigmund Freud. Deste último recebo cartas caudalosas, que deveriam me ajudar a viver melhor, pois, depois de Marx, é ele quem melhor entende o mundo de hoje.
Sou um dos escritores mais lidos do mundo, meus livros são apreciados por milhões de leitores em diversas línguas, minha fama alcançou o mundo inteiro.
Comecei minha vida literária com um livro de versos. É comum que os escritores publiquem seus livros na língua materna. Isso parece óbvio, vale para todo mundo, menos para nós, judeus, e para os exilados. Nós somos exilados eternos ou eternos exilados, como melhor aprouver. ninguém é mais exilado do que judeu, pois ninguém fica exilado a vida inteira. Nós nascemos e morremos exilados.

3 - Esta descobri na última hora, por meio de um comentário feito no Facebook pela jornalista Josélia Aguiar, titular do blog da Folha de S. Paulo Livros Etc…: No site, da Biblioteca Nacional de Israel, você pode ler a última carta de Stefan Zweig, justamente a mensagem de adeus que torna tão forte a hipótese de seu suicídio. O original da carta está em alemão manuscrito com a letra do escritor, enquanto o site oferece uma tradução para o inglês. Traduzo abaixo um trecho. Quem quiser ver a íntegra, está aqui:

Mas um homem começar tudo de novo após  60 anos de vida exige forças especiais, e minha própria força foi exaurida depois de anos vagando sem lar. Eu prefiro  assim, terminar minha vida no momento certo,  de pé, como um homem para quem o trabalho cultural sempre foi a sua mais pura felicidade e liberdade pessoal – o mais precioso dos bens desta terra.

Gralha: pega, mata e come

03 de fevereiro de 2012 5

No jargão editorial, “gralha” é o nome que se dá para os erros de edição, impressão e digitação que escaparam da revisão final e ganharam seu espaço na eternidade literária da página juntamente com a obra. Não sou editor, então talvez um dia pergunte a pessoas como o Samir Machado, o Rodrigo Rosp ou o Tito Montenegro qual a origem do nome – minha única hipótese, fruto de pura imaginação, é que uma gralha tipográfica se assemelha a uma mancha preta no lugar errado, como o pássaro pendurado num fio de luz, mas tenho a impressão que isso soa vagamente absurdo. E gralha é coisa séria, acreditem em mim. Dependendo de seu número e de sua natureza, podem ser um problema dos mais graves: a diferença crucial entre uma boa e uma péssima experiência de leitura.

Porque leitura também é resultado de um processo de sedução: o autor investe seus recursos estilísticos em trazer o leitor para dentro do mundo que está construindo, e isso é mais claro na ficção, mas não se restringe a ela. Quanto mais árido um texto de não ficção, maior é a nossa sensação de lê-lo “de fora”, de algum lugar puramente intelectual de onde o autor tenta nos acenar. A fluidez de um texto cumpre um papel no seu entendimento, por mais que a academia cheia de jargões relute em aceitar isso. E essa sedução do texto tem, na minha cabeça, uma função análoga à experiência acústica. As boas salas de concerto são construídas de modo a que o som se espalhe e crie um universo cálido no qual o ouvinte não apenas ouve, ele se vê imerso nas vibrações que ele não pode ouvir mas que ainda assim estão lá e ajudam a dar essa sensação de mergulho no ambiente sonoro _ esta também é a razão porque o som de um CD sempre foi um lixo se comparado so vinil: o CD limou do registro as frequências mais baixas e mais altas que o ouvido humano não alcançava. A ideia era deixar o som mais “limpo”, mas o efeito foi o contrário.

Pois penso, sem nenhuma prova que o demonstre, que a estrutura de um livro, a cadência da prosa, a escolha do mote justo é o equivalente formal na literatura a essa construção de ambiente, a esse lugar imaginário que se situa na intercessão entre o leitor e o livro aonde se chega pelo prazer da leitura como se por uma estrada. E a gralha tipográfica é o equivalente ao buraco na pista: é o que dificulta o trânsito e torna o viajante insuportavelmente consciente dos esforços da jornada. É como a nota em falso que quebra a ilusão tão custosamente construída.

O ótimo romance Raízes do Mal, de Maurice Dantec, por exemplo, uma mistura delirante de ficção científica e noir de primeira qualidade, foi editado pela Sulina aqui no Brasil no início de 2010, se não me engano, com tradução de Juremir Machado da Silva. Comprei meu exemplar uns três meses depois na Palavraria, após de um evento do qual participei – e após haver lido um texto do próprio Juremir sobre o livro. Peguei uma carona para casa e esqueci o livro no carro. Passaram-se outros dois meses até eu e o motorista que me deu a carona conseguirmos outra vez marcar um café para a devolução. Mas finalmente comecei a leitura, e foi uma experiência dolorosa.

A prosa de Dantec era, de fato, vertiginosa, e ele conseguia discutir em profundidade a violência e o isolamento no mundo contemporâneo usando a ficção científica como pretexto, como os melhores autores do gênero fazem. E tinha lances de imaginação tão fervilhantes que eu me perguntava, sempre admirado, “de onde esse cara tirou isso?”. Mas havia tantos erros no texto, tantas gralhas penduradas na leitura que eu submergia no universo inventivo do livro para ser puxado pelos cabelos na página seguinte. Meses depois conversei com o editor Luiz Gomes, durante a Feira do Livro, e ele me disse que, por vários problemas internos de comunicação, o livro havia sido impresso sem passar pelo revisor – que deveria ter feito o trabalho e não fez, algo assim. E que uma edição nova seria em breve colocada no mercado sem esses problemas. Não sei se isso de fato foi feito, mas espero que sim, a leitura desse livro em particular provavelmente seria muito mais alucinante sem tantos erros para te puxar “para fora” do romance.

Outro caso é Liberdade, de Jonathan Franzen. Um romance de mais de 600 páginas escrito com a intenção declarada de oferecer um panorama total da realidade americana contemporânea, à maneira dos grandes mestres do realismo europeu do século 19. Uma tarefa que, pela sua própria natureza, exige a sedução da prosa, a manha de tragar o leitor para dentro das páginas para só deixá-lo emergir horas depois, como quem sai de uma piscina em que prendera a respiração: ofegante e ainda todo molhado. Em alguns momentos da leitura, Franzen de fato consegue isso, mas o volume tem vários erros tipográficos que puxam o leitor de volta, alguns deles tão inacreditáveis que me pergunto se não houve algo semelhante ao que ocorreu com a edição de Raízes do Mal. Li o livro primeiramente em inglês, e portanto tais erros pareciam ainda mais flagrantes na edição em português, mas na época dei um desconto porque estava lendo uma prova de impressão encadernada enviada pela editora, a Companhia das Letras, e não o exemplar final. Conversando com outros leitores do livro já pronto, como os meus editores Ticiano Osório e Cláudia Laitano, percebi que os problemas ainda estavam lá.

Erros tipográficos são coisa tão séria que provocam crimes, ao menos em um dos romances protagonizados pelo detetive Cliff Janeway, o ex-policial bibliófilo e negociante de livros raros criado pelo escritor americano de romances policiais John Dunning. Em Impressões e Provas, outra edição da Companhia das Letras, Janeway investiga por que uma edição rara de O Corvo, de Edgar Allan Poe, impressa para uma confraria de bibliófilos, parece ser a causa de uma trilha de cadáveres. Mais não digo para não murchar a surpresa de ninguém. Só não posso deixar de registrar que o crime no livro tem a ver com uma gralha em uma edição de O Corvo.

Mas na verdade este post não foi escrito por causa de nenhum dos livros citados anteriormente, e sim porque comecei a ler ontem um livro chamado 27, um romance de um alemão chamado Kim Frank (Tordesilhas, 216 páginas, R$ 34,90) e que foi publicado aqui no Brasil no ano passado _ por uma mórbida coincidência, bem na época em que a morte de Amy Winehouse aos 27 anos revivia o tema central tratado no romance. 27 pertence àquela vertente que se convencionou chamar de “literatura pop” depois do sucesso que o Nick Hornby fez com Alta Fidelidade no fim dos anos 1990. Quem usa essa qualificação quase sempre confunde, na minha opinião, “literatura pop” com “music namedropping”, ou seja, a tentativa de tornar seu texto mais “esperto” tomando a música pop como tema e despejando o maior número de nomes de bandas e artistas que você conseguir. Um jovem alemão de nome Mika, um rapaz que não conhece o pai e mora com a mãe ausente — uma médica que passa o tempo todo em congressos —, torna-se um astro de rock após uma sucessão de episódios nos quais o acaso, mais do que sua própria vontade, parecem ser determinantes. Mika é obcecado pelo número 27, e ao encontrar no quarto do tio — um jornalista que passou os últimos dias, doente de AIDS, morando com o protagonista e sua mãe _ uma série de dossiês sobre astros de rock que morreram aos 27 anos — Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain, Jim Morrison.

Mika me parece um personagem inconsistente entre outras coisas por isso. Ele tem 17 para 18 anos e ainda não havia percebido nem ouvido falar dessa coincidência. Conhece música, o rock ao menos, com uma propriedade técnica maior que a minha (o autor do livro é ele próprio um roqueiro), mas nunca ouvira falar de Robert Johnson até encontrar os recortes (não passa A Encruzilhada na TV alemã, será?). Esses são problemas da construção do personagem, e poderiam ser menores, mas se tornam mais graves ao somar-se a uma inacreditável sucessão de erros de revisão – não sei se mantidos do original ou cometidos na versão nacional traduzida por Eduardo Simões. Menciono apenas dois deles:

* Mika se torna um roqueiro depois de arranjar um estágio numa gravadora. Em um diálogo com seu novo chefe, na página 53, Mika diz que o baterista de sua banda dos sonhos seria John BONHEM, do Led Zepellin. O estranho é que o chefe da gravadora não só não o corrige como diz que gostaria de ir ao show dessa suposta banda perfeita. Tá certo que executivos de gravadora não sacam nada de música, mas seria inferir demais achar que Mika se equivocou e o executivo não percebeu, bla bla.

* Em um momento que se pretende dramático nas páginas 61 e 62, Mika se encontra com seu único amigo, um jovem um pouco mais velho do que ele que trabalha cinzelando lápides no cemitério local. Lennart, o amigo, está podre de bêbado porque passou a  noite assentando seu próprio nome na pedra de um túmulo – a sepultura é a de um rapaz com a mesma idade e com o mesmo nome de Lennart. Mostrando que a cidade em que vivem é pequena pra dedéu, Mika não só conhecia o outro Lennart, o falecido, como esteve no enterro do jovem. E aí ele sai-se com esta ao recordar o sepultamento:
E eu me lembro de algo insólito. Os amigos cantam, num coro abafado, ‘Nevermind’, do Nirvana. Supostamente a CANÇÃO favorita de Lennart.

Provavelmente todos vocês perceberam que o baterista do Led era John Bonham, e que Nevermind é o nome de um disco do Nirvana, não de uma canção – a palavra nevermind está na letra de uma das canções do álbum, mas o nome dela é Smells Like Teen Spirit. Em outro romance, com outra proposta, talvez fosse possível relevar deslizes como esse. Mas nesse livro em particular, o de um ROQUEIRO obcecado com uma lenda macabra de que ASTROS DE ROCK morrem aos 27 anos, são duas gralhas que, a exemplo do carcará da Bethânia, “pega, mata e come” qualquer fruição que se pudesse estar experimentando com toda a dificuldade do mundo, uma vez que o livro não é nenhum primor de escrita ou construção.

Sexo, repressão e arte

07 de julho de 2011 1

Isabelle Huppert em A Professora de Piano (2001)

Quando recebeu o Nobel de Literatura, em 2004, a escritora austríaca Elfriede Jelinek ainda não fora publicada no Brasil — e seu único texto vertido para o português, a narrativa curta Paula, estava programada para uma antologia do conto alemão que a L&PM previa para dali a duas semanas. De lá para cá, mais nenhuma obra da autora austríaca havia sido traduzida para o português — situação que muda com a publicação de A Pianista (Tradução de Luis Krausz. Tordesilhas, 336 páginas), romance editado pela recém-fundada Tordesilhas (em uma leva de lançamentos que inclui também Os Trinta e Nove Degraus, de John Buchan). A Pianista é a obra mais conhecida de Elfriede Jelinek, 64 anos, não tanto pela popularidade do romance, mas por haver sido adaptado para o cinema em 2001 em um perturbador drama dirigido pelo também austríaco Michael Haneke e estrelado por Isabelle Huppert – que ganhou pela sua intepretação o prêmio de melhor atriz em Cannes.

O impacto provocado pelo filme não é de modo algum resultado exclusivo do estilo cruel de Haneke — o filme é bastante fiel ao livro, e portanto todo aquele desconforto já estava na obra literária, como os leitores menos sensíveis descobrirão. A pianista do título, Erika Kohut, foi criada pela mãe para ser um talento iluminado do piano, uma virtuose internacional. Aos poucos, mergulha na árdua realidade de que não tem o que seria preciso para elevá-la à grandeza. Aos 40 anos, sustenta a si e à mãe dando aulas de piano no conservatório de Viena, a “Cidade da Música” — apelido da capital austríaca há séculos, usado no romance com uma devastadora carga irônica, uma vez que a história que se quer contar não é a da sublime beleza da música, e sim da música como sublimação dos instintos subterrâneos mais predatórios da sociedade austríaca.

Erika, apesar da meia-idade, ainda vive com a mãe, com quem mantém uma relação de sadismo e dependência – ambas têm brigas selvagens nas quais a mãe rasga os vestidos novos que a filha compra na cidade, trocam tapas e empurrões e puxões de cabelo para mais tarde fazerem as pazes em jantares melancólicos. Erika também frequenta cabines de peep-shows, corta os genitais com giletes, dirige todo o recalque pela sua mediania contra o mundo que a cerca – sejam seus temporários colegas de viagem nos corredores de ônibus, a quem gosta de ferir com o peso de um violencelo, sejam as alunas com potencial para irem além do que própria foi — uma delas em particular é vítima de uma sabotagem cruel por parte da mestra. Quando o universo instável e já desequilibrado de Erika precisa reacomodar em seu âmbito o interesse dirigido a ela por um jovem aluno que a corteja, a vida da personagem se precipita em uma espiral de sexo e violência, rompendo o frágil dique de sua sanidade.

Bagagem humana

18 de maio de 2011 4


A romena Herta Müller - Foto Jens Meyer/AP


Ganhadora do Nobel em 2009, Herta Müller era bem pouco conhecida no Brasil — a própria Lya Luft, tradutora de O Compromisso, seu único romance publicado no Brasil naquela época, declarou a um jornal não lembrar sequer de haver traduzido livro, há muito tempo esgotado àquela altura. A visibilidade obtida pelo Nobel, contudo, animou o mercado editorial brasileiro a dar nova chance a seus livros já editados e a publicar seus inéditos. A Globo reeditou no ano passado O Compromisso e a coletânea de contos Depressões. Agora, a Companhia das Letras põe em circulação um poderoso romance: Tudo o que Tenho Levo Comigo.

Tudo o Que Tenho Levo Comigo é um livro no qual a autora enumera fragmentos que tentam passar, na totalidade, a experiência traumática do narrador, um romeno de origem alemã deportado para um campo de trabalho soviético ao fim da II Guerra. O livro começa com a arrumação de uma mala: a do jovem Leo Auberg que, aos 17 anos, prepara-se para a viagem até os campos russos. São os últimos dias da guerra e os nazistas estão sendo derrotados em toda a Europa. Até então aliada dos fascistas, a Romênia muda de lado e recebe os soviéticos de braços abertos _ atendendo à exigência de deportar para os campos todos os cidadãos de origem alemã entre 17 e 45 anos. É nessa leva que Auberg embarca para o que será uma temporada de cinco anos de trabalhos forçados e tentativas de sobrevivência acossada pelo “Anjo da Fome”. É nessa mala que Auberg levará “tudo o que tem” – e não apenas as roupas emprestadas pelos vizinhos, mas uma humanidade florescida no segredo (o rapaz é homossexual, o que era perigoso durante o nazismo e continuou perigoso durante o comunismo).

O livro é construído com base nos depoimentos que Herta colheu de um sobrevivente real, Oskar Pastior, para o que seria um livro de não ficção escrito a quatro mãos por ambos. A morte de Pastior, em 2006, mudou os planos. Depois de anos com o projeto paralisado, Herta decidiu retomá-lo como um romance. Se, como lembrou Benjamin, o horror da guerra não se presta à visão narrativa totalizante, Herta Müller não oferece uma narrativa linear ou unívoca. Cada capítulo opta por focar um aspecto da longa experiência do campo, relatada ora no passado ora no presente _ assim como as lembranças do Auberg já idoso e em liberdade também se misturam à narrativa da viagem aos campos. Auberg conhece a fome, o cansaço, a necessidade de esperteza para negociar ou roubar itens suplementares à mirrada ração fornecida pelos russos. À medida que luta para se manter vivo, Auberg também luta para se manter humano colecionando palavras. E é na mescla entre o presente do idoso Auberg e suas recordações de juventude que a primeira frase do livro, “Tudo o que tenho levo comigo” (o título original em alemão, Atemschaunkel, remete ao ritmo da respiração), assume novo significado: também os anos de fome são algo que o prisioneiro sobrevivente levará consigo.

Tempestade e Ímpeto

16 de abril de 2010 0

Na próxima segunda-feira, o Instituto Goethe (Rua 24 de Outubro, 112) recebe em seu auditório, às 19h30min, o historiador e filosófo alemão Rüdiger Safranski (Na foto acima: Crédito de Peter-Andreas Hassipen/divulgação). O autor, que publicou notáveis biografias de Schopenhauer, Heidegger e Nietzsche, vai fazer uma palestra sobre a história e o legado artístico do Romantismo alemão surgido no século 18 e que atravessou o século 19 com manifestações estéticas que pretendiam retratar o indivíduo e suas turbulentas paixões, bem como o lugar que ocupava diante da esmagadora natureza. A palestra será seguida de uma sessão de autógrafos do livro que a originou: o ensaio Romantismo: uma Questão Alemã (Estação Liberdade), mais recente obra de Safranski a sair aqui no Brasil.

Safranski não é um viajante de primeira viagem em Porto Alegre. Ele já esteve aqui em 2001 para autografar, como parte da programação da Feira do Livro daquele ano, os livros Nietzsche – Biografia de uma Tragédia e Heidegger – Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal, que haviam sido recentemente publicados no Brasil pela Geração Editorial. Na época, ele foi entrevistado pela colega Camila Saccomori, hoje titular do blog Fora de Série, sobre seriados de televisão. Para ter uma palhinha de quem é o palestrante que o Goethe trouxe para esmiuçar um dos movimentos artísticos mais influentes da História, republico abaixo a entrevista, que saiu na ZH em 3/11/2001:

Assim Falou Safranski

Camila Saccomori

Como escritor, Rüdiger Safranski é um fenômeno editorial na Alemanha. Como filósofo, atua na direção e na consultoria do programa Filosofia Hoje, no canal WDR. Como acadêmico, procura espraiar o conhecimento dos grandes pensadores para além dos muros universitários. Durante esta semana, Safranski esteve participando de atividades na programação da 47ª Feira do Livro de Porto Alegre. Além da sessão de autógrafos de Nietzsche – Biografia de uma Tragédia e Heidegger – Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal, fez palestras na PUCRS e discorreu sobre A Importância da Filosofia Hoje na tarde de terça-feira, no Santander Cultural.

A trilogia biográfica dos pensadores Nietzsche, Heidegger e Schopenhauer (esta última ainda não traduzida para o português) tornou-se best-seller em pouco tempo na Alemanha. Lançada em 1994, Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal é tida como uma das melhores biografias de Martin Heidegger (1889 – 1976) até hoje escritas. Safranski traça com vigor a trajetória intelectual e pessoal da vida do pensador e as forças que moldaram sua personalidade. O entusiasmo político do filósofo alemão ao se filiar ao partido nazista – um dos pontos mais controversos de sua carreira – e sua breve mas agitada passagem pela reitoria da Universidade de Friburgo são abordados com detalhes laboriosamente pesquisados.
Em Biografia de uma Tragédia, são 364 páginas de pesquisa e informação sobre a vida trágica e o pensamento de Friedrich Nietzsche, um dos autores que mais influenciaram a história das idéias, da política e da arte em todo o mundo. Do nascimento do filósofo na Prússia, em 1844, até sua morte, tido como louco em Weimar, em 1900, Safranski aborda os principais fatos da tumultuada existência do autor de Assim Falou Zaratustra e O Nascimento da Tragédia, inserindo-os no pano de fundo histórico de forma a juntar as peças de um quebra-cabeça. Assim como a biografia de Heidegger, também essa foi traduzida diretamente do alemão pela escritora gaúcha Lya Luft. O professor de Filosofia da Unicamp Oswaldo Giacoia Júnior fez a revisão técnica do livro, para adaptar a terminologia própria do filósofo aos conceitos-chaves. A seguir, Safranski comenta algumas das antíteses filosóficas com que deparou:

Racional X irracional
“Escrevo biografias porque me interessa o nexo entre o pensamento e a vida, o drama de como um influencia o outro. A trilogia é uma grande narrativa para compreender e explorar a complexa e monstruosa aventura das origens da filosofia. Quando Schopenhauer for traduzido no Brasil, vocês perceberão como as três figuras estão conectadas umas às outras. Esses homens fizeram um esforço extraordinário para compreender a complexidade enigmática da vida e, nesse sentido, foram os pensadores racionais de tudo que é irracional. E vocês todos conhecem a distinção abismal entre racional e irracional. As maiores coisas que fazem parte da nossa vida são irracionais. A dimensão é essencialmente cerebral. Colocar um monte de pulgas num saco é tentar controlar racionalmente algo que foge do nosso controle.”

Filosofia X política
“É uma questão polêmica e fascinante. Em 1933, Heidegger compactuou com o nazismo e contaminou-se. Foi colocado sob suspeita. A relação com ele ficou difícil, perigosa e delicada. Como esse escândalo político realmente existiu, o fato foi tomado como desculpa para que os intelectuais não mergulhassem no conteúdo de sua obra. Para mim, esse escândalo foi um desafio, porque Heidegger mostra que a grande filosofia também pode sucumbir à sedução do poder político. Até mesmo Platão experimentou essa tentação. No livro, estabeleço a relação tumultuada entre filosofia e política.”

Nós X nós mesmos
Heidegger faz parte dos que ajudaram a constituir a linhagem de pensamento do existencialismo. Todos vamos morrer e temos apenas uma vida, isso é inevitável. Temos, enfim, uma existência. Esse impulso foi renovado posteriormente em Sartre, seu aluno por influência dos livros, não no sentido de discípulo seguidor. Existe ainda um segundo aspecto em Heidegger que poderia ser denominado de ecológico tardio. Ele colocou o homem e o universo no centro de suas perguntas: o que nós fazemos a favor ou contra nós mesmos e o que fazemos em relação ao planeta?”

Técnica X processo
“A idéia subjacente de Heidegger está relacionada à técnica, mas não com propósito meramente instrumental, como se fosse um martelo. A técnica afeta nosso modo de pensar, agir e sentir. Promove uma mutação da intelectualidade do homem. Vivemos numa época em que se pedem resultados. Na filosofia, também, mas me interesso mais pelo caminho e pelo processo. Nietzsche é tão-somente processo. É um autor que está sempre a caminho, viajando no pensamento.”

O filósofo X o psicólogo
“As pessoas me perguntam a que se deve a popularidade de Nietzsche, o popstar da filosofia. Ele é um dos poucos autores capaz de modificar pensamentos dos outros pela força das palavras. Credito essa fama ao pensamento que, por excelência, percorre diferentes estágios, dissecando as forças motrizes da cultura. É uma influência muito poderosa que se prolonga até hoje, mesmo na fase em que ele se deslocou e passou a ser um psicólogo frio, cortante como uma faca. Tanto o Nietzsche filósofo da cultura como o Nietzsche psicólogo nos permitem sacadas muito interessantes. Ele nos atirou na cara suas descobertas e depois nos abandonou. O conhecimento verdadeiro só é possível de forma restrita.”

Globalização X filosofia
“A filosofia se empenha em dar respostas específicas sobre como o homem deve viver, na individualidade e na totalidade. É aí que se insere o processo de globalização como um desafio para a filosofia. A justiça social não poderia ser derivada das forças do mercado. É preciso enfrentar esse império do mundo guiado pelo economicismo atual.”

Tradutor personagem

13 de fevereiro de 2010 0

Uma das peculiaridades do romance Vidas Novas – do Ingo Schulze cuja entrevista vocês podem ler abaixo – é que a estrutura de um apanhado de cartas com organização crítica e notas permitou a inclusão de uma nova, ainda que menos espessa, camada narrativa acrescentada pelo tradutor, Marcelo Backes. Tradutor militante da difusão das letras alemãs contemporâneas (que abordou no ensaio A Arte do Combate, publicado pela editora Boitempo em 2003), Backes já traduziu desde gigantes onipresentes da literatura alemã – Schiller, Günther Grass, Kafka, Schnitzler e até Marx & Engels – a nomes cotemporâneos quase desconhecidos no Brasil, como Juli Zeh, Julia Franck, Sasa Stanisic, Thomas Brussig e o próprio Schulze. Em Vidas Novas, Backes teve a liberdade de, como tradutor de uma coletânea de cartas de um personagem fictício “organizadas” pelo autor do livro, acrescentar suas próprias notas que muitas vezes criticam o papel do Ingo Schulze organizador da correspondência. Por isso, fizemos um entrevista também com ele – que precisou ser editada para o jornal impresso, mas que agora publicamos aqui no blog na íntegra.

Zero Hora – Em uma visita recente a Paraty, Ingo Schulze afirmou que tenta fazer de sua prosa a mais neutra possível, escreve seus livros sem artíficios visíveis de estilo, como se para deixar que a força da narrativa valha por si mesmo. Em que essa decisão do autor facilita ou dificulta o papel do tradutor?
Marcelo Backes –
Eu acho que o Ingo Schulze é um escritor especial, e portanto um escritor difícil para o tradutor. É preciso muita artimanha (arte e manha) para alcançar a simplicidade que ele alcança, muito artifício para acabar com qualquer artifício. Traduzir os livros dele é uma questão sobretudo de “tom”. É difícil conceder tanto humor, tanta profundidade humana a questões absolutamente banais como aquelas das quais o Schulze trata. Só para dar um exemplo, ele é capaz de transformar o voo de uma mosca em torno da cabeça de seu protagonista em um momento altamente filosófico.

ZH – Como surgiu e de quem foi a ideia de seu papel como um tradutor que comenta – e muitas vezes critica – o papel de Ingo Schulze como “organizador” das memórias de Enrico Türmer? E o que achou dessa experiência de “tradução crítica”?
Backes –
A idéia foi amadurecendo aos poucos. Primeiro, eu já era amigo do Ingo Schulze e o levei para a CosacNaify – uma editora com a qual ele desde a publicação de Celular já ficou encantado. Depois, quando eu estava trabalhando em Vidas novas, ele me convidou a participar de um documentário do canal de televisão europeu arte sobre sua vida e sua obra e, no documentário, me mostrou o palco do romance e as circunstâncias pessoais que o envolviam. Eu tinha, portanto, um conhecimento sob todos os aspectos “especial” em relação ao autor e aos detalhes que cercavam a obra. E um dia, sempre discutindo os rumos do romance, eu disse, quase por brincadeira, que era impressionante como eu tinha vontade de intervir autoralmente, como o romance era propício para tanto, como ele quase exigia essa intervenção. A partir daí, começamos a desenvolver a idéia de acrescentar mais uma camada narrativa ao romance; de transformar o tradutor em coautor nanico e personagem do livro.

ZH –  Vidas Novas também é uma obra de caráter enciclopédico, um “romance mundo” à moda antiga, com um grande número de referências a cidades alemãs e a particularidades políticas, sociais e culturais de diferentes regiões do país. Como tradutor, de que modo você enfrentou os desafios exigidos por um romance desse tipo?
Backes –
Pra mim, essa foi uma das coisas mais fáceis. Morei quase seis anos a fio na Alemanha e, depois disso, passo pelo menos uns três meses por ano aqui (aliás estou por aqui de novo). Eu conheço a realidade do país, conheço suas especificidades (de longe, pela literatura, pela história escrita) e de perto (por ter vivido e continuar passando seguidamente pela Alemanha). Agora mesmo eu poderia te contar umas dez piadas sobre Guido Westerwelle, o novo vice-chanceler e ministro das relações exteriores do país, mas talvez seja melhor não fazê-lo. Acho importante perceber, no entanto, que é justamente o caráter de “romance mundo”, conforme tu o chamas, que também propicia a referida interferência. Ou seja, nas minhas notas eu acho que universalizo ainda mais o livro, mostro o que ele tem de Guimarães Rosa, por exemplo, mostro como um brasileiro, um gaúcho, nascido no interior missioneiro também tem diretamente a ver com o personagem central da narrativa porque ela é absolutamente universal, apesar de se ocupar de um momento especial, que ademais tem a virtude de ser o momento histórico mais importante dos últimos sessenta anos, talvez: a queda do muro e a reunificação alemã.

ZH – Em uma palestra da Feira do Livro, há quatro anos, você comentou que, apesar de seu vigor e de haver um bom número de pessoas no Brasil que conhecem o idioma alemão, a atual literatura alemã não vinha ganhando o espaço que talvez merecesse no mercado editorial brasileiro. Acha que de lá para cá essa situação está se modificando – o que possibilta a publicação de um romance como Vidas Novas no Brasil?
Backes –
Está mesmo. Mas o trabalho foi duro. Afortunadamente, meu empenho pessoal de mediador contou com o auxílio de um programa importante como o “litrix”, que ajudou a estruturar financeiramente as tentativas que eu vinha – e algumas outras pessoas vinham – fazendo. A publicação do Ingo Schulze, por exemplo, foi facilitada pelo “litrix”. Eu pude ir ao Augusto Massi, dizer quem era Ingo Schulze, o que ele significava, e ainda apresentar um projeto para o livro – na época Celular, uma coletânea de contos, um gênero comercialmente difícil – já reforçando que valia a pena trabalhar com o Schulze como autor, porque ele também escrevera o maior romance sobre a reunificação alemã, Vidas novas, e assim por diante. E Ingo Schulze virou um sucesso no Brasil graças ao cuidado do projeto, graças ao trabalho da editora. Coisa semelhante aconteceu com autores como Saša Stanišić ou Juli Zeh, e ainda acontecerá com outro grande autor alemão, chamado Uwe Timm, projetos que eu apresentei à Luciana Villas-Boas, da Record.

Entrevista: Ingo Schulze

13 de fevereiro de 2010 1

Ingo Schulze durante sua visita a Paraty em 2008. Foto: Walter Craveiro, Divulgação FLIP

No caderno Cultura deste sábado vocês puderam ler também uma entrevista com o autor alemão Ingo Schulze, do gigantesco (em mais de um sentido) romance Vidas Novas – alentada narrativa epistolar sobre a reunificação alemã (Tradução de Marcelo Backes, Cosac Naify, 752 páginas, R$ 89). Estruturado como uma coleção de cartas e manuscritos do personagem fictício Enrico Türmer – reunida pelo “organizador” Ingo Schulze –, o livro abrange os últimos anos da Alemanha Oriental e as transformações diárias e novas situações vividas pelos habitantes da república socialista do leste, acostumando-se com a erupção súbita do capitalismo ocidental na vida de uma sociedade inteira. Uma transformação que se reflete na própria figura de Türmer, que vai de aspirante a escritor a homem de teatro, jornalista e mais tarde bem-sucedido homem de negócios.
Nascido em Dresden e ele próprio habitante do lado oriental, Schulze já teve dois outros livros publicados no Brasil: Histórias Simples da Alemanha Oriental (Lacerda Editores, 2002) e Celular: 13 Histórias à Moda Antiga (Cosac Naify, 2008), ambos coletâneas de contos. Para o lançamento desse último volume, Schulze esteve no Brasil em 2008, para a Festa Literária Internacional de Paraty, e na sequência viajou o Brasil indo parar na Amazônia, de onde retirou a ideia para seu próximo livro, ainda no estágio inicial de produção. Por e-mail, Schulze concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora, na qual falou sobre Vidas Novas, os 20 anos da reunificação alemã e seu interesse pelo Brasil. Como o material precisou ser editado para a matéria que saiu no jornal impresso, vai a íntegra abaixo.

Cultura – O romance epistolar parece um gênero descartado pela maioria dos autores da literatura contemporânea. Por que o senhor escolheu estruturar seu livro como uma série de cartas?
Ingo Schulze –
Eu busquei por muito tempo uma estrutura adequada àquela época e a minhas recordações. Trata-se de uma mudança de mundos, de uma mudança de dependências. Na vida do meu personagem (e na de todos os alemães orientais) mudou praticamente tudo da noite para o dia. Eu não queria apresentar um personagem com o qual acontece isto ou aquilo, e sim fazer com que este personagem tentasse, com as artes de sua oratória, convencer as pessoas daquilo que ele estava fazendo, e com isso – involuntariamente, é claro – ao mesmo tempo se desmascarar e se questionar a si mesmo. Uma vez que Türmer escreve suas cartas a três pessoas, percebe-se, na condição de leitor de todas as cartas, que existem incongruências. Mas não se sabe qual das versões é a verdadeira, qual não é, talvez nenhuma delas seja. Através do organizador, que tem o meu nome, é acrescentada mais uma voz, que, no entanto, também está longe de ser confiável. Além disso as cartas são escritas no verso de velhos manuscritos. E esses manuscritos também oferecem outras versões para os mesmos acontecimentos. E o que pode escrever um personagem que afirma ter deixado de escrever? Cartas. Naturalmente também é importante lembrar que no princípio de 1990, na Alemanha Oriental, ainda era necessário escrever cartas, caso se quisesse comunicar algo a um amigo ou conhecido que morava em outro lugar. Os telefones eram raros, e o fax ou a internet só viriam mais tarde. Foi, por assim dizer, o último momento histórico no qual a carta (ou o telegrama) ainda eram necessários na condição de instrumento para enviar notícias.

Cultura – Durante sua visita a Parati, em 2007, o senhor comentou, ao falar sobre a sua coletânea Celular, que seus contos eram escritos com uma prosa simples e direta _ o que também ocorre com o romance Vidas Novas, mesmo que ele seja atribuido a um personagem. O senhor tenta, mesmo nas cartas de Enrico Türmer, ser um contador de histórias da velha tradição?
Schulze –
A questão no fundo é: como posso escrever uma história, um romance, hoje em dia. Trata-se, conforme acho, de encontrar o estilo adequado, a voz adequada. E isso pode mudar conforme o tema. O estilo tem sempre de ser desenvolvido a partir do tema. Eu penso que Türmer tem um estilo lingüístico diferente, ele tenta escrever “bonito”, e para isso usa uma expressão um pouco mais elevada. As histórias de Celular são antes relatos que imitam a linguagem falada.

Cultura – O senhor viveu em Dresden e Altenburg, exatamente como seu personagem. O senhor usou suas experiências pessoais no livro para retratar sua geração?
Schulze –
Sim. O pano de fundo da biografia de Türmer corresponde aos momentos mais importantes de minha própria vida. Uma vez que trabalho de modo tão exato com lugar e data, eu também precisava ter certeza de que não estava contando bobagens. Mas a visão de mundo de Türmer naturalmente é diferente da que eu tinha e tenho. É preciso inventar, do contrário se tem a correspondência e a harmonia na cabeça, mas não no papel.

Cultura – O título de seu livro faz referência à Vida Nova, de Dante. Também pode se notar uma referência ao Fausto de Goethe na figura de Barrista, um Mefistófeles que seduz Enrico Türmer não para a ciência, mas para o dinheiro. É uma tratamento irônico para retratar uma conversão “mística” da velha Alemanha Oriental ao capitalismo?
Schulze –
Eu acho que nós sempre voltamos a contar as velhas histórias para acrescentar algo de nossa própria época, de nossa própria experiência. Com isso, aliás, se torna possível medir a própria experiência nas experiências da humanidade. Na segunda parte do Fausto também é caracterizada a invenção do papel-moeda, portanto também se trata de um livro sobre a economia e sobre a especulação. Eu mesmo pensei pela primeira vez de verdade sobre dinheiro com 28 anos, na primavera de 1990. Isso antes não era necessário. E esse pensar em dinheiro mudou tudo. Eu acho interessante descrever essa mudança. Do contrário acaba se acreditando que o capitalismo e sua teoria do dinheiro é algo natural, algo que necessariamente tem de ser como é.

Cultura – O senhor se apresenta como a pessoa que organizou a correspondência de Türmer e escreveu as notas sobre ela. Seu tradutor brasileiro, Marcelo Backes, também escreveu suas próprias notas sobre o romance – e às vezes critica o papel de Ingo Schulze como o organizador. Quem propôs essa experiência? E o que o senhor, como autor do livro, achou do resultado?
Schulze –
Eu encorajei Marcelo a acrescentar suas próprias experiências na condição de comentários. A forma das notas de rodapé e dos prefácios ademais permite esse tipo de brincadeira, e além disso estende a abrangência do texto, em minha opinião. Isso mostra que de um lado essas experiências foram feitas de modo bem concreto na Alemanha Oriental, mas que existem experiências comparáveis, possibilidades de analogia. E isso é que é o essencial, no fundo. Eu lamentavelmente não consigo ler a tradução. Mas muita gente me contou a respeito e eu estou feliz de ter encontrado um tradutor, um colega e um amigo assim.

Cultura _ Em 2009, tivemos uma série de artigos, livros e ensaios sobre os 20 anos da queda do muro de Berlim e o processo de reunião das duas Alemanhas. Como o senhor avalia esse processo, duas décadas após a unificação?
Schulze –
O problema é que não se tratou de uma unificação, e sim de uma adesão, a adesão da Alemanha Oriental à Alemanha Ocidental. Eu vejo os anos de 1989/1990 também como uma chance perdida, por parte do ocidente, de mudar, de se transformar. Conforme as coisas aconteceram, o ocidente ficou mais forte, virou o “vencedor da história”. Hoje nós pagamos pelo fato de a Alemanha Oriental ter se tornado uma região de consumo livre de concorrência para os produtos do lado ocidental. Hoje não se trata mais de leste e oeste, e sim de alto e baixo, daqueles que estão em cima e daqueles que estão embaixo. A sociedade alemã se polarizou enormemente. Há alguns anos a pobreza se tornou um problema. Com isso ninguém sequer sonhava nos anos 90.

Cultura – O senhor está escrevendo uma história sobre a Amazônia brasileira? Como decidiu iniciar esse projeto? O que pode nos adiantar sobre ele?
Schulze –
O que me interessa é a Terra Preta. Há muitos cientistas que dizem que nosso sistema de escoamento de dejetos está completamente errado. Em vez de usarmos o adubo, nós simplesmente o jogamos nos rios ou em estações de tratamento de águas residuais, onde eles se perdem ou acabam causando grandes danos. Alguns cientistas vêem na Terra Preta que foi produzida pelos índios da região do Amazonas uma alternativa a esse modelo. Para mim é interessante que agora os descendentes dos que aniquilaram aquelas antigas culturas com doenças, espada e cruz, agora queiram usar o espólio daquelas mesmas culturas para mudar algo fundamental. O que me interessa é naturalmente também uma reavaliação da história daquela região. Até agora se acreditou que os conquistadores teriam mentido e exagerado ao relatar a existência de grandes cidades. E agora escavações nas regiões de Terra Preta mostram que de fato existiu uma cultura altamente civilizada por lá. O que me interessa são os rastros que levam do Amazonas à porta da minha própria casa. Mas eu ainda me encontro no princípio do meu trabalho.

Herta Müller recebe o Nobel de Literatura

08 de outubro de 2009 5

Bernd Weissbrod, EFE

A Academia Sueca anunciou agora pela manhã o nome da escritora alemã (romena de nascimento) Herta Müller como a vencedora do prêmio Nobel de Literatura 2009, porque, de acordo com a justificativa oficial do júri, “retrata, com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, o horizonte dos despossuídos“. Müller é o terceiro escritor de língua alemã a receber a honraria nos últimos 10 anos (antes dela, Elfriede Jelinek foi agraciada em 2004 e Günther Grass em 1999). O nome de Müller mantém o hábito da comissão do prêmio de voltar seus olhos para Europa em detrimento dos Estados Unidos ou da América Latina. Apenas nos anos 2000, foramn agraciados o húngaro Imre Kertész, a já mencionada alemã Jelinek, os britânicos Harold Pinter e Doris Lessing e o francês J.M.G. Le Clézio (embora Lessing e Le Clézio tenham vivido parte de suas vidas aquela no Irã e este nas Ilhas Maurício).

Müller é um nome ainda pouco publicado no Brasil. Seu primeiro romance a sair por aqui foi O Compromisso, editado em 2004, pela Globo, com tradução de Lya Luft. E um conto da autora foi reunido por Rolf G. Renner e Marcelo Backes no volume (também de 2004) Escombros e Caprichos: O Melhor do Conto Alemão no Século 20, da L&PM – onde, a propósito, também figura a única obra de Jelinek traduzida por aqui. É desse livro que retiramos a seguinte biografia de Müller, redigida por Marcelo Backes, também responsável pela tradução dos contos:

“Herta Müller nasceu em 17 de agosto de 1953, em Nitzkydorf, na Romênia, numa aldeia de fala alemã. Estudou Literatura Alemã e Romanística em Temeswar e começou ali seus trabalhos literários como tradutora e professora de alemão. Acabou perdendo o emprego por não querer colaborar com o serviço secreto romeno, passou a trabalhar num jardim de infância. Em 1987, pôde abandonar seu país e passou a viver em Berlim Ocidental, mais tarde em Hamburgo.Entre outros prêmios, recebeu o Kleist de Literatura. Seguindo os passos intelectuais de autores como Trakl e Celan, Herta Müller é uma vítima do exílio e estuda o lento e irreversível fenecer das relações humanas em suas obras.”

Para que vocês travem contato com a prosa dessa autora ainda pouco conhecida por aqui, transcrevo abaixo o conto de Herta Müller presente na já mencionada antologia de contos alemães da L&PM:

A Canção de Marchar
Herta Müller

Sempre que o domingo, conforme dizia papai, chegava ao céu, papai encontrava esses estilhaços na sopa. Papai, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papai tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse papai.

Um dia, os estilhaços chegaram ao rosto de papai, e papai não fez a barba durante vários dias.

Quando eu olhava, papai punha a colher sobre os estilhaços ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.

Um dia nós estávamos visitando a irmã de papai e ela serviu uma sopa rala. Papai mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papai engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.

Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo.

Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas em suas bundas grossas e saltitantes. as mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. Papai seguia o compasso, batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: “E minha noiva, a Loiva, ela é igualzinha a mim”.

Quando estava anoitecendo, papai se levantou e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. Minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos úmidos.

Na terceira estrofe papai se curvou de dor.

Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã de papai e nos era servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. Minha mãe ficava sempre sentada, pálida e passando frio, a um canto da sala. Seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar passagem através de seu nariz. Ela embolava seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que meu pai era inesquecível, que ele continuava sendo o mesmo para ela. Também a irmã de meu pai afundava em uma cadeira e chorava longas frases. E suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.

Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles se levantavam. Ficavam parados em volta da mesa. De seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho se deitva sobre a toalha de mesa, entre suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.

Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.

No ano passado nós mais uma vez estávamos visitando a irmã de papai e nos foi servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres se levantaram e a mesa estava vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que seu marido era inesquecível e continuava sendo o mesmo para ela.

Quando estava anoitecendo as mulheres se levantaram e puseram-se em volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a fita com a canção de marchar. Minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe minha mãe pequena e seca cantarolou junto, sem abrir a boca. Na comissura de seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda de papai cantarolou junto, de boca fechada. A canção tremeu em suas bochechas e sua testa estava branca. Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou junto. Ela respirava profundamente em meio à canção e sobre seus seios os botões em suas molduras finas e douradas brilhava como se fossem medalhas.

Quando a canção chegou ao fim, a irmã de papai estava diante do armário. Suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.

O cantarolar ainda pairou por longo tempo no ar da sala. O cantarolar já estava monótono e cansado. E ele era ilimitado no crepúsculo.

O sonho da luxúria e seu monstro triste

19 de julho de 2009 0

Vinte e quatro escravos bronzeados remavam a magnífica galera que traria o príncipe Amgiad para o palácio do califa. O príncipe, porém, envolto em seu manto purpúreo, jazia sozinho no convés, sob o azul-escuro do céu salpicado de estrelas, e seu olhar…”

Até ali, a pequena lera em voz alta; agora, quase de repente, seus olhos se fechavam. Sorrindo, os pais se entreolharam, Fridolin agachou-se, beijou-lhe os cabelos loiros e fechou o livro sobre a mesa ainda posta. Como se a tivessem flagrado, a menina ergueu os olhos.

“Nove horas”, disse o pai, “está na hora de ir dormir.” E, como também Albertine houvesse se agachado junto à criança, as mãos de seus pais cruzaram-se sobre a fronte amada, seus olhares encontrando-se num terno sorriso, agora não mais endereçado apenas à menina. A governanta entrou, lembrou a criança de dar boa-noite aos pais; obediente, a menina se levantou, beijou pai e mãe e, em silêncio, deixou-se conduzir pela moça para fora da sala. A sós, porém, sob a luz avermelhada da luminária pendendo do teto, Fridolin e Albertine tinham súbita pressa em retomar a conversa iniciada antes do jantar, sobre os acontecimentos no baile de máscaras do dia anterior.

Tinha sido seu primeiro baile naquele ano, e, com o Carnaval já se encerrando, haviam decidido ir. No que se refere a Fridolin, logo ao entrar no salão ele fora saudado como um amigo aguardado com impaciência por dois dominós vermelhos, os quais não lograva identificar, embora soubessem com notável exatidão toda sorte de histórias de seu tempo de estudante e de hospital. Do camarote para o qual o tinham convidado com promissora amabilidade, haviam se afastado com a promessa de regressar muito em breve e, aliás, despidos de suas máscaras, mas se ausentaram por tanto tempo que ele, já impaciente, preferiu dirigir-se ao salão, onde esperava reencontrar ambas aquelas incertas aparições. Contudo, por mais que as espreitasse, não as avistava em parte alguma; em vez delas, uma outra figura, feminina, enganchou de súbito o braço no seu: sua esposa, que apenas se desvencilhara bruscamente de um desconhecido, alguém cujo ar melancólico e blasé, aliado a um sotaque estrangeiro, ao que parecia polonês, a havia encantado de início mas que, de repente, a ofendera e mesmo assustara com um comentário inesperado, de rude impertinência.

E contentes, no fundo, por terem escapado a um baile de máscaras de uma banalidade decepcionante, logo se viram os dois, homem e mulher, sentados como dois apaixonados entre outros apaixonados junto ao bufê, em meio a ostras e champanhe, conversando satisfeitos como se tivessem acabado de se conhecer, a conversa rumando para uma comédia de galanteios, resistência, sedução e consentimento; e, em casa, após rápida viagem pela noite branca de inverno, mergulharam nos braços um do outro, numa felicidade amorosa já não vivenciada com intensidade fazia muito tempo. Depressa, uma manhã cinzenta despertou-os. O ofício convocava o marido logo cedo para junto do leito de seus enfermos; tampouco os deveres de mãe e dona de casa permitiam a Albertine repousar por muito mais tempo. E dessa maneira as horas do dia haviam se passado sóbrias e predeterminadas, em meio ao trabalho e aos deveres do dia-a-dia; a noite anterior, começo e fim, desvanecera-se; somente agora, terminado o dia de trabalho, tendo a menina ido dormir e sem a expectativa de qualquer perturbação, assomavam de volta à realidade as figuras anuviadas do baile de máscaras: o melancólico desconhecido e os dominós vermelhos; e aqueles acontecimentos insignificantes viam-se de súbito, mágica e dolorosamente, banhados pela enganosa aparência das possibilidades perdidas. Perguntas inocentes, mas perscrutadoras, respostas astuciosas e ambíguas eram trocadas; a nenhum dos dois escapava que o outro não fazia uso de toda a honestidade, de modo que ambos se sentiam dispostos a pequenas vinganças.

O vienense Arthur Schnitzler foi, mais do que um escritor de uma geração de ouro da literatura de língua alemã, um duplo literário de Freud, que, em uma carta ao próprio Schnitzler, disse se sentir tão identificado com as ideias que o autor que, por uma espécie de “medo do duplo”, tinha medo de encontrá-lo pessoalmente e ser influenciado em suas próprias teorias. Isso porque Schnitzler trabalhou com pulsões inconscientes, com o impulso erótico associado ao impulso da morte, com as fantasias sexuais como motor das ações de seus personagens. E, claro, com o sonho como uma porta para o inconsciente (ainda que ele não tenha dado exatamente esse nome, que é de Freud, ao que estava descrevendo).

Em Breve Romance de Sonho (Tradução de Sergio Tellaroli. Companhia das Letras, 103 páginas, R$ 14,50), de onde saiu o trecho acima, Schnitzler cruza o horror da falta de sentido da vida moderno com o sexo. Numa noite de perfeita intimidade, Albertine conta ao marido, o doutor Fridolin, uma perturbadora fantasia erótica: em uma determinada ocasião, sentiu-se tão fortemente atraída por um homem que se viu tentada a negar o papel social e o aparentemente sagrado dever maternal para largar tudo e ir com aquele sujeito para os confins do mundo. Fantasia não realizada, é claro, mas que perturba as certezas de Fridolin e o faz sair pelas ruas buscando inutilmente a revanche de uma experiência semelhante — uma corrida infrutífera que, como as críticas feministas adoram ressaltar, nada mais é que o homem perdido diante da força assustadora do gozo feminino, blá, blá, blá.

Ah, sim, se alguém ainda não se ligou, o livro foi adaptado por Stanley Kubrick no filme De Olhos Bem Fechados, aquele com o Tom Cruise e a Nicole Kidman quando ainda eram um casal. O livro foi relançado agora em formato bolso pela editora.