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Posts na categoria "Literatura em Espanhol"

Os documentos de Alejandro Zambra

18 de dezembro de 2015 0
O escritor chileno Alejandro Zambra

O escritor chileno Alejandro Zambra

Texto de Fernanda Grabauska

“Eu não sabia nada do mundo, nada.” É assim, em uma mistura de nostalgia infantil com adulta confissão, que o chileno Alejandro Zambra ensaia fragmentos de uma ficção autoarqueológica em seu primeiro volume de contos, o adequadamente intitulado Meus Documentos (Tradução de Miguel del Castillo. Cosac Naify, 222 páginas, R$ 32,90). Mas se o pronome possessivo do título deixa o leitor com a impressão de que a voz única é a do autor-narrador, esta se rompe já na largada: os documentos não são de uma pessoa apenas, mas de toda uma geração, desejosa de questionar-se sobre seu passado.

Agraciado em 2010 com um lugar entre os 22 melhores escritores da língua espanhola com menos de 35 anos pela revista Granta e consagrado no gênero romance com títulos como Bonsai (2006), A Vida Privada das Árvores (2007) e Formas de Voltar para Casa (2011), Zambra incursiona pelos contos com a mesma prosa sensível para retornar à experiência de crescer no Chile de Pinochet e de ver-se, anos depois, em meio a uma geração cada vez mais atrelada aos computadores.

Ele está longe, contudo, de falar exclusivamente aos chilenos – cada fragmento de memória ecoa, também, naqueles que cresceram nas décadas de 1980 e 90. Em qualquer lugar, foram eles os únicos, talvez, a escutar as teclas das máquinas de
escrever paternas, que rascunharam seus primeiros textos literários em blocos de nota e que, finalmente, formataram-nos
em arquivos para deixá-los, muitas vezes esquecidos, na pasta Meus Documentos do Windows.

Toda essa nostalgia, por vezes humana – como no conto que dá nome ao livro –, por vezes tecnológica _ como em Lembranças de um Computador Pessoal –, é captada por Zambra e descrita com sutileza e ironia. Seja no momento da malograda tentativa do autor (famoso pela velocidade em que emenda um cigarro no outro) de abandonar o tabagismo em Eu Fumava Muito Bem, seja na ambivalência familiar de Verdadeiro ou Falso, a tônica de Meus Documentos é clara e universal: não importa o quanto voltemos ao passado, difícil mesmo é o presente.

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

Capa do livro Meus Documentos, de Alejandro Zambra

O corpo em que ela nasceu

06 de janeiro de 2014 0

corpo-em-que-nasci-guadalupe-nettel

Texto de Alexandre Lucchese

Escrever sobre si mesmo já se tornou algo corriqueiro, e basta dar uma rápida olhada nas redes sociais para perceber que cada vez mais gente o faz sem pudor, com desenvoltura e, por vezes, até mesmo graça. No entanto, aventurar-se no discurso sobre o eu sem cair no narcisismo estéril não é tarefa simples. Com boas doses de autoironia e humor, a mexicana Guadalupe Nettel deu conta desse desafio, conseguindo tocar o leitor e construindo um verdadeiro testemunho geracional nas mais de 200 páginas autobiográficas de O Corpo em que Nasci (Tradução: Ronaldo Bressane, Rocco, 224 páginas).

Publicado originalmente em 2011, este é o segundo romance de Guadalupe, e marca sua estreia no Brasil. Nele, a autora, que ainda tem quatro livros de contos, desnuda sua infância e adolescência para uma psicanalista. Carregando um curativo sobre um de seus olhos durante a maior parte do dia em seus primeiros anos escolares, como terapia para curar o estrabismo, a jovem Guadaluppe cedo se transforma em uma outsider entre os colegas de classe. Mais tarde, ela enfrentará a separação dos pais, e uma mudança repentina para um bairro de estrangeiros e delinquentes no Sul da França, onde passa a viver com o irmão e a mãe enquanto esta desenvolve seu doutorado.

O leitor acompanha o relato como quem espia uma sessão de psicanálise, ambiente ideal para encarar os mais decisivos episódios da história da protagonista sem os filtros da vaidade ou da auto-piedade. É fácil de identificar com a frágil jovem, que, mesmo diante de suas limitações físicas e da desestruturação familiar, nutre uma curiosidade ilimitada em conhecer o mundo que se revela em torno de si, e conta com sarcasmo e graça a respeito de seus próprios erros e insucessos, assim como de seus encontros e escolhas que possibilitaram melhor conhecer e aceitar a si mesma – o encontro com o “corpo em que nasci” do título.

Com 40 anos, Guadaluppe demonstra ser uma escritora madura, já que, depois deste profundo mergulho íntimo, consegue emergir com um relato que transcende o âmbito pessoal. A inépcia e as contradições dos jovens pais influenciados pela contracultura dos anos 1970, pretensamente libertária, para educarem seus próprios filhos; as transformações, nos anos 1980, da Europa, onde a protagonista já adolescente encontra uma sociedade desigual e preconceituosa; e uma América Latina pouco consciente de si mesma, que tenta imitar padrões de comportamento externos, perceptível no retorno da jovem ao México: tudo isto fica ricamente ilustrado na prosa da autora.

Mesmo com todas as dificuldades que a personagem/autora encontra em seu caminho, este não é um livro rancoroso ou vingativo. Como exemplo, é possível citar seu juízo sobre a agitação cultural que influenciou seus pais nos anos 1970. Ainda criança, a protagonista vai visitar três irmãs que eram suas amigas e se surpreende com a cena dos pais destas transando sem qualquer embaraço num cômodo sem portas nem cortinas, não se constrangendo com as pequenas que assistiam à televisão ao lado. A cena é descrita modo bem-humorado, mas é logo seguida do comentário: “Dizem que a mudança tão conservadora que originou a geração a que pertenço se deve em grande medida à aparição da AIDS, eu estou segura de que nossa atitude é em boa parte uma reação à forma tão experimental com que nossos pais encararam a vida adulta.

Ainda assim, a crítica acima não faz de Guadaluppe alguém insensível ao que o movimento hippie da geração anterior á sua pode ter de bom. Ao contrário: o título O Corpo em que Nasci é retirado de de um poema de Allen Ginsberg, guru da contracultura e um dos poetas preferidos da autora. A edição brasileira do livro faz parte da coleção Otra Língua, esforço capitaneado pelo escritor Joca Reiners Terron para fazer conhecidos autores contemporâneos de língua espanholas ainda obscuros nestas terras. Dentre os títulos publicados, estão Asco, do salvadorenho Horacio Moya, Deixa Comigo, do uruguaio Mario Levrero, e Os Lemmings e os Outros, do argentino Fabián Casas.

 

Carlos Fuentes e o eterno retorno

13 de setembro de 2013 0
O escritor mexicano Carlos Fuentes

O escritor mexicano Carlos Fuentes

Da sacada de um hotel em um país que poderia ser tanto o México quanto qualquer outro, dois homens discutem ideias enquanto observam a sangrenta marcha de uma revolução – que também poderia ser qualquer uma. Em torno desse tênue fio condutor que se tece Federico em Sua Sacada, romance que o escritor mexicano Carlos Fuentes concluiu pouco antes de sua morte inesperada, em maio do ano passado.

Federico em Sua Sacada ( Tradução de Carlos Nougué. Rocco, 316 páginas, R$ 39) é um livro de estrutura complexa. A narrativa se divide em quatro seções, cada uma delas com uma citação irônica do hino nacional mexicano. Essas partes se subdividem em capítulos curtos, que se alternam entre o diálogo de dois homens que conversam de uma sacada ara outra em um hotel e os pontos de vista de uma dezena de personagens cujas ações formam a história de uma revolução popular deteriorada em ditadura e terror. O “Federico” do título é o redivivo Friedrich Nietzsche, que discute com o narrador temas centrais de sua filosofia ilustrados pela ação dos homens e das mulheres que amam e se matam lá embaixo: o eterno retorno, a vontade de poder e a legitimação da violência.

Enquanto Federico dialoga com um narrador que muda constantemente de identidade (às vezes é outro Federico, à vezes é um duplo de Fuentes, em outro momento é Dante, uma das figuras centrais do livro), desfilam diante de seus olhos os principais personagens da narrativa, figuras que cumprem uma função alegórica no grande teatro histórico – posição que é marcada mesmo pela escolha dos nomes dos personagens. Dante e Leonardo são irmãos aristocratas em lados opostos. Leonardo é conselheiro do poder constituído, Dante é um dos ideólogos do movimento, ao lado de Aarón Azar, advogado de austeridade sombria, e de Saúl Mendés-Renania, revolucionário que tem abertos na carne estigmas que sangram continuamente. Não demora para que o movimento triunfe, e cada um deles, além de outros personagens que gravitam na história,assumam papéis que resumem o declínio histórico de qualquer revolução real, da francesa à soviética, passando pela mexicana: o traído, o traidor,o mártir,o herói,o tirano

As interrelações entre o trio de líderes reproduzirão, aos poucos, tensões históricas que ora remetem à ruptura de Stalin com Trotsky (quando Aarón vota pela desgraça de seu amigo Dante), ora o conflito entre Danton e Robespierre (Aaron é austero e seco como o “incorruptível” da Revolução Francesa, e o próprio Dante é chamado, às, vezes, de Dantón, um apelido no aumentativo que reproduz no espanhol o nome da “voz da Revolução”. O arco de persoangens, contudo, não é muito desenvolvido, talvez pela própria função alegórica de cada um. A maior exceção talvez seja o sapateiro Basilicato, homem do povo entusiasmado pelo fervor da revolução que vai gradativamente galgando postos na hierarquia do movimento.

Em um romance assumidamente dedicado a transformar o “eterno retorno” de Nietzsche em alegoria, não é de surpreender que temas e inquietações característicos de Fuentes reapareçam neste livro derradeiro. Estão lá acontecimentos suprarreais usados como metáfora para a realidade política latino-americana e a história turbulenta do continente descrita com fartas doses de farsa e sangue – temas comuns ao boom do qual Fuentes foi um dos maiores expoentes e aos quais permaneceu fiel até o fim. Não é um livro fácil,devido à radicalidade de sua experimentação. Também não é um romance coeso,pois,em determinadas passagens, a confusão instaurada pela narrativa parece menos tributária da vontade do autor do que de uma artesania deficiente ou apressada – talvez Fuentes ainda pretendesse trabalhar mais no texto após concluí-lo. Mas serve como um memorável súmula do trabalho de um dos mais combativos autores latino-americanos.

federico

As arestas de José Donoso

19 de fevereiro de 2013 0

O escritor José Donoso. Editora Saraiva, Divulgação

Dois lançamentos simultâneos reapresentam a escrita cheia de arestas de um dos mais significativos nomes da literatura latinoamericana: o chileno José Donoso. O Lugar sem Limites e O Obsceno Pássado da Noite comprovam que Donoso (1924 – 1996) não era exatamente um realista mágico, como outros exemplares de sua geração, e sim um habil tecelão de pesadelos.

Hoje parcialmente eclipsado pelo sucesso de seus amigos García Márquez e Vargas Llosa, Donoso foi um nome fundamental da geração que se consagrou em fins dos anos 1960 e início dos 1970 com o rótulo de “boom latino-americano”, e que também incluía nomes como o mexicano Carlos Fuentes e o argentino Ernesto Sábato. Vargas Llosa o definiu em um ensaio de 1996 (incluído na coletânea Sabres e Utopias) como “o mais literário de todos os escritores que conheci” – tanto pela obra quanto pelo fato de que, segundo Llosa, Donoso parecia um personagem de romance inglês.

O Obscuro Pássaro da Noite é, dos livros de Donoso, o mais traduzido. Já havia sido publicado no Brasil nos anos 1970, pela editora Francisco Alves. Agora, ganha nova tradução para o selo Benvirá, da editora Saraiva. A responsável pela nova versão, Heloisa Jahn, é também a tradutora de O Lugar sem Limites, para a CosacNaify. Numa prova da ambição de O Obscuro Pássaro da Noite, mesmo resumi-la é tarefa complexa. O centro da narrativa tortuosa é um casarão decadente, outrora uma capelania na qual uma congregação católica reunia religiosos para retiros e exercícios espirituais. Prestes a ser demolida, a construção está ocupada por um reduzido grupo de freiras, por algumas meninas órfãs e por muitas velhas – antigas criadas da burguesia chilena enviadas para o local para viver em estado de indigência.

Também mora por lá o narrador do livro, Mudinho, misto de zelador e assistente, que passa a maior parte de seu tempo trancando portas e acessos para isolar partes do labiríntico casarão em risco de desabamento. A tarefa de Mudinho, repetitiva, dialoga com o mito chileno do Imbuche, central na narrativa: uma criança raptada por bruxas que é transformada em um monstro com o rosto voltado para trás e todos os orifícios do corpo (todos mesmo) costurados.

Donoso é hábil em lidar com o grotesco. Talvez por isso questões do corpo sejam tão presentes na obra: a degradação física das velhas no asilo, a estranhamente longa gravidez de uma das jovens órfãs, a própria necessidade de Mudinho “desobstruir” zonas obscuras de seu passado para tomar posse dos mistérios de sua identidade –  que está ligada ao tempo em que o homem foi secretário de uma família oligárquica na qual um pai tentava esconder do mundo um filho deformado. Análoga à abertura progressiva de aposentos bloqueados da memória de Mudinho, está sua necessidade de desobstruir algumas passagens há muito trancadas no casarão, para esconder a gravidez tida como sagrada de uma das meninas residentes no lugar. Desbloquear espaços abandonados para escamotear do mundo as alterações naturais no corpo da jovem.

Também o corpo e suas transformações estão no centro de O Lugar sem Limites, adaptado para o cinema em 1978 pelo mexicano Arturo Ripstein. A narradora, Manuela, é um travesti que mantém, com a filha, um bordel em uma localidade fictícia do interior do Chile. Por meio da voz do personagem, que reflete sobre as relações abusivas da pequena comunidade e sobre seu próprio e indesejado envelhecimento, Donoso tece uma narrativa ao mesmo tempo delicada e cheia de nós perturbadores.

Pelos caminhos do Quixote

24 de dezembro de 2012 0

O gaúcho Ernani Ssó é o escritor de uma pérola do humor produzida no Estado, o curto romance (alguns chamariam de novela) O Sempre Lembrado, de 1989. Não deixa de ser uma boa credencial para alguém que envereda pela tradução de um dos clássicos literários mais engraçados de todos os tempos. Ssó é o autor da nova versão do Dom Quixote em português, que está chegando agora às livrarias pela Companhia das Letras, em uma caixa reunindo os dois volumes, uma cada para parte do Quixote, a original e mais antiga, datada de 1605, e a segunda parte, de modo geral menos conhecida de quem só sabe o enredo da obra, publicada em 1615 – entre outros motivos, porque o Quixote se tornara tão popular que outros escritores já estavam dando continuidade às suas aventuras à revelia de seu criador. Nesta entrevista, publicada editada no Segundo Caderno desta segunda-feira e aqui reproduzida na íntegra, ele fala sobre os desafios de traduzir a obra de Miguel de Cervantes, considerada fundadora do romance moderno e ainda capaz de encantar leitores mundo afora mesmo 400 anos após sua publicação:

Zero Hora – Como o senhor embarcou na empreitada de traduzir o Dom Quixote?
Ernani Ssó
– É uma história antiga. Aos dezessete anos, depois de uma semana folheando um manual de espanhol, tentei ler o Quixote no original. Me desiludi no primeiro parágrafo. Então fui estudar e ler autores contemporâneos, como Borges e Cortázar. Anos depois, quando a editora Civilização Brasileira publicou a tradução portuguesa dos viscondes de Castilho e Azevedo, que é do século 19, tentei de novo ler o Quixote. Achei tudo muito chato, com toda razão, por sinal, porque aquilo não é Cervantes. Além de muitos erros, como expressões idiomáticas traduzidas literalmente, muitas vezes é num português mais arcaico que o espanhol do Cervantes, com frases espichadas e uma pontuação burocrática que acaba com o ritmo do texto. O humor se perdeu inteiramente. Aí começou minha birra, ver o Quixote num português ágil e legível. Nos anos 90, quer dizer, uns trinta anos depois da minha primeira tentativa, comecei a traduzir Cervantes meio na brincadeira, pra experimentar. Fiz umas duzentas páginas e comecei a oferecer pra editoras. Quem tinha interesse, não tinha dinheiro. Quem tinha dinheiro, não tinha interesse. Até que uns treze anos mais tarde ofereci pra Penguin-Companhia, que topou na hora.

ZH – O senhor conhece as quatro traduções brasileiras do Quixote?
Ernani Ssó -
Sim, pelo direito e pelo avesso. Seria muita arrogância de minha parte ignorar as traduções anteriores, ainda mais de um livro importante e difícil assim. A primeira, de Almir de Andrade e Milton Amado, me desagrada, porque copidesca ou é literal, sem nunca se decidir. Acho interessante o que Sérgio Molina e Carlos Nougué fizeram, um tremendo jogo com a linguagem antiga, mas me sinto mais próximo da proposta de Eugênio Amado, que tentou aproximar o Quixote do leitor moderno. O engraçado é que tantas traduções de um mesmo livro, de uma língua muito semelhante ao português, tenham mais diferenças que coincidências. E, note-se, grandes diferenças às vezes.

ZH – O escritor americano Paul Auster já escreveu que a permanência do Quixote, para além de qualquer consideração mais técnica, pode ser tributada à graça e ao prazer que sua leitura proporciona. Quais suas lembranças mais marcantes de leitor do Quixote?
Ssó –
Certamente esse prazer de que fala Auster é importante. Se um livro é muito chato, mesmo que seja uma maravilha tecnicamente, terá poucos leitores, não? Mas me parece que o buraco é mais embaixo. O Quixote continua com boa saúde hoje porque lida com um dos grandes tormentos humanos, o descompasso entre nossos desejos, nosso idealismo e a realidade quase sempre brutal ou prosaica. Todos fomos dom Quixote uma hora ou outra, ou temos saudade do dom Quixote que fomos na infância e adolescência, ou ainda somos em momentos de fantasia. O toque de gênio, em minha opinião, é que Cervantes conseguiu uma ambiguidade alucinante: nossa razão sabe por que o cavaleiro está sendo espancado, mas no fundo, bem no fundo, torcemos por ele. Daí que nosso riso tem um sabor salgado. O próprio Cervantes, lá pelo fim do livro, acaba identificado com seu personagem. Esses dois livros têm tantos momentos marcantes que nem sei por onde começar.

ZH – É mais difícil transpor o ritmo e o tom em uma tradução de uma obra com tanto humor? Uma tragédia talvez oferecesse uma qualidade diversa de desafios.
SSó -
O humor é um negócio muito, muito complicado. O humor depende de síntese e agilidade, mas, antes de mais nada, de um modo específico de dizer as coisas. Veja uma frase do Nelson Rodrigues: “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais“. Não interessa que esteja dizendo uma idiotice. Tecnicamente é perfeita. Não seria eficaz de forma direta: “Só as mulheres normais gostam de apanhar“. Pra complicar mais a coisa, Cervantes tem jogos de palavras e piadas que dependem do contexto cultural da época. Então, se o tradutor não tiver muita paciência pra buscar a forma certa, se não tiver astúcia suficiente pra recriar certas tiradas (e recriar na mesma atmosfera do original, senão o leitor vai perceber aquilo como interferência), vai acabar tendo de explicar piada em nota de rodapé, o que, cá pra nós, é o fim da picada. Enfim, não acho que o tradutor tenha de ser um humorista pra traduzir humor, mas é bom que tenha intimidade com o gênero. Uma tragédia, se o texto não tiver muitas firulas de linguagem, vai oferecer a dificuldade de qualquer tradução. O único perigo é que termos solenes ou neutros no original soem ridículos na língua da tradução. Os trechos dramáticos do Quixote foram bem mais fáceis do que os cômicos.

ZH – O senhor comenta em seu ensaio sobre a tradução que o tempo, no caso do Quixote, talvez seja o fator mais hostil ao trabalho do tradutor. Foi difícil encontrar um léxico que preservasse a fluência e não modernizasse muito o original?
SSó
_ Nesses quatrocentos anos, o espanhol e o português se modificaram muito. Mais: se distanciaram muito um do outro. O português do Brasil inclusive se distanciou do português de Portugal. Então, se eu traduzisse Cervantes para um português arcaico, apenas os especialistas poderiam curtir o texto como realmente se deve. Mas os especialistas não precisam de tradução pra ler Cervantes. Aí começou minha sinuca: como manter o ar antigo do Quixote sem que ele ficasse ilegível para o leitor mais comum, digamos. Como atualizar a linguagem sem soar moderninho? Optei por usar apenas palavras que tivessem entrado no português escrito antes de 1900. Mas nem todas, porque algumas, como “esperto“, uma palavra do século 13, tem um peso hoje que a torna atual demais aqui no Brasil. Exemplos de atualização: Cervantes usa “requebro” no sentido de fazer galanteios, ou “discreto” no sentido de sagaz. Eu uso galanteio, eu uso sagaz. Ele usa “acaçapar“, eu uso esconder, palavra tão antiga quanto, mas mais em forma, não? Não vou dizer que isso não deu trabalho, mas deu muito menos que o humor ou a simples fluência do texto.

ZH – Ainda sobre o fator tempo: o senhor topou com muitos elementos que, passados 400 anos da publicação, hoje parecem incompreensíveis ao leitor moderno? Como os resolveu?
SSó -
Um exemplo bem simples é “Quixote se armou“. Sem consultar o dicionário, a maioria de nós pensa que dom Quixote pegou a espada e a lança. Mas não. Ele vestiu a armadura. Esse caso foi fácil de resolver, mas houve situações cabeludas, como se diz. “Echar una tela”, por exemplo. É uma expressão que quer dizer, literalmente, tecer um pano. Só que significa também fazer amor. Depois de quebrar a cabeça por meses, descobri que temos uma expressão semelhante: pintar a manta. No tempo do meu avô qualquer pessoa sabia o que isso significava. Hoje, a maior parte dos leitores teria de consultar o dicionário. Daí eu preferi usar uma expressão corrente: pintar e bordar. Eu poderia dar dezenas de exemplos como este. O que interessa dizer é que se no original havia uma expressão, eu tratei de encontrar uma correspondente, em vez de traduzir apenas o sentido ou explicar em nota de rodapé.

ZH – É mais tranquilizador ou intimidador trabalhar com um texto sobre o que tanto já se escreveu?
Ssó -
Acho que a resposta certa é intimidador. Mas a verdade é que não me senti intimidado em momento algum. Me senti desafiado, isso sim. Traduzir, como escrever, é um jogo, um grande jogo, um jogo muito divertido. Quanto mais complicado, mais divertido, me entende? Outra coisa é que Cervantes não é nada solene. Na verdade é um tremendo gozador. Daí que me senti muito à vontade. Sabe como é, eu poderia ter tomado uns tragos com ele numa taberna e falado mal do Lope de Vega. Quando terminei, estava um bagaço. Pensei que se tivesse de começar tudo de novo, não teria coragem. Mas duas semanas depois me sentia prontinho pra outra.


Javier Marías e o sensacionalismo

19 de outubro de 2012 0

“Todos esses dados estavam repartidos em dois dias, os dois seguintes ao assassinato. Depois a notícia desapareceu por completo dos jornais, como costuma ocorrer com todas atualmente: as pessoas não querem saber por que alguma coisa aconteceu, só que aconteceu e que o mundo está cheio de imprudências, perigos, ameaças e acasos, que passam raspando por nós porém atingem e matam nossos semelhantes descuidados, ou talvez não eleitos. A gente convive com mil mistérios não solucionados que nos ocupam dez minutos de manhã e depois são esquecidos sem deixar mal-estar nem rastro. Precisamos não aprofundar nada nem nos demorar muito em nenhum fato ou história, para que nossa atenção não seja desviada de uma coisa a outra e que as desgraças alheias não se renovem, como se depois de cada uma pensássemos: “Puxa, que coisa. E o que mais? De que outros horrores nos livramos? Precisamos nos sentir sobreviventes e imortais diariamente, por comparação, de modo que nos contem atrocidades diferentes, porque as de ontem já eram”.

O texto acima é um excerto de um dos primeiros capítulos de Os Enamoramentos (Tradução de Eudardo Brandão, Companhia das Letras, 344 páginas, R$ 49,50) o mais recente romance do escritor espanhol Javier Marías, e exemplifica bem o que há de peculiar e característico na ficção do autor. O parágrafo acima é totalmente acessório ao fio de trama sobre o qual o livro se sustenta: uma funcionária de uma editora acompanha, encantada, de sua mesa em um café, todas as manhãs, cenas afetuosas de atenção e carinho que um casal protagoniza algumas mesas distante dela na cafeteria:

“não é que eu acreditasse que o dia seria ruim se não compartilhasse com eles o desjejum, à distância, entenda-se; era que eu o iniciava com o moral mais baixo ou com menos otimismo, sem a visão que eles me ofereciam diariamente e que era a do mundo em ordem, ou, se preferirem, em harmonia”.

Um dia o marido morre e a narradora  se aproxima da viúva, descobrindo com essa intimidade que aquela noção de harmonia e entendimento com ares românticos que ela vislumbrava à distância era uma construção ingênua que não espelhava a realidade. O trecho acima está situado em um momento em que a protagonista descobre, com certo atraso, que o marido foi morto durante um episódio aparentemente aleatório de violência urbana. E enquanto vasculha as notícias nos sites eletrônicos de jornais, a narradora se desvia em digressões que são a alma da literatura de Javier Marías, como quem leu sua magnífica trilogia Seu Rosto Amanhã ou a novela Coração Tão Branco saberá. Há mais de um motivo para apreciar Os Enamoramentos: sua construção caricatural deliciosa do universo literário, com suas pequenas e mesquinhas ridicularias; suas digressões que se espalham do mundo concreto ao universo literário e maestria de Marías no manejo da técnica romanesca.

Réquiem para um pai amoroso

06 de setembro de 2011 1

“Eu amava meu pai com um amor que só voltei a sentir por meus próprios filhos. Quando eles nasceram, logo o reconheci, porque é um amor tão intenso quanto o outro, embora diferente e, em certo sentido, até oposto. Eu sentia que nada de mau podia me acontecer se estivesse com meu pai. E sinto que nada de mau pode acontecer aos meus filhos se eles estiverem comigo. Quer dizer, eu sei que seria capaz de morrer, sem vacilar um instante sequer, para defender os meus filhos. E sei que meu pai também teria sido capaz de morrer, sem vacilar um instante sequer, para me defender. Quando eu era criança, não havia nada mais insuportável para mim do que imaginar que meu pai podia morrer, por isso decidi que, se isso acontecesse, eu me jogaria no rio Medellín. Sei também que existe a possibilidade muito pior do que a minha própria morte: a morte de um filho meu. Tudo isso é uma coisa muito primitiva, ancestral, que se sente no mais fundo da consciência, num lugar anterior ao pensamento. É uma coisa que não se pensa, mas que simplesmente é assim, sem atenuantes, pois não vem da cabeça, e sim das entranhas.”

O jornalista e escritor colombiano Héctor Abad demorou quase 20 anos para vingar a morte do pai. Não foi uma vingança sangrenta, dessas tão comuns em nosso continente, mas uma das desforras possíveis para quem não acredita na violência: Abad escreveu um livro. A Ausência que Seremos foi escrito em 2005, 28 anos depois da execução do médico sanitarista Héctor Abad Gómez (1921 – 1987), morto a mando de grupos paramilitares na Medellín conflagrada pelo crime organizado dos anos 80 e 90. No dia em que foi morto – no meio da rua, dirigindo-se ao velório de outra vítima da violência política –, Abad Gómez trazia no bolso dois papéis. Em um deles, constava uma lista de pessoas ameaçadas de morte, que incluía seu nome. No outro, um poema atribuído ao escritor argentino Jorge Luis Borges, de onde foi extraído o título do livro: “Ya somos el olvido que seremos./ El polvo elemental que nos ignora/ y que fue el rojo Adán, y que es ahora,/ todos los hombres, y que no veremos”.

Não é difícil entender por que este livro demorou tanto para ser escrito. Para construir uma narrativa que equilibrasse o lado íntimo e familiar do relato com a crônica histórica dos acontecimentos que levaram a um assassinato nunca esclarecido, Héctor Abad precisava encontrar uma voz autoral que não soasse piegas na hora de evocar a profunda ligação afetiva com o pai (eram os dois únicos homens em uma família cheia de mulheres) nem superficial na recriação dos fatos históricos. Acabou optando não por uma reportagem ou uma biografia romanceada do pai (embora o livro tenha um pouco desses elementos), mas por um ensaio confessional ao estilo do que Paul Auster fez em A Invenção da Solidão, em que o escritor americano recorda a infância ao mesmo tempo que reflete sobre a paternidade a partir de sua relação com o filho e com o próprio pai. O resultado é um livro comovente que consegue desviar-se com elegância das armadilhas que poderiam conduzir a narrativa para o tom excessivamente melodramático ou para a hagiografia do personagem principal.

Elementos para idealizar a trajetória desse médico que lutou para melhorar as condições de vida das pessoas mais pobres da sua região não faltavam. Abad Gómez foi um homem notável. Como médico sanitarista e defensor dos direitos humanos, levantou bandeiras como a do saneamento básico e lutou para implantar medidas simples que ajudariam a salvar muitas vidas – muitas delas adotadas. Como professor na universidade, era capaz de emprestar dinheiro aos alunos mais pobres para que eles conseguissem completar os estudos. Contando a história do pai como homem público idealista e nem sempre muito prático, o filho, porém, não deixa de apontar o lado quixotesco, e eventualmente vaidoso, desse homem que só se sentia completo quando estava engajado em uma grande causa e que preferia a tribuna pública ao consultório médico.

É no relato íntimo da convivência com o pai que Héctor Abad alcança os momentos mais altos da narrativa. Não foi uma relação trivial entre pai e filho – se é que existem relações triviais entre pais e filhos – o que os dois tiveram. O único filho homem de Abad Gómez, terceiro de uma prole de quatro, recebeu um tratamento especial do pai na infância, como seria previsível nos anos 60, mas na vida adulta isso não se traduziu em uma cobrança exagerada de sucesso profissional ou mesmoem uma espécie de expectativa de continuidade que soasse pesada demais sobre os ombros do filho de amadurecimento profissional tardio. Abad Gómez era um pai amoroso e acolhedor, desses que não aparecem com muita frequência na literatura – que, em geral, prefere a falta de diálogo retratada por Kafka em Carta ao Pai ou a cobrança sem limites de um pai presente como fantasma, como em Hamlet. Abad Gómez não chegou a ver o filho tornar-se um jornalista bem-sucedido, mas acreditou nele até o fim. Além de ensaio, memória e libelo contra a violência, A Ausência que Seremos é uma doce homenagem a todos os pais que apoiam e apostam nos filhos mesmo contra todas as evidências em contrário.

Texto de Cláudia Laitano

O tamanho de Borges

14 de junho de 2011 1

A influência de Joyce sobre seu pensamento já é evidente no ensaio “Después de las imágenes”, que reitera sua crença em que as vanguardas espanhola e argentina eram limitadas demais por sua obsessão com a metáfora. Afirmava qeu o poeta deveria fazer mais do que criar metáforas: deveria “alucinar cidades e espaços de uma realidade unificada”; e a cidade que Borges tinha em mente era Buenos Aires, que ainda não fora imortalizada em poesia: “Em Buenos Aires, ainda não aconteceu nada, e sua grandeza não é autorizada por um símbolo ou uma fábula maravilhosa, nem mesmo por um destino individual comparável ao Martin Fierro.
Mas para fazer por Buenos Aires o que Joyce fizera pro Dublin era preciso uma interpretação imaginativa e sustentada do mundo. Essa era a ideia que preocupava Borges nos últimos meses de 1924 e que pode ser encontrada num ensaio sobre o poeta barroco Francisco de Quevedo, cujos conceitos brilhantes ele admirara outrora, mas agora comparava de forma desfavorável a Cervantes: “Em vez da visão abrangente que Cervantes gera através do desdobramento amplo de uma ideia, Quevedo pluraliza visões numa espécie de fuzilaria de lampejos parciais”. Ela ressurge numa resenha das memórias de Ramón Gómez de la Serna, na qual ele observa que o “entusiasmo onívoro” de Ramón individualiza cada objeto, em vez de buscar “uma visão total da vida”, “uma concórdia”, “uma síntese”. Para Borges, Ramón carecia do tipo de princípio unificador que na nova matemática era representado pelo signo do “Alef [sic]“, o número infinito que abrange todos os outros.
Em retrospecto, essa referência ao Aleph é de enorme significação para uma compreensão de Borges como escrtor. O Aleph viria a representar uma aspitação permanente de alcançar a unidade de ser em que o eu poderia se realizar plenamente, ainda que integrado à realidade objetiva do mundo. No devido tempo, essa aspiração seria articulada de forma mais completa em um de seus principais contos, intitulado precisamente “O Aleph” (1945), no qual ele procuraria expressar a totalidade extática do eu e do mundo. Mas, nesse estágio inicial, o Aleph significava uma visão unificadora que lhe permitiria escrever uma obra substancial que, tal como o Ulisses de Joyce, identificaria o autor com o mundo específico que o havia moldado, ao mesmo tempo em que daria uma qualidade universal a sua experiência.

Faz 25 anos hoje que morreu, em Genebra, o escritor argentino Jorge Luis Borges. Naquela época, sua obra já havia alcançado fama e reconhecimento, mas as inúmeras querelas em que se envolveu ao longo de seus quase 90 anos haviam deixado suas marcas em sua reputação como figura humana. Seu nome não era consenso na Argentina ainda dominada pela força do Peronismo, ao qual havia se oposto. Também no restante da América Latina sua pessoa provocava reações perplexas: era admirado pelo que havia escrito, mas seu flerte com os regimes ditatoriais do continente, em especial o de Videla na Argentina e o de Pinochet no Chile, levantavam contra ele as restrições de praxe. Não apenas na América Latina, a bem dizer. A esse respeito, leiam a narrativa que o inglês Christopher Hitchens faz em seu livro de memórias Hitch 22 (Nova Fronteira) de uma entrevista que realizou com Borges em 1978, quando cobria a Copa do Mundo na Argentina. Hitchens encontrou aquele que para ele era um ídolo, teve o prazer de ler para ele ao longo da tarde e, já no momento da despedida, ouviu seu herói literário elogiando o regime que fazia uma multidão de opositores desaparecer. A maneira como Hitchens constrói e colore tal narrativa é brilhante.

Pois hoje, duas décadas e meia após sua morte, fica claro que, à medida que o homem se distancia no tempo, mais gigantesca se torna sua presença no panorama literário do continente. Borges está mais presente do que nunca em qualquer questionamento sério que se faça sobre os rumos da literatura na contemporaneidade, para a qual apontou ainda na primeira metade do século 20 com seus contos magistrais e suas leituras acuradas da própria tradição literária. Borges é o tema não apenas da biografia Borges: uma Vida, de Edwin Williamson, de onde foi retirado o trecho acima (Companhia das Letras), ou em um dos episódios mais saborosos da biografia de Hitchens. Ele está nas Entrevistas da Paris Review recentemente relançadas pela própria Companhia das Letras (entrevistado na Biblioteca Nacional, em Buenos Aires, da qual foi por anos diretor); teve praticamente toda sua obra reeditada pela mesma editora; teve três volumes de diálogos com Osvaldo Ferrari lançados em formato bolso pela Editora Hedra (Sobre os Sonhos e Outros Diálogos; Sobre a Amizade e Outros Diálogos e Sobre a Filosofia e Outros Diálogos); foi objeto de um ensaio de Luís Augusto Fischer em Machado e Borges (Arquipélago Editorial), um de Ana Cecília Olmos (Por que ler Borges, Editora Globo) e de outro de Beatriz Sarlo, em Borges: um Escritor na Periferia (Iluminuras). Neste último, a principal crítica em atividade na Argentina , na qual defende que “Borges quase perdeu sua nacionalidade” e “no atual estado das coisas, a imagem de Borges é mais poderosa que a da literatura argentina, ao menos de um ponto de vista europeu.” É verdade. Borges é hoje tomado muitas vezes como o protótipo ideal de um “autor do mundo”, um autor não de uma literatura em particular, mas da literatura, ponto.

A biografia de Williamson, embora minuciosa (e para este leitor em particular bastante polêmica, uma vez que busca na vida do autor as chaves para sua ficção, o que é, na minha opinião, um caminho certo para o desastre), é uma entre um grande número de obras dedicadas à vida do autor. Em 2009, saiu  Olhar De Borges: Uma Biografia Sentimental, de Solange Fernandes Ordoñez, filha de um advogado amigo de Borges por anos. Há também uma fotobiografia: Borges: uma biografia em Imagens, de Alejandro Vaccaro, outro de seus biógrafos. Quem garimpar em sebos ainda pode encontrar muita coisa lançada na esteira do centenário de nascimento de Borges, comemorado em 1999, entre eles o depoimento de Maria Esther Vásquez, sua amiga pessoal, na biografia Esplendor e Derrota (na qual faz duras críticas à viúva de Borges, Maria Kodama).

Hoje faz 25 anos que morreu Borges. E sua presença é tão avassaladora que quase nem se nota.

Mestres fora dos moldes

02 de julho de 2008 3

Quem leu a central do Segundo Caderno de hoje deve ter acompanhado a entrevista feita pelo nosso colega Rodrigo Breunig com o professor, crítico e escritor Luís Augusto Fischer. Fischer lança hoje às 19h na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country sua coletânea Machado e Borges: e outros ensaios sobre Machado de Assis, uma série de estudos nas quais Fischer aprofunda, com rigor acadêmico, sua obsessão de leitor com o gênio de Machado. Como espaço de jornal é um saco e a gente está sempre cortando material, vai abaixo a íntegra da entrevista, muito boa, diga-se de passagem. Divirtam-se

Zero Hora – Como surgiu sua vontade de investir mais na aproximação entre Machado e Borges?
Luís Augusto Fischer –
Talvez tenha sido numa das leituras que fiz do Literatura e subdesenvolvimento, artigo do Antonio Candido de grande inspiração, em que ele menciona que Machado não conseguiu ser lido fora do país em sua época, mas Borges sim. Ele não estende o comentário, mas aí deve ter entrado em ação a minha relativa intimidade com a obra dos dois, que eu leio regularmente há muitos anos, mais de 20, quase 30. Além disso, eu já ministrei cursos aproximando os dois, sempre a partir da idéia de formação de uma literatura tal como Candido define; com essa perspectiva armada, fica relativamente fácil ver que Machado é para o Brasil o que Borges é para a Argentina: são dois autores que lêem a tradição nacional respectiva e, apreciando criticamente o que já foi feito, rejeitam as restrições nacionalistas, sem nunca perderem de vista a matéria local com que trabalham. Fácil de dizer, assim de longe, mas difícil de executar artisticamente; e foi o que eles fizeram.

ZH – Um seus dos pontos de comparação dos dois é a “desconfiança no realismo”.
Fischer
– O caso é, como eu tento explicar com certo detalhe, que os dois poderiam ter enveredado por um caminho realista mais óbvio, acompanhando cada um a sua geração (Machado com os naturalistas do final do século 19, Borges com os neo-realistas dos anos 1930); mas nenhum deles enveredou por esse trilho, ao mesmo tempo mais fácil e mais perecível. Por quê? Mistérios da criação, em parte, mas em outra parte opção consciente, em consonância notável com o melhor do pensamento crítico de cada época. Machado por assim dizer parece que leu Freud (não leu, ao que tudo indica), no sentido de ter percebido esse novo abismo entre o autor e os personagens, abismo que não se restringe à figura do narrador tradicional, aquela voz que conta a história sem aparecer. Borges também não deve ter lido, pelo que consigo saber dele, mas igualmente faz sua literatura freqüentar esses novos desvãos, que têm tudo a ver com a (simplifiquemos) crise do sujeito burguês. É por aí a conversa.

ZH – O senhor lança a reflexão de que se Machado tivesse sido só contista “talvez sua sorte fosse outra” fora do Brasil. Essa sorte pode estar mudando, não?
Fischer
– Sim, já está mudando, porque agora o Machado contista parece estar ficando mais legível fora daqui, dada a evidência de traduções novas que começam a aparecer nos países centrais do Ocidente. E o caso é que também o romancista parece estar ficando mais compreensível, agora, talvez porque a mistura de ideário burguês iluminista com sociedade despreocupadamente desigual esteja ficando mais generalizada: no século 19, talvez só o Brasil praticasse essa patifaria de ter uma constituição liberal e ao mesmo tempo manter vivo o escravismo, mas hoje, em certa medida, até mesmo os antigos paladinos do liberalismo, como a Inglaterra, mantêm práticas sociais que excluem explicitamente certos grupos sociais, como é o caso dos imigrantes indesejados. Quer dizer: ok, Machado cresce por sua qualidade de texto, de invenção estilística, cada vez mais visíveis _ e nunca esqueçamos que ele escreveu num dialeto inculto do Ocidente, o português _, mas sobretudo porque ele terá sido o primeiro a flagrar criticamente o que era a realidade da vida burguesa na periferia do Ocidente, onde o couro comia literalmente a fantasia de igualdade proclamada pela ideologia burguesa.

ZH _ Em entrevista recente à Folha de S. Paulo, Roberto Schwarz disse que querer saber se Capitu traiu ou não o marido em Dom Casmurro, querer saber “se fulana foi ou não foi com beltrano”, é “uma curiosidade um pouco boba e malsã”. Essa curiosidade pode mesmo obstruir uma leitura mais funda da obra?
Fischer
_ Para o leitor mais superficial, esse pequeno mistério da Capitu vale ouro, ainda hoje, e contra isso não há o que fazer, e em certo sentido é até desejável que permaneça, porque assim mesmo é que se criam leitores, lato sensu, dentre os quais pode brotar o leitor de qualidade. A vantagem é que Machado tem substância para muito mais, e o leitor exigente ultrapassa essa pinimba da traição e vai encontrar uma larga e profunda interpretação do Brasil e do mundo daquela época ali, nas mesmíssimas páginas.

ZH _ Por mais que se lamente e que os anos passem, não temos edições confiáveis da obra de Machado de Assis. O que temos, como o senhor diz, são algumas edições com mais escândalos e algumas com menos. Neste ano do centenário de morte de Machado tem aparecido muita coisa. Que tal até aqui?
Fischer
_ Não li tudo, nem todas as edições, o que restringe o alcance do comentário. Começo pelo negativo: não é boa a edição das poesias completas pelo Cláudio Leal (editora Record), porque não fez mais que juntar o que se conhecia, sem peneirar vários equívocos que o tempo foi acumulando e sem explicar nada do que precisa. Na parte crítica, do que foi lançado recentemente, tem um livro muito interessante de Gabriela Kvacek Betella, que estou lendo ainda, Narradores de Machado de Assis (Nankin/Edusp), um trabalho de linha schwarziana sobre os dois últimos romances machadianos. Tem o livro do sempre interessante John Gledson, Por um novo Machado de Assis (Cia. das Letras); e tem a bela antologia de crônicas A Economia em Machado de Assis: O Olhar Oblíquo do Acionista (Jorge Zahar), organizada pelo, quem diria, Gustavo Franco, aquele mesmo. Um pouco antes saíram dois livros imperdíveis: um do Hélio de Seixas Guimarães, Os Leitores de Machado de Assis: o Romance Machadiano e o Público de Literatura no Século 19, cujo subtítulo diz tudo, e A Formação do Nome: Duas Interrogações sobre Machado de Assis, de Abel Barros Baptista, este um estudo desconstrucionista com que não concordo mas que é muito inteligente. Perdoada a imodéstia, posso dizer ainda que todos os romances do Machado receberão edição bem sólida pela L&PM, com notas e textos de apoio sobre o autor e a época, num trabalho que conta com dez competentes estudiosos do autor, que eu estou coordenando.

ZH _ Como o senhor escreve, Machado “matou a charada de sua época”. Quem vai matar a charada de nossa época?
Fischer _
Em romance, no que alcanço ver, Paul Auster, mais que outros. No Brasil, quem mais me entusiasma como reflexão estética sobre nosso tempo é o Chico Buarque. Mas isso é opinião de contemporâneo, quer dizer, muito limitada.