Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "Literatura em Inglês"

Cores e flores astrais

03 de setembro de 2014 3
A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

A escritora Eleanor Catton. Foto: NZatFrankfurt, Wikicommons

Logo de cara, a vitória do romance Os Luminares, de Eleanor Catton, na última edição do Man Booker Prize, uma das mais prestigiosas premiações para a literatura em língua inglesa, criou dois factoides que impulsionaram o hype sobre a obra. Então com 28 anos, Catton, canadense de nascimento mas radicada na Nova Zelândia desde a infância, foi a mais jovem escritora a ganhar o prêmio. E o romance, com suas mais de 800 páginas, foi a narrativa mais longa a ser agraciada. São informações que não têm correlação direta com a qualidade da obra (curiosidades como essas quase nunca têm). No máximo, a juventude da autora e a extensão peculiar do romance podem ser indícios a se pinçar no quadro das principais virtudes e problemas de Os Luminares: uma obra ambiciosa, surpreendentemente madura e erudita, construída em uma forma tão rigorosa que foi seguida até as últimas consequências – não necessariamente para o bem do livro.

Lançado há pouco no Brasil,Os Luminares (Tradução de Fabio Bonillo Globo, 880 páginas, R$ 69,90) se passa no interior da Nova Zelândia, entre 1865 e 1866, no auge da corrida do ouro que de fato teve lugar no país naqueles dias. No povoado de Hokitika, que no período de dois anos passou de um amontoado de cabanas para uma cidade em expansão, o recém-chegado Walter Moody surpreende inadvertidamente uma reunião de 12 homens no salão de um hotel. Todos estão ali para discutir quatro eventos aparentemente não relacionados, mas que se sucederam na mesma noite: a morte suspeita de um ermitão que vivia nas proximidades; a chegada a Hokitika de um candidato ao parlamento; o misterioso desaparecimento do mais jovem e bem-sucedido garimpeiro local e o fato de uma jovem prostituta ter sido encontrada quase morta devido a uma ingestão pesada de ópio.

Os presentes à misteriosa reunião são dois chineses (um garimpeiro e um ourives), um aborígene, um jornalista, um hoteleiro, um proprietário rico de minas da região, um corretor comissionado, um boticário, um funcionário do tribunal, um bancário e um agente portuário. Estão ali porque ao longo das últimas semanas cada um deles esteve envolvido com um ou mais dos quatro acontecimentos, que se revelam de algum modo conectados no momento em que aparecem na cidade uma ex-cafetina que se diz viúva do homem morto e um belicoso capitão de navio metido em expedientes escusos.

Os homens reunidos não são 12 por acaso: cada um corresponde a um signo do Zodíaco na arquitetura que sustenta a trama. Os outros que em torno deles “gravitam”, como o próprio Moody, a suposta viúva, o marinheiro, são planetas. À medida que a narrativa avança e recua, reconstituindo os contatos prévios de cada personagem com os demais, avança-se por um mapa celeste que espelha as interações dos personagens. Há outras surpresas formais. Escrito com uma linguagem suntuosa que por vezes parece acertar o ponto e por vezes parece um pastiche de Dickens, o romance se subdivide também em 12 capítulos, cada um passado em um mês. Como um livro que consome a si mesmo, cada capítulo é menor que o precedente, das longas 370 páginas do primeiro até uma vinheta de duas páginas no 12º.

Mesmo com uma estrutura tão metódica e planejada, o livro de Catton é uma leitura que flui enquanto entretece as narrativas de seus personagens, ligando-as a fraudes de registros de mineração, chantagens, adultérios, e a trajetória misteriosa de uma quantia em ouro desaparecida. Subterrâneas à trama, estão as movimentações de uma insuspeita história de amor entre dois personagens comparados ao sol e à lua na dinâmica do livro – são eles os “luminares” do título, coração camuflado da narrativa e subtrama na qual Catton cede a toques de fantástico que parecem deslocados no rigoroso realismo histórico de todo o resto. É ao amarrar suas histórias que o romance torna-se prisioneiro de sua estrutura. Depois de avançar por quatro capítulos de mais de 750 páginas, Catton acha por bem recuar a narrativa um ano no tempo para seguir os meses anteriores à reunião que abre a narrativa. É um recurso desnecessário a não ser para um tipo de leitor tão desatento que provavelmente já teria abandonado o livro antes – e que produz um paradoxo: as pouco mais de 100 páginas até o fim do romance são mais tediosas do que as 750 anteriores, por reiterarem relações já subentendidas.

Capa do livro Os Luminares

Capa do livro Os Luminares

Conflito de versões numa terra fraturada

13 de junho de 2014 0
Capa do livro "Absolvição"

Capa do livro “Absolvição”

Estratégias comerciais de editoras podem ser um involuntário problema para o autor. Veja-se o caso do recente Absolvição, romance de estreia do escritor sul-africano Patrick Flanery (Alfaguara, tradução de Ângela Nogueira Pessoa, 408 páginas, R$ 54,90 impresso, R$ 29,90 em e-book ). Flanery aborda, em um romance longo e de estrutura fragmentada, as feridas e os traumas da transição da África do Sul ao fim do apartheid. Apartheid + autor africano, a editora faz as contas e se apressa a informar na orelha que o autor vem sendo “comparado a J.M. Coetzee por sua visão sombria e desconcertante da história sul-africana”.

Para quem acredita no que se lê em orelhas de livros (o que não se deveria fazer, mas até aí também não se deveria dirigir sem cinto de segurança, vai saber), a afirmação pode ser irresistível, mas é bobagem. Tirando a nacionalidade do autor e o fato de o romance se passar na África do Sul, Flanery, com uma prosa detalhista e centrada em vasculhar as emoções de seus personagens, não poderia estar mais distante do Nobel Coetzee. É aí que surge o involuntário problema, porque a orelha vende errado o peixe certo: Flanery não é Coetzee, e não precisa ser, para tornar Absolvição um romance muito interessante.

Absolvição é, em uma análise sintética, um estudo sobre as diferentes formas de esconder a verdade que se desenvolvem na esteira de um regime totalitário. A trama entrelaça as vidas de Clare Wald, uma célebre e já idosa escritora sul-africana, e de Sam Leroux, acadêmico contratado para escrever a biografia da grande autora. Parte da narrativa encena as entrevistas entre ambos, na casa para a qual a escritora se mudou após uma suspeita tentativa de assalto. As interações entre Clare e Sam são inicialmente ásperas, com a autora deixando clara toda sua má vontade com o projeto da biografia, aparentemente imposto pelo seu editor. À medida que os contatos vão se tornando mais íntimos e o diálogo mais franco, outras linhas narrativas vão dando pistas de que, embora não toquem no assunto, ambos estão ligados por circunstâncias passadas e por traumas antigos de ambos: o assassinato da irmã de Clare, casada com um figurão da extrema-direita pró-apartheid; o desaparecimento da filha da escritora, Laura, ligada à luta armada contra o regime separatista; a infância infeliz de Sam, órfão adotado por um tio violento e abusivo.

Embora a concatenação dessas linhas narrativas possa ter um quê de desconcertante novela mexicana, o que está no centro de Absolvição é o conflito de versões entre o que Sam sabe, ou pensa que lembra, o que os registros contam, o que Clare está disposta a contar ou imagina, como ficcionista que é. Uma ciranda de dissimulações que a seu modo reproduz a lógica ditatorial do regime do apartheid. Em um Estado que mente, segrega e tortura, o resultado só poderia ser uma sociedade em que a desconfiança é a norma. O olhar múltiplo de Flanery também para as vítimas do processo histórico encontrará ressonância em um Brasil que ainda luta para purgar os crimes de sua própria ditadura.

Don DeLillo do lado de fora da vida

02 de dezembro de 2013 0

O-Anjo-Esmeralda

Texto de Luiza Piffero

Os personagens de Don DeLillo não fazem muito mais do que contemplar o que acontece ao seu redor, como se assistissem à vida se desenrolar ao largo deles. Quando encontram alguma coisa ou alguém para se agarrar, o fazem de maneira obsessiva.

Embora os nove contos da coletânea O Anjo Esmeralda cubram mais de três décadas na carreira de DeLillo – mais conhecido por romances como Ruído Branco e Submundo – e seus personagens habitem mundos tão diversos quanto o espaço sideral e uma ilha caribenha, eles mantêm esse forte traço em comum. O autor escolhe protagonistas que não estão presos no fluxo cotidiano da cidade e não precisam orientar seus dias pelo relógio: um viajante, um astronauta, um presidiário, um desempregado que passa as suas horas frequentando cinemas. Desde seus primeiros contos, fica claro que DeLillo, um dos autores norte-americanos mais festejados da atualidade, não estava interessado em histórias com início, meio e fim, mas na fabricação de personagens complexos e narrativas imbuídas de um mistério que cativa sem causar sobressaltos. Por esse motivo, ele presta especial atenção aos diálogos e jamais desperdiça palavras em descrições longas. Prefere a concisão.

Ler um conto seu é desacelerar e sentir a sensação de viver fora da urgência das cidades. Seus personagens têm tempo de sobra para refletir sobre si mesmos ou o que se passa diante deles. Por isso, acabam formulando pensamentos delicados, coisas secretas que um dia todos pensamos sem dar maior  importância e, na sua mão, viram um trampolim para questionamentos profundos. Obcecados por essas impressões,distanciam-se da realidade.

Esse desacelerar não quer dizer correr o risco de pegar no sono. O texto de DeLillo alcança um ritmo e é arquitetado de uma forma tal que o leitor é deixado sempre em estado de alerta. Esse traço o rendeu o apelido de“xamã da escola paranoica da ficção americana” e alguns críticos apontam nele o talento para absorver a atmosfera de medo e insegurança que se instalou nos Estados Unidos pós-11 de setembro.

O cuidado com as estruturas dos textos, muito mais dinâmicas do que as histórias, aparece bem em O Corredor. Nesse conto, DeLillo descreve a ação de maneira a colocar o leitor a correr junto do protagonista, que se exercita em um parque, arfando e respirando o mesmo ar, assistindo à paisagem mudar a cada passo. As sensações do personagem
são revezadas com as visões fragmentárias do espaço e de um episódio insólito que ele testemunha. Os personagens de DeLillo passam tanto tempo contemplando o mundo, excluídos, que, tal como escritores, passam a inventar suas próprias versões dele. Nas entrelinhas de cada conto, DeLillo parece sussurrar que, quando o mundo não faz mais sentido, a ficção é única saída.

Dois sentidos de execução

28 de novembro de 2013 0

quintateste

Um dos principais autores policiais em atividade, Michael Connelly produz muito e rapidamente. E não raro ancora suas tramas na realidade imediata, transformando-as em comentários da contemporaneidade. É o que faz em seu mais recente lançamento no Brasil, A Quinta Testemunha, no qual usa as consequências da crise financeira internacional como pano de fundo para um romance de crime.

Em A Quinta Testemunha, o protagonista é o advogado Michael Haller – que já havia aparecido em outros romances, como O Poder e a Lei, transformado, em 2011, num filme estrelado por Matthew McConaughey. Especialista criminal, Haller é forçado pela crise a mudar de ramo, atuando como defensor de alguns dos milhares de americanos que estão tendo suas hipotecas executadas pelos bancos. Com o desenrolar do romance, no entanto, ele se vê outra vez diante de um júri criminal depois que uma de suas principais clientes, uma ruidosa ativista, é acusada de executar – no sentido físico – o gerente de execuções – no sentido jurídico – do banco que tentava tirar- lhe a casa.

Uma das características que dotam de valor a obra de alguns grandes romancistas policiais contemporâneos é o equilíbrio delicado entre a manutenção de uma forma que é mais ou menos a mesma desde o século 19 (afinal, um romance de crime faz parte de um gênero bastante demarcado) e a subversão dessa mesma forma. É o truque dos grandes autores de suspense da contemporaneidade, como Fred Vargas, Dennis Lehane, Ian Rankin: desenvolver um estilo pessoal reconhecível no meio do que é, essencialmente, uma receita formulaica.

Connelly também faz parte desse time. Seus livros, embora tragam histórias fechadas e independentes, têm o hábito balzaquiano de fazer com que personagens de uma narrativa apareçam como coadjuvantes em outras, montando um grande painel da sociedade americana. Mas, em A Quinta Testemunha, ele é menos bem-sucedido. Diferentemente dos livros de Connelly protagonizados pelo detetive Harry Bosch, as histórias em que Michael Haller é o centro têm de lidar, ainda, com outra fórmula (bem típica do mercado editorial americano): o romance de tribunal.

Em A Quinta Testemunha, é aí que Connelly desaponta.  Embora trate de um tema candente do momento, como a crise econômica, o foco do romance no julgamento (também um teatro com regras demarcadas) não se afasta muito do modelo de autores como John Grisham ou Scott Turrow. Dado o que Connelly já fez antes, não é o bastante.

O Senhor das Moscas e o bicho em nós

27 de novembro de 2013 0
Imagem da adaptação cinematográfica de O Senhor das Moscas

Imagem da adaptação cinematográfica de O Senhor das Moscas

Texto de Eduardo Nunes

Já pensou como seria se pudéssemos recriar a civilização noutro lugar, a partir de um grupo de crianças ainda não totalmente corrompidas pelos nosso piores vícios?

Em O Senhor das Moscas, de 1954, William Golding nos apresenta um dos possíveis desdobramentos dessa premissa, ao narrar o estabelecimento de uma sociedade após a queda, em uma ilha paradisíaca do Pacífico, de um avião que transportava meninos ingleses em fuga de uma guerra nuclear, em um tempo incerto.

Sem adultos sobreviventes, os jovens estudantes passam a viver num microcosmo em que são refundadas, de modo alegórico, algumas das bases da nossa civilização.

Três personagens se destacam no romance: Ralph, o belo, que representa o poder estatal constituído; Jack, o forte, que personifica a belicosidade, a selvageria, a diversão; e Porquinho, o odiado, símbolo da intelectualidade, que, por sua aparência física grotesca e retórica irritante, é desprezado por todos – menos, em certa medida, por Ralph, que se vale da inteligência do gordinho para governar.

A formação de um Estado é um dos primeiros acontecimentos após a queda do avião e ocorre, sobretudo, por decisão de Porquinho: é ele quem vê em uma linda concha branca encontrada na praia o signo capaz de congregar a comunidade e em Ralph a figura ideal para presidir a república de meninos – cabendo ao próprio Porquinho o papel de Eminência Parda.

Além da concha, tocada como uma trombeta por Ralph para convocar reuniões e segurada pelos oradores para garantir o direito de falar nessas assembleias, outros elementos na ilha reproduzem dimensões da civilização de onde provêm os jovens estudantes:

* A fogueira, que deveria ficar constantemente acesa para fazer fumaça e chamar a atenção de algum navio que pudesse estar naquela parte do Oceano Pacífico. No microcosmo da ilha, a esperança de salvação depositada em um barco incerto vindo de algum lugar do mar infinito faz as vezes de religião. Os jovens vivem o constante dilema de se concentrar na vida na ilha, dedicados à caça e à diversão, ou sacrificar tempo e energia para manter acesa a fogueira que pode, ou não, trazer a salvação.

* Os óculos de Porquinho, o único meio de acender a fogueira ao serem usados como lente, representam a técnica – uma técnica que pode ser roubada do intelectual, que se torna, assim, descartável.

* “Os pequenos”, crianças menores, que não participavam das decisões do Estado e dedicavam o tempo na ilha a comer frutas e brincar na praia, representam as massas que não se envolvem na política ou na definição dos rumos da sociedade.

* “O Bicho”, um animal imaginário que aterroriza os meninos e motiva caçadas e explorações na ilha – quando começa a se sobressair a força da liderança de Jack. O Bicho é uma alegoria para o demoníaco, o sobrenatural, o terror. Mais tarde, uma caveira de porco cravada em uma estaca pelos caçadores liderados por Jack (essa cabeça se revela o Senhor das Moscas que dá nome ao livro) fala ao menino Simon (definido por Porquinho como “louco”) que o Bicho está dentro de cada um dos jovens da ilha. O Bicho é o Mal, que não pode ser destruído.

AVISO: a partir daqui, os spoilers ficam mais pesados.

Jack, já líder dos caçadores da ilha, ganha cada vez mais influência, desafia a autoridade do Estado e reivindica a liderança formal sobre todos os meninos. Derrotado na arena democrática, ele rompe com Ralph e funda em outra parte da ilha uma tribo rival, que seduz a maioria dos jovens com a promessa de caça, diversão e proteção mútua – depois, seu Estado se revela uma ditadura cruel e militarizada.

A tribo de Jack dizima o Estado de Ralph. Simon acaba morto em um ritual macabro da “dança da caça ao porco” (uma espécie de festim satânico), Porquinho é assassinado depois de ter os óculos roubados, os gêmeos Sam e Eric são coagidos pela força a se juntar ao bando e Ralph, isolado, passa a ser caçado por toda a ilha.

No final do romance, os “selvagens” (como Ralph define seus perseguidores) incendeiam toda a ilha para obrigar a sua presa a revelar o esconderijo. Numa fuga desesperada dos assassinos sedentos de sangue, o líder deposto chega à praia e depara com a tripulação de um navio de guerra britânico, que chegou à ilha atraída pela fumaça do grande incêndio florestal.

A salvação de Ralph dos seus algozes poderia parecer um irritante Deus ex machina colocado lá só para livrar miraculosamente o personagem da morte, mas acaba sendo o desfecho perfeito para o livro, pois nos obriga a colocar a nossa civilização inteira em perspectiva e olhá-la com olhos de fora.

Assumindo-se que a ilha do livro é a Terra e os meninos são a humanidade, os marinheiros representam um Outro mais desenvolvido ou no mínimo mais poderoso – extraterrestres evoluídos ou deuses, por exemplo.

Imagine se, agora mesmo, a nossa praia global fosse visitada por uma nave de seres evoluídos e estes nos flagrassem numa perseguição de morte iniciada sem nenhuma causa minimamente justa, que é o que acontecia com Ralph, que estava prestes a ser assassinado apenas para satisfazer a vontade de poder de Jack. Não pareceríamos crianças imaturas? Como explicar as irracionalidades do mundo a esses seres?

OK, talvez depois descobríssemos que esses ETs eram também representantes de uma sociedade em guerra – que é precisamente o que acontece no livro – e aí podemos imaginar o terror do comandante do navio ao chegar a uma ilha paradisíaca e ver crianças náufragas reproduzindo os mesmos erros do mundo dos adultos.

É… A caveira que falou a Simon tinha razão. O Bicho está em todos nós. E não pode ser morto.

O_SENHOR_DAS_MOSCAS_1237554429P

Algumas notas sobre A Vida de Pi

02 de julho de 2013 0

1 – Precisei esses tempos finalmente encarar o romance A Vida de Pi, de Yann Martel, para um debate que participei há algum tempo na Palavraria. Dessa leitura, ficou a noção de que, ao menos em termos de construção simbólica, o romance é mais complexo do que simplesmente um “plágio de Moacyr Scliar“, como foi divulgado pela imprensa internacional na ocasião em que Martel foi premiado com o Man Booker Prize. De fato, o próprio Martell admitiu mais tarde haver retirado a imagem do homem em um bote confrontando um predador selvagem de uma das partes de Max & os Felinos. Martell não leu o livro, leu apenas a descrição da imagem em uma resenha da edição americana, e se apropriou da imagem para seus próprios propósitos artísticos – e aqui encerramos a parte deste texto referente a este assunto. Scliar, um homem de elegância ímpar, manifestou-se publicamente a respeito em 2009 e comentou que apropriações eram parte do jogo literário – o que talvez Martell não tivesse feito direito foi o reconhecimento, mais tarde incluído em uma nota em edições posteriores. O que me interessa aqui é outra apropriação realizada por Martel: a de Robinson Crusoe, um dos livros fundadores do romance moderno e a história paradigmática de sobrevivência em circunstâncias adversas.

2 – Em seu estudo A Ascensão do Romance, Ian Watt comenta que a chave para entender o grande mito literário que é Robinson Crusoe é o modo como a história do náufrago criada por Daniel Defoe realiza, no plano literário, a oportunidade única de concretizar o grande anseio da civilização moderna: a absoluta liberdade econômica, social e intelectual do indivíduo“. Crusoe é o herói necessário para a modernidade industrial e capitalista que nascia com ele: o homem razoavelmente comum que, munido de habilidade e engenho, transforma e domina a natureza hostil, não apenas sobrevivendo nela, mas dela tomando posse para uso em seus próprios termos. Claro que Crusoe, como Watt não deixa de ressaltar, não domina a ilha sozinho, mas amparado no legado do engenho humano, ao ter acesso ao estoque de ferramentas que consegue salvar do naufrágio – uma ideia que retorna na versão cinematográfica mais recente de Robinson Crusoe, o filme O Náufrago, estrelado por Tom Hanks (que, embora não assuma a adaptação abertamente, é eivado do espírito do livro, quer os produtores que o financiaram tenham lido a obra ou apenas ouvido falar de um resumo da história). Ainda assim, embora o acaso lhe proporcione os meios e as ferramentas, são a vontade e o intelecto “superiores” do homem civilizado Crusoe que garantem a ele a predominância natural tanto sobre o ambiente quanto sobre o outro ser humano que cruza seu caminho. Como diz Watt: “Mesmo quando já não está sozinho, sua autarquia pessoal permanece – na verdade aumenta: o papagaio grita o nome do dono; Sexta-Feira espontaneamente jura ser seu escravo para sempre. Crusoe imagina-se monarca absoluto, e um visitante chega a perguntar se ele é um deus”.

3 – A Vida de Pi é, a seu modo, a inversão desse processo. O jovem Pi Patel, garoto indiano que está migrando para o Canadá com a família, naufraga e passa mais de 200 dias à deriva a bordo de um bote que, primeiramente, divide com o tigre Richard Parker, uma hiena, uma macaca e uma zebra. Previsivelmente, à medida que os dias passam, a luta natural se instaura, a hiena mata a zebra e a macaca, e é, enfim, morta pelo tigre. Restam apenas Pi e o tigre, um magnífico animal descrito para simbolizar a força e a majestade do mundo natural diante da frágil criatura humana. Pi, contudo, sobrevive. Em parte porque, assim como o Crusoe da história de Defoe, sabe aproveitar e lançar mão das coisas que o engenho de outros preparou para ele (boias, rações náuticas, cordas, remos). Só que, se Crusoe conseguia sobreviver e dominar o ambiente em termos monárquicos, levando a efeito a ideologia do homem branco europeu civilizador que tornou o livro tão popular, Pi é o anti-Robinson Crusoe porque não é o elemento mais forte na equação. Se Crusoe, com seu espírito empreendedorista europeu, se dá ao luxo de rebatizar o outro homem que encontra porque não está interessado em aprender seu nome, Pi, ao contrário, só consegue permanecer vivo por tanto tempo pelo conhecimento que uma vida passada no zoológico legou-lhe a respeito do animal como um “outro”. Não é o ambiente, a paisagem nem os demais que se curvam voluntariamente ao engenhoso senhor, é Pi quem precisa ser astucioso para, dentro das regras do mundo animal, transformar o bote em que navegam não em seu reino particular, mas em uma reprodução passável da jaula que o tigre habitava no zoológico antes do naufrágio. Pi derrama a própria urina sobre a parte do bote coberta por uma lona, tem sucesso em pescar e não se alimenta dos peixes que apanha, mas os oferece regularmente a Richard Parker, reservando para si as rações de bordo. Sob esse prisma, Pi não é o europeu independente, é o natural do terceiro mundo sobrevivendo graças a uma complexa e brutal relação de “dependência” com o animal mais forte. Não deixa de ser irônico pensar nisso ao constatar que o romance, lançado aqui inicialmente como A Vida de Pi, mudou seu nome em edição posterior para As Aventuras de Pi, o nome da adaptação cinematográfica de Ang Lee, em mais uma clara mostra da relação sobrevivência/subserviência. Mantive, nestas notas, o primeiro nome do livro, e sim, foi por pura teimosia, se você está perguntando.

4 – Tivesse parado por aí, talvez A Vida de Pi fosse o grande livro que quase chega a ser, mas há uma outra dimensão que se sobrepõe, e é, a meu ver, a grande responsável pela insatisfação com o conjunto: o caráter doutrinário religioso. Ao tecer o que parece uma fábula a respeito da dominação, invertendo os sinais de um mito literário fundador do romance no ocidente, Martel a transforma em uma alternativa em um conflito de versões que pede ao seu leitor que, a exemplo do narrador do romance, escolha entre qual história prefere. Alguns viram aí uma afetuosa declaração de amor à literatura e seu potencial mágico de maravilhamento. Mas, assim como Crusoe, em que pese sua grande capacidade de maravilhar seus leitores, não é um livro neutro do ponto de vista ideológico, A Vida de Pi urde o twist final de tal modo na descoberta espiritual do protagonista que a escolha final não é sobre a imaginação versus a crueza da realidade, é sobre o mundo como ele é e a dimensão metafísica de Deus – o que torna a submissão de Pi diante do elemento mais forte no bote não apenas uma alegoria política do mundo contemporâneo, mas uma forma velada de evangelização. O que é extremamente empobrecedor quando comparado com outra experiência de inversão da história de Crusoe: Foe, de J.M. Coetzee. No romance de Coetzee, é também o “outro” o centro do relato de Crusoe: uma mulher, Susana Barton, que, em uma viagem náutica em busca de uma filha raptada, naufraga após um motim e vai parar na mesma ilha em que já estão Crusoe e Sexta-Feira. Depois que o trio é resgatado, e Crusoe morre antes do retorno à Inglaterra, ela tenta relatar suas aventuras, torna-se amante do escritor Daniel Foe, a quem pede ajuda para tratar seu manuscrito, mas que transforma a história na narrativa das aventuras do falecido Crusoe. O Sexta-feira do romance de Coetzee é um homem privado da palavra ao ter sua língua cortada. Foe (sobrenome do escritor e também, convenientemente, uma das palavras inglesas para “inimigo” ou “adversário”) reproduz, simbolicamente, essa atrocidade ao privar Susana de sua voz literária e substituí-la pela de Crusoe. A temática de Foe não é a linguagem do divino expressando-se na ficção ou no maravilhamento, é, antes, a tematização do silêncio oprimido. O negro Sexta-Feira e sua incapacidade de comunicação – que resiste mesmo às utópicas tentativas de Foe de ensiná-lo a escrever – é um toque patético que, em vez de reduzir seu personagem diante da metafísica ou forçar tanto o narrador como seu leitor a uma escolha entre duas versões da mesma história (como o livro de Martel), arrisca a completar os vazios da história original, trazendo à tona, por espelhamento, seus sentidos ocultos. O que não deixa de ser um exemplo bastante ilustrativo de quem chegou mais perto daquilo que chamamos de “grande arte”.

Roth e as lições do desejo

24 de abril de 2013 0

Philip Roth no traço de Gilmar Fraga

No momento em que os admiradores de Philip Roth ainda absorvem a notícia recente de sua aposentadoria, chega ao Brasil uma nova tradução de um de seus livros que melhor sintetizam suas qualidades como escritor. Em O Professor do Desejo, Roth mergulha o leitor no intelecto e nas fragilidades de um jovem professor universitário, David Kepesh. Embora não seja tão recorrente como Nathan Zuckerman, personagem presente em oito livros de Roth, Kepesh é a figura central de três obras do escritor. Sua primeira aparição se dá em The Breast (1972), novela na qual Roth assume com voracidade sua dívida para com Franz Kafka. O jovem Kepesh acorda certo dia transformado em um seio gigantesco de 70 quilos. Com a volúpia narrativa que o tornou um dos maiores autores americanos, Roth investiga a fundo as consequências sensoriais de tão bizarra transformação.

Publicado em 1977, O Professor de Desejo é o segundo episódio dessa trilogia – embora indícios sutis na narrativa pareçam posicionar a história do segundo livro antes da transformação kafkiana vivenciada no primeiro. Kepesh é, neste romance, um jovem intelectual presa de uma permanente inquietação que o leva a buscar experiências eróticas e a mergulhar em relacionamentos desastrosos. Crescido no pós-guerra, filho de um casal judeu que mantém um hotel de temporada nas montanhas, ele próprio recorda sua história – em retrospecto, mas com os verbos no tempo presente, técnica responsável pela sedução e pela estranheza de uma narrativa que, ao mesmo tempo, relembra e avança. Criado em um cenário de tranquila domesticidade familiar, Kepesh sai de casa para a universidade e encontra, fora de seu protegido território da infância, um mundo de tentações a que não está preparado para resistir. Fascinado por Kafka (obviamente) e por Tchékhov, Kepesh oscila entre a erudição interessada no impulso vital da grande arte e o vórtice de sensações ao qual é arrastado pelos seus impulsos sexuais.

É Milan Kundera, em um dos ensaios da recente colêtanea Um Encontro (Companhia das Letras, 176 páginas, 2013), quem nota outro dos interessantes artifícios de O Professor de Desejo. Como contraponto à história de Kepesh, representativa de uma geração que amadureceu em plena revolução sexual, Roth oferece os pais do personagem, um casal que passou a vida inteira junto e pautado pelos valores anteriores de família e pela visão pré-Guerra de dever e vida adulta – em última análise, os pais de Keppesh são pessoas boas, mas incapazes de compreender as angústias do filho, formado por outro ambiente e outra mentalidade.

A nova tradução, de Jorio Dauster, ganha uma edição sofisticada, representativa da gradual mudança do status de Roth como escritor. A versão anterior, publicada pelo Círculo do Livro, trazia uma capa de inescapável charme vulgar ostentando um umbigo lascivo – para tirar proveito da fama de pornográfico que acompanhou os primeiros trabalhos do autor. Mas, ainda que o sexo como meio de interação com o mundo seja uma constante dos personagens de Roth, homens instruídos condenados a refletir incessantemente sobre suas permanentes inquietações eróticas e existenciais, não é a excitação gratuita (marca do pornográfico) o objetivo de sua literatura. A linguagem flaubertiana com que Roth esmiúça a psique de Kepesh tem mais sucesso em provocar comiseração e riso do que tesão.

Relido agora, com a perspectiva do que Roth fez em obras tardias como Homem Comum, Fantasma Sai de Cena e no próprio O Animal Agonizante (2001), que encerra a trilogia de Kepesh com um belo réquiem pela decadência do corpo, O Professor de Desejo mostra-se a prova de uma perfeita unidade temática, um plano artístico bem delimitado atravessando os livros ao longo do tempo. Mais do que um escritor do erotismo, ele é um autor do corpo – não é à toa que, na primeira aparição de Kepesh, ele se vê transformado em uma gigantesca glândula mamária. Em Kepesh e em outros livros protagonizados por Nathan Zuckerman na juventude, os impulsos do corpo estão sempre em conflito com a aparente dignidade do intelecto (e em O Professor do Desejo há uma cena absurda e engraçadíssima que ilustra de modo magistral esse confronto: um sonho no qual Kepesh se vê frente a frente com uma idosa que é apresentada a ele como a prostituta que atendia Franz Kafka).

Já nos livros tardios, é a mente lúcida do mesmo tipo de protagonista que se vê traída pela inevitável falência física. Comum a ambos, está o diagnóstico da fragilidade humana e de suas tentativas insistentes e belamente patéticas de diminuir o desconforto de tal fraqueza.

Algumas notas sobre Philip Roth

19 de março de 2013 0

O escritor Philip Roth. Foto: Divulgação

Texto de Pedro Gonzaga

1 – “Não tenho mais a resistência física para suportar a frustração. Escrever é frustração – frustração diária, sem falar na humilhação. Não consigo mais encarar dias em que jogo fora as cinco páginas que escrevi. Não posso mais fazer isso.” Assim Philip Roth anunciou a sua retirada do cenário literário, no fim do ano passado, em matéria do New York Times, confirmando a declaração feita anteriormente para a revista francesa Les Inrockuptiples. No auge de uma carreira frutífera, um dos mais importantes escritores vivos decide levar a vida comum do octogenário que ele se torna hoje. Alguma coisa em nós, no entanto, não aceita sua decisão. A alegria revelada pelo escritor no resto do artigo nos soa quase ofensiva. Ouso dizer que para alguns de nós seu ato seguirá incompreendido, quem sabe uma jogada de marketing. Então lembramos da seriedade com que escreveu os 31 livros do que agora parece ser sua obra completa.

2 – Anos atrás, quando ainda era músico em tempo integral, lembro de ter lido em uma revista especializada em saxofone (os americanos sempre souberam o que era segmentação de mercado), uma reportagem com um grande artista do instrumento, que recentemente se aposentara. Em sua casa de campo, ele recuperava os pontos altos da carreira. A certa altura, o jornalista percebeu o estojo debaixo da cama e perguntou se ele ainda tocava, ao que veio a resposta: “Nunca mais”. Diante da surpresa do interlocutor, que o via ainda cheio de saúde, o músico acrescentou: “Quando tenho saudades, ouço uma de minhas tantas gravações. Não seria mais capaz de tocar daquela maneira, por um aspecto físico, mas também vital”.

3– Em um dos mais belos livros de amor à arte já escritos, Presenças Verdadeiras, de George Steiner, a certa altura lemos o seguinte: “O poema, a sonata, a pintura, poderiam muito bem não existir. Exceto na perspectiva trivial e contingente de uma comissão, de uma necessidade material, do uso da coerção física, o fenômeno estético, o ato de dar forma a alguma coisa, está em todos os tempos, em todos os lugares, livre para não se materializar”. O aspecto gratuito da arte, sua falta de função, sua liberdade de não ser. Por querermos tanto que ela seja, por queremos que ela exista, esquecemos do único elo da cadeia em que a criação é pura. Todo o resto, este artigo, os estudos acadêmicos, todos os satélites que orbitam em torno das obras artísticas dependem desse gesto criador, em parte sempre inexplicável, sempre inconcebível, sempre ameaçado por aniquilamento que é o abandono da escrita, da pintura, do instrumento.

4 – Não escrever, deixar de escrever quando se poderia seguir escrevendo. Movimento que nos faz pensar em primeiro lugar em desistência. Escrever é prazeroso, dizem certos manuais. A alegria da arte e outras fórmulas sofríveis que mascaram a complexa gênese daquilo que não precisaria existir. Não se pode negar que uma grande obra dará muito mais aos outros, aos leitores e espectadores, do que ao próprio artista. Por isso, somos nós os injustiçados quando um mestre desiste. Não têm eles o direito de nos privar do que ainda podem nos oferecer. Raros são os casos de um verdadeiro reconhecimento que possa compensar os criadores de alguma maneira enquanto estão vivos. Roth teve sorte de ser reconhecido desde meados da carreira como uma das mais importantes vozes a tratar dos dilemas da América contemporânea. Borges estava velho e cego quando descobriram que ali estava um dos grandes gênios do século 20. Kafka e Van Gogh, desesperançados, optaram pelo radicalismo.

5 – Bartleby e sua tentação, preferir não fazer as coisas, personagem de um conto de Melville, brilhantemente retomado pelo escritor espanhol Enrique Vila-Matas para representar os escritores que deixaram de escrever, em geral por motivos inaparentes. Para os aficionados da literatura, alguns casos clássicos de deserção logo virão à tona: Juan Rulfo, Raduan Nassar, Murilo Rubião, e agora Roth. De certo modo, no post-it afixado no monitor do autor de A Marca Humana há uma pista importante sobre o dilema que se passa do outro lado do balcão: “A guerra com a escrita acabou”.

6 – Nenhuma esperança, nenhuma necessidade. Ter ou não público nunca levou alguém a escrever mais ou menos. O sucesso comercial serve para os best-sellers. Parece haver na verdadeira arte apenas um motor, incorruptível: a integridade. Para atingir essa integridade é preciso mergulhar em terreno movediço durante meses, anos, décadas. Não há garantias. Acertar a mão em um livro, em um tela, em uma peça, em um disco, em um filme, não é garantia de nada.Ao contrário de outras atividades humanas, asseguradas pela uniformidade da burocracia, aqui não há estabilidade. Cada nova empreitada traz consigo a certeza de uma nova e encarniçada e longa guerra. No limite, dedicar-se a uma obra é pôr-se à prova de um modo físico e anímico (e me perdoem o último termo, mas mental seria excluir os sentimentos e aquela outra parte imponderável do fazer artístico).

7 – Sabe-se que por um grave problema na coluna, Philip Roth muitas vezes escreveu de pé seus livros. Flaubert levava horas e mais horas em um punhado de frases. Balzac estourou seu coração de tanto beber café, coagido por prazos impossíveis. Escrever é físico. Rimbaud terminou o que tinha a dizer antes ainda dos 20 anos, gastando o resto de sua energia em outros fronts. Depois do último livro, Nêmesis, de 2010, pela primeira vez Roth se viu sem ter o que escrever. Escrever é anímico. Parar é admitir que um ou outro dos vetores, ou mesmo os dois, já não estão presentes. Esfacelada quedará a integridade. Assim param os gigantes quando param ainda em vida.

8 – Pensando bem, o que talvez saibamos – e isso nos entristece – é que, com um gigante a menos, faltará um tanto mais de integridade ao mundo. Quando um grande artista para, de algum modo, somos devolvidos ao plano da integridade invisível do mundo que habitamos. Certo que muitos de nós se entregam às atividades da vida diária de corpo e alma, como se costuma dizer, mas tal entrega é invisível. Uma vez inserida na necessidade do mundo, na utilidade do mundo, nossa integridade se consome envolta em fenômenos perecíveis. Por estar fora e dentro do mundo ao mesmo tempo, somente a integridade que move a obra de arte (e que nela se preserva) pode servir de espelho para revelar e salvar da consumição a síntese daquilo que é o humano.

Coetzee e a censura

12 de março de 2013 0

J.M. Coetzee na Flip, em 2007. Foto: Walter Craveiro, divulgação

Um dos maiores escritores vivos estará em Porto Alegre no próximo mês. J. M. Coetzee, autor sul-africano hoje residente na Austrália, agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2003, virá à Capital para uma conferência sobre censura.

A palestra de Coetzee em Porto Alegre está marcada para o dia 18 de abril, às 19h, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As inscrições custarão R$ 25 para estudantes e R$ 50 para o público em geral e poderão ser feitas, de acordo com a organização, tanto na Difusão Cultural da universidade quanto por meio eletrônico, mas os detalhes ainda não foram definidos. O serviço completo de inscrições será informado no blog oficial do evento, Lendo Coetzee, que está no ar a partir de hoje (em www.lendocoetzee.com).

O sul-africano vem a Porto Alegre devido ao contato com o escritor desenvolvido nos últimos anos pela professora da UFRGS Kathrin Rosenfield. Em 2010, Kathrin organizou, no Núcleo Filosofia-Arte-Literatura, o seminário O Mal Estar na Cultura, que partia de uma leitura de Diário de um Ano Ruim, lançado no Brasil em 2008, para fazer uma aproximação com a obra de Freud O Mal-Estar na Civilização. O Núcleo contou com o apoio Difusão Cultural da UFRGS, que também colabora nesta vinda de Coetzee ao Brasil.

A passagem do Nobel faz parte de uma dupla visita que o escritor fará a cidades brasileiras em abril. Antes de passar pela Capital, falará em Curitiba, no dia 15 de abril , no Teatro Fernanda Montenegro, em uma conferência que servirá como prólogo para o Festival LiterCultura, que se realizará em agosto. Nos dois encontros, Coetzee será apresentado por Kathrin Rosenfield e falará sobre censura, um tema ao qual já dedicou ensaios – alguns deles incluídos em Given Offense, livro de 1996 ainda inédito no Brasil.

Coetzee deve falar por 50 minutos, sem  perguntas da plateia (fez o mesmo em outra passagem pelo país, em 2007, na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip). Tanto em Porto Alegre quanto em Curitiba, autografará um número reduzido de exemplares de seu romance mais recente, A Infância de Jesus, cuja edição nacional está programada pela Companhia das Letras também para abril. A conferência em Porto Alegre também marcará o lançamento de um livro de ensaios, Lendo J.M. Coetzee, organizado por Kathrin e pelo professor e tradutor Lawrence Flores Pereira.

Coetzee é um dos maiores escritores contemporâneos e, como muitos dos grandes autores com características próprias, é também por vezes vítima de um entendimento superficial ou apressado. Romancista célebre e ensaísta arguto, Coetzee, por sua linguagem sóbria e ressecada, sem arroubos de retórica ou sentimentalismo, é normalmente definido, mesmo por aqueles que nunca leram seus livros, com adjetivos simplificadores como “seco”,“pessimista” ou “econômicos. Para além de tais generalizações, Coetzee é um autor com uma obra de múltiplas ressonâncias, na qual se pode ler alegoria (À Espera dos Bárbaros ou mesmo o recente A Infância de Jesus), fissuras de uma história africana construída sobre a infâmia (Vida e Época de Michael K. e Desonra) e um uso desconcertante da própria biografia como material ficcional (Juventude, Verão e Diário de um Ano Ruim – todos livros nos quais se encontram correspondência entre elementos da biografia do autor e do protagonista).

Nos bares da vida

06 de março de 2013 0

Cena de "Uma História Radicalmente Condensada...". Foto: Cris Lyra, divulgação

Quando foram apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

O texto acima é a íntegra (sim, a íntegra) do conto Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial, praticamente um cruzamento entre vinheta e epigrama que o autor defunto David Foster Wallace publicou em sua coletânea de contos Breves Entrevistas com Homens Hediondos. É o primeiro texto da coletânea, que contém alguns dos melhores contos de Wallace, como Para Sempre Em Cima e A Pessoa Deprimida.

Publico aqui porque a mesma companhia paulista que há um ou dois anos apresentou aqui em Porto Alegre uma peça adaptada com o mesmo título do livro agora apresenta uma nova produção retirada do livro de Wallace, chamada justamente Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial. O espetáculo é montado em bares, com os pagantes recebendo um fone para escutar a conversa do elenco durante a peça, enquanto a casa funciona normalmente atendendo outros frequentadores que podem nem saber o que está acontecendo ali.

A peça será apresentada em Porto Alegre em um dos pontos tradicionais da boemia da Cidade Baixa, o Van Gogh (Na Lima e Silva, esquina com João Pessoa). As apresentações serão realizadas nos dia 8, 9 e 10 de março (sexta e sábado, às 21h; domingo, às 20h). Os ingressos estão à venda no próprio bar, a partir de duas horas antes de cada performance. Achei que seria um bom pretexto para publicar a história de Wallace