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Posts na categoria "Literatura Francesa"

Best-seller, ideológico, perigoso...

31 de janeiro de 2013 0

Já que Os Miseráveis, o filme, está por estrear no cinema, é bom apontar que o romance de Victor Hugo (1802– 1885) é um marco fundador para toda uma corrente de representação da sociedade – Auerbach, em seu clássico Mímesis (Perspectiva, 1998), aponta Victor Hugo como a chave pioneira, ainda que embrionária, da escola realista, por quebrar com a estética clássica anterior que afastava o espírito trágico ou sublime da vida cotidiana. A popularidade da obra não é de hoje. Adaptado para várias mídias, o livro foi best-seller em seu tempo, e seu autor, tachado de perigoso. Victor Hugo não foi apenas um titã literário (posição que alcançou ainda em vida por esforços conscientes, ainda que muitas vezes tenha sido contestado, por seus contemporâneos e pelos pósteros, pela forma autocomplacente como ele insistia em impor tal condição ao mundo ). Ele foi, também, um autor com impecável senso de marketing.

A primeira sinopse para o livro, então chamado de As Misérias, foi vendida a seus editores em 1845, mas a ideia o assombrava desde os anos 1820. Já consagrado quando finalmente terminou sua magnum opus,em 1861, o escritor vivia no exílio na ilha de Guernsey, no Canal da Mancha, pela oposição feroz que havia feito a Napoleão III (a quem chamava de “Napoléon, Le Petit”). A preparação do romance, portanto, foi feita por correspondência, com provas enviadas para o escritor por navio: “Todos os dias, durante oito horas, ele fazia correções, acrescentando mais do que riscava, aguilhoado pelo horário do Correio e o penacho de fumaça expelido pelo paquete postal no porto embaixo.”, escreve seu biógrafo Graham Robb em Victor Hugo: uma Biografia (Record, 2000).

Além de enlouquecer os tipógrafos tendo sempre algo a acrescentar a seu romance já imenso, Victor Hugo também comandou, de sua ilha rochosa, a estratégia, bastante moderna, de divulgação da obra. Aconselhou seus editores a fazerem propaganda maciça na França sobre o papel na trama da batalha de Waterloo, ferida nacional que marcou a derrota definitiva de Napoleão Bonaparte. Como escreveu a seu editor, em carta citada por Robb na mesma biografia:

Expõe o lado nacionalista do livro, joga com o sentimento patriótico, faze Persigny [ministro do Interior] sentir vergonha antecipada por proibir uma obra em que Ney [o marechal], avô de sua mulher, é finalmente justificado. Torna-lhes impossível confiscá-lo, dizendo que se trata da batalha de Waterloo ganha pela França”.

Outros anúncios foram espalhados pela Europa e até mesmo no Império do Brasil: “Publicou-se a primeira parte de Les Miserables (Fantine) em seguida a uma monumental campanha publicitária m Paris, Londres, Bruxelas, Leipzig, Roterdã, Madri, Milão, Turim, Nápoles, Varsóvia, Pest, São Petersburgo e Rio de Janeiro”. O resultado foi que milhares de exemplares se esgotaram quando o livro foi publicado, de abril a junho de 1862, em 10 volumes. Em Bruxelas, a obra vazou antes do lançamento para gráficas piratas, e havia 21 edições não autorizadas apenas um mês após a publicação do primeiro do primeiro volume – Victor Hugo foi um dos primeiros escritores profissionais ao estilo contemporâneo: vivia do que escrevia, negociava contratos com ferocidade leonina e tinha um entendimento profundo do mercado editorial de seu tempo. Se a isso for aliada a amplitude de seu público, não é de estranhar que seu autor tenha sido considerado um homem perigoso e o livro tenha sido julgado por seu conteúdo ideológico desde o momento em que foi publicado, por contemporâneos como os Goncourt ou Perrot de Chezelles, ou por críticos tardios como Litton Strachey – mesmo um realista como Stendhal considerava Hugo um ídolo que tinha de derrubar antes de estabelecer seu projeto literário.

O que havia de tão “perigoso” na obra, afinal? A poderosa visão de mundo de seu autor, uma forma particular e reformista de socialismo, que acreditava mais na convivência colaborativa entre as classes, mediada por uma espécie de espectro moral humanista – e não o “espectro do comunismo” de seus contemporâneos Marx e Engels, que Hugo, político de carreira, identificaria com a anarquia. Sua visão da sociedade em que vivia, contudo, dialoga com muitas noções modernas ainda vigentes no pensamento social: seus personagens “miseráveis” não são maus por si só, mas criaturas empurradas para o crime e a degradação em busca da sobrevivência em meio à miséria em que vivem.

Pela extensão de Os Miseráveis, as adaptações para outras linguagens normalmente enxugam a história até o osso. Fantine, por exemplo, mãe de Cosette, ocupa, na obra, um espaço pequeno, aparece apenas na primeira parte, enquanto costuma ser levada pelos filmes até a metade da produção. Foi assim com a interpretada por Uma Thurman nos anos 1990, imagino que seja também assim com a de Anne Hathaway. Javert é sempre retratado em qualquer uma dessas adaptações como um homem de tal modo obcecado em prender outra vez o fugitivo Jean Valjean que se torna um vilão maniqueísta – quando seu retrato no livro é menos o de um homem perverso, e mais o de um homem virtuoso que coloca sua retidão a serviço de algo que está viciado desde a origem: o próprio sistema.

Também são comuns, inclusive no Brasil, edições adaptadas, enxugando as 3,1 mil páginas do original para um tamanho mais administrável – o que deita por terra muitas das longuíssimas digressões que Victor Hugo usava para dar um quadro geral da gananciosa sociedade francesa, e apontá-la como a verdadeira responsável pelo crime,por empurrar milhares à miséria. Po aqui, a mais recente edição integral foi publicada pela CosacNaify, em dois volumes, com tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Uma boa adaptação francesa, em quadrinhos, com roteiro de Daniel Bardet e desenhos de Bernard Capo, foi lançada recentemente pela L&PM. E finalmente, temos o filme que está chegando aos cinemas, que não é uma adaptação do livro especificamente, mas do musical de sucesso para os palcos norte-americanos – com uma partitura bem pouco inventiva, diga-se. Na dúvida, já que alguns de vocês aí   estão em férias, por que não ir direto ao livro?

As coisas consideradas com ênfase

07 de março de 2012 1

Para Georges Perec (1936 – 1982), considerado um dos mais importantes escritores franceses do pós-guerra, “é essencial que um escritor ganhe a vida fora da literatura”. Ele produziu e dirigiu filmes, foi poeta, dramaturgo, radialista e tradutor.

Enumerador, classificador e catalogador obstinado, Perec trabalhou como documentarista do setor de neurofisiologia do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. Amava dicionários e matemática, criou muitas palavras cruzadas para as revistas Le Point e Telerama. Dominava o vocabulário de todas as atividades e profissões, assim como da arte e estilos arquitetônicos.  Parecia conhecer o nome de todas as ruas, endereços de cafés, restaurantes, lojas de departamentos, bares, museus e galerias de arte. Sabia as marcas de todos os sapatos, gravatas,camisas,cigarros e bebidas.

Em 1967, juntou-se ao grupo OuLiPo (Oficina de literatura potencial) criado por Raymond Queneau e François la Lionnais. Reunindo diversos artistas e escritores (Italo Calvino e Marcel Duchamp, por exemplo), o grupo propunha novas formas de escrever usando jogos de palavras, constrição de letras ou número de caracteres por linha,  palíndromos e fórmulas matemáticas, obrigando o escritor a fazer malabarismos com o texto. No seu livro O Desaparecimento, de 1969, Perec faz um desses exercícios de limitação, nunca utilizando, no original,  a letra “e”, uma das mais comuns no idioma francês. Cada trabalho seu tem uma fórmula ou um sistema diferente do outro. A Vida: Modo de Usar (1978) é considerado seu maior e mais engenhoso romance, ou, como ele preferia,romances.

As Coisas: uma História dos Anos Sessenta, que está sendo lançado agora no Brasil pela Companhia das Letras (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar, 120 ppaginas), é seu livro de estreia. Publicado em 1965, é anterior ao OuLiPo, mas nele já se percebe a característica de Perec de fazer listas, classificar e organizar no espaço os objetos que descreve.

Sylvie e Jérôme, casal na faixa dos 20 anos, trabalham na iniciante e promissora indústria publicitária como analistas motivacionais, entrevistando pessoas para definir estratégias que serão usadas pelas agências de propaganda.Vivem em Paris no início dos 1960, a França colonialista está em crise, há guerra na Argélia, há guerra na Indochina e o gaulismo está ascendendo ao poder. Adoram cinema, fazem longos passeios por chiques avenidas de Paris, onde admiram as vitrines das lojas e antiquários, bebem com os amigos e comem pratos baratos em restaurantes caros. Toda a sua alegria de viver repousa sobre um ideal de riqueza que parece ter sido adquirido na leitura atenta das matérias e anúncios da revista L’Express. Tudo o que pensam, todas as ações e decisões são tomadas em função do que deveriam possuir. Amavam mais o ter do que o ser.

O luxo que ambicionam, e sem o qual sua vida parece não fazer sentido, é apenas aquele que custa caro. Esse imenso desejo pela abundância paralisa as suas ações, não fazem nada para enriquecer, sonham com uma herança improvável ou dinheiro encontrado na rua. No entanto, a vida vai passando, enquanto suspiram pela fortuna dos outros. A vitrine
que os separa dos seus desejos os separa também da capacidade de perceber sua realidade.

A história é narrada na terceira pessoa, não há diálogos ou qualquer reprodução direta da voz dos personagens. Desde o início, o texto deixa de fora o erotismo, o desejo sexual e a aparência do corpo, para substituí-los pela descrição pormenorizada, cinematográfica e objetiva das coisas:

“Descobriram as lãs, as blusas de seda, as camisas de Doucet, as gravatas de voile, os lenços de seda, o tweed, o lambswool, o cashmere, a vicunha, o couro e o jérsei, o linho e, enfim, a magistral hierarquia dos sapatos, que leva dos Church aos Weston, dos Weston aos Bunting, e dos Bunting aos Lobb”.

É só através de seu desejo por obtê-las que  conhecemos os personagens. A inquietante e assustadora semelhança com os dias atuais torna a leitura de As Coisas quase inevitável.

Texto de Edu Oliveira

O aventureiro francês

08 de novembro de 2011 1

Henri Loevenbruck na Praça da Alfândega. Foto: Adriana Franciosi

Um dos livros mais conhecidos do francês Henri Loevenbruck é O Testamento dos Séculos (Bertrand Brasil), no qual o protagonista, Damien, perde o pai, descobre que o falecido estava envolvido em uma série de investigações obscuras a ver com um objeto místico que pode decifar a última mensagem de Cristo para a humanidade e ganha, no decorrer da investigação, o auxílio de uma bela jovem – uma ajuda que será providencial, uma vez que forças muito poderosas estão interessadas em atravessar seu caminho, entre elas alguns dos clérigos mais influentes do Vaticano. Não foi à toa, portanto, que Loevenbruck foi apontado mais de uma vez como o Dan Brown francês, um apelido que o desagrada.

- Lancei O Testamento dos Séculos um ano antes da publicação de O Código Da Vinci. Com o estouro do Dan Brown, começaram as comparações, mas nunca sequer tomei conhecimento dele durante a escrita. Meus modelos literários são Alexandre Dumas e Umberto Eco, e isso eu assumo, e o engraçado é que essas semelhanças ninguém comenta – diz Loevenbruck, em uma entrevista em inglês (o repórter se desculpa com o entrevistado por não falar francês, e Loevenbruck retruca com ar cool que tudo bem, ele também não fala português)

Aos 41 anos, Loevenbruck faz parte de uma nova geração de escritores franceses que estão interessados em produzir uma literatura de ação e intriga, afastando-se da onipresente subjetividade e foco na linguagem que marcou a literatura francesa em boa parte do Século XX por influência, entre outros, dos autores do Nouveau Roman. Loevenbruck faz parte, com outros nove autores seus amigos, da Ligue de l’imaginaire, escritores que assumidamente recheiam suas histórias com o fantástico e a ação, canibalizando influências que vão do romance histórico ao thriller de espionagem – um deles é Bernard Werber, cuja saga ambientada no mundo das formigas (As Formigas, O Dia das Formigas, A Revolução das Formigas), também vem sendo publicada no Brasil pela mesma Bertrand que editou dois livros de Loevenbruck, O Testamento dos Séculos e Síndrome de Copérnico. De acordo com Loevenbruck, ele e seus conterrâneos e contemporâneos não estão inventando nada, e sim voltando às raízes da grande literatura francesa.

- Se você for à grande literatura francesa, terá Alexandre Dumas, Victor Hugo, Júlio Verne, grandes autores de ação. A literatura francesa nunca foi contra ação e aventura. Depois da II Guerra foi que a França virou as costas para o entretenimento do público e passou a se dedicar a representar os abismos íntimos de personagens autocentrados – diz Loevenbruck, que autografa hoje seus livros na Feira às 20h30min, na Praça de Autógrafos. Às 19h, Loevenbruck participa de um debate com o jornalista Flávio Ilha e com mediação de Arthur de Faria, na Sala dos Jacarandás do Memorial do Rio Grande do Sul.

As Testemunhas Rebeldes

04 de julho de 2011 0

Depois de três livros da série mais recente do comissário Maigret, os três uma novidade para mim, que não havia ainda lido nenhum naquela primeira fase de devorar Simenons sobre a qual já falei, chego finalmente a um livro da série que já conhecia: As Testemunhas Rebeldes, que eu já havia lido em 1996 em uma edição cujo título ainda era Maigret e as Testemunhas Recalcitrantes. Na época em morava em um JK no 17º andar de um edifício pouco recomendável no centro, e vivia ficando preso dentro do elevador. Esse livro em particular eu me lembro de estar lendo no momento em que a luz apagou e eu fiquei trancado mais uma vez – acho que foi por pouco tempo, mas não tenho como ter certeza, dada a constância com que aquela joça trancava.

Essa releitura comprovou algo que eu já havia intuído quando comecei a recordar os livros que havia lido de Maigret há uns 15 anos. Um dos primeiros e mais importantes teóricos do romance policial foi Howard Haycraft, que, em um estudo dos anos 1940, Murder for Pleasure: the life and times of detective novel, fez um abrangente inventário do gênero até ali. Um extenso capítulo, como não poderia deixar de ser, é dedicado ao inventor da moderna literatura de crime, Edgar Allan Poe, que com três histórias seminais protagonizadas pelo detetive parisiense Dupin fundamentou as bases do gênero como são em larga medida seguidas até hoje. Ele comenta que os contos de Poe costumam se fixar de diferentes modos na memória do leitor: Os crimes da Rua Morgue é daqueles que o leitor retém o crime e sua resolução: as imagens vívidas e surpreendentes dos corpos das vítimas, e o fato de que o criminoso é um macaco fugido de um circo de passagem pela cidade. Mas o leitor raramente lembra como o detetive chegou a essa conclusão, embora o conto pormenorize o caminho delineado pelo raciocínio de Dupin. Em O Assassinato de Marie Rôget, pelo contrário, é o raciocínio tortuoso do detetive através das notícias de jornal que permanece, embora não seja fácil de lembra qual foi a conclusão a que Dupin chegou com elas.

Com As Testemunhas Rebeldes, comprovei minha própria impressão de como os livros de Maigret se fixam na memória: muitas vezes recorda-se as circunstâncias iniciais do crime, mas raramente vêm à memória a solução, ou pelo menos eu não me lembrava dela até chegar ao fim desta segunda leitura. Estava lá, uma atmosfera e a própria maneira como Maigret se relaciona com o caso – pontos fortes da maioria dos romances policiais de Simenon. Em As Testemunhas Rebeldes essa atmosfera é a de um comissário tentando quebrar o muro de silêncio e reticência dirigido contra ele por pessoas de uma classe social que se consideram liberadas de lidar com a polícia em quaisquer circunstâncias. A família no seio da qual o crime foi cometido, Os Lachaume, são, nas palavras de um policial da delegacia local mais próxima, “pessoas das quais a gente não se ocupa muito“.

As Testemunhas Rebeldes é de 1958, e mostra Simenon outra vez exercendo seu método de usar o detetive como um emissário a diferentes mundos e realidades sociais da França que retratava por meio das investigações do comissário. Maigret é encarregado de solucionar o assassinato de Léonard Lachaume, o diretor de uma tradicional fábrica de biscoitos. Lachaume foi encontrado morto logo cedo da manhã em seu quarto na mansão da família – uma propriedade outrora magnífica, hoje decadente, bem como o status social da própria família Lachaume. Outrora expoentes da indústria nacional, os Lachaume hoje vivem para a manutenção da fábrica, em má situação financeira. No momento do crime, deveria haver seis pessoas dentro da casa: os idosos pais de Léonard Lachaume, o irmão Armand Lachaume, a mulher deste, Paulette, o filho do morto, Jean-Paul, de apenas 12 anos, e uma velha empregada pintada com as tintas da caricatura da serviçal fiel e  sombria. Mesmo com tantas testemunhas na casa, ninguém parece saber dar muitos detalhes a respeito do crime, cometido a tiros, aparentemente depois de um invasor haver escalado o muro da casa e entrado pela janela.

Quem ainda tiver na memória nossa última leitura, Maigret se defende, vai recordar que naquele livro, datado de 1964, Maigret comentava, algo melancólico, que tinha ainda três anos pela frente em direção à aposentadoria. Provando que o próprio Simenon tomava liberdades com a cronologia do personagem quando assim precisava, neste livro, escrito anos antes, Maigret, ainda cansado e tornado ainda mais melancólico com a passagem recente do Dia de Finados, diz que “felizmente, só faltavam dois anos e ele não precisaria mais pôr um cachecol para, sob a chuva desagradável da manhã, atravessar uma Paris que, naquele dia, parecia uma cidade de filme mudo, toda em tons de branco e preto“.

Maigret sente-se velho, é o que a narrativa já nos informa em suas primeiras páginas: o corpo começa a dar sinais de desgaste (acorda com um torcicolo incômodo e a mulher insiste para que ponha um cachecol para se proteger do clima instável). Ao  investigar o crime, tem a sensação de que, de alguma forma, duas pontas de sua vida se encontram, uma vez que entrar na casa dos Lachaume é penetrar, também, no interior de uma memória de infância. Ele próprio fôra um ávido comedor dos biscoitos com a marca da família quando criança, décadas antes:

Aquilo lhe trazia recordações da infância passada no campo. Naquele tempo, em todas as pequenas vendas mal-iluminadas do povoado, nas quais oferecia-se tanto galochas quanto feijão, ou linha de coser, podia-se ter a certeeza de sempre encontrar pacotes envoltos em celofane, com uma etiqueta onde se lia: Fábrica de Biscoitos Lachaume.
Havia os amanteigados Lachaume e as bolachas Lachaume, que aliás tinham o mesmo gosto, o mesmo sabor de papelão.
Desde então, Maigret nunca mais ouvira falar nos Biscoitos Lachaume, nem nunca mais vira os calendários tipo folhinha de parede, mostrando um garotinho de faces exageradamente coloridas e sorriso idiota, comendo uma bolacha Lachaume, e era raro agora encontrar, mesmo numa aldeia perdida, aquele nome, mais ou menos apagado, num cartaz de parede
“.

Maigret sente-se, ao mergulhar no crime, investigando a morte de sua própria época, sensação que só piora com a chegada em cena de um novo juiz de instrução para acompanhar o caso, Angelot: “O jovem magistrado, que acabava de ser nomeado, estendeu uma mão firme e cuidada, uma mão de jogador de tênis, e Maigret pensou, uma vez mais, que uma nova geração despontava, desbancando a dele.” O que complica a vida de Maigret é que o jovem Angelot parece partilhar desse mesmo entendimento. Ao serem apresentados, cumprimenta o comissário com um aperto de mão vigoroso, mas não diz absolutamente nada, sequer alude de passagem à fama de Maigret como um antigo e eficiente investigador. “Seria uma atitude estudada, um modo de dizer a Maigret que sua fama não o impressionava? / Ou realmente falta de curiosidade, a indiferença da nova geração?” Para piorar, insiste em estar presente no interrogatório das testemunhas e quer ser informado de cada passo que Maigret dá ao longo da investigação. Em tese, não há nada de estranho nisso, uma vez que Maigret trabalha para a Polícia Judiciária, e seus inquéritos, em última análise, servem para municiar a instrução de um processo, ou seja: são feitos para informar o juiz. Esse apego de Angelot ao legalismo da norma em vez da prática tradicional dos antigos magistrados de receberem o inquérito pronto das mãos do comissário é um ponto de atrito que aumenta no policial a sensação de seu tempo está ficando para trás.

Mais do que rebeldes, como está no título traduzido, as testemunhas do caso mostram-se relutantes, reticentes. Maigret e o juiz de instrução são recebidos não apenas pelos integrantes da família Lachaume, mas por um advogado, chamado ao local antes da chegada da polícia. É por ele, insiste o homem, que se dará qualquer contato com seus clientes – outra instância intermediária que exaspera Maigret, impossibilitado de usar suas técnicas de interrogatório que por vezes beiram o limiar da coerção. A atitude das testemunhas, cada uma delas presente na mesma casa em que o crime foi cometido, também leva os nervos de Maigret ao limite: ninguém viu nada, ninguém sabe de nada, uma carteira sumiu, então é lógico que foi uma tentativa de assalto, então não há motivo, como pensa Maigret, para vasculhar o passado da família, falida mas ainda assim glória da burguesia parisiense – com o tipo de atitude de se considerar acima dos inconvenientes da lei bastante semelhante à das elites econômicas bem conhecidas dos brasileiros.

Como Maigret provará ao longo da narrativa, é sim nas relações algo estranhas entre os membros da família e sua necessidade imperiosa de manter as aparências e a tradicional fábrica fundada em 1817 que está o motivo do crime. Até lá, contudo, o comissário terá ainda mais tempo para sentir-se cansado e afundar em um mau-humor irresistível que chega ao paroxismo quando o novo juiz, desgostoso com os dribles que levou do comissário ao longo do dia todo, exige que Maigret acompanhe em silêncio o interrogatório que pode ajudar a desvendar o crime – e para completar pede que Maigret escreva as perguntas que ele, o juiz, condutor do inquérito, deve fazer. Claro que tal depoimento se torna crucial. para o desenrolar do caso, e Maigret ainda tem de ouvir o juiz vangloriar-se:

- Continua achando, sr. Maigret, que não se possam obter os mesmos resultados sem alarde, sem falar alto, sem ‘encenação’, num gabinete de juiz de instrução, em vez de no Quai des Orfèvres?
Que adiantava responder que ele nada mais fizera do que recitar as perguntas preparadas pelo comissário?

As Testemunhas Rebeldes: L&PM, 188 páginas. Tradução de Vera Neves Pedroso.

Na próxima semana: O Engano de Maigret

>>>Leia aqui os posts anteriores da série Maigret da Semana

Maigret se defende

31 de maio de 2011 0

Por mais que Simenon tenha sido um autor policial de corte mais “realista”, utilizando-se de Maigret como o pretexto perfeito para escrever livros que abarcam panoramicamente várias camadas da sociedade francesa (a classe média estagnada no meio de uma ascensão social tímida, a classe proprietária decadente usando a pose e a história para driblar suas dívidas, os pobres fazendo o necessário para sobreviver no redemoinho indiferente da grande cidade), há um elemento no qual Maigret se assemelha a qualquer detetive da chamada “escola clássica” do romance policial (segundo Howard Haycraft o período “clássico” do policial vai de 1918 a 1930, antes, portanto, do surgimento de Maigret, cujas primeiras aventuras foram publicadas em 1931): a inviolabilidade do agente.

Embora seja uma ficção policial extremamente verossímil ao transformar o comissário em um policial chefiando uma equipe de colaboradores que por vezes são tão fundamentais para a realização dos trabalhos tediosos de vigilância e coleta de informações, a saga de Maigret raramente transgride a regra de ouro do gênero para dar a entender que seu protagonista corre algum risco — físico ou moral. No livro que comentamos semana passada, em que Maigret se vê enviado à Holanda para uma investigação, ocorre uma das poucas confrontações físicas de Maigret com um suspeito encolerizado – o fazendeiro pai da jovem Beertje. O comissário, mesmo descrito como corpulento e pesadão e pouco afeito à atividade física, não tem dificuldade em desarmar o sujeito e dominá-lo. Maigret está sempre à salvo, e sua autoridade moral e intelectual é devastadora depois de chegar ao âmago do mistério – raramente um culpado deixa de admitir seu delito depois de encurralado com a história do crime. E mesmo sendo o comissário uma figura pública conhecida e muitas vezes dependente de terceiros (não dirige), nunca é alvo de um atentado ou de uma tentativa de homicídio. Não consta em sua ficha, ou ao menos não me lembro, nem mesmo ferimentos de ofício como a cicatriz de uma facada ou a marca de uma bala desferida contra ele no passado, e isso que, como qualquer policial de seu tempo, Maigret começou debaixo na escala funcional e trabalhou como policial de rua (“No metrô, nas lojas de departamento, nas estações, na delegacia de costumes, na fiscalização dos jogos de azar...”, relata a certa altura de Maigret se Defende). Às vezes ele pode se sentir perdido em meio a uma investigação, mas em momento algum está em perigo.

Este Maigret se Defende é uma das raras exceções em que o comissário  se vê fragilizado e correndo um risco real de eliminação – não física, mas profissional. O livro abre com uma longa cena doméstica burguesa, na qual Maigret e sua esposa recebem para jantar a família do dr. Pardon, amigo e médico pessoal do investigador. É um livro que já estabelece desde o início um tom de melancolia e finitude. Escrito em 1964, flagra um Maigret um pouco exausto com a vida que viveu, recebendo recomendações enfáticas de seu médico para tentar estabelecer uma rotina mais saudável, beber menos , emagrecer. O comissário diz textualmente que tem 52 anos. e que está a três anos da aposentadoria compulsória na Polícia Judicária. Embora o tempo corresse de modo diferente no universo do comissário, seus leitores só tiveram mais o dobro desse tempo para desfrutar de suas  histórias. O personagem foi abandonado por Simenon depois da publicação de O Sumiço do Sr. Charles, de 1970.

Na conversa entre Maigret e o médico, Pardon indaga se em seus anos de polícia o inspetor já havia encontrado alguém puramente mau. Fiel a seu estilo compassivo, de “entender sem julgar”, como diz em As Memórias de Maigret, o comissário responde que não, apenas pessoas confusas que tomaram decisões erradas nos piores momentos. Ao longo do romance, Maigret  recordará dessa conversa em dúvida sobre se não encontrou de fato um caso de maldade genuína, depois que sua carreira é ameaçada após ser acusado de tentar abusar de uma jovem.

Maigret se Defende não deixa de ser, a seu modo, o confronto do velho policial com a juventude – justamente nos anos 1960 que mais tarde se tornariam praticamente sinônimo do “poder jovem”. A melancolia com a proximidade da aposentadoria não advém apenas do fim de uma carreira de 30 anos, mas é tornada um pouco mais amarga pela forma como o mundo à volta de Maigret parece estar em franca desintegração. Seus superiores são jovens sem a sua experiência, oriundos da estrutura burocrática – o que não os impede de ter a arrogância de quem se sente senhor de sua própria época. Chamado à sala do chefe de polícia, Maigret reflete, com algo de amargura:

O chefe de polícia era também um novato. Dez anos no cargo. Um jovem. Essa era a moda. Não tinha sequer quarenta anos, mas, depois de passar pela escola normal, acumulara o suficiente de diplomas para assumir a direção de qualquer serviço público.
“Chefe-vassoura”, era como os jornais o apelidaram, depois da sua primeira entrevista coletiva. Pois os chefes de polícia, bem como as vedetes de cinema, davam agora entrevistas coletivas para as quais eles não se esqueciam de convidar as redes de televisão.

Depois de chegar com a pontualidade de sempre no gabinete do superior e ser submetido a uma espera para marcar autoridade, Maigret é admitido no escritório do homem e ouve as acusações que pesam contra si: na noite anterior, teria abordado em um bar a jovem Nicole Prieur, 18 anos, de boa e riquíssima família, filha de um magistrado e sobrinha de um membro do Conselho de Estado. De acordo com as acusações da própria jovem, Maigret a encontrou em um bistrô, a embriagou, levou-a para um hotel vagabundo e tentou violentá-la. A versão da jovem é agravada pelo fato de que Maigret de fato esteve no café, sentou-se à mesa da jovem e levou-a para o hotel. Sua versão dos acontecimentos, contudo, é diferente: a própria jovem lhe telefonou de madrugada pedindo ajuda. Disse que havia fugido de sua casa no interior e que havia sido vítima de uma armadilha de uma amiga e do noivo desta, terminando sozinha sem bagagens e sem conhecidos nas ruas de Paris. Embora já estivesse dormindo ao lado da sra. Maigret quando o telefone tocou, o comissário foi até o bistrô indicado por ela e a instalou em um hotel – precisou levar a moça, muito embriagada, até o quarto. Para ser surpreendido pela acusação da manhã seguinte.

Não há ambiguidade na situação. Desde o início a narrativa está próxima do ponto de vista de Maigret, então não há na mente do leitor dúvida alguma sobre quem está mentindo. A grande questão reside nos motivos para a armação montada contra o comissário – motivos difíceis de descobrir, uma vez que, na qualidade de investigado, Maigret é proibido pelo chefe de polícia de interrogar de novo a jovem ou conduzir ele próprio um inquérito sobre o caso. Também, fazendo (ab)uso de sua autoridade, o jovem chefe ordena que Maigret não comente o caso com ninguém no Quais des Orfèvres. Orientações, claro, que Maigret tentará descumprir na surdina, sem sucesso, uma vez que está sendo vigiado. Maigret se vê afastado de suas funções e passa pela experiência de ser desta vez ele o homem a quem os policiais seguem. O tempo todo ao longo da investigação, que passa também por um por um ex-criminoso e sua mulher e por um “clube jovem” de elite no centro de Paris para as folias da juventude dourada, Maigret oscila entre laivos de sua astúcia de sempre e uma melancolia mórbida de quem se sente tentado a desistir.

Talvez a melancolia do personagem não deixe de representar, a seu modo, o cansaço do próprio Simenon, que vivia nos anos 1960 um dos períodos mais turbulentos de sua vida: sua segunda mulher, Denyse Ouimet, sofrera várias crises psiquiátricas e terminaria por sair de casa justamente naquele ano de 1964. Cansado do próprio Maigret, talvez o autor já preparasse o terreno para a aposentadoria de fato do personagem, mostrando que o estilo algo truculento mas correto do detetive, baseado numa ética em vias de desaparecer, não teria como levar sempre a melhor diante da egolatria inexperiente da nova geração. Embora neste caso em particular, Maigret consiga desvendar o cérebro por trás da trama na qual foi enredado e salvar sua carreira e sua reputação.

Maigret se Defende: L&PM, 174 páginas. Tradução de Alessandro Zir.

Na próxima semana: As Testemunhas Rebeldes.

Maigret na escola

16 de maio de 2011 2

Certa manhã, o inspetor Jules Maigret chega, como todos os dias, para trabalhar no QG da Polícia Judiciária de Paris, o famoso nº 36 do Quais des Orfévres — literalmente “O Cais dos Ourives”: o Palácio da Justiça ocupa uma boa parte da chamada Ilha de la Cité, no meio do Sena, no 1º arrondissement, e portanto o prédio é limítrofe ao sul com o Cais dos Ourives e ao norte com outro cais, o Quai de l’Horloge (Cais dos Relógios). Mas isso foi só uma digressão para você que já chegou a ler algum Maigret na vida e não foi procurar o significado disso. Sei, sei, é improvável que haja alguém, então a digressão foi inútil.

Mas eu dizia que Maigret chega certa manhã à sede do Palácio da Justiça, onde se localiza o QG da Polícia Judiciária, sobe pelas escadarias do prédio e passa pela frente de uma sala de espera envidraçada onde as pessoas que têm demandas a fazer com o comissário ou com outros investigadores aguardam. Os policiais chamam o lugar de aquário ou, dado o tempo de espera, de Purgatório. Naquela hora prematura manhã, há apenas um homem na sala, que olha para Maigret com uma ponta de ansiedade nos olhos quando o policial chega ao seu gabinete. Envolvido por afazeres com uma reunião e uma visita a um banco para tratar de uma suspeita de fraudes cometidas por um empregado, Maigret esquece do sujeito e passa boa parte da manhã na rua. Paris está envolvida pela expectativa da primavera, embora o ar ainda esteja fresco: “um ar que dava vontade de beber como se fosse um vinho branco”.

Maigret é reconhecido pelo homem no aquário a cada vez que entra ou sai — é um elemento recorrente nas histórias de Simenon o fato de Maigret ser uma figura pública, principalmente pelo grande número de casos aparentemente insolúveis que desbaratou, tornando-o um personagem saboroso para a imprensa. Na época em que trabalhei como repórter de polícia, conheci um certo número de policiais ávidos por se tornarem tal tipo de personagem: reconhecidos como intimoratos combatentes da lei, com nome nos jornais e direito a entrevista coletiva. Maigret é assim, mas nunca buscou tal situação, dada a escolha, preferia não ser esse tipo de celebridade. Pelo contrário, suas relações com a imprensa – bem como com estranhos em geral — é aquela impaciência irritadiça que se dedica a uma visita inconveniente. No método de imersão e intuição usado por Maigret, praticamente todos em volta tornam-se intrusos inconvenientes, distraindo o comissário dos próprios pensamentos, que evoluem aparentemente em direção ao nada mas depois, como se esbarrassem em algo sólido, vão diretamente até a solução.

Maigret finalmente faz entrar o homem, que havia lhe passado o cartão de visitas logo que chegara. O desconhecido se chama Gastin, é professor primário e seu aspecto físico compõe uma figura lamentável: queixo retraído, cabelo ruivo já começando a rarear, a pele macilenta que denuncia uma noite insone. Assustado, Gaskin conta, sem linearidade e de forma muito desconexa, o motivo que o levou até o Quai des Orfévres. Diz que veio de um vilarejo de província, Saint-André, para se entregar pessoalmente a Maigret – na aldeia ele é o principal suspeito do assassinato de uma mulher idosa, embora se declare teimosamente inocente. Estranho na comunidade, para onde se mudou apenas há poucos anos, ninguém parece lhe dar ouvidos ou mesmo se importar com sua presunção de inocência. Com medo de ser preso, o mestre-escola decidiu fugir em direção a Paris para pedir ajuda ao famoso investigador Maigret de quem já ouvira falar. O comissário pergunta:

— Por que exatamente veio me ver?
— Porque confio no senhor. Sei que, se quiser, descobrirá a verdade.

A vítima, Léonie Birard, era uma funcionária aposentada do correio tida como o demônio da comunidade: uma mulher rude, bisbilhoteira, mesquinha, agressiva, do tipo que se dedica a amealhar os podres dos vizinhos e que se compraz em fazer gestos obcenos para quem passa pela janela da casa de onde raramente sai. Dada a exiguidade do vilarejo, a prefeitura e a escola se localizam no centro da cidade e dão praticamente para o mesmo pátio, que também está defronte a casa em que mora o professor, nos fundos da escola, e a própria velha Léonie.

Talvez seja pela chegada da Primavera, ou pelo que o relato do professor desperta em suas memórias sobre sua própria infância, também passado em um vilarejo (Saint-Fiacre, para onde voltará em O Caso de Saint-Fiacre), Maigret embarca para um fim de semana em Saint-André, praticamente uma aldeia, onde entrega o professor às autoridades locais e começa a fzer uma investigação informal sobre a aldeia e o relacionamento dos locais com o professor — tão instável quanto com a própria vítima.

Simenon se dedica neste livro ao que já fez com maestria em outros: o retrato do crime como um acontecimento traumático que rompe momentaneamente a teia cerrada das relações interpessoais numa comunidade, deixando à mostra fios soltos que desmentem a tranquilidade da pacata vida burguesa que se organiza diante dos olhos de Maigret. O professor é casado, tem um filho que é bom aluno, mas sempre tem seu mérito escolar negligenciado para não parecer que o pai, mestre-escola na única sala de aula da aldeia, pareça estar favorecendo sua criança em detrimento das demais. A velha Léonie cultivava hábitos deploráveis, Maigret logo descobre — entre eles o de roubar, enquanto ainda estava na ativa nos Correios, algumas correspondências destinadas aos vizinhos. Ninguém lamenta de fato a morte da mulher — atingida no olho esquerdo por um tiro de  carabina 22, que de outro modo talvez não houvesse morrido. O professor estava em aula no momento do encontro do corpo, mas disse não ter se ausentado da sala em nenhum momento, o que, depois se verifica, não era totalmente verdade.

Embora ninguém chore por Léonie, é ao mesmo tempo bastante confortável para todos  que as principais suspeitas estejam sobre o forasteiro da cidade, alguém olhado com desconfiança e vítima dos boatos que circulam sobre o verdadeiro motivo pelo qual ele e a mulher, parisienses sofisticados, foram se embrenhar naquela aldeola. Maigret, mesmo sem estar oficialmente a serviço, circula pela cidade tentando escavar as camadas e camadas de maledicência e ressentimento que se ocultam sob a pacata vida de província: os rancores, inimizades familiares, as pequenas corrupções, tudo para descobrir se o professor é ou não o culpado do crime. Um Simenon bom para começar nossa maratona, mas não necessariamente alinhado aos melhores trabalhos do autor ou às melhores investigações do comissário. Ao fim da leitura, não é tanto a identidade do criminoso que fica na memória do leitor, e sim a teia complexa e viva de relações que o autor urde na cidade do interior e como tais relações podem ser tão responsáveis pelo crime quanto qualquer um dos suspeitos.

Maigret na Escola: L&PM, 174 páginas, tradução de Paulo Neves.

Na próxima semana: Um Crime na Holanda.

Um Maigret por semana

12 de maio de 2011 6

São as múltiplas as circunstâncias que nos levam a conhecer integralmente a obra de um autor: paixão, disponibilidade, oportunidade, o quanto o tal autor foi prolífero, o quanto escreveu, o quanto ainda está escrevendo. Não chega a ser uma proeza ter lido a obra completa de Raduan Nassar, composta de dois romances e uma coletânea de contos, mas deve haver só um punhado de caras além do Paulo Rónai que tenha lido todo o Balzac. Se o autor ainda está vivo e publicando, sempre há como recuperar tudo o que ele escreveu até o momento – e isso muitas vezes depende mais de vontade e de paixão. Já tive, como a maioria dos leitores que conheço, a volúpia voraz de ler tudo o que havia para ser lido de um autor que acabara de descobrir. Na época da faculdade tive minha “fase dos russos” inaugurada aos 18 anos com a leitura, em meros dois dias, de Crime e Castigo, de Dostoiévski, que levou depois a uma leitura de tudo o que pude encontrar dele na época, e dele pulei para o Tolstói, e do Tolstói para o Tchekhóv, daí para o Turguêniev, para o Gógol, até topar com o Górki, cujo sentimentalismo exacerbado esfriou um pouco meu entusiasmo pela turma das muitas consoantes. Anos mais tarde, quando tinha lá por uns 23, topei com as referências a Isaac Bábel no Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, de Rubem Fonseca, e voltei aos russos, começando com o próprio Bábel e completando muitas das lacunas daquela primeira fase, incluindo Bulgákov e Gontcharov (cujo Oblomov eu fui conhecer porque havia sido incluído em uma lista de leituras basilares formulada por Antônio Candido e Alfredo Bosi que uma vez uma colega de faculdade me passou).

Mas é claro que não li tudo da maioria desses russos, até porque algumas das obras sequer haviam sido traduzidas no Brasil (ou haviam, mas há mais de meio século, em edições que não se encontravam mais). Contei essa história como exemplo, apenas, de como uma febre de leitura nos acomete de tal modo que por algum tempo queremos saber tudo o que aquele autor escreveu — às vezes com resultados decepcionantes, como Steinbeck, por exemplo, cujo Inverno de Nossa Desesperança parece ter sido escrito por outro autor, bem diverso daquele que admirei tanto em A Leste do Eden, Ratos e Homens e Vinhas da Ira.

A questão é que, depois de ter escrito há algumas semanas sobre os 80 anos do personagem Jules Maigret criado por Georges Simenon, vinha me coçando com a ideia de reler algum daqueles policiais que também devorei durante uma certa fase da minha cada vez mais longínqua juventude. O ciclo de romances de Maigret foi outra de minhas obsessões, por um tempo — eu pegava os livros (na época editados pela Nova Fronteira) na Biblioteca Central da UFRGS, próxima à Casa do Estudante, onde eu morava, e os lia muitas vezes no período de uma noite. Na época eu era mais meticuloso com a contabilidade de minhas leituras, e pelo que me lembro cheguei a ler quase quatro dezenas de romances de Maigret – o que foi totalmente insuficiente para conhecer toda a saga do personagem, distribuida ao longo de 75 romances e um punhado de contos.

Aí recebi faz alguns dias uns exemplares das novas edições de bolso da L&PM para o personagem, peguei um deles e comecei a ler – e comprovei que a leitura dos livros de Maigret ainda pode ser feita em um único dia, e de um passei para outro, e outro, e me deu um estalo, misto de loucura e ideia: já que a L&PM está republicando toda a série, incluindo uns volumes apresentados como inéditos, por que não ler e resenhar aqui no blog um exemplar por semana (sim, por semana, eu ainda preciso dos outros dias úteis para ler uma cacetada de outras coisas)? Isso daria mais de um ano com leituras de Maigret, e como ando tentando estabelecer uma seções fixas neste blog que possam ser atualizadas com alguma periodicidade, achei interessante fazer a experiência.

E por que Maigret especificamente? pelos motivos elencados lá em cima: paixão (estão entre minhas obras policiais favoritas, e eu gosto muito de policiais), disponibilidade e oportunidade (a coleção da L&PM já jogou dezenas de títulos do detetive no mercado, e eu tenho um bom número deles em casa) e o número de obras (garantindo uma sequência longa para a experiência). E porque era tão bom quanto qualquer outro. E talvez porque Maigret fume cachimbo, assim como eu, sei lá, o motivo para ler algo que não se precisaria ler é sempre arbitrário, no fim das contas.

Este post inaugural serve apenas para explicar as regras do jogo: Toda segunda-feira a partir da próxima, vai ao ar aqui no blog o Maigret da Semana, comentando a leitura de um dos romances da saga de Maigret (não estão incluídos os livros escritos por Simemon sem o comissário). A ordem de leitura será aleatória — o que não prejudica em nada a fruição da saga, uma vez que o próprio Simenon escreveu os romances com saltos e idas e vindas na cronologia, mostrando casos da juventude do comissário depois de já ter escrito muitas histórias sobre ele na idade madura. Como os livros que a L&PM me enviou foram o pretexto para esta série, o primeiro livro abordado será um deles, Maigret na Escola, publicado recentemente. A série vai ao ar aqui no blog a partir da segunda que vem.

Que me sigam os bons (e os maus) apreciadores do gênero policial. Nossa investigação vai começar.

O horror de Maupassant em tradução

30 de abril de 2011 0

A vida de Maupassant teve um final triste; antes de completar trinta anos, já era sifilítico. Quando estava com trinta e nove anos, a doença já lhe afetara o cérebro, e o escritor terminou seus dias em um manicômio, depois de haver tentado o suicídio. A história de horror mais terrível de sua autoria, o Horla, apresenta uma complexa relação com a enfermidade do autor, e com as consequências da mesma. Talvez o anônimo protagonista do livro seja um sifilítico, à beira da loucura, embora nada na narrativa de Maupassant autorize, diretamente, tal inferência. Narrada em primeira pessoa, O Horla apresenta-nos mais dados do que somos capazes de interpretar, uma vez que não entendemos bem o narrador, não sabemos se podemos confiar em suas impressões, das quais recebemos poucas abonações (ou mesmo nenhuma).

O trecho acima é de Harold Bloom, em sua obra Como e Por que Ler, analisando O Horla, uma das obras-primas do conto, urdida por um dos mestres da forma, o francês Guy de Maupassant. A história está no livro que a editora porto-alegrense Artes e Ofícios lança hoje às 17h na Palavraria (Vasco da Gama) como parte da programação para comemorar seus 20 anos de atividade. Guy de Maupassant: A Horla, A Cabeleira, A Mão, O Colar (112 páginas, R$ 27) apresenta quatro contos clássicos de Maupassant (1850 — 1893), com organização de Paola Felts Amaro e Adriane Sander.

Maupassant foi um dos primeiros escritores a perceber que os melhores contos eram os mais concisos, e que nem sempre um enredo linear é o mais eficiente em termos de impacto no leitor. Assumindo o ponto de vista do leitor, Maupassant, em uma linguagem correta e sóbria, mas sem a exuberância de seu mestre Flaubert, burilou seus enredos e tornou modelo o conto sem ornamentos, com uma história confinada em limites estritos que provocariam um efeito intenso de miniaturização da vida — nesse sentido, Maupassant tinha muito a ver com outro mestre da narrativa curta, Edgar Allan Poe, e sua teoria de que um conto deveria provocar no leitor uma “unidade de efeito”. Desconheço particularmente se Maupassant deixou por escrito alguma consideração sobre a obra de Poe, mas ele poderia ter tido contato com a obra do americano (Poe, que morreu um ano antes de Maupassant nascer, teve contos traduzidos para o francês por Baudelaire ainda em 1848, portanto seria possível que Maupassant o tivesse lido).

Maupassant morreu demente aos 43 anos, destruído pela sífilis, como vimos no trecho acima. E apesar da vida relativamente breve, espanta sua produção extensa e de altíssima qualidade.  Talvez o caso de Maupassant seja ainda mais assombroso porque discípulo de Flaubert, herdou dele a obsessão pela revisão incansável dos próprios textos, e só foi se considerar um ” escritor profissional” depois dos 30 anos. Em uma década, portanto, mesmo revisando seus escritos com a obsessão de um ourives, Maupassant produziu seis romances, três centenas de contos e um número quase igual de crônicas na imprensa.

Nesse conjunto, O Horla é uma pequena gema. Narra, em primeira pessoa e em forma de diário, o progressivo enlouquecimento de um gentil-homem normando que certo dia, da varanda de sua casa, em frente ao rio, vê passar um veleiro com bandeira do Brasil (é sério). Por brincadeira, o protagonista decide fazer uma saudação ao navio, tomado pela alegria da bela manhã, e com isso atrai para junto de si uma criatura obsessiva e invisível que começa a atormentá-lo durante o sono e a encher seu peito de uma angústia inexplicável. O ser sobrenatural, chamado O Horla, é uma criatura mística brasileira (cuma?) que, assemelhando-se a um vampiro, suga progressivamente a vitalidade daqueles que ataca. A espiral ascendente de insanidade em que o narrador mergulha termina com horror e tragédia.

As tradutoras da nova versão de O Horla incluída no livro da Artes e Ofícios estarão na Palavraria hoje para discutir os desafios da tradução. O que me pareceu um belíssimo pretexto para retomar nossa série de comparação entre traduções, comparando diferentes versões do conto publicadas no Brasil. Vamos começar com um trecho traduzido por Gustavo Feix com a supervisão de Paola Felts Amaro (logo do início do conto porque não queremos antecipar o final para quem ainda não leu a história):

12 de maio
Há alguns dias, tenho um pouco de febre e me sinto indisposto; na verdade, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em abatimento nossa felicidade e nossa confiança em aflição? Seria possível dizer que o ar, o ar invisível, está repleto de Forças Ocultas, cuja proximidade misteriosa suportamos? Acordo cheio de alegria, com uma vontade de cantar trancada na garganta. Por quê? Desço até a margem do rio e, de repente, depois de uma caminhada leve, volto desolado, como se algum infortúnio estivesse me esperando em casa. Por quê: Seria um arrepio frio que, deslizando por minha pele, teria deixado meus nervos em frangalhos e entristecido minha alma? Seria a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando pelos meus olhos, teria confundido meus pensamentos? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem conhecer, tudo o que pegamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e através deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos rápidos, surpreendentes e inexplicáveis.

Agora, vamos dar uma olhada na tradução de Léo Schlafman para a coletânea As Grandes Paixões: contos de Guy de Maupassant, da Editora Record, publicada em 2005. As Grandes Paixões traz 23 histórias divididas em quatro seções temáticas: As pequenas manobras, Por trás da máscara, A loucura e a alienação e, por último, As libertinas ingênuas. A editora não se preocupa em apresentar, no volume, uma mínima biografia do tradutor (também responsável pela seleção e por um ensaio que abre o volume), por isso informo eu aqui: Schlafman é jornalista, tradutor e ensaísta, autor de A Verdade e a mentira, livro de ensaios publicado pela Civilização Brasileira. Na seção que Schlafman denominou A Loucura e a Alienação, é óbvio, está incluído o Horla — não em uma, mas em duas versões, uma primeira redação, sem data, e a versão considerada definitiva, de 1887. Embora o enredo básico fale de uma criatura que pula do barco para a vida do narrador, a estrutura é completamente outra: na versão primitiva  a história não é narrada em forma de diário, e sim de depoimento, pois o narrador está preso em um manicômio quando o conto começa e relata seu caso a um grupo de alienistas, algo que foi eliminado na segunda versão, melhor e mais longa. O trecho que escolhemos não estava lá na primeira versão, então vamos com a tradução de Schlafman para a considerada definitiva:

12 de maio
Há alguns dias tenho andado com febre. Sinto-me doente, ou melhor, triste.
De onde vêm estas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desânimo e nossa confiança em angústia? Parece que o ar, o ar invisível, está cheio de Forças desconhecidas de que sentimos a vizinhança misteriosa. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar — Por quê? — Desço até a beira da água  e, súbito, depois de curto passeio, volto para casa desolado, como se alguma infelicidade me aguardasse. — Por quê — Algum um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e tornou minha alma sombria? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e por intermédio deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis
.

Vocês podem ver que o trecho, embora conserve a estrutura, traz algumas diferenças importantes, como a própria supressão de duas frases constantes da primeira tradução: “a cor das coisas” e “tudo o que tocamos sem conhecer” — esta última fundida com o elemento seguinte. O ritmo escolhido pelo tradutor é também mais conciso, o que resulta em um trecho um pouco mais curto que o primeiro. Vamos dar uma olhada, agora, na tradução de Amilcar Bettega para o mesmo trecho, incluído na coletânea 125 Contos de Guy de Maupassant, naquela coleção da Companhia de volumões trazendo compilações extensas de contos por autor (Truman Capote, Scott Fitzgerald, Rubem Fonseca, entre outros) ou tema (Contos de Horror do Século XIX, Contos de Fadas, Contos de Amor do século XIX, por exemplo). Este volume também inclui a primeira versão de O Horla:

12 de maio
Faz alguns dias que tenho um pouco de febre; sinto-me indisposto, ou melhor, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desalento e nossa confiança em aflição? Diria que o ar, o ar invisível está repleto de Potências incognoscíveis, a cuja vizinhança misteriosa somos submetidos. Acordo cheio de alegria, com vontade de cantar. Por quê? Desço o longo da margem do rio e de repente, após um curto passeio, retorno angustiado, como se alguma desgraça me esperasse em casa. Por quê? Será um arrepio de frio que, roçando minha pele, abalou meus nervos e entristeceu minha alma? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, a cor das coisas, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou-me o pensamento? Sabe lá! Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, o que tocamos sem apalpar, o que encontramos sem distinguir, terá tudo isso sobre nós, sobre nossos órgãos e, por meio deles, sobre nossas ideias e mesmo sobre nosso coração, efeitos repentinos, surpreendentes e inexplicáveis?

Nota-se já nesta terceira comparação que os tradutores dos três textos transformam afirmações em interrogações e escolhem o passado do verbo ser na sequência de perguntas “será um arrepio” de acordo com seu melhor juízo sobre o ritmo e a propriedade do que querem para a tradução. O tom escolhido por Amilcar parece tão ágil quanto os demais, mas aquele “Potências incognoscíveis” de algum modo me soa estranho. Impressão pessoal, não técnica. Vamos agora dar um olhada na tradução incluída no volume Bola de Sebo e Outros Contos, reunião de 14 histórias em uma edição barata em papel-jornal publicada na coleção Clássicos Globo, de 1987 (quando a Globo já não era mais a Editora Livraria do Globo, de Porto Alegre, e seu catálogo havia sido adquirido pela empresa jornalística Globo do Rio). A tradução é de Mario Quintana (no volume que tenho, Casemiro Fernandes e Justino Martins aparecem identificados como tradutores no fim de alguns contos, levando à conclusão de que Quintana é o tradutor dos demais que não trazem o nome do responsável no fim (provavelmente as histórias traduzidas pelos outros dois foram acrescentadas para “engordar” nos anos 1980 o volume original traduzido por Quintana pelo menos duas ou três décadas antes, na época em que a Globo ainda era a “Globo da Rua da Praia”). Vejamos:

12 de maio
Há alguns dias que ando com um pouco de febre: sinto-me doente, ou antes, sinto-me triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo o nosso bem-estar, e a nossa confiança em desespero? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de Potências Incognoscíveis, de cuja misteriosa vizinhança nós sofremos a influência? Desperto cheio de alegria, com desejos de cantar. — Por quê? Desço até a margem do rio; e, súbito, após um curto passeio, regresso desolado, como se alguma desgraça me esperasse em minha casa. — Por quê: — Foi um frêmito de frio que tangenciando minha pele desequilibrou meus nervos e ensombreceu minha alma? Foi a forma das nuvens, ou a cor da atmosfera, a cor das coisas, tão variável, que, passando por meus olhos perturbou meu pensamento? Pode-se lá saber? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que roçamos sem conhecer, tudo o que tocamos sem palpar, tudo o que encontramos sem distinguir, causa em nós, em nossos órgãos e, por meio destes, em nossas idéias, em nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.

Com mais uma tradução no cotejo (adoro essa palavra) fica mais fácil explicar a sensação que tive com o “potências incognoscíveis” escolhido por Amilcar. É uma opção que não me causa estranheza nenhuma nesse trecho de Quintana, com uma dicção mais formal, com um certo sabor do seu tempo (é a única a se valer de uma mesóclise, por exemplo, e a única a chamar “arrepio” de “frêmito”). Já na de Amilcar, que de modo geral aproxima mais a linguagem de seu leitor de hoje, parece deslocado. Vamos para mais uma tradução, então,  de Celina Portocarrero para a coletânea Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa para a Nova Fronteira em 2006 para a coleção de antologias temáticas “escolha de mestre”. O interessante é que no ano seguinte, 2007, quando publicou a coletânea Os Melhores Contos de Loucura, Moreira da Costa publicou no volume o texto Um Louco, de Maupassant, e a primeira versão d’O Horla, para não repetir a que já havia saído na coletânea anterior.

12 de maio
Estou com um pouco de febre há alguns dias; sinto-me adoentado, ou talvez me sinta triste.
De onde vêm essas influências misteriosas que transformam em desânimo nossa felicidade e nossa confiança em angústia? Dir-se-ia que o ar, o ar invisível, está cheio de forças desconhecidas,cuja misteriosa proximidade nos afeta. Acordo cheio de alegria, com vontades de cantar em minha garganta — Por quê? — Desço o curso da água  e de repente, depois de um curto passeio, volto desolado, como se alguma infelicidade me aguardasse em casa. — Por quê — Algum um arrepio de frio, roçando minha pele, abalou meus nervos e tornou minha alma sombria? Será a forma das nuvens, ou a cor do dia, tão variável, que, passando diante de meus olhos, perturbou meu pensamento? Quem sabe? Tudo o que nos cerca, tudo o que vemos sem olhar, tudo o que tocamos sem apalpar, tudo o que encontramos sem distinguir, tem sobre nós, sobre nossos órgãos, e por intermédio deles, sobre nossas ideias, sobre nosso próprio coração, efeitos súbitos, surpreendentes e inexplicáveis.

Não deixo de notar que só agora, nessa versão, voltou um elemento cujo sumiço havia me intrigado lá no início. Na tradução de Gustavo Feix para a Artes e Ofícios, o narrador diz que acorda cheio de alegria e “com uma vontade de cantar trancada na garganta” — e essa menção à garganta é sistematicamente limada nos trechos posteriores até chegarmos a este. Quem sabe ler francês pode conferir que a menção à “garganta” está no original, como se comprova na transcrição abaixo do mesmo trecho no original francês, então não sei a razão pela qual os demais tradutores resolveram, se me permitem o trocadalho, cortar a garganta do personagem:

12 mai.
J’ai un peu de fièvre depuis quelques jours; je me sens souffrant, ou plutôt je me sens triste.
D’où viennent ces influences mystérieuses qui changent en découragement notre bonheur et notre confiance en détresse? On dirait que l’air, l’air invisible est plein d’inconnaissables Puissances, dont nous subissons les voisinages mystérieux. Je m’éveille plein de gaieté, avec des envies de chanter dans la gorge. – Pourquoi? – Je descends le long de l’eau; et soudain, après une courte promenade, jê rentre désolé, comme si quelque malheur m’attendait chez moi. – Pourquoi? – Est-ce un frisson de froid qui, frôlant ma peau, a ébranlé mes nerfs et assombri mon âme? Est-ce la forme des nuages, ou la couleur du jour, la couleur des choses, si variable, qui, passant par mes yeux, a troublé ma pensée? Saiton? Tout ce qui nous entoure, tout ce que nous voyons sans le regarder, tout ce que nous frôlons sans le connaître, tout ce que nous touchons sans Le palper, tout ce que nous rencontrons sans Le distinguer, a sur nous, sur nos organes et, par eux, sur nos idées, sur notre coeur lui-même, des effets rapides, surprenants et inexplicables.

Em tempo: pelo que eu me lembre, acho que ainda há pelo menos duas outras versões desse conto. Uma delas está com certeza em um volume chamado Contos Fantásticos: O Horla e Outras Histórias, da L&PM, e a segunda é provável que esteja em Contos Aterrorizantes, da coleção Leitura Jovem da Leitura XXI, mas eu não tenho exemplares de nenhum dos dois para transcrever aqui, então se encontrar,volto e atualizo este post.

Em tempo 2: Havia me equivocado na primeira redação deste texto quanto ao crédito da tradução da edição mais recente, da Artes & Ofícios. O tradutor, como agora está ali corrigido, é Gustavo Feix. Paola Felts Amaro foi a supervisora da tradução.

A imortalidade de Maigret

09 de março de 2011 2

O ator Jean Gabin caracterizado como Maigret

Publicamos hoje no Segundo Caderno de Zero Hora um material lembrando os 80 anos de criação do investigador Jules Maigret, o detetive recorrente de 75 romances e um punhado de contos escritos pelo belga Georges Simenon (1903-1973). O personagem, um dos mais populares detetives da ficção policial, vem tendo sua série completa repúblicada no Brasil pela L&PM, com novas traduções e a edição de material inédito em português. Uma atenção merecida. À primeira vista, Maigret é o pesadelo das modernas academias de polícia. Corpulento, impaciente e irritadiço, o comissário muitas vezes parece mais um preguiçoso filósofo de bistrô do que um policial renomado. Até que, entre baforadas de cachimbo, goles de vinho ou cerveja, colheradas de grogue e indiferença por métodos “científicos” de investigação, Maigret chega à solução do mistério.

Maigret, seu gabinete no Quais des Orfèvres, em Paris, seus assistentes Janvier e Lucas, sua lentidão, seu alheamento intuitivo dos casos em que atua são elementos de uma mitologia tão sólida quanto a do clássico da literatura policial Sherlock Holmes. Algo que não é casual, fruto do trabalho obstinado de Simenon, autor que, no início de sua carreira, chegava a redigir um romance por dia. Maigret, criado em 1931, tornou-se seu personagem mais conhecido, mas Simenon escreveu duas centenas de obras não protagonizadas pelo detetive – muitas delas não eram sequer romances policiais, embora o crime estivesse presente como o elemento que potencializava o conflito.  Obras que se dedicavam a um dos principais objetivos literários do grande romance francês: o retrato das forças morais e psicológicas que se debatem, surdas, no subterrâneo da pacata vida doméstica de província.  Em O Homem que Via o Trem Passar, um burguês incolor sufocado pela vida rotineira, certo dia se entrega à compulsão selvagem de matar, buscando na exacerbação da violência o sentido da vida apagada que vivera até então. Em Sangue Na Neve, o escritor vai mais longe, e narra a história mergulhando no ponto de vista de um jovem criminoso – uma aproximação que muitos já compararam a O Assassino em Mim, de Jim Thompson. O Gato começa quase burlesco, com a história de um casal que, brigado por uma miudeza qualquer, não se fala há anos, comunica-se apenas por trocas de bilhetes. A escala da animosidade entre ambos se eleva a tons gradualmente mais sombrios. A responsabilidade do indivíduo para com os outros também era um tema recorrente em Simenon, como no estudo sobre a autoridade O Burgomestre de Furnes ou o drama — outra vez — conjugal Sinal Vermelho.

Para lembrar Simenon nos 80 anos de Maigret, republico aqui um artigo escrito pelo jornalista Lauro Schirmer em julho de 2003, por ocasião do centenário do autor:

______________________

O Balzac do Século 20
por Lauro Schirmer

O centenário de nascimento de Georges Simenon, que se comemora este ano, não é apenas mais uma efeméride evocando personalidades destacadas do século 20 nascidas em 1903. Simenon, na literatura universal, é uma figura ímpar: André  Gide comparou-o a Honoré de Balzac, chamando Simenon de “o Balzac do século 20“; para Jacques Chardonne, “no século 20, o único verdadeiro romancista em língua francesa é Simenon“; e o americano Henry Miller foi ainda mais longe ao proclamar sua admiração: “Simenon é tudo o que um escritor gostaria de ser. Simenon é único, não apenas hoje mas em qualquer época. Devemos remontar a Lope de Vega para encontrar uma analogia possível“.

Desde Liège, cidade belga onde nasceu, passando por Paris onde morou a maior parte de sua vida, e por Lausanne, na Suíça, onde a terminou, são muitas as homenagens que ao longo deste ano serão tributadas ao criador do comissário Maigret e de tantas figuras marcantes que desfilam nas páginas de seus livros, que nem se sabe precisamente quantos são. Estima-se que tenham sido mais de 400 — só a série Maigret tem 87 títulos —, pois houve inúmeros livros que ele assinou com pseudônimos, tornando-se o mais fecundo escritor até hoje surgido. A Gallimard já anunciou a publicação de toda a obra literária de Simenon na prestigiada coleção Pléiade. Na Bélgica, a Ópera Real da Wallonie vai produzir um musical evocando a ligação de Georges Simenon com Josephine Baker, grandes amigos nos anos loucos de Paris. No cinema, quem sabe aproveitando a comemoração do centenário, poderá ser relançado o filme francês de 1971, dirigido por Pierre Granier-Deferre, inspirado em Le Chat (O Gato), com Jean Gabin e Simone Signoret vivendo o casal de velhos que se odeiam.

Famoso pela série de narrativas policiais que tinha como personagem a figura simples e cativante do comissário Maigret, Simenon projetou-se ainda mais como  excepcional romancista não-policial. O genial cineasta Federico Fellini dizia que Simenon era o único escritor que o fazia se sentir inteiramente “dentro” da pele dos personagens, como se as histórias por ele contadas fossem fatos verdadeiros ligados à própria vida de quem as lia. Influenciado por Gogol e Tchecov, escritores russos que ele elegeu como seus padrinhos, Simenon dava a impressão de sofrer por ver sofrerem os seus personagens. O Gato, uma novela curta tida entre as mais notáveis obras de Simenon, é bem representativa de sua capacidade de criar dramas psicológicos insólitos. Dois viúvos, já velhos, se unem num casamento de conveniência, em que Émile Bouin, com o gato companheiro de sua solidão, vai morar na casa de Marguerite Doise, que criava um papagaio. À medida que a relação do casal se deteriora, até que nem sequer trocam palavras, Marguerite deriva sua raiva contra o bichano, terminando por, insidiosamente, envenená-lo. Émile se vinga, passando a tirar as penas do rabo do papagaio, até matá-lo. É difícil encontrar histórias curtas mais impactantes do que essa, diante da forma magistralmente encontrada por Georges Simenon para narrá-la.

Como homem, Simenon foi uma figura que viveu dramas terríveis (o suicídio da filha, as suspeitas de incesto) e vivenciou experiências incríveis, como a de ter contabilizado, aos 77 anos, que ao longo da vida havia tido relações sexuais com mais de 20 mil mulheres — em sua maioria, prostitutas, em encontros que não se repetiam, conforme esclareceu na biografia que nos deixou. Mas não é pela sua vida, e sim pela sua obra, que ele até hoje segue muito presente. O comissário Maigret pode não mais desfrutar do prestígio dos tempos em que os livros policiais de Simenon vendiam muito mais do que os de Agatha Christie. Detetives de novas gerações, criados por autores mais recentes como Donna Leon, Philip Kerr, Manuel Vasques Montalban e Andréa Camilleri, estão por aí emergindo, mas não lhes será fácilalcançar a notoriedade do comissário que, fossem quais fossem os desafios a enfrentar, não abria mão do prazer de deixar seu gabinete no Quai des Orfèvres para ir beber cerveja na Brasserie Dauphine.

Estruturando o Papai Noel

03 de novembro de 2009 1

Claude Levi-Strauss. Foto de Eric Brochu / Divulgação, Cosac Naify

Este texto deveria ter sido publicado mais cedo, mas a correria da Praça inviabilizou a coisa, e a  essa altura vocês todos já sabem que o antropólogo Claude Lévi-Strauss morreu, aos 100 anos, em Paris. Agora, já que já se foi a notícia, acho mais jogo falar então de seu último livro publicado no Brasil, O Suplício do Papai Noel, obra que ainda não havia ganhado edição por aqui até o Natal do ano passado. É um ensaio no qual o mitológico intelectual francês dirige o vasto arsenal de seu conhecimento para interpretar outra figura mitológica, o Papai Noel.

Originalmente publicado na França em 1951, O Suplício do Papai Noel parte de um fato inusitado: a queima simbólica do Papai Noel, realizada na frente de uma igreja e na presença de uma multidão de alunos de escolas católicas. A partir desse pretexto, Lévi-Strauss se entrega a um exercício de raciocínio que vai buscar as raízes culturais da figura do Papai Noel, seus antepassados no folclore europeu e até mesmo a permanência de uma certa lógica cultural que preside a existência do hoje chamado “bom velhinho”. Lévi-Strauss recupera figuras como o Abade de Liesse, personagem europeu eleito rei do Natal para presidir a época de desregramentos das festas – o equivalente outonal do Rei Momo, digamos assim. E os reis das antigas Saturnais romanas, festas para os mortos por violência ou insepultos.

O Noel cuja genealogia Lévi-Strauss recupera no seu ensaio não é um modelo imposto pela colonização cultural americana — sim, já se falava nisso naquele período imediatamente posterior ao pós-Guerra — nem um agente do paganismo disfarçado corrompendo as instituições cristãs da França católica. Levi-Strauss vê no Papai Noel e nos demais símbolos associados ao Natal, como as árvores decoradas com enfeites e o costume de dar presentes, os sinais de permanência de uma tradição arcaica européia que prevê uma negociação e uma convivência temporária, durante o sombrio outono europeu, com os espíritos dos mortos, presentes outra vez junto aos vivos e exigindo mimos e agrados para não destruir o que vê pela frente — origem de outra tradição, a do Halloween, hoje presente até nas escolas do Brasil. O livreto saiu na esteira do relançamento de outras obras de Lévi-Strauss pela Cosac Naify, entre eles Antropologia Estrutural.