Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "Literatura Infanto-Juvenil"

Pano pra manga na praça

14 de novembro de 2013 0
Rousseau de Pano  na banca da Tomo Editorial. Foto: Carlos André Moreira

Rousseau de Pano na banca da Tomo Editorial. Foto: Carlos André Moreira

Na barraca da Tomo Editorial, numa das extremidades do corredor da Rua da Praia, um pequeno autor vinha aguardando imóvel há dias pela sua sessão de autógrafos, que foi realizada hoje às 19h, na Praça de Autógrafos. O Rousseau de pano que está exposto na banca foi criado pela designer Sirlei Chiminazzo e marca o lançamento do oitavo volume da editora dedicado à coleção Filosofinhos/Les Petits Philosophes.

O livrinho dedicado a Rousseau é de autoria de Cauê Borges (texto) e Francisco Juska Filho (ilustrações). Os títulos da coleção pretendem apresentar em formato de história para crianças ideias de grandes filósofos do pensamento ocidental. Descartes, Freud, Sócrates, Platão, Marx, Kant e Sartre e Simone de Beauvoir (dividindo um mesmo volume) são os autores que já ganharam edição pela série.

A iniciação amorosa em um mundo veloz

12 de abril de 2012 0

Primeira Vez e Muitas Vacas (Record, 114 páginas), o mais recente romance do porto-alegrense Marcelo Carneiro da Cunha, é uma reflexão sobre a solidão de uma adolescência desesperada por ser gregária. Cunha narra no livro a história de Vita, uma jovem angustiada com a virgindade  – ela e um grupo de amigas fizeram um pacto de não chegar ao final do ano sem descobrir afinal o que há de tão initeressante no sexo. A vida pessoal da moça não vai lá muito equilibrada: os pais se separaram (o pai trocou a mãe por uma mulher bem mais jovem, alvo do ressentimento de Vita), a vida no colégio é difícil como qualquer tempo passado na escola, as inseguranças da época parecem que nunca vão entrar em foco ou controle. Até que o convite de uma prima para que Vita vá visitá-la no interior do Estado pode marcar a passagem da jovem para o mundo adulto com menos traumas do que ela provavelmente previa.

Escritor de bem-sucedidos livros dirigidos para o público infantojuvenil (como a série Duda e o livro que deu origem ao longa-metragem Antes que o Mundo Acabe) e de obras adultas que abordam a onipresença do sexo na vida contemporânea, Cunha cruza as duas vertentes ao narrar as angústias de Vita pela voz dela mesma, uma voz jovem e inteligente, sarcástica e por vezes sentimental. O escritor concedeu, por telefone, de São Paulo, cidade onde está radicado há cinco anos, a seguinte entrevista sobre o livro:

Zero Hora – Neste mais recente livro você faz uma espécie de casamento, formal e temático, das duas vertentes de sua carreira de escritor, literatura adulta e infanto-juvenil. É um livro que sai pela linha adulta da Record, não no selo juvenil, mas tem a voz de uma protagonista adolescente descobrindo a sexualidade. É uma síntese?
Marcelo Carneiro da Cunha –
Eu diria que é mais uma convergência. Se eu pego um personagem como o de meu livro anterior, Nem Pensar, um garoto de 12 anos, a própria narrativa, o olhar, acaba sendo de um menino pré-adolescente. Em Depois do Sexo, que tem um personagem adulto, a narrativa do cara empurra para o mundo adulto. Uma garota de 14, 15, anos, justamente nessa fase de transformação, a voz dela converge, ela vai ter questões do mundo adulto se abrindo para ela com muita força, com um olhar que tem um pé aqui, outro pé lá pela própria transição da idade. Acho que é essa a diferença. È a primeira vez que eu construo um personagem nessa faixa.

ZH – E o que o levou a apostar desta vez em um personagem com essas características, de cruzamento entre o que você faz na literatura juvenil e o que você faz na literatura adulta?
Cunha –
Esse universo acaba sendo chamado de juvenil por uma categoria de mercado. Porque se for pensar, no momento em que o governo compra livros, é um grande comprador de livros para as escolas, há uma preocupação cada vez maior, e uma preocupação correta, não politicamente correta, sobre o que se pode e o que não se pode comprar para um público jovem. É óbvio que para evitar uma série de problemas o próprio comprador acaba buscando nessa categoria de mercado um texto um pouco mais seguro, digamos. Acho que é isso o que faz essa divisão de juvenil e não juvenil. Porque o personagem em si tem de tudo dentro dele. É só ouvir um garoto falando numa situação aqui e noutra ali e ele se torna tranquilamente mais ou menos juvenil de acordo com a circunstância. Mas voltando à escolha do personagem: meu segundo livro, Praia da Ferrugem, é sobre uma menina que tem um namorado mais velho que quer ir com ela num feriado para a praia. E a narrativa se encerra quando está começando essa última noite dela no feriado com o namorado, em que ela está sentindo se vai ou não vai rolar. E é justo para aquele personagem narrar até aquele ponto, não porque naquele momento eu queria evitar a questão do sexo, mas porque me pareceu mais rico tangenciar, fazer a personagem se perguntar: o que eu faço agora? Dá para imaginar que Praia da Ferrugem, que é de 1988, e Primeira Vez e Muitas Vacas, de 2012, têm apenas uma noite de diferença entre eles, para valer.

ZH – Mesmo que haja essa aproximação tão grande, a moça retratada no livro dos anos 80 tem alguma diferença da Vita deste livro, uma jovem hiperconectada, com um perfil mais semelhante ao dos jovens de hoje e suas redes?
Cunha -
Olhando para o que eu venho fazendo há mais de 20 anos, sempre o tema da minha literatura é ultracontemporâneo, e se desloca ao longo dessas duas décadas que estou trabalhando. Para aquela menina do Praia da Ferrugem, o “ficar” era a grande novidade. O ficar como um verbo que designava uma nova ação, um comportamento feminino de “eu quero e eu executo”, em 1987, 1988, isso era muito revolucionário. Essas meninas de agora, a questão é muito outra. Entrevistando garotas dessa faixa etária, minha sobrinha e outras meninas, percebi que a questão delas de fazer a passagem para o sexo é muito distinta. É uma questão de inserção, de como elas passam a participar desse jogo e em que termos. E elas descobrem – e acho que essa é a questão ultracontemporânea de agora -  que como as mulheres mudaram e os homens mudaram, os meninos dessa nova geração não são mais comprometidos com o desejo feminino, como eram antes. Então ao fazer o gesto de querer entrar  nesse mundo, ela não recebe de volta do outro lado um gesto correspondente: “ah, quer entrar, então vamos juntos, vamos ver como se faz”. Ela vai ter um cara que vai responder: “eu tenho outras questões, isso não tem nada a ver comigo, eu não preciso ajudar, eu tenho outras possibilidades, então para que eu vou bancar o custo emocional de iniciação de uma menina?”. Isso é muito novo, e me chamou a atenção. Me chamaram a atenção também os motivos que as garotas têm para fazer a passagem, como no caso da personagem do livro, para não ser a última da turma. Não tenho uma leitura, uma resposta para esse fenômeno, mas só uma observação. Porque com as redes sociais, as pessoas se preocupam profundamente com a sua reputação, mas em um sentido completamente distinto do que era a reputação há alguns anos. É uma reputação do tipo: “não quero que saibam que eu sou eventualmente frágil em alguma coisa”.

ZH – Mas essa situação de adolescentes compararem seu conhecimento sentimental e amoroso, e não quererem ser os últimos de um grupo a descobrir o sexo, não é algo bastante comum, datando de bem mais tempo antes das redes? A preocupação com a reputação também não assombra adolescentes há mais tempo?
Cunha -
A preocupação com a reputação parece ter invertido o sinal. Para uma garota, a reputação antes era de ser a virgem, preservar-se como a última virgem. Agora é o contrário: não se quer mais ser a última virgem. Isso é uma inversão de sentido. E a reputação desejada passa a ser a de uma imagem de qualidade: de ser bom, de  ser melhor, não ser fraco. E a questão da propagação também mudou. Antes tu tinha a tua turma e tu era “falado”. E hoje tu é descrito no Facebook. Esse potencialização da multiplicação da tua imagem torna a preocupação maior, talvez. É diferente como se constrói uma imagem e como se constrói uma reputação. E essa mudança do eixo moral é marcada também pelas expectativas quanto ao desempenho das meninas, que antes era uma preocupação muito masculina, e hoje é também uma preocupação feminina. Isso é novo: ter a imagem boa, de alguém que sabe. E saber nesse caso não é só ter a informação, porque a informação circula, é ter acesso à prática.

ZH – Sua protagonista no livro, Vita, resolve que vai tentar obter sua iniciação sexual em uma visita a parentes no interior, acreditando que sua imagem como uma moça vinda da Capital será melhor lá do que na cidade grande onde vive. É também uma viagem de algum modo no tempo, em direção a um tempo anterior mais simples?
Cunha -
Acho muito boa essa observação, porque o livro tem claramente esse sentido de um presente e de um passado, a oposição entre cidade grande e cidade pequena, um lugar em que ainda de alguma forma algumas coisas ainda se preservam de um certo jeito, apesar de a informação circular por lá também via redes. E na verdade é também uma viagem ao passado da própria família. É uma viagem de uma menina virando mulher e indo até onde estão outras mulheres da família. É quando ela se dá conta de que sua família é muito marcada por uma linha de mulheres fortes do passado, das quais ela é herdeira. Sim, ela se beneficia da aura de menina cosmopolita que uma moça da Capital tem e o valor que isso traz, mas ao mesmo tempo tenta se proteger com a distância. O que quer que aconteça naquela cidade, ela sempre pode voltar para casa com a imagem protegida pela distância. Isso de algum modo facilita essa transição dela

Três buscas

23 de março de 2012 0

Três escritores gaúchos de trajetórias distintas participarão neste sábado, às 18h, de um debate e sessão de autógrafos coletiva em Porto Alegre. Reunidos no auditório da Livraria Cultura (Shopping Bourbon Country, Avenida Tulio de Rose, 80), Dilan Camargo, Luís Dill e Sergio Napp apresentarão seus livros de estreia pela editora 8inverso e conversarão com o público sobre literatura e mercado editorial.

Nos lançamentos, cada autor apresenta uma forma narrativa diferente. O poeta Dilan Camargo aventura-se em contos direcionados aos jovens em O Man e o Brother (96 páginas, R$ 34), um livro compilando 10 contos voltados para o público juvenil a partir de personagens que vivem em situaçõesde vulnerabilidade. São as “macabéas” que inspiram o autor:

– O personagem do conto que dá título ao livro é um jovem que quer ser um homem, e não apenas um brotherzinho submetido à lógica social da violência e do crime, mesmo no limite da sua própria vida.

Voltado para a mesma faixa etária, o escritor Sergio Napp, também conhecido pela atuação como letrista da MPB e da música regionalista, lança o romance de formação Houve um Verão (128 páginas, R$ 35). Inspirado pela possibilidade de fazer literatura juvenil sincera e irreverente, Sérgio Napp concebeu um livro protagonizado por um Gabriel, que começa a narrativa como é um menino curioso, depois, um adolescente que anseia por ser e, finalmente,um homem feito.

–  O livro toca em vários assuntos atuais, mas sem o ranço moralista. Este texto me abriu caminhos em meu modo de escrever e pensar a literatura juvenil – afirma Napp.

Do ponto de vista formal, o livro mais ousado é o de Luís Dill. A Dor mais Afiada (208 páginas, R$ 39) leva adiante a experimentação anterior de Dill cruzando minicontos e o gênero policial. Desta vez, o autor lança um romance policial dividido em mil pequeníssimos capítulos, de três linhas cada. Em A Dor mais Afiada, Douglas vive uma trama de crime e traição cujos conflitos desenvolvem-se em pílulas que instigam, mas não saciam (numa estrutura que lembr ade passagem o conto 74 Degraus, de Rubem Fonseca).

– Sempre gostei de inventar estruturas narrativas e de me propor desafios restritivos. Um dos maiores foi fazer com que cada capítulo tivesse importância na construção dos personagens – conta Dill.

Ainda que não se trate de uma coleção, e a publicação das três obras apenas coincida no tempo de seu lançamento, a coordenadora editorial das publicações, Elaine Maritza da Silveira, reconhece entre os livros uma ligação:

– Há um traço forte de humanidade que se consegue perceber nas personagens que passeiam pelas narrativas tão bem construídas. Nos três livros, o leitor encontrará seres humanos que querem, embora algumas vezes o neguem, ser alguém melhor, e por isso buscam, às vezes por vias tortas, encontrar o fio que lhes dará o norte, ou o que pensam que seja o norte.


Receita para a criança que há nos pais

04 de novembro de 2011 0

Na edição desta sexta-feira de Zero Hora, os escritores Celso Gutfreind e Caio Riter deram suas receitas para um final de semana divertido na Feira do Livro de Porto Alegre. Aqui, o psiquiatra e psicanalista Gutfreind, que amanhã autografa Domingo para Sempre e Outras Histórias sobre Nunca Mais (Artes e Ofícios), às 18h30min, na Praça de Autógrafos, dá dicas para os adultos que vão passear com os pequenos pela Praça da Alfândega. Confira.

Celso Gutfreind

Imita aquele autor bem infantil e maior, o Oscar Wilde: desiste de encontrar receita. A vida é como um livro bom, sempre surpreende.

Depois ouve aquele outro bem infantil e maior, o Lewis Carroll. Aí pensa que a vida é um absurdo, esquece o que eu disse e ouve esta receita.

Você também é, apesar de infantil como os adultos, um autor ou autora maior; afinal, vocês escreveram um filho. Haverá, em toda Feira, obra maior do que esta?

O texto, portanto, está escrito e pronto para ser lido. Na primeira página, teve aquele olhar bem dado, lembra dele? Parecia a roda-gigante em movimento. Pega este olhar e põe no bolso da camisa (ou blusa).

Na página seguinte, havia aquele carinho; era um toque nos cabelos, a mão na mão, o colo. Perfeito, parecia o carrossel. Então, bota no bolso da calça.

Depois tinha aquele banho de sons nas cantigas que entoaste antes do filho dormir. Era como um tiro ao alvo certeiro. Leva junto, na mão mesmo.

E tinha aquele banho de palavras, nas histórias que contaste, quando a noite veio. Nem eram de livro, pura memória e desejo de sonhar. Pescaria de alto nível, fisgavas o sono tranquilo. Leva junto, ao lado dos sons.

Pronto, agora é só ir à Feira. Lá encontrarás histórias que não pudeste viver, inclusive esta, que não foi bem assim, especialmente nas noites. Teu filho reconhecerá a beleza da pipoca, do sorvete, do algodão-doce. E sentirá que barraca nenhuma deve nada às atrações que ele viveu no berço e no Parque de Diversões.

Encontrará, em cada livro, o tempo que perdeste com ele, no começo. E ganhará, novamente, sensações verdadeiras e intensas.

Tua obra, em forma de filho, encontrará outras obras, em forma de livro. E há de ser um confronto prazeroso de gigantes.

Na Companhia de Fantasmas

15 de julho de 2010 2

Lápides, mausoléus e fantasmas não são o cenário ideal do playground para um garotinho crescer. A menos que essa criança sinta-se mais segura entre os mortos do que em companhia dos vivos e seja personagem de uma trama de Neil Gaiman, um dos mais celebrados autores de fantasia contemporâneos. Em O Livro do Cemitério, o autor de Coraline volta a investir no público infanto- juvenil, apresentando uma trama sombria, mas repleta de emoção.

Com ilustrações de Dave McKean (acima), companheiro de trabalho de Gaiman desde os anos 1980, quando ambos se projetaram com a cultuada série de quadrinhos Sandman, o livro narra a história de um bebê de pouco menos de dois anos que teve os pais e o irmão mais velho cruelmente assassinados. Ao fugir do criminoso, o menino encontra abrigo em um velho cemitério nas cercanias de sua casa, em uma cidadezinha no interior da Inglaterra.

Em seu refúgio, o garotinho descobre que não só tem o dom de enxergar, mas também de conversar com os espíritos das centenas de almas enterradas no local. Como seu nome é desconhecido por todos, até por ele mesmo, o guri recebe o sugestivo nome de Ninguém, e passa a ser adotado pelos fantasmas. Seu único companheiro vivo é Silas, o enigmático guardião que sabe as razões que levaram ao assassinato da família de Ninguém. Por isso, não permite que o menino deixe o cemitério. Ao mesmo tempo em que cresce e aprende com os fantasmas de professores e poetas que vagam por entre as sepulturas, o menino desenvolve habilidades que lhe permitem transitar entre o mundo dos vivos e dos mortos. Mas, à medida que começa se tornar um adolescente, Ninguém não se conforma mais com os limites do cemitério – quer conviver com “a gente viva” e com os riscos que essa decisão acarreta.

Com sensibilidade, sem apelar para clichês ou soluções óbvias, Gaiman usa sua habitual inteligência em lidar com o fantástico para tratar também de temas como amizade, lealdade e os dramas inerentes à adolescência, com suas paixões e frustrações. A resistência de Ninguém em seguir as ordens de seus pais adotivos fantasmas e o desejo de transpor os muros do cemitério nada mais são do que uma alegoria dos conflitos inerentes ao amadurecimento. Por isso, mesmo voltado para crianças e adolescentes, o livro também pode ser apreciado por adultos. Não por acaso, a obra já recebeu prêmios literários como o Hugo (concedido a obras de fantasia) e a Newberry Medal (para obras de literatura infanto-juvenil).

Mas, apesar de seus méritos, O Livro do Cemitério também tem pontos baixos, especialmente
o ritmo narrativo. A trama começa muito bem, com alto nível de tensão, mas deixa a desejar em seus capítulos intermediários, com situações repetitivas, demasiadamente longas e que pouco acrescentam ao desenrolar da história. O fôlego é retomado na porção final do livro, que reserva boas doses de emoção. E assim como outras obras de Gaiman, a exemplo de Stardust: O Mistério da Estrela, O Livro do Cemitério terá sobrevida para além do papel: o cineasta irlandês Neil Jordan (de Traídos pelo Desejo e Entrevista com o Vampiro) já trabalha em uma adaptação da história para as telas.

Texto de Jaime Silva, publicado na Zero Hora de quarta-feira, 14 de julho

O novo Harry Potter... mesmo

06 de abril de 2010 8

Departamentos de marketing adoram rotular um produto como o “novo-alguma-coisa-que-fez-um-sucesso-do-cacete-faz-algum-tempo”, tentando atrair público na base do sofisma: proposição a) você gostou do filme/livro A; proposição b) o filme/livro B é o “novo filme/livro a”; conclusão: logo, você vai gostar do filme/livro B também. Obviamente não funciona assim, como já explicou Rubem Fonseca em outra circunstância e falando de outra coisa, como você pode ler aqui. Mas o pessoal continua tentando. Às vezes não é mera tentativa. Considerando o quanto o sucesso de um livro (ou de um filme) detona a imediata caça ao tesouro por algo que seja o “novo-aquele-outro”, é inevitável que ganhem espaço e visibilidade obras que tenham pontos de contato flagrantes com o que antes fez sucesso, para ver se a fórmula mágica se repete. Foi assim com a infindável sucessão de romances “Quero Ser Código da Vinci” lançados na esteira do best-seller de Dan Brown ou as inúmeras variações em torno do Iraque ou do Afeganistão após o sucesso de O Caçador de Pipas.

Depois que J.K. Rowling encerrou uma das séries literárias e cinematográficas de maior sucesso de todos os tempos ao finalmente concluir a saga de Harry Potter (que deve acabar também no cinema em mais um ou dois anos), abriu-se um espaço, no entendimento do mercado editorial, para que esse posto fosse ocupado – e foi assim que ganharam a luz do dia filmes como A Bússola de Ouro, baseado na série de Philip Pullmann, Coração de Tinta, adaptação do romance de Cornelia Funke, ou a malfadada Eragon, para citar só alguns. Esses três exemplos que eu citei ganharam também o direito de ocupar as livrarias em edições bem cuidadas – às vezes até mais bem cuidadas do que seu conteúdo constrangedor merecia.

No fim do ano passado chegou aqui no Brasil, por artes da editora Intrínseca, a série Percy Jackson e os Olimpianos (opção pessoal minha, claro, mas não consigo deixar de lamentar que os tradutores tenham escolhido “olimpiano” em vez de “olímpico” para designar os habitantes do Olimpo, ou seja, os Deuses Gregos). Que a esta altura, como vocês já sabem, também virou filme, Percy Jackson e o Ladrão de Raios, que andava passando pelos cinemas por aí.

Escrita ao longo da última década pelo professor americano de ensino médio Rick Riordan, a série já vendeu (de acordo com a editora, é sempre bom lembrar) nove milhões de livros no mundo todo – 130 mil deles no Brasil, onde já saíram quatro episódios: O Ladrão de Raios, O Mar de Monstros, A Maldição do Titã e A Batalha do Labirinto. Com esses números, não demorou para a série ganhar o apelido de “O Novo Harry Potter”. O que me surpreendeu na leitura dos quatro livros foi que essa qualificação cai como uma luva, não se restringindo apenas a um chamariz marqueteiro. De fato, se abstrairmos o pano de fundo de ambas as narrativas (bruxaria no primeiro e mitologia grega no segundo), há muito mais semelhanças do que diferenças, como vocês podem ver abaixo:

Nota desnecessária número 1: PJ = Percy Jackson, HP = Harry Potter.
Nota desnecessária número 2: não tenho paciência com frangotes com medo de spoiler. Não quer saber, não leia.

O herói
PS: Percy Jackson, jovem desajustado que, aos 12 anos de idade, descobre que, por fatores especiais de hereditariedade e nascimento, tem os poderes especiais de um semideus.
HP: Harry Potter, jovem desajustado que, aos 11 anos de idade, descobre que, por fatores especiais de hereditariedade e nascimento, tem os poderes especiais de um bruxo.

A formação
PS: Ao se descobrir um semideus, Percy é enviado para um acampamento de verão lotado de outros semideuses como ele, onde vai aprender a usar seus poderes e às vezes se meter em encrenca confrontando a figura autoritária do administrador, o deus Dionísio.
HP: Ao se descobrir um bruxo, Harry é enviado para um colégio interno lotado de outros bruxos como ele, onde vai aprender a usas seus poderes e às vezes se meter em encrenca confrontando a figura autoritária do professor Severo Snape.

Os parceiros fieis
PS: Em suas aventuras, Percy Jackson conta com a ajuda de uma colega bonita e muito inteligente (mais até do que ele) chamada Annabeth, filha da deusa Atena, e de um sátiro atrapalhado, mas leal e de bom coração, chamado Grover.
HP: Em suas aventuras, Harry Potter conta com a ajuda de uma colega bonita e muito inteligente (mais até do que ele) chamada Hermione e de um bruxo atrapalhado, mas leal e de bom coração, chamado Roni.

O lar humano
PS: Percy começa a história vivendo com a mãe e com o padrasto Gabe, um sujeito repulsivo e mesquinho que o trata mal e o tiraniza – mas que, por ironia, é o elemento que o manteve seguro durante a infância, a salvo de seus inimigos.
HP: Harry começa a história vivendo com seus tios e seu primo, sujeitos repulsivos e mesquinhos que o tratam mal e o tiranizam – mas que, por ironia, formam o elemento que o manteve seguro durante a infância, a salvo de seus inimigos.

O vilão
PS
: Todas as agruras sofridas por Percy em suas jornadas e aventuras são devido a maquinações de Cronos, o Deus do Tempo, um vilão cruel e manipulador que, outrora todo-poderoso, agora é uma sombra incorpórea lutando para recuperar seu poder e até mesmo sua forma física.
HP: Todas as agruras sofridas por Harry em suas jornadas e aventuras são devido a maquinações de Voldemort, senhor das Trevas, um vilão cruel e manipulador que, outrora todo-poderoso, agora é uma sombra incorpórea lutando para recuperar seu poder e até mesmo sua forma física.

A profecia
PS: Percy é estigmatizado por uma profecia segundo a qual um semideus, jovem filho de um dos três grandes deuses irmãos (Zeus, Poseidon e Hades) está destinado a mudar o curso da história e a destruir ou salvar o Olimpo. Embora tudo aponte para ele, a profecia muito bem poderia se aplicar a outros dois semideuses que aparecem ao longo da história, um deles filho de Zeus e outro, de Hades.
HP: Harry Potter é estigmatizado por uma profecia segundo a qual um jovem bruxo nascido no final do mês de julho estaria destinado a mudar o curso da história e a derrotar Voldemort. Embora tudo aponte para ele, a profecia muito bem poderia se aplicar a outro bruxo, Neville Longbottom.

Noll para a juventude

26 de janeiro de 2010 1

Literatura para adolescentes precisa ter enredo simples e linear, personagens e vozes narrativas fáceis de decifrar? Precisa entregar tudo pronto ao leitor, sob pena de, em caso contrário, perdê-lo irrevogavelmente? João Gilberto Noll defende que não. O escritor porto-alegrense, que em 2010 festeja os 30 anos de sua estreia literária (com o volume de contos O Cego e a Dançarina), acaba de estrear como autor de livros infanto-juvenis. Com dois lançamentos, Sou Eu! e O Nervo da Noite, que trazem para o universo adolescente seu texto denso, pontuado por imagens e uma sonoridade poética, que convida o leitor a descobertas e prazeres “menos imediatos”, como afirma o também escritor e jornalista Michel Laub na introdução de um deles.

Sou Eu! é o relato das lembranças de um menino da cidade grande, a partir das suas memórias de um banho de rio que tomou com um garoto do campo durante as férias de verão no interior. O que começa como um devaneio se torna uma reflexão sobre as transformações a que ele é submetido na passagem para a  maturidade, que o público vai descobrindo aos poucos, em todos os seus medos e em todas as suas incertezas:

“O menino da cidade saiu do rio, sentou na margem e tentou se concentrar mais uma vez no seu próprio eixo. Mas no momento era difícil voltar para dentro de si mesmo. Viu que sua vida de verão seria mesmo aquela alegria desvairada com o garoto campesino.
Aferrado aos próprios pensamentos, aos pequenos tormentos diários da cidade, ele deixaria passar a festa daquele dia ensolarado, uma festa a que ele fora convidado sem saber quem era o anfitrião.
O guri dos campos, ah, o guri dos campos parecia continuar intacto em sua alegria, cuspia longe para ver até onde ia a saliva e subia o terreno íngreme da margem em direção ao companheiro de férias de quem ele nunca soubera o nome.”

Pelo trecho acima, de Sou Eu!, pode-se ver que Noll, mesmo em textos curtos (ambos os livros têm 48 páginas e mais parecem contos do que novelas) e voltados para o leitor menos maduro (a editora Scipione indica que os dois são proprícios ao público adolescente e aos jovens adultos), mantém o lirismo característico da sua prosa adulta.

Em O Nervo da Noite, o exercício de embaralhamento de sonho e realidade é ainda mais instigante. Ao acordar, o jovem protagonista tem de assumir um novo e desconhecido papel. O rito de passagem, aqui, também é o foco do autor. A história, no entanto, tem duração determinada, restrita: apenas uma noite. É nesse período que o adolescente deve se preparar para uma nova fase, que surgirá no outro dia, quando já não lhe será mais permitido, escreve Noll, “retroceder para o reino da infância”.

“Havia horas como aquelas, onde tudo parecia estar aquém de certos folguedos cultivados na infância. Quando menino subia no telhado de casa em noites estreladas. Sentia que o seu mundo era aquele na abóbada noturna do céu. Ele pertencia, sim, muito mais àquele imenso mistério silencioso do que ao solo ao pé da casa, cheio de incógnitas jamais decifradas, embora bancando sempre o sabichão.
Achou melhor abandonar a bicicleta. Deu alguns passos, virou-se uma vez, e a olhou como a um ser vivo em sua solidão. Abandonava a sua velha bicicleta porque pressentia que não precisaria mais dela. para esse guri, ela passaria a ser um estorvo, nada mais. Ele parecia prestes a entrar em um mundo onde aprenderia a vencer distâncias que costumávamos chamar de “futuro”, além da nossa acanhada imaginação.”

Parece confuso? Não é. Talvez seja somente um pouco menos simples do que os leitores mais jovens estão acostumados. Mas eles vão entender. E, ao que tudo indica, gostar

Texto de Daniel Feix, nosso colega do blog CineClube

Patrono e colega

23 de setembro de 2009 1


Carlos Urbim, em solenidade no Leopoldina Juvenil em abril deste ano. Foto: Dulce Helfer/ZH

Como a essa altura vocês já puderam ler aqui neste texto publicado na Zero Hora Online, o cidadão sorridente aí de cima, o jornalista e escritor Carlos Urbim, 61 anos, foi anunciado hoje pela manhã como o novo patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, que realizará sua 55º edição de 30 de outubro a 15 de novembro.

Ali no texto do online vocês têm um panorama resumido da trajetória de Urbim como escritor, então aqui no nosso bloguinho Mundo Livro vamos apresentar o patrono sob uma luz diferente: a do Urbim jornalista. Em quatro décadas como jornalista, Urbim já trabalhou em Istoé, DIário do Sul, Folha da Manhã e esteve por muitos anos na redação de Zero Hora, onde editou cadernos variados como o Vida, o Cultura, a antiga Revista ZH e depois sua versão fundida com o caderno Donna. É uma personalidade carismática e generosa o Urbim, algo que vocês poderão comprovar perguntando a qualquer pessoa do meio – e foi oq ue eu resolvi fazer, a propósito. Pedi ao editor de ZH Eduardo Veras, que trabalhou com Carlos Urbim aqui no Segundo Caderno (quando este seu blogueiro era repórter de polícia, do outro lado da redação). Passei a mão também em um texto escrito em 1999 pelo hoje famosoDavid Coimbra, quando Urbim estava lançando seu livro Caderno de Temas, pela editora gaúcha Mercado Aberto. Aproveitem, porque acho que vocês terão uma ideia bem melhor de quem é esse Carlos Urbim, autor de Um Guri Daltônico, Uma Graça de Traça e Um Piá Farroupilha, esse senhor sorridente que a partir do fim de outubro será o novo rosto da Praça da Alfândega, metaforicamente falando, lendo os seguintes textos, de grande qualidade.

Um autor apaixonado
EDUARDO VERAS

A primeira vez em que ouvi falar de forma elogiosa do escritor e jornalista Carlos Urbim — o novo patrono da Feira do Livro de Porto Alegre — foi aos tempos em que eu era estagiário no Departamento de Jornalismo da Rádio da Universidade, uns 20 anos atrás. O Urbim iria voltar a trabalhar na rádio, depois de uma temporada no Diário do Sul, e havia uma animadora expectativa em razão disso: 
— O Urbim vai voltar! O Urbim vai voltar! — vibravam os funcionários mais antigos.
Mas ninguém sabia explicar direito o porquê.
Só aos poucos fui descobrir, e da melhor forma possível: trabalhando ao lado dele. Primeiro, lá mesmo, na Rádio da Universidade, e, muito depois, na Redação da Zero Hora. Num lugar e no outro, as pessoas sempre sublinhavam o espírito generoso do Urbim, a bonomia que se irradia da sua gargalhada, o jeito de menino grande meio fora do lugar (se bem que, às vezes, ele era de rompantes, se irritava, discursava).
Se eu fosse tentar apontar o que há de tão animador em trabalhar ao lado do novo patrono da Feira do Livro, citaria, talvez, o jeito apaixonado como ele observa as coisas do mundo. Qualquer acontecimento de aparência desimportante pode virar pretexto para uma história infantil ou o ponto alto de uma reportagem. Urbim é sujeito de uma entrega amorosa — às pautas e à vida. Um breve exemplo:
Certa vez, ele entrevistava, por telefone, o escritor Fernando Sabino. Era para um perfil de Mafalda Verissimo (a viúva de Erico, discreta, serena, recusava-se a falar com a imprensa, a única forma de saber dela era a partir dos depoimentos de amigos e conhecidos). O Urbim entrevistou o Sabino, fez as perguntas que tinha de fazer, agradeceu a entrevista. Foi então que, emocionado, ainda com o fone no ouvido, antes do tchau definitivo, levantou-se da cadeira e, com aquela voz grave, tonitruante, quase aos berros, anunciou:
— Fernando Sabino, eu queria lhe dizer que quem lhe entrevistou foi um menino que, lá em Santana do Livramento, no extremo sul do Brasil, devorava, lia todos, não perdia um livro de Fernando Sabino.
Imagino a surpresa do Sabino. Pena que ele não viu que o Urbim falou isso de pé, solene, apaixonado.

Como pandorga em céu azul
DAVID COIMBRA

O Urbim tem pé 43. Pezão. Daqueles caras que a turma diz: se leva um tiro, morre de pé.
Tem um vozeirão, também. Quando fala alto, todo mundo ouve, mesmo se está num salão.
O Urbim tem os gestos largos de quem é da Fronteira. Aliás, ele É da Fronteira. De Livramento. Fala cheio de sotaque. Assim:
— LeiTE quenTE é bom pra genTE.
E o Urbim, que coisa, escreve poesia para crianças.
Não é estranho?
Não.
Porque o Urbim, apesar de ter 30 anos só de jornalismo, apesar de ter a responsabilidade de ser o editor da Revista ZH, apesar de coordenar o projeto Jornalista por um Dia, apesar de ser pai zeloso de um quase jornalista, Emiliano, 20 anos, e um futuro quase advogado, Glauco, 18, apesar de todas essas adultas responsabilidades, Carlos Urbim é um piazão. É. Um guri. Desses que puxam carrinho pelas ruas e pelos terrenos baldios das cidades do Interior.
Por isso, por ainda ser um piá, o Urbim escreve com tanta naturalidade para os piás. Por isso, o livro que ele lança hoje, às 16h, na Livraria Bamboletras, no Nova Olaria, esse livro, Caderno de Temas, flui, leve como uma pandorga no céu azul.
O Urbim entende disso, de livro infantil. Já escreveu nove. Entre eles, clássicos como Um Guri Daltônico, Saco de Brinquedos e Uma Graça de Traça. Para Urbim, fazer poesia infantil é brincadeira de criança. Que faz com tanto gosto que, numa festa, num churrasco entre amigos ou numa mesa de bar, de repente ele começa, lá com sua voz retumbante e seu sotaque vincado:

O que será?
Pense: de Ibirubá,
ibirubense?
Ou menininha
de Ibirubá
é ibirubinha?
Ibirubá
o que será?
É pitangueira
do mato, constato

Declamado com sua entonação emocionada, esse pequeno poema, um dos tantos que estão no Caderno de Temas, faz sucesso nas rodas freqüentadas por Urbim. Exatamente porque ele se emociona, porque faz o que faz com prazer. Como quem brinca. E, na verdade, brinca. Porque o Urbim ainda é um guri. Que calça 43.

Autor daqui em biblioteca de lá

05 de fevereiro de 2007 1

O gaúcho Caio Riter, autor que já começa a consolidar uma expressiva obra no campo da literatura infanto-juvenil, teve, em 2005, seu livro O Rapaz que Não Era de Liverpool premiado com o Barco a Vapor, um concurso nacional realizado pela portuguesa Editora SM para marcar sua estréia no mercado editorial brasileiro. Como conseqüência, o livro foi publicado pelo braço brasileiro da SM em 2006 e foi bem recebido pela crítica.

O Rapaz que Não Era de Liverpool conta a história de um jovem que descobre, numa inocente aula de biologia no colégio, que não pode ser filho do casal com quem sempre viveu. Pressiona os pais e eles lhe revelam a verdade: ele foi adotado. A descoberta dá um nó na cabeça do guria, que entra em conflito com os pais, já separados, e com os dois irmãos menores – uma garota e um garoto. Para digerir a informação e sua nova condição no mundo e na família que o adotou, ele se isola dos pais, dos irmãos e da namorada na casa de uma tia, no litoral, e daí por diante vai ler o livro, que eu já entreguei bastante.

O caso é que o livro foi indicado pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil para a Biblioteca Internacional da Juventude, uma instituição na Alemanha que reúne mais de meio milhão de livros publicados em todo o mundo, em 120 idiomas. Essa biblioteca, que tem mais de 50 anos, é fruto de pesquisa e coleta de exemplares da literatura infanto-juvenil de todas as culturas e no maior número possível de línguas do mundo. Todos os anos, algumas dezenas de livros publicados recentemente são postos no catálogo da biblioteca para divulgação internacional. É nesse catálogo que agora figura O Rapaz…, mostrando que a carreira do livro está apenas começando.

O Mágico de Oz

06 de outubro de 2006 1


Sim, você deve ter lido o artigo de hoje do Caderno Patrola no qual indicamos quatro livros pertencentes a uma série de clássicos infanto-juvenis, traduzidos e adaptados em uma linguagem mais simples por autores brasileiros. O que apontamos como curiosidade é que os quatro livros citados (justamente alguns dos mais recentes lançamentos a coleção, que inclui outras obras) eram de autores do Século XIX, o que abre uma questão interessante: o que havia nesse período em particular que produziu obras capazes de instigar até hoje?

São do século XIX clássicos de aventura e fantasia como os citados Moby Dick, Tom Sawyer, obras de Júlio Verne como a Ilha Desconhecida citada no caderno ou o próprio O Mágico de Oz (e esse eu aposto que muita gente não sabia que era um livro antes de virar filme), que a propósito terá uma versão musical em Porto Alegre algum dia desses.

O Mágico de OZ é a história de uma menina que é colhida por um ciclone e vai parar num mundo imaginário, dividido entre bons e maus (há uma bruxa malvada e uma bruxa bondosa, há macacos alados servos da bruxa boa e anões alegres que recepcionam a pequena Dorothy com simpatia no início de sua jornada) e governado pelo misterioso Oz, que vive na cidade esmeralda e sustenta a magia do lugar com seu domínio – ou não.

Apesar de ser um produto do século da razão e da eletricidade, O Mágico de Oz, escrito pelo americano L. Frank Baum (1856 – 1919) é uma fábula à moda antiga. Dorothy se sente desajustada e infeliz na fazenda em que vive, no Kansas, e procura fugir. Quando finalmente se afasta, tudo o que pretende é voltar para lá, e para isso ganha no caminho a ajuda de um ser mágico que lhe oferece um artefato dotado de um poder que ela só vai compreender no final: os sapatos de rubi que ela calça durante toda sua estadia na terra de Oz e que poderiam tê-la levado para casa desde o começo.

O mágico, que tanto medo impõe e que é visto como o salvador da condição de Dorothy e de seus amigos, na verdade se revela uma fraude, e ela descobre que desde o início só podia contar com algo que estava nela mesma. Quer mais fábula do que isso? Não admira que tenha se prestado à perfeição para um dos grandes musicais do cinema (já que a alternância entre música e diálogo na estrutura dos grandes musicais corresponde, por estranho que pareça, à alternância que cada um sempre realiza entre seu diálogo com o mundo externo e a conversa consigo mesmo, marcad nos musicais pelas canções que demarcam o mundo interior do personagem).