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Posts na categoria "Literatura Italiana"

Nossas sensações naquelas palavras

10 de março de 2008 5

Sabemos todos que um grande livro fala de nós e por nós, mas seria ingênuo dizer, como muitos dizem, que um livro “é a minha vida, cara”. Ainda assim, sempre considerei que uma das ligações mais fortes que se desenvolve com um livro é aquele momento em que, ao lermos algo, não a nossa vida, como no exemplo ingênuo, mas algumas de nossas sensações mais caras de alguma forma se conectam com o que o autor escreveu. E isso independe de uma coincidência pontual entre a trama e nosso universo particular, mas por vezes acontece, como no caso que passo a dividir agora.

O operário Arturo Massolari fazia o turno da noite, aquele que termina às seis. Para voltar pra casa percorria um longo trajeto, de bicicleta na estação boa, de bonde nos meses chuvosos e frios. Chegava entre as seis e quarenta e cinco e as sete, ou seja, às vezes um pouco antes, às vezes um pouco depois de tocar o despertador da mulher, Elide.
Freqüentemente, os dois ruídos, o toque do despertador e o passo dele entrando, se superpunham na mente de Elide, alcançando-a no fundo do sono, o sono compacto da manhãzinha que ela ainda tentava espremer por alguns segundos com o rosto enfiado no travesseiro. Depois pulava fora da cama de uma vez só e já ia metendo os braços às cegas no roupão, com os cabelos por cima dos olhos. Aparecia assim para ele, na cozinha, onde Arturo tirava os recipientes vazios da bolsa que levava consigo para o trabalho – a marmita, a garrafa térmica – e os punha em cima da pia. Já havia acendido o fogão e posto o café no fogo. Mal ele a olhava, Elide sentia vontade de passar a mão pelos cabelos, de arregalar à força os olhos, como se a cada vez se envergonhasse um pouco dessa primeira imagem que o marido tinha dela ao entrar em casa, sempre assim desarrumada, com a cara meio adormecida. Quando dois dormem juntos é outra coisa, encontram-se de manhã a emergirem juntos do mesmo sono, estão em pé de igualdade.

O trecho que vocês acabaram de ler foi retirado de Os Amores Difíceis, uma coletânea de histórias curtas escritas por Ítalo Calvino em sua maior parte nos anos 1950. A edição nacional da Companhia já tem mais de 10 anos, mas pelo que vi ainda se acha. O conto esse chama-se A Aventura de um Esposo e uma Esposa, e fala sobre um casal (a idade não fica clara, mas pelas circunstâncias da história gosto de pensar que ainda são jovens) no qual ele trabalha numa fábrica no turno oposto ao dela — o que faz com que se vejam muito pouco, apenas nos momentos em que ele está chegando e ela está saindo, e vice-versa. A história é exemplar dos textos de Calvino reunidos nesse volume: uma prosa bem dosada entre descrição e narração, com um cuidado esmerado na linguagem e contando um episódio que aponta para a obsessão de Calvino pelos esquemas humanos usados para catalogar e dar ordem ao universo. Aqui neste caso é a simetria. As trajetórias do esposo e da esposa são em parte simétricas, com seus dias medidos pela ausência do outro, e seu contato efêmero pela manhã e pela noite. Ambos realizam até mesmo, sem saber, gestos simbólicos simétricos: ao chegar em casa, o marido dorme em seu lado da cama após a saída da mulher. Mas busca o contato dela colocando a perna no lado dela. Vai se transferindo aos poucos para o ponto de onde emana o calor da mulher e termina por dormir inteiro no lado dela — algo que ela nota quando vê, ao chegar e dormir de noite, que o lado dela permanece morno e o dele está frio.

Li essa história em 1997, quando havia recém entrado na Zero Hora, e fazia um frila como repórter no plantão da madrugada, da meia noite às sete. Estava morando fazia pouco em um JK minúsculo no 17º andar de um prédio não dos mais recomendáveis no centro de Porto Alegre. Dividia o apartamento, a vida e até o emprego com minha então namorada, a quem havia conhecido ainda na faculdade de Jornalismo. Ela também havia sido admitida fazia bem pouco tempo na Zero Hora, e fazia o plantão de reportagem noturna. Das 17h às 24h. Nossa rotina, então, se compunha de despedidas breves no trabalho, eu chegando e ela saindo, e durante a manhã, já que eu chegava em casa depois do plantão e ficava acordado até depois do almoço, para que a gente tivesse mais um tempo juntos. Às vezes, quando ela saía para o trabalho, me dava um beijo que eu só remotamente registrava, apagado que estava.

Foi um colega de jornal que apontou a semelhança entre a situação de fato e a ficcional do conto do Calvino, e um dia encontrei o livro num sebo. Levei para casa e o li com enlevo. E cheguei nesse.

Há contos mais bonitos no livro, há contos tecnica e formalmente mais bem sucedidos. Mas fiquei para sempre com a lembrança desse, mesmo que tudo tenha mudado e nada do que existe hoje corresponda a essa situação. Porque nele Calvino – como todos os grandes escritores – estava exercendo uma capacidade quase medíunica de me dizer, em palavras melhores, como eu estava me sentindo na época.

E vocês? Têm alguma história parecida?