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Posts na categoria "Literatura Nacional"

Alice no país dos porto-alegrenses

15 de julho de 2014 2

quarentadias

Quarenta Dias, da escritora paulista Maria Valéria Rezende, conta uma história do tamanho do Brasil, embora restrinja seu foco a Porto Alegre. O romance (Alfaguara, 248 páginas, R$ 37,90) acompanha a paraibana Alice, professora na faixa dos 50 anos, que, após muita insistência, se vê praticamente obrigada a trocar João Pessoa por Porto Alegre – para ajudar a filha, professora universitária casada com um gaúcho – nos planos de uma futura gravidez. É do estranhamento de Alice com Porto Alegre, uma cidade de costumes e gentes diversos, nos quais outros nordestinos como a protagonista parecem sempre relegados à periferia e a funções subalternas, que Maria Valéria tece sua história.

Freira da Congregação de Nossa Senhora, Maria Valéria não ignora as referências bíblicas do título de seu romance. Se no Evangelho de Mateus Jesus passa 40 dias em uma ascese mística jejuando no deserto, período em que é tentado com o reino material pelo próprio Diabo, a protagonista do romance migra de sua pacata e já estabelecida vida nordestina para um deserto sem conhecidos e amigos, no qual o conforto material e o consumismo inconsequente são as grandes tentações mascarando uma vida vazia.

Os Quarenta Dias mencionados no título são um período crucial da narrativa, no qual Alice, sozinha em Porto Alegre devido a uma reviravolta familiar que soa um tanto forçada, se lança a vagar sem rumo pela cidade desconhecida, dormindo em parques, saguões de hospital e bancos de rodoviária, com o pretexto de encontrar o filho de uma amiga  pernambucana. Maria Valéria Rezende já comentou em entrevistas que elaborou a história e depois passou um tempo em Porto Alegre pondo à prova as errâncias da personagem.

Tal circunstância talvez explique a irregularidade do livro: a fragilidade dos eventos construídos para empurrar Alice para sua caminhada. Os encontros e contatos espontâneos que Alice estabelece com as pessoas do lugar são a maior riqueza do romance. Por baixo de sotaques e hábitos diversos, Alice vai tecendo elos fugazes com pessoas que, no fundo, ela não tarda a perceber, carregam muitas das mesmas angústias da própria protagonista: solidão, falta de conexão com o mundo ao redor, cansaço, solidariedade. As trombadas de Alice com a árida Porto Alegre também servem para uma denúncia sutil do racismo e do preconceito velados que este Rio Grande do Sul tão orgulhoso de si mesmo nunca admite que pratica.

Por mais errático que seja o caminho de Alice, é gratificante trilhá-lo com ela. O problema é que, até o início dessa jornada, a autora se estende por 60 páginas no rame-rame da relação insatisfatória de Alice com sua filha, com o genro, com o estranho apartamento “todo em preto e branco” em que foi alojada. A história se ilumina quando Alice finalmente abre a porta e se aventura nas ruas frias e estranhas de Porto Alegre.  Pena que ela não faça isso mais cedo.

O amálgama ético de Rubem Fonseca

09 de dezembro de 2013 1

CAPA Amálgama

Há anos que Rubem Fonseca deixou de ser o profeta do apocalipse social brasileiro. Agora, o autor de 88 anos prefere ser o comentarista sarcástico da desagregação nacional, como se vê nos 34 contos de Amálgama, seu novo livro.

Apesar de o título sugerir um material físsil tornado uma massa homogênea, Amálgama na verdade se aproxima muito de um exercício literário cubista que lança mão de variações temáticas e formais de obsessões antigas do autor. O Filho, o primeiro conto, narra o conflito entre uma mãe e sua filha grávida, ambas interessadas em vender o bebê recém-nascido. A última narrativa, intitulada singelamente Foda-se, versa sobre um homem impotente que tenta redescobrir sua virilidade exercendo o desapego. Entre um e outra,as histórias, a maioria muito breves, desfilam situações que se repetem como variações sinfônicas de um pesadelo: crianças nascidas com deformidades; rejeições paternas e maternas; seduções grotescas; vinganças que parecem um pastiche sarcástico de histórias de folhetim. E,claro,anões e mulheres deslumbrantes “de corpo perfeito”, como mais de uma delas é descrita pelos protagonistas masculinos do autor  – muitos deles também variações de uma mesma voz a percorrer o livro.

Rubem Fonseca foi um artista profético ao longo de uma carreira que completou meio século neste ano (seu primeiro  livro, Os Prisioneiros, é de 1963). Suas obras trouxeram para a literatura brasileira não apenas a temática urbana expressa em uma linguagem urgente, mas flagraram a ascensão de uma violência disseminada e impessoal, consequência do crescimento das cidades em um país como o Brasil. Em um processo que talvez fosse inevitável, a profecia perdeu força depois de realizada. A violência e a crueldade que Fonseca elaborou como ficção nos anos 1960 e 1970 – motivo de choque e censura – hoje são o cenário contemporâneo no qual vivemos,o que talvez ajude a explicar a irregularidade de muitas de suas obras recentes, embora o autor não tenha propriamente se desviado de seus temas.

Amálgama consegue ser um conjunto mais coeso do que muitas das coletâneas de contos publicadas por Fonseca neste breve século 21, como Ela e Outras Mulheres (2006) e Axilas e Outras Histórias Indecorosas (2011). Em Amálgama, ainda estão lá a brutalidade nas relações e a violência de ares cada vez mais grotescos, mas o que parece ser a tônica do novo trabalho é justamente uma indistinção de seus motivos e de uma alternativa. Se contos clássicos como Passeio Noturno e O Cobrador traziam embutidos uma dimensão de denúncia social, a obra mais recente de Fonseca põe a denúncia em segundo plano: não há o que denunciar quando o pior já aconteceu. Ele exercita, então, o riso amargo e o sarcasmo ao contemplar o bem e o mal – amalgamados ambos.

Bernardo Carvalho fala de seu novo livro, Reprodução

01 de outubro de 2013 0
O escritor Bernardo Carvalho. Foto: Francesco Gattoni, Divulgação

O escritor Bernardo Carvalho. Foto: Francesco Gattoni, Divulgação

Autor de alguns dos livros de melhor recepção crítica entre a recente literatura contemporânea, como As Iniciais (1999), Nove Noites (2002) ou Mongólia (2003), o carioca Bernardo Carvalho aborda, em seu novo livro, Reprodução, uma sociedade que, segundo ele, está imersa em um paradoxo perigoso: o risco de que opiniões e ações se exacerbem de tal modo que acabem flertando com seu contrário. Seu protagonista, um homem preso em uma sala de embarque de um aeroporto, revela, nas fissuras de um discurso que se pretende isento, uma carga de preconceito que o impede de abrir-se para a opinião alheia (não por acaso, nunca transcrita). Por telefone, de São Paulo, Carvalho concedeu entrevista a Zero Hora. Leia a seguir a íntegra da conversa, publicada com cortes e edições no jornal impresso:

Zero Hora – Este é um livro atípico no conjunto de sua obra. De onde veio o impulso para escrevê-lo?
Bernardo Carvalho – Eu acho que ele difere talvez na aparência e no gênero, porque tem uma coisa de humor mais evidente. Mas acho que talvez discorde de você quanto à diferença. Ele está muito próximo da primeira fase da minha carreira, e a questão da qual ele fala, essa coisa da reprodução, está em todos os meus livros, e fica explícita e manifesta nos mais recentes. Essa ideia trágica de reprodução, de que toda ação acaba sendo uma reprodução, enfim de que quando você quer fazer o bem, você faz o mal. A coisa que eu tinha vontade de fazer era escrever sobre uma chinesa que tem tenta salvar uma criança e para isso acaba replicando o próprio inferno que é a vida dela. E isso está meio embutida nessa ideia de reprodução que eu te falei agora, que é essa ideia de que na verdade para sobreviver, você se mata, que é uma coisa que é meio lugar-comum hoje na cabeça de todo mundo com o discurso ecológico e ambientalista, de que o ser humano é autodestrutivo, quanto mais tenta sobreviver, viver e procriar, menos condições de possibilidade mantém para essa sobrevivência. Tem um paradoxo na próprio mecanismo de reprodução, de procriação e tudo mais.

ZH – Há uma ideia que é sim recorrente em sua obra de que a ação, quando concretizada, toma forma e consequências além do controle do agente.
Carvalho – Sim, isso aí está desde sempre. Desde o Teatro, por exemplo. Mesmo naquele Medo de Sade, que foi um livro feito de encomenda, isso estava embutido. Tem uma ideia do paradoxo como uma coisa essencial no humano. Enfim, eu me sinto meio ridículo falando essas coisas, mas o substrato do negócio é esse. Para te contar como foi feito: eu tive vontade de escrever sobre essa professora de chinês e o estudante de chinês, comecei a escrever o negócio, que é o início do romance, e abandonei. E aí eu ganhei uma bolsa e fui para a Alemanha. Fiquei um ano em Berlim e lá tentei um monte de projetos lá, escrevi um monte de coisas, algumas coisas vingaram, outra não, e no final da minha temporada em Berlim, o Flávio Moura, que era curador da Flip, estava organizando uma coletânea de textos de pessoas que haviam participado da Flip, comemorativa aos 10 anos do festival. Ele me pediu o texto, me deu o tamanho e eu fui procurar nos meus arquivos alguma coisa que eu pudesse usar ali, porque estava em cima da hora, não daria tempo de escrever uma coisa nova. Aí eu achei esse texto, retomei, consertei algumas coisas, cortei para dar certa autonomia. Entreguei o texto, mas o que aconteceu foi que a partir desse momento, eu me interessei por retomar aquilo. Eu me encantei por esse monólogo que, na verdade, é um diálogo em que falta uma das partes.

ZH – No momento da concepção do livro você aventou a possibilidade de alguma relação entre este seu trabalho e O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias, que tem um mote e mesmo algumas ferramentas de expressão similares?
Carvalho – Eu nem li, na verdade, mas acho que de jeito nenhum. Nem sei o que é o livro do Lísias, exatamente, mas acho que não tem nada a ver.

ZH – O Livro dos Mandarins tem como protagonista um executivo obcecado por uma viagem à China e que vai revelando sua própria degradação psicológica por meio de um discurso repetitivo e cheio de chavões corporativos.
Carvalho – Eu não sabia. Mas de qualquer modo, isso é um lugar-comum. O cara que é do mercado financeiro que resolve estudar chinês é a coisa mais lugar-comum possível. Então acho que isso está mais na realidade do que nos romances. Quer dizer, isso está nos romances também, é óbvio, mas eu não vejo nenhuma relação, mas não vejo nenhuma relação alguma, porque sequer li o outro livro.

ZH – Os seus livros anteriores eram relatos de jornadas, pelo Xingu, pela Mongólia, por São Petersburgo. Neste livro, contudo, você confina a narrativa no estágio anterior à viagem, o aeroporto. Foi uma mudança consciente?
Carvalho Acho o seguinte: desde o primeiro livro, desde o Aberração, na verdade, meus livros tem essa vontade de fuga, de escapar, não só do próprio Brasil, mas do Brasil como identidade, como rótulo, como clichê. Acho que há uma coisa simbólica aí desde o início, bem como esse mal-estar do estrangeiro, de não se reconhecer em lugar nenhum. E meus livros normalmente se passam em terrenos movediços, querem ir contra qualquer identidade de gênero, de nação, que seja. E o que aconteceu nesse foi o negócio inverso. O personagem está na porta de saída, mas a porta de saída é uma sala sem janelas, é uma espécie de uma metáfora do sedentarismo absoluto. Ele está preso ali, confinado, é uma viagem constantemente abortada. Acho que há sim uma relação com os outros, ainda que uma relação de inversão. Eu queria fazer um livro que se passasse no Brasil, não queria fazer um livro que se passasse em qualquer outro lugar. Mas é engraçado que, no momento em que eu escrevo um livro sobre o Brasil, ele se passa no aeroporto, que é a porta de saída.

ZH – Seu personagem declara ser bem informado, ler jornais e revistas, ele próprio alega ter um blog, mas passa o romance preso em uma sala sem janelas. É uma representação de algo que o senhor já disse sobre a internet manter o indivíduo confinado?
Carvalho – Legal você ter falado disso. O livro não é um panfleto. Ele é político, mas não é algo deliberado: vou escrever sobre isso, vai representar aquilo. Ele é um apanhado de uma sensação algo difusa que eu tenho do mundo hoje, das coisas, da internet, uma experiência de ver uma certa fascistização do mundo que é muito ambivalente, muito ambíguo. O que eu acho que tem espelhado no discurso desse cara é que você combater o Hitler ou outros países onde o fascismo já aconteceu é fácil, porque você sabe onde está. O difícil é combater o nascimento de um outro fascismo, ambíguo, que é como nascem todos os fascismos, e que está em um discurso no qual você embarca sem perceber, você vai indo, vai concordando com aquilo, e quando você percebeu é tarde demais. Esse cara não é uma caricatura do malufismo. Tudo bem, ele é uma excrescência, é homofóbico, racista, antissemita… Mas, ao mesmo tempo, ele diz coisas com as quais eu posso concordar. Eu não me identifico com ele, não tenho nada a ver com ele, mas o que me interessa neste momento de hoje é menos o fascista caricato e mais a possibilidade de você não perceber em um discurso libertário o nascimento de um novo fascismo. Tem um negócio com o qual eu concordo com o personagem, por exemplo: ele é por um estado laico, contra as religiões, claramente ateu. Eu também sou. Mas em seu discurso primário, quando vai contra as religiões ele acaba reproduzindo um discurso fascista e reacionário. Então eu estava mais interessado nas ambiguidades, nessa confusão que há neste mundo e que a internet também alimenta de uma certa forma. A internet é um terreno libertário, mas esse terreno está controlado por quatro grandes corporações capitalistas, todas elas americanas, e você não consegue participar desse terreno aparentemente libertário que parece neutro se não for se submetendo a essas quatro corporações de mídia. E é curioso, porque é uma ideia de democracia que pressupõe o fim da vida privada, da invisibilidade, da opacidade. Posso estar sendo anacrônico, mas acho que não existe democracia sem privacidade, sem possibilidade de opacidade, de não dito.

ZH – Por isso a segunda parte do livro é toda feita de um discurso “ouvido” pelas paredes da sala, assim como a sala de aula do estudante de chinês tem paredes finas que deixam vazar o som de um cômodo para outro?
Carvalho – É, mas ao mesmo tempo naquele discurso todo ali tem uma opacidade, uma espécie de resistência. O mundo em que a gente está vivendo é o da visibilidade absoluta. Eu não tenho, mas as pessoas têm Facebook, se entregam, se expõem, mesmo sabendo que aquilo vai ser usado para fins de publicidade, que as empresas vão ficar ricas com a informação que você entrega gratuitamente, mesmo assim, você continua se expondo, porque aquilo toca em um ponto muito frágil, que é seu narcisismo, sua vontade de se expressar, que é muito natural, humana, mas que é pervertida por essas corporações. Então, nesse mundo em que não tem opacidade, achei interessante essa situação desse personagem que ouve através de uma divisória ordinária, mas ele não vê, aquilo pode ser só imaginação dele. Pode estar tudo na cabeça dele. E a própria voz do delegado, que é um cara que nunca aparece, que nunca fala, é essa opacidade que está desaparecendo. É um diálogo em que uma parte nunca aparece, e isso cria um mistério que está desaparecendo com essa visibilidade absoluta. Eu não sou um cara a favor da censura nem nada. Acho ótimo os caras que denunciam essas coisas de “whistle-blowing”, como o Snowden agora, o Wikileaks. Mas tem uma coisa interessante: na hora em que tudo é dito, parece que as coisas se anulam. Como se a visibilidade absoluta fosse uma espécie de cegueira. O dito absoluto é também uma forma de você não compreender mais nada. Acho que esses vários aspectos estão presentes no livro e estão presentes nesse mundo um pouco governado pela mentalidade da internet, pelo mecanismo da internet, não é uma crítica, é uma constatação.

ZH – O fascismo, que você citou, é uma ideologia do coletivo. Sua opinião é de que o apelo ao coletivo da nova sociedade tecnológica é fascista?
Carvalho – Eu não sei. Tem uma coisa engraçada: hoje há um combate até das pessoas jovens, engajadas, de esquerda, contra o indivíduo, como se fosse algo burguês, ultrapassado, canhestro, tacanho. Eu acho que o indivíduo é fundamental para a democracia. A democracia também é um negócio burguês, criado no mundo burguês capitalista. Tem conquistas desse mundo moderno burguês capitalista que foram incríveis, como a ideia da individualidade, que eu acho verdadeiramente libertária. E há uma histeria do coletivo nessa coisa da internet. Você só pensa em fórum, só cria no coletivo, tem uma espécie de uma vingança contra a figura do autor, que precisa desaparecer porque é retrógrada, pouco democrática, tem de existir apenas como coletivo. Tem uma tendência na militância de uma nova… não sei se posso dizer esquerda, mas militância jovem, de impor o coletivo contra o individual. Como se o individual fosse de direita. Acho que tem um perigo muito grande aí. Não vou dizer que isso é fascismo, mas há pontos em comum, muitas interfaces entre o fascismo e a democracia de um coletivo absoluto. Então,  isso me interessa politicamente, essa inquietação com essa ambiguidade, com esse paradoxo, é o que o livro está tentando expressar. É um negócio em que você não sabe mais definir quem é o fascista. O protagonista é uma caricatura, mas não a caricatura absoluta, algo de razão tem no discurso dele. Eu dou um exemplo que me impressiona muito, da ultradireita francesa, que era liderada pelo Jean-Marie Le Pen, um cara claramente asqueroso, ligado ao neonazismo, e 10% dos franceses votavam nesse cara, uma fatia da população francesa que é claramente fascista e que não tem vergonha disso. Mas agora o partido começou a mudar e houve uma espécie de “desdiabolização” da Frente Nacional, e quem representa o partido hoje é a filha dele, que não chega a ser uma mulher bonita, mas enfim, é uma mulher, é loura, é moderna, divorciada, é pelo estado laico, ela em princípio não é contra os gays. Na hora em que ela começa a defender o Estado laico você até acredita. Se não fosse o nome dela escrito embaixo você até diria: “puxa, concordo com essa pessoa”. Mas aí de repente você entende que por trás daquilo tudo o que tem é um discurso fascista tradicional: antissemita, anti-árabe, são essas armadilhas que eu acho que estão pipocando no mundo em vários lugares e fazendo com que você embarque em um negócio que é o mesmo fascismo de sempre, mas com um verniz e uma retórica de democracia, de algo libertário. Acho que o livro é isso, não é um panfleto militante racionalmente construído, mas reflete o meu incômodo com uma percepção desse mundo que eu estou te falando.

ZH – Você citou a direita francesa contemporânea, mas essa ambiguidade não é característica do Brasil desde sempre, com sua acomodação de discursos e realidades contraditórias que escamoteia uma realidade desigual e truculenta?
Carvalho – Claro. E esse discurso da totalidade, de que tudo é dito, vai se autoanulando. Ao mesmo tempo em que tem um fascismo por baixo, é um discurso em que você se perde, não tem mais ponto de apoio, é contraditório e se anula. Por esse discurso, portanto, você acaba condenado à reprodução de uma ideologia, não consegue mais produzir uma ação libertária, de ruptura, parece que cai em uma armadilha que se autorreproduz, em uma superficialidade que não vai a fundo em coisa alguma. É um pouco isso que você falou. Escamoteia outra coisa.

Capa do livro "Reprodução"

Capa do livro “Reprodução”

As heranças precárias de Sidnei Schneider

27 de maio de 2013 0

Com uma carreira consolidada como poeta e tradutor, o porto-alegrense Sidnei Schneider lançou, no fim do ano passado, sua estreia na prosa literária, Andorinhas e Outros Enganos, coletânea que reúne 12 contos. O livro mescla trabalhos inéditos com contos já publicados.

Composto por narrativas já editadas em antologias e jornais e abrangendo a produção contística de Schneider desde os anos 1990, o livro não tem uma unidade de tema, e sim três seções com diferenças de estilo e tratamento bem demarcadas. Na primeira, duas histórias sobre mulheres e sexualidade. Destaque para Marie, a dos Gansos, conto no qual uma jovem cega descobre que sua falta de visão pode ter a ver com a precariedade de seu conhecimento sobre a experiência do desejo.

A segunda parte, mais extensa, traz seis contos com um olhar mais masculino, centrado em elementos da própria tradição literária como mote – em mais de um deles, a escrita de um livro está no centro da trama ou o personagem é um escritor. O que pode explicar os ecos – às vezes incômodos – de outros autores como Rubem Fonseca, Charles Bukowski e John Fante em algumas das narrativas, sobre experiências do artista na selva urbana. São também as histórias mais carregadas de humor negro e sarcasmo.

Na terceira seção, situam-se as gemas do conjunto. Quatro histórias que parecem costurar o lirismo da primeira parte com o olhar aguçado da segunda, além de apresentarem finais desconcertantes, de inspiração mítica. Que se Danem as Pombas faz de uma caçada a introdução de um garoto no universo adulto – consequentemente, no reino da morte. Uns Pezinhos é não a comédia, mas a tragédia de um erro. Proposta de Casamento troca o urbano pelo rural com um conto de violência e cobiça em campos do interior do Rio Grande. E Pratos é uma delicada reconstrução da jornada de uma família de origem alemã mudando-se das colônias germânicas do Estado para a Capital. Um serviço de pratos de louça passa de geração a geração como signo da herança precária dos migrantes.

O canto da sereia

28 de dezembro de 2012 0


"É no balanço da rede..." Foto: Estevam Avellar, Globo, Divulgação


Vamos acrescentar um tom pop a este fim de ano. Como sou um cara meio desligado, custei a saber que a Globo está para estrear uma minissérie chamada O Canto da Sereia, estrelada pela Ísis Valverde no papel da própria (o que nos dá a desculpa anual para publicar um post com foto de mulher gostosa neste blog. Não me xinguem, a experiência comprova que a audiência aumenta com esses artifícios, que eu repito muito pouco).

Mas eu falava de O Canto da Sereia. Quando finalmente vi a propaganda do programa, em uma recente estada em minha cidade natal, no Interior, reconheci, pelo título e pela trama básica que se podia depreender do comercial, que a obra é uma adaptação do romance homônimo de Nelson Motta lançado em 2002 – estreia do jornalista na ficção, a tentativa de construir uma espécie de policial clássico na tórrida Bahia. Na história, Motta cria um detetive baiano, Augustão, dedicado a solucionar o assassinato de uma popular cantora de axé music em pleno Carnaval de Salvador. Já na capa o livro se definia como um “noir baiano”, uma aparente contradição ao mesclar as enfumaçadas atmosferas do romance policial com a quente e ensolarada Bahia.  Como as coisas ficam mais pasteurizadas na TV, o Augustão do livro, descrito como um baiano corpulento-quase-gordo, será encarnado na telinha pelo galã Marcos Palmeira.

E como a estreia da série, no dia 8 de janeiro próximo, é um bom pretexto para um post, recupero aqui a entrevista que fiz com o autor do livro, Nelson Motta, por ocasião do lançamento do romance, e que foi publicada no Segundo Caderno em novembro de 2002 (“Jeez, it’s been 10 years!”):

Zero Hora – Por que estrear como romancista escrevendo um policial?
Nelson Motta
– Eu estava havia dois anos buscando uma idéia para um novo livro, já meio angustiado. Logo que voltei do Carnaval da Bahia este ano, fui almoçar com minha grande amiga Patricia Mello. Foi ela que me sugeriu um romance policial no meio do Carnaval baiano, que havia me impressionado tanto. Aí se fez a luz, terminou o almoço, eu fui para casa e já comecei a escrever, seguindo as dicas que ela, como craque do gênero, me passou: “Cadáver no primeiro capítulo e assassino no último”.

ZH – Quase toda a sua obra é jornalística. Foi difícil passar para a ficção em um gênero com regras tão demarcadas quanto o policial?
Motta –
Eu adoro literatura policial, mas é muito difícil de escrever. Penei porque tem de ser tudo muito preciso. Acho que a bem da verdade os grandes romances policiais são aqueles em que a descoberta do mistério não é o centro, é uma das coisas.

ZH – A Bahia foi um cenário inusitado.
Motta
– Minha ambição foi fazer um painel de personagens da Bahia contemporânea, que mistura os tambores, a religião, o Carnaval, algo primitivo misturado a um universo high-tech, de celulares, Internet, dinheiro rolando, modernidade, esse contraste que se harmoniza muito bem na Bahia.

ZH – Há um coronel baiano em seu livro, corpulento, poderoso, com muitas características de Antônio Carlos Magalhães, que também aparece de relance como ele próprio. O coronel é ACM disfarçado?
Motta
– O meu personagem se inspira nele, claro, eu o descrevo com aquilo que eu chamo de “dengo viril”, que o ACM tem, o Caymmi também. Mas o ACM é insuperável como personagem. É impossível criar um personagem de ficção mais rico que o próprio ACM, por isso tentei diferenciar dele. O coronel Jotabê do livro é um símbolo daquela Bahia arcaica que está se modernizando para permanecer viva.

ZH – O sr. sentiu alguma dificuldade, sendo um paulista criado no Rio, para escrever sobre a cultura baiana pela voz de um personagem que nasceu e cresceu nela?
Motta
– Não, porque eu sempre fui apaixonado pela Bahia. Tive minha iniciação literária por meio de Jorge Amado e tento mostrar isso no livro, recuperar os aspectos que ainda existem daquela Bahia retratada por ele, comentando o que não existe mais, o que mudou. Tanto que o escritório de Augustão fica na Baixa do Sapateiro dos livros de Jorge Amado, em um sobrado antigo mas com um MacIntosh conectado à Internet. Ao lado,tem um cinema pornô. À frente, uma igreja evangélica.

ZH – O sr. cria em O Canto da Sereia o personagem Augustão,um detetive baiano. É possível um detetive noir na Bahia, um local que parece ser antítese dos cenários sombriosdos livros do gênero?
Motta –
O livro toca em uma das minhas obsessões, digamos, a harmonia entre contrastes. A própria ideia de um detetive baiano provoca risos. “Fala sério”, me dizem meus amigos. É uma contradição em termos. Mas é um personagem que alia a atmosfera baiana à modernidade. Eu explorei nele a simpatia baiana, a preguiça, mas associada à inteligência. No livro, o Augustão não fica correndo atrás de bandido, ele coloca grampo em telefone, compra informação da polícia, põe outros para trabalhar para ele, tem um colaborador hacker, aquela coisa: ele usa a preguiça, o ócio criativo. O Domenico de Masi (sociólogo italiano) vai se apaixonar por ele.

Algumas notas barbudas

26 de dezembro de 2012 0

1 – O primeiro motivo de alguma reflexão para este leitor de Barba Ensopada de Sangue, novo livro de Daniel Galera, foi o título. Um título, principalmente se escolhido pelo autor do livro, é um cartão de apresentação, quase um manifesto de intenções. E Barba Ensopada de Sangue é uma frase de sonoridade brutal, violenta, com ressonâncias grotescas que remetem a um thriller ou a um livro de horror. E embora Galera enverede pelo mistério neste seu novo romance, não é isso o que o livro oferece. O título pensado anteriormente para esta narrativa, já li em algum lugar, acho que na própria Granta, era Apneia (foi esse o nome dado a um dos capítulos iniciais do romance, publicado na seleção da revista americana com “os melhores escritores brasileiros sub-30 40″). A este leitor, é um título que se ajusta muito mais ao que se lê no livro, porque Galera trabalha o romance buscando no ritmo e no encadeamento da prosa e dos sucessos da narrativa uma cadência de respiração suspensa. Pouca coisa acontece de fato em boa parte da narrativa, e muito do que ocorre está comprimido nos últimos e acelerados capítulos – como se a narrativa segurasse o fôlego até o limite e então bracejasse sofregamente em busca de ar tentando encontrar a superfície atropelando o que estiver na frente (o que serve também para posicionar melhor no conjunto do enredo a explosão final de violência). Tudo isso combinaria bastante com a ideia de apneia, presente, além disso, em um bom número de páginas do romance (o avô do protagonista é citado como um homem com capacidade pulmonar sobre-humana. O jovem professor de educação física tenta imitar tal capacidade do avô e conclui que não a herdou – até que, em uma cena chave, é obrigado a provar a si mesmo e ao leitor que estava errado). Já Barba Ensopada de Sangue é uma frase colocada em uma das cenas do clímax – e parece ter sido inserida ali para justificar o título, e não o contrário. Não que isso seja assim tão importante, mas o título é uma apresentação, já mencionei, e neste livro, ao menos, a impressão que fica é análoga à que temos ao encontrar uma pessoa com um nome que não combina em nada com sua aparência – o que talvez seja mais importante do que se pensa em um livro no qual a discrepância entre nome e rosto está no centro da narrativa.

2 – Criar um personagem que se sustente por si só equivale a construir, mais do que uma persona, uma psique. E essa psique inclui elementos que devem ser moldados de forma cuidadosa se o que se pretende é uma representação adequada em um contexto realista – e, apesar da inclusão de algumas pajelanças que sugam o leitor do contexto realista para uma atmosfera em que o mágico se imiscui na rotina opressiva do personagem, o livro se estrutura na descrição o mais minuciosa e detalhista da realidade possível. Criar um personagem concreto em seus gestos e em sua formação intelectual e emocional também pressupõe uma certa honestidade com os propósitos da narrativa. Honestidade talvez soe pesado demais. Convergência, talvez fique melhor. E o fato é que, dentre as mais de 400 páginas do livro de Daniel Galera, um bom número delas é dedicado à construção da visão de mundo do personagem, e em certos momentos e diálogos, Galera praticamente tece um romance de ideias. E foi por isso que usei o termo “honestidade” tão pouco confortável. Porque calcar uma narrativa tão extensa na visão de mundo de alguém que não tem ou finge não ter os recursos intelectuais para discuti-la é um truque que permite ao autor esquivar-se dos pontos mais espinhosos do pensamento de seu personagem. Em um diálogo particularmente crucial, no fim do livro, o protagonista e a mulher que foi seu grande amor discutem a oposição determinismo x livre arbítrio. O debate é importante para este romance em particular porque, dependendo da posição que se adote, isso pode mudar o entendimento de um episódio crucial: a ex-namorada, o amor perdido do protagonista, hoje é casada com o irmão do personagem, motivo para uma relação cheia de arestas entre ambos e que contamina a família como um todo. A mulher insiste para que o protagonista perdoe seu irmão, uma vez que o próprio personagem já admitiu que, na hora do vamos ver, o poder de escolha da humanidade é menor do que se pensa, e tudo está vagamente interligado – o personagem tem até sonhos e visões premonitórias. Se o que vai acontecer é passível de ser previsto, isso diminuiria, pela lógica, a responsabilidade do agente individual, mas o personagem teima birrentamente em afirmar o contrário: 
Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê“, diz ele à página 419. 
Pressionado pela insistência da ex-namorada, o sujeito não joga a toalha, mas invoca o fato de que não é um homem de leituras e não tem recursos para desenvolver o raciocínio e provar seu ponto de vista.
É esse um dos pontos em que Galera parece procurar a solução fácil: há um determinado número de ideias circulando no livro, mas como o personagem é meio burro ou se faz de, a incongruência da argumentação pode ser deixada de lado dentro da narrativa.

3 – Se na construção do universo mental do personagem Galera por vezes deixa a desejar pela anomia do sujeito, sua representação do universo físico é impecável. Muito se falou nos últimos anos sobre o quanto a literatura brasileira parecia ter renunciado, manietada pelo canto da sereia das teorias acadêmicas da crise de representação, à tarefa de colocar o país, um aspecto dele que seja, em suas páginas. Concordo apenas em parte, porque também para que um romance abarque um pouco que seja da realidade circundante, é necessário um talento e um trabalho pesado aparentemente além das possibilidades de muitos autores, que correm o risco de escorregar no didatismo ou comprometer a unidade da narrativa ao inserir trechos inteiros de “contextualização histórica e social” totalmente discrepantes do material narrativo propriamente dito. A maneira como Galera se desincumbe dessa missão tem algo de um drible de Garrincha: não tem nada de realmente novo, ele já fez antes e vai lá e faz de novo, e é bonito, funciona e encanta. O personagem principal sofre de uma doença que o impede de fixar o rosto de uma pessoa na memória, e portanto ele é minucioso em elencar os detalhes que possam ajudá-lo a lembrar da pessoa no futuro sem o rosto: peso, altura, gestos característicos, penteado, voz. Com esse recurso, Galera sente-se livre para recorrer às abundantes descrições do entorno e do ambiente que já estavam presentes lá atrás, em Mãos de Cavalo, um estilo de escrita tributário da prosa contemporânea em inglês, Ian McEwan, por exemplo, e, em especial, David Foster Wallace – há até o recurso às notas de rodapé para “dar voz” ao que escrevem outras personagens para o protagonista por meio de bilhetes, torpedos, e-mails. A forma como Galera retrata um balneário turístico fora de temporada como um lugar suspenso no tempo, sujeito a uma pesada melancolia, também casa muito bem com a busca central do personagem pela própria identidade (resolver o crime do avô é um pouco encontrar a si mesmo, uma vez que todos dizem que o protagonista é extremamente parecido com o parente assassinado).
Galera também se vale de um recurso que domina muito bem, o diálogo, para incluir na história temas candentes que cumprem a função desse “esboço de realidade brasileira”. É por meio dos diálogos que se fala da migração em massa de gaúchos para o litoral catarinense nos anos 1960; dos conflitos daí resultantes; do passado da localidade, atrelado à caça da baleia; do desaparecimento melancólico de um ofício ancestral, como o da pesca, cada vez mais ameaçada pela voracidade dos grandes pesqueiros e seus métodos industriais; da estagnação econômica de uma comunidade voltada para o turismo. São todos retratos absolutamente vívidos de um naco saboroso e ignorado da realidade nacional, dispostos de modo atraente e orgânico à narrativa, e saúdo Galera por isso, pela coragem de assumir uma visão precariamente totalizante em vez de enveredar pela tediosa circunvolução de seus próprios processos, como um cachorro correndo atrás do próprio rabo – é o que Elvira Vigna sugere que o autor deveria ter feito neste ensaio sobre o livro, e como é exatamente o que ela faz em seu maneirista Foi o que Deu para Fazer em Matéria de História de Amor, o conselho não me surpreende em nada.

4 – Uma nota pessoal: li o livro, coincidentemente, durante alguns dias de férias passados na Pinheira, bem ali próximo do cenário em que tudo ocorre, e foi de fato uma experiência de extrema e bela sinergia ver Galera descrevendo na ficção a região em que eu estava, também em um momento fora da alta temporada. É um toque de brilhantismo adicional o fato de que Galera cria a narrativa de um homem dedicado de forma maníaca a encontrar a sua própria identidade em um lugar que ele próprio padece da esquizofrenia inescapável do turismo sazonal: passada a alta temporada, o litoral catarinense se fecha em uma atmosfera provinciana que parece desconectada do que é no auge do verão. Mérito total de Galera. Dentre os livros que li recentemente, acho que só O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño, retrata de modo mais acurado essa melancolia de um lugar turístico que se transforma em um vilarejo sombrio com o fim da estação.

5 – A trama, a essa altura, é bem conhecida, mas se pode recapitulá-la em duas linhas e não vai fazer mal: um personal trainer se muda para Garopaba, no litoral catarinense, buscando entender a fixação que sente pela trajetória do próprio avô, que viveu na comunidade décadas antes e que teria sido brutalmente assassinado durante um baile. Mais do que isso, faça o favor de ler a matéria do Caue Fonseca sobre o livro, aqui.

6 – A crítica que o jornalista de Veja Jerônimo Teixeira fez ao livro era deliberadamente irônica, ao falar da “atmosfera viril” do romance e encerrar a apreciação com um provocador “coisa de macho”. Li esse texto antes de ler o livro. Não sabia, portanto, se havia justiça ou não no tom algo debochado com que a resenha era tecida. O que me surpreendeu ao ler o livro, tendo em mente os trabalhos anteriores de Galera, foi que havia sim, uma certa justiça no irônico “coisa de macho”, mas não pelos motivos apontados por Jerônimo, e sim pelo retrato misógino, voluntariamente ou não, das personagens femininas na narrativa. A mãe do personagem é uma figura desagradável, dando provas de futilidade exasperantes. Jasmin, uma moça com quem o protagonista se envolve durante sua temporada na praia, é uma bela mulher, universitária, pesquisadora, ciente da história e da mentalidade dos balneários litorâneos catarinenses, mas que um belo dia surta, surta às ganhas, diante da evidência concreta de que um sonho premonitório supersticioso da cultura local possa ter validade. Não serei mais específico porque já estou entregando muita coisa. Outra jovem com quem o cara se envolve, uma garçonete, é uma mãe solteira mostrada como desmiolada e irresponsável perante o filho pequeno – felizmente nosso herói está lá para forjar com esse filho um laço genuíno e fornecer uma representação paterna que a narrativa parece entender necessária, ao menos é assim que ela se estrutura. Outra das mulheres da narrativa é uma prostituta alvo da ternura bêbada do protagonista, em uma representação bastante clichê de uma fantasia masculina de redenção da pobre mulher decaída. Mesmo a personagem que parece ter uma voz autônoma na narrativa, Viv, a ex, é uma pessoa de antemão estabelecida como indigna de confiança por haver trocado um irmão pelo outro, sendo desleal a dois paradigmas aparentemente sagrados: o da família e o da relação homem-mulher. Talvez não fosse essa a intenção do autor, não discuto, apenas elenco o quanto o acúmulo desse tipo de representação resulta em um romance que, mais do que masculino, o que em si não apresenta problema algum, resvala na caricatura machista.

7 – Li ou ouvi mais de uma pessoa manifestar cansaço pelo andamento vagaroso da narrativa ao abordar o cotidiano do personagem no balneário fora de temporada. Não concordo de modo algum. Em uma prova de segurança e domínio textual que desde já o confirmam como um dos poucos grandes autores de sua geração, Galera mantém o interesse (ao menos manteve o meu) durante toda a longa temporada na qual a estagnação do personagem afundado na própria melancolia – pelo descorno do abandono da ex, pela perda do pai, pela dificuldade das ligações estabelecidas por sua doença – vai corroendo sua sanidade. O que me incomodou foi exatamente o contrário. O quanto, ao movimentar o personagem no fim do livro, Galera parece mover o romance inteiro em direção ao seu fim com coincidências difíceis de engolir, todas elas orquestradas para uma explosão de violência catártica que parece estar ali apenas para que alguma coisa de fato aconteça. Enquanto o personagem tateia no inverno catarinense, sem saber muito bem o que vai fazer ou o que vai acontecer, a narrativa é um prazer. Quando ele se põe em movimento, em uma excursão decidida de última hora pelos morros da região debaixo de uma das piores chuvas já registradas em Santa Catarina, a coisa é de uma gratuidade tão estranha que o subsequente vaudeville de acontecimentos e coincidências assume uma aparência farsesca que de modo algum combina com o tom da narrativa, sempre solene, mirando no caráter mítico de uma epifania masculina de violência e perseverança que retoma como duplo o mito do avô que ele foi procurar na cidade.

Descongelando os subzeros - parte 3

13 de dezembro de 2012 0

Mesmo com todo o calor que andou fazendo nos últimos meses, ainda não havíamos concluído nossos planos de completar o “descongelamento” da Geração Subzero.

Ok, esta foi uma piada fraquinha para justificar nosso atraso em concluir esse projeto e continuar a vida normal do blog, como retomar a regularidade das seções O Que Você Está Lendo ou Bairrismo? Conta Outra. Peço paciência aos leitores e apresento apenas minhas humildes desculpas: estivemos numa desabalada carreira nos últimos tempos para fechar o Especial Erico Verissimo (você leu?) e aí, na sequência, foi divulgada a programação da Feira do Livro, depois veio a própria Feira, em si,  aí entrei em férias e então faltou tempo para completar a redação do terceiro e do quarto posts encerrando a série de resenhas conto a conto do livro Geração Subzero. Mas voltamos ao trabalho para garantir o fim do projeto. Vamos diretamente, então, ao livro:

O Preço de uma Escolha, de Ana Cristina Rodrigues
Este texto de Ana Cristina Rodrigues faz um bem bolado cruzamento entre dois gêneros bem demarcados: a ficção científica e o policial. Em um futuro não muito bem estabelecido, no qual “o Brasil havia deixado para trás a sua histórica corrupção e a transparência da vida pública era protegida a qualquer custo” (não é FC, é utopia, pensei ao chegar neste trecho), a população convive com mutantes, batizados de Neo-Humanos, que desenvolveram habilidades extraordinárias e superpoderes. Os NHs, como também são conhecidos, devem se registrar junto a um departamento específico do governo – levando ao próximo passo lógico da questão: os que não cumprem essa norma estão cometendo um crime, mas  perseguir criminosos com esse perfil e um elenco de habilidades super-humanas exige um novo tipo de polícia, e é esse o cenário da trama, protagonizada por um delegado chamado Marcos Batista, responsável pela caçada humana a um Neo-Humano extremamente poderoso, um fugitivo que outrora fora um respeitado policial, e com quem Batista já trabalhou. O conceito e o entorno desenvolvidos por Ana Cristina são muito interessantes – eu poderia ler um romance inteiro ambientado no universo fictício da autora, mas o desenvolvimento deste conto em particular me pareceu apressado. Ana Cristina cria um caso policial que, para um desdobramento mais natural, necessitaria de mais páginas e de uma investigação policial por parte do protagonista um pouco mais elaborada antes do confronto final. Há uma grande revelação no fim da história, mas ela também não comove porque a narrativa tem de dar conta de muita coisa no intervalo exíguo de um conto: apresentar o mundo futurístico criado pela autora, explicar o que mudou no mundo com o surgimento de mutantes, criar um passado coerente para o universo retratado e ainda estruturar a investigação policial e trabalhar a relação entre os personagens principais. Esse último elemento é falho no livro, o que impede que o leitor seja impactado pelo destino das criaturas ficcionais criadas por Ana Cristina.

Polaco, de Júlio Rocha
Não havia ainda lido nada de Júlio Rocha, mas, no tocante à simples forma, ao estilo, à maneira como uma palavra se segue à outra, ele é uma das boas descobertas deste volume. Um jovem empregado de uma loja em Cordeiro, no interior do Rio, é enviado para a capital do Estado para substituir um lojista de outra filial da empresa. Vai com a cabeça cheia de expectativas por um Rio que, para ele, significa “praias, garotas de topless, bailes funk e outras cenas vistas nas novelas desde menino“. Entusiasmado, chega ao Rio querendo descobrir “onde as coisas acontecem”. Ao se apresentar na filial da loja, no Cordovil, recebe de seu gerente a informação de que a empresa não precisará dele antes do dia seguinte, e portanto ele tem a tarde de folga. Ainda curioso pelo que pretende encontrar do seu Rio imaginado, ele resolve aproveitar a noite para tentar conhecer um baile funk. Pega o endereço com uma colega e, enquanto mofa numa parada em uma rua deserta à espera de um ônibus, é apresentado a outro clichê recorrente sobre o Rio contemporâneo: sua bandidagem. Homens em um Chevette passam pelo ponto de ônibus, confundem-no com um criminoso chamado Polaco e o raptam.
O ritmo da prosa é ágil, o que colabora para a boa estruturação do suspense engendrado pela narrativa a respeito do destino que terá o protagonista confrontado com homens que estão decididos a matá-lo tomando-o por um traficante em desacerto com outros criminosos:
Quando caiu no banco de trás do Chevette, Matias chorava. O careca pegou sua camisa e levantou até a cabeça, deixando seu rosto coberto. Alguns minutos depois, estava dentro de um barraco. Frente a frente como Balanagulha, o chefe da área segundo o careca.
Tal agilidade estilística torna o conto enxuto: é um dos mais curtos da antologia, e seus eventos se sucedem vertiginosamente, os acontecimentos se avolumando não página a página, mas quase parágrafo a parágrafo. A sacada de fazer um homem sedento pelo Rio de Janeiro estereotipado da televisão encontrar não o que foi buscar, mas o outro extremo desse estereótipo também é bem pensada. O senão fica por conta da resolução para uma história que soube prender o interesse: a conclusão decepciona ao lançar mão de um pouco crível deus ex-machina.

Para Sempre em um Dia, de Helena Gomes
Uma fantasia medieval na qual Urraca, uma adolescente portuguesa, é brutalizada e assassinada por um grupo de soldados cristãos provavelmente lutando para retomar parte da península Ibérica nas mãos do invasor mouro.  Só que Urraca não perece junto com os demais habitantes de sua aldeia destruída. Sem explicação, tanto para ela quanto para o leitor (o que é um ponto positivo do conto, uma vez que uma explicação diminuiria o impacto da narrativa), Urraca permanece consciente. Não sente fome, frio, e, depois de costurar o talho na garganta deixado pela lâmina de seus degoladores, também não sente cansaço, podendo caminhar longas distâncias. Um dia, ela encontra um nobre cavaleiro que se dedica a “caçar monstros”, ferido e com os olhos arrancados por uma versão medieval de uma vampira. Urraca ajuda o rapaz que, mordido pela sanguessuga que caçava, torna-se um vampiro. Como um caçador cego não pode se virar sozinho, ambos se tornam um casal de predadores, com a desmorta ajudando o vampiro cego a caçar vítimas de quem se alimentar. 
Não é, como já apontamos, o primeiro conto desta coletânea a transplantar o gênero do horror para um contexto narrativo antigo – o próprio Vianco, um dos autores mais conhecidos e populares dentre os selecionados, tentou fazer isso neste livro, sem muito sucesso. Helena Gomes cumpre bem o desafio ao ambientar na Idade Média o que é basicamente a história de amor de um vampiro com uma zumbi. Mesmo o andamento da prosa emula com dignidade o conto medieval, uma narrativa marcada, como Calvino já havia comentado e posto em prática, pelo olhar para a ação que sucede a outra ação, fazendo a trama avançar em ritmo musical:
“Eles vieram. Cercaram a floresta pelas bordas e, em investidas certeiras, começaram a caçar um a um os membros da família de Urraca. Ela desesperou-se com cada perda, traçou estratégias de ataque e defesa, ajudou a matar um e ouro caçador. Para sua surpresa, o rapaz não reagiu como deveria.”
A prosa, a propósito, apesar de repisar gêneros e ideias, demonstra um cuidado, uma atenção ao detalhe e à precisão da palavra que tem sido pouco vistos nesta coletânea até aqui.

Outra Vez na Escuridão, de Carolina Munhóz
Este é um conto particularmente longo no conjunto da coletânea. O problema é que a prosa é tão truncada que suas 24 páginas parecem dobrar de tamanho. A história parte de um amálgama promissor entre o conceito de musa – grego na origem, como sabemos todos – e o  da “fada-amante” do folclore gaélico, a Leanan Sídhe. Basicamente, a história é uma biografia disfarçada da cantora Amy Winehouse casada a um conto de fadas sombrio. A protagonista é uma cantora chamada Jade que, nascida com um peculiar e luminoso talento musical, passa a ser alvo da atenção de uma fada chamada Sophia, que a seduz sexual e afetivamente, inspira suas canções e seu trabalho e suga a alma da artista quanto mais famosa a jovem se torna. O fim é, como foi o fim de Amy, trágico. 
A história de Carolina carrega no DNA um mote que está na origem da própria literatura ocidental, está lá na Poética de Aristóteles: a queda, no ponto mais alto de sua trajetória, de um personagem coberto das mais gloriosas benesses da vida humana. A Virtude e o Poder, na tragédia grega antiga, transformadas em Juventude, Talento e Fama no mundo das celebridades e da indústria cultural contemporânea. Há também um toque faustiano bastante promissor, uma vez que a fada fornece aquilo que a jovem acha que quer, a chance de ter suas canções ouvidas, sem informar o preço que ela terá que pagar por isso – um agravamento da melancolia que sempre esteve latente na garota.
O problema está justamente na condução dessa ideia. Para começo de conversa, a mistura de conto de fada com o universo do rock consegue gerar apenas uma fábula complacente como muitas outras histórias já publicadas sobre rock’n’roll (a que me vem mais imediatamente à cabeça é a novela 27, do alemão Kim Frank). Quando retratada por escrito, a ambição e a queda de um artista de rock parece apenas o movimento de um espírito mimado que não consegue articular de modo satisfatório seu vazio essencial, o mesmo que o impulsiona a buscar o amor das multidões de fãs, quebrando a cara no processo. É o que acontece com a Jade do conto. Talvez por ficar demasiadamente atrelada ao modelo da vida real, a psicologia atormentada da garota, como descrita no conto, parece sempre aquém, pouco crível, perdida em meio a uma prosa ao mesmo tempo pomposa e insuficiente, que tropeça em juízos sentenciosos, redundâncias e metáforas de um sentimentalismo derramado. Vamos dar uma olhada apenas no primeiro parágrafo para ilustrar:
Muito antes de os humanos conviverem com internet, celulares e televisões, sábios pressentiam quando uma estrela nascia. Uma força diferente reinava sobre a Terra, indicando que alguém especial iniciava sua jornada. Não se importavam se os chamassem de bruxos, malfeitores ou criaturas negras. Para os sábios, a bênção de sentir o poder de uma nova estrela já parecia ser o suficiente. Mal sabiam que outras criaturas mágicas também sentiam a força pulsando no mundo, feito um coração selvagem no peito de uma mulher apaixonada. Seres poderosos, mas que usavam essas estrelas para brilhar em seu céu particular. Apenas em um céu. Ato egoísta para criaturas assim…”
Há mais casos em que a prosa não cumpre o objetivo de carregar adiante as ideias que deveria veicular:
“Afinal, se todos os humanos que tocassem algum instrumento fossem inspirados uma musa, não haveria metade da população viva. Todos teriam morrido sugados pelas Leanans. O irônico era que ninguém perceberia. Afinal, quem conseguiria notar um padrão em mortes como aquelas? Algumas das vítimas não aguentavam a pressão de perder a fada e se atiravam de enormes edifícios ou davam tiros certeiros na cabeça”.
Tiros “certeiros” na cabeça? Embora nem todo tiro na cabeça seja “fatal”, quão difícil é acertar um tiro na própria cabeça para que ele precise ser qualificado de “certeiro”?

A Sabedoria de Clementina, de Vera Carvalho Assumpção
Um texto enxuto no qual a autora conta uma história ambientada na São Paulo dos tempos da Marquesa de Santos, “ex-amante do Imperador” – ou seja, em algum momento do século XIX entre 1829, quando a marquesa e Dom Pedro I romperam, e 1867, quando a dama morreu. Faço essa conta apenas para fins de datação, porque a história em si não tem nada a ver com a marquesa. Aliás, essa seria uma falha a apontar no conto: mesmo tão enxuto que parece ter quase o tamanho exato e ponderado, seu primeiro parágrafo ainda é excessivamente didático, valendo-se da enumeração de fatos de época como em um artigo enciclopédico para construir o entorno da narrativa:
“Desde que se instalara a Academia de Ciências Sociais e Jurídicas do Largo de São Francisco, eram os resquícios das estripulias dos estudantes o que mais alvoroçava a conversa. Na pacata e garoenta São Paulo, os moços revolucionavam os costumes e renovavam as fantasias, entregando-se a orgias e excessos físicos de toda espécie. Da Europa vinham ecos da era vitoriana, em São Paulo reinava a Marquesa de Santos, ex-amante do Imperador, mantenedora da maior fortuna da cidade e senhora do melhor salão. Era ela a promover saraus onde autoridades e estudantes exibiam seus dons declamatórios”.
Descontado esse senão, contudo, a história funciona muito bem. Clementina, a lavadeira negra alforriada que dá título ao conto, testemunha em suspense, como toda a população da cidade, uma série de “milagres noturnos inexplicáveis” envolvendo uma grande cruz preta posicionada na Sé. Todas as noites, algum habitante da cidade vê a cruz se deslocando pelas ruas, como se animada de vida, até as casas de determinados nobres senhores. A suspeita é que a cruz indique locais em que morem donzelas virtuosas e exemplos de fé, filhas dos proprietários. Obcecada com a ideia de ser abençoada pela visita da cruz, Clementina certo dia monta guarda até testemunhar o milagre com seus próprios olhos e compreender sua noção mais profunda. 
É um bom conto, com uma história de razoável simplicidade mas que é conduzida de modo a cativar o leitor e empurrá-lo até o fim, porque, como eu disse ali em cima, o texto é conciso, do tamanho certo para provocar aquele impacto e aquela unidade de efeito essenciais dos bons contos. É, definitivamente, um dos textos que cumpre o que, em tese, a coletânea promete desde sua concepção: a de apresentar uma história interessante que faça o leitor querer saber seu final e não se decepcione com sua conclusão.

Ufa, ficou comprido. Em breve, vamos para o último bloco de resenhas da coletânea.

Veja aqui os demais blocos de resenhas sobre a coletânea Geração Subzero:

>>> Descongelando os Subzeros, parte 2

>>> Descongelando os Subzeros, parte 1

As crônicas de Scliar

23 de outubro de 2012 0

O escritor Moacyr Scliar

Leon Tolstói (1828 – 1910) foi não apenas um grande escritor, foi um tipo humano fascinante que, sob alguns aspectos, antecipou formas de pensamento e estilos de vida que depois viriam a caracterizar o século XX. Podemos dizer que foi, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros hippies, o resultado de uma trajetória intelectual e espiritual em que não faltaram momentos surpreendentes. O centenário de seu nascimento está sendo lembrado em todo o mundo este ano. De família rica e tradicional, filho de um conde, Tolstói nasceu em 1828 em Iásnaia Poliana, grande propriedade familiar. Frequentou a universidade, estudando Direito e idiomas, mas, aluno rebelde, abandonou o curso. Passava muito tempo em Moscou e em São Petersburgo,levando uma vida boêmia e acumulando pesadas dívidas de jogo. Talvez para escapar a esta situação, alistou-se no exército e começou a escrever. Resultou daí uma notável obra, expressa em contos, em romances, como Anna Kariênina e Guerra e Paz, em ensaios. Seus textos conquistaram a admiração de escritores como Flaubert, Dostoiévski e Tchekhov, e tornaram-no famoso.
Aos poucos, Tolstói foi optando por um caminho que, filosoficamente e politicamente, caracterizava a sua independência e sua rebeldia. Depois de presenciar uma execução pública em Paris, concluiu que o Estado “é uma conspiração para explorar e corromper cidadãos”. Embora influenciado pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (de quem copiou o título de um livro,
La Guerre et la Paix), não aderiu ao anarquismo; mas resolveu dedicar-se à gente pobre, comum. Em Iásnaia Poliana, fundou várias escolas que proporcionavam um ensino livre, democrático. Era um cristão fervoroso, mas não convencional, que buscava sua própria interpretação dos livros sagrados. Admirador de Buda e de São Francisco de Assis, acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, e, numa época, era vigiado pela polícia do tsar. Pacifista convicto, influenciou o líder hindu Mahatma Gandhi, que, através do movimento de resistência não-violenta, conseguiu que a Índia se tornasse independente da Grã-Bretanha. Achava que a aristocracia era opressora, opunha-se à propriedade privada e ao casamento; valorizava a castidade, não bebia nem fumava, era vegetariano e usava roupas simples de camponês, renunciando inclusive à sua riqueza e até aos direitos autorais (um escritor que era, portanto, o sonho dos editores).
A família (era casado com a filha de um famoso médico e teve com ela 13 filhos) não aceitava o que era considerado um extravagante modo de vida. Aos 82 anos, Tolstói decidiu fugir de casa; fê-lo de trem, em gélidos vagões de terceira classe. Contraiu pneumonia e morreu em 20 de novembro de 1910, na estação ferroviária de Astapovo. Àquela altura era uma personalidade universal e, apesar de não ter nada a ver com o comunismo, foi prestigiadíssimo na finada União Soviética. Para os hippies dos anos 1960, tornou-se um modelo, e havia até colônias com seu nome. Certamente no musical Hair, celebração desse movimento, ele teria um papel importante. Basta lembrar uma única frase dele,que aparece no começo de Anna Kariênina: “Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Bota sabedoria nisso.”

Durante quase 40 anos, entre o início dos anos 1970 e janeiro de 2011, o escritor Moacyr Scliar (1937 – 2011) publicou crônicas regularmente em Zero Hora. Os assuntos eram os mais variados possíveis: das questões de saúde abordadas no caderno Vida aos temas mais leves desenvolvidos no caderno Donna, passando pelos assuntos cotidianos da cidade e do Estado reservados para a coluna das terças-feiras na página 2 do jornal.

Está chegando às livrarias a coletânea A Poesia das Coisas Simples (Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 29,50), organizada e prefaciada pela professora Regina Zilberman, reúne 82 dessas crônicas, escritas entre outubro de 1977 e novembro de 2010. Dividido em três grandes eixos temáticos (Leituras, Livros, Literatura, Pessoas e Personagens – de onde saiu a crônica reproduzida acima  – e Outras Histórias) organizados em ordem cronológica, o livro revela pelo menos três temas que seriam recorrentes ao longo de toda a trajetória do escritor como cronista: a paixão pela literatura, o legado da cultura judaica e as lembranças familiares da infância no Bom Fim.

Scliar escreveu mais de 70 livros em gêneros como romance, conto, ensaio, crônica e ficção infantojuvenil, mas, paralelamente à produção extensa e variada, fazia questão de manter uma vida literária intensa e movimentada. Viajava pelo mundo todo para congressos de literatura, mas não recusava os convites das pequenas Feiras do Livro do interior do Estado. Entre os textos selecionados, há saudações à Jornada de Passo Fundo e à vindoura Feira do Livro de Porto Alegre, assim como o registro de encontros com celebridades literárias internacionais como Gabriel García Márquez e relatos sobre a convivência com escritores como Erico Verissimo, Jorge Amado e Antonio Callado.

O título do livro foi retirado de um texto sobre outro escritor com o qual Scliar conviveu e a quem dedicou uma cordial despedida em dezembro de 1990, quando Rubem Braga morreu. Falando sobre o cronista mais celebrado da literatura brasileira, aquele que, ao contrário do próprio Scliar, dedicou-se a um único gênero, o escritor gaúcho acaba fazendo o elogio do texto breve que exercitou durante toda sua vida literária: “Há quem julgue o jornal um veículo inadequado para a literatura: o livro, diz-se, tem permanência (mesmo que esta permanência por vezes só beneficie as traças) ao passo que o jornal é um objeto descartável (…). Braga, porém, nunca acreditou nesta lógica ‘macluhanesca’. Preferiu seguir o caminho de Machado e de Lima Barreto, e transformou o cotidiano em matéria-prima para um trabalho literário de primeira grandeza”.

Um rosto de infância

25 de setembro de 2012 0

A escritora Marcia Tiburi. Foto: Rubens Martins Chaves, divulgação

Em seu último ensaio publicado, Olho de Vidro (2011), a filósofa e escritora Marcia Tiburi refletia sobre a onipresença da imagem na cultura contemporânea. Em seu novo romance, Era Meu Esse Rosto, é a ausência de uma imagem que norteia a busca do protagonista por si mesmo.

Era Meu Esse Rosto é o quarto romance de Marcia Tiburi, publicado após a conclusão de sua Trilogia Íntima: Magnólia (2005), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009). Em comparação com os demais, o novo romance preserva a prosa limítrofe com a poesia, um narrar mais de sensaçõesdo que de situações. Há, contudo,um elemento diverso: é a primeira vez que a literatura de Marcia lida com um narrador masculino. Um recurso que,a própria autora admite, foi adotado para antepor um certo distanciamento do material mais pessoal e autobiográfico deste romance.

– Criei um homem que eu ficcionalizei neste livro. Talvez eu tenha feito isso para poder me distanciar da minha própria história. A gente sempre se inspira na realidade, porque a literatura é verossimilhança, tem a ver com o que poderia ter acontecido, e isso é o que vai sustentar o que chamamos de literatura. Há uma referência a um possível, e às vezes este “possível” é muito mais próximo do acontecimento vivido – diz a autora, em entrevista por telefone.

Era Meu Esse Rosto divide-se em duas linhas narrativas: a descrição, poética e exacerbada, das memórias de infância do narrador/protagonista em uma cidade do interior (nomeada apenas como V., como a Vacaria natal de Marcia), entremeadas com o relato de uma viagem do mesmo protagonista, já adulto, até a cidade da Itália de onde veio sua família (também batizada apenas de V., com a descrição imprecisa de uma metrópole mediterrânea com canais, como Veneza).

O personagem cumpre essa jornada de V. a V. para tentar encontrar na Itália, a pedido de uma parente, um retrato de seu avô, já morto e sepultado sob uma lápide sem foto. Essa busca por uma imagem fugidia é narrada em blocos de texto entre parênteses (transformando o presente do personagem em uma interrupção da infância na qual residem suas sensações e memórias mais vívidas). A jornada é também uma chave para o estilo elusivo e denso do romance.

– O personagem busca uma imagemque não está disponível, então a objetividade também não está disponível. O que sobra para ele? A tangência, a busca, um caminho que vai se construindo no próprio processo – comenta Marcia.

A busca pela imagem física, fotográfica, não é o centro da narrativa, e sim as evocações de uma infância em companhia das irmãs e dos nonnos: a avó, mais pragmática, o avô, uma figura marcante, contador de histórias e, aos olhos do neto, artífice de maravilhas.

– O que é a memória senão impressão? Essa memória de infância mais ainda, porque está misturada com uma sensação da infância que, para quem vive depois de adulto, é só uma sensação perdida. Uma sensação carregada de pureza, de uma ausência de mediação. Agora, o que vivemos é mediado por nossa história, currículo, formação, cultura, família, exigências sociais. Mas, para a criança, tudo é descoberta, tudo se imprime com mais força. E nunca mais será tão forte.

Paulo Coelho, a arte e a filosofia

17 de setembro de 2012 0

O escritor Paulo Coelho. Foto: Martin Rendo, Divulgação

Texto de Rodrigo Celente

Como um bom mago que se preze, a data de lançamento do livro Manuscrito Encontrado em Accra, o 22° da carreira de Paulo Coelho, foi escolhida pela sua simbologia. No dia 25 de julho comemora-se o aniversário da cidade espanhola de Santiago de Compostela, data que coincidiu com o 25º aniversário da publicação do best-seller Diário de um Mago, que narra a peregrinação de Paulo Coelho pelo Caminho de Santiago, que para milhares de pessoas é uma experiência mística, filosófica e transcendental.

E é esta experiência (engendrada numa história intertextual onde se misturam Shakespeare, Umberto Eco, Jorge Luis Borges, fatos históricos) que volta à tona em Manuscrito Encontrado em Accra (Sextante, 176 páginas). É sabido que, para se contar a história de um indivíduo, há necessidade de se articular situações diversas, um tempo de história e outro de História. E Paulo Coelho acerta a mão neste aspecto em Manuscrito Encontrado em Accra. Ao final da leitura, por meio de posicionamentos estéticos e éticos, fazemos uma releitura da vida. O livro, diz o autor, é a transcrição do pergaminho descoberto em 1974 pelo arqueólogo inglês sir Walker Wilkinson. O manuscrito, que foi escrito em árabe, hebraico e latim, contém um relato sobre os conselhos que um sábio grego, Copta, deu à população de Jerusalém às vésperas da invasão da cidade pelos cruzados, em julho de 1099.

A situação é semelhante à abertura de O Nome da Rosa, obra que consagrou o italiano Umberto Eco. No prefácio, Eco diz que teve contato com um pergaminho de um suposto Abade Vallet. A partir daí, ele desenvolve a história repleta de citações e situações históricas e literárias. Num claro jogo metafórico, de que muito faz uso, Paulo Coelho reafirma sua proposta de trabalhar com elementos que digam das coisas reais. Alguns dos fatos, locais, nomes e datas presentes na narrativa são recursos ficcionais. Servem apenas para dar ao leitor aquele conhecido que se necessita para sentir-se bem. Paulo Coelho vai, portanto, da realidade à aparência.

O crítico João Alexandre Barbosa, em A Leitura do Intervalo, escreve que aquilo que lemos na obra literária ultrapassa as fronteiras do texto, incorpora contextos diversos e atualiza o conhecimento de um determinado sujeito sobre um particular objeto. Ao nos depararmos com os conselhos de Copta, questionamo-nos acerca de nossas ações, ou melhor, falta de ações em todos os níveis no mundo contemporâneo. Os interlocutores de Copta perguntam sobre valores e sentimentos como lealdade, coragem, amor, medo, solidão, derrota e morte. E as lições de Copta nada mais são do que uma reflexão sobre a felicidade ou infelicidade de nossa condição humana. Ora, e não é justamente isto que esperamos de uma obra de arte?