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Posts na categoria "Literatura Russa"

A revolução e os náufragos da história

28 de dezembro de 2015 0
Capa de A Estrada, de Vassili Grossman

Capa de A Estrada, de Vassili Grossman

Dada a energia que a União Soviética empregou ao longo do século 20 para silenciar os escritores “contrarrevolucionários” (senha para “ideologicamente inconvenientes”), o caso de Vassili Grossman (1905 – 1964), um dos autores mais sistematicamente proibidos do regime, não é, infelizmente, incomum. Incomum é o fato de que a melhor parte de sua obra tardia, suprimida, proibida e ameaçada de destruição durante toda a vigência do Império Soviético, tenha de algum modo sobrevivido e alcance hoje ressonância internacional.

Grossman é o autor de Vida e Destino, romance monumental que, inspirado desde o título por Guerra e Paz, de Tolstoi, recompõe a escala humana das dificuldades enfrentadas pelo povo russo durante os embates da II Guerra, em um carrossel de vozes que vão dos campos de prisioneiros nazistas ao front desabastecido, passando pela burocracia desumana a que estão submetidos os cidadãos nas sitiadas cidades. O livro constava como obliterado, mas apareceu e foi publicado em 1980, e se tornou um romance consagrado após a queda do comunismo soviético. Publicado finalmente no Brasil no ano passado, o livro abriu caminho para outros trabalhos do autor, como os contos, ensaios e reportagens reunidos neste recente A Estrada (Tradução de Irineu Franco Perpetuo. Objetiva, 336 páginas, R$ 54,90).

Compilados pelo tradutor inglês da obra, Robert Chandler, e pelo especialista russo Yuri Bit-Yunan, os textos vêm distribuídos em cinco seções, abrangem desde Na Cidade de Berdítchev, publicado em 1934, uma das primeiras obras de Grossman a angariar reconhecimento crítico (merecido, comprova a leitura desa poderosa reflexão sobre o dilema revolução-vida familiar que afligiu parte dos mais fervorosos soviéticos), até cartas de despedida que escreveu para a mãe já morta há muitos anos (fuzilada pelos nazistas em 1941, com outros 12 mil judeus, na Berdítchev natal do autor).

Sobressai nos contos, desde os poucos do início da carreira até os mais tardios, o caráter compassivo da prosa de Grossman. Ao contrário da fascinação com a violência revolucionária que permeia desde um autor plenamente alinhado com os  soviéticos, como Máximo Górki, até uma vítima do regime, como Isaac Bábel, Grossman se preocupa menos com os grandes tornados da História do que com as vidas que adernam à sua passagem. Não é à toa que ele tenha sido um dos primeiros, já em 1944, a retratar o horror de um campo nazista, em O Inferno de Treblinka, incluído neste volume.

A Anna deles e a minha...

18 de março de 2012 2

Tolstoi assim descreve Anna Karênina a certa altura de seu monumental romance de mesmo nome, em uma cena ocorrida em um baile. Em tempo, para quem não leu o romance: Anna Arkadiévna é a Anna do título mesmo, nomeada com o prenome de batismo e o patronímico (compreensivelmente, o mesmo de seu irmão Stiépan Arkadiévitch). No contexto da cena a seguir, a jovem Kitty citada no texto, que vê em Anna, grande dama chegada de Petersburgo, um modelo de elegância e cosmopolitismo, é a futura noiva do infausto Conde Vronsky, um belo e arrojado jovem que terminará se apaixonando pela protagonista. O amor de ambos precipitará uma tragédia (quem reclamar de spoiler com este comentário a respeito de um livro que está por aí há “só” 139 anos será desconsiderado, desculpe). Mas eu falava de Anna. Eis como ela é descrita na cena do baile:

Korsunski fez uma reverência, empertigou-se e ofereceu-lhe o braço para conduzi-la até junto de Anna Arkadievna. Kitty, corando, um pouco aturdida, afastou a cauda do vestido dos joelhos de Krivine e voltou os olhos em busca de Ana. Esta não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Uma toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava-lhe os ombros esculturais, como esculpidos em velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam-lhe o vestido. Nos cabelos negros, sem postiços, ostentava uma grinalda de amores-perfeitos, combinando com outra que lhe adornava a fita preta do cinto, rematada por rendas brancas Estava penteada com muita simplicidade. Apenas alguns caracóis de cabelo frisado na nuca e nas fontes se lhe eriçavam rebeldes. Em volta do pescoço bem torneado brilhava um fio de pérolas.

Leitores de Anna Karênina - falo por mim mesmo, mas já tive corroborada a impressão por um ou outro dos leitores devotos da obra – tendem a se apaixonar pela personagem, o que talvez seja o motivo pelo qual os mesmos leitores tendem a torpedear sem piedade as transposições da história para o cinema – muitas vezes com a maior das razões, como no filme de 1997, uma das adaptações literárias mais equivocadas de todos os tempos. Ao saber, portanto, que Joe Wright se preparava para filmar mais uma versão, em pós-produção neste momento em que escrevo, fiquei desconfiado. Wright já provou ser bom em reconstituição de época e adaptação literária, mas tem o péssimo hábito (compartilhado por vários diretores de elenco, sei lá por quê) de escalar Keira em papéis de época na primeira oportunidade que aparece. Keira Knightley, com seus braços de espaguete, se houvesse um mínimo de acurácia histórica, seria mais apropriada para viver uma tuberculosa terminal em algum sanatório saído de Os Miseráveis, mas eles insistem. Daí por que, mesmo sabendo que a moça tem um rosto bonito e muito clássico, não consegui me convencer a abrir espaço na Anna da minha imaginação para a que ela representa nas primeiras imagens do filme, como a divulgada abaixo:


Keira Kightley como Anna. Foto: Laurie Sparham, Focus Features, Divulgação


Vivos – Maratona Guerra e Paz

04 de fevereiro de 2012 6

Sim, já é quase sábado.

Sim, já é quase sábado pela terceira semana de dívida com o Mundo Livro – e com a minha promessa, não por falta de cobranças de Carlos André.

Novo acordo: conseguimos chegar a conclusão que posts semanais não são uma boa ideia.

Por enquanto, falamos em quinzenais, mas ainda tô pensando em dividir de acordo com as partes do livro. Isso porque, quando atrasei lá o primeiro coloquei na minha cabeça que escreveria quando terminasse a primeira parte, porque aí teria mais ou menos um panorama da história que o Tolstói tava armando.

Deu certo: Terminei a primeira parte (234 páginas, é pouco, sei). Deu errado: ainda devo devia a resenha de impressões.

Acontece que a primeira parte é uma sucessão de festas, eventos, encontros (e uma romaria até a casa de um moribundo rico), tudo para apresentar quem serão as personagens da história. Adoro o método, porque gosto das construções de personalidade nos ambientes sociais, nos diálogos.

O problema é que é tanta gente, e quase todos príncipes e princesas (porque o título na Rússia não tem o mesmo significado que conhecemos), que dá um tilt quando a história começa a ligar os pontos, mostrar os pedidos de favores, dizer quem é contra e a favor de Bonaparte e da entrada da Rússia na guerra.

Destaque para:

Pierre. Um fanfarrão, parasita social e defensor do Bonaparte. Não quer nem saber de entrar na guerra – nem de trabalhar. É filho bastardo do tal moribundo, mas até o final da primeira parte ainda não tinha herdado nada.

Príncipe Andrei: o final da primeira parte é quando ele está deixando a mulher no interior para ir para a guerra. Está menos interessado na batalha e em enfrentar o exército napoleônico do que em se livrar da mulher, preocupada demais com os costumes e com a vida alheia.

Anna Mikháilovna: viúva desesperada, convenceu o príncipe Vassíli a arrumar um bom posto para o filho Boris, com apoio do padrinho, o Conde Bezúkhov (o moribundo). Ela também está em busca de uma fatia da herança do conde, que parece que todos sabem, deve mesmo ir para Pierre.

Dito isso:

Peguem na minha mão para que eu consiga começar a segunda parte (antes que meu cérebro derreta com esse calor). E não me abandonem. Alguém aí tá lendo o Guerra e Paz também? A quantas anda?

Zamyátin e Nós

16 de julho de 2010 3

Este post vai aqui publicado depois de comentário feito pelo leitor Yuri Alhnati no post sobre O Mestre e Margarina, podem conferir ali embaixo. Vamos ver, primeiro, se vocês matam de que livro estamos falando:

1) Sociedade rigidamente controlada por um estado totalitário que impõe a seus cidadãos uma vida despersonalizada e mantém a todos em vigilância constante.
2) O cenário é um mundo no qual noções básicas da civilização ocidental, como liberdade e individualidade, são banidas e consideradas não apenas inconvenientes mas infamantes.
3) O protagonista é um funcionário técnico inicialmente alienado que, no meio dessa hierarquia desumana, encontra e se apaixona por uma mulher cujo amor será redenção e ruína ao mesmo tempo
4) A narrativa é dominada pela sombra de uma figura sinistra que oprime o povo enquanto exige ser chamado por um epíteto queridinho.

É 1984, de George Orwell?

Não, o palpite é bom, mas não é.

As frases acima foram escolhidas conscientemente para alimentar a confusão. Elas servem para definir elementos de 1984, mas foram colocadas ali com o intuito de sublinhar a dívida que o clássico de Orwell (e, por tabela, praticamente tudo o que se derivou dele, como sua adaptação cinematográfica, ou Brazil, de Terry Gilliam,  ou uma dezena de séries de TV que vão de Logan’s Run a Aeon Flux, por exemplo) tem com um precursor menos conhecido da literatura de ficção científica, o romance Nós, do russo Yevgeny Zamyátin, o cidadão da pintura ali de cima (um retrato feito por Bóris Kustodiev). O livro foi concluído em 1921 – mais de duas décadas antes de 1984, que é de 1948.

Narrado em primeira pessoa em uma prosa que vai gradualmente do patético iludido para o desencanto, Nós é contado por D-503, um engenheiro que vive em um mundo futurista no qual a liberdade foi abolida, a mecânica e a matemática regem a ideologia e as pessoas, chamadas “cifras” ou “números”, têm nomes que mais parecem identificações de série. Controlando tudo, está uma figura sinistra que auto-intitula O Benfeitor, que forjou o UnEstado que domina aquele mundo remanescente de uma guerra de séculos. Funcionário do departamento responsável pela criação de um foguete destinado às estrelas, D-503 vai conhecer I-330, uma enigmática mulher parte de uma célula de resistência. E só aí perceberá o quanto o véu da alienação em que vivia, parte imposição do Estado e parte seu próprio conformismo, escondia as imperfeições daquele mundo que deveria ser de pura ordem. Como vocês vêem, quem leu 1984 ou mesmo viu o filme achou a trama de Nós bem mais do que vagamente familiar.

Zamyátin viveu de 1884 a 1937 e era um satirista. Seus livros eram visões humorísticas de seu tempo, que lhe granjearam uma reputação razoável no final dos anos 1910. Sim, esse é o primeiro choque de quem lê o livro: o modelo para o sombrio 1984 é um livro irônico, eivado de humor e poesia. Lançado menos de uma década depois do triunfo dos bolcheviques, Nós só poderia ter o destino que teve: foi banido. Aliado de primeira hora dos bolcheviques mas radicalmente contra a censura exercida por eles, Zamyátin logo caiu em desgraça e foi proibido de publicar não só esse como qualquer livro futuro. Devido a essa contingência, Nós, contrabandeado pela mulher do escritor para o exterior, foi levado para um amigo em Londres e veio a ser publicado primeiro em inglês, depois em francês e, finalmente, anos depois, em russo – numa tradução que, sem os originais, precisou se valer de uma segunda tradução da edição original inglesa (complicado, não?). Nós circulou bastante na Inglaterra, e era conhecido por Orwell quando este começou a escrever sua própria distopia. Zamyátin conseguiu escapar do horror soviético por interferência de Górki, que conseguiu a permissão de Stálin para que ele fosse viver no exílio, em Paris, onde morreu na pobreza.

Nós teria também inspirado o Admirável Mundo Novo, de Huxley, mas nesse caso Huxley não só nunca confirmou como sempre negou a influência. E no jogo eterno das inspirações literárias, é provável que o próprio Nós tenha resultado da leitura de Zamyátin do conto The New Utopia, de Jerome K. Jerome, publicado no fim do século 19 e que apresenta uma visão de mundo parecida satirizando o comunismo: o plano de uma Londres em que todo mundo se veste igual, com uniformes cinzas e com o cabelo curto e pintado de preto, cercada por um muro e no qual o amor individual é perigoso para o avanço da utopia estatal totalitária.

Fiquei sabendo da existência desse livro em um artigo publicado por Sérgio Augusto nos longínquos anos 1990 na revista Caros Amigos. Passei anos procurando alguma edição em português, sem sucesso – se houve alguma tradução, era tão antiga que havia sumido do mapa há muito tempo. Precisei então, pedir a uma conhecida que na época morava em Londres que comprasse a edição da Penguin Books para mim (e a capa é exatamente esta que ilustra este post). desde então já li e reli esse livro um bom par de vezes. Dada a trajetória tumultuada do romance, e o fato de que sua primeira edição na verdade foi a tradução em inglês, não chego a considerar uma heresia traduzir o livro da versão em inglês, e por isso, como uma palhinha aos fiéis leitores do Mundo Livro, deixo uma tradução exclusiva do primeiro capítulo (se alguma editora aí fora se interessou em editar o livro, pense em mim com carinho para traduzí-lo, por favor):.

Registro 1

Proclamação

As Mais Sábias Linhas

Um Poema Épico

Eu estou tão-somente copiando aqui, palavra por palavra, o que foi impresso hoje na Gazeta Estatal:

Daqui a 120 dias, a construção do INTEGRAL será finalizada. Aproxima-se a grande, a histórica hora em que o primeiro INTEGRAL será lançado ao espaço. Mil anos atrás, nossos heróicos ancestrais subjugaram o planeta inteiro ao poder do UnEstado. Cabe a vocês executar uma tarefa ainda mais gloriosa: finalizar, por meio do vidro, da eletricidade, do hálito de fogo do INTEGRAL, a indefinida equação do universo. Cabe a vocês colocar o benéfico jugo da razão ao redor dos pescoços dos seres desconhecidos que habitam outros planetas – e que ainda vivem, provavelmente, no estado primitivo conhecido como liberdade. Se não entenderem que estamos levando a eles uma felicidade matematicamente infalível, seremos obrigados a forçá-los a ser felizes. Mas antes de pegar em armas, devemos verificar o que as palavras podem fazer.
Em nome do Benfeitor, todos os Números do UnEstado, por meio deste, estejam informados do que segue:
Todos os que se sentirem capazes de fazê-lo são solicitados a compor tratados, poemas épicos, manifestos, odes, ou outras composições a respeito da beleza e da grandeza do UnEstado.
Esta será a primeira carga transportada pelo INTEGRAL
Vida longa ao UnEstado! Vida longa aos Números! Vida Longa ao Benfeitor!

Enquanto escrevo sinto as faces arderem. Sim: determinar completamente a integral da colossal equação do universo. Sim: desdobrar a parábola selvagem, planificá-la tangencialmente, aplainá-la em uma linha sem desvios. Porque a linha do UnEstado é uma linha reta. A grande, divina, precisa, sábia linha reta – a mais sábia de todas as linhas.
Eu, D-503, construtor do INTEGRAL, sou apenas um dos matemáticos do UnEstado. Minha caneta, acostumada a gráficos, é débil para criar a música da assonância e da rima. Devo tentar anotar – nada mais – o que eu vejo, o que eu penso – ou, para ser mais exato, o que nós pensamos (o que é o correto: nós, e que este NÓS seja o título destes registros). Mas isto, seguramente, derivará de nossas vidas, da vida matematicamente perfeita do UnEstado, e, se é assim, não será, de acordo com nossos parâmetros, não importa o que eu pense, um épico? Será; eu acredito e eu sei que será.
Sinto minhas faces arderem enquanto escrevo. Esta é provavelmente a sensação que tem uma mulher quando sente pela primeira vez em si o pulso de uma nova pessoinha, ainda minúscula e cega. Sou eu, e ao mesmo tempo não sou eu. E pelos longos meses seguintes ela terá de nutri-la com sua própria essência, seu próprio sangue, e então… tirá-la dolorosamente de si e deposita-lá ao pé do UnEstado.

Mas eu estou pronto. Como todos nós, ou quase. Eu estou pronto.

Simpatia pelo Diabo

12 de julho de 2010 2

O diabo chega à Moscou dos anos 1920 e espalha, mais do que horror, absurdo – uma vez que, com o regime comunista no auge da repressão aos dissidentes, a capital russa já está servida o suficiente de terror. Essa é, em traços bem grosseiros, a linha que atravessa o esplendoroso mosaico tecido pelo escritor russo  Mikhail Bulgákov (1891 – 1940) em sua obra-prima O Mestre e Margarida, que está ganhando nova edição  pela Objetiva/Alfaguara, depois de décadas fora de catálogo. Bulgákov foi parte de uma geração artística efervescente da Rússia da primeira metade do século 20. Foi também um satirista impiedoso das afetações dessa geração (diga-se de passagem, a sátira foi um gênero que experimentou um florescer fantástico naquelas primeiras décadas do século 20 na Rússia: além de Bulgákov há o grande Evgeny Zamyátin, pioneiro da ficção científica e autor de Nós – romance que influenciou Huxley e Orwell).

Mas voltando a O Mestre e Margarida. À parte a trama fantástica que serve como fio condutor do romance, um dos pontos hilários é a maneira arrasadora com que o autor retrata as revistas e associações de literatos que se espalhavam por Moscou defendendo as posições estéticas oficiais do do regime. Já na primeira cena acompanha-se um debate enfatuado entre o editor Berlioz e o poeta Bezdômny – o primeiro insiste em orientar emendas em um poema do segundo sobre Cristo. Bezdômny pintou um Jesus maléfico, quando o editor queria simplesmente um poema que defendesse a não-existência do Cristo. Nesse ponto da discussão, são abordados por um estranho bem-vestido falando russo com um sotaque exótico. O homem conta que já discutiu aquele ponto com o próprio Kant e garante que Jesus existiu. E que sabe disso porque viu a audiência do Nazareno com Pôncio Pilatos - episódio que passa então a narrar em detalhes. Aos fãs de rock não passará despercebida a semelhança de alguns pontos da cena acima com a letra de Simpathy for the Devil, dos Rolling Stones - Mick Jagger compôs a música após a leitura do livro.

Após a chegada de Satanás, Berlioz morre decapitado, Bezdômny tem um colapso nervoso, e uma série de acontecimentos sombrios se precipita. O visitante realiza uma série de apresentações de mágica nas quais põe a capital russa em polvorosa. O coisa-ruim não está sozinho: vem acompanhado de um séquito improvável composto por um homem muito alto de monóculo rachado, uma feiticeira nua de olhos ardentes e um gato gigante que caminha sobre duas patas. O grande achado de Bulgákov – que anteciparia um pouco do realismo mágico latino-americano – é que tais absurdos não são as únicas coisas fantásticas em uma Moscou no auge do estalinismo: uma cidade atolada na burocracia, em que pessoas desaparecem misteriosamente sem que ninguém se espante ou proteste. E não é à toa que nesse mar de requisições, papéis, reuniões, comitês e pequenas e medíocres autoridades, o daibo se sinta de tal modo em casa que usa ele própria a selva de papel soviética em seu favor para aliciar a população da cidade em uma apresentação em que distribui dinheiro como que feito do nada.

Pelo conteúdo subversivo da obra, Bulgákov sabia que estaria se colocando na mira da censura comunista. Por isso, passou 11 anos burilando o romance sem intenção de publicá-lo. As últimas revisões foram ditadas pelo autor à esposa poucas semanas antes de sua morte, em 1940. O livro só seria publicado em 1966. Mesmo com essa trajetória errática, foi aclamado – com justiça – como uma das grandes obras
romanescas do século 20.

O homem que retraduzia

21 de abril de 2010 3

Boris Schnaiderman (na foto acima. Crédito: arquivo pessoal) não é um patrimônio da literatura brasileira. Não, não é mesmo. Tratar pessoas ainda vivas e produzindo como um patrimônio cultural dá a incômoda ideia de imobilidade, de algo tornado seu próprio monumento, uma estátua de si mesmo, e isso é algo que definitivamente não se enquadra na definição deste ucraniano naturalizado brasileiro que, às vésperas de completar 93 anos, continua refazendo o trabalho de uma vida inteira. Um trabalho que já havia sido amplamente reconhecido e elogiado quando de sua primeira realização, mas no qual Schnaiderman, com a coragem dos perfeccionistas, vê defeitos a corrigir.

Schnaiderman migrou para o Brasil ainda menino (quando garoto, chegou a ver in loco a aglomeração das filmagens da famosa cena da escadaria de O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein)  Escritor e professor de literatura, foi o tradutor responsável por apresentar aos leitores brasileiros em versões diretas do russo nomes como Maiakóvski, Dostoiévski, Tchekhov e Leon Tolstói – de quem a Cosac Naify está publicando agora a novela Khádi-Murát, em nova tradução de Schnaiderman (que já havia traduzido o mesmo livro outras três vezes). É sobre essa obsessão por refazer suas próprias traduções, sobre a sensibilidade literária superior de Tolstói e sobre sua experiência na II Guerra como expedicionário que Schnaiderman falou, por telefone, de São Paulo, ao editor de Zero Hora Luiz Antônio Araújo. Parte da entrevista foi publicada hoje na central de livros do Segundo Caderno, mas, como costuma ser necessário no jornal impresso, foi editada. Aqui, como havíamos prometido, publicamos agora a íntegra:

Zero Hora – Por que o senhor decidiu refazer suas traduções do russo?
Boris Schnaiderman –
Esta é a quarta vez que traduzo Khádji-Murát. A primeira vez foi em 1949. Refiz o trabalho porque estava insatisfeito com os resultados anteriores. No final dos anos 40, eu era o único no país a me dedicar à tradução direta do russo. Antes, como na década de 1920, por exemplo, tinha havido tentativas.

ZH – A maioria das edições disponíveis de russo era traduzida de outros idiomas.
Schnaiderman –
Sim. Às vezes, uma obra era traduzida do russo para o francês, do francês para o espanhol e depois para o português. Havia casos muito tristes de deformação. Houve uma grande voga de literatura russa, na década de 1890, e a partir da França ela se espalhou por vários países e chegou ao Brasil.

ZH – Quais foram as dificuldades para o seu trabalho na época?
Schnaiderman –
Não dispunha de material de consulta. Não existia nenhum dicionário russo-português. Havia russo-francês, russo-alemão. Não tinha um dicionário à mão. A primeira tradução foi uma ousadia sem conta, um ato impulsivo. Hoje em dia, eu acho isso condenável.

ZH – Consta que o senhor rejeitou o título que o livro ganhou à época, O Diabo Branco.
Schnaiderman –
Era o título de um filme. Houve vários filmes inspirados em Khádji-Murát. É um romance quase cinematográfico. Sergei Eisenstein chegou a escrever que parecia ter sido feito para o cinema. Eu falei com o editor, mas ele não deu ouvidos. Ele queria o título do filme.

ZH – Qual é, na sua opinião, o lugar desse livro na obra de Tolstói?
Schnaiderman –
O tema hoje em dia parece candente porque trata da luta dos russos com os povos do Cáucaso, inclusive os chechenos. A luta contra os que tinham se revoltado. Uma grande revolta de fundo religioso. Tolstói mostra o absurdo da guerra tanto de um lado como de outro. Os nativos estavam lutando contra o domínio russo, mas ele mostra os absurdos, os exageros e as violências de lado a lado. Quando era moço, me revoltava com atitude de Tolstói de se manter distante dos dois lados. Minha simpatia estava toda com os nativos do Cáucaso. Com a idade madura, percebo a profunda verdade que há nessa novela.

ZH – O senhor foi integrante da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália, na II Guerra Mundial. Já tinha lido Tolstói quando conheceu a guerra de perto?
Schnaiderman –
Já tinha lido o bastante. Fui um dos poucos brasileiros naturalizados que participou da FEB. Logo que houve a declaração de guerra, houve um movimento de arregimentar estrangeiros residentes, mas na hora H, foram bem poucos os brasileiros naturalizados. Não fui voluntário, porque se me apresentasse como voluntário meus pais fariam tudo para que eu não fosse. (Risos.) Eu era engenheiro agrônomo e funcionário do Ministério da Agricultura. Fiz tudo para ser convocado. Me alistei na Artilharia e fiz curso de sargento. Era calculador de tiro.

ZH –  O que mais lhe marcou na guerra?
Schnaiderman –
Tenho lembrança muito forte, principalmente com o convívio com o soldado brasileiro, que na maioria não sabia o que estava fazendo lá. Nós, de uma classe mais privilegiada, éramos exceção. A grande maioria era do povo mais pobre do país, vinda dos quatro cantos e que não sabia o que estava fazendo lá. No entanto, na hora H, eles lutaram como os melhores. Sem nenhum preparo. Toda a organização foi uma vergonha, e no entanto o homem brasileiro lutou. Fiquei profundamente impressionado. Estava certo de que aquilo iria resultar num desastre. Os brasileiros estavam entre os melhores pela capacidade de improvisação, pela agilidade.

O conde louco na estação de trem

09 de julho de 2009 2

O velho Leon Tolstoi
Fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na Gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua…
Sentou-se …e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo tão sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta…)
Mas talvez não pensou em nada disso,
O grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz:
ele fugiu… Ele fugiu de casa…
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade…
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

O poema acima, intitulado Poema da Gare de Astapovo, é de autoria de Mario Quintana, e conta, numa síntese poeticamente bela e bastante eficiente, ainda que alterada pelo poeta para seus próprios fins, algo que aconteceu de verdade: O conde Liev Nicoláievitch Tolstói (na imagem, em uma foto tirada em 1908 por Prokudin-Gorsky, pioneiro da fotografia em cores), autor de obras máximas da literatura universal como Guerra e paz, Anna Karênina e A morte de Ivan Ilích, realmente fugiu de casa na velhice, em 1910 (só que contava 82 anos, não 80, como diz Quintana). Tentava escapar do que considerava a tirania familiar de sua esposa, que o vinha assediando há muitos anos para que ele transferisse para seu nome os direitos autorais das obras que havia escrito na última fase de sua carreira literária — e que renderiam um bom dinheiro, uma vez que nessa época Tolstói era reconhecidamente o maior escritor vivo de seu país, tido como mestre por seus pares.

Tolstói só não era, na verdade, mestre de si mesmo. Conde por direito de nascimento, teve uma vida muito semelhante à de seus personagens: infância rica, educado esmeradamente por preceptores, posse de grandes propriedades rurais e de um bom número de mujiques (camponeses que viviam em regime de semiescravidão na Rússia czarista). Teve, na juventude, a vida de um nobre desregrado, como a de seu personagem André Volkonski, de Guerra e Paz, dado a festas, jogatina e bebedeiras.

Ao chegar na meia idade, contudo, Tolstói teve o que ele designava como uma “conversão” religiosa, e passou a defender um ideário não só exótico como revolucionário (em mais de um sentido) para sua época: a pregação de uma vida ligada à natureza, longe da vida social burguesa, em que cada um tirasse seu sustento do esforço do próprio trabalho e regida por um radical pacifismo — algo tão insólito para seu tempo que influenciou personalidades tão diferentes quanto o anarquista Kropotkin, o comunista Gorki e até o indiano Mahatma Ghandi, que com Tolstói chegou a trocar correspondência.

A barba de profeta de Tolstói, portanto, não era uma concessão à moda do tempo, era um sinal de um sujeito dedicado realmente a profetizar uma nova vida e que chegou a reunir em torno de si um bom número de discípulos — para desagrado da esposa, Sofia Andreiévna, que tentava salvar o patrimônio da família, que Tolstói doava para ajudar os membros da comunidade — a pregação de Tolstói foi considerada politicamente perigosa e ele foi posto em vigilância pela polícia do czar, embora tenha escapado de ser preso porque mesmo louco ainda era conde, além de ser o “grande Tolstói”. Seus seguidores não tinham tanta sorte e amargavam cadeia e bordoadas.

Até que, aos 82, cansado de lutar para converter a família a suas ideias e farto de uma vida que contrariava seus princípios, Tolstói fugiu de casa, vagando pela Rússia de trem acompanhado de amigos e sendo saudado por russos de todas as partes — Tolstói viajava com o povo, em vagões de terceira classe, o que lhe rendeu a pneumonia que o matou.

A história de Tolstói, portanto, é um pouco como a dos personagens de seus livros, até mesmo com as fases clássicas da queda, da conversão, da luta contra a sociedade baseada em aparências, de uma última tentativa de triunfo seguida de um fim patético e melancólico — logo, não é de admirar que parte dessa vida tenha realmente virado um romance: A Última Estação, do escritor ítalo-americano Jay Parini (tradução de Sonia Coutinho, Record, 416 páginas), que reconstrói o último ano da vida do grande autor russo tendo por ponto focal a fuga fracassada do grande escritor. A estrutura do romance é polifônica, alternando a narrativa entre os diários de Sofia Andreiêvina, do médico pessoal de Tolstói, do escritor Mikhail Bulgakov, que servia como seu secretário particular na época, e cartas do próprio Tolstói. O romance, que não é recente, foi escrito em 1990, ganha edição no brasil na esteira do lançamento para breve do longa-metragem que adapta a obra, em que Tolstói é vivido por Christopher Plummer e Bulgakov pelo escocês James McAvoy.

Para além dessa circunstância, é preciso dizer também que o livro de Jay Parini é, para meu gosto pessoal, um dos que conseguem se elevar acima do duvidoso e pantanoso terreno do “romance histórico com personagens reais”, um tipo de literatura que pode render obras-primas como O mestre, de Cólm Tóibin, e best-sellers um tanto… menores, como Quando Nietzche Chorou. Digamos que nesses extremos, A última Estação está em um honroso meio do caminho.  Fica abaixo um trecho da obra, narrado pelo médico, o dr. Makovitski

— Tive um sonho, Duchan — disse Liev Nikoláievitvh, esta manhã. — Quer que eu lhe conte meu sonho?
Ele não parecia bem. A barba estava desgrenhada e amarela. Tomei seu pulso e a temperatura. Estavam normais, porém seus olhos pareciam mais brilhantes que de costume. Perguntei-lhe como estava sua visão e ele disse:
— Você está sempre preocupado com minha saúde, Duchan.
— Sou seu médico, Liev Nikoláievitch!
— Não me importa quem você é. Sou um velho. Os velhos são diferentes dos jovens sob um aspecto essencial: não são saudáveis. Vou morrer em breve. Então vamos nos preocupar com algo mais importante.
Frequentemente me basta repisar assuntos triviais. Mas guardo meu aparato médico para não irritá-lo. A irritação aumenta as batidas do seu pulso.
— Sabe o que Pascal disse dos sonhos?
Sacudi a cabeça negativamente. Não tenho grandes leituras.
— Ele disse que é bom que nossos sonhos sejam deconexos, do contrário não poderíamos jamais distingui-los da realidade.
— Raramente sonho — eu disse
— Tolice! Todos sonhamos. Só que enterramos a lembrança. São dolorosos demais. Dizem coisas em excesso a respeito de nós mesmos.
Ocorreu-me que nada é tão tedioso quanto ouvir os sonhos de outra pessoa. Por outro lado, os sonhos de Liev Nikoláievitch me interessam profundamente, como indicações da maneira pela qual sua mente funciona, como evidência de seu gênio. Deus fala através dele. Reconheço a cadência celestial em sua voz.
Tirei meu caderno. Ele não parece incomodar-se quando transcrevo seus pensamentos, embora às vezes zombe de mim por causa disso.
— A noite passada sonhei que estava num baile formal, em Moscou, muito parecido com os bailes aos quais eu ia quando era um jovem oficial. Quando a orquestra começou a tocar certa música de dança, percebi que conhecia a melodia perfeitamente, mas os passos haviam mudado. Não conseguia endenter o que todos faziam, e eles começaram a rir de mim, aprontavam-me com o dedo e riam.
— Você sempre esteve fora do ritmo de seu tempo — eu disse, mas Liev Nikolaiévitch não respondeu.
Baixei a cabeça e continuei a escrever.

Ruínas humanas na infância da Revolução

14 de maio de 2008 0

Você provavelmente não conhece Isaac Bábel (1894 – 1940) – e muitos dos que conhecem, incluindo eu, só tiveram contato com sua obra depois que o autor foi mencionado no romance Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, de Rubem Fonseca, no qual um cineasta brasileiro era levado à União Soviética para trabalhar no roteiro de um longa-metragem que adaptava um fictício romance de Bábel, encontrado anos depois de sua morte. Depois do livro de Fonseca, aquela que é considerada a obra-prima do escritor russo, A Cavalaria Vermelha, chegou a ser lançada pela Ediouro. Agora, o mesmo livro volta às livrarias em sua primeira tradução diretamente do russo (a anterior baseava-se em versões inglesas e francesas), numa luxuosa edição da Cosac Naify incluída na coleção “Prosa do Mundo” – que tem colocado nas livrarias em edições belíssimas clássicos que compõem uma verdadeira biblioteca básica da literatura mundial de ontem e de hoje, como Nadja, do francês André Breton; Satyricon, do romano Petrônio; Pais e Filhos, do também russo Turguêniev, O Companheiro de Viagem, do húngaro Gyula Krúdy; Diálogos com Leucó, do italiano Cesare Pavese e Niels Lyhne, do dinamarquês Jens Peter Jacobsen. Ah, sim, a nova tradução do livro de Bábel, assinada por Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade altera o nome da obra para O Exército de Cavalaria

Numa literatura russa já por si desconcertante em sua riqueza, Bábel é uma figura de destaque e, paradoxalmente, pouco conhecida. O próprio Máximo Górki o considerava um representante do que de melhor a Rússia tinha para oferecer em termos de literatura, e mesmo assim Bábel é um autor sem renome. Parte dessa condição se deve a ele ter publicado pouco em vida. Outra parte pode ser atribuída a uma cortina de silêncio envergonhado jogada pela intelectualidade de esquerda – considerado “romântico”, “decadentista” e “contra-revolucionário”, Bábel foi preso e mais tarde morto durante os expurgos do sombrio período stalinista (1924-1953). Muitos de seus escritos inéditos foram queimados pelo regime.

Os 36 contos de Bábel reunidos em O Exército de Cavalaria são resultado de um período que o autor passou, como soldado raso e correspondente do jornal militar O Cavalariano Vermelho, junto às tropas da cavalaria russa durante a sangrenta guerra de fixação de fronteiras com a Polônia, entre 1920 e 1921. Os cavalarianos, no caso, não eram simples russos, mas os folclóricos cossacos, cavaleiros que valorizavam sua liberdade individual, independente de fronteiras, e tinham prazer pelo combate.
A leitura dos contos, muito curtos, alguns não ultrapassando duas páginas, é, também, uma forma de entender por que Bábel se tornou uma vítima inevitável da intolerância comunista. Repletas de violência e barbárie, contadas com um tom econômico e ao mesmo tempo coalhado de metáforas e sugestivas imagens, as histórias de Bábel são narradas em primeira pessoa, quase todas do ponto de vista de um único personagem, Kiril Vassílievitch Liútov, jovem judeu agregado ao batalhão de cossacos – e um alter ego do próprio Isaac Bábel, judeu nascido em Odessa e, por certo tempo, militante revolucionário.

São textos que flutuam entre a crônica e o conto — muitas vezes a história é um fiapo narrativo, mero pretexto para a recriação de uma atmosfera. No limite, seus textos são também uma crua análise do paradoxo inescapável do intelectual, aquele que, por definição, seria o responsável pela crítica e pela reflexão de modo a pautar a ação transformadora do mundo. Nas narrativas de Bábel, esse intelectual, que vem a ser ele mesmo, não influi na voragem da verdadeira ação transformadora, a da violência, pautada pelos mais atávicos instintos.

O olhar do escritor é o de um homem ao mesmo tempo horrorizado com a brutalidade dos que estão à sua volta e fascinado pela nobreza rude daquelas figuras de resoluta ignorância. Em muitas das histórias do livro, o protagonista, por um urgente artifício narrativo, entrega a palavra a outros personagens, acentuando o caráter de testemunha deslocada que o autor assume perante suas criaturas. É o caso, por exemplo, do brutal Uma Carta, no qual um jovem conta com minúcias, em uma correspondência a sua mãe, a maneira pela qual matou o próprio pai – militar do exército inimigo que já havia, por sua vez, assassinado antes seu outro filho, irmão do rapaz que assina a carta.

Em uma época em que a experiência comunista recém aflorava com a promessa de uma utopia igualitária, o que Bábel testemunha – às vezes abandonando o papel passivo de observador e cedendo ao jogo – é a repetição das atávicas estruturas de dominação pela força. Uma das mais belas narrativas do livro, Guedáli, é apenas um diálogo do narrador com o dono de uma loja de quinquilharias, judeu como ele, na véspera do sabá. Para o idoso comerciante, do alto de suas barbas ancestrais, a violência “utópica” da Revolução e a violência “reacionária” dos poloneses não faz lá muita diferença: “Mas o polonês estava atirando, meu caro pan, porque ele era a contra-revolução. E vocês atiram porque são a Revolução.

O contraste entre o que prega a revolução em que Bábel acredita e o que ele efetivamente vê, e às vezes faz, nas vastidões geladas da fronteira é uma das molas do livro. Em Meu Primeiro Ganso, Bábel/Liútov se apresenta à companhia em que servirá e é achincalhado pelo comandante por usar óculos. Designado para um alojamento numa casa ocupada, é hostilizado pelos cossacos que dividirão o lugar com ele (um deles, mais violento, pega o baú em que estão as coisas de Liútov e o arremessa violentamente, quebrando-o). A violência só cessa quando o protagonista esmaga com os próprios pés o ganso da dona da casa em que está alojado e a obriga, sob violenta coerção, a cozinhá-lo para ele. É só aí que Liútov ganha o respeito dos demais: “O rapaz é dos nossos – disse um deles, deu uma piscada e pegou uma colherada de chtchi”

Tradução e Reação

15 de novembro de 2007 7

E já que eu falei no lançamento de O Homem Extraordinário e outras histórias, finalmente tenho a oportunidade de fazer uma brincadeira que já vinha pensando para partilhar com vocês aqui no blogue: comparar diferentes traduções de uma mesma obra, o que obviamente, é mais fácil de fazer com textos clássicos, já que livros mais recentes nem sempre têm duas edições por casas daqui, e quando têm nem sempre eu tenho as duas. Mas agora podemos fazer isso com esse novo lançamento, da L&PM.

Para quem não sabe porque eu estou falando tanto de Tchekhov, primeiro esclareço que ele foi médico, produziu mais de 500 histórias dentre as quais bem mais de uma centena são de legítimas obras-primas do gênero. As histórias de Tchekhov raramente desenvolvem grandes arcos, como é comum no conto norte-americano, por exemplo, e sim flagram instantes, iluminam cenas, registram breves flutuações numa situação cotidiana, muitas vezes eivada de melancolia e tristeza.

Tchekhov sempre foi muito popular e teve diversas edições no Brasil – eu mesmo tenho espalhados por aí outros dois exemplares diferentes com seleções de seus contos, que não pude usar para a consulta que pretendo fazer agora. Mas minha idéia é só comparar traduções de um mesmo trecho, até como forma de vermos como o que se chama de “estilo” de um autor, no caso de estrangeiros, muitas vezes pode ser resultado da interferência de um tradutor com suas escolhas, que sempre serão sutilmente diversas das de outro. Algumas vezes, as escolhas de um podem tornar algo mais ou menos compreensível do que a de outro. Peguemos o caso do conto O Sapateiro e a Força Maligna, incluído no volume de bolso esse da L&PM. Na tradução de Tatiana Belinky incluída em O Homem Extraordinário a história começa assim:

Era véspera de Natal. Mária havia muito tempo que roncava sobre a estufa, na lamparina o querosene já queimara todo, mas Fiódor Nílov ainda continuava trabalhando. Por ele, há muito tempo que já teria largado o trabalho e saído para a rua, mas o freguês da travessa Kolokólni, que lhe encomendara biqueiras duas semanas atrás, viera ontem, reclamara e ordenara que terminasse as botas sem falta agora, antes das matinas.
– Galé da Vida! – resmungava Fiódor, trabalhando – Uns há muito que já dormem, outros passeiam, mas tu, como um Caim qualquer, tens de ficar sentado, costurando para sabe o diabo quem…

Já na tradução de Boris Schnaiderman incluída na antologia Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa e publicada pela Editora Nova Fronteira, o mesmo trecho está assim:

Era véspera de Natal. Fazia tempo que Mária roncava sobre o fogão. Todo o querosene queimara-se na lamparina, mas Fiódor Nílov continuava sentado, trabalhando. Teria deixado há muito o trabalho e saído para a rua, mas o freguês do Beco dos Sinos, que lhe encomendara, duas semanas atrás, uns canos de bota, viera na véspera, discutira mandara concluir a encomenda, sem falta, ainda antes da Missa do Galo.
– Vida de forçado! – rosnou Fiódor, trabalhando – Uns estão dormindo faz muito tempo, outros estão passando, e você tem que ficar sentado aí, como Caim, cosendo couro, diabo sabe para quem…

Como vocês vêem, embora seja exatamente a mesma cena, algumas diferenças se fazem sentir – a maior delas para a minha brutal ignorância é que, a não ser que eu esteja errado, o que sempre é muito possível, “canos” de botas e “biqueiras” de botas são coisas diferentes, não?