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Posts na categoria "Literatura"

O que vocês estão lendo, moças?

14 de agosto de 2013 0

Andei perguntando bastante a críticos, escritores, intelectuais, romancistas, jornalistas, o que andavam lendo. Desta vez, resolvi subverter a fórmula e pedir algumas belas, literalmente, sugestões de leitura. Porque não há mulher mais sexy do que aquela que carrega um livro:

natalieportman&Englander

Natalie Portman lendo O Ministério dos Casos Especiais, de Nathan Englander, uma dolorida fantasia sobre a ditadura militar na Argentina, enfocando uma família de um trambiqueiro judeu cujo mundo desmorona depois que seu filho é preso depois da saída de um show musical e desaparece, como desapareceram milhares tragados pelo horror do regime de Videla.

marilynleavesMarilyn Monroe lendo Folhas de Relva, a titânica obra-prima de Walt Whitman: ” Enquanto eu lia o livro, a famosa biografia: / - Então é isso (eu me perguntava) / o que o autor chama / a vida de um homem? / E é assim que alguém, / quando morto e ausente eu estiver, / irá escrever sobre a minha vida? / (Como se alguém realmente soubesse / de minha vida um nada, / quando até eu, eu mesmo, tantas vezes / sinto que pouco sei ou nada sei / da verdadeira vida que é a minha: /somente uns poucos traços / apagados, uns dados espalhados / e uns desvios, que eu busco /para uso próprio, marcando o caminho /daqui afora.”

Film Title: Inglourious Basterds

Au revoir, Shoshana: Em cena de Bastardos Inglórios, Melanie LaurentO Santo em Nova York - uma das mais populares entre as 50 aventuras escritas por Leslie Charteris e protagonizadas pelo anti-herói Simon Templar, o Santo (sim, o mesmo personagem pulp depois adaptado em um filme horroroso com o Val Kilmer). A edição é francesa, já que Shoshana está lendo a obra na Paris ocupada.

andersonPamela Anderson Unmarketable: Brandalism, Copyfighting, Mocketing, and the Erosion of Integrity (“Invendável: Marcas, disputas autorais, marketing negativo e a erosão da integridade“, em tradução livre), de Anne Elizabeth Moore, um estudo no qual uma escritora investiga as alianças e tomadas de espaço entre as grandes corporações americanas e o próprio movimento cultural que a elas se opõe.

jeansebergJean Seberg, responsável por haver nos cativado, lê O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.

 

 

Algumas notas sobre Philip Roth

19 de março de 2013 0

O escritor Philip Roth. Foto: Divulgação

Texto de Pedro Gonzaga

1 – “Não tenho mais a resistência física para suportar a frustração. Escrever é frustração – frustração diária, sem falar na humilhação. Não consigo mais encarar dias em que jogo fora as cinco páginas que escrevi. Não posso mais fazer isso.” Assim Philip Roth anunciou a sua retirada do cenário literário, no fim do ano passado, em matéria do New York Times, confirmando a declaração feita anteriormente para a revista francesa Les Inrockuptiples. No auge de uma carreira frutífera, um dos mais importantes escritores vivos decide levar a vida comum do octogenário que ele se torna hoje. Alguma coisa em nós, no entanto, não aceita sua decisão. A alegria revelada pelo escritor no resto do artigo nos soa quase ofensiva. Ouso dizer que para alguns de nós seu ato seguirá incompreendido, quem sabe uma jogada de marketing. Então lembramos da seriedade com que escreveu os 31 livros do que agora parece ser sua obra completa.

2 – Anos atrás, quando ainda era músico em tempo integral, lembro de ter lido em uma revista especializada em saxofone (os americanos sempre souberam o que era segmentação de mercado), uma reportagem com um grande artista do instrumento, que recentemente se aposentara. Em sua casa de campo, ele recuperava os pontos altos da carreira. A certa altura, o jornalista percebeu o estojo debaixo da cama e perguntou se ele ainda tocava, ao que veio a resposta: “Nunca mais”. Diante da surpresa do interlocutor, que o via ainda cheio de saúde, o músico acrescentou: “Quando tenho saudades, ouço uma de minhas tantas gravações. Não seria mais capaz de tocar daquela maneira, por um aspecto físico, mas também vital”.

3– Em um dos mais belos livros de amor à arte já escritos, Presenças Verdadeiras, de George Steiner, a certa altura lemos o seguinte: “O poema, a sonata, a pintura, poderiam muito bem não existir. Exceto na perspectiva trivial e contingente de uma comissão, de uma necessidade material, do uso da coerção física, o fenômeno estético, o ato de dar forma a alguma coisa, está em todos os tempos, em todos os lugares, livre para não se materializar”. O aspecto gratuito da arte, sua falta de função, sua liberdade de não ser. Por querermos tanto que ela seja, por queremos que ela exista, esquecemos do único elo da cadeia em que a criação é pura. Todo o resto, este artigo, os estudos acadêmicos, todos os satélites que orbitam em torno das obras artísticas dependem desse gesto criador, em parte sempre inexplicável, sempre inconcebível, sempre ameaçado por aniquilamento que é o abandono da escrita, da pintura, do instrumento.

4 – Não escrever, deixar de escrever quando se poderia seguir escrevendo. Movimento que nos faz pensar em primeiro lugar em desistência. Escrever é prazeroso, dizem certos manuais. A alegria da arte e outras fórmulas sofríveis que mascaram a complexa gênese daquilo que não precisaria existir. Não se pode negar que uma grande obra dará muito mais aos outros, aos leitores e espectadores, do que ao próprio artista. Por isso, somos nós os injustiçados quando um mestre desiste. Não têm eles o direito de nos privar do que ainda podem nos oferecer. Raros são os casos de um verdadeiro reconhecimento que possa compensar os criadores de alguma maneira enquanto estão vivos. Roth teve sorte de ser reconhecido desde meados da carreira como uma das mais importantes vozes a tratar dos dilemas da América contemporânea. Borges estava velho e cego quando descobriram que ali estava um dos grandes gênios do século 20. Kafka e Van Gogh, desesperançados, optaram pelo radicalismo.

5 – Bartleby e sua tentação, preferir não fazer as coisas, personagem de um conto de Melville, brilhantemente retomado pelo escritor espanhol Enrique Vila-Matas para representar os escritores que deixaram de escrever, em geral por motivos inaparentes. Para os aficionados da literatura, alguns casos clássicos de deserção logo virão à tona: Juan Rulfo, Raduan Nassar, Murilo Rubião, e agora Roth. De certo modo, no post-it afixado no monitor do autor de A Marca Humana há uma pista importante sobre o dilema que se passa do outro lado do balcão: “A guerra com a escrita acabou”.

6 – Nenhuma esperança, nenhuma necessidade. Ter ou não público nunca levou alguém a escrever mais ou menos. O sucesso comercial serve para os best-sellers. Parece haver na verdadeira arte apenas um motor, incorruptível: a integridade. Para atingir essa integridade é preciso mergulhar em terreno movediço durante meses, anos, décadas. Não há garantias. Acertar a mão em um livro, em um tela, em uma peça, em um disco, em um filme, não é garantia de nada.Ao contrário de outras atividades humanas, asseguradas pela uniformidade da burocracia, aqui não há estabilidade. Cada nova empreitada traz consigo a certeza de uma nova e encarniçada e longa guerra. No limite, dedicar-se a uma obra é pôr-se à prova de um modo físico e anímico (e me perdoem o último termo, mas mental seria excluir os sentimentos e aquela outra parte imponderável do fazer artístico).

7 – Sabe-se que por um grave problema na coluna, Philip Roth muitas vezes escreveu de pé seus livros. Flaubert levava horas e mais horas em um punhado de frases. Balzac estourou seu coração de tanto beber café, coagido por prazos impossíveis. Escrever é físico. Rimbaud terminou o que tinha a dizer antes ainda dos 20 anos, gastando o resto de sua energia em outros fronts. Depois do último livro, Nêmesis, de 2010, pela primeira vez Roth se viu sem ter o que escrever. Escrever é anímico. Parar é admitir que um ou outro dos vetores, ou mesmo os dois, já não estão presentes. Esfacelada quedará a integridade. Assim param os gigantes quando param ainda em vida.

8 – Pensando bem, o que talvez saibamos – e isso nos entristece – é que, com um gigante a menos, faltará um tanto mais de integridade ao mundo. Quando um grande artista para, de algum modo, somos devolvidos ao plano da integridade invisível do mundo que habitamos. Certo que muitos de nós se entregam às atividades da vida diária de corpo e alma, como se costuma dizer, mas tal entrega é invisível. Uma vez inserida na necessidade do mundo, na utilidade do mundo, nossa integridade se consome envolta em fenômenos perecíveis. Por estar fora e dentro do mundo ao mesmo tempo, somente a integridade que move a obra de arte (e que nela se preserva) pode servir de espelho para revelar e salvar da consumição a síntese daquilo que é o humano.

Uma educação sentimental

08 de agosto de 2012 0

Cristóvão Tezza em seu apartamento em Curitiba. Foto: Guilherme Pupo, divulgação

Cristóvão Tezza era um romancista que havia obtido há muito o reconhecimento crítico com seus trabalhos – em 1998, Breve Espaço Entre Cor e Sombra recebeu o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; em 2005, O Fotógrafo foi um dos 10 finalistas do Portugal Telecom. Até que em 2007 Tezza se tornou um autor conhecido também pelo grande público com a publicação de O Filho Eterno, uma narrativa ficcional seca e desencantada sobre um pai e seu difícil processo de aceitação de um filho com Down. Declaradamente inspirado em circunstâncias pessoais, o livro tornou Tezzza um autor popular – até onde um escritor pode ser popular sem ser o Paulo Coelho, bem dito. A publicação de O Filho Eterno e sua repercussão levou Tezza a assumir uma coluna semanal na Gazeta do Povo, do Paraná. Esses dois eventos se relacionam com a publicação, agora, do ensaio O Espírito da Prosa, um livro no qual Tezza escava o passado em busca de sua formação pessoal e intelectual e como ela se refletiu em suas primeiras tentativas de escrever ficção, ainda equilibrada com a poesia – leia resenha do livro aqui.

Da experiência na imprensa, Tezza aproveitou a disciplina de escrever para jornal, exigindo portanto o máximo de clareza e transparência na linguagem para se comunicar com o leitor. O período escolhido para o estudo é aquele imediatamente anterior a O Filho Eterno – que começa em 1980, com o nascimento do filho do protagonista/espelho do autor. Pelos caminhos agora da reflexão intelectual não mediada pela narração, Tezza se dedica ao período anterior, evocando as experiências que contribuiram para sua formação como autor. Por telefone, de sua residência em Curitiba, Tezza concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora, na qual falou sobre seu livro de maior sucesso, o impulso que o levou a escrever O Espírito da Prosa, o desprestígio da forma romanesca na literatura nacional a partir dos anos 1970, o discurso da academia, entre outros temas:

Zero Hora – Qual foi a gênese do livro O Espírito da Prosa? Essa tentativa de refletir sobre a origem de seu impulso criador como romancista tem a ver com sua saída da universidade após duas décadas como professor?
Cristóvão Tezza –
Teve uma série de coisas envolvidas. Eu tinha um desejo inicial residual de escrever sobre o romance, refletir sobre a linguagem do romance e porque havia um preconceito contra a forma romanesca no Brasil de umas décadas para cá. Eu cresci em uma geração que olhava o romance como uma coisa ultrapassada. Eu tinha feito já um trabalho, que foi minha tese de doutorado, Entre a Prosa e a Poesia, na virada dos anos 2000, mas era um texto acadêmico, restrito, muito especializado, e eu queria fazer uma reflexão mais aberta. E quando comecei a pensar sobre isso e a escrever propriamente eu senti necessidade de me colocar na própria discussão e tentar responder por que escrevi os livros que escrevi, de onde veio minha filiação romanesca. E daí o livro foi avançando meio por instinto, fui fazendo um levantamento da minha geração, do ideário dos anos 1960 e 1980, e fui respondendo perguntas cujas respostas eu não tinha. Eu comecei com muita pergunta e pouca resposta, e o livro é uma investigação sobre o tema. Foi intuitivo, a partir de um primeiro projeto acabou tomando uma forma bastante diferente. E, claro, sair da academia me deu uma imensa liberdade até para falar da academia. Tem um monte de coisa aí. Acho que é também uma coisa de completar 60 anos. Chega um momento em que se quer fazer um balanço da própria trajetória.

ZH – Seu livro surge como uma peça singular no cenário nacional: o longo ensaio literário no qual o autor também se coloca como sujeito e personagem das reflexões que tece, um pouco à moda da tradição anglo-saxônica. O senhor acredita que essa forma ensaística também sofreria o mesmo preconceito no Brasil?
Tezza –
Acho que a coisa é meio cíclica. A sensação que tenho é que estamos em um momento de reflexão sobre o que significaram os anos 1970 e 1980 para a geração adulta que hoje chega aos 50, 60 anos. É o momento de você pensar, porque foram anos muito marcantes, no mundo inteiro, não só no Brasil, e cujas consequências sentimos até hoje em todas as áreas. Tudo nasceu naquele caldeirão. Eu tenho notado que está saindo um grande número de livros que tratam dessa retomada. Vi que o professor Luís Augusto Fischer, aí de Porto Alegre, lançou o Filosofia Mínima, que é uma pensata sobre a formação dele. O Zuenir Ventura lançou no Rio um romance autobiográfico para pensar esse período, ele que é autor de um clássico, o 1968: o Ano que Não Terminou. Talvez estejamos em um momento de fazer uma reflexão mais densa mesmo do que foi esse período e quais suas consequências.

ZH – Em O Espírito da Prosa o senhor argumenta que esse período, e a ideologia que influenciou a literatura da época, postulava um distanciamento radical do gênero romanesco, da forma tradicional. De alguma forma isso também se refletiu em um afastamento do assim chamado grande público, que antes acompanhava autores como Erico Verissimo, Jorge Amado, Fernando Sabino?
Tezza –
É, houve um choque, uma quebra de modelo na virada dos anos 1970, sobre a qual eu falo bastante no livro, e que tem vários aspectos. Um deles foi o ideário do rompimento com a tradição como um valor em si. Você não podia fazer nada que lembrasse o passado, e uma das coisas que entraram nesse pacote de demolição foram as formas tradicionais romanescas, o realismo romanesco. Houve uma parada, e emergiu um grande deslumbramento pelas formas da literatura, porque era uma coisa da moda da época, um canto de sereia muito forte. E também, por uma combinação de fatores estritamente brasileiros, a discussão da literatura se refugiou completamente na universidade, você praticamente não tinha voz alternativa. E a universidade bebeu na fonte desse formalismo com muita força. Desse deslumbramento inicial, cresceu a ideia de que a literatura era ela mesma seu próprio objeto. E isso foi distanciando cada vez mais a produção brasileira do seu leitor. Até porque era uma literatura que desprezava a imagem do leitor. E isso foi se esgotando como projeto estético no final do século. Por duas razões: pelo esgotamento teórico desses pressupostos, que perderam razão de ser no fim do século 20, e porque uma nova geração de escritores já filhos da internet, fruto de um outro sistema de referências, começou a surgir de maneira muito forte. Por isso acho que no Brasil hoje há uma revitalização das formas romanescas.

ZH – Vivemos então a era da recuperação do romance?
Tezza –
Não gosto de falar em “romance” porque parece que estou falando do romance do Balzac, mas da prosa como o espaço da literatura que conversa com o tempo presente de uma forma direta, clara e contrastante. Hoje se tem uma revitalização muito grande disso. Está aparecendo um grande número de bons jovens romancistas, o que mostra que o tempo está mudando. É uma outra situação que está surgindo. Não é também uma questão de jogar pedra no passado, dizer que aquilo foi um grande equívoco. A história avança meio cegamente, você tem valores que as circunstâncias vão jogando de um lado para outro. Uma das questões que eu queria responder no meu livro era por que isso aconteceu no Brasil muito especificamente. Por que ali entre os anos 1970 e 1980 o romance praticamente desapareceu no Brasil. Claro que você tem nomes intermediários, nomes da geração mais antiga, como o Moacyr Scliar e outros herdeiros de uma tradição romanesca anterior. Mas dos novos nomes, desapareceram.

ZH – Esse período ao qual o senhor se refere marca também a ascensão do conto como o grande gênero contemporâneo no Brasil. O senhor vê relação entre as duas coisas?
Tezza –
Em certo sentido, porque o conto gerou muito fortemente não uma expressão da prosa, como era com Rubem Fonseca ou Dalton Trevisan, mas uma espécie de laboratório textual. O conto nos anos 1970 e 1980 parecia uma pipeta de laboratório para você fazer exercícios de metalinguística, metaficção, poesia, ou seja, a prosa não entrava, o cenário estava vedado a ela.

ZH – O senhor falou agora há pouco em revitalização da tradição narrativa por meio dos bons romances de autores jovens – e também foi do júri que elegeu os polêmicos 20 nomes da edição brasileira da revista Granta. Essa sua crença na revitalização vai contra opiniões contundentes emitidas recentemente, como a de Alcir Pécora, que vê com desencanto uma literatura que ainda apela, conformada e sem metalinguagem, para o “romanesco”, hoje desgastado.
Tezza –
Dizer que o romanesco já morreu é uma grande bobagem. Não estou aqui respondendo diretamente ao Pécora, não vá dizer isso. Eu não li o artigo dele. Mas o que estou dizendo é que você tem todos os pontos de vista. Eu acho que a universidade esgotou o discurso. O discurso mais visível de raiz acadêmica hoje sobre literatura é uma visão requentada do movimento formalista dos anos 1920, que decretou, o que para aquele momento era muito interessante, que o material da literatura é a linguagem. Isso gerou uma utopia de que se você rompe as formas da linguagem você ao mesmo tempo quebra a representação do mundo e faz uma coisa nova. Havia uma obsessão absolutamente centrada na questão formal da literatura. O que eu leio na universidade hoje quando se refere à questão literária é uma espécie de formalismo requentado, incapaz de pensar em formas do presente, em como o discurso romanesco se renova permanentemente, e que volta um século para buscar os pressupostos do que é a boa literatura.

ZH – Ao mesmo tempo, já ouvi e li de autores da nova geração afirmarem que ainda existe a necessidade de jovens escritores passarem pela academia, quase como uma saída de emergência de legitimidade, como se fora daquele ambiente não houvesse espaço viável de reconhecimento. O senhor vê algo semelhante?
Tezza –
Acho que sim, também por questão de sobrevivência. A universidade acaba sendo um bom refúgio para quem escreve, como foi para mim a vida inteira. Você tem ali uma espécie de refúgio para sobreviver e ter tempo para fazer literatura. O que acho muito perigoso é a força do hábito. Você entra em dois mundos mais ou menos antagônicos: um deles é a pressuposição de verdade do discurso científico, que é a alma da universidade e deve ser mesmo, a universidade é um lugar de produção de ciência, produção de reconhecimento objetivo do mundo; e o outro é o espírito da criação artística de qualquer tipo, muito especificamente a literária, que precisa de liberdade, funciona em outro vetor. Então de repente ao se ver envolvido no discurso acadêmico, você acaba corroendo a própria produção em função de fazê-la corresponder ao modelo. Eu falo isso intuitivamente, porque um dos cuidados que eu tomei ao longo de meus 20 anos na universidade foi nunca dar aula de literatura, sempre fui professor de Língua Portuguesa. Sempre quis manter distância da literatura justamente temendo isso aí. Mas é claro, se você leva uma vida inteira dentro da universidade, você acaba afetado.

ZH – O senhor, em
O Espírito da Prosa, reconstitui as suas primeiras experiências literárias, avaliando duramente o que considera seus primeiros fracassos. O senhor parece buscar os elementos que o transformaram na pessoa capaz de escrever os livros que escreveu mais tarde. É essa a intenção?
Tezza –
Quando eu comecei a mexer no baú de velharias da minha memória, eu não estava tão interessado em saber no que eu fracassei nos primeiros livros do ponto de vista técnico, mas com que sistema de valores eu estava trabalhando para escrever o que escrevi. A literatura não é apenas um jogo formal, em que você domina uma técnica e daí conta uma história ou faz literatura. Ela sintetiza uma visão de mundo e esse ponto de vista narrativo que você institui quando escreve recebe ecos poderosos do meio-ambiente cultural. Eu queria, então, levantar de onde haviam vindo as ideias do romance O Terrorista Lírico ou dos contos de A Cidade Inventada, e fui lá buscar uma arqueologia do ideário que eu estava tentando imitar ou recriar. O escritor começa como leitor, você lê algumas coisas e em algum momento você decide: eu posso fazer parte desse universo. Os primeiros textos naturalmente são imitações, você vai pegar o que você leu por aí até descobrir a própria voz. Você vai se transformando como pessoa e sua literatura também vai se transformando.

ZH – Em O Espírito da Prosa o senhor fala que O Filho Eterno é um livro diverso do que vinha fazendo antes. Passados cinco anos e três livros, O Filho Eterno é uma obra que deixou de assombrá-lo?
Tezza – O Espírito da Prosa
é irmão gêmeo de O Filho Eterno. O Filho Eterno tem uma estrutura de ficção, é um romance estritamente sobre a relação entre pai e filho. Mas ficou um miolo ali que eu queria complementar, que era a fase anterior. Tanto que O Espírito da Prosa não toca em momento algum sobre aquela época reinventada n’O Filho Eterno. Ele para bem ali em 1980 e eu só falei de família no momento em que era relevante para entender o que houve comigo como escritor. Esse O Espírito da Prosa é um acerto de contas: uma volta objetiva na minha formação. E, claro, o domínio de linguagem que eu obtive com O Filho Eterno me ajudou muito no Espírito da Prosa, me livrou uma série de coisas. Mas também teve outra influência para esse O Espírito da Prosa que eu não havia pensado no início: o fato de que já há quatro anos estou escrevendo, pela primeira vez na vida, uma crônica semanal em um jornal daqui, A Gazeta do Povo. Eu nunca havia escrito para jornal, nunca havia tido essa experiência periódica de colunista da página 3 – a cada terça-feira eu tenho uma coluna de 2.8 mil toques. Essa experiência de jornal para mim foi fundamental para eu me liberar com a linguagem para escrever um texto como O Espírito da Prosa, no qual você assume pontos de vista, você faz um texto assertivo, você sai do mundo de composição da ficção, em que tudo é refratado, é um outro que fala, para aquela fala direta e objetiva sobre os fatos na vida e no mundo. Então essa experiência  de cronista tardio – eu só entrei para jornal depois dos 55 anos – me ajudou a escrever o ensaio. Foi uma das influências do ponto de vista formal, de linguagem, para eu me livrar dos cacoetes acadêmicos.

ZH – O senhor aborda questões ainda em debate na academia, sobre literatura e teoria literária, mas em um texto que busca ser inteligível por um público mais amplo.
Tezza –
Exatamente, uma linguagem de jornal, que um leitor qualquer possa ler sem precisar de notas de rodapé, referências, e almejando um leitor: não era um livro acadêmico, tinha de manter o leitor em mente o tempo todo. Esse é um livro arriscado.

ZH – É um livro arriscado em mais de um sentido, uma vez que o senhor fala de si mesmo, de sua própria experiência, da academia, de teoria literária, de literatura, com uma linguagem que não mastiga demais mas também não tem o léxico da academia. É um livro que pode ser elogiado, admirado e, por outro lado, criticado – e com os mesmos argumentos, não acha?
Tezza –
Sim, é possível. É verdade, eu abri todos os flancos ali. É uma conversa sobre literatura para leitores letrados. Não tive o medo de trabalhar com breves sugestões, de colocar no texto uma visão de conjunto e intuições que eu tenho e que eventualmente não estão bem formuladas aqui e ali. Agora, o eixo do texto, o meu ponto de vista sobre a literatura, está presente da primeira à última página: a questão central da importância da experiência pessoal da literatura. A questão formal é importante mas ela não pode esgotar a literatura.

O cerne e a superfície

19 de julho de 2012 0

Ou: como leremos a seleção da Granta

Embora jornalistas e escritores trabalhem com o texto e a maioria, em ambos os casos, diga que escreve para ser lido, há uma circunstância que os distingue acima de qualquer outra: o quanto a ideia de um leitor interfere na forma final do texto. O texto de jornal é eminentemente informativo, seu valor intrínseco está não no arranjo das palavras (embora essa devesse também ser uma preocupação mais frequente da maioria dos jornalistas) e sim no significado, no teor da mensagem. O autor de um texto literário pode imaginar um leitor ideal multifacetado a quem seus textos seriam endereçados, e esse autor no fim pode ser ele mesmo, ou uma confraria de amigos com valores estéticos e pessoais semelhantes, ou o que ele imagina serão os melhores leitores do futuro, ou os mais parecidos com ele próprio. A existência dessa ideia de leitor, contudo, não determina necessariamente o texto final a não ser no caso de escritores declaradamente comerciais.

Em um jornal, a norma prevê o texto como um signo o mais possível transparente – é o que se está contando que vale, e para dar forma ao que se quer escrever, toma-se como parâmetro um vocabulário comum a uma ideia preconcebida de leitor “médio”. Se a palavra ou o conceito parecer complexo demais para esse “leitor comum”, deve ser trocado por outro que seja tão preciso quanto possível mas ao alcance desse vocabulário médio. Torneios de sintaxe e quaisquer outros elementos que possam a vir prejudicar a clareza da mensagem também são evitados – enquanto o escritor pode, mesmo tendo em mente seu “leitor/interlocutor”, deixar isso de lado em nome do que considera a justa forma. Acho que uma das melhores representações ficcionais que já li dessa dicotomia é um conto engraçadíssimo escrito por Reginaldo Pujol Filho e incluído em seu livro Quero Ser Reginaldo Pujol Filho. Em um texto que é ao mesmo tempo sátira e homenagem a Mia Couto, um repórter brasileiro é enviado a Moçambique, recebendo sua primeira grande chance como correspondente internacional. Ao chegar lá, se vê às voltas com o pesadelo do jornalista em viagem: o laptop que o jornal forneceu dá pau. Por intermediação do guia, consegue comprar um notebook de segunda mão que antes havia pertencido a um escritor famoso do país. A partir daí, os despachos e reportagens redigidos no computador e enviados para o Brasil são recebidos na exata forma caricatural da prosa de Mia Couto, deixando o editor do jornal insano de confusão e raiva:

“Não sei o que dá no meu idioma, parece que minha gramática está ficando toda suja, da cor dessa terra. Parece-me assim, pois escrevo-lhe como desde sempre, mas recebes desde nunca o imagissonhado por mim. Pergunto-me se a África rouba-me o ser, se há uma almândega, donde os espíritos daqui carimbam minhas palavras – ou seriam palaves? Na falta d’um telefone, gravei uma testemunhação no computador, a qual envio-te para escutares e perceberes o trespassado comigo.”

Cada coisa em seu lugar, portanto. Um texto do Mia Couto, por mais valor literário que tenha, não poderia ser usado para passar uma notícia pontual sobre uma guerra civil. Pode sim mergulhar no cerne das consequências e dos fantasmas da guerra, como em Terra Sonâmbula, mas não seria uma reportagem para informar ao leitor quando o conflito começou, quantos mortos, o que dizem as agências humanitárias internacionais, etc. Logo, é uma noção arraigada do leitor que pauta o que é escrito em um jornal – e por tabela em seus espaços correlatos, como este blogue. Alguns dirão que por vezes alguns dos textos aqui publicados se puxam em contrariar o que acabei de escrever, mas ainda é uma certa ideia de leitor que determina o perfil um pouco diverso desta página para o restante do jornal impresso. Este é um espaço de leituras e leitores, e portanto os textos podem se dar ao luxo de ser mais longos – se não parecem muitas vezes tão mais cuidados, isso advém de outra peculiaridade do jornalismo diário: a pressa, mas isso é outra história.

Pensei nisso ao começar e leitura, esta semana, da revista Granta que tantas polêmicas suscitou desde o anúncio de seus participantes, durante a Flip, no início deste mês. Minha ideia era fazer uma resenha conto a conto mais ou menos nos moldes em que venho fazendo a atrasada seção Bairrismo? conta outra. O problema é que, devido à polêmica provocada pela escalação dos escritores, fiquei pensando se não deveria publicar textos em etapas, a cada leitura de duas ou três histórias da coletânea, abrindo espaço para uma crítica mais detalhada ao que menos foi falado até agora na controvérsia sobre quem são os escolhidos: os textos. Seria possível fazer isso – criticar três histórias já lidas do volume, por exemplo. Até porque cada uma delas despertou associações e questões que talvez merecessem um texto próprio cada um. Jonathan Franzen já escreveu, em um texto sobre a ficção de Alice Munro incluído no seu mais recente livro, Como Ficar Sozinho, que há um problema inerente à crítica de um livro composto por histórias curtas:

Com histórias curtas o desafio aos resenhistas é ainda mais extremo. Há alguma história em toda a literatura mundial cujo apelo possa sobreviver à típica sinopse? (Um encontro casual em um calçadão em Yalta une um marido entediado e uma dama com um cachorrinho… A loteria anual de uma cidadezinha revela-se a serviço de um propósito surpreendente… Um dublinense de meia-idade reflete sobre a vida e o amor ao deixar uma festa)

Em tempo: essa tradução aí de cima é minha porque escrevo sem o exemplar recente da Companhia nas mãos. Para quem sabe inglês, o texto original, uma resenha escrita para o New York Times, pode ser lido aqui.

Logo, talvez o mais justo com uma coletânea de contos e fragmentos que se propõe a mapear os “melhores jovens escritores do Brasil” fosse analisar mais detidamente cada conto, em uma série de posts dedicados a três ou quatro deles de cada vez. Mas aí esbarro naquela indefinição quanto ao que um eventual leitor desta página estaria esperando. Com tudo o que já se falou sobre a Granta em toda parte, estariam meus cinco leitores dispostos a mais seis ou sete posts sobre os contos do livro? Manifestem-se, por favor, na caixa de comentários. Vocês vão me ajudar a decidir: escrevo um post só ou amplio a análise em mais de um? Agora é com você

O que diz Antônio Carlos Secchin sobre o Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 1

Antônio Carlos Secchin na Jornada de Passo Fundo de 2009. Foto: Jean Pimentel

A comissão julgadora da 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar foi composta por Heloisa Buarque de Hollanda, Ricardo Vieira Lima, Antônio Carlos Secchin, Armindo Trevisan  e Carlos Felipe Moisés. Um dos pontos que o poeta Eduardo Sterzi elenca como “absurdo” em sua carta de renúncia à Menção Honrosa recebida por sua obra Aleijão é que Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras e crítico com longa relação de leitura e diálogo com Ferreira Gullar, fazia parte do júri – e Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio), foi o vencedor entre os 152 inscritos. Entrevistamos também, desta vez por telefone, Antônio Carlos Secchin.

Zero Hora – O poeta Eduardo Sterzi renunciou a uma menção honrosa concedida pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar e qualificou como absurdo o fato de o senhor integrar o júri e ao mesmo tempo ser um dos prefaciadores do livro vencedor. Como o senhor responde a isso?
Antônio Carlos Secchin –
Fico muito espantado com essa reação de Eduardo Sterzi. Esse é um concurso para o qual se convidam pessoas que tenham certa experiência com o objeto literário. Eu já integrei praticamente todos os júris de poesia no Brasil, e com mais de 30 anos de carreira universitária e literária é impossível não conhecer os poetas que estão em atividade.  Quando recebi o convite, não sabíamos quem havia se inscrito. Dentre os 152 concorrentes, aliás, talvez eu tenha escrito prefácios para mais de 20 deles. Seguindo essa lógica só podem participar de júris de concursos literários eremitas que jamais escreveram sobre qualquer livro em sua vida.

ZH – O senhor é de fato um dos prefaciadores do livro, ao lado de Alfredo Bosi. De algum modo essa circunstância não poderia ser apontada como um impedimento à sua objetividade de jugalmento?
Secchin –
Não. Não é segredo que sou um leitor da obra de Ferreira Gullar, já escrevi sobre ele, assim como já escrevi sobre Cecília Meirelles, preparei a edição da obra de João Cabral, sou um dos curadores da reedição da obra de Carlos Drummond de Andrade. Como crítico, eu tenho uma relação com os grandes poetas da língua. Ressalto ainda que quando as pessoas são convidadas para júri, não sabem quem são os inscritos. Escrever uma apresentação é uma coisa. Ter a consciência ética de julgar é outra. Posso ter escrito sobre mais de uma dezena de livros e nem todos entraram na minha relação final das obras que mereciam ganhar. Não é como se eu estivesse protegendo o Gullar dentro do júri. Circunstancialmente, o Gullar ganhou, o que protege o livro dele é a alta qualidade desse livro, que já vinha credenciado pelo Prêmio Jabuti. Tanto que éramos cinco jurados e a vitória foi por unanimidade. Ainda que eu tivesse tido alguma intenção ou ação para favorecer o livro do Gullar, o meu voto não teria sido determinante. Se eu não quisesse que ele ganhasse o prêmio, também teria sido vencido, porque os outros quatro votos foram nele. Duvidar disso é querer apequenar a dimensão do livro.

ZH – Qual foi o método de trabalho do júri? Os senhores chegaram a se reunir pessoalmente, uma vez que são radicados em Estados diferentes?
Secchin –
Não houve uma reunião específica em Porto Alegre. Poderíamos ter enviado cada um nossos votos e depois o Instituto Estadual do Livro que tabulasse tudo e anunciasse o vencedor, mas eu propus, e todos concordaram, que em vez de apenas mandarmos uma lista, trocássemos mensagens sobre os principais livros em um fórum de discussão. O processo não foi voluntarista, mas nasceu de um longo amadurecimento de propostas, contrapropostas, listas que os jurados trocaram entre si via mensagens.

ZH – O motivo principal da desistência de Sterzi é a transferência da cerimônia de premiação para o Rio de Janeiro, algo que se dá apenas pela projeção do vencedor. O que o senhor pensa disso?
Secchin –
Aí já é outra questão. Isso não tem nada a ver com o prêmio em si. É uma questão de logística de operacionalidade do prêmio. Um concurso como o Moacyr Scliar é de dimensão nacional. Os organizadores do Prêmio acharam que esse concurso de caráter nacional sendo oferecido na Bibloteca Nacional daria mais visibilidade ao prêmio, mas isso é uma questão interna. Até o local da entrega já ser alvo da polêmica me parece desviar o foco da questão de que possa ter havido um livro que foi o melhor dentre os inscritos.

ZH – Mas a transferência obedeceria a uma idiossincrasia do premiado, o fato de que Gullar não viaja de avião?
Secchi –
De fato, Ferreira Gulllar é um poeta que há alguns anos optou por não fazer viagens de avião, é um homem de idade, não vejo problema nisso. Mas se o prêmio fosse entregue em Porto Alegre, para esses casos há uma fórmula muio simples, que seria enviar um representante. Quando se optou pelo Rio de Janeiro, não foi só para atender a um pedido do Gullar. Quem sabe na biblioteca Nacional o Prêmio vá ter uma divulgação maior ainda. Quando ele ganhou o Prêmio Camões também o prêmio foi entregue no Rio de Janeiro.

ZH – E o fato de a editora do livro também oferecer o coquetel de entrega não lhe parece estranho?
Secchin –
Como se sabe, o prêmio não é apenas para o autor, esse prêmio é para a editora também. Qual é o absurdo de uma editora premiada com um dinheiro em concurso nacional, querer fazer uma festa para o autor que ganhou esse prêmio? A Biblioteca nacional não está gastando um tostão da festa, o que talvez fosse mais problemático. Acredito que é muito mais decoroso que a editora, como retribuição desse prêmio, use um pouco do valor para organizar uma festa para seu autor.

Polêmica nos bastidores do Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 10

Eduardo Sterzi na Flip 2011. Foto: Walter Craveiro, divulgação

Na central de hoje do Segundo Caderno, encontra-se um texto que resume em parte uma polêmica recente envolvendo a 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar. Na última sexta-feira, dia 16 de março, o poeta, jornalista, crítico literário e professor Eduardo Sterzi, que havia sido laureado com uma menção honrosa no resultado pelo júri do prêmio, enviou um e-mail ao diretor do Instituto Estadual do Livro renunciando à premiação.

De acordo com ele, o prêmio havia se tornado um festival de “promiscuidades” e apequenava-se ao mudar a premiação do Palácio Piratini, onde estava inicialmente prevista a entrega oficial, para a Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, devido à bem conhecida aversão de Ferreira Gullar, o vencedor, em pegar aviões. Também mencionava de passagem que era outro “absurdo” o fato de Antônio Carlos Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras, fazer parte do júri. Ele, ao lado de Alfredo Bosi, é um dos prefaciadores da obra que venceu o prêmio, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar.

Para saber mais detalhes dos motivos que levaram o poeta autor de Aleijão (o livro que recebeu a menção honrosa no concurso) a renunciar à menção honrosa que recebeu, procuramos Sterzi, gaúcho que há anos reside em São Paulo, e ele nos respondeu a seguinte entrevista, por e-mail (nos posts seguintes, publicaremos também o contraditório das entrevistas com Ricardo Silvestrin, diretor do IEL, e com o próprio Antônio Carlos Secchin:

Zero Hora – Você divulgou uma carta aberta rejeitando a menção honrosa concedida a Aleijão pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar – na qual aponta como motivo a transferência da cerimônia oficial para o Rio. Poderia detalhar um pouco mais seus motivos?
Eduardo Sterzi –
Minha decisão de renunciar à menção honrosa se deu na última sexta-feira, quando recebi um email do Instituto Estadual do Livro com o convite para a cerimônia de entrega do Prêmio Moacyr Scliar. Não posso dizer que fiquei surpreso com a decisão de transferir a cerimônia para o Rio de Janeiro, porque já imaginava que algo assim poderia acontecer. Mas a falta de surpresa não diminuiu minha indignação ao enfim confirmar o que, em alguma medida, já se desenhava desde que o nome do vencedor do prêmio foi anunciado. Para quem conhece um pouco do comportamento pregresso de Ferreira Gullar, era óbvio que ele não se deslocaria a Porto Alegre para receber o prêmio. Já se tornou parte da mitologia pessoal do poeta, amplamente divulgada e freqüentemente reiterada pelo próprio, seu medo de avião, que funciona como um ótimo álibi para fugir de compromissos indesejáveis.
Ferreira Gullar está em seu direito, claro, em se recusar a voar seja para onde for; o que não compreendo é que, dada a recusa do autor, o Instituto Estadual do Livro ou o governador (que, segundo o convite, confirmou sua presença) tenham decidido transferir para outro estado uma festa que, evidentemente, deveria ocorrer em solo gaúcho. Não consigo me lembrar de outro prêmio que tenha feito isto, ainda mais se tratando de uma premiação promovida pela administração pública. Consegues imaginar, por exemplo, o Prêmio São Paulo de Literatura deslocando sua cerimônia de entrega para outro estado? Isto é falta de dignidade, falta de altivez. O que se quer? Conferir prestígio ao novo prêmio com uma meia dúzia de fotos de autoridades sul-riograndenses ao lado do “grande poeta”? Pois o resultado, a meu ver (e não só meu), foi precisamente o contrário. O prêmio se desvaloriza, o nome do seu patrono é desrespeitado e a imagem do Rio Grande do Sul, que é o meu estado, sai diminuída. Mas o que realmente me escandalizou foi verificar que, entre os apoiadores do evento, se encontra a editora agraciada junto ao seu autor (não esqueçamos que não só Ferreira Gullar ganhou R$ 150 mil, mas que também a José Olympio arrebatou R$ 30 mil). Também não consigo me lembrar de prêmio algum que acabe incluindo entre os patrocinadores de sua festa de entrega (no caso, o coquetel) um dos próprios ganhadores. Isto é promiscuidade – não há outra palavra.

ZH –  Você menciona que Antônio Carlos Secchin, um dos integrantes do júri, é um dos prefaciadores do livro vencedor, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar. Crê que isso tenha influenciado a decisão final do júri?
Sterzi –
É impossível afirmar que o fato de Secchin ser um dos prefaciadores do livro premiado influenciou na decisão do júri. Mas acredito que, seja ele mesmo, sejam os organizadores do prêmio, alguém deveria ter percebido que havia aí um impedimento ético. O que se pode supor, com alguma segurança, é que pelo menos um dos votos dos jurados já tinha uma clara tendência, uma vez que o comprometimento de Secchin com a obra de Gullar não se limita à redação do prefácio do seu último livro, mas é antigo, constante e intenso, a ponto de, em janeiro de 2002, o crítico ter viajado até Estocolmo para apresentar à Academia Sueca a candidatura do poeta ao Nobel (cf. p. ex. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u21150.shtml). Lembro ainda que não se trata do primeiro júri de que Secchin participa e do qual Gullar sai como vencedor. Isto já aconteceu no Prêmio Camões de 2010. “Naturalmente”, naquela ocasião, foi o mesmo crítico a telefonar para Gullar para lhe dar a notícia… (cf. p. ex.
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,ferreira-gullar-ganha-o-premio-camoes,559893,0.htm).
Friso que não vejo nenhum problema no comprometimento de um crítico com determinado autor que ele admire especialmente. O que acho complicado é que este comprometimento passe a envolver dinheiro público e instituições que deveriam agir com a máxima transparência possível. Fico extremamente incomodado com o fato de que isto se dê justo com o Instituto Estadual do Livro, órgão pelo qual tenho o orgulho de ter publicado o meu primeiro livro, Prosa, em 2001.

ZH – Você anunciou a sua renúncia no dia 16 de março. Por que não na época do anúncio da premiação?
Sterzi
– Porque, como disse na primeira resposta, só recebi o convite para a cerimônia no dia 16.

ZH – Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?
Sterzi –
É certo que, no âmbito literário, cuja amplitude é relativa, inevitavelmente chegará um momento em que haverá relações entre jurados e concorrentes. Não só relações positivas, frise-se, mas também relações negativas – umas ou outras, nos mais diversos graus de comprometimento. Foi por estar consciente dessa quase inevitabilidade que, ao confirmar que o resultado da premiação era o que eu já previa, preferi não me manifestar a respeito e acabei aceitando a menção honrosa que me foi oferecida. Friso que, embora acredite que, pelas razões já expostas na minha segunda resposta (sobretudo o grau de comprometimento entre crítico e autor neste caso específico), havia um impedimento ético para a participação de Secchin no júri, não foi este o motivo de minha renúncia à menção honrosa. Questões éticas são sempre passíveis de discussão, dependem de escalas de valores compartilhadas ou não por uma comunidade, dependem até mesmo – como tu bem observas – das particularidades da constituição de uma determinada comunidade (aqui, por exemplo, o fato de ser relativamente restrita). Renunciei à menção honrosa por um fato muito objetivo, que foi a transferência da cerimônia de entrega do prêmio para outro estado que não aquele que promoveu o prêmio. Isto me pareceu uma falta de altivez e de dignidade indiscutíveis. Algo realmente inédito, diria até mesmo impensável no caso de outros prêmios promovidos por instituições ligadas a governos estaduais. Não vejo nisto senão um casuísmo deplorável. Pergunto-me: digamos que o agraciado tivesse sido qualquer outro autor que também alegasse medo de avião ou outro motivo para não ir a Porto Alegre receber o prêmio; o IEL também transferiria a cerimônia para a cidade em que este hipotético autor mora? O governador do Estado também se deslocaria para esta cidade? Não vamos longe: se o agraciado tivesse sido qualquer um dos ganhadores de menção honrosa, isto aconteceria? É evidente que não. Seria absurdo. E é absurdo. A isto se soma o fato de, no convite oficial para o evento, a editora premiada aparecer também como apoiadora, isto é, em bom português, como patrocinadora (e, portanto, dona) de parte da festa. É claro que a José Olympio tem todo o direito de promover um coquetel em homenagem ao seu autor. O que acho promíscuo é este coquetel tornar-se parte da própria cerimônia de premiação. Vejo aí uma promiscuidade lamentável, que também não comporta, a meu ver, muita discussão. Que a editora proponha tal coisa, tudo bem; que o IEL aceite, é um absurdo. Que eu me lembre, nos júris de que participei, nunca um houve uma situação como esta ocorrida no Prêmio Moacyr Scliar (até porque, que eu saiba, nenhum outro crítico brasileiro viajou a Estocolmo para apresentar a candidatura de outro escritor ao Nobel…), tampouco como as que mencionas (prefácio, homenagem ou menção nos agradecimentos). A maioria dos júris de que participei foi de concursos literários destinados a obras inéditas, em que não tínhamos acesso aos nomes dos autores. E, no único caso diverso, o Açorianos de 1997, não me lembro de haver nenhum problema dessa ordem.

Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?

O nonagenário Kerouac

12 de março de 2012 1

O escritor Jack Kerouac. Foto: L&PM, Divulgação

Apresentação do Autor

NOME: Jack Kerouac
NACIONALIDADE: Franco-americana
LOCAL DE NASCIMENTO: Lowell, Massachussetts
DATA DE NASCIMENTO: 12 de março de 1922
INSTRUÇÃO (escolas frequentadas, cursos especiais, diplomas e anos):
Escola de Lowell (Mass.); Escola Masculina Horace Mann; Universidade de Columbia (1940-1942); New School for Social Research (194-1949). Ciências Humanas, nenhum diploma (1936-1949) Ganhei um A de Mark van Doren em Inglês na Columbia (curso sobre Shakespeare). – Levei pau em Química na Colúmbia. – Tirei média 92 na Horace Mann (1939-1940). Joguei futebol americano no time principal da universidade. Também pratiquei atletismo, beisebol e xadrez.
CASADO: Não
FILHOS: Não
RESUMO DAS PRINCIPAIS OCUPAÇÕES E/OU EMPREGOS
Tudo. Especificando: auxiliar de cozinha e lavador de pratos em navios, empregado de posto de gasolina, limpador de convés, jornalista esportivo (Lowell Sun), guarda-freios ferroviário, condensador de roteiros da 20th Century Fox em Nova York,  balconista de lanchonete, funcionário nos pátios de manobras de estradas de ferro, também carregador de mala na estação ferroviária, apanhador de algodão, ajudante de empresa de mudanças, aprendiz de laminação de metal no Pentágono em 1942, vigia de incêndios florestais em 1956, operário da construção civil (1941).
FAÇA UM BREVE RESUMO DE SUA VIDA, POR FAVOR
(…) Meu primeiro romance formal foi
The Town and the City, escrito na tradição de trabalho longo e revisão, de 1946 a 1948, três anos, publicado pela Harcourt Brace em 1950. – Então descobri a prosa “espontânea” e escrevi, digamos, The Subterraneans em três noites – escrevi On The Road em três semanas –
Li e estudei sozinho a vida inteira. – Estabeleci o recorde de falta às aulas da faculdade de Columbia para ficar no meu quarto escrevendo uma peça diária e leondo, digamos, Louis Ferdinand Céline, em vez dos “clássicos” do curso.
Sempre tive minhas próprias ideias. — Sou conhecido como “vagabundo maluco e anjo” com uma “cabeça desnuda e inesgotável” de “prosa”. Também poeta, Mexico City Blues (Grove, 1959). — Sempre considerei escrever meu dever na Terra. E também pregar a bondade universal, que críticos histéricos não foram capazes de descobrir sob a frenética atividade de minhas histórias verídicas sobre a geração beat. — Na verdade, não sou um beat, mas sim um estranho e solitário católico, louco e místico…

A apresentação acima, parcialmente condensada, está inclusa no volume Cenas de Nova York e Outras Viagens, que a L&PM está publicando agora como parte de uma nova série da editora, a Coleção 64 páginas, livros de… bem, 64 páginas, nos quais são reunidos textos e contos de autores consagrados em um volume de bolso finito que custa cinco pilas. Os primeiros exemplares da coleção incluem seletas de contos de Edgar Allan Poe, Bukowski e Machado de Assis, as novelas O Diabo, de Leon Tolstói, e O Retrato, de Gógol, e até uma antologia de tirinhas da turma da Mônica. O centro do projeto é fazer livros curtos cujo preço possa ficar em cinco reais.

O volume de Jack Kerouac especificamente traz essa apresentação bastante pessoal, três narrativas de viagen retiradas do livro Viajante Solitário (que a L&PM também têm em catálogo na coleção Pocket) e o poema Rimbaud, que havia sido publicado originalmente na Revista 80, uma revista de cultura e ensaios que a L&PM pôs em circulação… bem, nos anos 80.

Hoje completam-se 90 anos, como vocês veem na data de nascimento do currículo acima, 90 anos do nascimento de Keroauc, um escritor cuja influência avassaladora gerou imitadores e seguidores passionais no último meio século – para o bem e para o mal, uma vez que a postura místico-beatnik-libertária se vale a pena como estilo de vida nem sempre resulta na melhor das literaturas. Kerouac, entretanto, mesmo em seus momentos mais vagabundos e menos iluminados, continua transbordando uma força e um vigor agressivo – melhores características de uma literatura que fazia da linguagem um processo ao mesmo tempo xamânico e musical. Literatura libertária que amava as amplidões e as máquinas velozes como atalhos entre os infinitos caminhos. Mesmo que tenha morrido como uma caricatura do avesso de sua brilhante juventude, Kerouac e seus livros dos anos mais férteis permanecem um chamado à paixão, à boemia e ao sentimento numa era em que as máquinas parecem ter virado o fio e limitado o horizonte.

Entre tradições inventadas e verdades pré-moldadas

01 de setembro de 2011 0

Nota do editor: Nossa colega da editoria de Política, Letícia Duarte, partiu recentemente para uma temporada em Moçambique fazendo trabalho de campo para seua dissertação de mestrado. Antes de sua ida, sabedor de sua ligação com o país passei a ela o livro mais recente de Mia Couto, a coletânea de artigos E se Obama Fosse Africano. De lá, ela enviou hoje o seguinte texto, que divido com vocês aqui no Mundo Livro:

O título engana. Quem espera profundas digressões a partir das raízes do presidente dos Estados Unidos pode se decepcionar ao ler o livro E se Obama fosse Africano, de Mia Couto.

Em compensação, o autor escritor moçambicano oferece bem mais. Sem abandonar a prosa poética que caracteriza seus romances, apresenta nesta obra uma coleção de ensaios sobre a África contemporânea, sobre sua visão de mundo e o próprio ofício de escritor — revelando a influência de autores como Jorge Amado, “que fez pela projeção na nação brasileira mais do que todas as instituições diplomáticas juntas”, e Guimarães Rosa, “que provocou uma espécie de abalo sísmico” na sua alma, segundo suas palavras.

São reflexões que revelam a inquietação de um pensador diante do destino de um continente que escapa aos estereótipos que tentam enquadrá-lo. Ao longo dos textos, a maioria transcrições de palestras feitas pelo escritor em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil, Mia Couto propõe um exercício de desconstrução de verdades pré-moldadas sobre a África, criticando o sentimento de vitimização que ajuda a fecundar a pobreza, como se fosse uma semente própria das savanas africanas.

Com a legitimidade de um filho da terra, o autor analisa o choque entre a cultura tradicional, impregnada por rituais de feitiçaria, magia e curandeirismo, e a pretensão científica de resolução de problemas africanos com receitas prontas _ quase sempre estrangeiras e tecnológicas. Rejeitando a condição de refém da própria história, defende que todos são vítimas e culpados ao mesmo tempo, opondo-se à tentação de sempre colocar a culpa pelo subdesenvolvimento africano no outro – seja a escravidão, o colonialismo, o imperialismo. E adverte que até a pobreza é um conceito relativo: em algumas línguas de Moçambique, sequer existe a palavra pobre. “Um pobre é designado como sendo ‘chisiwana’, expressão que quer dizer órfão. Nessas culturas, pobre não é apenas quem não tem bens, mas é sobretudo quem perdeu a rede de relações familiares que, na sociedade rural, serve de apoio à sobrevivência. O indivíduo é pobre quando não tem parentes. A pobreza é a solidão, a ruptura com a família”, escreve. Embora o idioma oficial de Moçambique seja o português, o país tem 25 línguas, e só 12% da população tem como língua materna o alfabeto luso.

Se, para o leitor pouco familiarizado com a realidade africana, podem parecer um tanto anacrônicas as sucessivas referências ao embate entre a “modernidade” e a “tradição”, a reflexão é uma amostra significativa dos dilemas atuais do continente. Uma realidade multifacetada. Em Moçambique, por exemplo, enquanto mais de 80% da população ainda vive sem energia elétrica em casas de palha, entre a elite do país começa a se popularizar o hábito de viajar à China para comprar móveis para seus lares de alvenaria (ironicamente, boa parte dos produtos chineses é produzida com madeira extraída em Moçambique). Ao mesmo tempo em que são populares no interior do país cerimônias para pedir a chuva aos deuses, os moçambicanos são fãs de novelas brasileiras, cantam músicas de Leonardo e Zezé Di Camargo e Luciano e torcem para times de futebol europeus.

Diante de influências culturais tão distintas e entrecruzadas, o que seria autenticamente africano? Mia Couto também se questiona sobre isso, falando da armadilha da identidade, vista como uma outra forma de aprisionamento.

E defende que as tradições quase nunca são tão puras como alguns supõem. Como demonstra um anúncio de jornal em que um curandeiro oferece seus serviços em Moçambique: “Curamos asma, diabetes e borbulhas, tratamos de doenças sexuais e dores de cabeça, afastamos má sorte e… tiramos fotocópias”.  Afinal, até as tradições precisam um dia ser (re) inventadas. Seja na África ou em qualquer outro ponto do planeta.

Texto de Letícia Duarte

Borges no Google

24 de agosto de 2011 0

Uma das comparações mais recorrentes que já ouvi sobre a internet e seu potencial ilimitado de armazenamento remete diretamente à Biblioteca de Babel do conto de mesmo nome escrito por Jorge Luís Borges. Não pude deixar de fazer essa relação ao ver que hoje, no dia em que se completam 112 anos do nascimento de Borges,  o Google, que ostensivamente se apresenta cada vez mais como o bibliotecário da babel virtual, resolveu homenagear o mestre argentino na ilustração de seu logotipo.

Bela ideia. Minha pergunta apenas seria o quanto foi lido de Borges antes de se fazer a ilustração, que mais remete a uma realidade de ficção científica (ou “Borges lido por Enki Bilal“, como bem definiu o Roger Lerina) do que ao universo ao mesmo tempo ancestral e atemporal borgiano.

Livro aberto, bola rolando

20 de junho de 2011 2

Lu Thomé, Frizon, Gonzaga e Carlos André

A coisa toda começou no ano passado, quando se aproximava a final da primeira edição do Gauchão de Literatura. Um dia num evento qualquer na Palavraria, Lu Thomé e Rodrigo Rosp, os organizadores do certame, vieram com a ideia maluca de que a final deveria ser “ao vivo”, ou seja, uma resenha feita na raça pelo árbitro em algum lugar público, em um palco na frente da galera, com o juiz improvisando de peito aberto e sujeito a levar na cacunda lata de cerveja (ou de outras substâncias não publicáveis em um blog de família). Achei que eles estavam brincando e cometi a temeridade de dizer: “olha, se vocês conseguirem marcar um lugar para isso e me quiserem na final, podem contar comigo“.

Passaram-se algumas semanas e a Lu me procurou já com a data marcada e a proposta de onde e quando seria realizada a partida final do Gauchão: três juízes convidados arbitrariam a partida final entre Pó de Parede, de Carol Bensimon, e Veja se você responde essa pergunta, de Alexandre Rodrigues. Os árbitros seriam este que vos fala, meu colega e camarada Luiz Gonzaga Lopes, do Correio do Povo, e o professor Marcelo Frizon. Bom, palavra empenhada, encrenca arranjada, e agora não tinha mais como recuar, então lá fui eu participar do que foi uma experiência bastante legal e, devo dizer, diferente para quem, como eu, exerce há tanto tempo a função de crítico (conto mais sobre isso aqui). Participei também do amistoso de “abertura”  do programa futebolístico do dia, ao lado de Antônio Xerxenesky e de Tatiana Tavares, um confronto internacional entre O Passado, de Alan Pauls, e Flores Azuis, de Carola Saavedra, que havia vencido a edição anterior da Copa de Literatura Brasileira. O “estádio” escolhido para esse embate ludopédico nunca antes visto em terras sulinas foi o Studio Clio (José do Patrocínio, 698, Cidade Baixa, Porto Alegre)

Lu Thomé, Xerxenesky, Tatiana e Carlos André

O lance é que um dos coordenadores do espaço, o professor Francisco Marshall, gostou tanto da ideia que inspirou-se nela para um novo ciclo de atividades do Stúdio, o Sport Club Literatura, que começa amanhã com um super clássico entre dois… bom, clássicos. Os juízes Milton Ribeiro e Joana Bosak apitam um confronto entre duas autoras referenciais para seu tempo na literatura inglesa: Jane Austen e George Eliot, que se enfrentam representadas por suas obras mais conhecidas: Orgulho e Preconceito e Middlemarch. Milton, inclusive, já publicou em seu blog um ótimo aquecimento de pré-jornada: algumas anotações comparativas da leitura de ambos os livros. A cada edição do encontro (haverá uma por mês, serão realizadas duas partidas: o jogo histórico opondo clássicos literários, chamado de Coliseu, o programa nobre da noite, e uma Pelada literária como preliminar, opondo os Com-ca e os Sem-ca (espero que todo mundo aí jogasse futebol ou tivesse irmãos que jogassem). A pelada, ao contrário da partida histórica, opõe livros mais modernos, de autores muitas vezes vivos, e pode ser pautada até mesmo pelo zunzunzum literário mais recente. É o caso de pelada de amanhã, na qual se enfrentam Liberdade, de Jonathan Franzen, e 2666, de Roberto Bolaño, tijolões recentes de dois autores contemporâneos aclamados como os novos expoentes da literatura produzida em seus respectivos idiomas. Os juízes seremos, outra vez, este seu editor e Antônio Xerxenesky.

Portanto, marquem na agenda que tem futebol literário amanhã e os ingressos já estão à venda:

Sport Club Literatura – 19h30min
Ingressos: R$ 5 (coreia), R$ 10 (arquibancada), R$ 15 (social) e R$ 20 (camarote) e podem ser adquiridos pela página www.studioclio.com.br.
Informações: (51) 3254-7200 ou no Studio Clio (Rua José do Patrocínio, 698, em Porto Alegre).