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Posts na categoria "Maigret da Semana"

Malgré Maigret

02 de setembro de 2011 0

Andei relapso além da conta com a série Maigret da Semana, por vários motivos, dos mais profissionalmente justificáveis (acúmulo de trabalhos e viagens) aos mais pessoalmente ridículos (eu simplesmente havia perdido dentro da própria casa o exemplar que havia selecionado para o próximo episódio da série e não queria escrever qualquer coisa sem tê-lo à mão para citar com precisão algumas passagens que eu queria destacar). Mas segunda que vem, sem erro, a série volta. Fique no aguardo.

As Testemunhas Rebeldes

04 de julho de 2011 0

Depois de três livros da série mais recente do comissário Maigret, os três uma novidade para mim, que não havia ainda lido nenhum naquela primeira fase de devorar Simenons sobre a qual já falei, chego finalmente a um livro da série que já conhecia: As Testemunhas Rebeldes, que eu já havia lido em 1996 em uma edição cujo título ainda era Maigret e as Testemunhas Recalcitrantes. Na época em morava em um JK no 17º andar de um edifício pouco recomendável no centro, e vivia ficando preso dentro do elevador. Esse livro em particular eu me lembro de estar lendo no momento em que a luz apagou e eu fiquei trancado mais uma vez – acho que foi por pouco tempo, mas não tenho como ter certeza, dada a constância com que aquela joça trancava.

Essa releitura comprovou algo que eu já havia intuído quando comecei a recordar os livros que havia lido de Maigret há uns 15 anos. Um dos primeiros e mais importantes teóricos do romance policial foi Howard Haycraft, que, em um estudo dos anos 1940, Murder for Pleasure: the life and times of detective novel, fez um abrangente inventário do gênero até ali. Um extenso capítulo, como não poderia deixar de ser, é dedicado ao inventor da moderna literatura de crime, Edgar Allan Poe, que com três histórias seminais protagonizadas pelo detetive parisiense Dupin fundamentou as bases do gênero como são em larga medida seguidas até hoje. Ele comenta que os contos de Poe costumam se fixar de diferentes modos na memória do leitor: Os crimes da Rua Morgue é daqueles que o leitor retém o crime e sua resolução: as imagens vívidas e surpreendentes dos corpos das vítimas, e o fato de que o criminoso é um macaco fugido de um circo de passagem pela cidade. Mas o leitor raramente lembra como o detetive chegou a essa conclusão, embora o conto pormenorize o caminho delineado pelo raciocínio de Dupin. Em O Assassinato de Marie Rôget, pelo contrário, é o raciocínio tortuoso do detetive através das notícias de jornal que permanece, embora não seja fácil de lembra qual foi a conclusão a que Dupin chegou com elas.

Com As Testemunhas Rebeldes, comprovei minha própria impressão de como os livros de Maigret se fixam na memória: muitas vezes recorda-se as circunstâncias iniciais do crime, mas raramente vêm à memória a solução, ou pelo menos eu não me lembrava dela até chegar ao fim desta segunda leitura. Estava lá, uma atmosfera e a própria maneira como Maigret se relaciona com o caso – pontos fortes da maioria dos romances policiais de Simenon. Em As Testemunhas Rebeldes essa atmosfera é a de um comissário tentando quebrar o muro de silêncio e reticência dirigido contra ele por pessoas de uma classe social que se consideram liberadas de lidar com a polícia em quaisquer circunstâncias. A família no seio da qual o crime foi cometido, Os Lachaume, são, nas palavras de um policial da delegacia local mais próxima, “pessoas das quais a gente não se ocupa muito“.

As Testemunhas Rebeldes é de 1958, e mostra Simenon outra vez exercendo seu método de usar o detetive como um emissário a diferentes mundos e realidades sociais da França que retratava por meio das investigações do comissário. Maigret é encarregado de solucionar o assassinato de Léonard Lachaume, o diretor de uma tradicional fábrica de biscoitos. Lachaume foi encontrado morto logo cedo da manhã em seu quarto na mansão da família – uma propriedade outrora magnífica, hoje decadente, bem como o status social da própria família Lachaume. Outrora expoentes da indústria nacional, os Lachaume hoje vivem para a manutenção da fábrica, em má situação financeira. No momento do crime, deveria haver seis pessoas dentro da casa: os idosos pais de Léonard Lachaume, o irmão Armand Lachaume, a mulher deste, Paulette, o filho do morto, Jean-Paul, de apenas 12 anos, e uma velha empregada pintada com as tintas da caricatura da serviçal fiel e  sombria. Mesmo com tantas testemunhas na casa, ninguém parece saber dar muitos detalhes a respeito do crime, cometido a tiros, aparentemente depois de um invasor haver escalado o muro da casa e entrado pela janela.

Quem ainda tiver na memória nossa última leitura, Maigret se defende, vai recordar que naquele livro, datado de 1964, Maigret comentava, algo melancólico, que tinha ainda três anos pela frente em direção à aposentadoria. Provando que o próprio Simenon tomava liberdades com a cronologia do personagem quando assim precisava, neste livro, escrito anos antes, Maigret, ainda cansado e tornado ainda mais melancólico com a passagem recente do Dia de Finados, diz que “felizmente, só faltavam dois anos e ele não precisaria mais pôr um cachecol para, sob a chuva desagradável da manhã, atravessar uma Paris que, naquele dia, parecia uma cidade de filme mudo, toda em tons de branco e preto“.

Maigret sente-se velho, é o que a narrativa já nos informa em suas primeiras páginas: o corpo começa a dar sinais de desgaste (acorda com um torcicolo incômodo e a mulher insiste para que ponha um cachecol para se proteger do clima instável). Ao  investigar o crime, tem a sensação de que, de alguma forma, duas pontas de sua vida se encontram, uma vez que entrar na casa dos Lachaume é penetrar, também, no interior de uma memória de infância. Ele próprio fôra um ávido comedor dos biscoitos com a marca da família quando criança, décadas antes:

Aquilo lhe trazia recordações da infância passada no campo. Naquele tempo, em todas as pequenas vendas mal-iluminadas do povoado, nas quais oferecia-se tanto galochas quanto feijão, ou linha de coser, podia-se ter a certeeza de sempre encontrar pacotes envoltos em celofane, com uma etiqueta onde se lia: Fábrica de Biscoitos Lachaume.
Havia os amanteigados Lachaume e as bolachas Lachaume, que aliás tinham o mesmo gosto, o mesmo sabor de papelão.
Desde então, Maigret nunca mais ouvira falar nos Biscoitos Lachaume, nem nunca mais vira os calendários tipo folhinha de parede, mostrando um garotinho de faces exageradamente coloridas e sorriso idiota, comendo uma bolacha Lachaume, e era raro agora encontrar, mesmo numa aldeia perdida, aquele nome, mais ou menos apagado, num cartaz de parede
“.

Maigret sente-se, ao mergulhar no crime, investigando a morte de sua própria época, sensação que só piora com a chegada em cena de um novo juiz de instrução para acompanhar o caso, Angelot: “O jovem magistrado, que acabava de ser nomeado, estendeu uma mão firme e cuidada, uma mão de jogador de tênis, e Maigret pensou, uma vez mais, que uma nova geração despontava, desbancando a dele.” O que complica a vida de Maigret é que o jovem Angelot parece partilhar desse mesmo entendimento. Ao serem apresentados, cumprimenta o comissário com um aperto de mão vigoroso, mas não diz absolutamente nada, sequer alude de passagem à fama de Maigret como um antigo e eficiente investigador. “Seria uma atitude estudada, um modo de dizer a Maigret que sua fama não o impressionava? / Ou realmente falta de curiosidade, a indiferença da nova geração?” Para piorar, insiste em estar presente no interrogatório das testemunhas e quer ser informado de cada passo que Maigret dá ao longo da investigação. Em tese, não há nada de estranho nisso, uma vez que Maigret trabalha para a Polícia Judiciária, e seus inquéritos, em última análise, servem para municiar a instrução de um processo, ou seja: são feitos para informar o juiz. Esse apego de Angelot ao legalismo da norma em vez da prática tradicional dos antigos magistrados de receberem o inquérito pronto das mãos do comissário é um ponto de atrito que aumenta no policial a sensação de seu tempo está ficando para trás.

Mais do que rebeldes, como está no título traduzido, as testemunhas do caso mostram-se relutantes, reticentes. Maigret e o juiz de instrução são recebidos não apenas pelos integrantes da família Lachaume, mas por um advogado, chamado ao local antes da chegada da polícia. É por ele, insiste o homem, que se dará qualquer contato com seus clientes – outra instância intermediária que exaspera Maigret, impossibilitado de usar suas técnicas de interrogatório que por vezes beiram o limiar da coerção. A atitude das testemunhas, cada uma delas presente na mesma casa em que o crime foi cometido, também leva os nervos de Maigret ao limite: ninguém viu nada, ninguém sabe de nada, uma carteira sumiu, então é lógico que foi uma tentativa de assalto, então não há motivo, como pensa Maigret, para vasculhar o passado da família, falida mas ainda assim glória da burguesia parisiense – com o tipo de atitude de se considerar acima dos inconvenientes da lei bastante semelhante à das elites econômicas bem conhecidas dos brasileiros.

Como Maigret provará ao longo da narrativa, é sim nas relações algo estranhas entre os membros da família e sua necessidade imperiosa de manter as aparências e a tradicional fábrica fundada em 1817 que está o motivo do crime. Até lá, contudo, o comissário terá ainda mais tempo para sentir-se cansado e afundar em um mau-humor irresistível que chega ao paroxismo quando o novo juiz, desgostoso com os dribles que levou do comissário ao longo do dia todo, exige que Maigret acompanhe em silêncio o interrogatório que pode ajudar a desvendar o crime – e para completar pede que Maigret escreva as perguntas que ele, o juiz, condutor do inquérito, deve fazer. Claro que tal depoimento se torna crucial. para o desenrolar do caso, e Maigret ainda tem de ouvir o juiz vangloriar-se:

- Continua achando, sr. Maigret, que não se possam obter os mesmos resultados sem alarde, sem falar alto, sem ‘encenação’, num gabinete de juiz de instrução, em vez de no Quai des Orfèvres?
Que adiantava responder que ele nada mais fizera do que recitar as perguntas preparadas pelo comissário?

As Testemunhas Rebeldes: L&PM, 188 páginas. Tradução de Vera Neves Pedroso.

Na próxima semana: O Engano de Maigret

>>>Leia aqui os posts anteriores da série Maigret da Semana

Maigret se defende

31 de maio de 2011 0

Por mais que Simenon tenha sido um autor policial de corte mais “realista”, utilizando-se de Maigret como o pretexto perfeito para escrever livros que abarcam panoramicamente várias camadas da sociedade francesa (a classe média estagnada no meio de uma ascensão social tímida, a classe proprietária decadente usando a pose e a história para driblar suas dívidas, os pobres fazendo o necessário para sobreviver no redemoinho indiferente da grande cidade), há um elemento no qual Maigret se assemelha a qualquer detetive da chamada “escola clássica” do romance policial (segundo Howard Haycraft o período “clássico” do policial vai de 1918 a 1930, antes, portanto, do surgimento de Maigret, cujas primeiras aventuras foram publicadas em 1931): a inviolabilidade do agente.

Embora seja uma ficção policial extremamente verossímil ao transformar o comissário em um policial chefiando uma equipe de colaboradores que por vezes são tão fundamentais para a realização dos trabalhos tediosos de vigilância e coleta de informações, a saga de Maigret raramente transgride a regra de ouro do gênero para dar a entender que seu protagonista corre algum risco — físico ou moral. No livro que comentamos semana passada, em que Maigret se vê enviado à Holanda para uma investigação, ocorre uma das poucas confrontações físicas de Maigret com um suspeito encolerizado – o fazendeiro pai da jovem Beertje. O comissário, mesmo descrito como corpulento e pesadão e pouco afeito à atividade física, não tem dificuldade em desarmar o sujeito e dominá-lo. Maigret está sempre à salvo, e sua autoridade moral e intelectual é devastadora depois de chegar ao âmago do mistério – raramente um culpado deixa de admitir seu delito depois de encurralado com a história do crime. E mesmo sendo o comissário uma figura pública conhecida e muitas vezes dependente de terceiros (não dirige), nunca é alvo de um atentado ou de uma tentativa de homicídio. Não consta em sua ficha, ou ao menos não me lembro, nem mesmo ferimentos de ofício como a cicatriz de uma facada ou a marca de uma bala desferida contra ele no passado, e isso que, como qualquer policial de seu tempo, Maigret começou debaixo na escala funcional e trabalhou como policial de rua (“No metrô, nas lojas de departamento, nas estações, na delegacia de costumes, na fiscalização dos jogos de azar...”, relata a certa altura de Maigret se Defende). Às vezes ele pode se sentir perdido em meio a uma investigação, mas em momento algum está em perigo.

Este Maigret se Defende é uma das raras exceções em que o comissário  se vê fragilizado e correndo um risco real de eliminação – não física, mas profissional. O livro abre com uma longa cena doméstica burguesa, na qual Maigret e sua esposa recebem para jantar a família do dr. Pardon, amigo e médico pessoal do investigador. É um livro que já estabelece desde o início um tom de melancolia e finitude. Escrito em 1964, flagra um Maigret um pouco exausto com a vida que viveu, recebendo recomendações enfáticas de seu médico para tentar estabelecer uma rotina mais saudável, beber menos , emagrecer. O comissário diz textualmente que tem 52 anos. e que está a três anos da aposentadoria compulsória na Polícia Judicária. Embora o tempo corresse de modo diferente no universo do comissário, seus leitores só tiveram mais o dobro desse tempo para desfrutar de suas  histórias. O personagem foi abandonado por Simenon depois da publicação de O Sumiço do Sr. Charles, de 1970.

Na conversa entre Maigret e o médico, Pardon indaga se em seus anos de polícia o inspetor já havia encontrado alguém puramente mau. Fiel a seu estilo compassivo, de “entender sem julgar”, como diz em As Memórias de Maigret, o comissário responde que não, apenas pessoas confusas que tomaram decisões erradas nos piores momentos. Ao longo do romance, Maigret  recordará dessa conversa em dúvida sobre se não encontrou de fato um caso de maldade genuína, depois que sua carreira é ameaçada após ser acusado de tentar abusar de uma jovem.

Maigret se Defende não deixa de ser, a seu modo, o confronto do velho policial com a juventude – justamente nos anos 1960 que mais tarde se tornariam praticamente sinônimo do “poder jovem”. A melancolia com a proximidade da aposentadoria não advém apenas do fim de uma carreira de 30 anos, mas é tornada um pouco mais amarga pela forma como o mundo à volta de Maigret parece estar em franca desintegração. Seus superiores são jovens sem a sua experiência, oriundos da estrutura burocrática – o que não os impede de ter a arrogância de quem se sente senhor de sua própria época. Chamado à sala do chefe de polícia, Maigret reflete, com algo de amargura:

O chefe de polícia era também um novato. Dez anos no cargo. Um jovem. Essa era a moda. Não tinha sequer quarenta anos, mas, depois de passar pela escola normal, acumulara o suficiente de diplomas para assumir a direção de qualquer serviço público.
“Chefe-vassoura”, era como os jornais o apelidaram, depois da sua primeira entrevista coletiva. Pois os chefes de polícia, bem como as vedetes de cinema, davam agora entrevistas coletivas para as quais eles não se esqueciam de convidar as redes de televisão.

Depois de chegar com a pontualidade de sempre no gabinete do superior e ser submetido a uma espera para marcar autoridade, Maigret é admitido no escritório do homem e ouve as acusações que pesam contra si: na noite anterior, teria abordado em um bar a jovem Nicole Prieur, 18 anos, de boa e riquíssima família, filha de um magistrado e sobrinha de um membro do Conselho de Estado. De acordo com as acusações da própria jovem, Maigret a encontrou em um bistrô, a embriagou, levou-a para um hotel vagabundo e tentou violentá-la. A versão da jovem é agravada pelo fato de que Maigret de fato esteve no café, sentou-se à mesa da jovem e levou-a para o hotel. Sua versão dos acontecimentos, contudo, é diferente: a própria jovem lhe telefonou de madrugada pedindo ajuda. Disse que havia fugido de sua casa no interior e que havia sido vítima de uma armadilha de uma amiga e do noivo desta, terminando sozinha sem bagagens e sem conhecidos nas ruas de Paris. Embora já estivesse dormindo ao lado da sra. Maigret quando o telefone tocou, o comissário foi até o bistrô indicado por ela e a instalou em um hotel – precisou levar a moça, muito embriagada, até o quarto. Para ser surpreendido pela acusação da manhã seguinte.

Não há ambiguidade na situação. Desde o início a narrativa está próxima do ponto de vista de Maigret, então não há na mente do leitor dúvida alguma sobre quem está mentindo. A grande questão reside nos motivos para a armação montada contra o comissário – motivos difíceis de descobrir, uma vez que, na qualidade de investigado, Maigret é proibido pelo chefe de polícia de interrogar de novo a jovem ou conduzir ele próprio um inquérito sobre o caso. Também, fazendo (ab)uso de sua autoridade, o jovem chefe ordena que Maigret não comente o caso com ninguém no Quais des Orfèvres. Orientações, claro, que Maigret tentará descumprir na surdina, sem sucesso, uma vez que está sendo vigiado. Maigret se vê afastado de suas funções e passa pela experiência de ser desta vez ele o homem a quem os policiais seguem. O tempo todo ao longo da investigação, que passa também por um por um ex-criminoso e sua mulher e por um “clube jovem” de elite no centro de Paris para as folias da juventude dourada, Maigret oscila entre laivos de sua astúcia de sempre e uma melancolia mórbida de quem se sente tentado a desistir.

Talvez a melancolia do personagem não deixe de representar, a seu modo, o cansaço do próprio Simenon, que vivia nos anos 1960 um dos períodos mais turbulentos de sua vida: sua segunda mulher, Denyse Ouimet, sofrera várias crises psiquiátricas e terminaria por sair de casa justamente naquele ano de 1964. Cansado do próprio Maigret, talvez o autor já preparasse o terreno para a aposentadoria de fato do personagem, mostrando que o estilo algo truculento mas correto do detetive, baseado numa ética em vias de desaparecer, não teria como levar sempre a melhor diante da egolatria inexperiente da nova geração. Embora neste caso em particular, Maigret consiga desvendar o cérebro por trás da trama na qual foi enredado e salvar sua carreira e sua reputação.

Maigret se Defende: L&PM, 174 páginas. Tradução de Alessandro Zir.

Na próxima semana: As Testemunhas Rebeldes.

Um Crime na Holanda

24 de maio de 2011 0

O artifício narrativo que estrutura Um Crime na Holanda, nosso Maigret da Semana (sendo publicado agora com algumas horas de atraso devido à correria pessoal da vida deste blogueiro) é bem parecido com o que vimos em Maigret na Escola, o livro que analisamos no primeiro post da série. Trata-se de jogar um policial famoso pela sua intuição e pelo seu conhecimento da natureza criminosa em um ambiente com o qual ele não está minimamente familiarizado e não poderá contar com os elementos que compõem sua rotina e seu universo – e que não deixam de ser eles próprios responsáveis por dar a Maigret o lastro mental e emocional para seus palpites certeiros. Fora de Paris, Maigret não tem seu escritório azulado de fumaça de cachimbo, com o fogão a lenha que usa para torná-lo superaquecido. Não tem os sanduíches da brasserie próxima ao Quais des Orfèvres; não tem os seus bistrôs habituais para a cerveja, o vinho ou o grogue, de acordo com a circunstância; não tem a compreensiva senhora Maigret, para quem o marido volta à noite aéreo e distraído, tentando entender a atmosfera de cada caso. E principalmente: longe de Paris Maigret não tem a ajuda inestimável de Janvier, Lucas e outros intregrantes menos brilhantes da equipe a seu serviço.

Tenho, inclusive, a impressão de que estas viagens de Maigret eram mais do que um mero artifício para que o autor Georges Simenon variasse os cenários de suas tramas, e sim uma forma de recapitalizar o valor do própri0 comissário junto ao leitor. Uma vez que em alguns dos livros mais conhecidos do autor uma boa parte do trabalho braçal, de recolher informações e correr sola de sapato pela rua é feita por Janvier, Lucas, Moers, Lapointe, Torrence, Lourtie e outros investigadores assistentes apresentados ao longo da série. Parece, a este leitor, que às vezes Simenon talvez sentisse a necessidade de experimentar tramas nas quais o comissário provava que poderia ser igualmente eficiente sem essa estrutura com a qual tanto ele quanto os leitores se acostumaram ao longo dos anos.

Um Crime na Holanda radicaliza o procedimento de submeter Maigret a uma atmosfera hostil. Não apenas o comissário precisará visitar uma comunidade estranha e fechada que o verá como elemento estrangeiro potencialmente perigoso e estará pouco inclinada a colaborar. Maigret vai a outro país, no qual a sua fama de pouco vale, ele não tem nenhuma jurisdição e sequer sabe o idioma local. Criatura de hábitos, é portanto com um tremendo mau humor que Maigret desembarca em Deflzijl, pequena cidade portuária na qual Conrad Popinga, um respeitado professor da Escola Naval, foi assassinado em sua própria casa. O crime ocorreu após uma conferência sobre responsabilidade criminal ministrada no salão da cidade por um pedante professor francês, Jean Duclos, catedrático da Universidade de Nancy. Após a conferência, um grupo de moradores da cidade se reuniu na casa da família Popinga pra uma recepção ao convidado francês — Duclos estava, de qualquer forma, hospedado na casa daquela família. Popinga ausentou-se por algum tempo para acompanhar de bicicleta até em casa uma das visitantes, Beetje Liewens, a atraente filha de um fazendeiro. Ao voltar, foi alvejado a tiros em seu próprio jardim enquanto rumava para o galpão para guardar sua bicicleta. No tumulto que se seguiu, com a casa toda acorrendo ao barulho, o professor Duclos foi visto descendo a escadaria da casa com a arma do crime na mão. Embora não estivesse sendo formalmente acusado,uma vez que alegou ter encontrado a arma no caminho, Duclos a partir daquele momento estava retido na Holanda à disposição da polícia. Por meio de seus contatos na universidade, no entando, o professor conseguira que um observador da polícia francesa fosse enviado para acompanhar o caso, e esse é o motivo de o pesadão e mal-humorado Maigret desembarcar na estação ferroviária da cidade — bem mais ao norte de Amsterdam, e portanto com pouca coisa a ver com a Holanda estereotipada dos moinhos e campos de tulipa:

Ele chegou num ambiente que nada tinha em comum com os cartões-postais holandeses e cujo aspecto era cem vezes mais nórdico do que ele imaginara.
A cidade era pequena: dez ou quinze ruas, no máximo, pavimentadas com bonitos tijolos vermelhos tão regularmente alinhados quanto os azulejos de uma cozinha. Casas baixas, também de tijolos, enfeitadas com uma profusão de painéis em cores claras e alegres.

A tarefa de Maigret não é, contudo, tão ingrata quanto possa parecer a princípio. Um Crime na Holanda é um dos livros mais antigos de toda a série, foi publicado em 1931, ano em que saíram os primeiros romances com Maigret como protagonista — e também época em que o francês ainda era a língua internacional das pessoas bem-educadas, e por isso não apenas a mulher de Popinga como sua irmã mais nova, cunhada da vítima, falam francês. Além da jovem Beetje, que passara uma temporada de estudos em Paris, do inspetor holandês encarregado do caso, Pijpekamp, e do próprio francês posudo monsieur Duclos. Maigret, portanto, não está tão perdido como parece de princípio, embora não tenha o que fazer quando, para evitar interrogatórios, algumas pessoas que ele pensava saberem francês simplesmente fingem não entendê-lo. Individualista, Maigret precisa às vezes confiar em Pijpekamp, a quem claramente considera inepto, como seu intérprete, o que aumenta seu mau humor.

Ainda assim, Maigret não perdeu seus talentos: os olhos treinados para perceber no emaranhado íntimo de uma cidade pequena as conexões subterrâneas de ódios e paixões que ligam os personagens da comunidade. Logo fica claro para Maigret que Beetje e a vítima eram por demais próximos para levantar suspeitas — e Beetje também se deixa cortejar por um estudante da escola naval chamado Cornelius. De algum modo, seja qual for, a jovem camponesa quer sair daquela cidade para ela sufocante depois de haver conhecido as luzes de Paris. E por isso a jovem flerta com mais de uma possibilidade de sair da cidade: fosse como fugitiva com Cornelius fosse como possível amante de Popinga. Cornelius, claro, logo se torna suspeito, bem como a mulher de Popinga, e o pai de Beetje, e talvez a própria Beetje, os suspeitos se multiplicam uma ve que Maigret encontra um ponto para puxar a meada das relações comunitárias. Nesse meio tempo, o inábil porém esforçado Pijpekamp se desvia em suas próprias investigações, e o que se tem no fim da narrativa é um procedimento não muiito comum nos livros de Maigret: o inspetor monta uma reconstituição do crime para tentar entender o que se passou naquela noite, levando todos os que presenciaram o crime primeiro para o salão de conferências e depois para a casa da vítima. Aquela reencenação é antes um modo de Maigret entender sua própria intuição do que uma forma de esclarecer aspectos pontuais do crime, como costumam ser tais reconstituições.

O romance é outra bem-sucedida incursão de Simenon no mundo das localidades isoladas da zona rural europeia, cidades pequenas com número reduzido de casas e habitantes, onde todos se conhecem como vizinhos mas onde fermentam por baixo da capa de civilidade as mesmas paixões sombrias que animam muitos dos crimes da cidade grande.

Um Crime na Holanda: L&PM, 160 páginas, tradução de Júlia da Rosa Simões.

Na próxima semana: Maigret se Defende.

Em tempo: Um Crime na Holanda descreve Delfzijl com  a atmosfera de uma cidade inventada, mas o local de fato existe –  lá foi inaugurada, em 1966, com a presença do próprio Simenon, uma estátua de Maigret em homenagem à visita do inspetor, assinada por Pieter d’Hont. Você pode vê-la na foto abaixo.

Estátua de Maigret em Delfzijl. Fonte: Wikipedia - autor: Gerardus

Maigret na escola

16 de maio de 2011 2

Certa manhã, o inspetor Jules Maigret chega, como todos os dias, para trabalhar no QG da Polícia Judiciária de Paris, o famoso nº 36 do Quais des Orfévres — literalmente “O Cais dos Ourives”: o Palácio da Justiça ocupa uma boa parte da chamada Ilha de la Cité, no meio do Sena, no 1º arrondissement, e portanto o prédio é limítrofe ao sul com o Cais dos Ourives e ao norte com outro cais, o Quai de l’Horloge (Cais dos Relógios). Mas isso foi só uma digressão para você que já chegou a ler algum Maigret na vida e não foi procurar o significado disso. Sei, sei, é improvável que haja alguém, então a digressão foi inútil.

Mas eu dizia que Maigret chega certa manhã à sede do Palácio da Justiça, onde se localiza o QG da Polícia Judiciária, sobe pelas escadarias do prédio e passa pela frente de uma sala de espera envidraçada onde as pessoas que têm demandas a fazer com o comissário ou com outros investigadores aguardam. Os policiais chamam o lugar de aquário ou, dado o tempo de espera, de Purgatório. Naquela hora prematura manhã, há apenas um homem na sala, que olha para Maigret com uma ponta de ansiedade nos olhos quando o policial chega ao seu gabinete. Envolvido por afazeres com uma reunião e uma visita a um banco para tratar de uma suspeita de fraudes cometidas por um empregado, Maigret esquece do sujeito e passa boa parte da manhã na rua. Paris está envolvida pela expectativa da primavera, embora o ar ainda esteja fresco: “um ar que dava vontade de beber como se fosse um vinho branco”.

Maigret é reconhecido pelo homem no aquário a cada vez que entra ou sai — é um elemento recorrente nas histórias de Simenon o fato de Maigret ser uma figura pública, principalmente pelo grande número de casos aparentemente insolúveis que desbaratou, tornando-o um personagem saboroso para a imprensa. Na época em que trabalhei como repórter de polícia, conheci um certo número de policiais ávidos por se tornarem tal tipo de personagem: reconhecidos como intimoratos combatentes da lei, com nome nos jornais e direito a entrevista coletiva. Maigret é assim, mas nunca buscou tal situação, dada a escolha, preferia não ser esse tipo de celebridade. Pelo contrário, suas relações com a imprensa – bem como com estranhos em geral — é aquela impaciência irritadiça que se dedica a uma visita inconveniente. No método de imersão e intuição usado por Maigret, praticamente todos em volta tornam-se intrusos inconvenientes, distraindo o comissário dos próprios pensamentos, que evoluem aparentemente em direção ao nada mas depois, como se esbarrassem em algo sólido, vão diretamente até a solução.

Maigret finalmente faz entrar o homem, que havia lhe passado o cartão de visitas logo que chegara. O desconhecido se chama Gastin, é professor primário e seu aspecto físico compõe uma figura lamentável: queixo retraído, cabelo ruivo já começando a rarear, a pele macilenta que denuncia uma noite insone. Assustado, Gaskin conta, sem linearidade e de forma muito desconexa, o motivo que o levou até o Quai des Orfévres. Diz que veio de um vilarejo de província, Saint-André, para se entregar pessoalmente a Maigret – na aldeia ele é o principal suspeito do assassinato de uma mulher idosa, embora se declare teimosamente inocente. Estranho na comunidade, para onde se mudou apenas há poucos anos, ninguém parece lhe dar ouvidos ou mesmo se importar com sua presunção de inocência. Com medo de ser preso, o mestre-escola decidiu fugir em direção a Paris para pedir ajuda ao famoso investigador Maigret de quem já ouvira falar. O comissário pergunta:

— Por que exatamente veio me ver?
— Porque confio no senhor. Sei que, se quiser, descobrirá a verdade.

A vítima, Léonie Birard, era uma funcionária aposentada do correio tida como o demônio da comunidade: uma mulher rude, bisbilhoteira, mesquinha, agressiva, do tipo que se dedica a amealhar os podres dos vizinhos e que se compraz em fazer gestos obcenos para quem passa pela janela da casa de onde raramente sai. Dada a exiguidade do vilarejo, a prefeitura e a escola se localizam no centro da cidade e dão praticamente para o mesmo pátio, que também está defronte a casa em que mora o professor, nos fundos da escola, e a própria velha Léonie.

Talvez seja pela chegada da Primavera, ou pelo que o relato do professor desperta em suas memórias sobre sua própria infância, também passado em um vilarejo (Saint-Fiacre, para onde voltará em O Caso de Saint-Fiacre), Maigret embarca para um fim de semana em Saint-André, praticamente uma aldeia, onde entrega o professor às autoridades locais e começa a fzer uma investigação informal sobre a aldeia e o relacionamento dos locais com o professor — tão instável quanto com a própria vítima.

Simenon se dedica neste livro ao que já fez com maestria em outros: o retrato do crime como um acontecimento traumático que rompe momentaneamente a teia cerrada das relações interpessoais numa comunidade, deixando à mostra fios soltos que desmentem a tranquilidade da pacata vida burguesa que se organiza diante dos olhos de Maigret. O professor é casado, tem um filho que é bom aluno, mas sempre tem seu mérito escolar negligenciado para não parecer que o pai, mestre-escola na única sala de aula da aldeia, pareça estar favorecendo sua criança em detrimento das demais. A velha Léonie cultivava hábitos deploráveis, Maigret logo descobre — entre eles o de roubar, enquanto ainda estava na ativa nos Correios, algumas correspondências destinadas aos vizinhos. Ninguém lamenta de fato a morte da mulher — atingida no olho esquerdo por um tiro de  carabina 22, que de outro modo talvez não houvesse morrido. O professor estava em aula no momento do encontro do corpo, mas disse não ter se ausentado da sala em nenhum momento, o que, depois se verifica, não era totalmente verdade.

Embora ninguém chore por Léonie, é ao mesmo tempo bastante confortável para todos  que as principais suspeitas estejam sobre o forasteiro da cidade, alguém olhado com desconfiança e vítima dos boatos que circulam sobre o verdadeiro motivo pelo qual ele e a mulher, parisienses sofisticados, foram se embrenhar naquela aldeola. Maigret, mesmo sem estar oficialmente a serviço, circula pela cidade tentando escavar as camadas e camadas de maledicência e ressentimento que se ocultam sob a pacata vida de província: os rancores, inimizades familiares, as pequenas corrupções, tudo para descobrir se o professor é ou não o culpado do crime. Um Simenon bom para começar nossa maratona, mas não necessariamente alinhado aos melhores trabalhos do autor ou às melhores investigações do comissário. Ao fim da leitura, não é tanto a identidade do criminoso que fica na memória do leitor, e sim a teia complexa e viva de relações que o autor urde na cidade do interior e como tais relações podem ser tão responsáveis pelo crime quanto qualquer um dos suspeitos.

Maigret na Escola: L&PM, 174 páginas, tradução de Paulo Neves.

Na próxima semana: Um Crime na Holanda.

Um Maigret por semana

12 de maio de 2011 6

São as múltiplas as circunstâncias que nos levam a conhecer integralmente a obra de um autor: paixão, disponibilidade, oportunidade, o quanto o tal autor foi prolífero, o quanto escreveu, o quanto ainda está escrevendo. Não chega a ser uma proeza ter lido a obra completa de Raduan Nassar, composta de dois romances e uma coletânea de contos, mas deve haver só um punhado de caras além do Paulo Rónai que tenha lido todo o Balzac. Se o autor ainda está vivo e publicando, sempre há como recuperar tudo o que ele escreveu até o momento – e isso muitas vezes depende mais de vontade e de paixão. Já tive, como a maioria dos leitores que conheço, a volúpia voraz de ler tudo o que havia para ser lido de um autor que acabara de descobrir. Na época da faculdade tive minha “fase dos russos” inaugurada aos 18 anos com a leitura, em meros dois dias, de Crime e Castigo, de Dostoiévski, que levou depois a uma leitura de tudo o que pude encontrar dele na época, e dele pulei para o Tolstói, e do Tolstói para o Tchekhóv, daí para o Turguêniev, para o Gógol, até topar com o Górki, cujo sentimentalismo exacerbado esfriou um pouco meu entusiasmo pela turma das muitas consoantes. Anos mais tarde, quando tinha lá por uns 23, topei com as referências a Isaac Bábel no Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, de Rubem Fonseca, e voltei aos russos, começando com o próprio Bábel e completando muitas das lacunas daquela primeira fase, incluindo Bulgákov e Gontcharov (cujo Oblomov eu fui conhecer porque havia sido incluído em uma lista de leituras basilares formulada por Antônio Candido e Alfredo Bosi que uma vez uma colega de faculdade me passou).

Mas é claro que não li tudo da maioria desses russos, até porque algumas das obras sequer haviam sido traduzidas no Brasil (ou haviam, mas há mais de meio século, em edições que não se encontravam mais). Contei essa história como exemplo, apenas, de como uma febre de leitura nos acomete de tal modo que por algum tempo queremos saber tudo o que aquele autor escreveu — às vezes com resultados decepcionantes, como Steinbeck, por exemplo, cujo Inverno de Nossa Desesperança parece ter sido escrito por outro autor, bem diverso daquele que admirei tanto em A Leste do Eden, Ratos e Homens e Vinhas da Ira.

A questão é que, depois de ter escrito há algumas semanas sobre os 80 anos do personagem Jules Maigret criado por Georges Simenon, vinha me coçando com a ideia de reler algum daqueles policiais que também devorei durante uma certa fase da minha cada vez mais longínqua juventude. O ciclo de romances de Maigret foi outra de minhas obsessões, por um tempo — eu pegava os livros (na época editados pela Nova Fronteira) na Biblioteca Central da UFRGS, próxima à Casa do Estudante, onde eu morava, e os lia muitas vezes no período de uma noite. Na época eu era mais meticuloso com a contabilidade de minhas leituras, e pelo que me lembro cheguei a ler quase quatro dezenas de romances de Maigret – o que foi totalmente insuficiente para conhecer toda a saga do personagem, distribuida ao longo de 75 romances e um punhado de contos.

Aí recebi faz alguns dias uns exemplares das novas edições de bolso da L&PM para o personagem, peguei um deles e comecei a ler – e comprovei que a leitura dos livros de Maigret ainda pode ser feita em um único dia, e de um passei para outro, e outro, e me deu um estalo, misto de loucura e ideia: já que a L&PM está republicando toda a série, incluindo uns volumes apresentados como inéditos, por que não ler e resenhar aqui no blog um exemplar por semana (sim, por semana, eu ainda preciso dos outros dias úteis para ler uma cacetada de outras coisas)? Isso daria mais de um ano com leituras de Maigret, e como ando tentando estabelecer uma seções fixas neste blog que possam ser atualizadas com alguma periodicidade, achei interessante fazer a experiência.

E por que Maigret especificamente? pelos motivos elencados lá em cima: paixão (estão entre minhas obras policiais favoritas, e eu gosto muito de policiais), disponibilidade e oportunidade (a coleção da L&PM já jogou dezenas de títulos do detetive no mercado, e eu tenho um bom número deles em casa) e o número de obras (garantindo uma sequência longa para a experiência). E porque era tão bom quanto qualquer outro. E talvez porque Maigret fume cachimbo, assim como eu, sei lá, o motivo para ler algo que não se precisaria ler é sempre arbitrário, no fim das contas.

Este post inaugural serve apenas para explicar as regras do jogo: Toda segunda-feira a partir da próxima, vai ao ar aqui no blog o Maigret da Semana, comentando a leitura de um dos romances da saga de Maigret (não estão incluídos os livros escritos por Simemon sem o comissário). A ordem de leitura será aleatória — o que não prejudica em nada a fruição da saga, uma vez que o próprio Simenon escreveu os romances com saltos e idas e vindas na cronologia, mostrando casos da juventude do comissário depois de já ter escrito muitas histórias sobre ele na idade madura. Como os livros que a L&PM me enviou foram o pretexto para esta série, o primeiro livro abordado será um deles, Maigret na Escola, publicado recentemente. A série vai ao ar aqui no blog a partir da segunda que vem.

Que me sigam os bons (e os maus) apreciadores do gênero policial. Nossa investigação vai começar.