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Tradução e escravidão

17 de fevereiro de 2014 3
Chiwetel Ejiofor em cena de "12 Anos de Escravidão". Foto: Fox Searchlight, divulgação

Chiwetel Ejiofor em cena de “12 Anos de Escravidão”. Foto: Fox Searchlight, divulgação

Como já escreveu a jornalista Raquel Cozer, da Folha de S. Paulo, neste texto do último dia 10 de fevereiro, vivemos, e já há alguns anos, um momento em que as editoras parecem se guiar muito mais pelo possível sucesso de uma adaptação cinematográfica do que no valor intrínseco de uma obra para desovar uma tradução no Brasil. Um dos exemplos citados por ela é a obra Twelve Years a Slave, de Solomon Northup. Publicada originalmente em 1853, em domínio público, portanto, a narrativa autobiográfica do negro livre que foi raptado e vendido como escravo ganhará não uma, mas duas chances no mercado nacional – já que o filme de Steve McQueen estrelado por Chiwetel Ejiofor tem boas chances de ganhar o Oscar e de ser um sucesso de bilheteria.

A Companhia das Letras lança 12 Anos de Escravidão pelo selo Penguin, em edição com tradução de Caroline Chang e prefácio do mesmo Steve McQueen que assina a adaptação para o cinema. Em uma estratégia para associar ainda mais o livro e o filme, a capa foge do padrão da série usando a imagem do cartaz do filme. A segunda edição está saindo pela editora Seoman, parte do grupo Pensamento, e é creditada a alguém nomeado estranhamente apenas como Drago. Dado que fazia horas que não rolava uma comparação tradutória aqui no blog, acho que essa é uma circunstância mais do que apropriada para nos dedicarmos a isso.

Vamos, então, começar com a versão de Caroline Chang. Caroline é jornalista, editora da L&PM e tem em seu currículo traduções, entre outras, de A Longa Marcha, de Sun Shuyun (Arquipélago Editorial); As Filhas Sem Nome, de Xinran (Companhia das Letras); Janela para a Morte, de Raymond Chandler (L&PM) e A Resposta, de Kathryn Stockett (Bertrand Brasil) – este último, curiosamente, também um “livro de Oscar”, uma vez que foi publicado por aqui na mesma época em que sua adaptação cinematográfica, Histórias Cruzadas, chamava a atenção por indicações ao prêmio. Como nosso intuito com esta série é mais lúdico e menos técnico, selecionei para fins de comparação os primeiros dois parágrafos, em uma seleção arbitrária. Não é um trecho especialmente fácil ou difícil, é só o trecho que abre o livro:

12_anos_de_escravidao“Tendo nascido um homem livre, por mais de trinta anos gozado da bênção da liberdade em um estado livre e sido, ao final desse período, sequestrado e vendido como escravo, assim permanecendo até ser felizmente resgatado no mês de janeiro de 1853, após uma servidão de doze anos, foi sugerido que um relato da minha vida e de minhas desventuras não seria desprovido de interesse para o público. Desde meu retorno à liberdade não deixei de perceber o crescente interesse nos estados do Norte quanto ao assunto da escravidão. Trabalhos de ficção, prometendo retratar suas características mais amenas bem como as mais repugnantes, circularam de forma sem precedentes e, a meu ver, criaram um tópico rico para comentários e discussões.
Posso falar sobre a escravidão apenas na medida em que foi por mim observada – apenas na medida em que a conheci e vivenciei em minha própria pessoa. Meu objetivo é dar uma declaração simples e verdadeira dos fatos: repetir a história de minha vida, sem exageros, deixando para outros determinarem se as páginas da ficção apresentam um retrato de uma maldade mais cruel ou de uma servidão mais severa.”

O interesse pelo livro – e também por outra obra contemporânea deste, A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe – dá mostras de como a escravidão começava a ser tornar um tema central no norte “ilustrado”. Já começava-se a sentir o inevitável choque entre a escravidão no Sul, institucional, e as pretensões civilizadas do Norte industrializado, que desembocaria na Secessão na década seguinte, após os Estados sulistas formarem uma confederação e declararem a separação dos demais. O trecho que vemos acima serve como uma sinopse do livro, ao mesmo tempo em que tenta marcar sua diferença para com as obras de ficção. Este é um depoimento. Tem a validade de haver sido testemunhado e vivido. Vamos ver, agora, como esse trecho foi passado para o português pelo tradutor Drago, de quem não conheço a biografia e cujos outros trabalhos na área parecem ter sido todos realizados para a mesma editora Seoman, como O Homem que Amava Muito os Livros, de Allison Hoover Bartlett, e a biografia de Lance Armstrong editada pela mesma casa.

12-Anos-de-Escravidão-seoman“Tendo nascido um homem livre e desfrutado, por mais de trinta anos, das bênçãos da liberdade em um Estado livre e, ao término desse período, tendo sido sequestrado e vendido como escravo – condição na qual permaneci até ser, felizmente, resgatado no mês de janeiro de 1853, após doze anos de servidão – foi-me sugerido que um relato da minha vida e dos acasos que a pontuaram não poderia deixar de atrair o interesse do público.
Desde a minha volta à liberdade, não pude deixar de notar o crescente interesse pelo tema da Escravidão, em todos os Estados do Norte. Obras de ficção que pretendem retratar os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto têm circulado, com uma abrangência e uma aceitação popular sem precedentes; o que, segundo creio, contribui para o estabelecimento de um proveitoso tópico de comentários e discussões.
Posso discorrer sobre a Escravidão apenas até o ponto em que tive oportunidade de observá-la; até o ponto em que a conheci e experimentei-a pessoalmente. Meu objetivo é fornecer um testemunho sincero e verdadeiro sobre os fatos: recontar a história de minha vida, sem exageros, deixando aos outros a tarefa de decidir se mesmo páginas de ficção contenham descrições mais equivocadas ou rigorosas de como foi a Escravidão.”

Cá estamos, então. Há, como seria de se esperar, pequenas diferenças que se referem não à tradução, mas à edição. A mais estranha para mim é a adoção daquela maiúscula na palavra Escravidão. Quando se usa uma letra maiúscula em uma palavra como essa, está-se falando do período histórico a que ela alude, e não à indústria infamante da escravidão de um modo mais genérico. Mas aí algo não encaixa, para mim, por dois motivos: 1) o Brasil teve seu próprio período histórico de Escravidão, que não coincide com o retratado no livro, e 2) o livro fala da escravidão tanto no sentido histórico quanto no sentido geral, embora Northup ressalte que está dando um testemunho pessoal. Também é digna de menção outra alteração gráfica, esta promovida pela Companhia: a transformação dos três parágrafos desse trecho em dois, algo cujo motivo não entendi muito bem. Mas claro que isso não tem a ver com o tradutor, então vamos adiante.

Drago lança mão do recurso de delimitar uma das frases da longa sentença inicial entre travessões para torná-la mais clara e inteligível. É um recurso que, ao menos na edição que eu encontrei de 12 Years a Slave, o original também usa, embora aplicado em uma frase diferente daquela que o tradutor resolveu apartar do restante. Nesse sentido, acho que a tradução de Caroline Chang para a Companhia é mais eficiente em conseguir preservar o ritmo da longa frase original sem precisar de parênteses ou travessões. É interessante notar que ao longo do trecho todo Drago parece optar por um andamento mais entrecortado por pronomes e conetivos.

O fim da primeira frase na edição da Seoman também me parece alterar sutilmente o original. Fiel ao tempo em que foi escrita, a prosa de Northup é mais cheia de circunlóquios, menos afirmativa, mais cheia de ressalvas, o que se percebe na forma indireta como ele afirma que o motivo da escrita do livro é o interesse público. No original ele escreve que seu relato ” would not be uninteresting to the public“. “Não seria desinteressante para o público”, literalmente, e nesse sentido o “não seria desprovido de interesse” da tradução de Caroline Chang parece mais preciso do que o “não poderia deixar de atrair o público”. Não ser desprovido de interesse e não poder deixar de atrair são duas coisas diferentes. Algo pode não ser desinteressante e ainda assim não atrair interesse algum, se é que me entendem.

Em outro ponto, Northup se refere ao quadro da escravidão montado pelas obras de ficção que se dedicaram ao tema. E aí admito que a opção de Drago por traduzir “their more pleasing as well as more repugnant aspects” por “os aspectos mais agradáveis – tanto quanto os mais repugnantes – do assunto” me provoca certa estranheza desconfortável, porque parece apelar a um sentido inadequado do “pleasing” original. Ao menos em português, a ideia de que a escravidão tenha um aspecto “agradável”, que “agrada”, parece fora do lugar.

São aspectos extremamente subjetivos, claro, mas confesso minha predileção pela tradução de Caroline Chang. A caixa de comentários fica, portanto, aberta a novas contribuições e à discordância – fundamentada, claro. Para encerrar, vamos ao trecho original, em inglês, para que vocês mesmos aí possam fazer sua própria análise:

“Having been born a freeman, and for more than thirty years enjoyed the blessings of liberty in a free State – and having at the end of that time been kidnapped and sold into Slavery, where I remained, until happily rescued in the month of January, 1853, after a bondage of twelve years — it has been suggested that an account of my life and fortunes would not be uninteresting to the public.
Since my return to liberty, I have not failed to perceive the increasing interest throughout the Northern States, in regard to the subject of Slavery. Works of fiction, professing to portray its features in their more pleasing as well as more repugnant aspects, have been circulated to an extent unprecedented, and, as I understand, have created a fruitful topic of comment and discussion.
I can speak of Slavery only so far as it came under my own observation—only so far as I have known and experienced it in my own person. My object is, to give a candid and truthful statement of facts: to repeat the story of my life, without exaggeration, leaving it for others to determine, whether even the pages of fiction present a picture of more cruel wrong or a severer bondage.”

Ricardo Alexandre e a música dos últimos 20 anos

24 de janeiro de 2014 0
Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Como jornalista Ricardo Alexandre acompanhou de perto as últimas duas décadas do cenário musical brasileiro. Passou pelas redações das revistas Bizz, General, Superinteressante, Carta Capital, Capricho, Revista MTV e dos jornais Folha de São Paulo e Estadão. Foi também gerente de conteúdo do site Somlivre.com e diretor de redação na última fase da revista Bizz, em meados dos anos 2000. É também reconhecido como autor de Dias de Luta, um dos melhores levantamentos jornalísticos sobre a música do Brasil, uma grande reportagem abrangente sobre a chegada do rock ao Brasil e o estouro do gênero a partir dos anos 1980. Considerado ainda uma referência após uma década, o livro foi relançado em edição comemorativa no ano passado pela editora gaúcha Arquipélago (leia entrevista aqui).

Agora, Ricardo Alexandre retorna à música como tema no seu novo livro, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar (Arquipélago Editorial, 256 páginas, R$ 34,90). O tom, contudo, é outro. Se Dias de Luta era uma reportagem com apuração intensa, Cheguei Bem a Tempo… assemelha-se mais a um livro de memórias. Não é Ricardo Alexandre contando a história de um período musical, mas relatando sua própria história como um coadjuvante no universo da música – ainda assim, apresentada com um detalhado pano de fundo. O novo livro abre os trabalhos exatamente no ponto em que Dias de Luta parou. E, em 50 textos curtos, perpassa a música brasileira dos anos 1990 e 2000: a entrada em cena de bandas nacionais que mudaram o panorama da música, como Skank, Raimundos, Charlie Brown Jr; a dominação da indústria por uma visão mercadológica e padronizada; a queda final do rock e de parte da imprensa musical com ele – inclusive a Bizz que Ricardo Alexandre dirigia. Por telefone, Ricardo Alexandre concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Embora esse livro não seja estritamente uma continuação, pelo viés mais pessoal adotado, em que momento veio a ideia de fazer um novo livro abordando o período posterior àquele vislumbrado em Dias de Luta
Ricardo Alexandre – Eu acho que a ideia desse livro me rondava desde que o Dias de Luta foi lançado, mas era uma coisa que me parecia distante e muito pouco provável. Essa ideia voltou com uma certa força quando eu comecei a pensar no relançamento do Dias de Luta, quando houve a possibilidade de o livro sair em uma edição comemorativa dos 10 anos do livro, e essa ideia começou a ser conjecturada e surgiu uma editora interessada, a Arquipélago, aí de Porto Alegre. Aí essa sequência ganhou sentido para mim. O passo seguinte foi pensar no formato, de fato que fosse ao mesmo tempo relevante para o leitor mas totalmente diverso do Dias de Luta. Aí chegamos a esse formato de posts, o livro funciona como uma coleção de postagens, tanto que surgiu a ideia de ele estrear primeiramente em um blogue.

ZH – Sim, ele foi publicado como um blog no portal do Msn.
Alexandre – Sim, eu ainda mantenho o blog, publicando agora coisas mais atuais, mas o contrato com o msn foi formado por conta do projeto do livro.

ZH – O fato desses anos abordados em Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar coincidirem com seu período de atuação na imprensa musical foi o que o levou a escolher um formato mais pessoal, mais aparentado com o depoimento e menos com a grande reportagem que era o livro anterior?
Alexandre – Sem dúvida, foi exatamente isso que me manteve longe da ideia por esses anos todos. Porque o formato que me vinha na cabeça era o mesmo usado no Dias de Luta. Só considerei a possibilidade de fazer outro formato quando esta prestes a completar 20 anos de carreira, quando eu comecei a ser mais acionado ou requisitado para falar a respeito dessa geração dos anos 1990. Aí eu vi que de alguma maneira eu também fazia parte daquela história e que fazia sentido esse formato mais pessoal.

ZH – Ao mesmo tempo, este é um dos primeiros livros em português a tentar elaborar uma crônica das radicais transformações no ramo da música nos últimos 20 anos: a digitalização da música, o virtual desaparecimento do CD, a dúvida sobre como
Alexandre – Sem dúvida isso me despertou como assunto, mas não foi a fagulha inicial. Eu arriscaria dizer que essa fagulha foi tentar discutir a mídia, o meu papel como jornalista. É uma movimentação que considero muito interessante e que tem começado a surgir de uns anos para cá: algo que me chamou a atenção foi o trabalho do jornalista Paulo Nogueira no blog Diário do Centro do Mundo. O Paulo é uma pessoa com quem já trabalhei, eu o cito no livro e tudo, eu vi ali um esforço dele em tentar colocar a mídia como um objeto a ser discutido, assim como os objetos que a mídia discute. Isso foi uma coisa que me influenciou bastante, a possibilidade de discutir o ambiente em que eu estava inserido, o ambiente das redações, da MTV, e o interesse que há em torno disso ficou muito claro com os comentários sobre o final das trasmissões da MTV, o interesse pela revista Bizz… A fagulha original para que o livro tivesse essa toada foi essa. E no meio do caminho eu percebi que esse trabalho dizia muito respeito aos bastidores da indústria cultural como um todo, e aí entra de tudo: festivais, indústria fonográfica.

ZH – O título, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar, alude a um episódio real que você acompanhou. Mas também pode ser lido, metaforicamente, como uma alusão ao cenário musical, as gravadoras, a indústria do CD. Esse é o “palco que desabou”?
Alexandre – Sim, claro. Mas eu acho que a minha mente talvez esteja mais focada na parte do “cheguei bem a tempo” do que na do palco desabando. É quase uma paráfrase daquela frase que eu cito no livro: “cheguei muito tarde para um mundo muito velho”, eu acho que eu me coloco um pouco ali. O fato de eu fazer parte de uma espécie de última geração que ainda viveu o charme de escrever e trafegar no mundo musical. As pessoas têm reforçado bastante esse aspecto melancólico do livro, de tal maneira que eu acredito que ele acabe traduzindo uma certa frustração. Por outro lado, eu acredito que tudo é cíclico e que a gente deve passar em algum momento por um período de maior recuperação desse charme de escrever.

Os mineiros do Skank

Os mineiros do Skank

ZH – Quando conversamos por ocasião do relançamento de Dias de Luta, no ano passado, você comentou que a sua impressão é que o cenário musical hoje é menos uma arena pública e mais um conjunto de tribos ligadas por gostos afins, o que fazia com que artistas não precisassem mais passar por um circuito que os faria tocar para um grupo de pessoas que não tinham motivo para gostar de seu trabalho. Lendo o livro de agora, você parece descrever a banda Los Hermanos como uma espécie de marco desse cenário, ao cercar-se de um grupo de fãs que os veneram acriticamente, como um culto.
Alexandre – Interessante. Nunca tinha pensado no Los Hermanos desse jeito que você descreveu tão bem. Acho que de fato é uma banda que se alicerçou sobre um culto que eles mesmos alimentaram. Cara, é que eu vejo esse período retratado no meu livro com uma dobra ali muito clara, o momento em que o Brasil se torna um grande mercado de discos. Ali eu acho que algma coisa se rompe, eu acho que aquele romantismo, aquela naturalidade que havia nos anos 1980 começa a se perder. A gente começa a ver a indústria se tornando muito mais “industrial” mesmo. E esses processos mais naturais de amadurecimento da arte começam a ficar truncados. Essa característica de o artista ter de enfrentar um público que não é o seu acaba se perdendo, e eu acho que até meados dos anos 1990 isso ainda existia. Eu me lembro de muita clareza do Skank no palco do Hollywood Rock, ou os Raimundos tocando pela primeira vez na Globo… Ainda havia esse sabor do breakthrough, de você romper um estágio para entrar em outro… Mas acho que depois, quando os departamentos de marketing tomam as músicas pelas mãos, não só essa característica, mas várias outras ligadas ao amadurecimento do artista ficaram muito embaralhadas.

livrochegueiZH – O formato mais pessoal parece ter dado mais liberdade para exercitar uma veia opinativa que faz declarações por vezes polêmicas e por vezes inusitadas.
Alexandre – É que na verdade, e eu gostaria que isso tivesse ficado claro, ou ao menos mais claro do que eventualmente ficou, essa é a minha história. Talvez essa seja a grande diferença do Dias de Luta. O Dias de Luta tem uma pretensão de ser um retrato com mais acuidade das proporções dos anos 1980. E este livro não tem essa pretensão. Alguém me chamou a atenção: “cara, você não falou nada do Sepultura“. E é verdade, eu não falei, porque eles não fizeram parte da minha vida, e o que eu talvez precisasse dizer sobre o Sepultura já estava lá no Dias de Luta. Cheguei a pensar, depois, que devesse ter falado, mas o fato é que, se eles não vieram à mente em um primeiro momento, é porque o formato do livro os excluiu naturalmente. Por outro lado, bandas irrelevantes, como a Catedral, têm um espaço generoso no livro, porque teve a ver com a minha história. Então acho importante esclarecer isso para o leitor para ele não levar gato por lebre.

ZH – Seu livro fala sobre a retomada da Bizz, mas ao analisar as questões que levaram ao segundo e definitivo fim da publicação, você em nenhum momento menciona também que essa segunda fase da revista foi aquela em que ela precisou enfrentar a concorrência da Rolling Stone, que chegou no Brasil na mesma época.
Alexandre – Na minha opinião, as questões da Bizz estavam muito ligadas ao DNA daquela operação, não tinham muito a ver com o mundo exterior. Pelo contrário. Como eu já disse em algumas entrevistas, o surgimento da Rolling Stone veio confirmar algumas teorias que eu defendia ali dentro da Abril. Como o fato de que a revista precisava ter mais opção em banca, mais investimento em marketing, que precisava custar um pouco mais barato. Isso acabou não entrando no livro por questões de espaço, mas uma capa da Rolling Stone com o Coldplay foi o que me fez dormir tranquilo. Porque a capa era idêntica à da Bizz, as chamadas de capa eram idênticas, as matérias em paralelo eram semelhantes, e eu particularmente acredito que a nossa reportagem sobre a vinda do Coldplay era mais interessante. E no entanto, eles venderam 10 vezes mais. Por quê? Tenho convicção de que não foi por motivos editoriais, porque no editorial ambas eram muito semelhantes. A Rolling Stone em nenhum momento me desestimulou.

ZH – A cena roqueira de Porto Alegre também ganha muito mais destaque neste livro do que em Dias de Luta. É nos anos 1990 que você começa a tomar mais conhecimento dela como jornalista?
Alexandre – Eu tinha uma predileção pessoal pelo que acontecia aí. Eu sempre gostei do rock dos anos 1960, que era uma influência muito comum aí em Porto Alegre para as bandas dos anos 1990. E também porque eu via aí uma espécie de peça de resistência da profissionalização marquetológica da música. Aí a gente ainda conseguia focos de pessoas que trabalham com viés artístico. Me parecia que aí ainda havia se preservado algumas características do romantismo do rock brasileiro dos anos 1980. Então foi por isso. É um cenário que eu acompanhei muito de perto e do qual gosto muito até hoje.

Vinicius e suas parcerias

09 de outubro de 2013 0
O poeta e compositor Vinicius de Moraes

O poeta e compositor Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes não era muito adepto do “preciso aprender a ser só” dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle. Casou nove vezes e seus trabalhos mais marcantes e conhecidos são fruto de parcerias com grandes nomes da MPB. A história da música de Vinicius é, assim, também uma crônica de suas grandes amizades, e é esse o caminho que tomam Wagner Homem e Bruno De La Rosa no livro Histórias de Canções: Vinicius de Moraes, sobre os bastidores íntimos da criação de grandes canções do poeta.

Histórias de Canções:Vinicius de Moraes é o quarto exemplar de uma coleção que teve início em 2009 com o lançamento de um volume dedicado a Chico Buarque. Wagner Homem, organizador do site oficial de Chico, decidiu escrever o primeiro livro depois de ver o grande número de perguntas que inundavam a página sobre os bastidores da composição desta ou daquela canção. Na sequência, teve origem a coleção, com volumes dedicados a Toquinho (com João Carlos Pecci, 2010) e Tom Jobim (em parceria com Luiz Roberto Oliveira, 2012). Pela mesma série, Paulo César Pinheiro já escreveu o livro de suas próprias canções. Neste volume, Homem se une ao cantor e compositor Bruno De La Rosa para registrar as histórias, causos e anedotas por trás dos grandes sucessos de Vinicius.

Pela própria natureza do projeto, o livro não traz muitas surpresas ou contribui para mudar a imagem pública que a esta altura está cristalizada no imaginário nacional sobre Vinicius. Nem seria o caso. O livro alinhava casos que mostram Vinicius no máximo de sua persona “poetinha”: o homem apaixonado, lírico, faminto de vida e de amores e que tinha a mania de nomear as coisas no diminutivo. A estrutura do livro se organiza, diferentemente de outros exemplares da série, menos por períodos cronológicos e mais pelos parceiros de composição do poeta: Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Toquinho, entre outros.

Ao lado das letras das composições (que, na página, parecem algumas vezes um pouco desenxabidas, amputadas de seu casamento orgânico com a melodia, fazendo lembrar das considerações de Antonio Cicero sobre a natureza heterotélica da letra de música, ou seja, sem finalidade em si própria, mas na canção de que faz parte), Homem e De La Rosa alinhavam o contexto do período, um pouco da carreira e da biografia de Vinicius e de cada parceria e as circunstâncias e anedotas que envolvem a criação de uma música em particular. Uma delas: Vinicius se encontrou certa noite com Baden Powell em seu apartamento e passaram ambos a madrugada bebendo uísque, com o poeta enrolando para pôr letra na melodia recém apresentada de Samba em Prelúdio. Quando já raiava o dia e a terceira garrafa de uísque era história, Baden Powell conseguiu por fim arrancar de Vinicius a razão de seu desconforto: a melodia, em sua opinião, era um plágio, mesmo que não intencional, de Chopin. A confusão só foi dirimida acordando-se a mulher de Vinicius, Lucinha Proença, sua quarta esposa, com quem foi casado entre 1957 e 1963, pianista e conhecedora de Chopin. Depois que Lucinha ouviu a música, veio o veredito: não era Chopin. Só aí Vinicius sentou-se para fazer a letra, não sem antes largar um teimoso “Então Chopin esqueceu de fazer essa”. A história era contada pelo próprio Baden em shows, como este.

Há mais histórias, claro. Se com Baden a parceria era regada a madrugadas de conversa e litros de uísque, com Carlos Lyra a dinâmica era outra: Lyra deixava a música registrada em um gravador na casa do poeta e este trabalhava a letra em cima. Toquinho, outro de seus parceiros constantes, havia tocado violão em um disco italiano de Sergio Endrigo com versões das músicas de Vinicius, lançado em 1970. O poeta gostou do resultado e ligou para falar com o jovem violonista, que quase desligou achando que era trote. O telefonema rendeu a Vinicius mais um grande“parceirinho”.

É um projeto saboroso e interessante, mas, em seu quarto volume, revela alguns dos problemas de se trabalhar sempre com os mesmos nomes em um universo tão interconectado como a MPB. Depois de volumes dedicados a Chico, Tom Jobim e Toquinho, é inevitável que algumas histórias deste livro repitam, com apenas ligeiras variações, coisas já contadas nos títulos anteriores – principalmente os de Tom e Toquinho, que mantiveram com Vinicius relação intensa de amizade e parceria. Por exemplo, até algumas frases são as mesmas no causo de como Toquinho conseguiu musicar a letra de Tarde em Itapoã, que Vinicius pretendia oferecer a Dorival Caymmi. Segundo contam os dois livros, com as mesmas palavras praticamente, Toquinho “numa noite, antes de embarcar para São Paulo,simplesmente pegou a letra e viajou.” Mesmo Chico, que só foi parceiro de Vinicius em seis trabalhos, passa pelo repeteco, como o episódio em que o poeta, mordido de ciúmes da parceria entre Toquinho e Chico, insistiu para que seu nome constasse na composição de Samba de Orly, apesar de sua única contribuição para a canção, a troca de um verso, tivesse sido derrubada pela censura. Para quem se interessa por um ou outro personagem isolado, não faz muita diferença. Quem pretender ler todos os volumes talvez se incomode.

O livro Histórias de Cançoes: Vinicius de Moraes

O livro Histórias de Cançoes: Vinicius de Moraes

Pedras da Memória

09 de janeiro de 2013 0

Alguns netsuquês da coleção de Edmund de Waal, tema do livro. Fotos: reprodução

Estudos recentes mostram que a memória não é como os filmes, que são sempre iguais. Nossas lembranças assemelham-se mais a uma peça de teatro: parecem sempre as mesmas, mas cada vez que são evocadas são reconstruídas do zero – eventualmente incorporando alguns detalhes e abandonando outros. O livro A Lebre com Olhos de Âmbar (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza. Editora Intrínseca, 318 páginas), escrito por Edmund de Waal, mostra que a memória também pode ser lapidada com a sutileza e riqueza de detalhes de um artesão que talha peças de marfim do tamanho de uma caixa de fósforos.

De Waal é um ceramista célebre no Reino Unido. Durante cinco anos, colocou seu trabalho em segundo plano para dedicar-se a investigar a história da família e de uma magnífica coleção de 264 netsuquês (pequenas esculturas japonesas, talhadas em madeira ou marfim, como na imagem que ilustra o post), adquirida por um antepassado no final do século 19 – quando o orientalismo virou mania entre artistas e colecionadores.

Com formação em literatura em Cambridge, o autor construiu um livro extraordinário, que combina relatos de viagens (visitou todas as cidades que hospedaram a coleção da família ao longo de mais de cem anos), reportagem, história (a narrativa acompanha desdobramentos de episódios como o Caso Dreyfus, na França, e a I e a II Guerras, além de mencionar figuras como Renoir, Proust e Rilke) e ensaio cultural. “Eu quero saber qual a relação entre esse objeto de madeira que giro entre meus dedos – duro, surpreendente e japonês – e os lugares onde esteve. Quero ser capaz de entrar em cada cômodo onde este objeto viveu, de sentir o volume do espaço, de conhecer os quadros nas paredes, de saber como era a luz que vinha das janelas. E quero saber em quais mãos esteve”, anuncia no prefácio do livro.

A narrativa se inicia na Paris de 1871, onde o milionário Charles Ephrussi (1849 – 1905), judeu de origem russa, compra a coleção de netsuquês de uma só vez. Ephrussi era amigo dos impressionistas e comprava seus quadros antes mesmo de serem pintados. Sob sua encomenda, Manet pintou o quadro Une Botte d’Asperges, e Renoir chegou a incluí-lo no fundo de uma pintura, O Almoço dos Remadores, na qual aparece de cartola. Dândi sofisticado, impressionou tanto o jovem Marcel Proust que se tornou uma das fontes de inspiração para o Charles Swann de Em Busca do Tempo Perdido.

De Paris, a coleção migra para um palacete da Viena do começo do século 20, como presente de casamento do tio Charles para o sobrinho Viktor Ephrussi (1860 – 1945). Ali a coleção é instalada em um quarto de vestir, já que os netsuquês já não estão tão na moda assim, e viram brinquedo nas mãos dos filhos de Viktor. Ao longo dos anos, a poderosa família judia vê o antissemitismo ganhar forças lentamente até tornar-se uma ameaça terrivelmente concreta. Com a anexação da Áustria pela Alemanha, em 1938, Viktor e a mulher são obrigados a deixar tudo que têm para trás, inclusive a preciosa coleção de esculturas – e a forma como ela é resgatada para a próxima geração é uma das encantadoras surpresas do livro que não vale a pena estragar aqui. Um dos filhos de Viktor, Ignace (1906 – 1994), tio de De Waal, é o próximo herdeiro da coleção, que leva consigo para o Japão, onde fixa residência depois do final da II Guerra. É em Tóquio que o autor do livro vai encontrar a coleção de netsuquês pela primeira vez, durante uma temporada de estudos nos anos 1990.

De Waal (1964) é o atual guardião da coleção. Os objetos foram instalados em sua casa em Londres – em uma estante de bronze com prateleiras de vidro e portas sempre destrancadas, para que seus filhos possam brincar com as estatuetas. A história da coleção continua. Esse delicado e precioso livro, narrado com elegância e riqueza de detalhes, terá igualmente longa sobrevida na memória dos leitores – muito além da última página.

Ficção da desmemória

19 de novembro de 2012 0

O filme Amnésia (2000) chamou a atenção para o talento do cineasta Christopher Nolan - mais tarde elogiado diretor das adaptações de Batman para o cinema. Montado em blocos narrativos ordenados de trás para diante, para dar ao espectador a mesma noção de desorientação na narrativa vivida pelo protagonista, trazia Guy Pearce como um cara que, após ser atacado por um criminoso e ficar à beira da morte, desenvolve uma condição neurológica que o impede de fixar memórias recentes. Tudo o que o sujeito vive e testemunha simplesmente desaparece de sua cabeça após um determinado período que agora não me lembro se era de sete ou de 15 minutos. Como ele está obcecado por encontrar o ladrão que matou sua esposa e o deixou naquela situação, ele toma notas obsessivas em polaroides que usa para se guiar na selva desmemoriada dos contatos cotidianos. Quando algo é de fato muito importante, ele tatua na pele como um lembrete. Apesar da engenhosidade e da qualidade narrativa do filme, há um furo básico de roteiro na história que somos convencidos a deixar de lado, já que Amnésia é tão bacana: o personagem toma notas e tatua mensagens para si mesmo porque sabe que sua memória é fugaz, mas mesmo esse conhecimento refere-se a uma condição posterior ao tal ataque. Logo, pelos próprios postulados narrativos do filme, passados 15 minutos (ou sete, faz tempo que vi o filme), ele não deveria lembrar de nada, inclusive do fato de não se lembrar de nada depois de sete minutos (ou 15, você entendeu).

Cito aqui esse episódio para mostrar como histórias envolvendo perda de memória recorrente podem ser tão intrincadas quanto as que abordam viagem no tempo, com o risco de deixar pontas soltas não importa o quanto o resultado seja bacana. Outra produção cinematográfica que lida com esse mote é um dos poucos filmes simpáticos e assistíveis de Adam Sandler: Como se Fosse a Primeira Vez (2004), no qual ele se vê condenado a cortejar dia após dia a mesma garota vivida por Drew Barrymore, vítima de um acidente de trânsito que também a deixa impossibilitada de manter memórias recentes depois de 24 horas. Todos os dias, mesmo anos após o acidente, ela acorda acreditando viver ainda a mesma manhã anterior ao desastre. Embora regido pela mesma lógica bobinha de qualquer comédia romântica, o filme se vê compelido a arranjar um final feliz que é, também, condizente com a proposta da memória: o casal fica junto, blá, blá, mas ela não recupera a memória perdida, e precisa ser relembrada todas as manhãs de que casou e já tem uma filha, e que a vida seguiu depois daquela manhã.

E por que falei de dois filmes em um blog de livros? Na verdade eu não estava falando necessariamente dos filmes, e sim da força existente na ficção da desmemória. Justamente por a memória ser uma ferramenta fundamental para a invenção da própria identidade, apagar a memória de um personagem ou impedi-lo de adquirir novas lembranças é levar a narrativa a um ponto de abismo que sempre provocará curiosidade e representará um desafio para que a história que se segue a esse recurso tão radical seja digna não apenas do recurso em si, mas da personagem vitimada por ele. É difícil dotar de dignidade um protagonista que não tem uma das ferramentas mais comuns à construção pessoal de qualquer dignidade: a possibilidade de selecionar, dentro de suas próprias memórias, aquelas que corroboram sua própria narrativa pessoal – o choque dessa narrativa com as narrativas dos outros é também um tema de eleição da grande arte por ser outro dos aspectos fundamentais da vida.

Antes de Dormir (Record, tradução de Ana Carolina Mesquita), thriller que marca a estreia literária do inglês S.J. Watson, é, a seu modo, outra obra a encarar esse desafio. É, podemos dizer, uma versão dark da premissa que Como se Fosse a Primeira Vez desenvolveu como comédia romântica – e acrescentando a dificuldade adicional de estar bastante consciente do furo de roteiro essencial em Amnésia: se você não guarda memórias novas, mesmo esse fato está fora de seu alcance. É o que acontece com Christine, a protagonista do livro. Já na primeira cena, ela acorda na cama com um homem que não conhece e sem lembrar de como chegou ali. O homem é grisalho e usa uma aliança – conclusão imediata: em consequência de uma noite bem pegada, ela foi para a cama com um homem casado. Numa escapada ao banheiro para tentar organizar as ideias, ela tem o verdadeiro choque: seu rosto, seu corpo, suas mãos, parecem ter amadurecido da noite para o dia:

“O rosto que vejo me olhando de volta não é o meu. O cabelo não tem volume e está bem mais curto do que costumo usar, a pele nas faces e sob o queixo é flácida, os lábios, finos, a boca, curvada para baixo. Dou um grito, um grito contido sem palavras que se transformaria em um berro de choque caso eu o deixasse sair, mas então noto os olhos. A pele ao redor deles está marcada com rugas, é verdade, mas apesar de tudo vejo que são os meus olhos. A pessoa no espelho sou eu, porém com vinte anos a mais. Vinte e cinco. Mais.”

Essa é apenas a primeira surpresa relacionada com os despertares de Christine. O homem que dorme a seu lado a coloca a par de tudo: ele se chama Ben, e a cada dia é obrigado a recontar a ela a história de ambos. Há fotos dela no banheiro, recados pendurados, alguns lembretes para que tal despertar seja mais suave, mas ainda assim, o choque é real. Depois que Ben sai para o trabalho, ela fica sozinha em uma casa que, para todos os efeitos, não conhece, munida de um telefone celular para emergências – embora ela não saiba muito bem o que é um celular sem que o marido explique, já que sua perda de memória parece anterior à popularização do aparelho. Só que a determinado momento, o celular toca. É um jovem médico com quem Christine vem se tratando, aparentemente às escondidas do marido. E ele a informa onde procurar um diário que ela vem mantendo há algumas semanas após cada dia de consulta. Depois que ela encontra o diário, a narrativa pula para as diversas entradas registradas nas páginas, cobrindo cerca de um mês antes da primeira cena, a que testemunhamos e que abre o livro.

Cada entrada, narrada também em primeira pessoa, acrescenta uma camada de dúvidas e de versões sobre a história de Christine: ela ficou sem memória depois de ser atacada em um hotel, onde havia ido esperar o marido para um encontro romântico. Não, talvez não fosse o marido, e sim um amante. Talvez a abnegação do seu marido, que tem cuidado dela desde então, tenha um pouco de vingança pelo ultraje? Ela teve ou não um filho – cujas evidências parecem ter sido apagadas? Por que ela parece ter se afastado de sua melhor amiga, e que relação isso pode ter com sua condição? Quem é o jovem doutor Nash, que a vem aconselhando a manter o diário – é um homem desinteressado ou tem sua agenda secreta? Por que ele vem sendo mantido escondido de Ben mesmo que o tratamento de registrar as lembranças pareça estar dando resultado, uma vez que algumas memórias sem referência clara às vezes boiam até a superfície?

São vários os desafios, como comentamos, desse tipo de narrativa. Como romance é um thriller, a “trama se complica”: a estrutura básica de uma história de suspense exige que a cada momento uma nova peça para a montagem do quebra-cabeça seja apresentada ao leitor por meio do juízo avaliativo do detetive (e um bom leitor por vezes discorda desse juízo, chegando antes do fim do livro à resolução do mistério). Só que neste caso, a figura que seria a do detetive é também a da vítima: Christine só tem acesso às descobertas que anota em seu diário, e a escrita é a versão depurada do que ela viu ou viveu. E ela não tem como manter anotações de toda a sua vida, até porque depois de um determinado tempo tais anotações se tornariam inúteis porque ela não teria como ler tal massa de material escrito. O que Christine tem não é um juízo avaliativo, uma vez que seu conhecimento das pessoas que compõem sua vida presente parece ser nulo: ela tem apenas (e portanto, também o leitor, uma vez que o livro é narrado em primeira pessoa por Christine, no presente e nos diários) relatos de alguns fatos passados e versões para as perguntas mais importantes da narrativa.

Watson se sai bem desse labirinto que criou para si mesmo, embora um recurso utilizado ao fim da história para que Christine – e o leitor – tenha finalmente um quadro completo de tudo o que aconteceu com ela comprometa um pouco a solidez da narrativa por lembrar um artifício de desenhos animados da Hannah Barbera. Ainda assim, a forma como determinadas coisas ficam necessariamente em aberto ao fim do livro (leia e você vai entender) está de pleno acordo com o desenvolvimento da narrativa. E o autor consegue valer-se com competência do fato de que alguém sem memória, e portanto sem a capacidade de saber quem é, se torna extremamente frágil.

Memórias dos Carcereiros

02 de outubro de 2012 1

Drauzio Varella. Foto: Renato Parada, divulgação

Hoje Drauzio Varella é o médico mais pop do Brasil – apresenta quadros periódicos no Fantástico no qual realiza campanhas de divulgação de medicina e saúde para o grande público e é autor de uma dezena de livros, incluindo literatura infantil e infantojuvenil. A gênese desse processo, contudo, está em seu best-seller Estação Carandiru, publicado em 1999. Por telefone, de seu consultório em São Paulo, Varella explicou por que resolveu voltar agora, em Carcereiros (Companhia das Letras, 232 páginas, R$ 33), às suas recordações do Carandiru, mas desta vez pelo ponto de vista dos homens responsáveis por manter a ordem e guardar os detentos. De quebra, falou também sobre as mazelas do sistema prisional e do massacre do Carandiru. Há exatos 20 anos, uma invasão da Polícia Militar ao Pavilhão 9 da Casa de Detenção de São Paulo (o nome oficial do Carandiru), que havia caído na mão de prisioneiros rebelados, terminou com uma trilha de sangue e de 111 detentos mortos.

Zero Hora _ Seu livro Carcereiros revisita o espaço e a história do Carandiru no ano em que o massacre completa 20 anos. O livro foi escrito para marcar essa efeméride?
Dráuzio Varella _
Não. Foi pura coincidência, não havia nenhuma intenção premeditada.

ZH – Passados 13 anos do primeiro livro, o que o motivou a voltar para aquele ambiente e para aquelas recordações neste livro?
Varella –
Quando escrevi Estação Carandiru, a repercussão foi tão grande que eu fiquei até assustado. Eu não queria, de modo algum, criar aquele debate todo que houve, e as consequências todas, o filme, tudo aquilo. Uma discussão teórica mesmo sobre a cadeia, sobre o que estava acontecendo no sistema penitenciário. Eu só queria contar aquela história, não tinha pretensão de nada além disso. E ficou assim, e passaram-se todos esses anos sem eu mexer ou tocar nesse assunto. E um dia eu fui escrever uma história que tinham me contado, porque quis guardá-la, pensei: vou escrever antes que eu me esqueça. A história era a de uma fuga por um túnel. No Estação Carandiru eu contei essa história pelo ponto de vista dos presos. E aí o agente penitenciário que era o chefe do pavilhão onde houve essa fuga contou certa noite como ele foi ludibriado pelos acontecimentos. Ele recebia a denúncia de que estavam fazendo um túnel mas não conseguia encontrar. E eu quis escrever essa história. Gostei tanto de voltar a esse tema, de descrever as situações de cadeia. Mas isso eu já contei de um jeito, agora é legal conhecer o outro lado da história. E ao escrever essa história pensei que poderia render um livro contar a narrativa pelo lado dos carcereiros. Porque essa história eu nunca li.

ZH – O senhor sentia já em Estação Carandiru que esse lado da história havia sido pouco abordado?
Varella
– Naquela época não. Nem pensei nisso. Naquela época eu quis mesmo contar como era aquela cadeia, como funcionava na prática, quem eram as pessoas que estavam lá, quais eram as regras de procedimento, as leis internas. Foi isso que me interessou naquele tempo. Eu falo dos funcionários e tal, mas eu dedico no Estação… só um capítulo a eles, em uma abordagem mais superficial.

ZH – Os dois livros parecem ter estruturas simétricas. Estação Carandiru enumera histórias do cotidiano da cadeia e termina, em seu último capítulo, com a descrição do massacre. Carcereiros começa com uma história do massacre, a dos carcereiros que conseguiram evitar que a chacina se estendesse ao Pavilhão 8, e depois vai enfileirando histórias. Esse espelhamento foi voluntário?
Varella –
Isso foi intencional, abrir com essa história, porque sempre achei essa história um relato que precisava vir a público. É uma cena tão impressionante para mim, desde aquela época. Porque quando aconteceu aquela tragédia toda tinha meia dúzia de homens no Pavilhão 8, onde ficavam mais de mil presos. E eles naquela confusão toda conseguiram trancar esses presos todos e impedir que a PM invadisse o 8, o que tornaria a tragédia muito mais grave, com muito mais mortos. E no fim foram alguns homens que conseguiram isso arriscando a própria vida, para tentar manter a ordem num pavilhão ao lado do outro em que estava acontecendo toda aquela tragédia. Essa possibilidade caracteriza bem um lado da função. Porque quando se fala de carcereiros, a população acha que aquilo é um bando de gente ruim, corruptos, e na verdade tem gente ótima lá, e mesmo gente boa que de vez em quando faz uma coisa errada. A vida não é assim em preto e branco, as pessoas são às vezes boas, más, honestas, desonestas… E comecei com esse episódio porque era uma cena forte porque achei que ele era forte e que mostrava o tipo de trabalho que essa gente faz.

ZH – Seu retrato dos carcereiros no livro é uma tentativa de dar dimensão humana ao agente penitenciário, um personagem que muitas vezes goza da mau conceito, associado a brutalidade e corrupção?
Varella –
Sim, mostrar o outro lado. Acho que de alguma forma consegui mostrar como acontecem essas crises e de que forma elas são resolvidas. Porque é engraçado: de um lado a sociedade contrata esses homens e os coloca lá nas piores condições de trabalho. E de outro, critica quando eles erram. Naquela época não havia nenhum treinamento. Isso é que era triste. Porque você joga no fogo gente que não está treinada, que não está preparada para enfrentar aquela confusão toda. E quando eles erram, você execra.

ZH – Carcereiros é um livro no qual o senhor parece mais à vontade para emitir críticas pessoais ou análises sobre os fatos e sobre o cenário. A distância do primeiro livro o deixou mais confortável para uma avaliação mais pesada, mais pessoal?
Varella –
No Estação Carandiru eu procurei me inventar. Eu procurei contar aquela história de como era a cadeia, etc. O narrador não dava a opinião dele a respeito de nada, e eu fiz questão de que fosse assim, porque eu queria que não fosse o narrador a figura principal do livro. Neste novo livro também não é, mas agora eu estou há 23 anos frequentando cadeias, e achei que o leitor esperaria uma reflexão em alguns momentos. E achei que era esse o lugar de colocá-las. Elas não são muitas, mas eu discuto vários aspectos: a superlotação das cadeias, a tortura, a necessidade de construção de novas cadeias, a impossibilidade de construir cadeias na velocidade que teria de ser construídas para abrigar essa população inteira.

ZH – O senhor chega a elencar algumas propostas de solução, como a diminuição radical das penas de prisão, a separação entre criminosos primários e os profissionais do crime. O senhor defende também a personalização da pena.
Varella û
A personalização da pena existe. O que não existe é a personalização do cumprimento da pena. Porque às vezes tem um menino que fez uma besteira na vida e vai parar numa cadeia dominada por facções e vai ter contato com os piores bandidos, e não tem sentido fazer as coisas dessa maneira.

ZH – A neutralidade do narrador em Estação Carandiru foi apontada muitos críticos como um problema porque parecia legitimar os atos dos criminosos que eram personagens do livro. Neste livro o senhor parece avançar mais até mesmo no juízo de alguns personagens e das situações. O senhor não hesita em usar o termo “maldade” como um elemento presente no ambiente do presídio.
Varella –
Lógico. Não é uma escola de moças. É um ambiente onde existem as piores violências, entre gente que cometeu os piores crimes na rua. O ponto, para mim, é o que já comentei. Achei que cabiam neste livro essas reflexões. Que, insisto, não cabiam no outro livro. Porque ali eu estava descrevendo uma cadeia, o jeito que ela funciona. Quem tinha que tirar conclusão ali era o leitor. Porque quando você descreve. Eu me lembro que no Estação Carandiru eu descrevi uma cena de um cara que foi assaltar uma loja pertencente a um japonês. O dono disse que não ia abrir o cofre de jeito nenhum. Aí o ladrão pegou uma faca e espetou a mão do japonês em uma mesa. Você não precisa dizer que isso aquilo é uma crueldade, está implícito. O que o leitor vai achar, que é um ato de caridade? Um pouco desse tipo de crítica vem do fato de as pessoas quererem que venha um discurso acoplado àquele texto. Eu não queria fazer discurso nenhum, queria contar como a cadeia funciona, que há uma ordem, não é uma coisa de um matando o outro o tempo todo. A maioria do tempo a cadeia vive em paz. Quando você tem cela apinhadas a violência não aumenta, pelo contrário, diminui. Para mim o que me interessava, o que me fascinava, é que aquilo é um experimento da natureza que envolvia pessoas humanas. Muitos dizem: são animais. Não, eles são pessoas. A tendência nossa é considerar os bandidos como outros seres, e isso não é verdade, eles são seres humanos. Não são cachorros, não são cavalos. E neste eu também não faço julgamento de ninguém. Não sou eu que tenho de dizer se alguém é bom ou ruim. É o leitor quem vai julgar.

Corredores do Carandiru após o massacre. Foto: Niels Andreas, Folha Imagem

ZH – Passados 20 anos do massacre do Carandiru, que avaliação o senhor faz do episódio?
Varella –
Olha, o que aconteceu ali, além de ser um fato inaceitável, foi um absurdo, porque não havia necessidade nenhuma. Foi uma atitude absolutamente gratuita. Porque os presos haviam feito aquela bagunça, eles haviam matado alguns rivais na briga entre eles, ninguém sabe direito quantos, porque esses que morreram antes se misturaram com os outros. Mas eles estavam sozinhos, não tinham nenhum refém, o que aliás, foi uma imprudência da parte deles. Aí um idiota resolve invadir e “controlar a rebelião a qualquer preço”. Essa frase foi dita. O que aconteceu lá não tinha nenhuma necessidade. Não deixaram o diretor negociar, e isso me foi contado pelo próprio diretor. Imagina há quantos anos eu não venho ouvindo essa história, contada pelos mais diferentes lados, com todos os detalhes. O que tinha que fazer ali era cortar a água e a luz. Eles já haviam feito isso muitas outras vezes: corta a água e a luz e deixa para conversar no dia seguinte. Sem água, luz ou comida, a primeira coisa que fazem no dia seguinte é chamar para conversar. E aí o que o cara faz? Pega os PMs, dá a ordem de entrar, à noite, e dominar a qualquer custo, dá uma metralhadora e um cachorro na mão e espera que eles façam o quê? Eles entraram em um lugar que eles não conheciam, no escuro, sabendo que estava cheio de bandido, e já saíram atirando, não conversaram com ninguém.

ZH – Ainda hoje não é difícil, por incrível que pareça, encontrar quem defenda a chacina. É uma prova de que o nó do sistema penitenciário passa por essa animalização do criminoso, pela incapacidade de enxergar no preso um “outro” semelhante a si mesmo?
Varella –
O Estado faz uma coisa dessas e o cara diz: “É isso aí mesmo, morreram poucos, tinha que morrer uns 200, 300, tinha que matar todos”. Bom, se matasse todos, como eles querem, talvez resolvesse o problema, mas é difícil matar todos, e tem que matar os que estão lá dentro e os que estão na rua, não é? Esse é o primeiro ponto. Segundo ponto: Qual foi o resultado dessa violência toda? O Estado começou a perder o controle das cadeias, começaram a aparecer as facções, que sempre existiram, mas nunca tiveram o poder que têm depois do massacre. E foi um massacre. Isso não é uma opinião minha. Você conversa com qualquer agente penitenciário, qualquer diretor que tenha entrado em contato com o Carandiru, que tenha acompanhado o que aconteceu na cadeia, eles dizem: “tudo começou no massacre, daí em diante foi que a situação se deteriorou”. E olha o trabalho que está dando hoje para recuperar isso. Então, essa é uma atitude estúpida.

ZH – Há 10 anos, em uma entrevista para Zero Hora quando se falava em implodir o Carandiru, o senhor comentava que via a derrubada do edifício como a falência do modelo que ele representava, e que via positivamente um modelo novo que se tentava implantar, o de unidades menores com menos encarcerados. Como o senhor analisa esse novo modelo uma década depois?
Varella –
Olha, naquela época eu acho que estava certo. Eu vinha mesmo pensando: não tem cabimento fazer cadeias tão grandes. Com cadeias pequenas, para 600, 800 homens, você tem o controle mais fácil. Mas o que aconteceu? Com o aumento da criminalidade, essas cadeias que foram feitos para 800 tem 1,5 mil, 2 mil presos. Então nós construímos minicarandirus espalhados por aí. E isso é no Brasil inteiro. Você não encontra uma cadeia no Brasil que tenha o número de presos para o qual foi construída. Você construiu cadeias pequenas, para ter mais controle, e hoje estão apinhadas, celas para oito detentos têm 20. A questão é muito maior, você não consegue construir cadeia para toda essa gente. Ou nós atacamos esse problema pela raiz tentando diminuir o número daqueles que envereda pelo caminho da criminalidade ou não tem jeito. É uma guerra perdida, nunca vamos conseguir construir cadeias na velocidade necessária para prender todo mundo.

Scliar é homenageado em coletânea de ensaios

04 de setembro de 2012 0

A partir de 1962 a cidade de Scliar é a mesma cidade de Erico Verissimo e Dyonélio Machado; no entanto, o cenário é inteiramente outro. Nos dias subsequentes à ascensão do nazifascismo e à eclosão da grande guerra, intensificara-se o processo imigratório, e o Rio Grande multiplicou o contingente de judeus oriundos de diversas procedências. Logo definindo um significado considerável não só nas relações empresariais e comerciais, mas também no panorama da cultura e das artes, eles terminaram agrupados num bairro que adquiriu características próprias e inconfundíveis. Era o Bom Fim. O judeu e o Bom Fim tornaram-se sinônimos no mapa geográfico e também no mapa mental de Porto Alegre.
Pertencendo à geração dos filhos dos primeiros imigrantes, foi justamente isso que Scliar percebeu com notável intuição ao escrever os seus textos, ora resgatando a memória da infância translata nesse espaço singular, ora fixando tipos, usos, costumes, também um acervo lendário praticamente inesgotável que ele não hesitou em aproveitar no seu mundo fictício.  Então a cidade de Erico e Dyonélio era aquela mesma, mas já era outra. Direi desde logo que a´nasce um novo território na literatura brasileira. Nem Porto Alegre fora desenhada sob esse ângulo, nem o judeu fora inserido como protagonista no mosaico brasileiro que a narrativa veio compondo de Alencar em diante. No Bom Fim de Moacyr Scliar o imigrante judeu e sua descendência ganharam a cidadania literária.

O trecho acima é do ensaio Scliar e a Diáspora de Todos Nós, publicado pelo professor e crítico Flávio Loureiro Chaves na coletânea Tributo a Moacyr Scliar (Edipucrs, 220 páginas, R$ 30). O livro, organizado pelas professoras Maria Eunice Moreira, Ana Maria Lisboa de Mello e Zilá Bernd, reúne estudos críticos sobre a obra literária de Moacyr Scliar e depoimentos de pessoas que o conheceram. Scliar morreu em fevereiro de 2011, aos 73 anos.

No primeiro eixo, o dos estudos críticos, Loureiro Chaves aborda  a construção, por parte de Scliar, de uma ficção que adicionou os questionamentos de identidade do imigrante judeu à vertente local do romance urbano; Soraya Lani discute as interrelações entre Scliar e a narrativa bíblica de onde ele declaradamente buscava inspiração; Ilana Heineberg debate a maneira como Scliar reviu as utopias fundadoras do século 20 em seu último romance, Eu Vos Abraço Milhões; Marie-Hélène Paret Passos apresenta um panorama do acervo literário de Moacyr Scliar presente no centro de documentação Delfos, da própria PUCRS.

Na parte dos depoimentos, o escritor e atual secretário de Cultura Luiz Antonio de Assis Brasil relembra sua amizade com um dos mais prolíficos e generosos escritores do Estado; o irmão Wremyr Scliar retraça histórias familiares;, o jornalista Nilson Souza fala sobre a convivência com o escritor, também cronista de imprensa; Jean-Marie Ozanne, editor de Scliar em francês, e Phillippe Poncet, seu tradutor, também recordam o autor. Ao final, uma cronologia dá conta da publicação de sua vasta produção literária – Scliar lançou mais de 80 livros, publicando durante boa parte da vida mais de um volume por ano.

O livro será lançado nesta quarta-feira, às 18h, no saguão da Biblioteca Central Irmão José Otão, prédio 16 da PUCRS (Ipiranga, 6.681). O livro estará á venda no lançamento e depois estará em livrarias. Ou pode ser adquirido no site da editora (www.pucrs.br/edipucrs)


Queda eletrônica

03 de setembro de 2012 0

Mainardi entre os filhos Tito (E) e Nico (D). Foto: Ruy Teixeira, Divulgação.

Lançado há cerca de duas semanas pela editora Record, A Queda _ As Memórias de um Pai em 424 Passos, relato comovente do cronista Diogo Mainardi sobre a vida do filho mais velho, Tito, que nasceu com uma paralisia cerebral, já está em falta em algumas livrarias. Zero Hora publicou no último domingo, na revista Donna, uma entrevista com o autor (leia aqui).

Na edição desta semana da revista Veja, publicação em que Mainardi assinou suas polêmicas colunas durante vários anos, o livro já aparece no primeiro lugar na lista dos mais vendidos na categoria não ficção.

A Queda começa a ser comercializado em e-book na próxima quarta.

Confira, a seguir, a relação das livrarias onde o título estará disponível:

Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br)

Cultura (www.livrariacultura.com.br)

Curitiba (www.livrariascuritiba.com.br)

Copia (Submarino) (submarino.thecopia.com/home/index.html)

Livraria Abril (www.iba.com.br)

Livraria positivo (livros.mundopositivo.com.br)

Gato Sabido (www.gatosabido.com.br)

Um romancista histórico

01 de agosto de 2012 0

O escritor Gore Vidal

Admirado pela sua verve e sátira, pela mente aguçada e pela agilidade com que se exprimia, dando vazão a uma visão de mundo decepcionada com o que seu país se tornou, o americano Gore Vidal corre o risco de passar á história mais como personagem do que como autor. Seus livros, best-sellers e referência para uma época, hoje são menos citados quando se fala na grande literatura americana do século 20. Não é uma análise distante daquela que o próprio Vidal tinha de sua obra – ele mais de uma vez havia se referido a seu lugar na história americana como uma contrafação de Somerset Maugham, autor de livros com apelo de público em determinada época mas sem reconhecimento crítico. As razões para isso seriam desde o desprestígio dedicado à sátira – e Vidal foi um grande satirista – até o estranhamento provocado pela declarada ambivalência sexual do autor – em um dos ensaios de De Fato e de Ficção, no qual analisa A Vida dos Doze Césares, de Suetônio, Vidal afirma seu credo de que a “orientação natural” da maioria dos seres humanos seria a bissexualidade, reprimida desde a origem.

O crítico Harold Bloom arrisca uma explicação para esse lugar ainda incerto de Gore Vidal na literatura americana em um trecho de seu O Cânone Ocidental:

O romance histórico parece ter sido permanentemente desvalorizado. Gore Vidal certa vez me disse, com amarga eloqüência, que sua ostensiva tendência sexual lhe negara status canônico. O que parece mais provável é que as melhores ficções dele (com exceção do sublimemente afrontoso Myra Breckinridge) são famosos romances históricos – Lincoln, Burr e vários outros – e esse subgênero não tem mais direito à canonização, o que ajudaria a explicar o destino sombrio do exuberantemente inventivo Ancient Evenings [Noites Antigas], de Norman Mailer, uma maravilhosa anatomia da impostura e decadência que não poderia sobreviver à sua colocação no Antigo Egito do Livro dos Mortos. A história escrita e a narrativa de ficção se separaram, e nossas sensibilidades parecem não poder mais acomodá-los um ao outro.
(O Cânone Ocidental, de Harold Bloom, pp. 28-29)

Vidal, contudo, deve ter ao menos uma boa parte de seu trabalho reavaliado no futuro, seus ensaios e obras de não ficção. Com Palimpsesto, seu livro de memórias lançado em 1995, ele se situou entre os maiores cultores do gênero em língua inglesa. Em homenagem ao autor, falecido hoje, republico aqui duas resenhas de dois aspectos do livro, escritas por Luiz Zini Pires e Tuio Becker quando da publicação da edição nacional do livro, pela Rocco, em 1996:

Fofocas antigas

Texto de Luiz Zini Pires

Gore Eugene Luther Vidal Junior navega tranqüilo nos seus 71 anos. O veterano escritor, intelectual discutido, peça lustrosa da complicada engrenagem intelectual americana, 40 livros, 22 romances, nove livros de ensaios, um de contos, cinco peças de teatro e mais de uma centena de roteiros para cinema, mira o espelho.Vê rugas. De óculos, observa o passado. Escreve.
Todos os grandes amigos, testemunhas da sua geração, se foram. Ele diz que os que se entupiram de álcool partiram um pouco antes. Os passageiros da maconha viajaram depois. Vidal é um dos últimos. Pode ser anunciado como um dos grandes escritores americanos vivos.
Vidal é um septuagenário forte. Ativo. Caminha e anda pelo planeta. Não fuma. Cuida do nível do colesterol com lentes de aumento. Seleciona a alimentação, mas bebe quase meia garrafa de uísque escocês a cada noite. Especialmente quando está em Ravello (e está quase sempre lá), na sua espetacular casa na costa italiana, onde mora há 30 anos. Foi na Itália, talvez o país mais fascinante da Europa viva, que este neto de senador e filho de um dos inventores das companhias aéreas dos Estados Unidos começou a gerar Palimpsesto – Memórias. As lembranças dos primeiros 39 anos da vida de Gore Vidal foram escritas entre 1993 e 1994. O livro ganhou as livrarias americanas no final do ano passado.
Vidal parece uma pessoa honesta. É conhecido assim. Elogiado. O nome de batismo da biografia, que chega atrasada ao Brasil, foi pinçada da palavra grega palímpsestos. Significa antigo material de escrita, pergaminho. O papel que é usado, apagado e reutilizado. Como é um grande ficcionista, um inspirado contador de histórias, Vidal jamais saberia escolher as palavras exatas, corretas, para des-crever o seu passado. Usou então as monumentais facilidades da ficção. Escritores do primeiro time têm estas facilidades.
O título do livro é um mapa, indício de caminho. Palimpsesto prova que a maioria das biografias dos grandes escritores é inventada apenas para divertir os leitores e promover discussões em bares. Raros se preocupam em revelar suas verdadeiras identidades. Não precisam, não querem e, às vezes, não devem.
Vidal lembra apenas aquilo que deseja lembrar. Não confessa nada. Guarda os segredos numa caixa-forte suíça. Prefere falar dos outros. Gosta de ficar num canto, estabelecido na poltrona mais confortável, ilhado num mar da melhor comida e da boa bebida, observando amigos e inimigos. Prefere estudar. Escrever.
Homossexual e democrata, inteligente e bem-educado, conhecido como o homem que tem respostas para todas as perguntas, Vidal fez uma coleção de inimigos poderosos dentro do establishment norte-americano. É um alvo ambulante, porém sua blindagem é de aço. Tem resistido aos ataques. A couraça é resistente.
As 400 páginas da biografia revelam alguns dos seus desafetos preferidos. Gente que ele tenta transformar em lixo. Pó. Às vezes, o livro lembra uma máquina de lavar, lubrificada com sabão em pó. Vidal maneja os botões e lava a roupa suja, imunda. Passa uma rasteira no dramaturgo Tennessee Willians. Joga pedras nos beats. Enterra Jack Keroauc. Disseca Allen Ginsberg.
Outros nomes famosos, atores, atrizes, escritores, políticos e milionários fazem fila nas páginas maldosas de Vidal. Jacqueline Kennedy é lembrada logo na página nove. É apresentada como a mulher que levantou o vestido no banheiro de uma histórica casa da Virgínia e ensinou a uma inocente jovem como é que se faz uma indispensável ducha pós-sexo. John Kennedy está na lista de Vidal como o homem que manteve mais de mil relações sexuais – isto uma década antes de assumir a Presidência dos EUA. Assim, de fofoca em fofoca, muitas delas envolvendo pessoas já mortas, o autor vai apresentando seu mundo superficial. Mantém o ritmo até a última página. Nem a família, muito menos a mãe, a quem odeia, escapam. Todos são lembrados. Atacados, um por um.
Escritor, Vidal esqueceu de comentar, discutir, a sua própria e excelente obra. Grave erro. Seus livros é que interessam. A seleção de mexericos vale pouco. Talvez na segunda parte de Palimpsesto, aquela que deve recomeçar em 1969, nos ofereça mais luz. Ligue uma clara e reveladora luz elétrica.

Gore Vidal visita a cidade dos sonhos

Texto de Tuio Becker

Gore Vidal, como confessa em seu livro de memórias Palimpsesto, ganhou muito dinheiro em Hollywood, onde escreveu roteiros para a televisão e para o cinema. Mas nunca ficou satisfeito com o que viu na tela depois do filme pronto. Com exceção de Vassalos da Ambição, de Franklin Shaffner (1964), baseado em uma telepeça chamada The Best Man, que deu origem a uma obra teatral. O filme foi exibido no Festival de Cannes e o fato de o cartaz trazer os dizeres un film de Franklin Shaffner desagradou profundamente o autor. Vidal, apesar da teoria do diretor como autor do filme, divulgada internacionalmente pela revista francesa Cahiers du Cinéma, considera-se o verdadeiro auteur dos (poucos) filmes de que assinou o roteiro.
Em um de seus livros de ensaios, De Fato e de Ficção (Companhia das Letras), ele trata longamente sobre o assunto. Um certo despeito pontua as constantes referências à sua afeição pelo cinema e aos tempos, a partir de 1956, quando resolveu fazer dinheiro em Hollywood. O primeiro roteiro que Vidal assinou foi o de A Festa de Casamento, de Richard Brooks, tirado de uma telepeça de Paddy Chayefsky. Ele, entretanto, recusa o crédito de roteirista de Sedução da Carne, de Luchino Visconti. “Não só eu jamais escrevi seu roteiro como também nunca o assisti; mais isso não faz a menor diferença”, escreve. Assalariado da Metro Goldwyn Mayer, escreveu os roteiros de O Caso Dreyfuss, de José Ferrer (1958) e O Estranho Caso do Conde, de Robert Hamer (1959).
Vidal, que ficou famoso com a publicação de um de seus primeiros romances, A Cidade e o Pilar (1948), sobre um relacionamento homossexual, conta em torno da realização de Ben-Hur, de William Wyler (1959), inúmeras histórias mordazes. A mais conhecida delas é a do subtexto homoerótico que existe no sentimento de atração-repulsão entre o protagonista da história, vivido por Charlton Heston, e seu rival Messala (Stephen Boyd).
É o próprio escritor quem, em O Celulóide Secreto, documentário de Robert Epstein e Jeffrey Friedman (1995), conta como foi criada uma história sobre o possível relacionamento homossexual entre os dois personagens quando adolescentes. Boyd foi notificado por Vidal dessa intenção, mas Wyler teve medo de avisar Heston.
O filme, que temporariamente salvou a Metro da falência, detém até hoje o recorde de 11 Oscar. Nem Vidal nem Christopher Fry levaram os créditos pelo roteiro, tributado a Karl Tunberg. Vidal deita e rola ao relatar aspectos da filmagem na Cinecittá romana e de seus contatos com Federico Fellini, que, na época, preparava A Doce Vida (1961). O autor, que havia aparecido como ator em um filme experimental de Maya Deren (Ritual num Tempo Transfigurado, de 1946), fez, depois, uma participação em Roma de Fellini (1972). Seu fascínio pelas câmeras é notório, tendo dado o ar de sua graça em Bob Roberts, de Tim Robbins (1991) e em Com Mérito, de Alek Keshishian (1994). Mas recusou uma oferta de Gus Van Sant, para atuar em Garotos de Programa (1991). “Infelizmente, o papel que ele ideara para mim está fadado desaparecer na montagem“, anota.
Várias telepeças, peças e livros de sua autoria deram origem a filmes – Um De Nós Morrerá, de Arthur Penn (1958), Rabo de Foguete, de Norman Taurog (1960) e Homem e Mulher Até Certo Ponto, de Michael Sarne (1970). De Repente, no Último Verão, de Joseph L. Mankiewicz (1959), que ele adaptou da peça de seu amigo Tennessee Williams, é visto com desagrado.
O memorialista encerra seu Palimpsesto por volta de 1964. Rapidamente, ele comenta que sua telepeça The Left Handed Gun fora refilmada para a tevê, com Val Kilmer no papel antes vivido por Paul Newman, com o título de Gore Vidal’s Billy The Kid (1989). Mas suas experiências como roteirista em Paris Está em Chamas? (1966), Brutalidade Desenfreada (1970) e Calígula (1977) foram deixadas para um próximo livro.

Prisioneiro desde o ventre

21 de junho de 2012 0

Shin nasceu dentro de um campo de prisioneiros políticos na Coreia do Norte, onde viveu por 23 anos sem saber o que havia para o lado de lá de uma cerca elétrica que sempre frustrou qualquer tentativa de fuga. Na falta de definição mais precisa, foi provavelmente um milagre o que permitiu que escapasse em janeiro de 2005. Até hoje, não se tem notícia de alguém que tenha alcançado proeza semelhante.

Impossível apontar os cinco, 10 ou 20 trechos mais impactantes do livro que resultou de suas conversas com o jornalista Blaine Harden, repórter americano com passagens pelo jornal The Washington Post e pela revista The Economist. Fuga do Campo 14: A Dramática Jornada de um Prisioneiro da Coreia do Norte Rumo à Liberdade no Ocidente (Intrínseca, 232 páginas, R$ 24,90) é impiedoso com o leitor. A leitura choca por ser um relato minucioso de uma rotina de trabalhos excruciantes, dor, frio e fome – suplícios que seguem sendo impostos a milhares de coreanos no país de regime ditatorial mais isolado do planeta.

Shin, que depois da fuga caminhou até a China, passou um tempo na Coreia do Sul e mais tarde se estabeleceu nos Estados Unidos, presenciou o enforcamento da mãe e teve de se alimentar, nos momentos mais “felizes” de sua infância e adolescência, com os ratos que conseguia capturar em casa, nos campos e até na latrina.

Fuga do Campo 14, apesar da restritíssima mobilidade de seu protagonista, oferece também um panorama histórico do país durante o período de cárcere de Shin e sua família, com quem o garoto mal conseguiu firmar laços de afeto. O autor relaciona o drama dos prisioneiros e também a barbárie vivida do lado de fora – a idolaria forçada à dinastia Kim, a fome que arrasou a população na década de 1990 e as consequências mais duradouras, como o retardo mental causado por desnutrição infantil que incapacita cerca de um quarto dos recrutas potenciais das forças armadas norte-coreanas.

Antever o final, que já se conhece – o enredo sórdido só virou livro porque alguém escapou para narrá-lo –, é quase reconfortante. Proporciona uma espécie de alívio saber que o sacrifício, que parecia eterno, chegou ao fim. Mas Shin é apenas uma das centenas de milhares de vítimas que sucumbiram em condições semelhantes, de acordo com estimativas, imprecisas, de governos de países ocidentais e organizações de defesa dos direitos humanos. Sabe-se, inclusive, a localização dessas imensas jaulas de trabalhos forçados. São facilmente localizadas com o auxílio de ferramentas como o Google Earth, que disponibiliza a qualquer usuário de internet imagens captadas via satélite. Resta saber como resolver esse drama de contornos arcaicos – ainda que esse tipo de violência não seja justificável em qualquer época – em pleno século 21.

Trechos

Sua lembrança mais antiga é a de uma execução.
Ele caminhava com a mãe rumo a uma plantação de trigo perto do rio Taedong, onde guardas tinham arrebanhado vários milhares de prisioneiros. Alvoroçado pela multidão, o menino rastejou entre pernas adultas até a fileira da frente, onde viu um homem ser amarrado a um poste de madeira.
Shin In Geun tinha quatro anos, criança demais para compreender o discurso pronunciado antes do fuzilamento. Em dúzias de execuções em anos futuros, ele ouviria um guarda supervisor dizer à multidão que havia sido oferecida, ao prisioneiro prestes a morrer, a ‘redenção’ por meio do trabalho árduo, porém ele rejeitara a generosidade do governo norte-coreano. Para impedir o prisioneiro de amaldiçoar o Estado que logo lhe tomaria a vida, guardas enchiam-lhe a boca de seixos, depois lhe cobriam a cabeça com um capuz.
Naquela primeira execução, Shin viu três guardas fazerem pontaria. Cada um atirou três vezes. As detonações de seus fuzis aterrorizaram o menino, que caiu de costas. Mas ele se levantou depressa, a tempo de ver ser derramado um corpo frouxo, ensanguentado, enrolado num cobertor e jogado numa carroça
.”

***

Em sua maioria, os detentos trabalham na agricultura, na extração de carvão, na confecção de uniformes militares ou na fabricação de cimento, subsistindo com uma dieta de fome de milho, repolho e sal. Perdem os dentes, as gengivas ficam pretas, os ossos se enfraquecem, e, quando chegam à casa dos 40 anos, ficam arqueados na altura da cintura. Como recebem um conjunto de roupas uma ou duas vezes por ano, em geral eles trabalham e dormem vestindo trapos imundos, levando a vida sem sabão, nem meias, luvas, roupas de baixo ou papel higiênico. Jornadas de trabalho de 12 a 15 horas são obrigatórias até que os prisioneiros morram, em geral de doenças relacionadas à desnutrição, antes de completar 50 anos.

***

Além de fazer trabalhos físicos mais pesados, os alunos da escola secundária passavam mais tempo encontrando defeitos em si mesmos e nos outros. Escreviam em cadernos de palha de milho, preparando-se para as sessões de autocensura que aconteciam sempre depois do jantar. Todas as noites, cerca de 10 estudantes tinham de confessar alguma coisa.
Shin tentava se encontrar com os colegas antes dessas sessões para combinar quem diria o quê. Inventavam pecados que poderiam satisfazer os professores sem provocar punições draconianas. Shin lembra-se de confessar que comera milho encontrado no chão e que tirara um cochilo quando não havia ninguém olhando. Se os estudantes apresentavam espontaneamente um número suficiente de transgressões, as punições costumavam se limitar a um tapa na cabeça e uma exortação a trabalhar com mais afinco.