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Posts na categoria "mercado editorial"

Cinquenta Clones Cinzas

10 de dezembro de 2012 1

Quem acompanha este blog com alguma assiduidade sabe que somos interessados em capas de livro como elementos valiosos da própria existência da obra, sejam elas desastres bregas sobre os quais é possível escrever série inteiras até coincidências curiosas entre duas capas diferentes que se parecem bastante.  A quem questiona a validade de se deter de vez em quando em uma capa de livro, é bom lembrar, sempre, que a capa de um livro é a apresentação da obra ao leitor, e muitas vezes a face “gráfica” de uma obra estará tão marcada na lembrança de um leitor quanto o conteúdo da obra (quem dentre vocês não guarda na memória até mesmo a capa de uma leitura particularmente especial ou formadora?)

E quem acompanha qualquer notícia sobre o mercado literário nos últimos meses ficou sabendo, até mesmo quem não estava muito interessado, que chegou às livrarias a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, escrita por uma jornalista inglesa, E.L. James, e que foi logo apelidada pela mídia de “Crepúsculo para Mães”. Confesso que a primeira vez que eu li algo sobre isso, ainda quando o livro foi publicado lá fora, imaginei, confiando em um certo discernimento essencial do assim chamado “grande público”, que essa moda não ia emplacar, mas quebrei a cara, e não pela primeira vez (quando li as primeiras páginas da edição nacional da série Crepúsculo, enviadas pela editora ainda antes do filme e da febre toda, também imaginei que algo tão tosco não teria grande repercussão, e de novo me revelei um péssimo vidente).

Bueno, mas os Cinquenta Tons. Já falamos, assim como muitos outros já falaram, que o mercado editorial se orienta por um instinto de manada em busca de uma onda lucrativa. O sucesso de Harry Potter inundou as livrarias com fantasia mágica em séries novas e republicadas para pegar carona na onda, como Eragon, de Christopher Paolini, a Trilogia de Tinta, de Cornelia Funke, ou a série Percy Jackson, de Rick Riordan - esta, em particular, divide com o menino bruxo um bom número de similaridades estruturais, como já apontamos aqui. Essa primeira vaga tem contribuído para tirar o gênero do gueto a que era contido até os anos 1990. O Caçador de Pipas e O Livreiro de Cabul produziram uma infindável marola de publicações ao estilo “drama-verdade-denúncia-edificante” no Oriente Médio. Crepúsculo ditou a mais recente safra de literatura a aportar nas bancas: anódinas histórias românticas para adolescentes iludidas, temperadas com toques de horror e fantasia, como as séries Fallen, de Lauren Kate, Sussurro, de Becca Fitzpatrick ou Os Imortais, de Alyson Noël. Quem prestou alguma atenção às livrarias no último mês já deve ter percebido que começa a se ensaiar movimento semelhante com os clones da trilogia de E.L. James.

Mas o que começou com essa onda do Crepúsculo e parece se reproduzir com ainda mais veemência com a onda Cinquenta Tons… é a tentativa de direcionar o leitor incauto para “algo-parecido-com-aquela-outra-coisa-que-você-gostou” usando até mesmo um padrão gráfico e um estilo de capa muito similares aos dos fenômeno original. Senão vejamos: Cinquenta Tons de Cinza, a edição nacional da Intrínseca, aproveita as imagens de capa das edições americanas originais, todas marcadas por uma composição sóbria e um jogo de brilhos e sombras focado sobre detalhes de um elemento qualquer do jogo erótico protagonizado pelo casal principal (uma gravata, signo da masculinidade endinheirada do personagem Grey e venda em horas vagas; uma máscara de baile à fantasia e, finalmente, um par de algemas. Se bem que esta interpretação pode ser chute meu, eu não li o livro).

Pois não demorou muito para surgirem os candidatos ao “próximo Cinquenta Tons” – tentativas quase sempre infrutíferas, uma vez que esse tipo de movimento costuma abocanhar um ou outro leitor mas jamais iguala o original em termos de venda e ainda contribui para a saturação e o desgaste ainda mais rápido da “onda”. A primeira a se firmar, aparentemente, foi Toda Sua, de Sylvia Day, também uma série – o selo mais popularesco da Companhia, o Paralela, já lançou o segundo volume, Profundamente Sua (senhor…).  A emulação, aqui, é clara, trocando apenas o objeto, um sapato de salto, cor de fundo predominantemente cinza, as linhas do objeto em close, sombras e fulgores. O que realmente diferencia os dois é um uso maior do preto, algum dourado e uma chamada vagamente constrangedora na capa do livro de Sylvia Day:

O segundo volume segue o mesmo padrão, trocando o salto pelo que parece ser um bracelete cravejado de pedras coloridas. Também neste caso a capa da edição original aproveita uma imagem produzida para uma das edições lá de fora, provando que a moda do imitatio não é prerrogativa do mercado editorial brasileiro e sim uma tendência importada para as estantes locais. Outro livro lançado logo depois da chegada dos Cinquenta Tons ao Brasil que também vai na mesma linha foi Luxúria, de Eve Berlin, que apareceu por aqui em edição da Lua de Papel. Uma rápida pesquisa mostra que Eve Berlin é um pseudônimo usado por uma escritora de carreira já consolidada no mercado das histórias água-com-açúcar ao estilo Júlia-Sabrina-Bianca, o que explica porque as capas originais dos livros da autora lá fora (também é uma trilogia, a propósito, com o nome em inglês de Edge Trilogy) não só são bem diferentes da edição nacional como também poderiam concorrer a qualquer certame de capa brega. Aqui, preferiu-se uma alusão disfarçada ao mesmo padrão de capa: cinza e preto, detalhe de um objeto que remete ao jogo erótico (no caso, um corselete), além de uma chamada apelativa de efeito. A fonte do título também aposta em um itálico rebuscado que remete aos romances de banca de jornal:

Sobra espaço nessa ciranda até para que editoras com coisas vagamente semelhantes em seu catálogo queiram dar uma segunda chance a livros mais antigos que podem ser repaginados ao “estilo Cinquenta Tons“. A Record acabou de jogar nas livrarias Falsa Submissão, de Laura Reese, uma obra de apelo erótico cuja capa novamente remete ao padrão que já identificamos, um jogo entre cinza, preto, reflexos e brilhos de tom geral sóbrio (imagino que essa sobriedade toda seja para tentar passar a mensagem de que estes livros são sim sobre sexo, mas recusam a vulgaridade – o que, para mim enquanto leitor, significa que o sexo nessas obras não deve valer muito a pena – com trocadilho, por favor). Novamente, a composição é dominada por um objeto de dupla função, vestuário e fetiche, neste caso um cinto masculino.

O detalhe a levar em conta, contudo, é que Falsa Submissão é um romance de 1996, e já havia sido publicado no Brasil no fim dos anos 1990 pela mesmíssima editora, com uma capa que não tem nada a ver com a da nova edição a não ser por deixar o conteúdo erótico mais explícito ao se valer da imagem de um corpo feminino nu. O tema da “submissão” também ficava mais claro como gesto da mulher na capa, o de colocar as mãos para trás como se à espera de ser amarrada. Em tempos de “pornô para mamães”, o livro foi reembalado com o cinto fazendo as vezes de alusão bastante sutil ao tema:

Que fique bem claro que este pequeno levantamento (ops) não diz nada a respeito do conteúdo dos livros, e sim da forma como as editoras escolheram apresentá-los para o público, todos como similares uns aos outros em temperatura e tema. Provavelmente são obras bem diferentes entre sim, mas as editoras preferem, por questões mercadológicas, enviar para os leitores a mensagem, expressa já na primeira coisa à vista, a capa, de que são todos ramos da mesma árvore

Dançaram os dragões e os leitores

28 de junho de 2012 0

Antes de ir, um último comentário. Como vocês puderam ler hoje à tarde na rede (clique aqui), a editora Leya divulgou um comunicado informando que a edição nacional de A Dança dos Dragões, quinto capítulo da saga Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin (tornada best-seller mundial depois da veiculação das duas temporadas da série A Guerra dos Tronos, na HBO), saiu sem o 26º capítulo.

Sim, um capítulo inteiro simplesmente desapareceu da edição – a série, para quem ainda não leu nenhum dos volumes, é contada em capítulos breves centrados no ponto de vista de um personagem a cada vez. Imagino que o fato de eles não serem numerados ajudou na lambança. Cada segmento traz como título o personagem sob cujo ponto de vista a história está sendo contada (já escrevemos aqui mesmo no Mundo Livro uma resenha mais detalhada dos primeiros volumes da série. Se quiser ler, clique aqui). Imagino que quem tenha revisado o livro teria percebido a falta de um “26″ depois de um “25″, o que não ocorreu, uma vez que esse capítulo em particular se chama O Soprado pelo Vento (a partir do 4º volume Martin começou a expandir ainda mais os pontos de vista introduzindo dezenas de [mais] personagens novos, alguns identificados apenas por epítetos misteriosos).

Não é a primeira vez que um problema ocorre na edição brasileira da obra. Em 2010, o próprio tradutor português, Jorge Candeias, manifestou sua confusão (clique aqui) pelo fato de a editora ter simplesmente resolvido pegar sua tradução (feita para Portugal, lembremos) e dar uma maquiada às pressas nos termos mais lusitanos para lançar o mesmo material no Brasil sem consulta alguma ao tradutor, criando discrepâncias e estranhezas que eram bastante perceptíveis até por quem não tivesse conhecimento desse fato.

O caso agora parece ainda mais bizarro, uma vez que um capítulo inteiro de um livro (cuja estrutura se faz justamente da interligação de fragmentos breves oferecendo diversos pontos de vista de uma mesma linha narrativa) sumiu. Não se trata também dos mil ou 500 exemplares de uma novela de 120 páginas de um autor em começo de carreira, mas de um alentado romance de 860 páginas dando continuidade a uma série que está há meses nos topos das listas de  best-seller, vinha sendo anunciado em pré-venda por todas as redes online há quase dois meses e, portanto, deve ter saído com uma primeira edição considerável, coisa de dezenas de milhares de exemplares.

Não é à toa que a Leya está fazendo o primeiro “recall” de livros que eu me lembre no Brasil. As principais redes online já retiraram o produto de catálogo, informando que nova edição estará pronta a partir de 1º de agosto.

Quem não quis encarar o volume em inglês, esperando pela tradução, dançou (mas não com os dragões) e vai ter que esperar.

Sadomasô romântico

26 de junho de 2012 0

A Intrínseca prepara para 1º de agosto o lançamento da versão em português de um dos sucessos mais impressionantes do mercado literário em todos os tempos. Cinquenta Tons de Cinza (480 páginas, R$ 39,90 a versão impressa e R$ 24,90 o e-book), primeiro romance da novata Erika Leonard, pseudônimo E.L. James, vendeu 10 milhões de exemplares em apenas seis semanas nos Estados Unidos. Por aqui, a editora dá a largada com tiragem inicial de 200 mil exemplares, algo raramente visto no mercado brasileiro.

Outros dois títulos compõem a trilogia: Cinquenta Tons Mais Escuros (512 páginas, R$ 39,90 e R$ 24,90, com lançamento em 15 de setembro) e Cinquenta Tons de Liberdade (544 páginas, R$ 39,90 e R$ 24,90, com lançamento previsto para 1º de novembro). Os direitos para a adaptação no cinema já foram adquiridos pela Focus Features, da Universal Pictures, por US$ 5 milhões.

Explica-se o furor em torno da novidade: a autora inglesa, que vive em Londres, apresenta a relação (fortemente erótica) entre Anastasia Steele, uma recatada moça de 22 anos, recém-saída da universidade, e Christian Grey, “bilionário charmoso, brilhante, atormentado, intimidante e enigmático” (uau!), segundo a descrição do release distribuído à imprensa. Consumida pelo desejo, Anastasia se submete às exigências sexuais impostas pelo amado, assinando um contrato que repassa a ele o controle completo de sua vida.

O primeiro volume já está em pré-venda nas principais livrarias do país. Pode-se encontrar também o texto original, em inglês. Mais informações no site www.cinquentatonsdecinza.com.br

Deve ter no sebo...

04 de maio de 2012 5
Interior da Livraria Traça, na Osvaldo. Foto: Bruno Alencastro

Interior da Livraria Traça, na Osvaldo. Foto: Bruno Alencastro

Desde muito cedo Porto Alegre formou a cultura de uma cidade ligada a seus sebos. Um dos maiores intelectuais do Estado, Sérgio da Costa Franco, recorda que desde sua juventude nos anos 1940 a cidade tinha sebos notáveis bastante frequentados:

– Desde aquela época havia sebos de destaque na cidade. Na duque com Marechal Floriano tinha a Livraria Liceu. Tinha outro também mais abaixo, descendo a marechal Floriano, entre a hoje Salgado e a Riachuelo. O Pedro Garcia, escritor, tinha uma livraria ali – relembra.

Franco argumenta que um dos motivos para a proliferação de sebos na cidade é seu caráter de centro universitário.

– O Sebo existe principalmente nas cidades em que há universidade. É a loja de livro velho que fazia as obras circularem. O estudante comprava barato o livro que outro estudante que já havia usado havia vendido. – comenta Franco, ele próprio um antigo frequentador de sebos, hábito que foi abandonando pela falta de espaço em suas estantes para mais livros.

Porto Alegre é uma cidade de sebos – ou seja, com alternativas para o leitor recuperar as obras que o mercado deixou cair no esquecimento pela ausência de reedições. Nem a Câmara Rio-Grandense do Livro tem um número oficial de quantas lojas de livros usados existem, mas os próprios livreiros arriscam umas 25. Também não há uma associação específica, não por falta de tentativas:

– Já se tentou fundar uma, mas a ideia nunca vingou. Acho que livreiro é meio desunido – comenta Ivo Alberto Almansa, proprietário desde 1980 da Martins Livreiro da Rua da Praia.

Vitrine da Ábaco Livros. Bruno Alencastro: ZH

Uma característica dos sebos é que, diferentemente das pequenas livrarias, a internet serve hoje mais como aliada do que ameça. Enquanto as pequenas livrarias lutam e se diversificam para resistir à grande concorrência exercida pelas redes gigantescas de megalivrarias e seus sites com descontos muitas vezes difíceis de igualar, os sebos se congregaram em redes virtuais que abriram novas possibilidades aos comerciantes e aos leitores. A principal delas é a Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br), seguida pela mais recente Livronauta (www.livronauta.com.br). Embora tais redes não incluam o acervo integral de seus associados, elas facilitaram e ampliaram o contato entre quem vende e quem quer comprar. Isso mudou inevitavelmente o perfil do consumidor em sebos.

– Nós perdemos aquele “cliente” regular que vinha ao sebo pesquisar uma compra ou encomendar. Mas ao mesmo tempo, vendemos cada vez mais para fora de Porto Alegre: tanto para o interior do Estado quanto para alguém lá no Nordeste que está procurando um livro e achou na rede virtual – comenta o dono da Mosaico, Guilherme Matzenbacher, que continua: – imagino que no futuro será engraçado pesquisar acervos e bibliotecas ou mesmo os próprios sebos. Se antes em sebos se achavam muitos exemplares com carimbo de livrarias daqui, do Interior, de Santa Maria, de Novo Hamburgo, vai se encontrar lá em Fortaleza bibliotecas com bom número de livros comprados no Rio Grande do Sul.

A nova realidade virtual não deixa de representar um desafio e um enigma. Como muito do contato com o leitor não se dá mais na loja, as próprias livrarias têm de descobrir meios de cativar o leitor além do preço.

– Meus conhecimentos de 35 anos de balcão de livraria não valem muito nesse universo novo – reconhece Almansa.
Às vezes cabe ao livreiro ser mais do que um atendente, ser o próprio pesquisador do cliente.

– Várias vezes faço isso: o cliente me liga e diz: me procura um livro tal, por favor – comenta Letícia Cartell, da Sapere Aude.

Interior da Sapere Aude. Foto de Bruno Alencastro

Sabendo que os sebos de Porto Alegre ganham pontos pelo caráter afetivo, fizemos para a edição especial de aniversário da Zero Hora um Segundo Caderno editado por Jorge Furtado. Pedimos a quatro intelectuais que sugerissem livros que vinham procurando há algum tempo, sem sucesso. Munidos da lista, percorremos 15 sebos da cidade – os maiores ou mais tradicionais. O resultado de nossos dois dias percorrendo sebo no método tradicional do pé no chão (deixamos as pesquisas virtuais para depois de uma recorrida aos sebos tradicionais) foi o seguinte:

* As Confissões de Nat Turner, de William Styron – sugestão de Tabajara Ruas.
Romance sobre uma rebelião de escravos, escrito pelo mesmo autor de A Escolha de Sofia. Foi o de percurso mais fácil. Fazendo o circuito dos sebos a pé, encontramos exemplares em cinco sebos:
– Traça (Osvaldo Aranha, 966, Bom Fim): dois exemplares, um da edição da Expressão e Cultura, de 1968, com tradução de Vera Neves Pedroso, a R$ 15, e uma reedição da mesma tradução pela Rocco, de 1985, a R$ 12.
– Sapere Aude (Lopo Gonçalves, 33): um exemplar da edição de 1985, da Rocco, a R$ 8.
– Rino/Nova Roma (General Câmara, 428): um exemplar da edição de 1968 da Expressão e Cultura a R$ 10.
– Beco dos Livros da Rua da Praia (Andradas) – três exemplares: um da edição de 1968 da Expressão e Cultura a R$ 17,20; um da edição de Rocco, de 1985, a R$ 9 e um exemplar de uma terceira edição, pela portuguesa Distri Editora, também de 1985, traduzida por Inês Bussi, a R$ 5.
– Beco dos Livros da Riachuelo (Riachuelo, 1496) – Um exemplar da edição de 1968, a R$ 10.

* Guerra em Surdina, de Boris Schnaiderman – sugestão de Tabajara Ruas.

Um texto sobre a experiência do autor como combatente da FEB na II Guerra Mundial, mas a batalha para encontrá-lo também não chegou a ser extremamente árdua. Havia exemplares em quatro sebos:
– Ladeira Livros (General Câmara, 385): um exemplar da edição mais recente, de 2004, da Cosac Naify, a R$ 30.
Ábaco Livros (Osvaldo Aranha, 426): dois exemplares da 3ª edição pela Brasiliense, de 1995, a R$ 10 cada um.
– Ventura Livros (Fernandes Vieira, 627, loja 2): um exemplar da mesma edição da Brasiliense a R$ 10.
– Livraria Erico Verissimo (Jerônimo Coelho, 377): um exemplar de uma edição da Brasiliense de 1985, a R$ 15.

* Trainspotting, de Irvine Welsh – sugestão de Daniel Galera
A tradução de um livro cult feita pelo próprio Galera e por Daniel Pellizzari esgotou sem que houvesse reedição. É um livro difícil, de acordo com os próprios livreiros. na nossa peregrinação, só achamos um:
– Ponto dos Livros (Venâncio Aires, 449, loja 6): um exemplar a R$ 30, já reservado.
– Havia também um exemplar em alemão na Ladeira Livros, a R$ 18.

Interior da Ponto dos Livros. Foto de Bruno Alencastro

Os demais livros, A Queda do Anjo, de Yukio Mishima, sugestão de Galera; Hospício é Deus e O Sofredor do Ver, ambos de Maura Lopes Cançado, sugestão de Manoela Sawitzki; e História da Música Ocidental, de Jean & Brigitte Massin, e Beethoven: um compêndio, sugestão de Celso Loureiro Chaves, não foram encontrados. A pesquisa de Zero Hora se estendeu aos seguintes sebos, que você já pode anotar para pôr na agenda:

– Ábaco Livros (Osvaldo Aranha, 426)
– Beco dos Livros da Rua da Praia (Andradas)
– Beco dos Livros da Riachuelo (Riachuelo, 1496)
– Beco dos Livros da Rua da Ladeira (General Câmara, 409)
– Erico Verissimo (Jerônimo Coelho, 377)
– Espaço Cultural Qorpo Santo (Viaduto Otávio Rocha, loja 1)
– Martins Livreiro (Riachuelo, 1279)
– Mosaico (Riachuelo, 1264)
– Ponto dos Livros (Venâncio Aires, 449, loja 6):
– Rino/Nova Roma (General Câmara, 428).
– Sapere Aude (Lopo Gonçalves, 33).
– Só Ler da Senhor dos Passos (Senhor dos Passos 266)
– Só Ler da Andradas (Andradas, 870)
– Traça (Osvaldo Aranha, 966, Bom Fim)
– Ventura Livros (Fernandes Vieira, 627, loja 2)

Milagres do tempo

13 de setembro de 2011 0

Há um ditado popular que afirma: a passagem do tempo faz maravilhas para melhorar a reputação e prover respeitabilidade a políticos de honestidade duvidosa, prédios de dúbios méritos estéticos e mulheres de vida airada. Me lembrei disso e não pude deixar de acrescentar “escritores de contestados atributos literários” à lista ao ver, desavisadamente, numa livraria da cidade, as novas edições especiais de obras de Sidney Sheldon.

Antes as capas dos livros combinavam muito bem com o espírito de seus best-sellers de ação, sexo e redenção – montagens, imagens no limite do brega (normalmente um rosto de mulher com um olhar entre o dramático e o insinuante), ilustrações algo apelativas (embora não tanto quanto as dos livros de seu colega Harold Robbins). Muitos dos livros com essas capas ainda podem ser encontrados em sebos e livrarias virtuais por aí afora (basta uma breve pesquisa como esta no Google para comprovar o que digo). Hoje, no entanto, quatro anos depois da morte de Sheldon e pelo menos duas décadas após o auge de sua popularidade, seus livros embora ainda presentes no imaginário e na memória literária de muita gente mais ou menos da minha idade, não estão mais no topo das listas da literatura de entretenimento, substituídos por exemplares mais ao gosto do “espírito do tempo”, a saber: as revisões históricas rocambolescas à la Dan Brown, a fantasia malbaratada de Crepúsculo e quetais e o misticismo com um pé na autoajuda de Paulo Coelho e congêneres.

Talvez seja o momento de tentar, então, emplacar o bom e velho Sheldon como um escritor mais “respeitável”, com edições mais sóbrias e classudas de suas obras – não que isso vá alterar os méritos e as graves deficiências do conteúdo, mas foi a impressão que tive ao ver as capas bastante mais sóbrias das reedições recentes de sua obras, como vocês podem ver abaixo:



O futuro dos livros e dos autores

20 de março de 2011 0

Como vocês puderam ler neste sábado, eu e o repórter Luís Bissigo realizamos uma reportagem sobre a questão dos Direitos Autorais e as últimas polêmicas envolvendo o assunto e a nova gestão do Ministério da Cultura (leia neste link, no blog do Cultura, entrevistas com dois advogados especialistas nas questões jurídicas envolvidas). É um tema amplo que diz respeito a praticamente todos os setores da criação intelectual artística: imagens, músicas, livros, expressão por meios eletrônicos, cópias de obras, uso de obra como base para outras obras, licenciamento de direito intelectual. A proposta de revis’ao da lei, que estava com a Casa Civil para repasse ao Congresso, foi devolvida para o MinC e deve ser alvo de novas discussões

Aproveitando a oportunidade, este blog dedicado ao livro foi ouvir também a opinião da nova diretora da Câmara Brasileira do Livro, Karine Panza, sobre o assunto. A CBL congrega editores, livreiros e demais entidades do setor. Vocês leem abaixo, na íntegra, a entrevista concedida por e-mail:

Mundo Livro — Como a senhora vê a posição atual do Ministério da Cultura em relação à Lei de Direito Autoral que, depois de debatida por dois anos e encaminhada à Casa Civil, volta a ser tema de discussões e de possíveis revisões dentro do ministério?
Karine Panza —
É muito bem-vinda a intenção do Ministério da Cultura de rever o anteprojeto de emenda à Lei de Direitos Autorais, antes de o encaminhar ao Congresso Nacional. A despeito das várias audiências públicas e do encaminhamento de aproximadamente oito mil sugestões, mantiveram-se na polêmica proposta, aspectos negativos diagnosticados pelo mercado, intelectuais, escritores e juristas.  Nós mesmos temos discutido o aperfeiçoamento da Lei de Direito Autoral há mais de um ano por meio do Fórum do Livro e Leitura pelo Direito Autoral, composto por mais de 20 entidades da cadeia produtiva do livro e que é coordenado pela CBL. No entanto, detectamos uma série de equívocos no anteprojeto. O fato é que ficou a frustrante sensação de que a palavra de todos esses interlocutores não foi auscultada na busca de um consenso, ao qual, portanto, não se chegou. Assim, será muito pertinente analisar de modo mais profundo essa rica contribuição para o aperfeiçoamento da propositura.

Mundo Livro — A questão da propriedade intelectual na internet é um dos grandes desafios a serem enfrentados pelo setor do livro, em face às novas tecnologias e aos serviços de digitalização de livros como o Google Books. O modelo de direitos autorais como o conhecemos sofrerá alguma mudança irreversível devido a essas novas tecnologias?
Karine —
Neste aspecto, será necessário um novo ordenamento dos direitos autorais. Sem tal providência, a ser normalizada internacionalmente, ficará difícil desenvolver e consolidar este segmento de mercado. Segurança quanto à autenticidade e legalidade dos conteúdos também será fundamental. Vejam o que acontece no mercado de filmes e música em CD e DVD, muito prejudicado pela pirataria. Não há dúvida de que a digitalização de conteúdos editoriais sob a tutela de direitos legais suscitará facilidades para a falsificação e reprodução ilegal, ampliando a ameaça de falsificação muito além das máquinas copiadoras que enfrentamos hoje. As dificuldades e problemas a serem superados, contudo, não devem impedir o avanço da tecnologia. É preciso conviver com as transformações, adaptar-se a elas e as converter em real oportunidade. Claro que esse processo de adequação é mais fácil quando o mercado atua de maneira coesa e sinérgica. Nesse sentido, é fundamental o trabalho das entidades de classe, como tem feito a Câmara Brasileira do Livro (CBL), por meio de eventos e debates voltados ao assunto com a participação do setor editorial, especialistas e governo.

Mundo Livro — Na sua opinião, em que sentido a proposta representa um progresso e em que outros aspectos ainda poderia avançar mais?
Karine —
Um dos principais problemas que diagnosticamos no documento são as redundâncias e as complexidades apresentadas no texto e a superposição com outras leis, como, por exemplo, ocorrem nos artigos 1º e 3º. Nesse ponto, era melhor ter mantido o que está vigorando. Outro equívoco flagrante verifica-se no Artigo 46º da proposta de emenda, que autoriza a “reprodução integral de qualquer obra legitimamente adquirida, quando destinada a garantir a sua portabilidade ou interoperabilidade, para uso privado e não comercial”. Apesar das limitações especificadas no texto proposto, controlar a atividade de cópia configura-se como tarefa quase impossível.  Portanto, é sensato e pertinente examinar de modo mais profundo as mudanças necessárias para o aperfeiçoamento da lei. A revisão do anteprojeto é essencial para garantir que os Direitos Autorais no país sejam respeitados, e para manter o Brasil alinhado às convenções e tratados internacionais de Direitos Autorais dos quais é signatário.

Mundo Livro — Já se percebe nos Estados Unidos um movimento de escritores insatisfeitos com os rumos da atual discussão a respeito do livro eletrônico. O argumento levantado recentemente pela canadense Margaret Atwood é que se o custo de produção e armazenagem de um livro se torna menor para um livro eletrônico, por que não se poderia aumentar a percentagem do autor na negociação? Qual sua opinião sobre este ponto?
Karine —
Inicialmente, é importante avaliar que as editoras são gestoras de conteúdo. Elas são responsáveis pela avaliação, seleção, contratação, edição e promoção da obra literária. Isso tem um custo fixo para ser realizado, independente da plataforma que será utilizada para a veiculação do livro. Portanto, é prematuro avaliar que o custo de produção diminuirá com o livro eletrônico.  O que acontece com o livro digital (texto escrito em suporte eletrônico) é que ele não tem custo de impressão como os livros impressos. Além disso, a sua distribuição pode ser feita eletronicamente, sem necessidade de uso de meio de transporte tradicional, armazenagem etc.. Sem estes custos de produção e comparados aos impressos tradicionais, há uma enorme possibilidade de que os preços dos livros digitais se tornem ainda mais acessíveis ao consumidor, permitindo o incremento da produção literária e o aumento do número de leitores no país. No entanto, não creio numa regra universal em torno da questão. Por isto, acredito que o entendimento entre autores e editores poderá ser diferente em cada caso. Haverá aqueles que decidirão dentro da lógica que impõe a tecnologia, ou seja, vender a milhares de consumidores por preços muito baixos. Assim como também haverá outros modelos de negócio, onde poucos exemplares serão oferecidos a preços maiores.

Quarta capa

22 de fevereiro de 2011 6

Que cada um escolhe a próxima leitura de um jeito diferente, eu nem preciso dizer. Alguns pela capa, outros por uma indicação. Tem aqueles que lêem porque pegam emprestado (o/), leram a resenha, ouviram falar, gostam do autor… ou então ficaram interessados na história que a quarta capa e a orelha apresentam.

Eu confesso que não tenho muito método (além do critério empréstimo) e, além disso, raras vezes leio as orelhas e afins antes de começar algumas páginas do livro. Não, não é por questão de princípio, porque acho que eu vá ser influenciada ou coisa que o valha. Apenas me interessam muito pouco antes de começar a leitura da obra em si. Mas inevitavelmente, acabo lendo em alguma pausa de leitura do livro.

De qualquer forma, a tarefa da quarta capa é cruel. Considerando a infinidade de títulos dispostos em uma livraria, até que o leitor coloque o volume na sacola, ele vai passar pela capa, título, autor, sessão na qual está à venda. Aí, se ainda assim, o indivíduo não estiver convencido, cabe àquelas vinte linhas de texto, quando tanto, o papel de convencer.

Então, vamos a um exercício das coisas que nunca devem ser ditas nessas referidas apresentações, sob pena de perder o leitor. No princípio, a ideia era usar alguns textos de exemplo, mas achei melhor não comprar briga com ninguém (hehehe)

Regra 1: nunca diga “o autor lança mão de x recurso” para explicar alguma coisa. Normalmente o recurso do qual o fulano “lança mão” não é nada de importante, mas apenas alguma coisa que vá parecer impressionante ou charmosa no texto. Acredite: não é.

Regra 2: não entregue nada da história que não esteja nas primeiras 20 páginas. Parte da graça de ler é descobrir SOZINHO o raciocínio e a história (adaptado da entrevista que o Michel Laub concedeu para a minha monografia).

Regra 3: Não faça o livro parecer autoajuda, por mais tentador que isso possa ser, comercialmente falando. Nada de “manuais” e nem “pílulas de sabedoria“, se você quiser fazer seu livro parecer sério.

Regra 4: Não diga que o livro é fascinante, delicioso ou encantador. Adjetivos devem ser atribuídos pelos leitores e não pelo povo que trabalha no departamento editorial (por mais competentes que sejam).

Regra 5: Se você for entregar a orelha ou a quarta-capa para algum escritor famoso (que irá assinar o texto), não permita que ele transforme o texto em uma “obra-prima”, mostrando todas as suas competências literárias. Vai dar errado. Também não deixe que ele faça uma resenha – o objetivo dos referidos espaços não é esse.

Tá. Chega de ficar ditando regras sozinha. Diz aí, o que vocês não suportam quando vão ler orelhas e que tais de livros?

Texto de Tássia Kastner

A primeira distribuidora digital em larga escala

14 de junho de 2010 1

Foto: Carlos Edler, ZH

Do muito que já se disse sobre a possibilidade de a literatura digital emplacar como uma realidade, boa parte é achismo. Mas uma circunstância é inegável: o mercado do e-book já tem face própria em países como Estados Unidos, Espanha e Inglaterra. Com o objetivo de ajudar a delinear os traços desse mercado no Brasil, um pool de editoras nacionais criou a Distribuidora de Livros Digitais (DLD), primeira iniciativa do gênero em grande escala no país.

A DLD é uma plataforma de armazenamento e comercialização de livros digitais. Será formada por acervos de seis conglomerados editoriais e alguns de seus respectivos selos: Objetiva, Record, Rocco, Sextante, Planeta e Intrínseca. Não será uma plataforma de acesso para o consumidor final, e sim uma intermediária oficial entre as editoras, seus títulos e redes de livrarias – na tarde de hoje, a distribuidora realizou seu primeiro contato com as redes firmando um contrato com a Livraria Cultura, em São Paulo. Não é a única iniciativa do gênero em gestação. A Jorge Zahar planeja para o segundo semestre uma plataforma própria de livros digitais, o Xeriph. São todas reações das editoras nacionais para estabelecer novas bases para um mercado que, no Exterior, é dominado por grandes redes de comércio e tecnologia, como a Amazon. Sem falar que o Google já anunciou sua intenção de entrar na parada ainda este ano.

Embora não represente a totalidade do mercado editorial brasileiro, a DLD reúne um grande e rentável catálogo, que inclui desde nomes respeitáveis da literatura brasileira, como Luis Fernando Verissimo e Clarice Lispector, até séries e nomes campeões de venda, como Paulo Coelho, Dan Brown e a criadora da saga Crepúsculo, Stephenie Meyer. O grupo tem planos de expansão para agregar outras casas do ramo no Brasil: a gaúcha L&PM está em negociações com a DLD, embora não esteja nada acertado neste sentido. O plano original era pôr catálogos digitalizados à venda apenas em dezembro, mas o acordo a ser assinado hoje com a Livraria Cultura terá como um de seus efeitos a antecipação desta data para o site da rede.
— À medida que as editoras forem disponibilizando suas obras em versão eletrônica, receberemos as edições para comercializar no site. Esta semana mesmo já teremos algumas — explicou, por telefone, Pedro Herz, diretor-geral da Livraria Cultura.

A iniciativa da DLD pode representar um passo importante na implantação de um mercado de livros digitais no Brasil porque é justamente um primeiro movimento em um nicho no qual todo mundo parece estar esperando que alguém tome a frente. O comércio de livros digitais envolve uma imensa gama de complexidades legais e técnicas que nem todos já destrincharam: questões como qual deve ser a porcentagem do autor na venda do livro, quanto deve custar um livro eletrônico, já que as editoras não terão os custos de gráfica, estocagem e transporte incluídos no custo de produção (no caso da DLD, a previsão é que seus títulos sejam vendidos de 20 a 30% mais baratos), quem deve ser responsável pela matriz do livro, quem tem direito a armazenar os arquivos para envio – e tudo isso para um mercado que ainda engatinha. Confira abaixo uma breve entrevista com o editor Sérgio Machado, da Record, participante do pool de casas que formam a DLD, sobre como vai funcionar a distribuidora:

Zero Hora – A Distribuidora de Livros Digitais é uma iniciativa do mercado nacional para fazer frente ao avanço das gigantes internacionais similares como a Amazon ou a Barnes & Noble, que por seu tamanho impõem as suas condições nas vendas de livros digitais?
Sérgio Machado –
Em primeiro lugar, a DLD pretende garantir aos autores um modelo de negócio em que os direitos autorais estejam protegidos e que o conteúdo seja valorizado. Entendemos que mais valioso que o aparelho de leitura (ereader) é o conteúdo (ebook), que é o resultado da criação literária do autor. Assim, queremos garanti-lo contra a pirataria e contra a desvalorização da remuneração autoral. A DLD dará essa garantia aos autores e pretende ser a central de distribuição para todos os varejistas digitais, ancionais ou globais.

ZH – Como funcionará uma distribuidora de livros digitais, que teoricamente não precisará de toda a infraestrutura física de uma distribuidora de livros em papel, como armazéns e transportes? Isso poderá baratear o preço das edições digitais?
Machado –
A DLD armazenará os livros em seus servidores e fará a logística da entrega de conteúdo e a contabilidade das vendas, de tal forma que leitor/revendedor/editor e autoes tenham total transparência das atividades comerciais de seus livros/lojas/empresas. Assim, sua infraestrutura física será em hardware and software de gestão e proteção de conteúdo, ao invés de armazéns e transportes. Entendemos que o livro digital deva custar até 30% mais barato que a edição física. Entretanto, muitos dos custos de uma edição normal não serão evitados, como tradução, composição, marketing, direitos autorais. Por outro lado, a editora continua tendo que manter a infraestrutura física para seus livros de papel, e cada venda que migrar do físico para o digital, não vai reduzir em nada os custos no mundo físico, pois são custos fixos e não variáveis.

Zh – Com a assinatura do contrato com a Livraria Cultura, a partir de quando os livros digitais estarão à venda ao consumidor? E como ficarão as questões dos direitos autorais?
Machado –
A Cultura deu mais uma mostra de seu pioneirismo e saiu na frente. Já estamos disponibilizando um primeiro acervo de livros digitais e à medida que consigamos mais conteúdo (ou seja, resolvermos, caso a caso, a questão dos adendos contratuais para incluir direitos digitais) iremos incorporando titulos digitais ao nosso catálogo.

Paulo Coelho troca de editora - de novo

03 de maio de 2010 1

Conforme já havíamos comentado ano passado neste post, alguns grandes nomes da literatura nacional (vivos ou mortos) têm protagonizado algo análogo às ferrenhas disputas de passe de times de futebol pelos craques disponíveis. Com o crescimento do mercado de livros no país e a entrada de grupos gigantescos com capital estrangeiro no jogo, vários selos editoriais anunciaram recentemente a contratação de valiosos acervos editoriais de nomes já consolidados ou canônicos. Como já escrevemos no post que está naquele link ali, o troca-troca entre autores e editoras tem sido frenético nos últimos anos. Vou recuperar só um pedacinho:

De uma década para cá, vimos a Objetiva comprar o passe de Luis Fernando Verissimo (que era da L&PM), a Agir comprar os direitos de publicação da obra de Nelson Rodrigues, que vinha saindo pela Companhia, reunir a obra de Mário de Andrade (que saía pela Itatiaia) e tomar da Planeta o novo romance de Paulo Coelho (que já havia deixado a Rocco uns seis anos antes). A Planeta arrebatou da Nova Fronteira o clássico 1968: O Ano que Não Terminou, de Zuenir Ventura, e ainda o publicou com uma continuação escrita para marcar os 20 anos do tal ano ininterrupto. Nessa ciranda, a Companhia das Letras foi uma das mais ativas: trouxe para seu time Erico Verissimo e Jorge Luís Borges (cuja obra saía pela Globo), Jorge Amado (que era da Record), Lygia Fagundes Telles (que era da Rocco) e Vinicius de Moraes (que eu não me lembro onde estava. Ediouro? Alguém lembra?).

Lembrando que escrevi isso quando Rubem Fonseca saiu da Companhia das Letras, pouco antes de ele anunciar sua migração para a Agir Patrícia Mello, afilhada literária do escritor carioca, também trocou a Companhia das Letras, mas desta vez pela Rocco.

Agora o best-seller Paulo Coelho anuncia nova troca de editora: a editora Sextante anunciou que fechou acordo com Coelho para lançar, em agosto, o novo livro do autointitulado mago, O Aleph (que, exatamente como já havia acontecido com O Zahir, retira seu título de um conto de Jorge Luis Borges). Pelo que foi divulgado pela Sextante, a tiragem inicial do livro será de 200 mil exemplares – tiragem de gente grande, bem como, supostamente, deve ter sido o valor do contrato, não revelado por nenhuma das partes.

O livro anterior de Coelho, O Vencedor Está Só, havia sido publicado pela Agir. A Sextante é a editora no Brasil da patrola de vendas Dan Brown, e tem boa parte de seu catálogo dedicado também ao filão da autoajuda – não deixa de haver uma certa ironia no fato de Paulo Coelho, acusado de autoajuda e de ligeireza literária, agora estar em uma editora que tem as duas coisas como seus carros-chefes.

AGIRam rápido

22 de maio de 2009 2

Rubem Fonseca já tem casa nova, menos de um mês depois de ter deixado sua casa publicadora, a Companhia das Letras. A Ediouro/Agir fez o lance maior e trouxe para o seu catálogo um dos maiores escritores brasileiros em atividade. Participaram do leilão pelo passe do autor de Feliz Ano Novo e Agosto quase todas as grandes casas publicadoras do mercado (e algumas médias): Objetiva/Alfaguara, Ediouro/Agir, Leya (que recentemente comprou a Nova Fronteira e seu suculento catálogo de 40 anos de atividades), Rocco, Língua GeralGlobo, Cosac Naify e Record.

A Ediouro/Agir terá os direitos sobre todos os livros já lançados de Rubem Fonseca e sobre os dois próximos que o escritor irá publicar. Inicialmente, está previsto o lançamento de um romance, já escrito, para o segundo semestre. Fonseca está na metade de um outro livro, que deve ser publicado dentro de um ano. Ninguém abriu o bico sobre questões financeiras, mas fala-se em um milhão de pacotes na mão do senhor Fonseca, entre luvas e adiantamentos. A mesma Agir, como nós há havíamos escrito aqui, já arrebatou da mesma Companhia a obra completa de Nelson Rodrigues e vem republicando na íntegra as obras de Caio Fernando Abreu e Mário de Andrade.

Ah, sim, e o que eu particularmante acho o mais bizarro de tudo isso: com o resultado do leilão, agora Rubem Fonseca e Paulo Coelho passam a ser editados pela mesma casa, algo que eu considerava vagamente impensável há uns 15 anos, quando fazia minha monografia sobre o primeiro e tentava (sem sucesso) entender o que diabos tanta gente via na obra do segundo.