Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "Miscelânea"

Milagres do tempo

13 de setembro de 2011 0

Há um ditado popular que afirma: a passagem do tempo faz maravilhas para melhorar a reputação e prover respeitabilidade a políticos de honestidade duvidosa, prédios de dúbios méritos estéticos e mulheres de vida airada. Me lembrei disso e não pude deixar de acrescentar “escritores de contestados atributos literários” à lista ao ver, desavisadamente, numa livraria da cidade, as novas edições especiais de obras de Sidney Sheldon.

Antes as capas dos livros combinavam muito bem com o espírito de seus best-sellers de ação, sexo e redenção – montagens, imagens no limite do brega (normalmente um rosto de mulher com um olhar entre o dramático e o insinuante), ilustrações algo apelativas (embora não tanto quanto as dos livros de seu colega Harold Robbins). Muitos dos livros com essas capas ainda podem ser encontrados em sebos e livrarias virtuais por aí afora (basta uma breve pesquisa como esta no Google para comprovar o que digo). Hoje, no entanto, quatro anos depois da morte de Sheldon e pelo menos duas décadas após o auge de sua popularidade, seus livros embora ainda presentes no imaginário e na memória literária de muita gente mais ou menos da minha idade, não estão mais no topo das listas da literatura de entretenimento, substituídos por exemplares mais ao gosto do “espírito do tempo”, a saber: as revisões históricas rocambolescas à la Dan Brown, a fantasia malbaratada de Crepúsculo e quetais e o misticismo com um pé na autoajuda de Paulo Coelho e congêneres.

Talvez seja o momento de tentar, então, emplacar o bom e velho Sheldon como um escritor mais “respeitável”, com edições mais sóbrias e classudas de suas obras – não que isso vá alterar os méritos e as graves deficiências do conteúdo, mas foi a impressão que tive ao ver as capas bastante mais sóbrias das reedições recentes de sua obras, como vocês podem ver abaixo:



O BOOK e o L.I.V.R.O.

17 de maio de 2010 3

Devo ter recebido a mensagem contendo o vídeo abaixo de umas 10 pessoas diferentes, todas sugerindo que eu publicasse o bagulho aqui no blog. Eu vi o vídeo e achei bem bacaninha, mas relutei em colocar aqui no Mundo Livro justamente pela grande difusão da brincadeira, que a essa altura todo mundo já viu no twitter ou encontrou em algum outro blog por aí. Claro que você já viu, o vídeo em questão é um esquete em espanhol no qual um rapaz — com óculos de frequentador de rave e blusa fosforescente que parece feita com o mesmo tecido daqueles coletes de polícia rodoviária que brilham no escuro — apresenta um “produto revolucionário” chamado Dispositivo de Conhecimento Bio-Óptico Organizado (o que, imagino, dá a sigla em inglês Bio-Optical Organized Knowledge device, o que justifica a abreviação BOOK). Na prática, é a apresentação de uma tecnologia ancestral, a do livro, como se se tratasse do mais novo gadget desenvolvido especialmente para estes tempos eletrônicos

Se você não se lembra ou, caso improvável, não viu, pode assistir aí embaixo, na janelinha do Youtube, que já voltamos.

Cá estamos de novo. Como eu disse, eu não ia colocar o vídeo aqui no blog justamente por achar que ele já havia circulado demais e não era novidade, mas aí esses dias me deu o estalo do que eu poderia acrescentar à exibição do vídeo, pura e simples: a minha perplexidade com a semelhança que esse texto apresenta, em conceito e ideias, com um texto antigo, bem antigo do mestre Millôr Fernandes, propagandeando justamente as virtudes de um dispositivo semelhante: o Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O. Ele andou sendo republicado faz uns anos, acho que 2006 ou 2007, na coluna de Millôr na Veja, mas é bem anterior, tanto que acho que ele está incluído entre os verbetes da primeira edição ainda do Millôr Definitivo (L&PM, 1994) – espero que esta informação esteja correta, o meu exemplar do livro está em São Gabriel e não tenho como consultá-lo no momento. O fato é que o texto, que reproduzo abaixo (preservando os termos destacados em negrito pelo próprio autor), vai exatamente na mesma linha do vídeo, como vocês podem ver:

L.I.V.R.O.

Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.

Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.

L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!

Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em seqüência correta. Com recurso do TPO – Tecnologia do Papel Opaco - os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.

Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta “ERRO FATAL DE SENHA“, nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.

O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.

Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.

Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.

E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!

Mas será que não enguiça mesmo? O carinha desse outro vídeo logo abaixo talvez tivesse outro depoimento a dar:

Sobre Cafés, Janelas e Escritores

19 de março de 2010 1

O Michel Laub, autor de O Gato Diz Adeus, O Segundo Tempo e Longe da Água (um texto sobre o primeiro pode ser lido aqui, e um sobre os dois últimos pode ser conferido aqui) também mantém um dos melhores blogs literários da internet. Ele começou lá esta semana, e pretende continuar resto do ano adentro, a publicar uma série de depoimentos que está coletando de escritores contemporâneos sobre seus hábitos, manias de escrita, locais preferidos para produção, ambientes, bebidas, paisagens, etc, que escritores preferem ter diante de si quando estão criando suas obras.

Michel postou, em seis partes, a primeira parte de sua pesquisa, que inclui depoimentos de 30 escritores (como escritor é uma categoria ampla que pode ser resumida a “alguém com livro publicado”, Michel foi gentil o bastante para me incluir na lista e me pedir para responder a enquete). Pretende chegar a 100 ao longo de 2010. É uma dessas brincadeiras curiosas que sempre rende justamente porque, como ofício altamente solitário, a escrita é território de sutilezas e cada autor terá suas idiossincrasias para encontrar o conforto de escrever – mesmo aqueles que não têm idiossincrasia alguma, como depõe Moacyr Scliar. Mas há os que não conseguem escrever sem camisa, como o Carpinejar, e os que escrevem nus (essa imagem vai me perseguir incomodamente por algum tempo, Pellizzari), há os que curtem a proximidade de uma janela, como o Daniel Galera, os que precisam de silêncio, como a Cíntia Moscovich e o Bernardo Ajzenberg, os que só escrevem tomando chimarrão (Carol Bensimon) ou algo que se ajuste ao livro que está escrevendo (Xerxenesky), os que escrevem de manhã (Noll) e os que varam a madrugada (como a Vanessa Bárbara, que tem a mesma mania que eu e me poupa o cabotinismo de me usar como exemplo).

Tá, mas qual é a utilidade disso? Nenhuma, pois. É um divertido inventário, e tão inútil quanto a melhor literatura. Passem lá.

Não enviem cartões para mr. Salinger

02 de janeiro de 2009 3

O simpático e algo assustador ancião aí de cima é o escritor norte-americano Jerome David Salinger, flagrado de surpresa em uma de suas poucas fotos conhecidas — e a única tornada pública nos últimos 30 anos. J.D. Salinger completou agora neste início de 2009 (no dia 1º, especificamente), provectos 90 anos de idade, mas não tente mandar um cartão ou bater na porta para dar os parabéns que você pode ser enxotado com essa mesma expressão de ira com que ele está confrontando o fotógrafo.

Salinger ainda mantém intocável o folclore que cerca sua pessoa há mais de 40 anos. Escritor que foi unanimente saudado pela crítica desde sua estréia, em 1944 — Hemingway glorificou seu talento quando o sujeito recém havia publicado seu primeiro conto — Salinger praticamente inventou a adolescência moderna na literatura com seu onipresente O Apanhador no Campo de Centeio, de 1951. Como escreveu o jornal inglês Telegraph, numa bem-humorada relação dos livros mais cultuados da literatura, publicada no ano passado:

O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger (1951)
O texto sagrado sobre alienação adolescente, amado por assassinos, emos, e todos os que estiverem entre uma categoria e outra, incluindo aí Gordon Brown. O complicado adolescente Holden Caulfield à solta na Cidade Grande, reclamando de sua família e ficando bêbado. Você provavelmente já o leu, seja honesto.

Caulfield até hoje é um personagem que se conecta com o vazio e a angústia adolescentes, e O Apanhador… ainda é o livro mais conhecido de Salinger, cultuado como um mestre pela profundidade com que trabalha seus personagens. Depois de O Apanhador, seu único romance, Salinger publicou a coletânea de contos Nove Histórias (1953), Franny & Zooey (1961) e Para cima com a viga, Moçada, e Seymour, uma Introdução (1963), na tradução da Brasiliense que ainda se acha em sebos, ou Carpinteiros, levantem bem alto a Cumeeira, e Seymour, uma apresentação, na tradução nova da L&PM. Os outros l ivros têm edição recente pela Editora do Autor, numa caixa especial.

Depois desse último volume, que reúne duas novelas, Salinger não publicou mais nada, e recolheu-se a um silêncio eloquente, trancado em uma casa no topo de uma montanha no povoado de Cornish, em New Hampshire, nos Estados Unidos, cercado de altas muralhas. Não recebe visitas, não dá entrevistas, preserva-se de fotos (como vocês podem ver na reação do homem à imagem), não permite que seus livros sejam adaptados para o cinema e não publicou mais uma linha — embora relatos de terceiros, entre eles sua filha e a ex-namorada Joyce Mainard, jornalista e escritora, garantam que ele continua escrevendo.

Joyce merece uma menção um pouco mais a longa, a propósito. Em 1971, ela publicou, aos 18 anos, um ensaio literário na New Yorker no qual relembrava a experiência de ser uma pré-adolescente nos feéricos anos 1960. Salinger foi uma das centenas de pessoas que escreveu cartas comentando o artigo. Ela nunca havia lido nenhum livro dele (então com 53), mas na troca frenética de cartas que se seguiu ambos se descobriram apaixonados pela mente um do outro. Ela foi morar com ele e viveu nove meses na casa da colina — até ser expulsa aos pontápés da vida do sujeito. Nos anos 1990, Mainard lançou um livro no qual contava sua vida e devassava a intimidade de sua relação com Salinger. Como escreveu o escritor e jornalista Lourenço Cazarré para a Zero Hora em 1999, numa resenha do livro Abandonada no Campo de Centeio (a tradução tenebrosa que a Geração Editorial resolveu aplicar para o original At Home in the World: “Em casa no Mundo”):

O escritor J.D. Salinger passa correndo pelo livro Abandonada no Campo de Centeio, de Joyce Maynard. Entra na página 89 e sai na 222. Pouco para uma obra de 350 páginas. Isso certamente vai deixar um pouco frustrado o leitor brasileiro. O que se tem na maior parte do livro é a vida – bastante atribulada, é verdade, mas nada impressionante – de Joyce Maynard, a jovem que, aos 18 anos, viveu por quase um ano com Jerry Salinger, que estava na época com 53 anos.
A meteórica passagem de Salinger, é claro, frustra o sujeito que comprou o livro para saber um pouco sobre a vida desse grande ermitão, que morreu para o mundo em 1965, depois de ter publicado apenas cinco livros, entre eles
O Apanhador no Campo de Centeio, seguramente um clássico entre os livros sobre a adolescência.
Mas a imagem que se tem de Salinger depois da leitura dessas cento e poucas páginas é demolidora. Segundo a descrição de Joyce Maynard, o escritor é um maluco que tem uma preocupação histérica com alimentação, um fervor religioso pela medicina homeopática e um supremo desprezo por tudo o que não seja J.D. Salinger, ele próprio.
Nas quatro páginas finais, Salinger reaparece. Depois de 15 anos de afastamento, Joyce volta a visitá-lo. Está triste porque soube, pelo vizinho, que ele teve outras mulheres. Na verdade, várias.
Na varanda da casa do escritor, em Cornish, New Hampshire, os dois têm então uma tensa conversa. O Salinger que sobressai desse diálogo – um dos pontos altos do livro – não é apenas um mentecapto. É um mentecapto grosseiro e raivoso que odeia tudo e todos.

Feliz Aniversário mesmo assim, senhor Salinger. Poderia baixar a espingarda agora?

O que há num nome?

28 de abril de 2008 1

Saiu esses tempos no Segundo Caderno de Zero Hora um artigo assinado pelo meu colega Eduardo Veras sobre uma nova tradução, modernizada, da obra prima da literatura mundial escrita pelo clérigo e matemático Charles Lutwidge Dodgson, de quem vocês já devem ter ouvido falar… Não? Ah, desculpem. É uma obra muito conhecida da literatura infantil, assim como aquele outro grande livro para crianças escrito pelo também famoso Samuel Langhorn Clemens. Não ainda? Talvez estejamos nos centrando muito na literatura infantil. podemos então tentar uma nova abordagem e falar de um dos grandes artífices da língua inglesa em todos os tempos, Józef Teodor Korzeniowski. Também não?

Se os nomes citados não são familiares à maioria de vocês, o problema não é com vocês, acalmem-se. É que esses são os nomes reais de três artistas que se tornaram conhecidos por outro nome, um pseudônimo literário, ou “nom de plume”, como diziam os franceses, ou “pen name”, como se diz em língua inglesa. Charles Lutwidge Dodgson, embora realmente fosse diácono da ingelsa anglicana e matemático, como está no texto, se tornou conhecido na realidade pelo nome de Lewis Carroll, o autor de Alice no País das Maravilhas; Samuel Langhorn Clemens é um clássico das letra americanas com o Tom Sawyer e o Huckleberry Finn publicados sob o nome Mark Twain (provavelmente leitores da série em quadrinhos Sandman já haviam matado essa) e Józef Teodor Korzeniowski (é a vez de os leitores de Rubem Fonseca piscarem o olho e dizerem: “eu já sabia”), o autor de O coração das trevas, tornou o nome Joseph Conrad sinônimo de concisão e elegância na prosa inglesa.

De modo geral, o pseudônimo (do grego, quer dizer “nome falso”) é uma tradição tão antiga quanto a própria literatura. Cícero, por exemplo, adotou para si como sobrenome o apelido de um antepassado que queria dizer “grão-de-bico”. E antes disso, ainda, segundo conta Diógenes Laércio, o jovem e corpulento grego Aristocles ganhou, pelo aspecto robusto de sua figura e pelo tamanho dos peitorais e dos ombros amplos, o apelido de “Largo” (Πλάτων, ou “Platon” em grego) com o qual foi conhecido dali por diante. O próprio “Dante” é uma forma reduzida de Durante.

O pseudônimo, entretanto, se torna mais presente com o estabelecimento, de uma categoria de escritores que vivem do que escrevem ou que fazem de seu ofício de escrever sua identidade social, digamos assim. É assim que o francês Jean-Marie Arouet deu lugar ao mestre do iluminismo Voltaire. Não se sabe muito bem a origem desse pseudônimo, alguns defendem que era um anagrama usando as letras de AROUET (não esqueça que em latim, a língua científica da época, V e U se equivaliam) acompanhados de L. J., abreviatura de “Le Jeune” – “o jovem”.

Muitas vezes a iniciativa de adotar um “nom de plume” advém de uma intenção de criar com aquele pseudônimo uma entidade literária à parte para a obra de ficção, preservando o nome original para as obras “científicas” – como fez o próprio Carroll, que escreveu tratados de matemática com o nome verdadeiro e Alice… com seu “nome de escritor”.

Outras vezes, um pseudônimo têm a ver com tentar condicionar a expectativa do público ou justamente escapar dos preconceitos dele. George Eliot, por exemplo (na imagem que ilustra o post, com cerca de 30 anos, pintada por François D`Albert Durade), era a inglesa Mary Ann Evans, George Sand era a francesa Amandine Aurore Lucile Dupin e a dinamarquesa Karen Blixen assinou seus livros com o nome de Isak Dinesen – em ambos os casos as duas mudaram de nome para fazer o público pensar que o livro era escrito por um homem, e assim a obra poderia ser analisada por si mesmo e não como um “livro escrito por uma mulher”. Já no sentido contrário, Stephen King, consagrado como o grande nome do horror em língua inglesa, resolveu publicar romances sob o pseudônimo Richard Bachman para ter certeza de que a obra seria comprada pela sua qualidade e pelo conteúdo, e não por ser o mais recente romance de Stephen King. Há ainda um caso engraçado envolvendo a prêmio Nobel de 2007 Doris Lessing. Em 1984, já tendo publicado obras de grande sucesso de crítica e público, como O carnê dourado, A canção da relva, O verão antes da queda e a série de ficção científica Canopus em Argos, enviou para seu editor o romance Diário de uma boa vizinha, com o pseudônimo Jane Somers. Sem saber quem era, o editor recusou o livro.

Vão abaixo então, alguns desses pseudônimos curiosos de grandes nomes da literatura:

Anthony Burgess se chamava na verdade John Burgess Wilson.
George Orwell nasceu Eric Arthur Blair
O ator e dramaturgo Molière se chamava na verdade Jean-Baptiste Poquelin.
Stendhal
tinha o nome de batismo Henry-Marie Beyle.

Tem no Brasil, também: Nelson Rodrigues escreveu vários folhetins com o nome Suzana Flag – e, pelo que conta Ruy Castro em O anjo pornográfico, muitos acreditaram que a personagem existia de fato. E o grande nome das literatura policial voltada para jovens, Marcos Rey, se chamava na verdade Edmundo Nonato, um nome bem menos imponente.

Primeira linha

22 de junho de 2006 5

Essa é uma brincadeira que muitos leitores já se pegaram fazendo: enumerar as melhores primeiras frases de romances que já leram – Rubem Fonseca fez isso no meio do romance Buffo & Spalanzani, se não me engano – ou poderia ser no Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos.

Pois este site, dedicado à literatura independente norte-americana, fez uma lista parecida, mas mais abrangente. São 100 melhores primeiras frases de romances na opinião dos caras. O texto original da página está em inglês, mas a maioria dos romances citados tem tradução aqui no Brasil, então é possível anotar e conferir depois.

Dêem um bico nas cinco primeiras, traduzidas abaixo, (em alguns casos a tradução é a que está no livro, em outros, é um enjambrado tosco deste que vos escreve se fiando na própria memória):

1 – Chamai-me Ismael — Herman Melville, Moby Dick (1851)

2 – É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro em posse de uma boa fortuna deve estar em busca de uma esposa – Jane Austen, Orgulho e Preconceito (1813)

3 – Um grito vem através do céu — Thomas Pynchon, Arco-Íris da Gravidade (1973)

4 – Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. — Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão (1967)

5 –  Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne — Vladimir Nabokov, Lolita (1955)

A lista completa pode ser conferida, em inglês, só pra lembrar, aqui. Como toda lista envolvendo arte, o divertido dessa é acompanhar mais para discordar e descobrir coisas que a gente ainda não leu. Qual seria a sua primeira frase favorita? Respostas nos comentários.