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Posts na categoria "Moacyr Scliar"

As crônicas de Scliar

23 de outubro de 2012 0

O escritor Moacyr Scliar

Leon Tolstói (1828 – 1910) foi não apenas um grande escritor, foi um tipo humano fascinante que, sob alguns aspectos, antecipou formas de pensamento e estilos de vida que depois viriam a caracterizar o século XX. Podemos dizer que foi, senão o primeiro, pelo menos um dos primeiros hippies, o resultado de uma trajetória intelectual e espiritual em que não faltaram momentos surpreendentes. O centenário de seu nascimento está sendo lembrado em todo o mundo este ano. De família rica e tradicional, filho de um conde, Tolstói nasceu em 1828 em Iásnaia Poliana, grande propriedade familiar. Frequentou a universidade, estudando Direito e idiomas, mas, aluno rebelde, abandonou o curso. Passava muito tempo em Moscou e em São Petersburgo,levando uma vida boêmia e acumulando pesadas dívidas de jogo. Talvez para escapar a esta situação, alistou-se no exército e começou a escrever. Resultou daí uma notável obra, expressa em contos, em romances, como Anna Kariênina e Guerra e Paz, em ensaios. Seus textos conquistaram a admiração de escritores como Flaubert, Dostoiévski e Tchekhov, e tornaram-no famoso.
Aos poucos, Tolstói foi optando por um caminho que, filosoficamente e politicamente, caracterizava a sua independência e sua rebeldia. Depois de presenciar uma execução pública em Paris, concluiu que o Estado “é uma conspiração para explorar e corromper cidadãos”. Embora influenciado pelo anarquista Pierre-Joseph Proudhon (de quem copiou o título de um livro,
La Guerre et la Paix), não aderiu ao anarquismo; mas resolveu dedicar-se à gente pobre, comum. Em Iásnaia Poliana, fundou várias escolas que proporcionavam um ensino livre, democrático. Era um cristão fervoroso, mas não convencional, que buscava sua própria interpretação dos livros sagrados. Admirador de Buda e de São Francisco de Assis, acabou excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa, e, numa época, era vigiado pela polícia do tsar. Pacifista convicto, influenciou o líder hindu Mahatma Gandhi, que, através do movimento de resistência não-violenta, conseguiu que a Índia se tornasse independente da Grã-Bretanha. Achava que a aristocracia era opressora, opunha-se à propriedade privada e ao casamento; valorizava a castidade, não bebia nem fumava, era vegetariano e usava roupas simples de camponês, renunciando inclusive à sua riqueza e até aos direitos autorais (um escritor que era, portanto, o sonho dos editores).
A família (era casado com a filha de um famoso médico e teve com ela 13 filhos) não aceitava o que era considerado um extravagante modo de vida. Aos 82 anos, Tolstói decidiu fugir de casa; fê-lo de trem, em gélidos vagões de terceira classe. Contraiu pneumonia e morreu em 20 de novembro de 1910, na estação ferroviária de Astapovo. Àquela altura era uma personalidade universal e, apesar de não ter nada a ver com o comunismo, foi prestigiadíssimo na finada União Soviética. Para os hippies dos anos 1960, tornou-se um modelo, e havia até colônias com seu nome. Certamente no musical Hair, celebração desse movimento, ele teria um papel importante. Basta lembrar uma única frase dele,que aparece no começo de Anna Kariênina: “Todas as famílias felizes são iguais, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Bota sabedoria nisso.”

Durante quase 40 anos, entre o início dos anos 1970 e janeiro de 2011, o escritor Moacyr Scliar (1937 – 2011) publicou crônicas regularmente em Zero Hora. Os assuntos eram os mais variados possíveis: das questões de saúde abordadas no caderno Vida aos temas mais leves desenvolvidos no caderno Donna, passando pelos assuntos cotidianos da cidade e do Estado reservados para a coluna das terças-feiras na página 2 do jornal.

Está chegando às livrarias a coletânea A Poesia das Coisas Simples (Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 29,50), organizada e prefaciada pela professora Regina Zilberman, reúne 82 dessas crônicas, escritas entre outubro de 1977 e novembro de 2010. Dividido em três grandes eixos temáticos (Leituras, Livros, Literatura, Pessoas e Personagens – de onde saiu a crônica reproduzida acima  – e Outras Histórias) organizados em ordem cronológica, o livro revela pelo menos três temas que seriam recorrentes ao longo de toda a trajetória do escritor como cronista: a paixão pela literatura, o legado da cultura judaica e as lembranças familiares da infância no Bom Fim.

Scliar escreveu mais de 70 livros em gêneros como romance, conto, ensaio, crônica e ficção infantojuvenil, mas, paralelamente à produção extensa e variada, fazia questão de manter uma vida literária intensa e movimentada. Viajava pelo mundo todo para congressos de literatura, mas não recusava os convites das pequenas Feiras do Livro do interior do Estado. Entre os textos selecionados, há saudações à Jornada de Passo Fundo e à vindoura Feira do Livro de Porto Alegre, assim como o registro de encontros com celebridades literárias internacionais como Gabriel García Márquez e relatos sobre a convivência com escritores como Erico Verissimo, Jorge Amado e Antonio Callado.

O título do livro foi retirado de um texto sobre outro escritor com o qual Scliar conviveu e a quem dedicou uma cordial despedida em dezembro de 1990, quando Rubem Braga morreu. Falando sobre o cronista mais celebrado da literatura brasileira, aquele que, ao contrário do próprio Scliar, dedicou-se a um único gênero, o escritor gaúcho acaba fazendo o elogio do texto breve que exercitou durante toda sua vida literária: “Há quem julgue o jornal um veículo inadequado para a literatura: o livro, diz-se, tem permanência (mesmo que esta permanência por vezes só beneficie as traças) ao passo que o jornal é um objeto descartável (…). Braga, porém, nunca acreditou nesta lógica ‘macluhanesca’. Preferiu seguir o caminho de Machado e de Lima Barreto, e transformou o cotidiano em matéria-prima para um trabalho literário de primeira grandeza”.

Scliar é homenageado em coletânea de ensaios

04 de setembro de 2012 0

A partir de 1962 a cidade de Scliar é a mesma cidade de Erico Verissimo e Dyonélio Machado; no entanto, o cenário é inteiramente outro. Nos dias subsequentes à ascensão do nazifascismo e à eclosão da grande guerra, intensificara-se o processo imigratório, e o Rio Grande multiplicou o contingente de judeus oriundos de diversas procedências. Logo definindo um significado considerável não só nas relações empresariais e comerciais, mas também no panorama da cultura e das artes, eles terminaram agrupados num bairro que adquiriu características próprias e inconfundíveis. Era o Bom Fim. O judeu e o Bom Fim tornaram-se sinônimos no mapa geográfico e também no mapa mental de Porto Alegre.
Pertencendo à geração dos filhos dos primeiros imigrantes, foi justamente isso que Scliar percebeu com notável intuição ao escrever os seus textos, ora resgatando a memória da infância translata nesse espaço singular, ora fixando tipos, usos, costumes, também um acervo lendário praticamente inesgotável que ele não hesitou em aproveitar no seu mundo fictício.  Então a cidade de Erico e Dyonélio era aquela mesma, mas já era outra. Direi desde logo que a´nasce um novo território na literatura brasileira. Nem Porto Alegre fora desenhada sob esse ângulo, nem o judeu fora inserido como protagonista no mosaico brasileiro que a narrativa veio compondo de Alencar em diante. No Bom Fim de Moacyr Scliar o imigrante judeu e sua descendência ganharam a cidadania literária.

O trecho acima é do ensaio Scliar e a Diáspora de Todos Nós, publicado pelo professor e crítico Flávio Loureiro Chaves na coletânea Tributo a Moacyr Scliar (Edipucrs, 220 páginas, R$ 30). O livro, organizado pelas professoras Maria Eunice Moreira, Ana Maria Lisboa de Mello e Zilá Bernd, reúne estudos críticos sobre a obra literária de Moacyr Scliar e depoimentos de pessoas que o conheceram. Scliar morreu em fevereiro de 2011, aos 73 anos.

No primeiro eixo, o dos estudos críticos, Loureiro Chaves aborda  a construção, por parte de Scliar, de uma ficção que adicionou os questionamentos de identidade do imigrante judeu à vertente local do romance urbano; Soraya Lani discute as interrelações entre Scliar e a narrativa bíblica de onde ele declaradamente buscava inspiração; Ilana Heineberg debate a maneira como Scliar reviu as utopias fundadoras do século 20 em seu último romance, Eu Vos Abraço Milhões; Marie-Hélène Paret Passos apresenta um panorama do acervo literário de Moacyr Scliar presente no centro de documentação Delfos, da própria PUCRS.

Na parte dos depoimentos, o escritor e atual secretário de Cultura Luiz Antonio de Assis Brasil relembra sua amizade com um dos mais prolíficos e generosos escritores do Estado; o irmão Wremyr Scliar retraça histórias familiares;, o jornalista Nilson Souza fala sobre a convivência com o escritor, também cronista de imprensa; Jean-Marie Ozanne, editor de Scliar em francês, e Phillippe Poncet, seu tradutor, também recordam o autor. Ao final, uma cronologia dá conta da publicação de sua vasta produção literária – Scliar lançou mais de 80 livros, publicando durante boa parte da vida mais de um volume por ano.

O livro será lançado nesta quarta-feira, às 18h, no saguão da Biblioteca Central Irmão José Otão, prédio 16 da PUCRS (Ipiranga, 6.681). O livro estará á venda no lançamento e depois estará em livrarias. Ou pode ser adquirido no site da editora (www.pucrs.br/edipucrs)


Dez vezes Scliar

03 de março de 2012 0

Como uma das séries que este blog começou e nunca leva adiante é a apresentação de uma lista de 10 livros garimpados por qualquer critério que os unifique, me dei conta que poderia fazer uma última homenagem a Moacyr Scliar publicando aqui uma versão ampliada da relação do que havia de essencial no trabalho de Scliar. Preparei a lista para a edição do dia seguinte ao da morte do autor.  Não enfoquei a literatura infantil e infanto-juvenil, nem suas coletâneas de crônicas.

São DEZ LIVROS de ficção de Scliar que eu considero os fundamentais para um primeiro contato com a obra do autor – não esquecer que Scliar escreveu quase 80 livros ao longo de sua proveitosa trajetória, e o exercício de peneirar 10 é também um exercício de leitura possível de um conjunto tão vasto.

A Guerra no Bom-Fim (L&PM, 1972)
Em seu primeiro romance, Moacyr Scliar, já na época aclamado contista, narra uma evocativa história de formação. O menino Joel recorda-se de sua infância nos anos 1940 no bairro judaico do Bom-Fim, em Porto Alegre. Scliar casa com o humor agridoce que ele emprestou da tradição judaica para tornar marca de sua ficção as recordações de um garoto de um Bom-Fim quase aldeia, reduto de imigrantes, e sua descoberta da maturidade em meio aos ecos da guerra na Europa. Uma atmosfera mágica que mistura as experiências de infância do garoto com a guerra imaginada pelas notícias que chegam da Europa. “As balas zuniam no ar, os Stukas e Messerchimitts roncavam sobre Capão da Canoa“, escreve em certa passagem Scliar, lançando as bases que seguiria dali em diante em sua carreira de romancista.

O Exército de um Homem Só (L&PM, 1973)
Comunista durante a juventude, Scliar faz do protagonista do romance, Mayer Guinzburg, o “Capitão Birobdjan”, sua versão desencantada do Quixote – bem como um símbolo da presença judaica na sociedade brasileira. Imigrante russo, Birobidjan chega a Porto Alegre como um utópico idealista, pregando a ideia de um mundo melhor por meio do socialismo. À medida que o livro avança, os sonhos de Mayer vão sendo deixados de lado por imperceptíveis concessões do protagonista, ao “sistema”, à vida que se espera de um judeu bem estabelecido na comunidade, à imagem caricata de estabilidade burguesa. Birobidjan primeiro se torna um fazendeiro socialista que vive existência comunal com os animais (a utópica Nova Birobidjan), vai trabalhar atrás de um balcão, torna-se empreiteiro de construção civil, empresário arruinado e uma ruín abandonada em uma pensão.

O Centauro no Jardim (Companhia das Letras, 1980)
Uma das obras-primas de Scliar, que aqui exacerba ao limite da fábula o uso do fantástico já recorrente em seus livros anteriores. Em uma localidade do interior gaúcho, o quatro filho de uma família de imigrantes judaicos nasce centauro. Metáfora a um só tempo da condição judaica, do imigrante e da individualidade atropelada pelo coletivo. Aqui o autor encontrou aquilo pelo que um escritor procura a vida toda: uma criação simbólica original que passa a ser adotada até mesmo fora da obra como referência para aquilo que a imagem queria retratar. Mais de um amigo judeu com quem conversei ao longo desta última semana enfatizava o quanto esta metáfora do Centauro como ser híbrido de duas espécies era também um retrato da condição íntima do judeu imigrante ou descendente.

Contos Reunidos (Companhia das Letras, 1995)
Nesta abrangente coletânea Scliar reúne quase toda sua produção contística até então _ o que inclui seus melhores trabalhos no gênero, que lhe valeram papel de destaque no cenário nacional, como A Balada do Falso Messias, Pausa, Uma Casa, Lavínia, Cego e Amigo Gedeão à Beira da Estrada e outros. O trabalho do Scliar contista tinha algumas especificidades que diferenciavam suas narrativas breves de seus romances. Se nos textos mais longos Scliar transformava repetições de estruturas e de motes elementos de humor, nos contos, Scliar tinha como influência declarada Kafka e suas histórias cheias de significado, que transformam narrativas curtas – algumas curtíssimas – em parábolas da condição humana. Ao reunir as narrativas para a antologia, Scliar não apenas agrupou seus livros em ordem cronológica, preferiu reordenar o conjunto juntando na mesma seção contos que mostram certa afinidade conceitual ou temática.

A Mulher que Escreveu a Bíblia (Companhia das Letras, 1999)
Primeiro livro do que Scliar chamou de sua “trilogia de temática bíblica”. Inspirado pelo ensaio O Livro de J.,  obra de 1992 na qual o crítico Harold Bloom postulava que os escritos mais antigos da Bíblia teriam sido escritos por uma mulher, a “Javista” (a criadora do “personagem” literário Javé), Scliar imagina que mulher seria essa. Culta e ilustrada, a desafortunada concubina mais feia do harém do rei Salomão, evitada ao máximo pelo rei, que demora a visitá-la, dedica-se a escrever, a pedido do próprio Salomão, os livros que formarão a base da Torá, o coração do Velho Testamento. Dotada de inteligência tão notável quanto sua feiúra, a mulher, concubina de relações não consumadas com o terceiro rei de Israel, é consumida por pensamentos lascivos e não consegue refrear uma linguagem sem meias medidas. Foi um livro no qual Scliar lançou mão pela primeira vez com mais afinco de um procedimento que repetiria em outras reinvenções bíblicas: o transplante de uma linguagem e uma mentalidade contemporâneas para os tempos bíblicos.

Saturno nos Trópicos (Companhia das Letras, 2003)
Ensaio no qual Scliar constrói, em duas partes, uma ampla e rigorosa história da melancolia como um sentimento que oscila entre a apatia e agitação. Na primeira seção do livro, Scliar analisa minuciosamente a evolução do conceito de melancolia através da história _ o livro aborda, é claro, mais o estado de espírito do que a depressão enquanto enfermidade diagnosticável. Na segunda parte, Scliar discute como essa noção foi transplantada para o Brasil na colonização portuguesa, povo que se entregou à descoberta de terras distantes como parte do anseio de superar a própria melancólica inação. Uma espécie de síntese da obra não-ficcional de Scliar. Sua abordagem busca casar a leveza da crônica, a erudição de um autor que tinha um enorme cabedal de informações com o rigor de uma visão intelectual original.

Os Vendilhões do Templo (Companhia das Letras, 2006)
Mais uma volta de Scliar ao mundo bíblico, desta vez em um texto estruturado em três partes: na primeira, o autor reconta o episódio em que Jesus expulsa os vendilhões do templo pela ótica de um deles, uma espécie de protocapitalista com projetos grandiosos para revolucionar o comércio de pombos na entrada do Templo de Jerusalém. A história ecoa nas duas partes seguintes, uma passada no período missioneiro do Estado e outra na contemporaneidade, numa cidade do interior pela primeira vez governada por uma administração de esquerda. O protagonista desta terceira seção lida com um episódio dramático no passado relacionado a uma apresentação de teatro de escola, uma versão justamente da história dos “vendilhões do Templo” expulsos por Jesus.

Enigmas da Culpa (Objetiva, 2007)
Ensaio no qual Scliar faz uma espécie de acerto de contas com duas instâncias fundamentais de sua formação: a herança judaica e a utopia socialista. Partindo de sua própria experiência de filho socialista de um casal de imigrantes judeus _ e que, depois de muitas privações buscavam, como muitos dos de sua geração, a estabilidade burguesa que incluía bens materiais  e o investimento em uma educação de qualidade para os filhos_ Scliar perscruta o papel da culpa na civilização judaico-cristã.

Manual da Paixão Solitária (Companhia das Letras, 2008)
A primeira vez que ouvi Scliar comentar sobre esse livro foi no início de 2003. Naquela época, a obra chegou a ser anunciada para outubro daquele ano, com o título de O Irmão de Onã, na coleção erótica que a Companhia das Letras estava pondo em circulação, abrindo a série com Diário de um Fescenino, de Rubem Fonseca. Quando Scliar voltou a comentar que o livro estava para sair, numa conversa no bar da redação, eu já havia até me esquecido dele. De acordo com o autor, uma primeira versão do livro praticamente já escrita foi jogada no lixo porque ele percebeu, em certo momento, que estava contando a história por um ponto de vista errado. Trocou de narrador e concluiu este livro com o qual foi agraciado com os Jabutis de Livro do Ano 2009 na categoria ficção e Melhor Romance. Encerrando sua trilogia bíblica, Scliar reconta a história do irmão caçula da família de Onã – aquele mesmo, que deu origem à palavra “onanismo” para não engravidar a mulher de seu irmão mais velho. Com humor, Scliar estabelece que o verdadeiro “onanista” da família era o caçula, o “irmão de Onã” – embora seja um dos livros de Scliar com o qual menos consegui me acostumar devido ao engenho formal de apresentar a história pelo ponto de vista de dois palestrantes de um congresso de estudos bíblicos..

Eu Vos Abraço, Milhões (Companhia das Letras, 2010)
Scliar volta ao passado do Brasil neste romance sobre a Revolução de 1930 no qual reconstrói a utopia comunista no Brasil. Um jovem filho de um capataz em uma estância missioneira, inflamado pelo sonho socialista incutido nele por um amigo, muda-se para o Rio em 1929 tentando encontrar um dos líderes do Partido Comunista para oferecer seus serviços à causa da luta revolucionária. Odirigente, entretanto, é um homem inconstante e difícil de ser encontrado, e enquanto isso o rapaz vai se deixando ficar. Nesse processo, testemunha os efeitos do Crash da bolsa de Nova York, emprega-se como operário na construção do Cristo Redentor e vê a a revolução liderada por Getúlio Vargas tomar as ruas de então Capital Federal. Como inadvertida última obra de ficção, representa uma síntese do Scliar romancista da segunda fase e seu modo peculiar de incorporar a história em seus livros.

Scliar disfarça o conto na crônica

26 de julho de 2011 0


Moacyr Scliar em 1990. Foto de José Doval, ZH


Moacyr Scliar (1937 – 2011) foi um atleta de triatlo da literatura brasileira. Nadava, pedalava, corria. Escreveu mais de 80 livros em praticamente todos os gêneros. Só não publicou em poesia para não humilhar seus colegas. Romancista que renovou o imaginário judaico, autor de clássicos como O Centauro no Jardim, quatro vezes premiado com Jabuti, Scliar mantinha seu condicionamento literário pelas crônicas, publicadas quase que diariamente nos jornais Zero Hora e Folha de S. Paulo.

Os relatos afetivos e coloquiais formavam uma espécie de diário de seu conhecimento enciclopédico, em que ele comentava sobre qualquer assunto e nome, desde medicina até sociologia, de Antônio Vieira a J. K. Rowling. O escritor gaúcho, falecido em fevereiro ( e que vai virar nome de prêmio literário anunciado pelo governo do Estado no dia 18 do mês que vem), não era um generalista, mas um sábio à moda antiga, com cultura geral sólida, pronto para qualquer discussão e cafezinho. Não se intimidava diante da complexidade das questões. Ao contrário de intelectuais que se tornaram referência, tal Paulo Francis na década de 1980, jamais escorregou em perfil conservador, mantendo-se sempre curioso e ávido pelas mudanças tecnológicas e de comportamento e aberto a diferentes pontos de vista.

A coletânea de 1984 A Massagista Japonesa (128 páginas, R$ 13), relançada agora pela L&PM, por vias tortas acena para o lado contista de Scliar, possibilitando o reencontro com sua capacidade de mimetizar dilemas do cotidiano e propor um suspense de pensamento. São 35 textos de natureza híbrida entre a narrativa curta e o ensaio. Poderiam constar facilmente em seus livros de contos as tramas de Muitos e Muitos Graus Abaixo de Zero, A Massagista Japonesa, O Ocaso da Delação e O Homem que Corria. O núcleo contístico traduz o ponto alto da obra, pelas histórias visível e invisível, concisão da ação e exagero da caracterização, além do final imprevisível. Scliar maneja a arte de criar lógica da incoerência. Ele nos convence do absurdo a ponto de parecer normal. Como a trama do advogado que se apaixona pela maratona a ponto de transformar o casamento, o escritório e os filhos em meras linhas de chegada de uma corrida interminável pelo melhor tempo. E não é uma metáfora, o sujeito pretende fazer tudo mesmo correndo por Porto Alegre.

Uma das virtudes da trajetória do ficcionista, demonstrada com astúcia em A Orelha de Van Gogh e O Carnaval dos Animais, é justamente exumar metáforas: converter parábolas em situações literais, objetivar o figurado. Na contramão bíblica, transforma o vinho em água, leva a sério a chuva de rãs, traz à tona os efeitos colaterais dos milagres. Magistral contador de causos, flaubertiano assumido, não deixa nenhum ponto sem nó, nunca desperdiça migalha jogada ao chão (é caminho de volta), não despreza informação abordada antes. Se uma personagem tricota um pulôver é que a roupa vai fazer a maior diferença no desfecho. Nada é avulso. Sua competência é desviar atenção a um contexto de maior movimentação, para que outra zona exploda secretamente e surpreenda o leitor. Exemplo é a antipatia que ajuda a alimentar pelo delator da escola. Afinal, não existe motivo para admirar o guri que dedura por prazer. Toda hora alerta o professor para colegas colando na prova, trocando bilhetes de amor, conversando no fundo. Nem o professor suporta tamanha alcaguetagem e pede que ele procure se concentrar no conteúdo. Ao cabo, o fofoqueiro é pego fumando no banheiro e sumariamente expulso da instituição. O alívio dá lugar a um mal-estar, já que se descobre que o próprio delator se denunciou por bilhete anônimo e tudo aquilo que o movia era uma absoluta carência.

Scliar é cruel sendo emotivo. Um engano supor que A Massagista Japonesa servirá para matar saudade do seu trabalho. De modo nenhum: apenas aumenta sua falta.


Texto de Fabrício Carpinejar

Merval e o Poder

03 de junho de 2011 1

Como todos vocês já viram ontem, o jornalista Merval Pereira, de O Globo, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras na cadeira de nº 31, antes ocupada por Moacyr Scliar. Merval recebeu 25 votos contra 14 de um escritor “de ofício” com uma vasta obra pregressa, Antônio Torres (o que provocou muitas manifestações de protesto na internet e evidencia que a eleição se pautou por outros critérios que não o eminementemente literário)

Não tenho como me aprofundar mais porque afora textos acompanhados um que outro no espaço de opinião de O Globo, não li muito mais, nem o único livro individual publicado por Merval, um calhamaço de 700 páginas compilando todas as crônicas políticas escritas pelo jornalista ao longo dos oito anos do governo Lula. Por isso, pedimos uma análise para alguém que já houvesse lido o livro e conhecesse mais a fundo o trabalho jornalístico de Merval Pereira: a colunista e editora de política Rosane de Oliveira. Vai abaixo a opinião dela, gentilmente cedida ao nosso blog:

Intimidade com o Poder
Rosane de Oliveira

Não foi por seu texto literário que o jornalista Merval Pereira venceu a eleição para ocupar a cadeira do gaúcho Moacyr Scliar na Academia Brasileira de Letras.  Pesou mesmo o prestígio de colunista de política e ex-diretor de Redação do jornal O Globo, comentarista da GloboNews e da CBN, e as relações cultivadas ao longo dos últimos anos. Livro de sua exclusiva autoria Merval só tem um _ uma coletânea de artigos reunidos sob o título O Lulismo no Poder (Editora Record, 2010). A outra obra — A Segunda Guerra, a Sucessão de Geisel — editada em 1979 pela Brasiliense, foi escrita em parceria com André Gustavo Stumpf.

Para os gaúchos que sonharam ver na cadeira de Scliar um escritor da terra, a eleição de Merval só não é uma frustração maior porque o candidato principal, Luiz Antonio Assis Brasil, havia desistido de pleitear a indicação alegando que ainda não processara a morte do amigo. O poeta Luiz de Miranda, que se lançou candidato e depois recuou, tem uma vasta obra literária, mas, assim como Assis Brasil,  não teria como enfrentar o poder de Merval entre os acadêmicos.

É impossível comparar o estilo de Merval ao de Scliar. O novo dono da cadeira número 31 é um jornalista por excelência, sagaz e bem-informado, capaz de produzir longas análises sobre a conjuntura política, mas seu texto em nada lembra a elegância da literatura de Scliar. É mais duro e menos elaborado, porque produzido com a urgência que se exige do analista político hoje, de opinar em tempo real. Em O Lulismo no Poder, Merval traça um retrato crítico dos dois mandatos do ex-presidente Lula e do papel do PT.

Em comum com Scliar o sucessor tem a característica de homem de vastos conhecimentos e milhares de amigos. Pode discorrer sobre qualquer assunto, mas a política é seu porto. Scliar vinha da área médica, mas também transitava com facilidade em diferentes terrenos.

Fragmentos literários

27 de janeiro de 2010 1

Uma das perguntas mais ouvidas por escritores profissionais é de onde tiram as ideias que embasam suas ficções. Essa é uma pergunta que Moacyr Scliar responde, em parte, nas 54 narrativas muito breves que se enfileiram em Histórias que os Jornais Não Contam (Agir, 184 páginas, R$ 34,90). São textos nos quais as ideias para a matéria literária brotaram de uma fonte aparentemente menos nobre, as notas ressecadas do noticiário impresso.

O livro é uma reunião de cinco dezenas de histórias nascidas das páginas dos jornais e já publicadas na Folha de S.Paulo, onde Scliar – também colunista de Zero Hora – mantém uma coluna semanal. São textos que tornam difíceis as delimitações claras entre o conto e a crônica, inspirados no autor pela leitura de uma notícia de jornal, normalmente notas sucintas com menos de 10 linhas. A brevidade do relato original é mais uma vantagem e menos um problema para um escritor com a imaginação viva de Moacyr Scliar, que lança mão de seu reconhecido domínio da técnica narrativa para criar pequenas ficções delirantes sobre os dias tumultuados que vivemos. É esse caráter de registro, de instantâneo de uma realidade tirada das páginas dos jornais que torna indiscernível o limite entre conto e crônica nos textos breves do volume.

E se nos anos 1970 Scliar era apontado como expoente do mágico na literatura, neste volume seus contos se detêm no que há de insólito na banalidade cotidiana, extraindo a estranheza, a graça, a melancolia e até o absurdo de temas bastante contemporâneos. Em Cueca-Cofre, um empresário de uma pequena confecção de cuecas decide, inspirado nos escândalos do noticiário, criar um modelo misto de peça íntima e cofre. Em Na Contramão da História, um motorista descobre, para sua própria surpresa, que está avançando na contramão em uma rodovia movimentada, e decide, contra todas as evidências em contrário, que quem está na mão errada é toda a realidade que o cerca. Uma mulher que aprendeu a disfarçar cortando cebolas as lágrimas patológicas que sempre derramou pela vida que levava se desespera quando ouve falar que cientistas estrangeiros desenvolveram uma cebola que não provoca lágrimas. Um homem, depois de fazer uma campanha para que seja permitido o casamento de um ser humano com um personagem de desenho animado, não consegue se decidir sobre que personagem gostaria de desposar.

São contos que carregam todas as características marcantes que fazem do texto de Scliar um dos mais peculiares e reconhecíveis dentre os autores brasileiros em atividade: a narrativa direta e sem muitos floreios, inspirada na estrutura fabular da Bíblia e na oralidade eficiente dos bons contadores de histórias; os comentários que se interpõem no meio do texto alterando-lhe ou modernizando-lhe o sentido; anacronismos intencionais que aproximam o que está sendo narrado da realidade do leitor. Elementos que tornam as Histórias que os Jornais Não Contam um comentário ao mesmo tempo ácido e cínico sobre a dose diária de demência contemporânea.

Os textos que nascem de breves notas de jornais são eles próprios concisos, não ultrapassam três páginas, extensão imposta pelo tamanho da coluna fixa que o autor mantém no jornal. E é exatamente esse o motivo para que leitores de longa data do Moacyr Scliar contista se sintam um pouco deslocados com algumas das histórias. A questão é que a brevidade do texto reduz ao mínimo muitos dos recursos estilísticos que o autor maneja tão bem. O que dilui a força de efeitos característicos da prosa de Scliar, como as repetições de estruturas que pontuam a narrativa como refrões ou torneios de frase coloquiais, aparentados com a habilidade que o bom rapsodo tem para desfiar seus cantos e causos. Não que isso diminua a qualidade dos textos, mas os afasta um pouco do padrão que o próprio Scliar estabeleceu para o conto e não apenas os seus próprios, como os da literatura nacional.

Um trecho do Livro do Ano

05 de novembro de 2009 0

A Câmara Brasileira do Livro divulgou faz pouco os Livros do Ano, Ficção e Não Ficção, durante a entrega do troféu aos vencedores das 21 categorias da 51ª edição do Prêmio Jabuti. Em Livro do Ano Não Ficção, o escolhido foi Monteiro Lobato Livro a Livro, organizado por Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini. E o Livro do Ano Ficção foi o romance Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar, que já havia sido agraciado com o prêmio na categoria de Melhor Romance.

No livro, Scliar reapresenta a história bíblica de Onã, aquele mesmo, que passou para a história como o padroeiro dos onanistas porque, dizem as escrituras, “deitava seu sêmen sobre a terra” para não engravidar a esposa, mulher de seu irmão. Mas a fama é injusta, diz Scliar no romance, estruturado como um embate entre dois eruditos em exegese bíblica em um congresso acadêmico. Onã só praticava o coitus interruptus. O verdadeiro onanista era seu irmão mais novo – um dos narradores da história.

Para quem ter uma palhinha do livro vencedor, vai abaixo o trecho de abertura de Manual da Paixão Solitária:

Como vinha acontecendo desde 1990, a comissão organizadora do Congresso de Estudos Bíblicos, realizado cada ano numa cidade brasileira, selecionou uma passagem bíblica como tema central do encontro: Gênesis, capítulo 38, texto que conta a história do patriarca Judá, de seus filhos e de uma mulher chamada Tamar.
A escolha despertou inusitado interesse. Na sua fala inicial, proferida no auditório do elegante hotel de veraneio em que se reuniam os congressistas, cerca de duzentos, disse o presidente da Sociedade Cultural de Estudos Bíblicos, o historiador José Domício Ferraz:
— Trata-se, permitam recordar-lhes, de uma história estranha. Para começar, está inserida numa outra narrativa, aquela que nos fala de José no Egito, narrativa essa que é bruscamente interrompida. E a sucessão de acontecimentos é surpreendente, quando não chocante. Tudo começa quando Judá, um dos irmãos de José, “afasta- se de seus irmãos” e vai viver na casa de um homem chamado Hirá, encontra uma canaanita, com quem casa, tornando-se pai de três filhos, Er, Onan, Shelá. Eles crescem e Judá arranja uma esposa, Tamar, para o primogênito Er. Por alguma razão que o texto não esclarece, Er desagrada ao Senhor e morre sem engravidar Tamar. De acordo com a tradição, se o irmão mais velho falecia sem deixar filhos, competia a seu irmão ter relações com a viúva de modo a assegurar a progênie. Mas Onan, sabendo que o filho de Tamar não seria considerado dele (e que esse filho seria o herdeiro do patriarca, não ele), cumpre seu dever de forma parcial; ele “derrama o sêmen na terra”, praticando, pois, coito interrompido, o que também acarreta a sua morte. Restaria o terceiro filho, mas Judá, temeroso de que o rapaz tenha a mesma sorte dos irmãos, pede a Tamar que espere algum tempo: afinal, Shelá não é ainda adulto, homem-feito. Coisa que Tamar, como podemos imaginar, não aceita de bom grado. Tempos depois realiza-se em Timna, localidade próxima, uma reunião de criadores de ovelhas para tosquia. Judá, agora viúvo, ali comparece. No caminho passa por Enaim, onde há um templo pagão e onde vê uma mulher coberta por um véu, aparentemente uma prostituta. Seu desejo despertado, oferece-lhe, em troca da relação sexual, um cabrito, a ser enviado depois. A mulher aceita, mas pede uma garantia: o cajado, o sinete e o cordão de Judá, símbolos da dignidade patriarcal. Judá, ainda que relutante, concorda. De volta a casa, pede a um amigo que leve o cabrito à mulher, mas surpreendentemente ela não é encontrada. Ninguém a conhece.
Interrompeu-se, tomou um gole d`água e continuou:
— Pouco depois Tamar aparece grávida. Tomado de fúria — ela ainda deveria estar sob seu controle patriarcal —, Judá condena-a à morte. Tamar então revela que o pai do filho que traz no ventre é o dono do cajado, do sinete e do cordão: o próprio patriarca. Judá reconhece que foi enganado e assume a paternidade. Tamar dá à luz gêmeos, Zerá e Perez-que será um antepassado do rei Davi e de José, o pai terreno de Jesus. Com isso encerra-se a história. Que, como sabemos, apresenta vários aspectos interessantes. Em primeiro lugar, o costume do levirato, comum no Oriente Médio da época, segundo o qual o irmão ou parente de um homem morto deve dar um filho à viúva. Havia para isso uma explicação prática: a viúva não poderia herdar as propriedades do esposo falecido, só os filhos. Compreende-se assim a determinação de Tamar em engravidar, e para tal recorrerá a uma artimanha. Nisso, não é exceção. O Gênesis conta como Rebeca enganou Isaac, fazendo com que o já senil patriarca abençoasse, e portanto reconhecesse como herdeiro, o filho de ambos, Jacó, em detrimento do primogênito Esaú; como este era peludo, Rebeca disfarçou Jacó com um pelego de carneiro.
Nova pausa, e prosseguiu:
— A astúcia de Tamar, como a de Rebeca, fica evidente. Ela se vale do fato de que a prostituição religiosa era uma coisa comum no Oriente Médio, praticada inclusive por mulheres casadas, que se entregavam a estranhos em nome da religião. Era esse o disfarce que Tamar estava adotando, recorrendo inclusive a um véu para não ser reconhecida.
E concluiu:
— Dentro do objetivo de nossa reunião, que é de estudar a Bíblia sob um enfoque científico e cultural, há muito o que discutir. Como eu disse, espero um bom debate sobre o tema.
Que o debate seria intenso era consenso entre os participantes do evento, historiadores, antropólogos, psicólogos; a passagem escolhida não podia ser mais interessante. E debate era o principal objetivo do encontro, cujo programa previa discussões de grupo pela manhã e à tarde. As noites destinavam-se às chamadas conferências magistrais, em que pessoas de reconhecida autoridade também abordariam o tema. Havia muita expectativa em torno da apresentação do professor Haroldo Veiga de Assis, que viera dos Estados Unidos, onde lecionava numa importante universidade da Ivy League. O que, a propósito, custara bom dinheiro: o professor Haroldo cobrava caro por suas palestras, só viajava de primeira classe e exigia hotéis cinco estrelas. Mas era tal sua fama que os organizadores do encontro não pouparam esforços para trazê-lo, conseguindo inclusive financiamento especial. Afinal, o professor Haroldo fora o único brasileiro a fazer parte do grupo de especialistas que estudara o chamado Manuscrito de Shelá, recentemente encontrado numa caverna em Israel e que, à semelhança dos Manuscritos do Mar Morto, fora saudado pelos historiadores como um achado sensacional.
Na noite em que o professor Haroldo falou, a segunda do evento, o auditório estava lotado. Ninguém faltara, e havia várias pessoas de pé. Todos aguardavam ansiosamente sua intervenção. Finalmente, e saudado com palmas estrondosas, ele subiu ao palco.
Aos sessenta e sete anos, o professor Haroldo, um homem alto, magro, de basta cabeleira, enorme barba e um olhar que os rivais, vários, não hesitavam em rotular como desvairado, era conhecido pela extraordinária cultura (dominava o hebraico, o aramaico, o árabe, o latim, o grego e seis outros idiomas, citava de memória qualquer trecho do Antigo Testamento) e pela excentricidade; usava terno e gravata, mas tênis coloridos, segundo ele mais cômodos e bonitos do que convencionais sapatos, além de representarem, em seu ponto de vista, uma homenagem ao Brasil, país da diversidade, ao qual se considerava visceralmente ligado.
Nos vários artigos sobre o manuscrito publicados tanto na imprensa leiga como em respeitadas revistas especializadas, o professor garantia que Shelá se revelara um personagem fascinante, um narrador que levava a imaginação ao paroxismo, mas que escrevia com uma autenticidade surpreendente, coisa que, acrescentou numa entrevista, “mobilizou meu próprio imaginário; não consigo falar sobre esse misterioso Shelá com a neutralidade e com o distanciamento que em geral caracterizam os estudos históricos. Sinto-me obrigado a inovar, a recorrer ao inusitado, ao inesperado, ao não convencional”.
Declaração que deveria ser levada ao pé da letra. O professor, dramaturgo nas horas vagas (uma peça sua, escrita em parceria com um conhecido escritor, estava em cartaz naquele momento, encenada por um grupo amador de São Paulo), era um tipo performático que costumava adotar, em suas apresentações, aquilo que chamava de enfoque heterodoxo. Esse enfoque podia expressar-se tanto na forma de abordagem do tema como no desempenho do orador, que não raro chegava às raias do histriônico, constituindo-se em verdadeiro happening e provocando ora vaias, ora aplausos, ora as duas coisas. Os coordenadores estavam preparados para isso, mesmo porque, como dissera uma psicóloga que fazia parte da comissão organizadora, havia evidente compatibilidade entre o estilo do professor Haroldo e o tema do conclave, sem falar no fato de que o autor do manuscrito aparecia, na passagem bíblica, como um personagem até certo ponto intrigante, ainda que menor.
Tudo poderia acontecer; não era impossível que o conferencista, baseado em sua experiência de teatro, apresentasse um texto redigido na primeira pessoa, uma espécie de monólogo do próprio Shelá, falando desde um passado remoto sobre sua trajetória, suas aspirações, suas fantasias. E foi isso exatamente que ocorreu.