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Posts na categoria "Mundo contemporâneo"

11 livros sobre o 11 de setembro

11 de setembro de 2012 0

O que mais pareceu desconcertar quem testemunhou o 11 de Setembro não foi o fato de estar assistindo a algo inédito, mas a sensação contrária: parecia que aquilo já havia sido visto à exaustão em um contexto mais seguro, o dos filmes-catástrofe que o próprio cinema americano se especializou em produzir. Foi natural que o cinema e a literatura parecessem haver decretado uma quarentena sobre o tema – cujo impacto começou a ser abordado primeiramente em livros de não ficção (como as reportagens O Vulto das Torres, de Lawrence Wright, e 102 Minutos, de Jim Dwyer e Kevin Flynn) e documentários. Como Jean Baudrillard escreveu em um ensaio incluído na coletânea Power Inferno, o caráter gigantesco do evento o tornava refratário a apropriações estéticas –“Por absorver toda a imaginação e não ter sentido, ele não pode ser representado”. Neste 11º aniversário do ataque às Torres Gêmeas, vai uma lista de 11 livros sobre o 11/9:

Windows of the World – Frederic Beigbeder
Um dos primeiros romances a abordar o trauma do 11 de setembro não foi um drama escrito por um americano, e sim esta sátira assinada por um provocativo autor francês. Por meio da história de um pai divorciado que passa suas duas últimas horas de vida em um almoço com os filhos no restaurante panorâmico que ficava no topo de uma das torres (e que dá nome ao livro), Beigbeder constrói uma sátira impiedosa ao modo de vida americano e à falsa sensação de onipotência vivida pelos Estados Unidos nos anos de riqueza imediatamente anteriores aos atentados. Lançado em 2005, ganhou reedição em 2010. Tradução de André Teles. Record; 352 páginas.

Extremamente Alto e Incrivelmente Perto Jonathan Safran Foer
O 11 de Setembro e suas consequências pelo olhar de um menino de nove anos portador de Síndrome de Asperger. Oskar perde o pai nos atentados às Torres e busca um sentido para a perda em uma chave encontrada no casaco de seu terno. No caminho, além de encontrar um mosaico de diferentes pessoas dedicadas a lidar elas mesmas com o luto, também restabelece contato com seu avô, um homem que aos poucos foi deixando de falar e que também tem uma experiência traumática no passado: a destruição de Dresden por bombardeios aéreos durante a II Guerra. Tradução de Daniel Galera. Rocco, 360 páginas.

Terrorista – John Updike
Ahmad, um adolescente filho de pai árabe e mãe de ascendência irlandesa, luta entre os impulsos contrários de suas duas lealdades: à luta religiosa, nele incutida pelo líder espiritual islâmico que frequenta, ou ao  Oeste decadente representado pela mãe e pelo seu professor Jack Levy, tutor na escola em que o  jovem tem dificuldade de se enquadrar. Escrito com a prosa suntuosa que Updike tornou sua marca, foi duramente criticado pela artificialidade do retrato psicológico de Ahmad. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 336 páginas.

À Sombra das Torres Ausentes–  Art Spiegelman
Único único artista a ganhar um prêmio Pulitzer com uma história em quadrinhos (Maus), Spiegelman, nesta luxuosa HQ, critica George W. Bush e seu modelo de governo, e também a xenofobia que passou a imperar nos EUA. Em uma das histórias, na qual reproduz o recurso que o tornou célebre em Maus, de retratar a si mesmo como um rato antropomorfizado, Spiegelman narra seus instantes de pânico nas horas imediatamente subsequentes ao atentado e sua tentativa de chegar à escola do filho. Tradução de Antonio Macedo Soares. Companhia das Letras.

Homem em Queda – Don DeLillo
Um romance que arrebata já desde a primeira cena: uma descrição impactante do protagonista coberto da poeira espalhada pela queda das torres. O protagonista é um advogado, um dos que conseguiram sair das Torres. Depois que o prédio desaba ele busca, em choque, refúgio na casa de sua ex-mulher. Esmagado pelo trauma, passa os dias seguintes rodando cassinos e tentando entender o que viveu. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 264 páginas.

Sábado Ian McEwan
McEwan prova-se neste romance um mestre em estender uma atmosfera de tensão e suspense com recursos de grande sobriedade. Em um sábado de 2003 em Londres, para o qual está marcada uma grande manifestação contra a iminente invasão americana do Iraque, um bem-sucedido neurocirurgião, Henry Perowne, prepara minuciosamente um jantar de família até se envolver em um acidente que pode acabar com a segurança tranquila e racional de seu mundo. Com a descrição minuciosa e paciente do cotidiano de Perowne, McEwan prepara a explosão de perigo e ameaça na parte final, comprometida por uma certa ingenuidade romântica do argumento final. Ainda assim, um dos grandes romances da lista. Tradução de Rubens Figueiredo. Companhia das Letras, 344 páginas.

O Fundamentalista RelutanteMohsin Hamid
O jovem Changez, 22 anos, paquistanês residente em Nova York, estudante destacado, com futuro promissor, emprego bem remunerado como consultor de empresas, se torna, após os atentados, alvo da paranoia posterior à queda das torres. O romance é um monólogo dirigido pelo próprio Changez tempos depois a um enigmático americano que encontra em um café em Lahore. Em contraponto ao retrato claudicante de Updike, é um romance sincero sobre o “ponto de vista de outro lado”: os milhares de imigrantes islâmicos vivendo nos Estados Unidos e atropelados pelo clima geral de patriotada maniqueísta criado pela mídia e pelo governo americanos. Tradução de Vera Ribeiro. Objetiva/Alfaguara, 176 páginas.

Terras BaixasJoseph O’Neill
A premiada história tangencia o trauma do 11 de setembro ao enfocar a relação entre dois homens fascinados um pelo outro e ambos pelo críquete: o caribenho Chuck,  imigrante de Trinidad obcecado por construir um monumental estádio para a prática de críquete em plena Nova York, e o holandês Hans van der Broek, um homem solitário, cuja família voltou para a Europa traumatizada com os atentados. Van der Broek busca refúgio da Nova York traumatizada pelos ataques em um clube de críquete frequentado apenas por estrangeiros, e o livro fala mais de críquete do que dos atentados (o esporte é majoritariamente praticado por imigrantes nos Estados Unidos do beisebol). Tradução de Cássio Arantes Leite. Objetiva/Alfaguara, 272 páginas.

Reconhecimento de PadrõesWilliam Gibson
O pai do cyberpunk, uma das correntes mais pops e relevantes da ficção científica contemporânea, enfoca o 11 de Setembro inserindo-o no universo habitual de sua ficção: as megalópoles ultratecnológicas de um mundo de capitalismo selvagem high tech em expansão constante. A protagonista, Cayce Pollard, é uma consultora especializada em design e tendências de comportamento, trabalho para o qual utiliza uma espécie de intuição sobrenatural que a faz prever com segurança as movimentações futuras do mercado de comportamento. Um efeito colateral dessa habilidade é uma aversão maníaca a logomarcas, o suficiente para pesados ataques de pânico. Chamada a Londres para um trabalho, ela se envolve em uma trama de paranoia e crime internacional que pode ter desdobramentos ligados ao paradeiro de seu pai, um ex-agente da CIA desaparecido nos ataques às Torres. Tradução de Fábio Fernandes. Aleph, 416 páginas.

Ao Pé da Escada, de Lorrie Moore
Best-seller lançado no fim de 2011 no Brasil, não se concentra diretamente sobre o episódio dos atentados, mas aborda o racismo insidioso que se espalhou pela sociedade americana pós-11 de Setembro (um pouco o tema também de O Fundamentalista Relutante, embora este dedique mais espaço ao episódio em si por ser ambientado em Nova York, enquanto o romance de Moore se passa no Meio-Oeste). É, a seu modo, um romance de formação, protagonizado por Tassie Keltjin, que começa a trabalhar de babá para um misterioso casal em processo de adoção de uma bebê negra. Suas relações com o casal, com a própria família e com um pretendente se veem subitamente transformadas pela onda de medo e luto que sucedeu aos ataques. Tradução de Maria C. Clark. Record, 336 páginas.

O Jardim dos Últimos DiasAndré Dubus III
Outro título que saiu no Brasil em 2011, expõe os conflitos de personagens cujas vidas se cruzam nos dias que antecederam os ataques terroristas. O centro gravitacional do livro é Bassan, um dos responsáveis por pilotar um dos aviões usados no ataque. Ele chega antes dos demais aos Estados Unidos para aproveitar todas os decadentes entretenimentos do Ocidente antes de seu “martírio”, e se envolve com uma stripper. O episódio é baseado em rumores não plenamente confirmados de que um dos terroristas teria feito o mesmo:  mergulhado nos prazeres da sociedade ocidental dias antes dos atentados. Tradução de Marcelo Barbão. Record, 476 páginas.