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Ricardo Alexandre e a música dos últimos 20 anos

24 de janeiro de 2014 0
Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Raimundos ainda com sua formação original, com o vocalista Rodolfo

Como jornalista Ricardo Alexandre acompanhou de perto as últimas duas décadas do cenário musical brasileiro. Passou pelas redações das revistas Bizz, General, Superinteressante, Carta Capital, Capricho, Revista MTV e dos jornais Folha de São Paulo e Estadão. Foi também gerente de conteúdo do site Somlivre.com e diretor de redação na última fase da revista Bizz, em meados dos anos 2000. É também reconhecido como autor de Dias de Luta, um dos melhores levantamentos jornalísticos sobre a música do Brasil, uma grande reportagem abrangente sobre a chegada do rock ao Brasil e o estouro do gênero a partir dos anos 1980. Considerado ainda uma referência após uma década, o livro foi relançado em edição comemorativa no ano passado pela editora gaúcha Arquipélago (leia entrevista aqui).

Agora, Ricardo Alexandre retorna à música como tema no seu novo livro, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar (Arquipélago Editorial, 256 páginas, R$ 34,90). O tom, contudo, é outro. Se Dias de Luta era uma reportagem com apuração intensa, Cheguei Bem a Tempo… assemelha-se mais a um livro de memórias. Não é Ricardo Alexandre contando a história de um período musical, mas relatando sua própria história como um coadjuvante no universo da música – ainda assim, apresentada com um detalhado pano de fundo. O novo livro abre os trabalhos exatamente no ponto em que Dias de Luta parou. E, em 50 textos curtos, perpassa a música brasileira dos anos 1990 e 2000: a entrada em cena de bandas nacionais que mudaram o panorama da música, como Skank, Raimundos, Charlie Brown Jr; a dominação da indústria por uma visão mercadológica e padronizada; a queda final do rock e de parte da imprensa musical com ele – inclusive a Bizz que Ricardo Alexandre dirigia. Por telefone, Ricardo Alexandre concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:

Zero Hora – Embora esse livro não seja estritamente uma continuação, pelo viés mais pessoal adotado, em que momento veio a ideia de fazer um novo livro abordando o período posterior àquele vislumbrado em Dias de Luta
Ricardo Alexandre – Eu acho que a ideia desse livro me rondava desde que o Dias de Luta foi lançado, mas era uma coisa que me parecia distante e muito pouco provável. Essa ideia voltou com uma certa força quando eu comecei a pensar no relançamento do Dias de Luta, quando houve a possibilidade de o livro sair em uma edição comemorativa dos 10 anos do livro, e essa ideia começou a ser conjecturada e surgiu uma editora interessada, a Arquipélago, aí de Porto Alegre. Aí essa sequência ganhou sentido para mim. O passo seguinte foi pensar no formato, de fato que fosse ao mesmo tempo relevante para o leitor mas totalmente diverso do Dias de Luta. Aí chegamos a esse formato de posts, o livro funciona como uma coleção de postagens, tanto que surgiu a ideia de ele estrear primeiramente em um blogue.

ZH – Sim, ele foi publicado como um blog no portal do Msn.
Alexandre – Sim, eu ainda mantenho o blog, publicando agora coisas mais atuais, mas o contrato com o msn foi formado por conta do projeto do livro.

ZH – O fato desses anos abordados em Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar coincidirem com seu período de atuação na imprensa musical foi o que o levou a escolher um formato mais pessoal, mais aparentado com o depoimento e menos com a grande reportagem que era o livro anterior?
Alexandre – Sem dúvida, foi exatamente isso que me manteve longe da ideia por esses anos todos. Porque o formato que me vinha na cabeça era o mesmo usado no Dias de Luta. Só considerei a possibilidade de fazer outro formato quando esta prestes a completar 20 anos de carreira, quando eu comecei a ser mais acionado ou requisitado para falar a respeito dessa geração dos anos 1990. Aí eu vi que de alguma maneira eu também fazia parte daquela história e que fazia sentido esse formato mais pessoal.

ZH – Ao mesmo tempo, este é um dos primeiros livros em português a tentar elaborar uma crônica das radicais transformações no ramo da música nos últimos 20 anos: a digitalização da música, o virtual desaparecimento do CD, a dúvida sobre como
Alexandre – Sem dúvida isso me despertou como assunto, mas não foi a fagulha inicial. Eu arriscaria dizer que essa fagulha foi tentar discutir a mídia, o meu papel como jornalista. É uma movimentação que considero muito interessante e que tem começado a surgir de uns anos para cá: algo que me chamou a atenção foi o trabalho do jornalista Paulo Nogueira no blog Diário do Centro do Mundo. O Paulo é uma pessoa com quem já trabalhei, eu o cito no livro e tudo, eu vi ali um esforço dele em tentar colocar a mídia como um objeto a ser discutido, assim como os objetos que a mídia discute. Isso foi uma coisa que me influenciou bastante, a possibilidade de discutir o ambiente em que eu estava inserido, o ambiente das redações, da MTV, e o interesse que há em torno disso ficou muito claro com os comentários sobre o final das trasmissões da MTV, o interesse pela revista Bizz… A fagulha original para que o livro tivesse essa toada foi essa. E no meio do caminho eu percebi que esse trabalho dizia muito respeito aos bastidores da indústria cultural como um todo, e aí entra de tudo: festivais, indústria fonográfica.

ZH – O título, Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar, alude a um episódio real que você acompanhou. Mas também pode ser lido, metaforicamente, como uma alusão ao cenário musical, as gravadoras, a indústria do CD. Esse é o “palco que desabou”?
Alexandre – Sim, claro. Mas eu acho que a minha mente talvez esteja mais focada na parte do “cheguei bem a tempo” do que na do palco desabando. É quase uma paráfrase daquela frase que eu cito no livro: “cheguei muito tarde para um mundo muito velho”, eu acho que eu me coloco um pouco ali. O fato de eu fazer parte de uma espécie de última geração que ainda viveu o charme de escrever e trafegar no mundo musical. As pessoas têm reforçado bastante esse aspecto melancólico do livro, de tal maneira que eu acredito que ele acabe traduzindo uma certa frustração. Por outro lado, eu acredito que tudo é cíclico e que a gente deve passar em algum momento por um período de maior recuperação desse charme de escrever.

Os mineiros do Skank

Os mineiros do Skank

ZH – Quando conversamos por ocasião do relançamento de Dias de Luta, no ano passado, você comentou que a sua impressão é que o cenário musical hoje é menos uma arena pública e mais um conjunto de tribos ligadas por gostos afins, o que fazia com que artistas não precisassem mais passar por um circuito que os faria tocar para um grupo de pessoas que não tinham motivo para gostar de seu trabalho. Lendo o livro de agora, você parece descrever a banda Los Hermanos como uma espécie de marco desse cenário, ao cercar-se de um grupo de fãs que os veneram acriticamente, como um culto.
Alexandre – Interessante. Nunca tinha pensado no Los Hermanos desse jeito que você descreveu tão bem. Acho que de fato é uma banda que se alicerçou sobre um culto que eles mesmos alimentaram. Cara, é que eu vejo esse período retratado no meu livro com uma dobra ali muito clara, o momento em que o Brasil se torna um grande mercado de discos. Ali eu acho que algma coisa se rompe, eu acho que aquele romantismo, aquela naturalidade que havia nos anos 1980 começa a se perder. A gente começa a ver a indústria se tornando muito mais “industrial” mesmo. E esses processos mais naturais de amadurecimento da arte começam a ficar truncados. Essa característica de o artista ter de enfrentar um público que não é o seu acaba se perdendo, e eu acho que até meados dos anos 1990 isso ainda existia. Eu me lembro de muita clareza do Skank no palco do Hollywood Rock, ou os Raimundos tocando pela primeira vez na Globo… Ainda havia esse sabor do breakthrough, de você romper um estágio para entrar em outro… Mas acho que depois, quando os departamentos de marketing tomam as músicas pelas mãos, não só essa característica, mas várias outras ligadas ao amadurecimento do artista ficaram muito embaralhadas.

livrochegueiZH – O formato mais pessoal parece ter dado mais liberdade para exercitar uma veia opinativa que faz declarações por vezes polêmicas e por vezes inusitadas.
Alexandre – É que na verdade, e eu gostaria que isso tivesse ficado claro, ou ao menos mais claro do que eventualmente ficou, essa é a minha história. Talvez essa seja a grande diferença do Dias de Luta. O Dias de Luta tem uma pretensão de ser um retrato com mais acuidade das proporções dos anos 1980. E este livro não tem essa pretensão. Alguém me chamou a atenção: “cara, você não falou nada do Sepultura“. E é verdade, eu não falei, porque eles não fizeram parte da minha vida, e o que eu talvez precisasse dizer sobre o Sepultura já estava lá no Dias de Luta. Cheguei a pensar, depois, que devesse ter falado, mas o fato é que, se eles não vieram à mente em um primeiro momento, é porque o formato do livro os excluiu naturalmente. Por outro lado, bandas irrelevantes, como a Catedral, têm um espaço generoso no livro, porque teve a ver com a minha história. Então acho importante esclarecer isso para o leitor para ele não levar gato por lebre.

ZH – Seu livro fala sobre a retomada da Bizz, mas ao analisar as questões que levaram ao segundo e definitivo fim da publicação, você em nenhum momento menciona também que essa segunda fase da revista foi aquela em que ela precisou enfrentar a concorrência da Rolling Stone, que chegou no Brasil na mesma época.
Alexandre – Na minha opinião, as questões da Bizz estavam muito ligadas ao DNA daquela operação, não tinham muito a ver com o mundo exterior. Pelo contrário. Como eu já disse em algumas entrevistas, o surgimento da Rolling Stone veio confirmar algumas teorias que eu defendia ali dentro da Abril. Como o fato de que a revista precisava ter mais opção em banca, mais investimento em marketing, que precisava custar um pouco mais barato. Isso acabou não entrando no livro por questões de espaço, mas uma capa da Rolling Stone com o Coldplay foi o que me fez dormir tranquilo. Porque a capa era idêntica à da Bizz, as chamadas de capa eram idênticas, as matérias em paralelo eram semelhantes, e eu particularmente acredito que a nossa reportagem sobre a vinda do Coldplay era mais interessante. E no entanto, eles venderam 10 vezes mais. Por quê? Tenho convicção de que não foi por motivos editoriais, porque no editorial ambas eram muito semelhantes. A Rolling Stone em nenhum momento me desestimulou.

ZH – A cena roqueira de Porto Alegre também ganha muito mais destaque neste livro do que em Dias de Luta. É nos anos 1990 que você começa a tomar mais conhecimento dela como jornalista?
Alexandre – Eu tinha uma predileção pessoal pelo que acontecia aí. Eu sempre gostei do rock dos anos 1960, que era uma influência muito comum aí em Porto Alegre para as bandas dos anos 1990. E também porque eu via aí uma espécie de peça de resistência da profissionalização marquetológica da música. Aí a gente ainda conseguia focos de pessoas que trabalham com viés artístico. Me parecia que aí ainda havia se preservado algumas características do romantismo do rock brasileiro dos anos 1980. Então foi por isso. É um cenário que eu acompanhei muito de perto e do qual gosto muito até hoje.

O Sabbath nas origens do Metal

09 de outubro de 2013 0
Fonte: Castle Communications

O Black Sabbath com sua formação original: Ward, Butler, Ozzy e Iommi

Texto de Roberto Jardim

Death, thrash, black, doom ou qualquer outro ritmo pesado e rápido completado pela palavra metal tiveram como um de seus marcos fundadores a banda Black Sabbath. Com show anunciado para este dia 9 de outubro em Porto Alegre, um dos maiores grupos de metal em atividade é tema do recém-lançado livro de Joel McIver, Sabbath Bloody Sabbath.  McIver começa seu relato pela infância de Ozzy Osbourne – John, quando criança. O autor lamenta não ter tido acesso direto a Ozzy. Mas a extensa pesquisa, que inclui dezenas de entrevistas do cantor a jornais, revistas, rádios e redes de TV, ajuda a montar o cenário no qual o vocalista e os outros três integrantes do grupo – o baterista Bill Ward, o baixista Geezer Butler e o reverenciado guitarrista Tony Iommi – se conheceram, formaram e formataram o som que marcou o heavy metal e seus subgêneros.

Os quatro integrantes originais da banda nasceram em Aston, um subúrbio de Birmingham, na Inglaterra, e o grande mérito de McIver é mostrar como o som do Black Sabbath foi moldado por aquele ambiente sem perspectivas, onde o futuro dos moradores era trabalhar horas a fio nas indústrias locais e beber nos pubs. Uma saída para diminuir o estresse de crescer entre brigas familiares, encrencas e violência era a música. O peso do som do Black Sabbath Earth na origem, o grupo foi rebatizado com o nome de um filme de terror que passava em um cinema em frente ao local onde os quatro se reuniam para ensaiar – também vem de um acidente vivido por Tony. Às vésperas de estrear como guitarrista profissional, aos 17 anos, ele trabalhava como operador de prensa e ficou com a mão direita presa na máquina.  Resultado: teve partes dos dedos médio e anular amputados. Para voltar a tocar,o que só aconteceu meses depois, improvisou dedais, feitos de garrafas plásticas derretidas, para fazer as notas no braço da guitarra – Tony é canhoto. Só que, para não forçar as cordas e arrebentá-las, deixou a afinação da sua guitarra mais grave, tornando o som mais pesado.

A história da banda é contada em três partes. A primeira, entre os anos de 1948 e 1978, mostra as origens de cada integrante – com as mudanças de formação, o mesmo é feito com os novos membros, falando da infância e da experiência musical até entrarem no grupo. A segunda parte enfoca os anos entre 1979 e 1992: são relatadas as inúmeras trocas de formações, com o acompanhamento, em paralelo, da carreira solo de Ozzy Osbourne, que, em certos momentos, chega a ter mais sucesso do que o grupo. Por fim,a parte três traz os anos de 19932011, quando foi planejada uma volta da formação original – no show que passará pela Capital.

Em 31 capítulos, McIver percorre as gravações de cada disco, analisa a repercussão dos trabalhos e relata o troca-troca de integrantes nas mais de 10 formações da banda desde a saída de Ozzy – o único a se manter sempre no grupo foi Tony Iommi. O autor, porém, poderia ter o mesmo zelo ao detalhar as desavenças que levaram à separação da formação original. Na parte do sexo e drogas, também deixa a desejar, relatando só de passagem os problemas que os membros do Sabbath enfrentaram. Peca ainda ao listar apenas os lançamentos de discos no Reino Unido – antes da internet,os grupos tinham lançamentos diferenciados em cada país. Falta, principalmente, uma lista de vídeos e documentários sobre uma banda fundadora do heavy metal.

O Livro Sabbath Bloody Sabbath, de Joel McIver

O Livro Sabbath Bloody Sabbath, de Joel McIver

Vinicius e suas parcerias

09 de outubro de 2013 0
O poeta e compositor Vinicius de Moraes

O poeta e compositor Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes não era muito adepto do “preciso aprender a ser só” dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle. Casou nove vezes e seus trabalhos mais marcantes e conhecidos são fruto de parcerias com grandes nomes da MPB. A história da música de Vinicius é, assim, também uma crônica de suas grandes amizades, e é esse o caminho que tomam Wagner Homem e Bruno De La Rosa no livro Histórias de Canções: Vinicius de Moraes, sobre os bastidores íntimos da criação de grandes canções do poeta.

Histórias de Canções:Vinicius de Moraes é o quarto exemplar de uma coleção que teve início em 2009 com o lançamento de um volume dedicado a Chico Buarque. Wagner Homem, organizador do site oficial de Chico, decidiu escrever o primeiro livro depois de ver o grande número de perguntas que inundavam a página sobre os bastidores da composição desta ou daquela canção. Na sequência, teve origem a coleção, com volumes dedicados a Toquinho (com João Carlos Pecci, 2010) e Tom Jobim (em parceria com Luiz Roberto Oliveira, 2012). Pela mesma série, Paulo César Pinheiro já escreveu o livro de suas próprias canções. Neste volume, Homem se une ao cantor e compositor Bruno De La Rosa para registrar as histórias, causos e anedotas por trás dos grandes sucessos de Vinicius.

Pela própria natureza do projeto, o livro não traz muitas surpresas ou contribui para mudar a imagem pública que a esta altura está cristalizada no imaginário nacional sobre Vinicius. Nem seria o caso. O livro alinhava casos que mostram Vinicius no máximo de sua persona “poetinha”: o homem apaixonado, lírico, faminto de vida e de amores e que tinha a mania de nomear as coisas no diminutivo. A estrutura do livro se organiza, diferentemente de outros exemplares da série, menos por períodos cronológicos e mais pelos parceiros de composição do poeta: Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Francis Hime, Toquinho, entre outros.

Ao lado das letras das composições (que, na página, parecem algumas vezes um pouco desenxabidas, amputadas de seu casamento orgânico com a melodia, fazendo lembrar das considerações de Antonio Cicero sobre a natureza heterotélica da letra de música, ou seja, sem finalidade em si própria, mas na canção de que faz parte), Homem e De La Rosa alinhavam o contexto do período, um pouco da carreira e da biografia de Vinicius e de cada parceria e as circunstâncias e anedotas que envolvem a criação de uma música em particular. Uma delas: Vinicius se encontrou certa noite com Baden Powell em seu apartamento e passaram ambos a madrugada bebendo uísque, com o poeta enrolando para pôr letra na melodia recém apresentada de Samba em Prelúdio. Quando já raiava o dia e a terceira garrafa de uísque era história, Baden Powell conseguiu por fim arrancar de Vinicius a razão de seu desconforto: a melodia, em sua opinião, era um plágio, mesmo que não intencional, de Chopin. A confusão só foi dirimida acordando-se a mulher de Vinicius, Lucinha Proença, sua quarta esposa, com quem foi casado entre 1957 e 1963, pianista e conhecedora de Chopin. Depois que Lucinha ouviu a música, veio o veredito: não era Chopin. Só aí Vinicius sentou-se para fazer a letra, não sem antes largar um teimoso “Então Chopin esqueceu de fazer essa”. A história era contada pelo próprio Baden em shows, como este.

Há mais histórias, claro. Se com Baden a parceria era regada a madrugadas de conversa e litros de uísque, com Carlos Lyra a dinâmica era outra: Lyra deixava a música registrada em um gravador na casa do poeta e este trabalhava a letra em cima. Toquinho, outro de seus parceiros constantes, havia tocado violão em um disco italiano de Sergio Endrigo com versões das músicas de Vinicius, lançado em 1970. O poeta gostou do resultado e ligou para falar com o jovem violonista, que quase desligou achando que era trote. O telefonema rendeu a Vinicius mais um grande“parceirinho”.

É um projeto saboroso e interessante, mas, em seu quarto volume, revela alguns dos problemas de se trabalhar sempre com os mesmos nomes em um universo tão interconectado como a MPB. Depois de volumes dedicados a Chico, Tom Jobim e Toquinho, é inevitável que algumas histórias deste livro repitam, com apenas ligeiras variações, coisas já contadas nos títulos anteriores – principalmente os de Tom e Toquinho, que mantiveram com Vinicius relação intensa de amizade e parceria. Por exemplo, até algumas frases são as mesmas no causo de como Toquinho conseguiu musicar a letra de Tarde em Itapoã, que Vinicius pretendia oferecer a Dorival Caymmi. Segundo contam os dois livros, com as mesmas palavras praticamente, Toquinho “numa noite, antes de embarcar para São Paulo,simplesmente pegou a letra e viajou.” Mesmo Chico, que só foi parceiro de Vinicius em seis trabalhos, passa pelo repeteco, como o episódio em que o poeta, mordido de ciúmes da parceria entre Toquinho e Chico, insistiu para que seu nome constasse na composição de Samba de Orly, apesar de sua única contribuição para a canção, a troca de um verso, tivesse sido derrubada pela censura. Para quem se interessa por um ou outro personagem isolado, não faz muita diferença. Quem pretender ler todos os volumes talvez se incomode.

O livro Histórias de Cançoes: Vinicius de Moraes

O livro Histórias de Cançoes: Vinicius de Moraes

Novos dias de luta

11 de março de 2013 1

A Legião Urbana em Porto Alegre, em setembro de 1986. Foto: Dulce Helfer, Arquivo ZH

Dias de Luta, do jornalista Ricardo Alexandre, lançado há uma década, é, até hoje, a mais abrangente crônica da geração que ensinou o Brasil a fazer (e a gostar de) rock. O livro, esgotado há anos, será republicado neste semestre pela gaúcha Arquipélago Editorial. Para a reedição, com publicação prevista para o início de abril, Alexandre realizou revisões e incluiu uma novidade ao gosto do tempo: uma lista, no fim do livro, de 50 músicas representativas do chamado “BRock” oitentista.

— É um apêndice que tem mais a ver com o mundo de 2013 do que com o mundo de 2002. Talvez alguém reclame que falta uma ou outra música, mas vai fazer sentido com a leitura do livro — diz o autor.

Embora fale de experiências seminais do rock nacional dos anos 1970, como o Vímana, banda que reuniu no mesmo grupo Ritchie, Lulu Santos e Lobão, Dias de Luta concentra sua narrativa temporalmente ao longo da década de 1980. É em termos geográficos que o livro ganha amplitude, recuperando a explosão do rock em várias frentes. Estão lá a Brasília da Turma da Colina, cujo principal expoente foi a Legião Urbana; o Rio de Janeiro de uma geração que se reunia no Circo Voador, palco do primeiro show de sucesso dos Paralamas; a São Paulo de um rock experimental e intelectualizado, como o de Júlio Ribeiro e a Gang 90, ou de sua face mais contestadora e agressiva, representada por  Ira e Inocentes . E, claro, a Porto Alegre de Os Replicantes e da banda tida pelos seus próprios contemporâneos como seu exato oposto, o superpopular Engenheiros do Hawaii.

A primeira edição de Dias de Luta foi lançada no fim de 2002 pela editora DBA. Naquele momento, apenas se desenhava o cenário visto hoje, com o declínio das grandes gravadoras diante da prática dos compartilhamentos na rede. Hoje, o cenário mudou de tal modo que a relação de músicos, público e críticos é completamente outra.

– O Pepe Escobar (crítico musical) de hoje é um menino nerd que senta no fundão e tem um blog. Ainda há os formadores de opinião, mas não na imprensa tradicional – analisa o autor.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

Zero Hora – Para essa nova edição, houve alguma coisa alterada no primeiro livro, ou atualizada?
Ricardo Alexandre –
Sim, eu revisei o livro todo com um olhar da informação, ou seja, muita coisa a gente descobriu sobre aquele período depois de o livro ter sido publicado. Então, algumas informações foram atualizadas. E também alguma coisa do estilo, alguns retoques, é uma edição literalmente revista e atualizada, mas tentei ser fiel ao que o livro foi naquela época. Ele está revisado, mas não foi refeito. E ele tem um apêndice que é novo, que tem mais a ver com o mundo de 2013 do que com o mundo de 2002, que é uma playlist de 50 músicas que marcaram os anos 1980.

ZH – Na última década foram publicadas várias obras que enfocam personagens ou grupos específicos da geração roqueira dos anos 1980, como biografias de Lobão, Renato Russo, dos Titãs, mas seu livro ainda é o único a lançar um olhar de conjunto sobre aquele movimento. Em sua opinião, por que isso aconteceu?
Alexandre –
Eu estou muito presente dentro desse cenário para conseguir ter uma avaliação mais distanciada. O que eu acho é que o livro se distingue dessas outras obras todas porque eu sou um observador à distância. Eu não era sequer jornalista na época retratada pelo livro, então eu consigo ter um olhar de escala muito semelhante ao do leitor comum, pelo menos foi o que pretendi fazer, o que é diferente de todas as biografias e autobiografias publicadas depois do livro. Nesse sentido, ele preserva o interesse do leitor médio, do ouvinte comum, do fã ocasional do rock dos anos 1980. Por isso, acho  bom que esse livro esteja de volta

ZH – Na introdução do livro você confessava que nem era fã do rock anos 1980, e no período de lançamento da obra, há 10 anos, foi bastante cobrado por isso. Você foi mal interpretado ou se expressou mal?
Alexandre –
Eu acho que essa frase me colocava certos riscos que talvez eu não devesse ter corrido, entre eles o risco da má interpretação. Entretanto, se por um lado ela pode ter sido mal interpretada, por outro, em igual número e, espero, até em maior número de vezes, ela deve ter me aberto um campo de credibilidade para poder dizer que o que está lá não é fruto do trabalho de um fã, simplesmente. Agora, o que eu disse lá é que eu não era fã em especial dos anos 1980. O que eu quis dizer, embora talvez não tenha ficado claro, é que eu não quis fazer aquele livro porque era fã ou colecionador das bandas. A minha decisão de fazer o livro foi mais política do que pessoal.

ZH – Já quando o livro saiu, o rock não era mais uma forma hegemônica no cenário cultural, como em seu auge. Hoje, 10 anos depois, com a explosão e a multiplicidade dos gêneros, vê-se que alguns integrantes daquela geração compartilham até mesmo um discurso algo retrógrado de crítica e depreciação do que é feito na contemporaneidade. O rock Brasil envelheceu?
Alexandre –
Acho que aquela geração dos anos 1980, bem como público dos anos 1980 até meados dos anos 1990, ele acostumou-se com a música como uma grande comunidade que partilhava de  uma série de valores, de discursos, de ideias. Essa ideia de que a música pop poderia ser uma grande comunidade de centenas de milhares de pessoas, foi se esvaziando desde então. O que se tem hoje são pequeníssimas comunidades, muito específicas e que dificilmente se reúnem. Então a gente tem os fãs dos Los Hermanos, que são em número tão grande quanto o dos detratores dos Los Hermanos. E eu acho que essa dispersão é o que invialibiza, por exemplo, editar uma revista de música, que precisa de um certo número de leitores congregados com um mínimo de coesão para funcionar, o que não se tem mais. É daí que acredito que venha parte desse discurso desses artistas: “pô, legal era na minha época.” Sim, era legal na sua época porque você conseguia tocar toda noite, conseguia ir nas TVs abertas e vender centenas de milhares de discos. E é um cenário muito diferente.

ZH – E o que essa mudança representa em termos artísticos?
Alexandre –
Eu acho que a gente perdeu no ponto de vista de que essas microcomunidades tiram do artista um grande desafio que havia nos anos 1980: o artista era inquirido por públicos que não eram o seu, que não estavam dispostos a gostar do que ele faria. Quando o RPM ia tocar no Chacrinha, quando o Akira S. precisava tocar no Napalm ou os Replicantes tinham de se apresentar no 89, em São Paulo, eles eram obrigados a convencer um público que não tinha referências anteriores deles. Hoje é impossível você sair de casa sem ter pesquisado pelo menos no myspace ou no canal do YouTube da banda. Então quando você vai a um espetáculo, vai para avalizar aquilo que você gosta. O exercício de o artista convencer o público se perdeu, e perdendo isso, perde-se uma música mais comunicativa. Nesse sentido, isso representa um recuo do que se conquistou naquela época. Agora, por outro lado, a gente ganha em experimentação, em ousadia. Artisticamente, os valores são equivalentes, mas como oportunidade, como mercado, como cenário, não tenho dúvida de que os anos 1980 foram especiais.

ZH – Durante anos, houve um entendimento tácito e uma reclamação unânime dos artistas daquela geração de que as gravadoras lesavam os músicos, mas aquele era o único sistema disponível. Só que com a implosão da indústria musical, muitos daqueles artistas ainda parecem tatear em busca de um caminho neste momento em que as gravadoras não lucram e os ouvintes não pagam. É também a sua impressão?
Alexandre –
Acho que sim, e acho que a questão é mais grave. A ideia de que você possa vender seu talento para que um grande empresário pague seu salário é cada vez menos provável, não apenas para a música. A gente vê uma quantidade de caras que saíram da mídia, ou desse sistema, para usar a palavra que você empregou, para trilhar possibilidades de relação de negócios que tendem ao infinito. Acho que não é uma questão dos artistas, mas de todos os profissionais que trabalham com criação, comunicação e entretenimento, que são as áreas que eu de fato conheço, embora eu desconfie que esse fenômeno vá para outras áreas. Acho que a inadequação de alguns desses artistas vem do fato de que muitos deles têm mais de 50 anos. E têm a convicção, ainda que não admitam, de que o auge do seu fervor criativo já passou. Eu acho pouco provável que esses caras estejam interessados em desbravar tudo outra vez, de inventar uma nova maneira de trabalhar, de botar a música não sei onde para poder chegar no seu público para fazer show muito menores em termos de público. Acho que alguns tentam: o Lobão, o Leoni é um cara que tenta reinventar várias alternativas, mas são exceções, não dá para chamar de tendência. A tendência é de que seja como faz o Kid Abelha: se reune a cada seis anos, faz mais uma turnê comemorativa de data redonda, grava um disco ao vivo, um DVD, um especial para algum canal, lança duas músicas novas e se recolhe novamente.


Os Replicantes. Foto: Rochelle Costi, Divulgação, Arquivo ZH



Maldito Fruto

11 de setembro de 2012 0

A diva Billie Holiday

Texto e entrevista de Cauê Marques

O ano é 1939. Com os Estados Unidos prestes a encarar a Segunda Guerra Mundial, crimes contra pessoas negras – abusos de autoridade, linchamentos e segregação social – eram comuns no país. Billie Holiday, a primeira grande diva do jazz, grava uma música que seria um divisor na história recente da música. Strange Fruit – Billie Holiday a Biografia de uma Canção, do jornalista americano David Margolick (Tradução de José Rubens Siqueira. Cosac Naify, 138 páginas, R$ 39,90), trata deste importante capítulo da carreira da intérprete americana.

Escrita por Abel Meeropol, um professor nova-iorquino, branco e judeu, Strange Fruit fala de um linchamento ocorrido no interior dos EUA, no estado de Indiana, em que os corpos de dois homens negros foram fotografados depois de um enforcamento público. A letra da canção, que descrevia em tristes versos a terrível situação, foi gravada por Billie Holiday em 1939 e acabou se tornando um dos símbolos da luta contra o preconceito nos EUA. Em todos os seus shows a partir desta data, Billie teria em Strange Fruit um elemento que a completava enquanto artista. Negra e de origem humilde, Billie parecia encarnar a tristeza da canção na sua voz. A história da música e a adoção dela por Holiday são o foco do livro. Lançada no Brasil pela editora Cosac Naify, a obra trata da influência e da amplitude que a mensagem da música alcançou com a ajuda de Billie Holiday. David Margolick explica como o compositor judeu nova-iorquino acabou conhecendo a maior cantora de jazz da época (e de todos os tempos), encontro que fez com que a luta pelos direitos dos negros na sociedade norte-americana fosse pauta de discussão dos grandes jornais das décadas de 1930/1940.

A pesquisa de Margolick sobre como surgiu Strange Fruit é minuciosa e alguns detalhes quase colocam o livro a perder em um dos capítulos, mas passadas essas páginas, o que o leitor encontra é uma série de depoimentos sobre como Holiday, que no início da década de 1940 já enfrentava problemas com álcool e heroína, arrebatou plateias com a canção-denúncia. O livro, com acabamento caprichado, é mais um documento da biografia da primeira grande voz feminina do jazz, além de contextualizar a importância da arte como parte das mudanças sociais.

Leia abaixo entrevista com o autor do livro, concedida por telefone, e ao fim do post assista a uma rara filmagem de Billie Holiday interpretando a canção:

Mundo Livro – Por que o senhor quis pesquisar sobre a canção? Quando começou seu interesse pela música Strange Fruit e a história com Billie Holiday?
David Margolick – Eu me interessava pelo assunto havia anos. Sabia da música, sempre fui curioso sobre a história. Eu escrevi um artigo sobre o filho de Abel Meeropol, autor da música, para o jornal norte-americano “The New York Times” durante os anos 1990. Tive a oportunidade de conhecer Robbie Meeropol e me lembro de ter conversado com ele sobre a música. Ele me deu um livro de poesias do seu pai naquela situação. Então, este assunto ficou na minha cabeça durante anos antes de eu escrever o livro. Gosto de jazz e de música, mas sou bastante interessado sobre a história dos direitos civis, e a história da América – da história dos judeus e do radicalismo americano. Todos esses tópicos se encontram na história da música.

Mundo Livro – Casos de músicas que mudam o pensamento das pessoas ou abraçam uma causa ainda são possíveis nos dias de hoje?
Margolick –
Acho que a consciência do público está saturada nos dias atuais. Acho que é muito mais difícil de afirmar algo com uma música do que era antigamente, a indústria da música é muito mais restrita atualmente do que naqueles tempos. Ela era controlada por poucas pessoas. Era muito mais fácil de se destacar com uma música antigamente. Atualmente, em termos musicais, já se discutiu quase tudo. Chocar as pessoas hoje seria mais difícil.

Mundo Livro – O trabalho de Billie em StrangeFruit inspirou outros artistas que vieram depois dela?
Margolick –
Bem, esta canção é um elemento estranho na carreira dela. Era completamente atípico para a época, e ela não fez nada parecido em toda a sua carreira, mas ao mesmo tempo parecia que aquilo havia se tornado a vida dela. Ela personificou a música, a tristeza de Strange Fruit parecia ser a tristeza vivida por Billie. Ela nunca foi uma ativista política, mas essa música e a vida dela falavam por si.

Mundo Livro – Os artistas negros de hoje ainda enfrentam preconceito como Billie enfrentava?
Margolick
– Não sou especialista neste assunto, mas entendo que em nações com muitas misturas étnicas, como os Estados Unidos ou o Brasil, o preconceito nunca desaparecerá por completo. É o tipo de coisa que pode afetar qualquer pessoa de outra etnia. E é por isso que músicas como Strange Fruit são simbólicas – não porque ainda existam linchamentos acontecendo nas ruas, mas porque o preconceito de que fala a música é o tipo de coisa com que a humanidade terá de lutar continuamente ao longo da história, é o tipo de coisa que nunca desaparecerá definitivamente.

Veja abaixo Billie Holiday interpretando a canção Strange Fruit:

Ouça o livro, veja o som, leia o filme

13 de agosto de 2012 0

Steve Coogan e Shirley Henderson em "A Festa Nunca Termina", de Michael Winterbottom

Talvez nem faça bem levar os filmes de rock assim, a sério, mas um mapeamento histórico e uma análise em conjunto do que se produziu em 50 anos permitem conclusões consistentes sobre o que estes filmes têm a dizer da cultura pop e do contexto em que eles foram feitos. Em meio a frases de efeito e um humor às vezes certeiro, noutras apenas bobo, é o que consegue o crítico musical britânico Garry Mulholland em Popcorn – O Almanaque dos Filmes de Rock (Tradução de Henrique Monteiro. Editora Seoman, 448 páginas, R$ 58).

A edição caprichada da Seoman, com prefácios de Kid Vinil e Rubens Ewald Filho, valoriza ainda mais o livro que chegou recentemente ao Brasil e é desde já uma referência no assunto. Além de um ensaio de apresentação e de uma lista com os 20 títulos preferidos do autor, preenchem suas 448 páginas resenhas de cem longas-metragens significativos sobre o rock – ou com o espírito rock – produzidos nos EUA ou na Grã-Bretanha.“Não são os cem maiores filmes de rock porque alguns deles são medíocres”, mas “dizem algo importante sobre a impressão causada pelo gênero musical sobre o planeta”, escreve Mulholland.

Tudo está dividido por décadas, o que permite vislumbrar os longas em conjuntos relativamente uniformes. Nos anos 1960, por exemplo, há o otimismo juvenil misturado com a fúria contra o mundo adulto, enquanto nos 1970 há uma clara ressaca sessentista e, nos 1990, uma série de homenagens a astros roqueiros e “um onipresente prazer cínico pelo fato de alguém ter pensado que a música pop era politicamente importante”, conforme o autor.

Popcorn fala com má vontade de produções europeias como Sympathy for the Devil (1968), de Godard,mas resgata títulos raros e lendários, como Cocksucker Blues (1972), no qual o diretor Robert Frank registra sem censura os bastidores de sexo e consumo de drogas na turnê de Exile on Main St., dos Rolling Stones. Também exalta filmes cultuados, mas pouco conhecidos, como DiG! (2004), longa de Ondi Timoner premiado em Sundance sobre as bandas Dandy Warhols e Brian Jonestown Massacre.

O problema do livro é aquele que deveria ser um de seus méritos. Se a linguagem descolada e o descompromisso com verdades estabelecidas permitem alcançar um bom tom de abordagem em filmes como Pink Floyd – The Wall (Alan Parker, 1982) e The Rocky Horror Picture Show (Jim Sharman, 1975), acabam arruinando a tentativa de análise de outros, a exemplo de O Último Concerto de Rock (Martin Scorsese, 1978) e Não Estou Lá (Todd Haynes,2007). Pode ser divertido ler Mulholland desancando ironicamente a pasteurização e a falta de atitude rock’n’roll de títulos como The Doors, o Filme (Oliver Stone, 1991), mas não passam de malcriações infantiloides comentários como “Se eu encontrasse o diretor o estrangularia com prazer” (sobre Control, de Anton Corbijn, 2007).

TIRANDO ONDA
Alguns filmes resumidos em uma frase por Garry Mulholland em Popcorn:

Help! (1965), de Richard Lester:
Seita oriental bizarra não consegue deixar o anel de Ringo em paz.

Os Monkees Estão Soltos (1968), de Bob Rafelson:
“Banda é forçada a consumir drogas e sofre maus-tratos por parte de hippies insensíveis.

Easy Rider – Sem Destino (1969), de Dennis Hopper:
“A road trip que matou Hollywood.”

Let It Be (1970), de Michael Lindsay-Hogg:
“A banda mais famosa acontece na história, em toda a sua glória deprimente.”

The Rocky Horror Picture Show (1975), de Jim Sharman:
“O filme de rock mais querido de todos os tempos travestido de monstro da ficção científica.”

The Loveless (1981), de Kathryn Bigelow:
“O filme nouvelle vague de motociclistas que a França nunca produziu.”

Pink Floyd – The Wall (1982), de Alan Parker:
“Os muros são ruins. Mas as mulheres são piores.”

Footloose – Ritmo Louco (1984), de Herbert Ross:
Rock‘n’roll, danceteria e Kevin Bacon contra Deus. Ele nunca teve uma chance.”

Sid e Nancy: o Amor Mata (1986), de Alex Cox:
“O amor é o pesadelo dos jovens.”

Moonwalker (1988), de Colin Chilvers e Jerry Kramer:
Antes da queda, um retrato do artista como cantor, dançarino, ícone, Deus, carro, alienígena, robô, espaçonave, baby-sitter, vigilante e o quinto Beatle.”

The Doors, o Filme (1991), de Oliver Stone:
“Babaca para de se barbear e morre.”

Quanto Mais Idiota Melhor (1992), de Penelope Spheeris:
“Não!”

Pensador entre dois mundos

25 de julho de 2012 0

O poeta e filósofo Antonio Cicero. Foto: Divulgação, Civilização Brasileira

 

AS FLORES DA CIDADE

Há flores pelo caminho através
da cidade à cidade: naturais,
em canteiros e em árvores, talvez,
mas quase todas artificiais
nos cabelos dos bebês, em cachorros
mimados, em vitrines e revistas
femininas, em cartazes e
outdoors,
e – de novo naturais – em floristas,
camelôs na calçada e, sobretudo,
nas mãos do entregador de flores, cujo
olhar esverdeado sobre as rosas
é puro absinto e tudo nos deslembra,
lançando-nos dúvidas hiperbólicas
sobre o próprio destino a uma hora dessas.

Filósofo, poeta e compositor, Antonio Cicero vem a Porto Alegre na próxima sexta-feira para uma conferência às 17h30min, na Sala Álvaro Moreyra, do Centro Municipal de Cultura (Erico Verissimo, 307), como parte da programação do 7º Festival de Inverno, realizado ao longo desta semana.  Vai falar sobre letra e música na obra de Caeatano Veloso e Gilberto Gil. Além de Cícero, outros nomes grandes nomes estão realizando oficinas, cursos e palestras na área da literatura e das humanas. Lira Neto esteve na cidade ontem para falar sobre sua biografia de Getúlio Vargas. O argentino Martín Kohan, escritor e teórico da literatura, ministrará uma palestra sobre Cortázar. A programação completa pode ser vista no portal oficial do evento na internet: www.portoalegre.rs.gov.br/festinverno.
Cícero recentemente lançou Poesia e Filosofia (Civilização Brasileira), um ensaio que aborda as especifidades das duas formas de expressão. Também está lançando seu primeiro livro de poemas em uma década, Porventura (Record), de onde foi retirado o trecho que vocês leem acima. Ele concedeu a seguinte entrevista por e-mail:

Zero Hora – A obra de Caetano já foi algumas vezes analisada como um sopro de ímpeto anárquico ligado ao tempo presente, em contraposição a Chico Buarque, de trajetória mais ligada à tradição do samba e de trabalho de feição mais lírica e formalmente mais convencional. O senhor concorda com essa contraposição? E que espaço Gilberto Gil ocuparia nesse suposto eixo de força com Chico em um extremo e Caetano no outro?
Cicero
- Junto com Caetano, Gil esteve no olho do furacão do Tropicalismo. Ouça-se, por exemplo, Domingo no Parque ou Volks-Volkswagen Blue. E o Gil que conheceu a contracultura (ouçam-se O Sonho Acabou e Expresso 2222) também se encontrava muito distante de Chico Buarque. Isso não quer dizer que eles fossem antagônicos.A parceria de ambos, Cálice, mostra o oposto. Mas a trajetória de Gil sempre esteve muito mais próxima da de Caetano do que da de Chico.

Zero Hora – Muito se tem falado sobre uma suposta crise da forma da canção na música brasileira e, no entanto, Caetano, um dos autores que o senhor vai analisar em sua vinda a Porto Alegre, lançou dois discos recentes que o recolocam como um dos grandes persecutores da novidade no cenário musical brasileiro. A canção está em crise de fato ou o diagnóstico é apressado?
Cicero -
Não creio que esteja em crise. O que ocorre é apenas que o surgimento de manifestações musicais que não podem ser classificadas de canções – como as que derivam do rap – relativizam a importância da canção. Antes disso,a música popular era praticamente composta de canções. Agora, ela divide esses recursos com outras formas musicais.

Zero Hora – No livro Banalogias (2007), Francisco Bosco reflete que a diferença entre um poema e uma letra de música é que esta última teria “uma finalidade compartilhada: o objetivo da letra de música é pôr de pé a canção, letra e música são os fios com que se tece o corpo final da canção”. O corolário da afirmação é que a análise de uma sem a outra será sempre fraturada ou limitada. Como alguém que já trabalhou no processo de musicar sua própria poesia, o senhor compartilha esse entendimento?
Cicero –
Basicamente, sim. Há muito tempo afirmo que a letra de música é heterotélica, isto é, não tem sua finalidade em si própria, mas na canção de que faz parte, enquanto que o poema livresco é autotélico, isto é, tem sua finalidade em si próprio. Assim, não se pode dizer, como muitos diziam antigamente, que a letra boa é aquela que se sustenta sozinha, sem a música. Não: a letra boa é aquela que faz parte de uma boa canção. Por outro lado, é claro que há letras que podem ser lidas como poemas; e há poemas que viram letras de músicas, de modo que não se pode generalizar. É preciso considerar caso por caso.

Zero Hora – O imbricamento entre letra e música nas canções de Gil é de algum modo diverso daquele percebido nas músicas de Caetano?
Cicero
- Penso que ambos fazem perfeitamente aquilo que se propõem. Nesse ponto, não há superioridade nenhuma de um sobre o outro.

Zero Hora – Em uma entrevista com Caetano Veloso, Ana de Oliveira postula a participação de ambos na Tropicália nos seguintes termos: “Gil, a antena. Caetano, a liderança“. No caso de artistas com uma colaboração tão prolífica quanto os dois, é possível separar seus papéis dessa forma?
Cicero
- Eu diria que os dois foram antenas. Na verdade, não creio que, na música brasileira, jamais tenha havido antenas – receptoras ou transmissoras – mais eficazes que a de Caetano. Quanto à liderança de Caetano, ela sempre foi reconhecida pelo próprio Gil.

Zero Hora –  Caetano e Gil de algum modo influenciaram um jeito de fazer canção (e de escrever uma letra para ela) ainda em vigor? Ou a radical originalidade de seu trabalho não lançou bases para o que se poderia chamar uma”escola”?
Cicero
- Caetano fez de tudo, de modo que não há nenhum único jeito associado a ele. Já o estilo musical – em particular o violão – de Gil influenciou muita gente. Marina Lima, por exemplo, sempre reconheceu a importância musical do toque de Gil no seu trabalho.

Zero Hora – O senhor está lançando um livro no qual defende as especificidades de linguagem da poesia em relação à filosofia e vice-versa. Seria assim também com a canção, para retomar o verso irônico de Caetano “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível/ Filosofar em alemão”?
Cicero
- Ao dizer que só é possível filosofar em alemão, o verso de Caetano está de fato citando, de modo irônico, como você mesmo diz, uma ideia de Heidegger. Mas veja: uma ideia incrível é, literalmente, uma ideia em que não se pode acreditar. E é uma ideia em que não se pode crer porque é uma ideia indemonstrável. Mas uma ideia incrível é também uma ideia maravilhosa.Pois bem, se você tem uma ideia que, apesar de indemonstrável, é maravilhosa, então é melhor fazer com ela uma canção do que uma filosofia. E quem diz isso concorda com minha tese de que poesia e filosofia não devem ser confundidas.

Zero Hora – Quem conhecesse seu trabalho como poeta e como um pensador com formação em filosofia pensaria que o senhor concilia as duas formas em seu trabalho, mas é exatamente o inverso o que o senhor dá a entrever em seu livro Poesia e Filosofia. O senhor vê em si duas instâncias de atividade, o poeta e o filósofo, que não se mesclam quando atuam?
Cicero
- Sim. Costumo dizer que, em mim, o poeta vai embora quando o filósofo aparece; e que o poeta nem aparece quando é o filósofo que está presente.

Os vícios do ego e seus excessos

12 de julho de 2012 0

Jagger e Brian Jones em foto de Mark Hayward. Divulgação: Cosac Naify

Texto de Marcos Espíndola

Verbete Rolling Stones remete ao superlativo. Aos olhos dos próprios, isso cintila ainda mais ao largo da modéstia. Eles podem! Se o mundo não acabar, como preveem os fatalistas, em 2012 a banda completa meio século de atividade.
A Cosac Naify antecipou-se (não ao fim do mundo!) e lançou em janeiro no Brasil According To The Rolling Stones, vigoroso compêndio biográfico, abrindo as comemorações do cinquentenário dos stones.

É, como o título sugere, “a banda conta a sua história”, com depoimentos dos três integrantes da formação original – Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts – e do guitarrista Ron Wood, que integrou-se ao império em 1975. São 12 capítulos, muito bem ilustrados com fotos de arquivos pessoais e de bambas que acompanham a banda ao longo das décadas: de David Bailey ao “fashionista” Mario Testino, passando por Anton Corbijn, Norman Seef, Jim Marshall,Val Wilmer, Gered Mankowitz e Terry O’Neill.

Uma biblioteca nunca está completa, e According To The Rolling Stones está longe de ficar em exposição na mesa de centro acompanhando aqueles livros coxinhas de arte. Apesar da edição luxuosa, é para ser lido, relido e rodado com a discoteca básica. Em 12 capítulos, a obra apresenta, cronologicamente, a evolução daqueles garotos aficionados por blues e rhythm’n’blues até os tempos da consagração planetária. Cada um pincela a sua visão sobre o sucesso e seus ardis para superar os vícios do ego e dos excessos.

Não incorra no erro de pular as partes comentadas pelo guitarrista Keith Richards. É sempre excitante ler seus relatos sobre como se forjou o código genético dos Rolling Stones e a reverência recorrente ao pianista Ian Stewart. No livro, Richards afirma que a banda se formou em torno da vontade de Stu, que acabou “demitido” pelo empresário “porque era feio demais”. Ainda assim, foi incorporado ao staff e acompanhou o grupo até a sua morte, em 1985. Não por menos ficou conhecido como o “sexto Rolling Stone”.

História que ganha tempero com a adição de comentários de parceiros do showbiz, como o fundador da gravadora Atlantic, Ahmet Ertegun, que diz só tê-los fisgado porque já não havia chances deles assinarem com a mítica
Chess Records.

O banquete do Bill

12 de julho de 2012 0

Bill Geman entre Keith Richards e Ron Wood. Foto: Divulgação, Nova Fronteita

Texto de René Müller

Bill German era o editor da que tenha sido, talvez, a mais bem-sucedida fanzine já editada. A Beggars Banquet era produto de seu esforço pessoal, solitário. Detalhe: o garoto tinha apenas 16 anos quando transformou sua devoção
pelos Rolling Stones em um informativo periódico. O que fez a publicação vingar foi o fato de que, assim como três dos stones, German estava em Nova York quando a proximidade com os ídolos importava. Era um típico jovem do subúrbio, que precisava pegar o trem para conseguir cruzar com Keith Richards e Ron Wood na entrada e saída de casas noturnas ou de shows. Isso não impediu que, aos poucos, fosse se tornando amigo dos dois. E aí está o cerne de seu fantástico livro, que acaba de sair no Brasil.

Para quem lê a orelha, ou presta atenção no subtítulo de Under Their Thumb – Como um bom garoto se misturou com os Rolling Stones e sobreviveu para contar (Trad. Renato Rezende e Aline Cordeiro. Nova Fronteira. 448 págs. R$ 44,90)-, a impressão que fica é a de que Bill teve a sorte de conviver com o grupo por algum motivo meio banal, e resolveu faturar uma grana em cima do privilégio. É uma impressão que logo se mostra errada. Bill escreve e edita na raça uma publicação para fãs. Consegue contatos quentes. Pouco depois, está entregando exemplares da Beggars Banquet na mão de Keith e Woody – e pode comprovar que eles estão lendo seu fanzine. Cria uma boa amizade com os dois, uma relação tensa, quase sempre distante com Mick Jagger, e não consegue se aproximar de Charlie Watts.

Por um momento, os Stones e sua organização perceberam que a fanzine era uma ótima maneira de promoção entre seus fãs – ela tinha milhares de assinantes no mundo. Quando lançaram Undercover, em 1983, a Beggars Banquet tornou-se parte da máquina promocional oficial do grupo. Uma relação temporária que, para o editor German, acabou tendo muitas desvantagens, como a falta de autonomia. Todas as edições da publicação tinham de ser previamente aprovadas pelos músicos, e muito do que havia para ser publicado era vetado.

O autor teve acesso à intimidade dos dois guitarristas no momento mais delicado do grupo – as gravações e a promoção de Dirty Work (1986), quando a animosidade entre Keith e Jagger chegou perto do intolerável – e também no que considera a virada não apenas da banda, como do modelo do showbiz: a turnê de Steel Wheels (1989), em que os Stones tornaram-se basicamente uma grande corporação impessoal, máquina de vender ingressos, diga-se, com preços quintuplicados).

Páginas que rolam

12 de julho de 2012 0

Os Stones no começo. Foto: Mark Hayward e Philip Townsend, Divulgação

Na semana que se comemora o Dia Mundial do Rock, coincidentemente também completam cinquenta anos de atividade os ícones mais longevos do ritmo: os Rolling Stones. Como uma das maiores bandas do planeta e há tanto tempo em atividade, os Stones não apenas produziram horas de canções, mas foram o tema de quilômetros de palavras impressas e são um dos temas mais abordados por jornalistas, fotógrafos e escritores em um ramo do mercado editorial que já é sólido lá fora há tempos, mas que por aqui ganhou força apenas nos últimos anos: o das obras biográficas, ensaísticas ou históricas sobre grandes astros da música. Por falar nisso, em um Dia Mundial do Rock anterior elaboramos uma “Biblioteca Básica Roqueira” com alguns dos bons exemplares do gênero publicados aqui no Brasil. Confira aqui.

Os Stones, dizia-se, já foram alvo de praticamente toda e qualquer abordagem literária, das mais sérias às mais sensacionalistas: já teve história da banda, história de um único disco gravado pela banda, biografia autorizada de integrante da banda, biografia não autorizada de integrante da banda, depoimento de roadie, depoimento de amigo, depoimento de namorada de integrante da banda, livros de fotos icônicas, livros de fotos íntimas desmontando a imagem icônica… Nos Estados Unidos e na Inglaterra daria para construir uma casa usando como tijolos os volumes que já se editaram sobre os Stones.

E algo desse material vem saindo aqui no Brasil. Por isso, para marcar este cinquentenário dos Stones, vamos publicar neste e nos próximos dois posts três resenhas sobre importantes obras recentemente reeditadas para partilhar com os leitores aqui do blog, um delas escrita pelo colega Francisco Dalcol, aqui da Zero, uma assinada pelo René Müller e outra pelo Marcos Espíndola, ambos do Diário Catarinense. Folheia que isso aí é rock’n’roll:

A verdade de um sobrevivente
Texto de Francisco Dalcol

O que faria você ler mais de 600 páginas sobre a história de um velho roqueiro? Muitos são os motivos, considerando que o personagem é Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, e que o livro, Vida (Editora Globo, 640 páginas, R$ 40 em média) é uma autobiografia que traz, segundo o próprio, 100% de conteúdo verdadeiro. Sem contar o fino humor que acompanha cada página.

Tudo o que se contou e especulou a respeito de Richards criou uma espécie de curiosidade mórbida sobre como ele sobreviveu a tantos anos de abusos. No livro, ele conta tudo: sua relação com os narcóticos, suas inúmeras quase-overdoses e a forma como conseguiu (e garante) ter se livrado de tudo. Richards revela que, durante boa parte de sua vida, dormiu apenas duas noites por semana. O que significa que ficou acordado por “pelo menos três vidas”. Seu recorde de resistência foram nove dias acordado. O livro relata dezenas de prisões e problemas com a polícia, cada um mais engraçado que o outro.

Mick Jagger não é poupado. Do começo, como grande parceiro, ele chega ao meio do livro como uma espécie de traidor, na visão de Richards, com seu deslumbre pela fama, suas tentativas de assumir o controle da banda e, em função disso, aumentar gradativamente seu distanciamento do restante da banda. Vida deixa clara toda a paixão de Richards pelo blues de Junior Wells, John Lee Hooker e Muddy Waters. E para os músicos, chega a ser arqueológico quando ele fala dos segredos da afinação aberta em sol, com cinco cordas no instrumento, técnica que redefiniu o som dos Stones no fim dos anos 60.

Em linha do tempo 3D, explore a história da banda: