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O original de Nabokov

26 de janeiro de 2010 0

A palavra de um gênio é tão plena de virtudes que mesmo suas intenções merecem o julgamento do público? Essa é a pergunta que cerca O Original de Laura (Alfaguara, Tradução de José Rubens Siqueira, 304 páginas, R$ 59), obra inacabada do mestre russo Vladimir Nabokov (1899 – 1977). O volume lançado pela Alfaguara não deixa de ser ele próprio uma contradição: capa dura, papel de boa qualidade, fac-símiles das fichas originais (como a que ilustra este post), edição primorosa – uma das melhores que um livro de Nabokov já teve no Brasil – para algo que não deixa de ser um caderno de esboços bastante precários.

Nabokov começou a escrever O Original de Laura em 1975 – e em 1977 foi acometido de uma grave enfermidade que resultou em sua morte. A bem dizer, uma série de problemas de saúde atrasou o escritor, e o planejado …Laura ficou reduzido a apenas um conjunto de 138 fichas catalográficas nas quais, a mão, em não mais do que 9 mil palavras, Nabokov redigiu quatro capítulos completos e anotou várias ideias ou trechos – o costume de fazer os primeiros esboços de um livro a lápis em fichas avulsas ajudava o autor a literalmente “montar” suas obras, trocando capítulos de lugar quando necessário no processo de datilografar os originais. O mesmo método havia sido usado com um clássico como Lolita.

Com a morte de Nabokov, as fichas passaram à guarda da mulher do escritor, Vera – ele havia feito um pedido explícito de que, se morresse sem concluir a obra, aquela massa ainda informe deveria ser incinerada. Vera debateu-se com a tarefa até legar as anotações ao filho, Dmitri, deixando para ele a decisão. O anúncio, em 2008, de que o material seria publicado provocou uma tempestade sobre os debates literários em língua inglesa. Russo de nascimento, tendo publicado suas primeiras obras no idioma natal, Nabokov tornou-se também um mestre da língua inglesa, um esteta desconcertante da palavra escrita, autor de obras fundamentais como Lolita (1955) e Fogo Pálido (1962).

A pergunta, inevitável dado o nível de apuro com que Nabokov burilava sua prosa, recai sobre o propósito de lançar uma edição comercial de um trabalho ainda nos estágios iniciais. Dmitri, na introdução do livro, defende-se das acusações de traição à memória paterna afirmando que, em seu entender, Nabokov não gostaria de ver o manuscrito destruído: “…Nem (…) penso eu que meu pai ou a sombra de meu pai se oporia ao lançamento de Laura, uma vez que Laura sobreviveu ao murmúrio do tempo até aqui”. Já a crítica massacrou o lançamento. O romancista bósnio Aleksandar Hemon, autor de As Fantasias de Pronek e O Projeto Lázarus (publicados aqui no Brasil pela Rocco), escreveu, neste artigo para a revista Slate (em inglês): “É seguro dizer que o que está sendo publicado não é um resultado que Nabokov desejaria ou saudaria. Não apenas vai contra seus desejos expressos, mas contra sua sensibilidade estética, contra sua vida inteira como artista”.

E a história?

Não há muita, embora o que tenha vindo à tona deixe entrever uma obra bastante original se Nabokov tivesse tido tempo de concluí-la: Philip, um neurologista obeso e ridículo, é seguidamente traído por sua mulher, Flora (as traições de Flora ocupam os dois primeiros capítulos redigidos nas fichas, duas das unidades mais bem organizadas de texto). Flora é retratada por um de seus amantes em um livro intitulado My Laura – Flora, portanto, seria “o original de Laura”, a palavra fazendo referência à mulher, e não ao original propriamente dito. Melancólico com as traições da esposa, Philip desenvolve, por meio de uma síntese química, um método de enviar mensagens de autodestruição do cérebro ao restante do corpo, permitindo, assim, que alguém literalmente “apague” partes de si próprio, um processo que se revela, por estranho que pareça, prazeroso e embriagador – daí o subtítulo do livro, Morrer É Divertido, que hoje Nabokov, dada a polêmica, talvez não endossasse.