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Posts na categoria "Notas de Leitura"

Alta temperatura na Praça

04 de novembro de 2013 0
Nathalia Rech, Nanni Rios e Monique Esswein Guimarães no Sarau Erótico. Foto: Carlos André Moreira

Nathalia Rech, Nanni Rios e Monique Esswein Guimarães no Sarau Erótico.
Foto: Carlos André Moreira

Com a ajuda do vento, forte, a temperatura caiu bastante na noite de segunda-feira na Feira do Livro. No Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, contudo, o clima aumentou alguns graus com um apelo a uma tradicional (e muitas vezes clandestina) expressão literária: o erotismo.

Um salão lotado por um público em sua maioria jovem riu, gargalhou, aplaudiu e se embeveceu com poemas licenciosos e partilháveis, mas impublicáveis, de clássicos como Catulo e Aretino a contemporâneos como Paula Taitelbaum e Armando Freitas Filho. Dando um entendimento menos técnico e mais literal à expressão “prazer do texto”, o Sarau Erótico é um projeto capitaneado por Nanni Rios e Monique Esswein Guimarães, sendo realizado periodicamente na primeira segunda-feira do mês, no Bar do Nito, tradicional endereço do samba na Capital.

Na edição da Feira, a convidada especial foi a poeta Nathalia Rech – que também teve poemas lidos no sarau. É um tanto difícil apresentar ao querido leitor a essência da noite safada vivida ontem, porque os textos escolhidos ao sabor do improviso (e a reação aprovadora da plateia) são a grande graça do projeto. Para quebrar a timidez dos mais inexperientes, as condutoras do encontro começaram apresentando textos retirados de livros empilhados ao lado da poltrona. Ao lado de algumas taças de vinho.

– Infelizmente, o vinho tem de ficar no palco, é orientação da Feira, mas quem subir para ler pode tomar um gole – convidou Nanni Rios.

Logo, alguns mais desabusados se encorajam a subir no palco e ler também – dois contos de Caio Fernando Abreu, poemas de Olivério Girondo, Natália Corrêa, Vinicius de Moraes (um dos campeões dos aplausos), estrofes próprias compostas pela plateia na hora, versos catados na internet pelo celular. A plateia acompanhou em um silêncio atento (mas não reverencial). Uma ou outra linha despudorada provocou riso imediato.

A orgia literária durou mais de uma hora e passou rápido – como é próprio das atividades prazerosas, literárias ou não

Algumas notas barbudas

26 de dezembro de 2012 0

1 – O primeiro motivo de alguma reflexão para este leitor de Barba Ensopada de Sangue, novo livro de Daniel Galera, foi o título. Um título, principalmente se escolhido pelo autor do livro, é um cartão de apresentação, quase um manifesto de intenções. E Barba Ensopada de Sangue é uma frase de sonoridade brutal, violenta, com ressonâncias grotescas que remetem a um thriller ou a um livro de horror. E embora Galera enverede pelo mistério neste seu novo romance, não é isso o que o livro oferece. O título pensado anteriormente para esta narrativa, já li em algum lugar, acho que na própria Granta, era Apneia (foi esse o nome dado a um dos capítulos iniciais do romance, publicado na seleção da revista americana com “os melhores escritores brasileiros sub-30 40″). A este leitor, é um título que se ajusta muito mais ao que se lê no livro, porque Galera trabalha o romance buscando no ritmo e no encadeamento da prosa e dos sucessos da narrativa uma cadência de respiração suspensa. Pouca coisa acontece de fato em boa parte da narrativa, e muito do que ocorre está comprimido nos últimos e acelerados capítulos – como se a narrativa segurasse o fôlego até o limite e então bracejasse sofregamente em busca de ar tentando encontrar a superfície atropelando o que estiver na frente (o que serve também para posicionar melhor no conjunto do enredo a explosão final de violência). Tudo isso combinaria bastante com a ideia de apneia, presente, além disso, em um bom número de páginas do romance (o avô do protagonista é citado como um homem com capacidade pulmonar sobre-humana. O jovem professor de educação física tenta imitar tal capacidade do avô e conclui que não a herdou – até que, em uma cena chave, é obrigado a provar a si mesmo e ao leitor que estava errado). Já Barba Ensopada de Sangue é uma frase colocada em uma das cenas do clímax – e parece ter sido inserida ali para justificar o título, e não o contrário. Não que isso seja assim tão importante, mas o título é uma apresentação, já mencionei, e neste livro, ao menos, a impressão que fica é análoga à que temos ao encontrar uma pessoa com um nome que não combina em nada com sua aparência – o que talvez seja mais importante do que se pensa em um livro no qual a discrepância entre nome e rosto está no centro da narrativa.

2 – Criar um personagem que se sustente por si só equivale a construir, mais do que uma persona, uma psique. E essa psique inclui elementos que devem ser moldados de forma cuidadosa se o que se pretende é uma representação adequada em um contexto realista – e, apesar da inclusão de algumas pajelanças que sugam o leitor do contexto realista para uma atmosfera em que o mágico se imiscui na rotina opressiva do personagem, o livro se estrutura na descrição o mais minuciosa e detalhista da realidade possível. Criar um personagem concreto em seus gestos e em sua formação intelectual e emocional também pressupõe uma certa honestidade com os propósitos da narrativa. Honestidade talvez soe pesado demais. Convergência, talvez fique melhor. E o fato é que, dentre as mais de 400 páginas do livro de Daniel Galera, um bom número delas é dedicado à construção da visão de mundo do personagem, e em certos momentos e diálogos, Galera praticamente tece um romance de ideias. E foi por isso que usei o termo “honestidade” tão pouco confortável. Porque calcar uma narrativa tão extensa na visão de mundo de alguém que não tem ou finge não ter os recursos intelectuais para discuti-la é um truque que permite ao autor esquivar-se dos pontos mais espinhosos do pensamento de seu personagem. Em um diálogo particularmente crucial, no fim do livro, o protagonista e a mulher que foi seu grande amor discutem a oposição determinismo x livre arbítrio. O debate é importante para este romance em particular porque, dependendo da posição que se adote, isso pode mudar o entendimento de um episódio crucial: a ex-namorada, o amor perdido do protagonista, hoje é casada com o irmão do personagem, motivo para uma relação cheia de arestas entre ambos e que contamina a família como um todo. A mulher insiste para que o protagonista perdoe seu irmão, uma vez que o próprio personagem já admitiu que, na hora do vamos ver, o poder de escolha da humanidade é menor do que se pensa, e tudo está vagamente interligado – o personagem tem até sonhos e visões premonitórias. Se o que vai acontecer é passível de ser previsto, isso diminuiria, pela lógica, a responsabilidade do agente individual, mas o personagem teima birrentamente em afirmar o contrário: 
Ninguém escolhe nada e mesmo assim a responsabilidade é nossa. É assim. Não sei explicar por quê“, diz ele à página 419. 
Pressionado pela insistência da ex-namorada, o sujeito não joga a toalha, mas invoca o fato de que não é um homem de leituras e não tem recursos para desenvolver o raciocínio e provar seu ponto de vista.
É esse um dos pontos em que Galera parece procurar a solução fácil: há um determinado número de ideias circulando no livro, mas como o personagem é meio burro ou se faz de, a incongruência da argumentação pode ser deixada de lado dentro da narrativa.

3 – Se na construção do universo mental do personagem Galera por vezes deixa a desejar pela anomia do sujeito, sua representação do universo físico é impecável. Muito se falou nos últimos anos sobre o quanto a literatura brasileira parecia ter renunciado, manietada pelo canto da sereia das teorias acadêmicas da crise de representação, à tarefa de colocar o país, um aspecto dele que seja, em suas páginas. Concordo apenas em parte, porque também para que um romance abarque um pouco que seja da realidade circundante, é necessário um talento e um trabalho pesado aparentemente além das possibilidades de muitos autores, que correm o risco de escorregar no didatismo ou comprometer a unidade da narrativa ao inserir trechos inteiros de “contextualização histórica e social” totalmente discrepantes do material narrativo propriamente dito. A maneira como Galera se desincumbe dessa missão tem algo de um drible de Garrincha: não tem nada de realmente novo, ele já fez antes e vai lá e faz de novo, e é bonito, funciona e encanta. O personagem principal sofre de uma doença que o impede de fixar o rosto de uma pessoa na memória, e portanto ele é minucioso em elencar os detalhes que possam ajudá-lo a lembrar da pessoa no futuro sem o rosto: peso, altura, gestos característicos, penteado, voz. Com esse recurso, Galera sente-se livre para recorrer às abundantes descrições do entorno e do ambiente que já estavam presentes lá atrás, em Mãos de Cavalo, um estilo de escrita tributário da prosa contemporânea em inglês, Ian McEwan, por exemplo, e, em especial, David Foster Wallace – há até o recurso às notas de rodapé para “dar voz” ao que escrevem outras personagens para o protagonista por meio de bilhetes, torpedos, e-mails. A forma como Galera retrata um balneário turístico fora de temporada como um lugar suspenso no tempo, sujeito a uma pesada melancolia, também casa muito bem com a busca central do personagem pela própria identidade (resolver o crime do avô é um pouco encontrar a si mesmo, uma vez que todos dizem que o protagonista é extremamente parecido com o parente assassinado).
Galera também se vale de um recurso que domina muito bem, o diálogo, para incluir na história temas candentes que cumprem a função desse “esboço de realidade brasileira”. É por meio dos diálogos que se fala da migração em massa de gaúchos para o litoral catarinense nos anos 1960; dos conflitos daí resultantes; do passado da localidade, atrelado à caça da baleia; do desaparecimento melancólico de um ofício ancestral, como o da pesca, cada vez mais ameaçada pela voracidade dos grandes pesqueiros e seus métodos industriais; da estagnação econômica de uma comunidade voltada para o turismo. São todos retratos absolutamente vívidos de um naco saboroso e ignorado da realidade nacional, dispostos de modo atraente e orgânico à narrativa, e saúdo Galera por isso, pela coragem de assumir uma visão precariamente totalizante em vez de enveredar pela tediosa circunvolução de seus próprios processos, como um cachorro correndo atrás do próprio rabo – é o que Elvira Vigna sugere que o autor deveria ter feito neste ensaio sobre o livro, e como é exatamente o que ela faz em seu maneirista Foi o que Deu para Fazer em Matéria de História de Amor, o conselho não me surpreende em nada.

4 – Uma nota pessoal: li o livro, coincidentemente, durante alguns dias de férias passados na Pinheira, bem ali próximo do cenário em que tudo ocorre, e foi de fato uma experiência de extrema e bela sinergia ver Galera descrevendo na ficção a região em que eu estava, também em um momento fora da alta temporada. É um toque de brilhantismo adicional o fato de que Galera cria a narrativa de um homem dedicado de forma maníaca a encontrar a sua própria identidade em um lugar que ele próprio padece da esquizofrenia inescapável do turismo sazonal: passada a alta temporada, o litoral catarinense se fecha em uma atmosfera provinciana que parece desconectada do que é no auge do verão. Mérito total de Galera. Dentre os livros que li recentemente, acho que só O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño, retrata de modo mais acurado essa melancolia de um lugar turístico que se transforma em um vilarejo sombrio com o fim da estação.

5 – A trama, a essa altura, é bem conhecida, mas se pode recapitulá-la em duas linhas e não vai fazer mal: um personal trainer se muda para Garopaba, no litoral catarinense, buscando entender a fixação que sente pela trajetória do próprio avô, que viveu na comunidade décadas antes e que teria sido brutalmente assassinado durante um baile. Mais do que isso, faça o favor de ler a matéria do Caue Fonseca sobre o livro, aqui.

6 – A crítica que o jornalista de Veja Jerônimo Teixeira fez ao livro era deliberadamente irônica, ao falar da “atmosfera viril” do romance e encerrar a apreciação com um provocador “coisa de macho”. Li esse texto antes de ler o livro. Não sabia, portanto, se havia justiça ou não no tom algo debochado com que a resenha era tecida. O que me surpreendeu ao ler o livro, tendo em mente os trabalhos anteriores de Galera, foi que havia sim, uma certa justiça no irônico “coisa de macho”, mas não pelos motivos apontados por Jerônimo, e sim pelo retrato misógino, voluntariamente ou não, das personagens femininas na narrativa. A mãe do personagem é uma figura desagradável, dando provas de futilidade exasperantes. Jasmin, uma moça com quem o protagonista se envolve durante sua temporada na praia, é uma bela mulher, universitária, pesquisadora, ciente da história e da mentalidade dos balneários litorâneos catarinenses, mas que um belo dia surta, surta às ganhas, diante da evidência concreta de que um sonho premonitório supersticioso da cultura local possa ter validade. Não serei mais específico porque já estou entregando muita coisa. Outra jovem com quem o cara se envolve, uma garçonete, é uma mãe solteira mostrada como desmiolada e irresponsável perante o filho pequeno – felizmente nosso herói está lá para forjar com esse filho um laço genuíno e fornecer uma representação paterna que a narrativa parece entender necessária, ao menos é assim que ela se estrutura. Outra das mulheres da narrativa é uma prostituta alvo da ternura bêbada do protagonista, em uma representação bastante clichê de uma fantasia masculina de redenção da pobre mulher decaída. Mesmo a personagem que parece ter uma voz autônoma na narrativa, Viv, a ex, é uma pessoa de antemão estabelecida como indigna de confiança por haver trocado um irmão pelo outro, sendo desleal a dois paradigmas aparentemente sagrados: o da família e o da relação homem-mulher. Talvez não fosse essa a intenção do autor, não discuto, apenas elenco o quanto o acúmulo desse tipo de representação resulta em um romance que, mais do que masculino, o que em si não apresenta problema algum, resvala na caricatura machista.

7 – Li ou ouvi mais de uma pessoa manifestar cansaço pelo andamento vagaroso da narrativa ao abordar o cotidiano do personagem no balneário fora de temporada. Não concordo de modo algum. Em uma prova de segurança e domínio textual que desde já o confirmam como um dos poucos grandes autores de sua geração, Galera mantém o interesse (ao menos manteve o meu) durante toda a longa temporada na qual a estagnação do personagem afundado na própria melancolia – pelo descorno do abandono da ex, pela perda do pai, pela dificuldade das ligações estabelecidas por sua doença – vai corroendo sua sanidade. O que me incomodou foi exatamente o contrário. O quanto, ao movimentar o personagem no fim do livro, Galera parece mover o romance inteiro em direção ao seu fim com coincidências difíceis de engolir, todas elas orquestradas para uma explosão de violência catártica que parece estar ali apenas para que alguma coisa de fato aconteça. Enquanto o personagem tateia no inverno catarinense, sem saber muito bem o que vai fazer ou o que vai acontecer, a narrativa é um prazer. Quando ele se põe em movimento, em uma excursão decidida de última hora pelos morros da região debaixo de uma das piores chuvas já registradas em Santa Catarina, a coisa é de uma gratuidade tão estranha que o subsequente vaudeville de acontecimentos e coincidências assume uma aparência farsesca que de modo algum combina com o tom da narrativa, sempre solene, mirando no caráter mítico de uma epifania masculina de violência e perseverança que retoma como duplo o mito do avô que ele foi procurar na cidade.

Meu primeiro e-book

14 de dezembro de 2012 0

O iPhone no qual nosso repórter leu 'Carcereiros', de Drauzio Varella. Foto: Carlos Moreira

Texto de Caue Fonseca

Aprecio a ideia de vida .zip. Objetos que tornam o cotidiano mais prático e o apartamento mais espaçoso se compactados ao menor volume possível. Isso vale para tudo: TVs, notebooks, celulares… menos para livros. Estes, faço questão de apreciar as capas, curtir o passar de páginas, marcá-las com sachês dos cafés que sediaram minhas leituras e, ao final, de colocá-los na prateleira. Muito me orgulha a estante ainda modesta, mas já com livros sobrepostos, caoticamente organizados pelo encaixe geométrico uns aos outros.

De modo que torço o nariz para as versões eletrônicas deles, os e-books. Ao contrário de ouvir um álbum, por exemplo, a ideia de ler um romance na tela do iPhone e depois vê-lo resumido a um ícone me entristece. Mas, motivado por uma reportagem sobre o assunto e pelo atraso de uma amiga a um compromisso, resolvi comprar meu primeiro livro eletrônico à mesa de um bar. Descrevo em tópicos o que me chamou a atenção ao longo das 627 páginas (calma, elas são menores no celular) vencidas no passar de dedos pelo touchscreen.

1. Facilidade
Com 3G em boas condições e nenhum conhecimento prévio, pesquisei títulos na iBook Store, instalado automaticamente na última atualização do iPhone, e optei por Carcereiros, uma espécie de apêndice de Estação Carandiru, livro que deu fama ao médico escritor Drauzio Varella (leia entrevista com o autor aqui). Paguei US$ 12 e o livro baixou em segundos. Na tela, ele fica disponível com capa e tudo, em uma simpática prateleirinha de madeira virtual. Essa facilidade para espantar o tédio a nem tão módicos R$ 25 assusta um pouco. Como ocorre com as músicas do iTunes, é preciso resistir à compra compulsiva que só pesará no fim do mês, na fatura do cartão de crédito.

2. Velocidade
Simultaneamente a Carcereiros, comecei a ler Segundos Fora, romance bem interessante de Martín Kohan, em versão impressa. Pois desde que o autor argentino começou a concorrer com Varella, o livro virtual levou larga vantagem. A título de comparação, Carcereiros tem 262 páginas na versão impressa. Venci elas na tela do celular em dias, enquanto Segundos Fora, aqui na mochila, está parado na página 72. São dois os motivos para isso, e nenhum deles é a qualidade das narrativas.
Todo bom leitor sabe o quão importante é ter um livro sempre à mão, para horas de ócio imprevisíveis, como uma fila inesperadamente comprida (o Carlos André, dono deste blog, por exemplo, era um goleiro que costumava ler trechos sob as traves enquanto o time apertava a defesa adversária). O celular, mais compacto do que um livro e sempre à mão, otimizou essa leitura incidental. Dependendo do número de velhinhos à frente, dá pra ler um capítulo na fila para pesar as frutas.
O segundo motivo, chuto eu, é o tipo de narrativa. Fiz questão de escolher um livro de não-ficção como primeiro e-book, pois é uma leitura mais propensa a ser abandonada e retomada o tempo todo. Fosse um romance como o de Kohan, cuja história se passa em três cenários e tempos diferentes, creio que seria mais difícil de mergulhar na história dos personagens – e até de apreciar a qualidade do texto – cada vez que a namorada se maquia.

3. Consumo
Eis uma vantagem do livro impresso. Ler no celular exige a tela ligada 100% do tempo de leitura, e isso consome uma bateria medonha. Desde que comecei a ler Carcereiros, não houve dia em que o iPhone não chegasse em casa pedindo penico. Em dias em que você passará muito tempo longe de uma tomada, é preciso cancelar leituras para não correr o risco de ficar incomunicável mais tarde. E-readers com o Kindle, da Amazon, ou o Kobo, da Livraria Cultura, não têm esse problema. Mas, por servirem só para ler, eles perdem esse fator incidental de ler no telefone. A chance de ter um Kindle na mochila ou na bolsa para distrair-se em uma fila qualquer é a mesma de ter um livro físico.

4. Conforto
É besteira a história de que ler em um meio digital cansa. No trabalho, a maioria de nós já passa o dia em frente ao computador. A não ser que o sujeito seja um leitor voraz, uns minutos a mais ou a menos olhando para a telinha não fazem a menor diferença. Em ambientes escuros, como uma viagem noturna, o celular é até mais confortável, pois tem luz própria. O passar de páginas com uma mão só (em um movimento patenteado pela Apple de tão bacaninha) e o tamanho das letras tampouco incomodam, já que o telefone pode ser aproximado “das vistas”, como diriam as nossas avós.

5. Falta de charme
É pura vaidade, mas eu gosto de ser visto lendo e também de ver pessoas lendo. Pessoas interessantes leem. Uma mulher lendo, então, não sendo Cinquenta Tons de Cinza, é a dona de qualquer lugar em que eu esteja. Por outro lado, qualquer babaca brinca no celular. E quando você está praticamente dentro do aparelho distraído com a leitura, não só não parece que está lendo, como projeta a imagem de que é um daqueles louquinhos que não sai do Facebook. A mesma falta de charme se estende à ausência do livro na estante após a leitura. Ler um e-book, portanto, é consolar-se com o ser interessante sem parecer interessante. E, poxa vida, isso faz toda a diferença.

* A equipe do blog agradece a Larissa Roso o empréstimo do celular com o qual foi tirada a foto que ilustra este post

Falsos cognatos culturais

15 de novembro de 2012 0

Já li, em diversas formas e versões, a defesa da tese, consenso entre profissionais da tradução, de que a transposição de uma obra de um idioma para o outro envolve não apenas questões linguísticas, mas culturais: não basta encontrar um equivalente semântico no idioma de chegada se não houver uma identidade cultural entre o leitor do original e o da versão traduzida, sob pena de se produzir um ruído, uma estranheza capaz de fazer o leitor ser expelido, ainda que por instantes, do universo autônomo criado pelo autor do livro. Não se trata aqui dos romances autorreferenciais cuja estética se constrói sobre a discussão constante do estatuto ficcional da obra ou sobre a reiteração contínua do caráter literário e não “real” daquele universo engendrado pela prosa. Trata-se sim, de pequenos acidentes abruptos na estrada da leitura, que fazem o leitor se dar conta de que está viajando em uma ficção – e em último caso podem até levar ao mesmo questionamento do estatuto da obra, mas desta vez involuntariamente.

Esses pensamentos algo vadios me ocorreram durante duas recentes experiências de leitura que me mostraram o quanto a construção de uma cena literária, por ser realizada por um autor mergulhado em uma determinada realidade e cultura, pode chegar ela toda como um ruído de tradução quando transposta para um leitor distante – e nesse caso sem que haja qualquer problema na tradução propriamente dita ou nos esforços realizados pelo tradutor para verter o original.

No primeiro caso, durante um breve intervalo ali uma semana antes da Feira do Livro, decidi ler O Guerreiro Solitário, romance policial do sueco Henning Mankell que aguardava sua vez na minha estante há pelos menos uns dois anos. É uma nova aventura do policial recorrente do autor, o policial de meia idade Kurt Wallander, talentoso porém desencantado investigador lotado na delegacia de Yistad. Muito antes da onda deflagrada por Stieg Larsson e sua trilogia Millennium, Mankell já era a prova de rica tradição do romance de crime escandinavo, criando narrativas desconcertantes pela habilidade com que o autor amplia o foco de uma investigação até o limite necessário para que o leitor não se perca, mas dotando-a de uma complexidade que valoriza o esforço dos policiais para desvendá-la. Um pouco como se pode ver também nos livros de Michael Connelly protagonizados pelo veterano do Vietnã residente em Los Angeles Harry Bosch; ou no distrito policial de Edimburgo em que o detetive punk John Rebus é o centro das atenções, na obra de Ian Rankin.

Pois bem, voltando a Wallander (que virou uma elogiada série de TV protagonizada por Kenneth Brannagh, que estou curioso para ver mas ainda não tive tempo nem oportunidade): O Guerreiro Solitário mostra o policial à caça do que pode ser o primeiro “serial killer” sueco: um furioso matador que arranca escalpos das suas vítimas. No princípio Wallander não sabe, mas o leitor sim, que o matador se considera inspirado pelo espírito dos índios norte-americanos, pinta o rosto com tintura de guerra e sempre mata seus alvos com lâminas afiadas, para depois enterrar seus escalpos em  uma oferenda ritual que só faz sentido para ele e sobre a qual não vou falar mais para não entregar o mistério para ninguém.

Pois bem, a determinada altura, Kurt Wallander perde a chave de casa. Fica bastante fácil para o leitor atento perceber em que momento aquilo aconteceu – e, também, quem é o assassino, uma descoberta que a polícia só vai fazer nas últimas páginas, tornando a aparência de suspense da parte da narrativa focada no criminoso algo exasperante. Mas como eu disse: Wallander perdeu sua chave, só se dá conta no meio de um dia atribulado, liga de novo para os locais em que esteve, deixa recados, pede que alguém que achou a guarde, etc… E o leitor sabe que isso será potencialmente perigoso para Wallander, uma vez que ele não perdeu a chave, ela foi subtraída em uma determinada circunstância pelo assassino, meticuloso planejador de seus ataques, que pretende usá-la para inspecionar o apartamento do detetive.

Parte do que a série de aventuras escritas por Mankell faz de melhor é escavar os aspectos em que a aparentemente utópica sociedade sueca desmorona aos poucos. Os crimes investigados pelo detetive são sempre pontas para a discussão de problemas como o aumento da violência contra mulheres e imigrantes, a diversificação da crueldade dos criminosos, a inserção da Suécia no mercado globalizado do crime internacional. É uma sociedade quase sem crimes descobrindo-se aos poucos desagregada. Pois bem, por mais que essa seja a intenção da história, parece simplesmente absurdo para um leitor como eu, morador de uma Capital em um país sul-americano que ostenta um dos quatro maiores índices de homicídio no mundo, que Wallander não encontre a chave e simplesmente deixe isso pra lá. Em Porto Alegre, em São Paulo, no Rio, em Manaus, em praticamente qualquer cidade grande do Brasil, alguém que perdesse a chave sem saber onde provavelmente trocaria a fechadura no máximo dois dias depois, e passa-se uma semana sem que Wallander faça outra coisa que não procurar a tal chave e resignar-se com sua perda. Esse “ruído cultural” talvez tenha outra origem: a colega Bruna Amaral, do blog Intercambiando, com “sete intercâmbios na bagagem”, como diz a apresentação da página, ao me ouvir comentar a estranheza dessa passagem, me alertou para o fato de que na Europa é muito comum que apenas o proprietário de um apartamento possa fazer uma cópia da chave. E que, dependendo do país, isso pode envolver uma senhora burocracia. Não sei se é o caso específico da Suécia, mas se for, de qualquer modo ajusta-se ainda ao meu argumento de base: determinadas circunstâncias culturais podem provocar “ruído de leitura” pela discrepância entre a realidade do autor e o ambiente em que vive o leitor quando a obra é traduzida. Mankell não precisa explicar que tirar uma cópia de chave é difícil um perrengue ou achar estranho que sequer passe pela cabeça de um sueco trocar a fechadura por segurança após perder uma chave, mas quem vive em um país com a violência do Brasil acha tudo isso muito exótico.

O segundo episódio foi mais cômico do que propriamente estranho. Já na primeira cena de 1Q84, o best-seller mais recente do japonês Haruki Murakami, que está sendo lançado aqui no Brasil este mês pela Alfaguara, a personagem Aomame está em um táxi sobre uma via expressa elevada, dirigindo-se a um compromisso importante (Aomame é personal trainer e assassina profissional. O compromisso, o leitor saberá páginas adiante, é a eliminação de um alvo). Tem, então, sua atenção despertada por uma música que vem do som de altíssima qualidade instalado no veículo pelo taxista: a composição Sinfonietta, do tcheco Leos Janácek, escrita em 1926 (esta que vocês podem ouvir na janela de Youtube aí embaixo – o texto continua abaixo dela).

Pois bem. Na noite imediatamente anterior ao dia em que li esse trecho em particular, eu havia pegado um táxi e, do som do carro, o que ouvi foi uma versão horrenda em ritmo de pagode de Sunday Bloody Sunday do U2, tocando na Rádio Eldorado – descobri depois, comentando minha profunda perplexidade com colegas de redação, que o crime foi perpetrado por um grupo chamado Sambô, especialista em fazer pagodaços de clássicos do rock – e que, aparentemente, só eu não conhecia.

A determinado momento da narrativa, Aomame desce do táxi em um recuo de manutenção da para escapar do engarrafamento na via expressa e conseguir chegar a tempo de seu “compromisso”. Ao fazer isso, o inesperado do gesto parece criar uma espécie de realidade paralela, em que eventos que ela desconhece aconteceram, os uniformes dos policiais mudaram sem que ela se lembre quando e… duas luas podem ser vistas no céu.

Com tudo isso, o mais fantástico dessa realidade paralela parece mesmo um táxi em que o rádio toca música clássica.


O que você está lendo, José Castello?

25 de julho de 2012 0

O escritor José Castello em Porto Alegre. Foto: Adriana Franciosi, ZH

Na seção O Que Você Está Lendo?, o depoimento de hoje é de José Castello, jornalista, crítico e escritor. Castello é autor da até hoje considerada fundamental biografia de Vinicius de Moraes: Vinicius – o Poeta da Paixão (Companhia das Letras, 1993). Voltaria ao poeta para traçar seu itinerário poético em Vinicius de Moraes: Geografia Poética (Relume/Dumará, 1996). Do mesmo ano é a biografia de João Cabral de Mello Neto, O Homem sem Alma (Rocco). Inventário das Sombras (Record, 1999) é outro de seus livros com perfis de autores como José Saramago, Nelson Rodrigues e Adolfo Bioy Casares, entre outros. Estreou na ficção em 2001, com Fantasma, um pastiche de suspense ambientado na Curitiba em que o autor vive. Em 2010, voltou à ficção com o elogiado Ribamar, vencedor na categoria romance da 53ª edição do Prêmio Jabuti de Literatura (leia entrevista sobre o livro aqui). É colunista dos jornais Rascunho e O Globo, no qual mantém o blog A Literatura na Poltrona (clique aqui).

O que você está lendo, José Castello?

Estou lendo Una Magia Modesta, de Adolfo Bioy Casares, em uma edição argentina da Temas Editorial. Na verdade, eu o estou relendo – para me ajudar a escrever um ensaio breve a respeito da relação – que considero essencial – dos escritores com a solidão. Muitos dos personagens de Bioy Casares são homens solitários, quase abandonados, que vivem acompanhados não só por seus fantasmas, mas sobretudo por suas fantasias. A fantasia guarda esse aspecto meio mágico: vinda do “nada”, ela é muito mais potente para preencher uma vida do que grande parte dos bens materiais. As criaturas de Casares sentem-me muito menos sozinhas do que muitas pessoas que circulam em meio a grandes multidões. Essa talvez seja a “magia modesta” que o próprio Casares manejava tão bem: transformar a solidão em companhia. Fazer da solidão um palco em que personagens secretos podem não apenas desembarcar, mas desempenhar histórias e conflitos que nos ajudam a viver. Descobri Adolfo Bioy Casares ainda muito jovem, em plena adolescência, e, desde então, nunca mais o parei de ler. Creio que essa é a quarta ou quinta vez que releio Una Magia Modesta, livro que recomendo com muito entusiasmo.

>>> Leia aqui outros depoimentos da série O que Você Está Lendo?

Teste cronológico

15 de junho de 2011 9

“Não é preciso enfatizar que, neste momento, o prestígio do romance é extremamente baixo, tão baixo que as palavras ‘eu nunca li romances’, que há uma dúzia de anos costumavam ser pronunciadas com uma ponta de desculpa, são agora sempre ditas num tom de orgulho consciente. É verdade que ainda existem alguns romancistas contemporâneos ou mais ou menos contemporâneos que a intelligentsia considera permissível ler: mas a questão é que o romance bom-ruim comum é habitualmente ignorado, enquanto o livro de versos ou de crítica bom-ruim comum ainda é levado a sério. Isso significa que, se você escreve romances, automaticamente faz jus a um público menos inteligente do que se tivesse escolhido outra forma literária. Há duas razões bastante óbvias para que seja impossível hoje escrever bons romances. O romance está visivelmente se deteriorando e continuará a se deteriorar com mais rapidez se a maioria dos romancistas tiver alguma ideia sobre quem lê seus livros.”

O problema é que o romance está sendo morto aos gritos. Perguntemos a qualquer ser pensante por que “nunca lê romances” e descobriremos geralmente que, no fundo, isso se deve às bobagens repulsivas escritas por resenhistas promocionais. Não há necessidade de multiplicar os exemplos. Eis um espécime, do Sunday Times da semana passada: “Se você é capaz de ler este livro e não dar urros de prazer, então sua alma está morta”. Isso ou algo parecido é escrito agora sobre todos os romances publicados, como se pode ver observando as citações das sobrecapas dos livros. Para alguém que leva o Sunday Times a sério, a vida deve ser uma longa luta para se pôr em dia. Os romances são disparados contra você à taxa de quinze por dia, e cada um é uma obra-prima inesquecível que se você deixar de ler estará pondo sua alma em perigo. Isso deve dificultar demais a escolha de um livro na biblioteca e você deve se sentir muito culpado quando não urra de prazer. Porém, na verdade ninguém relevante é enganado por esse tipo de coisa, e o desrespeito em que recaiu a resenha de romances se estendeu aos próprios romances. Quando todos os romances são despejados sobre nós como obras de gênio, é natural supor que todos são lixo. No meio da intelligentsia literária, essa suposição é agora líquida e certa.”

Tive a ideia deste post à luz de uma leitura recente e após acompanhar a momentosa e um tanto inefetiva polêmica entre Beatriz Resende, Alcir Pécora e a nova geração de autores sobre o fim da literatura brasileira.

O considerado leitor  é capaz de adivinhar em que ano foram escritos os trechos que abrem este post? Alternativas abaixo:

a) 1892

b) 1936

c) 1963

d) 1986

e) 2010

Respondam com seus palpites nos comentários. Quando divulgar o resultado, retomo a conversa e explico o que me levou a esta pequena experiência.

Quatro reedições bacanas

12 de abril de 2011 2

A Entrevista, de Millôr Fernandes
Reedição em livro de uma extensa entrevista concedida por Millôr Fernandes aos então jovens homens de imprensa Ivan e José Antônio Pinheiro Machado, Paulo Lima, José Onofre e Jorge Polydoro. Os três primeiros fundamentais para a criação da L&PM. José Onofre e Polydoro são até hoje nomes referenciais do jornalismo do Estado.  A conversa de Millôr com o quinteto, realizada em uma noite de 1981, durou sete horas e foi publicada na revista Oitenta, publicação cultural da própria L&PM que marcou época em Porto Alegre lançando ficção inédita, resenhas, entrevistas de grandes autores. Lembro que era uma das coisas que representava um oásis na bilbioteca da Fabico, entre as milhares de obras sobre Teoria da Comunicação. Durante a entrevista,  Millôr fala sobre sua trajetória, sobre a política e o cenário de um Brasil numa era pré- internet e até pré- democracia, uma vez que ainda vigorava a ditadura militar no país.  Ficaria aí uma sugestão para Lima e Ivan Pinheiro Machado, responsáveis pela L& PM e ambos amigos do profeta do Méier: quem sabe o lançamento de um segundo volume do livro com Millôr revendo seus posicionamentos da época e acrescentando considerações sobre o que viu daquela época para cá? L&PM 104 páginas, R$ 22.

Suor, de Jorge Amado
Reedição de um dos primeiros livros de Jorge Amado, escrito em 1934, quando o autor tinha apenas 22 anos e já havia publicado O País do Carnaval ( 1931) e Cacau (1933).  Ainda não é o Jorge Amado sensualista da maturidade o autor que se apresenta neste livro, e sim o crítico social contundente por vezes aparentado com a crueza do naturalismo. Em um casarão colonial do Pelourinho, deteriorado em um cortiço com mais de 600 habitantes, Jorge Amado entrelaça o cotidiano sórdido de personagens marginalizados. O “suor” do título é tanto literal como metafórico: o suor dos corpos empilhados em condições insalubres na tórrida Salvador e o suor derramado na dura rotina do trabalho (mal) assalariado, uma vez que operários compõem boa parte dos moradores do edifício (e, dado que este é um romance de um jovem comunista, é inevitável que a história se encaminhe para a “tomada de consciência proletária”). Aluísio Azevedo e seu O Cortiço também são uma referência presente, mas aqui Amado se vale da atmosfera peculiar de seu retrato da Bahia e de um olhar político bem menos sutil que seu modelo. Companhia das Letras, 160 páginas, R$ 38.

A Ilha do Dia Anterior, de Umberto Eco
Livro que conta a aventura de Roberto Pozzo di San Patrizio, jovem da nobreza piemontesa que recebe uma missão estrangeira por ordens do cardeal Mazarino. A missão é o equivalente do século 16 a uma intriga de espionagem: Roberto parte no encalço de um inglês que teria desenvolvido um método preciso de calcluar a longitude no mar (grande dificuldade técnica para a navegação do período). Depois do naufrágio de seu barco, o Amarílis, nos mares do sul, Roberto fica vários dias à deriva sobre uma tábua até que encontra um navio deserto, o Daphne, ancorado no outro lado de uma ilha situada na linha divisória do mundo. Aparentemente, a tripulação do navio sumiu, embora haja mantimentos a bordo para garantir a sobrevivência do rapaz. Como Eco costuma problematizar na forma os períodos que aborda em seus romances históricos (estes dias mesmo eu discutia com três escritores daqui a estratégia de Eco de tornar seus livros “difíceis” no começo para espantar o leitor que não se adapta a seu estilo), o romance, ambientado no século áureo do barroco, faz do barroco o tom para sua prosa, com muitas inversões frasais, sintaxe rebuscada e narrativa polifônica. A reedição é em formato bolso. BestBolso, 433 páginas, R$ 15,90.

Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa – Com uma linguagem sutil e envolvente, a escritora portuguesa Inês Pedrosa constrói o insólito diálogo amoroso entre um homem e uma mulher.  Ela está morta, e do além ampara seu companheiro pela perda e pela solidão.  Ele, vivo, busca o conforto e conta os dias de sua vida como horas a menos para reencontrar a amada.  A obra é estruturada em capítulos curtos, nos quais se alternam a voz dele e a dela, identificados por letras de fontes diferentes. É na leitura que o leitor vai descobrindo a trama, aos poucos: ela era uma jovem e idealista professora de História, recém entrada na casa dos trinta, que também preparava seu envolvimento na política. Ele, um veterano das infames guerras coloniais travadas por Portugal em África, na casa dos 50, vê o mundo pelo contexto amargo de suas experiências. Assombrado pela guerra (como praticamente todos os que voltaram dela), o homem decide retomar a faculdade e é lá que ambos se encontram. A unir os dois, um afeto oscilante: ele não a escuta, o que não impede que ela se dirija a ele de um incerto lugar no limbo da morte. Alfaguara, 272 páginas, R$ 37,90.