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Posts na categoria "Perdição da Semana"

Sussurros de perdição

12 de outubro de 2010 1

Atrasei a segunda postagem desta série Perdição da Semana mais por conta da correria que anda o jornal na última semana do que por não ter encontrado uma que servisse a contento. Lembrando, para quem perdeu o post da semana anterior: nesta série, vasculhamos instigantes descrições de personagens femininas, daquelas que fazem o narrador ou alguém muito próximo se perder inapelavelmente. Achei muito apropriado continuar a série com uma personagem que representa, literalmente, a perdição do protagonista, a bela, fútil e cruel Daisy Buchanan, o amor de obsessão do personagem que dá título a O Grande Gatsby (1925).

Narrado pelo jovem Nick Carraway, Gatsby é tido como a magnum opus de F.Scott Fitzgerald. Seu centro de gravidade é o charmoso Jay Gatsby, homem de relações e fortuna suspeitas, que se instala na Nova York dos anos 1920 e agita a sociedade da época com festas de arromba que enchem a mansão em que vive. O que Gatsby quer, contudo, é a presença da bela Daisy, a quem conhecera antes da I Guerra e de quem fora separado por imposições familiares – ele era um pé-rapado. Seu retorno anos depois tem um único objetivo: reconquistar a mulher a quem nunca esquecera, embora ela hoje esteja casada com um brutamontes pouco esperto chamado Tom – essa constância de Gatsby não apenas nos afetos, mas em seu caráter, por mais nebuloso que ele seja, o diferencia do temperamento interesseiro e volúvel dos que o cercam, ao menos aos olhos de Carraway, o narrador da história.

O Grande Gatsby sempre foi alvo de controvérsia, dado que já li mais de um crítico definí-lo como um “quase grande romance”. Nunca entendi muito bem as razões do “quase” – muitas delas ligadas ao fato de Gatsby ser um personagem esquivo, indefinido, como se imerso em uma névoa. Claro que o livro tem seus defeitos – embora a morte de Gatsby ao fim do livro fosse fundamental para elevá-lo a um padrão trágico, a forma melodramática que Fitzgerald escolhe para ela é discutível. Mas mesmo assim, sempre li esses mesmos defeitos como partes eles próprios do que o torna um romance magistral: é um livro vibrante, escrito com elegância e sutileza, e carrega o pendor trágico da grande literatura sem deixar de ser um retrato supranaturalista dos féericos anos 1920. Daisy, a ingrata e volúvel musa de Gatsby, é assim descrita pelo primo Carraway logo no início do romance (tradução de Brenno Silveira):

“Olhei para minha prima, que começou a fazer-me perguntas em sua voz profunda, emocionante. Era uma dessas vozes que o ouvido da gente segue em seus altos e baixos, como se cada locução fosse um arranjo de notas que jamais tornasse a repetir-se. Seu rosto era triste e encantador, com todas as coisas brilhantes que nele havia: olhos brilhantes, boca ardentemente viva — mas havia, ademais, em sua voz, algo excitante, que os homens que por ela se interessaram acharam difícil esquecer: uma compulsão cantante, um ‘Ouça’ sussurrado, uma certeza de que ela acabara de fazer coisas alegres, excitantes, e a promessa de que outras coisas excitantes pairavam sobre a hora que haveria de seguir-se”
Daisy Buchanan, descrita por Scott Fitzgerald em O Grande Gatsby (Record/Altaya, 1996, p.12),

Roubando uma ideia - ou "A perdição da semana"

04 de outubro de 2010 2

Este post nasce de uma ideia assumidamente roubada, mas evoco em minha defesa o fato de que esperei bastante para ver se o verdadeiro dono ia usar antes de catar pra mim. No ano passado, a editora do Segundo Caderno, Cláudia Laitano, também conhecida como “a chefe”, lembrou em seu blog o título de um dos romances mais conhecidos de Antônio Carlos Resende: Magra, mas não Muito, as Pernas Sólidas, Morena, como um título que já encerra em si a descrição de uma mulher por quem o narrador se encanta – e, no caso desse livro em particular, se perde. Vocês podem ler o post completo aqui. Cláudia comentava ali o quanto a fascinavam as descrições feitas na literatura por personagens homens para as mulheres com as quais estão obcecados. A Cláudia também sapecou uma descrição de Capitu aos olhos do Bentinho apaixonado e prometeu dar seguimento à série.

Como já passou mais de um ano e o projeto lá no Agora Eu Era ficou só nesse primeiro post, assumo eu a incumbência por aqui, declinando uma vez por semana belas e fascinantes descrições de mulheres magnéticas, exuberantes, misteriosas, por vezes lascivas, mas sempre um ímã para a perdição de um pobre homem menos esperto do que se considera, como os casos dos livros que virão por aí no futuro. Fica o convite a vocês que apontem suas próprias descrições para a seção “Perdição da Semana”.

Como a Cláudia inaugurou o projeto há um ano com Machado de Assis, aqui eu teria que encontrar alguém de igual calibre. E coincidentemente me veio o candidato ideal enquanto folheava a nova edição de O Livro de Areia, de Jorge Luis Borges, pela Companhia das Letras, para um comentário que queria fazer – e ao qual devo voltar em texto futuro. O segundo conto do livro, Ulrica, é, segundo o próprio Borges, o único exemplo de tratamento do tema amoroso em sua prosa (tema que, não obstante, era comum em sua poesia). Em um congresso na cidade inglesa de York, o intelectual colombiano Javier Otárola encontra a norueguesa Ulrica e vive com ela um romance breve porém intenso que conjuga o fascínio físico com o intelectual. Um caso que o marca profundamente, uma vez que ele narra a história de algum ponto no futuro. E é assim que Javier descreve Ulrica em seu relato, equilibrando a erudição e a paixão – e não escapando, mesmo em se tratando de Borges, de uma generalização que a mim me pareceu ingênua, vocês vão notar qual:

“Foi então que olhei para ela. Uma linha de William Blake fala de moças de suave prata ou de furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade. Era leve e alta, de traços afilados e olhos cinza. Menos que seu rosto me impressionou seu ar de tranquilo mistério. Sorria com facilidade e o sorriso parecia distanciá-la. Vestia-se de preto, o que é raro nas terras do Norte, que procuram alegrar com cores o ambiente apagado. Falava um inglês nítido e acentuava levemente os erres. Não sou observador; essas coisas fui descobrindo pouco a pouco.
Ulrica, de Jorge Luis Borges. em O Livro de Areia (Companhia das Letras, 2009, p.18)

Nova descrição na semana que vem.