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Posts na categoria "Poesia"

Armindo Trevisan explica a poesia na Feira

01 de novembro de 2013 0
Armindo Trevisan em sua casa em Porto Alegre. Foto: Fernando Gomes

Armindo Trevisan em sua casa em Porto Alegre. Foto: Fernando Gomes

Armindo Trevisan ministra neste sábado, às 16h30min, na Sala O Retrato do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, uma oficina denominada Como Tornar a Poesia Acessível ao Grande Público. Um título que poderia resumir muito da carreira desse escritor, poeta, professor de História da Arte e Estética e doutor em filosofia pela Universidade de Fribourg, na Suíça. Trevisan já escreveu, além de um bom número de livros de poesia, diversas obras que pretendem levar ao grande público o maravilhamento da arte, como Vamos Aprender Poesia? e O Que É História da Arte. Ele próprio explica o que considera necessário para cumprir o projeto enunciado no título da oficina, na entrevista abaixo, concedida à repórter Cristina Duarte.

Zero Hora – Por que é tão difícil para o público em geral compreender a poesia?
Armindo Trevisan – A leitura de poesia é uma leitura mais comprometida e profunda do que a leitura comum (ou “comunicativa”), que se limita a transmitir informações ou ventilar ideias. O poema supõe uma espécie de adesão do sentimento e da emoção. Supõe, ainda, um exercício ativo de imaginação. Os leitores, em geral, estão apressados, ou estressados pelo barulho, pelo trânsito doido da capital, pelo medo dos assaltantes…e, até, pelo assédio da inflação e outros superlativos econômicos! Com tais percalços, como dedicar-se à poesia? Seria como fazer amor na saída do metrô – com perdão da imagem grotesca! A leitura de poesia exige calma, reflexão, absorção íntima, respeito à criação verbal.

ZH – Como torná-la acessível?
Trevisan – Para tornar a poesia acessível ao grande público, é preciso, primeiramente, iniciar as pessoas na leitura poética. Minhas palestras na Feira destinam-se aos leitores em geral, e mais especificamente aos professores do secundário e do primário. Prometo-lhes esforçar-me para deixar claro que a leitura de poemas não é tão complicada como parece, e que ela compensa pelos prazeres que proporciona:. prazer da musicalidade dos versos, prazer dos variados ritmos que os poemas comportam, prazer de o leitor deparar com imagens surpreendentes.

ZH – Que livros o senhor indica para quem quer entender a poesia?
Trevisan – Nas minhas palestras na Feira indicarei alguns livros adequados para isso. Posso, desde já, mencionar dois ou três, antecipando as palestras. Por exemplo, os dois livros de Ezra Pound, já traduzidos para o português, ABC da Literatura e A Arte da Poesia, e ao menos um dos três livros que escrevi sobre o tema: Vamos Aprender Poesia? (Editora AGE), que ainda não está esgotado. É claro que existem livros melhores que os meus. Se me atrevi a indicar um dos meus livros, é porque meu livro é didático. As pessoas deviam ler, também, as obras de Gaston Bachelard.

 

Feliciano e Castro Alves

05 de abril de 2013 0

Castro Alves quando jovem. Fonte: Wikicommons

Cada vez mais enrolado nas confusões provocadas a cada vez que expõe o pântano intelectual que é sua “teologia”, o pastor Marco Feliciano, inacreditável presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, ganhou esta semana uma daquelas defesas que parecem ter sido escritas pelos adversários só para sacanear. Marisa Lobo, entre outras coisas autointitulada “psicóloga cristã” e proclamada responsável por “curas de homossexuais”, resolveu sair em defesa da tosquice institucional do pastor Feliciano. Em um blog gospel, ela publicou um texto que vem sendo bastante compartihado pelos defensores do deputado do PSC nas redes sociais – em número quase igual, os críticos ficaram um pouco perplexos, eu incluído.

No artigo, aqui, para quem quiser ler, Marisa Lobo vai buscar a mais improvável das defesas para Feliciano: os poemas abolicionistas de Castro Alves. Recapitulando o caso em um miniflashback: Marco Feliciano aventou no twitter, em 2011, que a população negra se tornou cativa da população branca porque os africanos descendem de um “ancestral amaldiçoado por Noé” – Canaã, para ser mais preciso. “Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, aids. Fome… Etc“, escreveu também o deputado. Que, de lá para cá, não mudou nada de ideia, tanto que já apresentou a mesma tese ao STF.

Marisa Lobo agora desencava Castro Alves, o “poeta dos escravos”, para defender as declarações de Feliciano, fazendo uma maçaroca descontextualizada de uma série de estudos críticos literários para sustentar seu ponto de vista. O que não deixa de ser ao mesmo tempo muito irônico – e muito errado.

Feliciano é um avatar das trevas que assolam o Brasil, e Marisa Lobo é alguém que contraria as próprias normas de sua profissão (não foram poucas as advertências que ela já recebeu, emitidas pelo conselho de seus pares), mas, tirando minha antipatia pessoal e minha manifestação de veemente crítica a tudo o que representam, não tenho muito o que fazer. Agora, dado o uso abastardado que ela faz da literatura em causa própria, acho que tenho uma ou duas coisas a dizer sobre isso.

Para começar: a poesia de combate ao escravismo escrita por Castro Alves era uma poesia militante e panfletária – e aqui estes termos não carregam o tom pejorativo que a palavra ganharia ao longo dos mais de cem anos que separam a morte do poeta dos dias atuais. Voltaremos a esse ponto. Como lembra Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas brasileiros em África e biógrafo do poeta para a coleção “perfis biográficos” da Companhia das Letras: “era como poeta político que ele gostava de falar às grandes plateias. E que ninguém censure esta expressão, poeta político. Castro Alves via-se como tal, desejoso de, com seus versos, mudar o país e a vida” (2006, p. 98). Castro Alves, era panfletário porque seus poemas eram assumidamente “peças de campanha”, fazendo com essa qualificação um desvio anacrônico de mais de século para usar este termo da linguagem político-publicitária contemporânea. Para mobilizar seus ouvintes, a poesia de Castro Alves era escrita com recursos formais da poesia épica e da mais refinada oratória – com o objetivo declarado de que cada verso vibrasse uma corda emotiva no ouvinte, provocando a compaixão quando ao destino dos escravos. Logo, acreditar que a poesia de Castro Alves, composta em situação de apoio a uma causa há mais de um século sirva para justificar tosquice intelectual em pleno século 21 (é Marisa Lobo quem diz que a poesia de Castro Alves “prova” que não há racismo nas manifestações do deputado) é levar a exegese um pouco longe demais.

Outro ponto a salientar é que, apesar da qualidade dos recursos retóricos e musicais de sua poesia, Castro Alves não manjava um ovo sobre a África e o negro que pretendia escrever – um argumento expresso pelo mesmo Costa e Silva na biografia citada há pouco. De acordo com Costa e Silva, embora animado por genuíno ímpeto solidário e ardendo de um fogo revolucionário legítimo que via no drama da escravidão uma das chagas da sociedade, Castro Alves não era o poeta dos escravos, mas o poeta da libertação dos escravos. A diferença é sutil, mas significativa, dado que a leitura atenta dos poemas compilados após a morte do autor no volume Os Escravos (e não Navio Negreiro, como Marisa Lobo o nomeia), mostra que o próprio ‘Homero da abolição” fazia uma ideia bastante equivocada daqueles em nome de quem falava, ou pretendia falar, e que sua visão do continente africano era ditada por um imaginário que via na imensidão heterogênea da África uma desconcertante homogeneidade em nada correspondente à realidade.

Castro Alves via, em seus versos, o africano, negro, escravizado no Brasil, como um produto de uma cultura que na verdade era a do norte da África, e não das nações de onde os escravos haviam sido trazidos. Os Escravos reúne 36 poemas, 24 deles de cunho abolicionista e, portanto, constitui um testamento da vocação política panfletária que o levara à tribuna em defesa da abolição. Porém, embora prorrompa em brados urgentes sobre a questão do negro, o que se tem em suas páginas é a visão com que o branco representa o sofrimento do negro. Castro Alves não fala do negro escravo brasileiro, algo que fica muito claro ao se tomar como exemplo o poema de título A Canção do Africano. Logo nas primeiras estrofes, Castro Alves faz um negro cativo lamentar de saudades de sua terra:

“Minha terra é lá bem longe
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
Aquelas terras tão grandes,
tão compridas como o mar,
com suas poucas palmeiras
dão vontade de pensar.”

A terra de origem do africano do poema é descrita como uma imensidão arenosa castigada pelo sol árido. Um cenário, dizem os versos, de “poucas palmeiras”. O fato de ele qualificar a terra brasileira em que se encontra como “mais bonita” que a de origem é justificável pela licença poética, contudo, os demais pontos da descrição entregam o equívoco: sim, é a África, mas não necessariamente a África do negro trazido para o Brasil. Com tais detalhes, a paisagem descrita evoca outra região, não, por exemplo, Angola que também convive com clima semi-árido, porém, as amplidões do Saara. Castro Alves está, de fato, descrevendo o norte da África, sua paisagem desértica e mesmo seus habitantes, retratados antes como beduínos do que como os núbios escravizados no Brasil.

Também o entendimento a respeito de elementos da cultura e da identidade do africano sobre quem Castro Alves escreve é misturado com os próprios valores do poeta e da sociedade de seu tempo. O poema Mater Dolorosa, do mesmo livro, revisita um mote recorrente da poesia abolicionista do período: a mãe que, obrigada a ver o filho cair nas mãos do senhor para ser vendido, preferiria, em vez disso, matá-lo. É um poema em que Castro Alves faz uma mãe africana imaginar seu filho no céu, e pede perdão direto ao Deus cristão pelo seu ato, Esse céu é a ideia cristã e com evocações virgilianas do jardim celeste, bastante diversa do vários conceitos para a morte formulados no continente africano.Encontraremos situação semelhante no mesmo poema, quando Castro Alves volta a incorrer em uma representação aparentada com a religiosidade cristã e católica predominante em seu tempo:

Perdão, meu filho… se matar-te é crime…
Deus me perdoa… me perdoa já.
A fera enchente quebraria o vime.
Velem-te os anjos e te cuidem lá.

Outra vez encontramos elementos da iconografia e do imaginário simbólico cristão, como anjos velando as almas dos “inocentes” (o termo havia sido usado para definir o bebê morto já na estrofe anterior) e um Deus que perdoa atendendo a um pedido direto do suplicante – e não pelos complexos rituais de equilíbrio e compensação da África real. Em parte, isso pode ser atribuído ao papel panfletário dos versos de Castro Alves, uma vez que seus poemas eram peças de divulgação do ideário abolicionista que deveriam se comunicar com o público, e, portanto, deveriam apelar para o mundo como seus ouvintes o conheciam. Mas não se pode afastar também o imaginário do próprio poeta, um jovem entusiasmado e fruto de seu tempo.

Marco Feliciano, não tão jovem, também é fruto de seu tempo: é a ascensão de um pensamento conservador e  manipulador, que não titubeia em se apropriar do que parece conhecimento para justificar o que, no fundo, é apenas ignorância.

O papel de um escritor

21 de março de 2013 0

Catarino Brum Pereira, o "Tio Cata": escritor por paixão. Foto: Mauro Vieira, ZH

O papeleiro Catarino Brum Pereira autografa seu primeiro livro de poemas na próxima terça-feira (26/3), das 17h às 18h, no Palácio do Ministério Público do Rio Grande do Sul (Praça Marechal Deodoro, 110, Centro). Morador de Gravataí, Pereira, conhecido como Tio Cata, foi convidado a promover a sessão de lançamento pela Academia Rio-Grandense de Letras (ARL), a partir de uma reportagem publicada em Zero Hora, em dezembro último (veja no fim deste post). O autor pagou parte da tiragem inicial de mil exemplares com seus próprios recursos, mas enfrenta dificuldades para quitar a dívida com a gráfica que imprimiu as cópias no início de 2012. Escritor e Papeleiro, com 29 poemas em 36 páginas, estará à venda no local por R$ 15.

– Vivo da reciclagem. Ao mesmo tempo, me alimento com sonho e poesia _ diz o escritor de 62 anos, natural de Uruguaiana, que estudou até o 4º ano do Ensino Fundamental.

Mais informações pelo telefone (51) 9808-3706 e pelos e-mails borja@pro.via-rs.com.br e sergioaugustopereiradeborja@gmail.com, com Sérgio Borja, presidente da ARL.

O que você está lendo, Fernando Ramos?

20 de março de 2013 0

Fernando Ramos, organizador da Festipoa Literária. Foto: Mauro Vieira, ZH

Aqui estamos de novo, fazendo de tudo para não perder o pique e dar continuidade à série O Que Você Está Lendo?, que pergunta a escritores, professores, intelectuais e críticos que leitura estão curtindo e gostariam de partilhar conosco, fomos questionar Fernando Ramos, editor do jornal literário Vaia, publicação que existe há 12 anos. Fernando é também idealizador e organizador da Festa Literária de Porto Alegre, a FestiPoa (www.festipoaliteraria.blogspot.com), um dos eventos mais bacanas dedicados à cultura no primeiro semestre, na Capital. Não esqueça, a série vai ao ar às quartas-feiras

Então, Fernando Ramos, o que você anda lendo?

Estou relendo o segundo livro da Angélica Freitas, Um útero é do tamanho de um punho. A poesia da Angélica me agrada muito, seus poemas são do tipo que surgem da inquietação e perplexidade diante da condição humana. Dessa inquietação, naturalmente, brotam perguntas (“Quem manda, de fato, no corpo da mulher?”) que renderam os 35 poemas reunidos nesse livro que chega para abalar algumas falsas noções de gênero e comportamentos atuais.
A poesia é sempre uma aventura, uma experiência estética marcante, não se presta para teses ou discursos. Angélica sabe disso, consegue fazer do poema essa experiência e transmitir esse acontecimento ao leitor.
Para Angélica, o poema é uma espécie de arma, ou punho fechado a golpear com sarcasmo desestabilizador (
num útero cabem capelas/ cabem bancos hóstias crucifixos/ cabem padres de pau murcho/ cabem freiras de seios quietos/ cabem as senhoras católicas/ que não usam contraceptivos); com ironia afiadíssima (uma pessoa já coube num útero/ não cabe num punho/ quero dizer, cabe/ se a mão estiver aberta/ o que não implica gênero/ degeneração ou generosidade); e com auto-ironia, portanto sem se excluir do embate (não diz coisa com/ coisa nem escreve nada/ que preste/ não alivia as massas/ nem seduz as cobras/ se reduz a isso/ a palhaça/ toca fagote/ com a boca cheia/ de colgate).
Um útero é do tamanho de um punho é leitura divertida, capaz de provocar boas gargalhadas, embora os poemas sejam mais ásperos e densos que os de Rilke Shake, seu livro anterior. Há muita musicalidade, leveza e fluência nos versos, como se a linguagem ganhasse uma linha melódica aliciadora e fosse envolvendo nossa sensibilidade de leitor numa espécie de canção.
Embora correndo risco de deslizar para uma poesia discursiva e de protesto ao abordar as temáticas de gênero e identidade com tamanha virulência, o sarcasmo, o nonsense e, sobretudo, a força estética e o humor dos poemas fizeram com que os disparos fossem no alvo. Poesia direta e límpida. Angélica é poeta das maiores.


Feliz 2013

31 de dezembro de 2012 0

Feliz Ano-Novo

insidioso como uma cobra que fuma, lá vem ele
outra vez. por entre as frestas da fechadura dessa
casa sem porta ou parede, em seu conversível
copilotado por belas beldades, lá vem ele com seus
365 dedos de raro fulgor, com seu chapeuzinho de
índio turco, ele vem para alegrar seu dia plúmbeo,
para animar o seu velório
e apaziguar seu carnaval. lá vem ele dos confins do universo onde tudo se expande e se contrai. amig@s
muit@s: com vocês, para vocês, ele mesmo:
o AnÃo GiGaNtE!!!

Poema do grande nome da poesia marginal brasileira Chacal, incluído em seu livro mais recente, Murundum (Companhia das Letras, 2012). Fica aqui para todos os leitores do Mundo Livro.

Nos vemos no ano que vem.

Italo Moriconi fala sobre a reedição de Mario Quintana

21 de agosto de 2012 0

O professor e poeta Italo Moriconi. Foto: Divulgação, Editora Objetiva

Crítico, professor da pós-graduação em letras na UERJ e ele próprio poeta, o carioca Italo Moriconi é o responsável pela nova edição da obra completa de Quintana, que marca a mudança do poeta para uma nova editora depois de décadas na editora Globo. A edição começa com a publicação de Canções, seguido de Sapato Florido e a Rua dos Cataventos; Apontamentos de História Sobrenatural e A Vaca e o Hipogrifo. Por telefone, do Rio de Janeiro, Moriconi concedeu a seguinte entrevista, na qual fala de seus critérios para a organização da obra, do papel de Quintana como poeta e das diferenças entre seu projeto e o da organizadora da republicação anterior, a professora Tânia Carvalhal.

Zero Hora – O senhor começa a republicação da obra integral de Quintana sem uma ordem cronológica, com três livros do início da carreira, condensados em um único volume (A Rua dos Cataventos, Canções e Sapato Florido) e dois outros livros dos anos 1970 (Apontamentos de História Sobrenatural e A Vaca e o Hipogrifo). Por que esta opção?
Italo Moriconi – O objetivo foi dar uma organização que chamasse a atenção para diferentes livros, para não ficarmos na sequência aparentemente lógica, que seria a cronológica, tentando dar uma visibilidade nova para os diversos livros do Quintana. Vamos fazer um jogo de colocar os livros iniciais com obras publicadas em um momento posterior da carreira dele para fazer um contraste. Sendo que um dos objetivos disso também foi valorizar a parte final da obra do Quintana do ponto de vista crítico. Creio que há uma necessidade de maior visibilidade dessa consistência poética dos últimos livros do Quintana.

ZH – Na apresentação de  Apontamentos de História Sobrenatural, Quintana já dizia que o próprio lançamento de seus livros seguira um plano que não era o da escrita do material. Também afirma: “O fato é que nunca evoluí. Sempre fui eu mesmo”. O senhor concorda?
Moriconi –
Por um lado ele tem razão nisso: porque o estético cria uma equivalência atemporal entre os objetos. Então, uma obra completa de um autor, Shakespeare ou outro grande escritor, não interessa se um livro foi escrito no iníci ou no fim da vida, o que interessa é que são bons. Claro que se você for fazer um estudo biográfico da evolução da obra, a cronologia importa muito, mas do ponto de vista da leitura e da fruição, nem tanto. Agora, com relação a essa afirmativa do Quintana, a gente pode questioná-la. Esse destaque às obras finais do Quintana vai mostrar que ele teve sim uma certa evolução dentro de um parâmetro invariável, que é o do lirismo. Ele evoluiu como poeta, tanto na temática quanto na forma.

ZH – Já foi dito que o fato de Quintana ter se tornado um poeta imensamente popular possa ter afetado a recepção crítica de sua obra. O senhor concorda?
Moriconi –
Na verdade não. Porque a fortuna crítica de Quintana é vasta, ele sempre tem sido estudado na universidade. Talvez em alguns setores da crítica mais de Rio e São Paulo, mais ligados à herança concrecista e vanguardista, possa haver um desprezo crítico ao Quintana. Mas, se você for ver ali na realidade das coisas, ele sempre teve repercussão crítica. Inclusive Drummond escreveu sobre ele, ele sempre teve grande prestígio entre os grandes poetas brasileiros, foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras. Nos últimos anos, até porque ele faleceu já há 20 anos, com 80 de idade, houve um pequeno decréscimo, que acho que vai ser revertido com essa nova edição.

ZH – O senhor retomou questões de fixação de texto ou de versões?
Moriconi –
Quanto a isso não, porque a obra do Quintana já está muito bem mapeada, muito bem cuidada pela Elena Quintana. E ele já teve outras edições de obras completas antes. Não foi necessário um tabalho de arquivo maior.

ZH – E como o senhor diferencia o trabalho desta nova edição da obra completa daquele que havia sido feito na década passada pela professora Tânia Franco Carvalhal, que organizou a republicação dos livros de Quintana pela Globo e a edição integral da obra em um volume pela Nova Aguillar?
Moriconi –
A edição da Nova Aguillar é mais voltada para especialistas, porque é tudo em um livro só, com a fortuna crítica, então ela serviu de referência muito importante para mim. Sou um grande admirador do trabalho da professora Tânia Carvalhal, sou da geração que entrou para a associação de literatura comparada criada por ela e outros professores. Então eu considero que meu trabalho é uma continuidade, na qual estou bebendo nas águas de Tânia Carvalhal. Já a edição da Globo foi competente a seu tempo, mas agora estamos com a Alfaguara e pretendemos estar à altura das edições anteriores.

ZH – A simplicidade e a facilidade com que Quintana se comunicava com o público são apontadas pelo senhor como fundamentais para explicar a sua importância no sistema literário, como um autor que apaixona o leitor.
Moriconi –
Esse é um atributo dos grandes líricos. Você vê Gonçalves Dias, Olavo Bilac, são poetas que vêm de uma intuição popular e voltam a ela. O Quintana é mais um dessa tradição. Ele é um grande formador de leitor.

ZH – A lírica oscila em uma lâmina entre o sentimentalismo e a estética. O senhor acredita que o olhar da criança na poesia de Quintana tenha sido o ponto de equilíbrio para essa tensão?
Moriconi -
Isso mesmo. Ele olha para o mundo como se o estivesse vendo pela primeira vez, e essa é uma grande força da lírica do Quintana, esse olhar fresco sobre as coisas do mundo. E toda vez que a gente lê um poema dele, a gente recupera essa sensação. A força da poesia dele vem daí: ele permite essa experiência de uma visão primeira, e de uma primeira reflexão, quando você começa a pensar no tempo, na passagem do tempo, na morte, no como existe um elemento bonito e ao mesmo tempo melancólico nessa fugacidade do tempo, como as cidades e as vidas mudam… E ele coloca aqui como se fosse a primeira vez que estivesse tendo aquela revelação, tem algo de epinafia nos poemas. Isso é o que dá força aos grandes líricos, o lírico em “tom menor”, digamos, como o Bandeira dizia de si próprio que era um “poeta menor”: o lírico que fala diretamente a uma percepção muito imediata do que está em volta.

ZH – Essa concepção de “poeta menor”, contudo, foi usada algumas vezes como depreciativa em comparação a um grande metafísico como Drummond, por exemplo.
Moriconi –
Mas ela é muito importante, porque o “menor” aqui é como o tom menor em música. O “menor” não é geométrico ou matemático. E o tom menor é o tom de intimidade, e essa é outra força grande da poesia do Quintana, ele fala a partir de um território de intimidade absoluta.

ZH – Quintana foi um cantor de Porto Alegre, mas sua obra parece ter transcendido o regional e encontrado ressonância fora daqui. 
Moriconi –
Sim, porque o regional dele tem um fator universal. Na poesia dele, Porto Alegre já não é mais Porto Alegre, é Província, com “P” maiúsculo, pode ser na Alemanha, pode ser na Bolívia, pode ser em Singapura. Desde o início o regionalismo do Quintana não tem nada de regional.

As profecias de Mario Quintana

19 de agosto de 2012 0

2005

Com a decadência da arte da leitura, daqui a trinta anos os nossos romancistas serão reeditados exclusivamente em histórias de quadrinhos….
A grande consolação é que jamais poderão fazer uma coisa dessas com os poetas.
A poesia é irredutível.

De Mario Quintana, que escreveu essa vinheta em 1975 (e mais tarde a reuniu em A Vaca e o Hipogrifo, de 1977, um dos títulos que abre a reedição da obra integral do poeta gaúcho pela Alfaguara, organizada por Italo Moriconi. É a segunda reedição integral da obra do poeta em uma década – a primeira foi a republicação organizada pela professora Tânia Franco Carvalhal para a Globo, para marcar o centenário do poeta, a partir, justamente, de 2005).

Ele não sabia o quanto estava certo.

E o quanto estava errado.

Retratos Poéticos - Ismar Tirelli Neto

03 de junho de 2012 0

Em mais uma entrevista com novíssimo autores da poesia contemporânea nacional, vai abaixo a íntegra da conversa que tivemos com Ismar Tirelli Neto, 27 anos. Nascido no Rio de Janeiro, já publicou dois livros pela editora 7Letras: Synchronoscopio (2008) e Ramerrão (2011). Como as anteriores, esta entevista foi concedida por e-mail.

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem?
Ismar Tirelli Neto
- Não sei se tenho autoridade para me colocar em parte alguma. Evito entrincheiramentos desnecessários. Por mais que a pluralidade tenha se tornado, de si, um cliché, ela ainda me entusiasma. Meu único critério de avaliação – falho, pessoalíssimo – é a seriedade. Não a gravidade, não a sisudez: a seriedade. Se um trabalho me parece sério, procuro me delongar um pouco mais, estabelecer com ele alguma relação, por mais que me pareça proibitivo, por mais que não tenha nenhum ponto de contato imediatamente detectável com minhas próprias pesquisas. Como se vê, é um critério bastante abrangente, dá ensejo a convívios mais ou menos insólitos. Quanto aos “fantasmas”, tenho muitos, uns mais aparecidos que outros. Há, no que tenho feito, muito Drummond, bastante Ana Cristina Cesar, um bocado dos poetas da New York School. Mas é um favoritismo que se assume favoritismo, procuro não desdobrá-lo em juízo de valor, procuro não defender ninguém. Os autores – especialmente os falecidos – passam muito bem sem que eu os defenda.      

ML – Com quem dentre os poetas em atividade você acreditas que sua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma. E quem são seus interlocutores entre os atuais poetas?
Tirelli Neto –
Tenho a sorte de ter por perto interlocutores bastante valiosos. Inclusive, tenho tido a imensa felicidade de apresentar o trabalho de alguns deles num evento que estou organizando no Espaço Cultural Interseções, chamado “Panorama Parcialíssimo da Nova Poesia Carioca“. Sublinhe-se o “parcialíssimo”. Enfim, a lista de convidados é bastante representativa: Victor Heringer, Leonardo Gandolfi, Marília Garcia, Mariano Marovatto e Alice Sant’Anna. O diálogo com esses autores é sempre, invariavelmente, estimulante e rico. Mas isso é aqui no Rio, e em literatura (poesia, mais especificamente). Há, por aqui, várias outras pessoas que tenho em conta altíssima: na música, no cinema, no teatro, nas artes visuais. Isso é um ponto crucial; o diálogo que excede os limites formais da poesia, ou mesmo da escrita. O encastelamento formal é um perigo muito grande.

ML- Você já publicou ou participou (e ainda participa) em um bom número de revistas e jornais, além da própria internet. A reunião em grupos nessas publicações, mesmo que não haja um sentido estético comum ou uma única direção criadora, como nas revistas das antigas vanguardas, continua sendo uma forma de um poeta encontrar ressonância para seu trabalho?
Tirelli Neto –
Sim, naturalmente, e que ninguém cometa a tolice de diminuir o alcance das revistas e dos jornais especializados. Até porque seria uma baita grosseria. Tocar uma empreitada dessas – tanto no papel quanto online – é tarefa heroica.     

ML – O que li de tua poesia até o momento me pareceu marcado por um forte senso de ironia, além de não rejeita a comunicação com o público, principalmente em um certo tom narrativo que perpassa sua poesia. Você busca de fato essa comunicação, a poesia que toca o leitor mesmo quando o desconcerta?
Tirelli Neto –
Veja bem, buscar a comunicação, pura e simples, não é da poesia, ou pelo menos não da poesia como eu a entendo. Encaro com extrema desconfiança o autor que procura se fazer entender. A poesia que me interessa pede o contributo do leitor, participação ativa, não apenas acenos conformados da cabeça. Como ela literalmente não existe sem o auxílio do leitor, algum enredamento deve existir. Caso contrário, a coisa não resulta. De qualquer forma, sou péssimo teórico, sempre preferi historinhas [sem moral, por favor] à exposição de conceitos abstratos. Prefiro encarar a narratividade – e, em alguma medida, a ironia – como pontos de partida, como dispositivos. É no plano da narratividade, do humorístico, do confessional, que se dá o convite. É vital, no entanto, que exista algo para além desse primeiro momento de enredamento; a confusão, o espanto, a recusa ao chá com bolachas.

ML – Você se sente um artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Tirelli Neto –
Sim, bastante à vontade. Mas não confundamos as coisas. Ninguém chegou aqui sozinho. Estamos todos trabalhando espaços franqueados pelos programas de ruptura do passado, cuidando para que permaneçam franqueados, possíveis, realizando um trabalho não exatamente glamoroso de manutenção. Quanto à ausência de um programa poético-político centralizado, manifesto, dogmático, digamos apenas que a figura do poeta tornou-se de tal maneira irrelevante para a sociedade de uns tempos para cá que reconhecer-se poeta já é um ato político. A dimensão está no gesto. A poesia a sério é um gesto anti-establishment, fundamentalmente contraproducente, propositor de mal-entendidos. Mas não falo nenhuma novidade. Digo isso apenas para que não nos tomem toda e qualquer função. Prefiro o gesto à palavra de ordem. Ademais, minhas convicções estão nos poemas. Não há separação.

Um poema de Ismar Tirelli Neto

Canibalismo
(De Ramerrão)

Anna chega exausta, digo-lhe que o jantar está pronto. ghoulash de pai e mãe. É crença de certos canibais que a digestão não constitui processo meramente físico: metabolizam-se igualmente os predicados morais, por assim dizer, do ente refeiçoado. A matrona do lar, esta cozinha está impraticável, escrutando, cheio de dedos (mais ou menos fictícios), as ofertas do Supermercado. Saio de casa na chuva para comprar incenso, a praça de permeio, tomo meu café. Tornando já. Nossa sala cheira a baunilha, as pequenas odisséias do dia pegam consistência de milk-shake. Pois bem, esta é minha prova de amor para você, ele observa, palitando os dentes. Como foi a entrevista de emprego segunda-feira?

Retratos poéticos - Ricardo Domeneck

03 de junho de 2012 2

Outro dos poetas com quem conversamos em nosso balanço da novíssima geração da poesia contemporânea é Ricardo Domeneck, 35 anos, paulista de Bebedouros e hoje residente em Berlim. Domeneck já publicou Carta aos anfíbios (Bem-Te-Vi, 2005), A cadela sem Logos (Cosac Naify, 2007), Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify, 2009), Cigarros na Cama (Berinjela/Modo de Usar & Co., 2011) e Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem?
Ricardo Domeneck -
Eu não acredito em “sombras” da tradição. Quando um poeta começa a trabalhar e formar-se, há uma série de poetas ditando os parâmetros de qualidade, ou, simplesmente por serem populares, aqueles com os quais começamos a aprender o que pode ser poesia. Acho difícil que um poeta de minha idade possa ter escapado de lições (seja do que quer fazer ou não quer fazer) de poetas como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes ou João Cabral de Melo Neto. Mas em algum momento, é claro, por afinidades que poderíamos chamar de espirituais, estéticas ou outro nome, alguns de nós tomamos certos poetas por mestres eleitos. O que talvez não passe de uma paixão especial por certos autores. Para mim, na Língua Portuguesa, tenho uma admiração gigantesca por autores como Murilo Mendes, Mario Cesariny e Hilda Hilst.

ML – A sua poesia, ao menos a que li, é marcada por um lirismo conciso que parece casar o pop e o elevado com muita clareza de enunciação e de prosódia. Aceitas, em teus poemas, uma dimensão comunicativa da obra? Teus versos tentam se comunicar com o universo interior do leitor?

Domeneck –
O que você diz talvez possa se aplicar a livros meus como Cigarros na cama (2011) e Ciclo do amante substituível (2012), como a alguns poemas de Carta aos anfíbios (2005), mas em um livro como Sons: Arranjo: Garganta (2009) eu pratiquei propositalmente uma espécie de curto-circuito comunicativo, buscando o que se poderia chamar de “efeito anti-paráfrase”. Uma expressão como “dimensão comunicativa” é muito complicada numa discussão sobre poesia. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein escreveu que “ainda que redigido na linguagem da comunicação, não é usado no jogo de linguagem da comunicação”. Minha crença, recorrendo aos termos de Jakobson, é de que a função poética da linguagem não oblitera necessariamente a função referencial. O clichê usado por muitos poetas sobre a poesia como “dizendo indizível” é um absurdo mistificado (em geral por pura auto-mistificação). Eu acredito que o campo do poeta é o dizível. O que não significa entregar-se ao fácil.

ML – Você se sente um artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Domeneck –
As vanguardas do século XX tampouco tinham um projeto político unificado. Eram plurais. No Brasil isso segue, em geral, a visão de Haroldo de Campos, de que as vanguardas eram primordialmente utópicas. As vanguardas germânicas, por exemplo, eram em minha opinião muito mais distópicas que utópicas, como é o caso do expressionismo e do dadaísmo. Eu acredito que todo projeto artístico tem implicações políticas, mesmo que não sejam apresentadas num manifesto Explícito..

ML – Com quem dentre os escritores/poetas em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma, ou mesmo quem são teus interlocutores entre os atuais poetas?
Domeneck –
Meus interlocutores principais no Brasil são muitas vezes poetas com visões bastante diferentes das minhas. Às vezes, opostas. Sempre mantive um diálogo e debate com Érico Nogueira, e talvez não haja dois poetas mais diferentes entre si. Também mantenho um diálogo com Dirceu Villa, e tenho grande afinidade estética com Angélica Freitas e Marília Garcia. Mas este diálogo é tão intenso quanto o que tenho com certos poetas estrangeiros, como o argentino Ezequiel Zaidenwerg e o catalão Eduard Escoffet. Na Alemanha, onde moro, meus diálogos mais intensos são com Odile Kennel (poeta e também minha tradutora para o alemão) e com Johannes CS Frank, poeta e meu editor aqui em Berlim.

Um poema de Ricardo Domeneck
(De Cigarros na Cama)

Comecei a fumar porque você fuma
e eu certamente não queria viver
mais que você. Agora já sem
o seu hálito, suas bitucas e cinzas
na mesma cama, começo o dia
com um cigarro, exatamente
e ainda pelo mesmo motivo.

Retratos Poéticos – Lorena Martins

02 de junho de 2012 0

Gaúcha de Dom Pedrito, Lorena Martins não aborda a viagem apenas no título de seu livro de estreia, Água para Viagem (7Letras). Já morou em Paris, Londres e Brasília, e atualmente reside no Irã.

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem?
Lorena Martins –
Acho complicado me colocar no atual momento da poesia nacional. quem pode fazer isso é o crítico, o teórico, o leitor. eu apenas escrevo e gosto de compartilhar a minha poesia com as pessoas. Sobre “sombras”, posso apenas falar sobre o que leio.  Alguns dos meus poetas de cabeceira são Drummond, Ana Cristina Cesar, Wislawa Szymborska, Alejandra Pizarnik, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Armando Freitas Filho, Hilda Hilst, Ferreira Gullar, Fabrício Carpinejar.  E há também a presença da prosa na minha formação e naquilo que escrevo, é claro.

ML – Com quem dentre os  poetas em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma. E quem são seus interlocutores entre os atuais poetas?
Lorena –
Dentre os poetas em atividade, dialogo e me identifico mais com fabrício corsaletti, bruna beber, armando freitas filho e ana martins marques. se a minha poesia estabelece um diálogo com a deles, entretanto, é uma outra é questão; é possível e seria uma honra para mim, são poetas que muito admiro.

ML – Seus versos, ao menos em Água para Viagem, não rejeitam o lirismo, o sentimento, e parecem buscar as sensações do leitor, provocá-lo emocionalmente, comunicar-se com ele. Você aceita essa dimensão comunicativa da poesia conscientemente em seu trabalho?
Lorena
– Poesia, para mim, tem de ter sangue. se for muito cerebral, nada me diz. partindo desse pressuposto, muitos temas e caminhos podem ser percorridos. Eu escolho o amor, a observação do mundo, a experiência, o suspiro.
A poesia nasce do espanto, como diz Gullar.

ML – Você se sente uma artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Lorena
– Sem dúvida. a poesia é o lugar onde eu exerço toda minha liberdade e individualidade. não me interessa nenhum programa poético/político

Um poema de Lorena Martins

eu curo meu silêncio
com gaze, museus
mercúrio
a noite em claro

a semana chove
ferida
ninguém mais suporta
molhar os pés

eu peço um duplo
cafeína, vodka,
versos
fotos de abajur

à meia-noite
suspira
billie na calçada
a heaven just for two

é uma saga