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Posts na categoria "Polêmica"

Feliciano e Castro Alves

05 de abril de 2013 0

Castro Alves quando jovem. Fonte: Wikicommons

Cada vez mais enrolado nas confusões provocadas a cada vez que expõe o pântano intelectual que é sua “teologia”, o pastor Marco Feliciano, inacreditável presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, ganhou esta semana uma daquelas defesas que parecem ter sido escritas pelos adversários só para sacanear. Marisa Lobo, entre outras coisas autointitulada “psicóloga cristã” e proclamada responsável por “curas de homossexuais”, resolveu sair em defesa da tosquice institucional do pastor Feliciano. Em um blog gospel, ela publicou um texto que vem sendo bastante compartihado pelos defensores do deputado do PSC nas redes sociais – em número quase igual, os críticos ficaram um pouco perplexos, eu incluído.

No artigo, aqui, para quem quiser ler, Marisa Lobo vai buscar a mais improvável das defesas para Feliciano: os poemas abolicionistas de Castro Alves. Recapitulando o caso em um miniflashback: Marco Feliciano aventou no twitter, em 2011, que a população negra se tornou cativa da população branca porque os africanos descendem de um “ancestral amaldiçoado por Noé” – Canaã, para ser mais preciso. “Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, aids. Fome… Etc“, escreveu também o deputado. Que, de lá para cá, não mudou nada de ideia, tanto que já apresentou a mesma tese ao STF.

Marisa Lobo agora desencava Castro Alves, o “poeta dos escravos”, para defender as declarações de Feliciano, fazendo uma maçaroca descontextualizada de uma série de estudos críticos literários para sustentar seu ponto de vista. O que não deixa de ser ao mesmo tempo muito irônico – e muito errado.

Feliciano é um avatar das trevas que assolam o Brasil, e Marisa Lobo é alguém que contraria as próprias normas de sua profissão (não foram poucas as advertências que ela já recebeu, emitidas pelo conselho de seus pares), mas, tirando minha antipatia pessoal e minha manifestação de veemente crítica a tudo o que representam, não tenho muito o que fazer. Agora, dado o uso abastardado que ela faz da literatura em causa própria, acho que tenho uma ou duas coisas a dizer sobre isso.

Para começar: a poesia de combate ao escravismo escrita por Castro Alves era uma poesia militante e panfletária – e aqui estes termos não carregam o tom pejorativo que a palavra ganharia ao longo dos mais de cem anos que separam a morte do poeta dos dias atuais. Voltaremos a esse ponto. Como lembra Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas brasileiros em África e biógrafo do poeta para a coleção “perfis biográficos” da Companhia das Letras: “era como poeta político que ele gostava de falar às grandes plateias. E que ninguém censure esta expressão, poeta político. Castro Alves via-se como tal, desejoso de, com seus versos, mudar o país e a vida” (2006, p. 98). Castro Alves, era panfletário porque seus poemas eram assumidamente “peças de campanha”, fazendo com essa qualificação um desvio anacrônico de mais de século para usar este termo da linguagem político-publicitária contemporânea. Para mobilizar seus ouvintes, a poesia de Castro Alves era escrita com recursos formais da poesia épica e da mais refinada oratória – com o objetivo declarado de que cada verso vibrasse uma corda emotiva no ouvinte, provocando a compaixão quando ao destino dos escravos. Logo, acreditar que a poesia de Castro Alves, composta em situação de apoio a uma causa há mais de um século sirva para justificar tosquice intelectual em pleno século 21 (é Marisa Lobo quem diz que a poesia de Castro Alves “prova” que não há racismo nas manifestações do deputado) é levar a exegese um pouco longe demais.

Outro ponto a salientar é que, apesar da qualidade dos recursos retóricos e musicais de sua poesia, Castro Alves não manjava um ovo sobre a África e o negro que pretendia escrever – um argumento expresso pelo mesmo Costa e Silva na biografia citada há pouco. De acordo com Costa e Silva, embora animado por genuíno ímpeto solidário e ardendo de um fogo revolucionário legítimo que via no drama da escravidão uma das chagas da sociedade, Castro Alves não era o poeta dos escravos, mas o poeta da libertação dos escravos. A diferença é sutil, mas significativa, dado que a leitura atenta dos poemas compilados após a morte do autor no volume Os Escravos (e não Navio Negreiro, como Marisa Lobo o nomeia), mostra que o próprio ‘Homero da abolição” fazia uma ideia bastante equivocada daqueles em nome de quem falava, ou pretendia falar, e que sua visão do continente africano era ditada por um imaginário que via na imensidão heterogênea da África uma desconcertante homogeneidade em nada correspondente à realidade.

Castro Alves via, em seus versos, o africano, negro, escravizado no Brasil, como um produto de uma cultura que na verdade era a do norte da África, e não das nações de onde os escravos haviam sido trazidos. Os Escravos reúne 36 poemas, 24 deles de cunho abolicionista e, portanto, constitui um testamento da vocação política panfletária que o levara à tribuna em defesa da abolição. Porém, embora prorrompa em brados urgentes sobre a questão do negro, o que se tem em suas páginas é a visão com que o branco representa o sofrimento do negro. Castro Alves não fala do negro escravo brasileiro, algo que fica muito claro ao se tomar como exemplo o poema de título A Canção do Africano. Logo nas primeiras estrofes, Castro Alves faz um negro cativo lamentar de saudades de sua terra:

“Minha terra é lá bem longe
Das bandas de onde o sol vem;
Esta terra é mais bonita,
Mas à outra eu quero bem!
O sol faz lá tudo em fogo,
Faz em brasa toda a areia;
Ninguém sabe como é belo
Ver de tarde a papa-ceia!
Aquelas terras tão grandes,
tão compridas como o mar,
com suas poucas palmeiras
dão vontade de pensar.”

A terra de origem do africano do poema é descrita como uma imensidão arenosa castigada pelo sol árido. Um cenário, dizem os versos, de “poucas palmeiras”. O fato de ele qualificar a terra brasileira em que se encontra como “mais bonita” que a de origem é justificável pela licença poética, contudo, os demais pontos da descrição entregam o equívoco: sim, é a África, mas não necessariamente a África do negro trazido para o Brasil. Com tais detalhes, a paisagem descrita evoca outra região, não, por exemplo, Angola que também convive com clima semi-árido, porém, as amplidões do Saara. Castro Alves está, de fato, descrevendo o norte da África, sua paisagem desértica e mesmo seus habitantes, retratados antes como beduínos do que como os núbios escravizados no Brasil.

Também o entendimento a respeito de elementos da cultura e da identidade do africano sobre quem Castro Alves escreve é misturado com os próprios valores do poeta e da sociedade de seu tempo. O poema Mater Dolorosa, do mesmo livro, revisita um mote recorrente da poesia abolicionista do período: a mãe que, obrigada a ver o filho cair nas mãos do senhor para ser vendido, preferiria, em vez disso, matá-lo. É um poema em que Castro Alves faz uma mãe africana imaginar seu filho no céu, e pede perdão direto ao Deus cristão pelo seu ato, Esse céu é a ideia cristã e com evocações virgilianas do jardim celeste, bastante diversa do vários conceitos para a morte formulados no continente africano.Encontraremos situação semelhante no mesmo poema, quando Castro Alves volta a incorrer em uma representação aparentada com a religiosidade cristã e católica predominante em seu tempo:

Perdão, meu filho… se matar-te é crime…
Deus me perdoa… me perdoa já.
A fera enchente quebraria o vime.
Velem-te os anjos e te cuidem lá.

Outra vez encontramos elementos da iconografia e do imaginário simbólico cristão, como anjos velando as almas dos “inocentes” (o termo havia sido usado para definir o bebê morto já na estrofe anterior) e um Deus que perdoa atendendo a um pedido direto do suplicante – e não pelos complexos rituais de equilíbrio e compensação da África real. Em parte, isso pode ser atribuído ao papel panfletário dos versos de Castro Alves, uma vez que seus poemas eram peças de divulgação do ideário abolicionista que deveriam se comunicar com o público, e, portanto, deveriam apelar para o mundo como seus ouvintes o conheciam. Mas não se pode afastar também o imaginário do próprio poeta, um jovem entusiasmado e fruto de seu tempo.

Marco Feliciano, não tão jovem, também é fruto de seu tempo: é a ascensão de um pensamento conservador e  manipulador, que não titubeia em se apropriar do que parece conhecimento para justificar o que, no fundo, é apenas ignorância.

A Rede e os Livros: uma conversa com Ronaldo Lemos

28 de maio de 2012 0

Ronaldo Lemos. Foto: Cris Isidoro, Divulgação

Ainda no assunto da polêmica entre a Associação Brasileira de Direito Reprográfico e os defensores e apoiadores do site Livros de Humanas, tirado do ar por determinação da Justiça de São Paulo, fomos ouvir um dos principais especialistas em Direito e univerdo digital do Brasil, Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. Lemos prepara ele próprio para breve o lançamento de um livro que já sairá, em papel (coedição entre a PUCRS e a editora gaúcha Sulina), sob licença do selo Creative Commons, que permite modalidades de uso e reprodução não comercial de uma obra artística ou intelectual. Lemos nos falou sobre o substrato jurídico da polêmica, numa entrevista cuja íntegra pode ser lida abaixo:

Mundo Livro – O senhor está acompanhando o caso do site Livros de Humanas? Acha que a interdição do espaço virtual e a subsequente reprovação por parte de artistas e professores pode vir a se tornar um problema de relações públicas para a entidade?
Ronaldo Lemos
– Li, sim, sobre a suspensão do site. Há na verdade um problema de relações públicas que é também um problema jurídico, porque o site foi retirado contendo livros que podem não estar cobertos pelos direitos representados pela ABDR como entidade. O repertório total do site tem livros sobre os quais ela não comprovou nenhum direito de representação.

ML – O fato de todo o site ter sido tirado do ar mosta que a Justiça ainda não encontrou a medida justa e sutil para julgar demandas típicas da contemporaneidade altamente tecnológica?
Lemos –
A questão principal é que a lei de direitos autorais brasileira é uma das mais restritivas do mundo. Ela praticamente veda quaisquer condutas que não a compra integral do livro. Ela proíbe inclusive a disponibilização dos chamados “livros órfãos”, aqueles fora de catálogo há muito tempo, esgotados ou com representações incertas ou que não se pode encontrar. Em outras leis de outros países, há exceções que incluem a liberdade de publicação de livros nessa categoria.

ML – Mas faltou para o Judiciário exigir a comprovação de que a ABDR tem direito de representação para todas as obras no site, não? Preferiu-se a proibição integral do que  uma mais trabalhosa análise obra a obra.
Lemos –
O uso do judiciário para tirar do ar livros que você nem sequer prova que detém os direitos é muito preocupante. A ABDR representa um grupo específico e tem direito de pedir a retirada de qualquer material coberto por lei que esteja sob sua representação. O que está na lei tem de ser coberto, assim como livros que o autor ou a editora não desejam compartilhar têm de ser retirados se assim for a vontade de seus legítimos titulares. A questão que fica são livros que poderiam estar em domínio público, livros já previamente autorizados por seus autores ou editores ou que não fazem parte do catálogo da ABDR. É como se eu fosse acionar um direito que não me pertence. Se as pessoas puderem mover ações com relação a direitos que elas não têm, abre-se um precedente muito perigoso

ML – É hora de repensar a lei do Direito Autoral no Brasil?
Lemos –
O conflito principal ocorre pela ausência de possiblidades de acesso eletrônico legal. Esses mesmos livros que a ABDR tirou do ar, as pessoas não têm como acessar. Um dos aspectos a discutir é se a existência desses serviços de venda digitalmente também não desestimularia a necessidade de existência de sites como esses. Se o preço fosse bom e fácil, o site não teria razão de ser.

ML – Defensores do site também argumentam que um curso universitário exige leituras que seriam financeiramente inviáveis e que a comunidade intelectual sabe disso, que há um acordo tácito quanto aos xerox que qualquer universidade mantém, com pastas para os professores, mas na internet a ABDR parece ir à forra desse contexto. Qual sua opinião?
Lemos –
Nesse caso a questão é comercial. Se você vai a outros países, os alunos têm acesso a livros garantidos porque há outras modalidades de licenciamento de direitos. No Brasil, o único meio de acesso legal permitido comercialmente ao conteúdo de um livro é comprar o livro integral pelo preço de capa, enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, já é possível a universidade pagar pro rata, percentualmente, por um determinado número de páginas que pretende indicar em seus currículos. Para um aluno ler as 10 páginas de um livro que o professor reuniu em um polígrafo no Brasil, ele tem de desembolsar pelo livro inteiro, e o licenciamento parcial que vigora nos Estados Unidos é muito mais flexível no sentido de assistir a essas demandas. Essas 10 páginas poderiam muito bem ser pagas.

ML – Há esperanças de alguma mudança dada a atual situação do Ministério da Cultura e suas medidas que vão na direção oposta da gestão anterior da pasta?
Lemos –
Esse é o grande problema. Comparada com outras legislações de outros países, a lei de Direito Autoral no Brasil ficou como a Quinta Pior do mundo no que consiste à produção e difusão de conhecimento em um levantamento da organização Consumers International.  É uma lei desequilibrada que estava em processo de reforma, mas a troca de gestão na Cultura paralisou o processo.

A rede e os livros: as manifestações a favor do Livros de Humanas

28 de maio de 2012 0

Foto: Daniela Xu/ Pioneiro

Como mencionamos no último post, há uma polêmica atualmente no ar envolvendo a ABDR, entidade que representa editoras, e uma corrente de apoio ao site Livros de Humanas, retirado do ar por uma notificação da Justiça de São Paulo. Imediatamente a suspensão do site, acusado pela entidade de fazer pirataria digital, gerou uma série de adesões espontâneas a um movimento em apoio ao Livros de Humanas, qualificado por seus defensores como “biblioteca digital”, e contrário aos poderes que a ABDR se arroga como representante de todo o mercado editorial (uma vez que muitas editoras não são filiadas à entidade). Professores, escritores e até editoras vieram a público para protestar contra a decisão que tirou o blog do ar e discutir mudanças nas leis brasileiras de Direitos Autorais – uma das mais restritivas do mundo. As manifestações em apoio ao Livros de Humanas estão sendo reunidas em um único endereço na internet, o Direito de Acesso.

Outra das manifestações me defesa do blog Livros de Humanas veio de artistas, escritores e professores que resolveram disponibilizar livros recentemente lançados de graça, em versões em PDF, em endereços da rede, numa manifestação voluntária de apoio ao site e de relativização dos direitos autorais. Um dos primeiros a se erguer nessa iniciativa foi o poeta Eduardo Sterzi, que disponibilizou no portal Scribd uma cópia de seu livro Aleijão, para ler e baixar. Outros intelectuais também fizeram o mesmo, como os poetas Angélica Freitas (que jogou na rede seu livro de estreia, Rilke Shake) e Ricardo Domeneck (seu  mais recente livro, Cigarros na Cama, está aqui) e a escritora Verônica Stigger, que publicou me rede seu elogiado Os Anões (aqui).

Mandei para Eduardo Sterzi algumas perguntas sobre sua participação no movimento. A íntegra da entrevista pode ser lida abaixo:

Mundo Livro – Você disponibilizou para download, em apoio ao site Livros de Humanas, seu livro mais recente, Aleijão. O que o levou a essa iniciativa?
Eduardo Sterzi –
Há tempos, simpatizo e, na medida do possível, apoio o site Livros de Humanas, no qual reconheço uma das mais democráticas bibliotecas públicas do nosso país. Conheço vários estudantes e professores brasileiros e estrangeiros que encontraram nessa biblioteca textos fundamentais para a realização de suas dissertações de mestrado, teses de doutorado, artigos e livros: textos esgotados ou simplesmente não encontráveis nas bibliotecas físicas dos lugares onde moram. Eu mesmo já digitalizei e enviei links de vários textos, meus e alheios, para serem disponibilizados no Livros de Humanas. Como professor universitário, frequentemente indico textos a meus alunos; entre deixar esses textos num “xerox” em que só eles teriam acesso e deixá-los disponíveis na internet para que todos que os estejam procurando possam lê-los, qual é a melhor opção? Oferecer o Aleijão [que é, na verdade, meu penúltimo livro; o último é Cavalo sopa martelo] em apoio ao site foi um gesto modesto, que, para minha satisfação, foi seguido por vários outros autores comprometidos com a causa da plena difusão da cultura e do conhecimento, como Veronica Stigger, Angélica Freitas, André Vallias, Idelber Avelar, Eduardo Viveiros de Castro e Ricardo Domeneck, entre outros. Gostaria de lembrar que, com este gesto, apenas busco ser coerente com uma disposição que já está expressa numa nota que fiz acompanhar meus últimos livros, Aleijão (2009) e Cavalo sopa martelo (2011): “O autor permite a reprodução parcial ou integral deste livro por qualquer meio, desde que sem objetivos comerciais”.

ML – Outros autores também estão fazendo o mesmo, pode-se falar de uma campanha da classe criativa por uma flexibilização das normas determinadas pela atual lei de direitos autorais em vigor?
Sterzi –
Sim, felizmente está ocorrendo uma mobilização de alguns autores, tanto de ficção quanto das chamadas ciências humanas, em prol da plena difusão do conhecimento e da cultura, que passa, claro, pela flexibilização das leis atuais sobre direitos autorais – os quais, na verdade, deixemos claro, têm hoje muito pouco a ver com os autores. Basta lembrar que as entidades que protestam em nome dos “direitos autorais” nada fazem para garantir que os autores recebam a porcentagem mínima de 10% estabelecida por lei. Há várias editoras, inclusive entre as grandes, que pagam apenas 5% do valor de um livro vendido a seus autores. E, pior que isso, há todo um mercado de editoras que cobram dos autores para publicar seus livros. Só aceito discutir direitos autorais, sem aspas, com entidades que reconheçam tal situação e demonstrem estar fazendo alguma coisa para mudá-la. Quanto à mobilização dos autores, só lamento que seja ainda muito tímida, que muitos escritores prefiram ignorar esta questão – como, de resto, preferem ignorar qualquer questão política. E esta, a questão do livre compartilhamento da cultura, é uma questão política fundamental dos nossos dias, que nos diz respeito diretamente. Virar as costas para ela me parece algo vergonhoso.

ML – Os autores da ação impetrada pela ABDR contra o blog Livros de Humanas argumentam que a disponibilização do conteúdo online fere a lei dos direitos autorais. Os apoiadores, por sua vez, o definem como uma biblioteca online. A solução da polêmica passa pela reforma da lei?

Sterzi – Sim, é preciso reformar a lei, que é irreal. Não esqueçamos que vivemos num país que não dispõe de bibliotecas físicas compatíveis com a sua estrutura de ensino e no qual algumas editoras cobram preços verdadeiramente extorsivos por seus livros. Há um descompasso trágico entre o desejo de conhecimento e cultura de nossos estudantes e pesquisadores e os meios de que dispõem para satisfazer tal desejo. Foi essa carência de boas bibliotecas que levou à formação de toda uma estrutura alternativa de fotocópias, cujas matrizes são realizadas, na maioria das vezes, a partir de livros dos acervos pessoais dos professores. Vale lembrar que o Livros de Humanas surgiu de uma situação específica envolvendo a central de fotocópias do prédio de Letras da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP): de um dia para outro, a cópia de uma página, que custava R$ 0,10, passou para R$ 0,15. Ou seja, já se trata de uma alternativa à alternativa. Temos que revisar as leis de direitos autorais, mas temos também de criar uma política consistente de formação de bibliotecas públicas – e, sobretudo, precisamos discutir os preços dos livros no Brasil. Também temos de ver com clareza, na discussão sobre “direitos autorais”, o papel das editoras de livros didáticos na perseguição aos sites de livre compartilhamento. A ABDR, que move o processo contra o Livros de Humanas, está dominada por tais editoras. O livro didático é um negócio milionário em nosso país, um negócio cujo principal financiador são os governos federal, estaduais e municipais. O que o Ministério da Educação tem a dizer sobre o assunto? Nem falo do Ministério da Cultura, que, na atual administração, com os lamentáveis vínculos entre a ministra e o ECAD, sofreu um terrível retrocesso em relação à administração anterior, de Gilberto Gil-Juca Ferreira.

ML – A disponibilização online ajuda ou prejudica a carreira de um livro – ou talvez não tenha influência tão determinante nem em um sentido nem em outro?
Sterzi –
Talvez tenhamos de distinguir, antes de tudo, duas concepções de “carreira de um livro”. Se acreditamos que o fundamental na carreira de um livro seja sua leitura pelo maior número possível de pessoas, a disponibilização online só pode ajudá-la. Se, porém, acreditamos que o essencial seja converter o número de leitores em valores monetários, a situação não é tão clara. No entanto, temos o testemunho de autores como Paulo Coelho, que dizem que passaram a vender mais livros depois que tiveram suas obras disponibilizadas na internet. Há também o caso da editora Hedra, que, depois que deixou alguns de seus livros disponíveis integralmente no Google Books, passou a vender mais exemplares. Eu mesmo, que, como a imensa maioria dos poetas e ensaístas, estou longe de ser um grande vendedor (embora tenha dois livros com primeiras edições esgotadas, Prosa e Cavalo sopa martelo), percebo que a maioria dos leitores que me contam ter comprado meus livros o fizeram depois de ter lido ao menos algum de meus textos na internet. Para além de qualquer discussão comercial, o importante, porém, é perceber que o livre compartilhamento veio para ficar, porque ele é a realização de um ideal de busca do conhecimento e de comunhão cultural que sempre esteve na base dos grandes momentos de afirmação de nossa humanidade. Estamos diante de uma nova Renascença, de um novo Iluminismo – nada menos do que isso. Pouco me importa que esse livre compartilhamento ajude ou prejudique as vendagens de meus livros ou de qualquer livro. Pouco deveria importar também aos autores conscientes de sua função no mundo, aqueles que sabem, como bem disse o cineasta Jean-Luc Godard, que um autor não tem direitos: tem deveres.

A rede e os livros: três perguntas para a ABDR

28 de maio de 2012 0

Foto: Bruno Alencastro/ZH

Publicamos hoje em Zero Hora um texto sobre a recente polêmica envolvendo o blog Livros de Humanas, uma página na rede fundada por um estudante da USP que disponibilizava arquivos em PDF de livros de áreas como filosofia, teoria literária, sociologia. Por meio de uma ação judicial na Justiça de São Paulo, a entidade classista Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) conseguiu retirar o site inteiro do ar, pedindo primeiramente a antecipação de tutela à retirara de dois livros específicos, um publicado pela editora Forense e outra pela Contexto. Depois de obter o “sim” a sua pretensão, a ABDR conseguiu tirar o site inteiro do ar solicitando a extensão do que havia adquirido a todo o conteúdo do site, mais de 2 mil livros, alguns em domínio público e outros esgotados. Enviei um e-mail à ABDR e recebi as seguintes respostas do advogado da entidade, Dalizio Barros. Como a entrevista foi enviada pela caixa de “fale conosco” do site da associação e a resposta chegou em cima do laço para a publicação no jornal, não pude estender outras perguntas que se impunham das respostas às primeiras. Vocês podem lê-las na íntegra logo abaixo:

Mundo Livro – o que levou a ABDR a ingressar na justiça solicitando a retirada do site Livros de Humanas do ar?
Dalizio Barros –
a abdr tem um trabalho de identificação dos principais sites que disponibilizam obras intelectuais para download na rede sem autorização e os monitora através de notificações e etc., porém, quando se percebe uma demanda muito alta de conteúdo e de acessos e também de que os responsáveis pelos sites não atendem as notificações da entidade, a saída é buscar o socorro do poder judiciário para tentar cessar os prejuízos suportados pelas editoras;

ML – Em que grau está atualmente o processo? a retirada do site do ar foi concedida em liminar, não? Têm ideia de quando o mérito será julgado?
Barros –
O processo é bem recente e conseguimos há cerca de quinze dias a liminar para o site retirasse o conteúdo apontado do ar. Agora o processo está aguardando a manifestação em defesa pelos responsáveis do site. não há previsão de definição ainda.

ML – Uma campanha está sendo movida pela internet, com escritores disponibilizando suas obras na rede em apoio ao site. o que os senhores pensam dessa manifestação?
Barros –
A abdr representa algumas editoras (cerca de 90% do mercado) e somente pode falar por elas. os escritores que por ventura disponibilizem suas obras na rede provavelmente o fazem porque são independentes.

O que diz Antônio Carlos Secchin sobre o Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 1

Antônio Carlos Secchin na Jornada de Passo Fundo de 2009. Foto: Jean Pimentel

A comissão julgadora da 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar foi composta por Heloisa Buarque de Hollanda, Ricardo Vieira Lima, Antônio Carlos Secchin, Armindo Trevisan  e Carlos Felipe Moisés. Um dos pontos que o poeta Eduardo Sterzi elenca como “absurdo” em sua carta de renúncia à Menção Honrosa recebida por sua obra Aleijão é que Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras e crítico com longa relação de leitura e diálogo com Ferreira Gullar, fazia parte do júri – e Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio), foi o vencedor entre os 152 inscritos. Entrevistamos também, desta vez por telefone, Antônio Carlos Secchin.

Zero Hora – O poeta Eduardo Sterzi renunciou a uma menção honrosa concedida pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar e qualificou como absurdo o fato de o senhor integrar o júri e ao mesmo tempo ser um dos prefaciadores do livro vencedor. Como o senhor responde a isso?
Antônio Carlos Secchin –
Fico muito espantado com essa reação de Eduardo Sterzi. Esse é um concurso para o qual se convidam pessoas que tenham certa experiência com o objeto literário. Eu já integrei praticamente todos os júris de poesia no Brasil, e com mais de 30 anos de carreira universitária e literária é impossível não conhecer os poetas que estão em atividade.  Quando recebi o convite, não sabíamos quem havia se inscrito. Dentre os 152 concorrentes, aliás, talvez eu tenha escrito prefácios para mais de 20 deles. Seguindo essa lógica só podem participar de júris de concursos literários eremitas que jamais escreveram sobre qualquer livro em sua vida.

ZH – O senhor é de fato um dos prefaciadores do livro, ao lado de Alfredo Bosi. De algum modo essa circunstância não poderia ser apontada como um impedimento à sua objetividade de jugalmento?
Secchin –
Não. Não é segredo que sou um leitor da obra de Ferreira Gullar, já escrevi sobre ele, assim como já escrevi sobre Cecília Meirelles, preparei a edição da obra de João Cabral, sou um dos curadores da reedição da obra de Carlos Drummond de Andrade. Como crítico, eu tenho uma relação com os grandes poetas da língua. Ressalto ainda que quando as pessoas são convidadas para júri, não sabem quem são os inscritos. Escrever uma apresentação é uma coisa. Ter a consciência ética de julgar é outra. Posso ter escrito sobre mais de uma dezena de livros e nem todos entraram na minha relação final das obras que mereciam ganhar. Não é como se eu estivesse protegendo o Gullar dentro do júri. Circunstancialmente, o Gullar ganhou, o que protege o livro dele é a alta qualidade desse livro, que já vinha credenciado pelo Prêmio Jabuti. Tanto que éramos cinco jurados e a vitória foi por unanimidade. Ainda que eu tivesse tido alguma intenção ou ação para favorecer o livro do Gullar, o meu voto não teria sido determinante. Se eu não quisesse que ele ganhasse o prêmio, também teria sido vencido, porque os outros quatro votos foram nele. Duvidar disso é querer apequenar a dimensão do livro.

ZH – Qual foi o método de trabalho do júri? Os senhores chegaram a se reunir pessoalmente, uma vez que são radicados em Estados diferentes?
Secchin –
Não houve uma reunião específica em Porto Alegre. Poderíamos ter enviado cada um nossos votos e depois o Instituto Estadual do Livro que tabulasse tudo e anunciasse o vencedor, mas eu propus, e todos concordaram, que em vez de apenas mandarmos uma lista, trocássemos mensagens sobre os principais livros em um fórum de discussão. O processo não foi voluntarista, mas nasceu de um longo amadurecimento de propostas, contrapropostas, listas que os jurados trocaram entre si via mensagens.

ZH – O motivo principal da desistência de Sterzi é a transferência da cerimônia de premiação para o Rio de Janeiro, algo que se dá apenas pela projeção do vencedor. O que o senhor pensa disso?
Secchin –
Aí já é outra questão. Isso não tem nada a ver com o prêmio em si. É uma questão de logística de operacionalidade do prêmio. Um concurso como o Moacyr Scliar é de dimensão nacional. Os organizadores do Prêmio acharam que esse concurso de caráter nacional sendo oferecido na Bibloteca Nacional daria mais visibilidade ao prêmio, mas isso é uma questão interna. Até o local da entrega já ser alvo da polêmica me parece desviar o foco da questão de que possa ter havido um livro que foi o melhor dentre os inscritos.

ZH – Mas a transferência obedeceria a uma idiossincrasia do premiado, o fato de que Gullar não viaja de avião?
Secchi –
De fato, Ferreira Gulllar é um poeta que há alguns anos optou por não fazer viagens de avião, é um homem de idade, não vejo problema nisso. Mas se o prêmio fosse entregue em Porto Alegre, para esses casos há uma fórmula muio simples, que seria enviar um representante. Quando se optou pelo Rio de Janeiro, não foi só para atender a um pedido do Gullar. Quem sabe na biblioteca Nacional o Prêmio vá ter uma divulgação maior ainda. Quando ele ganhou o Prêmio Camões também o prêmio foi entregue no Rio de Janeiro.

ZH – E o fato de a editora do livro também oferecer o coquetel de entrega não lhe parece estranho?
Secchin –
Como se sabe, o prêmio não é apenas para o autor, esse prêmio é para a editora também. Qual é o absurdo de uma editora premiada com um dinheiro em concurso nacional, querer fazer uma festa para o autor que ganhou esse prêmio? A Biblioteca nacional não está gastando um tostão da festa, o que talvez fosse mais problemático. Acredito que é muito mais decoroso que a editora, como retribuição desse prêmio, use um pouco do valor para organizar uma festa para seu autor.

O Instituto Estadual do Livro responde

21 de março de 2012 3

Ricardo Silvestrin, diretor do IEL. Foto: Mariana Muller

O Prêmio Moacyr Scliar foi anunciado oficialmente em agosto do ano passado.  Patrocinado pela Petrobrás e pelo Banrisul, ele oferece R$ 150 mil para o escritor e R$ 30 mil para a editora da obra vencedora, para custear uma nova edição a ser distribuída em bibliotecas. A primeira edição do prêmio foi aberta a livros de poesia publicados nos dois anos anteriores. A segunda edição, prevista para o ano que vem, vai contemplar contos também lançados até dois anos antes, e assim sucessivamente, alternando os dois gêneros. Foram 152 livros inscritos no certame, entre eles Aleijão, de Eduardo Sterzi.

O livro vencedor foi Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (José Olympio, 2009). Sterzi recebeu Menção Honrosa, bem como os livros Em Trânsito, de Alberto Martins (Companhia das Letras); A Vida Submarina, de Ana Martins Marques (Scriptum) e Lar,, de Armando Freitas Filho (Companhia das Letras).

Na última sexta-feira, Sterzi renunciou à menção em uma mensagem dirigida ao diretor do Instituto Estadual do Livro, Ricardo Silvestrin. Para ouvir a posição do Instituto sobre os Motivos que levaram à renúncia de Sterzi e sobre os comentários feitos por ele em sua carta de renúncia, entrevistamos Silvestrin, também por e-mail:

Zero Hora – O poeta Eduardo Sterzi renunciou, em uma carta aberta endereçada ao senhor, à menção honrosa que havia sido conferida a ele pelo Prêmio Moacyr Scliar. Ele cita como razões a mudança para o Rio da solenidade oficial de entrega e o fato de a própria editora da obra vencedora oferecer o coquetel de premiação – como de fato está expresso no convite que foi divulgado pelo IEL. O senhor já leu o comunicado? Qual sua posição oficial sobre ele e sobre os pontos apontados por Sterzi?
Ricardo Silvestrin
– Sim. O autor enviou e-mail para o IEL na sexta feira (dia 16), às 21h31min, solicitando que seu nome e seu livro fossem retirados da lista dos ganhadores de menção honrosa. Foi respondido a ele, com base no item 6.4 do regulamento, que diz os casos omissos serão resolvidos pela Secretaria de Estado da Cultura e pelo Instituto Estadual do Livro, que sua solicitação, embora não concordando com seus argumentos, foi aceita. Os outros pontos estão respondidos abaixo das tuas perguntas.

ZH – Por que um prêmio realizado no Rio Grande do Sul, homenageando um dos maiores escritores do Rio Grande do Sul e conferido por uma secretaria de governo do Rio Grande do Sul terá solenidade de entrega oficial no Rio de Janeiro? A escolha do agraciado determinou a mudança do local de entrega? Por quê?
Silvestrin –
O agraciado, Ferreira Gullar, comunicou à Secretaria de Cultura e ao IEL que não viaja de avião. Não viajou, por exemplo, para Lisboa quando foi o escolhido para receber o prêmio Camões, que foi entregue a ele também na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como o Governador Tarso Genro estaria no Rio em função de atos do governo, no dia 29, data prevista pelo edital, o Governo, a Secretaria de Cultura e o IEL decidiram aproveitar a oportunidade para fazer a entrega. Embora realizado por uma Secretaria de Estado do Rio Grande do Sul, embora leve o nome de um dos maiores escritores nossos, trata-se, também, de um prêmio nacional que leva o nome de um dos maiores escritores nacionais. A vontade, é claro, era realizar a entrega aqui, no Palácio do Governo. Mas, em virtude da inviabilidade de deslocamento do vencedor, não foi possível.  Outro ponto levantado pelo autor que pediu sua exclusão da lista dos ganhadores de menção honrosa – menções que foram propostas pelos jurados e aceitas pela Secretaria e pelo IEL – seria o fato do coquetel de confraternização ser pago, no Rio de Janeiro, no próximo dia 29, pela editora premiada.  Como está no edital, a editora do livro premiado (e poderia ser mesmo um livro independente; sendo nesse caso o autor também o editor), recebe a quantia de trinta mil reais como pagamento pela compra dos direitos de edição para uma nova tiragem de cinco mil exemplares impressa pela Corag (apoiadora do Prêmio). Essa edição será distribuída nas bibliotecas públicas e pontos de cultura do estado. Nada, a nosso ver, impede a editora de oferecer um coquetel, por sua iniciativa, para receber os convidados do evento, o autor, as autoridades e confraternizar com todos. Aliás, essa é a praxe em lançamentos.

ZH – O edital do prêmio, como é padrão em certames do gênero, proíbe a inscrição de membros da comissão julgadora e de parentes e “afins”. Sterzi argumenta que, dada a reconhecida amizade de Antônio Carlos Secchin com Ferreira Gullar, soa estranha a premiação. O “afins” neste caso não englobaria também críticos que tenham prefaciado, apresentado ou recebido agradecimentos nos livros inscritos?
Silvestrin –
Não. O “afins”, segundo o Direito de Família, define o que segue:
“O parentesco pode ser, portanto: a) consangüíneo ou natural, quando se funda na igualdade de sangue; b) afim, quando se forma entre um indivíduo e a família de outro, por intermédio da união sexual.”
Ou seja, não se trata de parente afim (sogro, cunhado, genro, concunhado…) Além disso,  as decisões da comissão julgadora são soberanas – o IEL não tem qualquer interferência no resultado do concurso.  Se, por hipótese, o IEL tivesse a possibilidade de qualquer ingerência – o que seria um absurdo legal, veja-se: a comissão julgadora é composta por 5 membros. A decisão foi por unanimidade – e dessa comissão fazem parte, por exemplo, pessoas com a idoneidade moral e intelectual de um Armindo Trevisan, pra citar um nosso conterrâneo. Essa comissão não considerou que o fato de um dos membros ter feito o prefácio da obra de um autor de longa trajetória na cultura brasileira fosse um impedimento a ponto de propor a sua abstenção na votação. Matematicamente, um voto nada poderia fazer contra os outros.  E a votação foi individual.  Houve prazo de recurso contra a decisão, o qual se esgotou, e ninguém interpôs recurso algum, isto é: a comunidade literária reconheceu como idônea a atribuição do prêmio.

ZH – A formação da comissão julgadora foi efetuada pelo IEL e pelo Secretário de Cultura do Estado, de acordo com o que está no edital. Qual foi o critério de escolha dos nomes que formaram o júri?
Silvestrin –
O critério está explicitado no item 3.1. Todos os nomes escolhidos se enquadram nesse critério. São poetas, ensaístas, antologistas, professores com destacada atuação no meio literário do país. Procurou-se compor um grupo que tivesse uma visão tanto da produção contemporânea, como o caso do crítico e antologista Ricardo Vieira Lima, da produção dos últimos quarenta anos, como a professora, antologista e editora Heloísa Buarque de Holanda, ensaístas e poetas destacados, como Trevisan, Secchin e Carlos Felipe Moisés.  Todos foram convidados quando do lançamento do edital. Os livros inscritos foram divulgados e enviados para a Comissão Julgadora só após o IEL tê-los recebidos dento do prazo de inscrição. Não havia como barrar qualquer jurado antes da inscrição dos exemplares. Depois disso, a decisão se haveria algum impedimento para o julgamento ficaria a cargo da Comissão Julgadora.

Polêmica nos bastidores do Prêmio Moacyr Scliar

21 de março de 2012 10

Eduardo Sterzi na Flip 2011. Foto: Walter Craveiro, divulgação

Na central de hoje do Segundo Caderno, encontra-se um texto que resume em parte uma polêmica recente envolvendo a 1ª edição do Prêmio Moacyr Scliar. Na última sexta-feira, dia 16 de março, o poeta, jornalista, crítico literário e professor Eduardo Sterzi, que havia sido laureado com uma menção honrosa no resultado pelo júri do prêmio, enviou um e-mail ao diretor do Instituto Estadual do Livro renunciando à premiação.

De acordo com ele, o prêmio havia se tornado um festival de “promiscuidades” e apequenava-se ao mudar a premiação do Palácio Piratini, onde estava inicialmente prevista a entrega oficial, para a Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, devido à bem conhecida aversão de Ferreira Gullar, o vencedor, em pegar aviões. Também mencionava de passagem que era outro “absurdo” o fato de Antônio Carlos Secchin, integrante da Academia Brasileira de Letras, fazer parte do júri. Ele, ao lado de Alfredo Bosi, é um dos prefaciadores da obra que venceu o prêmio, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar.

Para saber mais detalhes dos motivos que levaram o poeta autor de Aleijão (o livro que recebeu a menção honrosa no concurso) a renunciar à menção honrosa que recebeu, procuramos Sterzi, gaúcho que há anos reside em São Paulo, e ele nos respondeu a seguinte entrevista, por e-mail (nos posts seguintes, publicaremos também o contraditório das entrevistas com Ricardo Silvestrin, diretor do IEL, e com o próprio Antônio Carlos Secchin:

Zero Hora – Você divulgou uma carta aberta rejeitando a menção honrosa concedida a Aleijão pelo júri do Prêmio Moacyr Scliar – na qual aponta como motivo a transferência da cerimônia oficial para o Rio. Poderia detalhar um pouco mais seus motivos?
Eduardo Sterzi –
Minha decisão de renunciar à menção honrosa se deu na última sexta-feira, quando recebi um email do Instituto Estadual do Livro com o convite para a cerimônia de entrega do Prêmio Moacyr Scliar. Não posso dizer que fiquei surpreso com a decisão de transferir a cerimônia para o Rio de Janeiro, porque já imaginava que algo assim poderia acontecer. Mas a falta de surpresa não diminuiu minha indignação ao enfim confirmar o que, em alguma medida, já se desenhava desde que o nome do vencedor do prêmio foi anunciado. Para quem conhece um pouco do comportamento pregresso de Ferreira Gullar, era óbvio que ele não se deslocaria a Porto Alegre para receber o prêmio. Já se tornou parte da mitologia pessoal do poeta, amplamente divulgada e freqüentemente reiterada pelo próprio, seu medo de avião, que funciona como um ótimo álibi para fugir de compromissos indesejáveis.
Ferreira Gullar está em seu direito, claro, em se recusar a voar seja para onde for; o que não compreendo é que, dada a recusa do autor, o Instituto Estadual do Livro ou o governador (que, segundo o convite, confirmou sua presença) tenham decidido transferir para outro estado uma festa que, evidentemente, deveria ocorrer em solo gaúcho. Não consigo me lembrar de outro prêmio que tenha feito isto, ainda mais se tratando de uma premiação promovida pela administração pública. Consegues imaginar, por exemplo, o Prêmio São Paulo de Literatura deslocando sua cerimônia de entrega para outro estado? Isto é falta de dignidade, falta de altivez. O que se quer? Conferir prestígio ao novo prêmio com uma meia dúzia de fotos de autoridades sul-riograndenses ao lado do “grande poeta”? Pois o resultado, a meu ver (e não só meu), foi precisamente o contrário. O prêmio se desvaloriza, o nome do seu patrono é desrespeitado e a imagem do Rio Grande do Sul, que é o meu estado, sai diminuída. Mas o que realmente me escandalizou foi verificar que, entre os apoiadores do evento, se encontra a editora agraciada junto ao seu autor (não esqueçamos que não só Ferreira Gullar ganhou R$ 150 mil, mas que também a José Olympio arrebatou R$ 30 mil). Também não consigo me lembrar de prêmio algum que acabe incluindo entre os patrocinadores de sua festa de entrega (no caso, o coquetel) um dos próprios ganhadores. Isto é promiscuidade – não há outra palavra.

ZH –  Você menciona que Antônio Carlos Secchin, um dos integrantes do júri, é um dos prefaciadores do livro vencedor, Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar. Crê que isso tenha influenciado a decisão final do júri?
Sterzi –
É impossível afirmar que o fato de Secchin ser um dos prefaciadores do livro premiado influenciou na decisão do júri. Mas acredito que, seja ele mesmo, sejam os organizadores do prêmio, alguém deveria ter percebido que havia aí um impedimento ético. O que se pode supor, com alguma segurança, é que pelo menos um dos votos dos jurados já tinha uma clara tendência, uma vez que o comprometimento de Secchin com a obra de Gullar não se limita à redação do prefácio do seu último livro, mas é antigo, constante e intenso, a ponto de, em janeiro de 2002, o crítico ter viajado até Estocolmo para apresentar à Academia Sueca a candidatura do poeta ao Nobel (cf. p. ex. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u21150.shtml). Lembro ainda que não se trata do primeiro júri de que Secchin participa e do qual Gullar sai como vencedor. Isto já aconteceu no Prêmio Camões de 2010. “Naturalmente”, naquela ocasião, foi o mesmo crítico a telefonar para Gullar para lhe dar a notícia… (cf. p. ex.
http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,ferreira-gullar-ganha-o-premio-camoes,559893,0.htm).
Friso que não vejo nenhum problema no comprometimento de um crítico com determinado autor que ele admire especialmente. O que acho complicado é que este comprometimento passe a envolver dinheiro público e instituições que deveriam agir com a máxima transparência possível. Fico extremamente incomodado com o fato de que isto se dê justo com o Instituto Estadual do Livro, órgão pelo qual tenho o orgulho de ter publicado o meu primeiro livro, Prosa, em 2001.

ZH – Você anunciou a sua renúncia no dia 16 de março. Por que não na época do anúncio da premiação?
Sterzi
– Porque, como disse na primeira resposta, só recebi o convite para a cerimônia no dia 16.

ZH – Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?
Sterzi –
É certo que, no âmbito literário, cuja amplitude é relativa, inevitavelmente chegará um momento em que haverá relações entre jurados e concorrentes. Não só relações positivas, frise-se, mas também relações negativas – umas ou outras, nos mais diversos graus de comprometimento. Foi por estar consciente dessa quase inevitabilidade que, ao confirmar que o resultado da premiação era o que eu já previa, preferi não me manifestar a respeito e acabei aceitando a menção honrosa que me foi oferecida. Friso que, embora acredite que, pelas razões já expostas na minha segunda resposta (sobretudo o grau de comprometimento entre crítico e autor neste caso específico), havia um impedimento ético para a participação de Secchin no júri, não foi este o motivo de minha renúncia à menção honrosa. Questões éticas são sempre passíveis de discussão, dependem de escalas de valores compartilhadas ou não por uma comunidade, dependem até mesmo – como tu bem observas – das particularidades da constituição de uma determinada comunidade (aqui, por exemplo, o fato de ser relativamente restrita). Renunciei à menção honrosa por um fato muito objetivo, que foi a transferência da cerimônia de entrega do prêmio para outro estado que não aquele que promoveu o prêmio. Isto me pareceu uma falta de altivez e de dignidade indiscutíveis. Algo realmente inédito, diria até mesmo impensável no caso de outros prêmios promovidos por instituições ligadas a governos estaduais. Não vejo nisto senão um casuísmo deplorável. Pergunto-me: digamos que o agraciado tivesse sido qualquer outro autor que também alegasse medo de avião ou outro motivo para não ir a Porto Alegre receber o prêmio; o IEL também transferiria a cerimônia para a cidade em que este hipotético autor mora? O governador do Estado também se deslocaria para esta cidade? Não vamos longe: se o agraciado tivesse sido qualquer um dos ganhadores de menção honrosa, isto aconteceria? É evidente que não. Seria absurdo. E é absurdo. A isto se soma o fato de, no convite oficial para o evento, a editora premiada aparecer também como apoiadora, isto é, em bom português, como patrocinadora (e, portanto, dona) de parte da festa. É claro que a José Olympio tem todo o direito de promover um coquetel em homenagem ao seu autor. O que acho promíscuo é este coquetel tornar-se parte da própria cerimônia de premiação. Vejo aí uma promiscuidade lamentável, que também não comporta, a meu ver, muita discussão. Que a editora proponha tal coisa, tudo bem; que o IEL aceite, é um absurdo. Que eu me lembre, nos júris de que participei, nunca um houve uma situação como esta ocorrida no Prêmio Moacyr Scliar (até porque, que eu saiba, nenhum outro crítico brasileiro viajou a Estocolmo para apresentar a candidatura de outro escritor ao Nobel…), tampouco como as que mencionas (prefácio, homenagem ou menção nos agradecimentos). A maioria dos júris de que participei foi de concursos literários destinados a obras inéditas, em que não tínhamos acesso aos nomes dos autores. E, no único caso diverso, o Açorianos de 1997, não me lembro de haver nenhum problema dessa ordem.

Em uma comunidade literária, as relações entre jurados e concorrentes não acabam sendo de algum modo inevitáveis, uma vez que os jurados são, em sua maioria, também profissionais do meio, críticos ou criadores? E em algum certame no qual você participou como jurado, em algum momento houve, devido ao grande número de inscritos, alguma relação (prefácio, homenagem ou mesmo menção nos agradecimentos) com obras concorrentes?

Descoberta do fim do ano

29 de dezembro de 2011 0

Mural de Diego Rivera que mostra Mussollini abençoado pelo papa pró-fascista Pio XI. Divulgação, L&PM

O escândalo dos abusos sexuais cometidos por padres tem levantado essas questões com maior evidência, mas existem outras violações e outros problemas causados pelos altos sacerdotes políticos que, por algum motivo teológico, incentivam o ódio, a violência ou a discriminação dentro de suas comunidades. A liberdade de religião não dá o direito a pregar o ódio, como descobriram alguns mulás radicais que foram condenados em Old Bailey, o tribunal judicial geral de Londres. Em 2009 a Grã-Bretanha barrou a entrada de vários evangelistas dos Estados Unidos e um apresentador de rádio texano no país por receio de que eles pudessem promover a homofobia; em 2010 um fanático religioso foi preso no centro de uma cidade por ter manifestado aos policiais locais suas ideias de que o homossexualismo era errado. Sensatamente, as autoridades decidiram não processar esse indivíduo, que era sem dúvida apenas um maluco qualquer. No entanto, esse não é o caso do papa Bento XVI. Caso volte a professar em público sua visão já muitoas vezes exposta de que o homossexualismo é “perverso” e de que todos os os homossexuais são pessoas com problemas de personalidade, ele estará fazendo pleno uso de seu cargo espiritual para demonizar uma camada da população protegida  pela igualdade perante a lei. Há sempre, é claro, um limite a ser respeitado em favor da liberdade de expressão, embora o poder das condenações papais seja muito maior do que o dos mulás e dos evangelistas norte-americanos banidos, mesmo (especialmente, na verdade) quando expressadas em uma linguagem decente para suas congregações religiosas. Caso o papa Bento XVI ameaçasse professar com força total suas visões, que já foram acusadas de incitar o espancamento de homossexuais no Brasil e em outros países católicos, o Ministério do Interior britânico também não poderia, sendo coerente quanto às suas decisões em outros casos, permitir sua entrada no país. No entanto, seria inconcebível  para o governo do Reino Unido barrar a entrada do papa. Pelo contrário, ele foi convidado para uma “visita oficial”, pela qual os contribuintes britânicos ainda serão obrigados a pagar metade da conta, estimada hoje em mais de US$ 32 milhões – o que não poderia acontecer caso o papa não fosse reconhecido como um chefe de Estado. Conforme previsto, ele deverá descer em Edimburgo de seu avião particular, resplandescente com seu manto de “chefe de Estado” (“um manto de cetim vermelho com bordas de pele por cima de um roquete, e uma estola papal bordada”), para uma reunião com sua  colega chefe de Estado, a rainha Elizabeth II (que deverá estar de preto, já que apenas rainhas católicas podem receber o papa de branco). Ele então voltará a aparecer no dia seguinte com seu modesto manto branco de “chefe da Igreja” para conduzir uma missa pública. Nesse segundo caso suas vestes merecem respeito, mas no primeiro é importante deixar claro que é um exagero.

Comecei apenas ontem a ler o exemplar de O Papa é Culpado? (Tradução de Otávio Albuquerque. L&PM, 280 páginas, R$ 44), livro de Geoffrey Robertson que havia sido enviado para mim pela editora , nas minhas férias. Robertson é um dos mais renomados juristas britânicos e discute longamente em seu livro os pontos técnicos que podem transformar ou não Bento XVI ou qualquer um que vier a ocupar o trono papal em responsável direto ou indireto pela prática e acobertamento de violações de direitos humanos. O questionamento principal levantado por Robertson é justamente o status de nação independente concedido ao Vaticano – que, como ele lembra muito bem, é resultado de um acordo assinado nos anos 1920 com… Benito Mussollini, é aquele mesmo.

Além de um tratamento absolutamente incomum não compartilhado com religião alguma no planeta, o status de Estado para a sede da Igreja Católica tem permitido na última década manobras legais de acobertamento dos escândalos envolvendo padres católicos acusados de pedofilia em suas paróquias, e é esse o foco principal do livro. Ainda não li todo o livro, deixo isso aqui bem claro, mas Robertson lista numerosos casos de denúncias e queixas de pedofilia levadas à Igreja Católica ao longo de 50 anos e acobertadas ou ignoradas pelas dioceses seguindo uma política oficial do Vaticano de resolver tais questões no âmbito interno da igreja – o que, lembra Robertson claramente, contraria dispositivos que são a base do Estado laico: a liberdade religiosa não autoriza ninguém a cometer crimes. Para piorar, a forma como a igreja muitas vezes trata de tais assuntos é praticamente uma garantia de impunidade: vários padres acusados de pedofilia em paróquias americanas foram realocados para outras comunidades em Roma, na América Latina e, principalmente, na África, sem menção alguma a sua folha corrida anterior, praticamente garantindo campo livre para a reincidência em uma nova paróquia desinformada.

Os argumentos de Robertson  referem-se muitas vezes a casos e leis específicas da common law aplicada na Grã-Bretanha, mas se estendem muitas vezes para questões gerais de direito e Justiça válidas para qualquer nação democrática. Afinal, como ele mesmo escreve em determinado trecho: “todas as  instituições que oferecem ensino ou orientação a jovens devem estar alertas para o perigo de que adultos abusem da confiança a eles conferida. Uma organização religiosa que impõe o celibato aos seus sacerdotes e concede ao clero o poder de dar orientação espiritual e amplas oportunidades para influencias crianças deveria estar particularmente alerta”.

O livro além de tudo, e talvez involuntariamente, é um libelo contundente contra o argumento sempre apresentado pelos críticos do ateísmo de que só pode existir um sistema de valores morais dentro de um sistema de fé religiosa. Como demonstra Robertson, assim como existe uma ética e uma moral laica humanista, há práticas religiosas de duvidosa qualificação moral…

Boa leitura para este fim de ano e início do próximo.

O Mundo dos Quadrinhos...

21 de outubro de 2011 1

A repercussão de um artigo da revista Veja publicado há duas semanas apresentando os resultados de uma pesquisa da UFRGS a respeito das exigências de leitura do ENEM provocou alguma discussão na rede não tanto pela suposta ausência da literatura como tema de questionamento para o estudante entrar no ensino superior, mas pela comparação com a suposta presença supervalorizada das histórias e tiras em quadrinhos no exame – e estou usando “suposta” porque não li a pesquisa, estou partindo da interpretação oferecida só pela matéria. E eu só uso a pesquisa e a matéria, aqui, como gancho para outra coisa, como vocês verão, então não me estenderei muito sobre esse ponto.

Entre os que contribuiram com solidez para a discussão estão o professor Paulo Ramos, no Blog dos Quadrinhos, e o blogueiro Liber, em sua página Liberland. Em ambos os casos, os textos escritos por eles estranhando a necessidade de se demonizar os quadrinhos para alertar para o abandono da literatura geraram produtivas caixas de debates – contando com a presença do próprio autor da matéria, Jerônimo Teixeira. Acompanhem lá. Os defensores da abordagem (note que não emito aqui opinião sobre o ensino de literatura, e sim sobre esse caso em particular, minha opinião sobre o ensino da literatura na escola já foi expressa nestes dois posts) lembram que a comparação procede uma vez que os quadrinhos são um objeto de leitura menos exigente do que qualquer literatura – e para fechar a conta comparam com Graciliano e Guimarães Rosa, uma comparação algo tendenciosa, a meu ver, uma vez que vai direto ao topo da pirâmide. Ok, Machado, Graciliano, Guimarães são ápices de nossas letras, mas antes de chegar lá o aluno ainda vai passar por muito entulho passadista que ainda se mantém no cânone pela abordagem eminenemente historicista e aestética do ensio de literatura – penso rapidamente em Casemiro de Abreu ou Coelho Neto, por exemplo.

Creio que isso denota sim uma certa má-vontade contra os quadrinhos. Como uma leitura se pronunciou no blog do liber, a revista, um veículo de imprensa, não comparou a ausência de literatura nas questões do Enem à reprodução de textos jornalísticos, e sim aos quadrinhos, que são tidos como menores porque, na opinião mais corrente, são livros “que vem com as figurinhas” e, portanto, são de mais fácil assimilação – e a culpa desse preconceito não é só dos literatos, de modo geral: algumas editoras se lançam a adaptações de quadrinhos que apenas resumem a história de um livro consagrado mirando o leitor jovem preguiçoso ou a imagem que se faz desse leitor. Isso mais atrapalha do que ajuda.

Ao pensar sobre as razões dessa imagem algo pueril dos quadrinhos, me dou conta que talvez o problema esteja também na falta de uma fortuna crítica sólida. A indústria dos quadrinhos de super-herói vive um de seus momentos mais tristes e apelativos em décadas, mas o universo das revistas não se restringe a isso. No universo da literatura de ficção, por exemplo, creio que apenas Jonathan Safran Foer e Don de Lillo ofereceram peças mais relevantes sobre o 11 de Setembro do que, acredite, quadrinhos como ZDM, de Brian Wood e Riccardo Burchielli, ou Ex-Machina, de Brian K. Vaughan e Tony Harris, pra ficar em apenas um exemplo. Mas um dos elementos essenciais para que uma forma de arte se estabeleça e angarie até mesmo respeito é o desenvolvimento de conjunto de reflexões teóricas que ampliem os horizontes estéticos dessa arte. E apesar de ser chamada por seus apreciadores de “Nona Arte”, a História em Quadrinhos – “Narrativa” ou “Arte Seqüencial” são outros nomes possíveis – ainda engatinha nesse quesito.

A L&PM relançou este ano a monumental Enciclopédia dos Quadrinhos, um trabalho pioneiro do jornalista Hiron Goidanich, o Goida, agora atualizado com a colaboração de André Kleinert – uma obra alentada que apresenta em verbetes a história de grandes autores. Pelo seu teor enciclopédico é livro de referência obrigatório, mas não estaria incluída na necessária obra crítica que falei. Por enquanto, acho que os livros ainda mais bem acabados a pensar questões estéticas, narrativas e conceituais das HQs com a seriedade necessária ainda são os de de Scott McCloud, principalmente Desvendando os Quadrinhos (M.Books, 266 páginas 2005), uma aula sobre os quadrinhos como arte e seus recursos técnicos.

Como autor de quadrinhos propriamente dito, McCloud é pouco conhecido no Brasil. Escreveu uma série de cunho experimentalista chamada Zot!, nos anos 80, e histórias para Superman Adventures, a revista que adapta para páginas de gibi o desenho animado do Homem-de-Aço. Quase nada desse material foi publicado por aqui. E McCloud também já teve lançado por aqui Reinventando os Quadrinhos e Desenhando os Quadrinhos, o segundo sobre o impacto das novas técnicas computadorizadas e as possibilidades da Internet e o terceiro sobre questões de narração e desenho. O livro de McCloud é uma daquelas obras que, se olhadas com pressa, podem ser vítimas de injustiça. Classificá-lo é tarefa ao mesmo tempo das mais fáceis e das mais difíceis – a classificação costuma ser inimiga dos quadrinhos.

É, primeiramente, um livro em quadrinhos, isso está claro desde a introdução – também apresentada em desenhos. Mas é também um texto teórico inteligente, amplo, estruturado com segurança e que apresenta argumentos consistentes de forma clara, ou seja, tudo o que se espera de um exemplar da boa prosa ensaística sobre arte (não apenas literatura, mas teatro e artes plásticas, por exemplo). Ao mesmo tempo, é e não é uma história em quadrinhos no sentido mais comum do termo, uma vez que quadros, desenhos e variantes narrativas são sim usadas para contar uma história: a dos próprios quadrinhos como meio de expressão. Nas 266 páginas do livro, McCloud disserta sobre as HQs como veículo de ideias, mapeia as origens da narrativa por imagens e estuda detalhadamente o progresso técnico e narrativo dos quadrinhos. Os nove capítulos abordam as definições do que seria arte seqüencial, as formas de relação, interação ou mesmo oposição entre texto e imagem e os diversos estilos de representação encontráveis nas páginas dos comics – ou seja, todos os elementos negligenciados pela polêmica quando se classifica os quadrinhos de cara como literatura menor ou menos exigente.

McCloud constrói seu livro em torno de dois pilares teóricos. O primeiro é de que o cartum, a forma de desenho mais simplificada, permite uma identificação maior do leitor ao podar traços específicos, levando o espectador a ocupar em sua imaginação o espaço do desenho. O segundo é de que, no espaço entre os quadros, o leitor é convidado a, em sua imaginação, atribuir significado ao que seriam duas imagens isoladas – em última análise, vale dizer que o leitor constrói a obra com o autor o tempo todo por meio de um processo que McCloud denomina Conclusão, a dedução do que não foi mostrado. A obra de McCloud rende tributo a outro estudo seminal dos gibis como linguagem e arte: Quadrinhos e Arte Seqüencial, de Will Eisner. As diferenças básicas entre as duas obras são que Eisner escreve em prosa e ilustra com páginas de quadrinhos, enquanto McCloud argumenta em quadrinhos o tempo todo – fazendo a crítica teórica da forma na forma, o que não deixa de ser ambicioso. Ele também tece considerações sobre cor, representações de tempo e movimento e expande o leque para discussões sobre a arte em geral, a formação do gosto do público, a evolução tecnológica.

Por que então a obra de McCloud é uma ave tão rara? Com grandes obras já publicadas provando o quanto os quadrinhos como veículo expressivo, artístico e formal podem ir longe (Scott Pilgrim, Asteryos Polip, Fun Home, American Born Chinese, Persépolis), por que tais obras não despertam mais ensaios argutos e entusiasmados, estudos breves e incisivos, comentários mais aprofundados? Será que o calcanhar de Aquiles dos quadrinhos como gênero são as poucas ressonâncias que ficam no leitor após o fim da obra? Não creio. Mas também não sei apontar um motivo.

Ah, sim, citei obras que são arte de fato em quadrinhos, enquanto o Enem vai de Garfield e outras tiras de jornal. Tá ok, mas quando o que valia era o vestibular unificado já havia tiras de jornal na prova de literatura e português, e a gente precisava responder a sério perguntas sobre Fagundes Varella. Logo, o centro da questão não é esse: mesmo uma prova de 35 questões de literatura não ia direto ao osso, e sim ficava em circunvoluções históricas, e nem toda literatura brasileira é Guimarães Rosa e Machado de Assis.

Os que estão acima do bem e do mal

03 de setembro de 2011 0

Manguel no traço de Paulo Caruso

O velhíssimo ditado “Faz a fama, deita na cama” veio a propósito da recente Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Há nomes celebrados, que não justificam, estão aqui para enganar. Um deles foi o tão elogiado (por acadêmicos) Luiz Costa Lima, que teve uma atitude de absoluto menosprezo por seus colegas e pela Jornada, talvez pensando: estou aqui entre provincianos, que não merecem o meu ilustre saber. Ora, o senhor Costa Lima é célebre em todos os meios por escrever numa linguagem hermética, que somente ele e alguns de seus pares compreendem. Fora disso, uma vaidade imensa o impede de chegar ao leitor comum, que não o interessa, porque ele está em um pedestal inacessível. Tanto que, no palco da Jornada de Passo Fundo, dormiu durante os debates, quem sabe porque aquela plateia não fosse digna de sua sabedoria e altura. Na hora em que deveria falar, disse meia dúzia de frases, mostrando que nada tinha preparado. Depois, achou tudo uma confusão, como declarou depois. Chegou a hora de rifarmos esse tipo de gente que pertence a um meio acadêmico que gira em torno de seus umbigos, indiferentes ao mundo que caminha.

Outro foi Alberto Manguel, tido como o “especialista” em bibliotecas e leitura etc. Ele, que vem reescrevendo os mesmos livros nos últimos anos, teve uma participação decepcionante. Mas, alçado ao trono de “especialista”, ali flutua, segurando o cetro. Na mesa em que participou, destratou, foi grosseiro com a escocesa Kate Wilson, que procurava mostrar um projeto ainda em execução, o de histórias infantis em tablets. Manguel veio com dois pés para cima da mulher, dizendo que aquilo era “deformação” do leitor, não formação. Tremenda injustiça, frase de efeito, provocativa (tanto que ele foi recuando depois, quando desceram o pau nele). Ora, Manguel continua no século 19, ainda não chegou ao 21, quando a informática está aí, irreversível. Para Manguel, nada que envolva a experimentação, a busca, a pesquisa, as formas de conquistar novos leitores, que usam celulares, Twitters, iPhones, iPads, iPods, tablets, e-books, GPS, em constante comunicação.

Nada disso existe para esse ensaísta. Um amigo comentava na saída da sessão em que o argentino, hoje canadense, se pegou com Kate Wilson: “Ele se celebrizou por ser leitor de Borges. Borges, cego, tinha pessoas que liam livros para ele. Mas, o que não se sabe é que Borges o mandava ler, mas o proibia de dar opinião“. Uma boutade, claro, mas estou enviando um GPS de presente ao Manguel para que ele ache o caminho deste milênio.

* Texto de Ignacio de Loyola Brandão, autor, entre outros, de O Menino que Perguntava (Objetiva, 2011)