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Posts na categoria "Policial"

Dois sentidos de execução

28 de novembro de 2013 0

quintateste

Um dos principais autores policiais em atividade, Michael Connelly produz muito e rapidamente. E não raro ancora suas tramas na realidade imediata, transformando-as em comentários da contemporaneidade. É o que faz em seu mais recente lançamento no Brasil, A Quinta Testemunha, no qual usa as consequências da crise financeira internacional como pano de fundo para um romance de crime.

Em A Quinta Testemunha, o protagonista é o advogado Michael Haller – que já havia aparecido em outros romances, como O Poder e a Lei, transformado, em 2011, num filme estrelado por Matthew McConaughey. Especialista criminal, Haller é forçado pela crise a mudar de ramo, atuando como defensor de alguns dos milhares de americanos que estão tendo suas hipotecas executadas pelos bancos. Com o desenrolar do romance, no entanto, ele se vê outra vez diante de um júri criminal depois que uma de suas principais clientes, uma ruidosa ativista, é acusada de executar – no sentido físico – o gerente de execuções – no sentido jurídico – do banco que tentava tirar- lhe a casa.

Uma das características que dotam de valor a obra de alguns grandes romancistas policiais contemporâneos é o equilíbrio delicado entre a manutenção de uma forma que é mais ou menos a mesma desde o século 19 (afinal, um romance de crime faz parte de um gênero bastante demarcado) e a subversão dessa mesma forma. É o truque dos grandes autores de suspense da contemporaneidade, como Fred Vargas, Dennis Lehane, Ian Rankin: desenvolver um estilo pessoal reconhecível no meio do que é, essencialmente, uma receita formulaica.

Connelly também faz parte desse time. Seus livros, embora tragam histórias fechadas e independentes, têm o hábito balzaquiano de fazer com que personagens de uma narrativa apareçam como coadjuvantes em outras, montando um grande painel da sociedade americana. Mas, em A Quinta Testemunha, ele é menos bem-sucedido. Diferentemente dos livros de Connelly protagonizados pelo detetive Harry Bosch, as histórias em que Michael Haller é o centro têm de lidar, ainda, com outra fórmula (bem típica do mercado editorial americano): o romance de tribunal.

Em A Quinta Testemunha, é aí que Connelly desaponta.  Embora trate de um tema candente do momento, como a crise econômica, o foco do romance no julgamento (também um teatro com regras demarcadas) não se afasta muito do modelo de autores como John Grisham ou Scott Turrow. Dado o que Connelly já fez antes, não é o bastante.

Tarantino por escrito

31 de janeiro de 2013 0

Depois de voltar do cinema onde havia assistido a Django Livre, de Quentin Tarantino, uma ideia para um post me fez correr até a até a estante (na verdade não corri coisa nenhuma, cheguei em casa, larguei a pasta em cima do sofá e olhei com toda a calma do mundo para a estante bem ao lado dele). Com Tarantino outra vez alvo de  atenções no momento em que nos aproximamos das duas décadas de Pulp Fiction, ocorreu-me que havia um motivo para falarmos em Tarantino aqui no blog de livros – em vez de no de cinema. É que Tarantino já foi um dos chamarizes de uma coletânea noir publicada aqui no Brasil no fim dos anos 1990. Sim, em livro.

Noir Americano é uma antologia de contos policiais publicada como parte da Coleção Negra da editora Record e organizada por Peter Haining — um antologista que chegou a ser constante nas prateleiras do Brasil na década de 1990. A Imago publicou na época outra compilação, O Livro dos Assassinatos, em três volumes, reunindo um século de histórias policiais dos mestres do gênero suspense.

Três é também um número chave para Noir Americano, no qual Haining organiza em três partes 20 histórias curtas de grandes nomes do policial feito nos Estados Unidos. Em Detetives Durões, a primeira seção, predominam histórias dos detetives particulares, esses sujeitos vistos com desconfiança pela polícia e com desprezo pelos civis que cruzam seu caminho. A segunda parte, Tiras e Agentes, dedica espaço a contos nos quais os protagonistas são homens da lei, violentos ou não, corruptos ou incorruptíveis, mas sempre lidando com o que de pior floresce nas fímbrias da sociedade (essa era, inclusive, a grande crítica do teórico Ernst Mandel ao gênero policial: o crime era mostrado como evento isolado da estrutura social. Como Mandel era marxista, para ele a própria sociedade capitalista tinha o crime na essência).

A terceira e última parte do livro é Gângsters, com histórias contadas do ponto de vista do elemento que faltava para termos o clássico tripé de personagens recorrentes nesse tipo de história: o criminoso. Ao todo, o livro reúne alguns dos melhores nomes estadunidenses na arte do crime por escrito: James Ellroy, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Ross McDonald, Elmore Leonard, Coornell Woolrich, Ed McBain, Mickey Spillane, James M. Cain, James Hadley Chase, Jim Thompson e David Goodis, entre outros. No meio desses, outros três que podem ser considerados excentricidades postas de contrabando: Stephen King, aqui trocando o sobrenatural pelo noir, mas ainda com pitadas do horror psicológico característico de sua obra; e dois sujeitos mais conhecidos como diretores de cinema. São eles Samuel Fuller e… Quentin Tarantino.

Fuller até se explica, ele foi um dos mais jovens repórteres da cidade de Nova York em sua época, e passou boa parte dos anos 1930 escrevendo histórias de assassinato e mistério para as mesmas revistas pulp que garantiam o sustento de Chandler e Hammett. Mas a inclusão de Tarantino provavelmente foi devida ao sucesso estrondoso que o à época jovem diretor havia obtido com seu segundo longa, de 1994, Pulp Fiction, ele próprio uma homenagem às histórias de crimes publicadas em papel vagabundo.

O fato é que a participação de Tarantino  na coletânea nada mais é do que a versão em prosa, com algumas sutis alterações e o título de O Relógio, do monólogo do militar Koons interpretado por Christopher Walken em Pulp Fiction (que vocês vêem em cena do filme na foto que ilustra este post) quando vai entregar um objeto valioso ao filho de um companheiro de armas (que, no filme, se tornará o boxeador adulto Bruce Willis). O trecho, extraído, funciona como um conto autônomo, a bem dizer, mas a estranheza principal está em sua localização no livro, na terceira parte. O narrador é um militar falando de outro militar, seu colega de prisão em Hanói, e não parece haver implicações criminosas imediatas no relato, e ainda assim ele está na seção dedicada aos “gângsters”.

Como o conto é curtinho, partilho por aqui – alertando para o fato de que a linguagem, bastante tarantinesca, a seu modo, tem lá suas expressões pesadas e palavrões. A tradução é de Alves Calado.

O Relógio
Quentin Tarantino

Oi, rapazinho. Garoto, ouvi falar um bocado de você.
Veja só, fui muito amigo do seu pai. Ficamos mais de cinco anos juntos naquele buraco do inferno em Hanói.
Espero que você nunca tenha uma experiência assim. Mas quando dois sujeitos estão numa situação igual à que seu pai e eu vivemos, durante o tempo em que vivemos, a gente assume algumas responsabilidades pelo outro.
Se fosse eu que não tivesse sobrevivido, seu pai estaria falando agora com meu filho, Jim. Mas do jeito que a coisa aconteceu, sou eu que estou falando com você, Butch.
Tenho uma coisa para você.
Esse relógio aqui foi comprado pelo seu bisavô. Foi comprado durante a Primeira Guerra Mundial, numa lojinha de Knoxville, Tennessee.
Foi comprado pelo soldado de infantaria Ernie Coolidge no dia em que ele foi para Paris. Era o relógio de guerra do seu bisavô, feito pela primeira empresa que fabricou relógios de pulso. Veja só, até então as pessoas só usavam relógios de bolso.
Seu bisavô usou o relógio durante todos os dias em que esteve na guerra. Depois, quando terminou o tempo de serviço, ele foi para casa, para a sua bisavó, tirou o relógio do pulso e colocou numa velha lata de café.
E o relógio ficou naquela lata até que seu avô Dane Coolidge foi convocado pelo país para atravessar o oceano e lutar mais uma vez contra os alemães. Dessa vez, deram o nome de Segunda Guerra Mundial. Seu bisavô presenteou o relógio ao seu avô, para dar boa sorte.
Infelizmente a sorte de Dane não foi tão boa quanto a do pai. Seu avô era fuzileiro e foi morto com todos os outros fuzileiros na Batalha de Wake Island.
Seu avô estava diante da morte e sabia disso. Nenhum dos rapazes tinha qualquer ilusão de que deixaria vivo aquela ilha.
Por isso, três dias antes de os japoneses ocuparem a ilha, seu avô, que estava com vinte e dois anos, pediu que um artilheiro chamado Winocki, que trabalhava num avião de transporte da Força Aérea e que ele nunca encontrara antes na vida, entregasse o relógio de ouro ao filho bebê, que ele nunca vira em carne e osso.Três dias depois seu avô foi morto.
Mas Winocki manteve a palavra. Quando a guerra terminou, ele fez uma visita à sua avó e entregou o relógio de ouro ao seu pai, que era um bebê. Este relógio.
Este relógio estava no pulso do seu pai quando ele recebeu um tiro em Hanói. Ele foi capturado e posto num campo de prisioneiros no Vietnã.
Bom, seu pai sabia que se os vietcongues vissem o relógio ele seria confiscado. Seu pai achava que o relógio era seu, por direito de nascença. E ele não admitiria que nenhum cabeça-de-bagre pusesse as mãos amarelas e sujas no que era de seu menino por direito de nascença.
Por isso escondeu-o no único lugar onde poderia esconder alguma coisa. No cu.
Durante cinco longos anos ele usou este relógio no cu. E quando morreu de disenteria, me deu o relógio. Eu escondi esse pedaço de metal desconfortável no meu cu durante dois anos. E então, depois de sete anos como prisioneiro, fui mandado para casa e para minha família.
E agora, rapazinho, eu lhe entrego o relógio

O canto da sereia

28 de dezembro de 2012 0


"É no balanço da rede..." Foto: Estevam Avellar, Globo, Divulgação


Vamos acrescentar um tom pop a este fim de ano. Como sou um cara meio desligado, custei a saber que a Globo está para estrear uma minissérie chamada O Canto da Sereia, estrelada pela Ísis Valverde no papel da própria (o que nos dá a desculpa anual para publicar um post com foto de mulher gostosa neste blog. Não me xinguem, a experiência comprova que a audiência aumenta com esses artifícios, que eu repito muito pouco).

Mas eu falava de O Canto da Sereia. Quando finalmente vi a propaganda do programa, em uma recente estada em minha cidade natal, no Interior, reconheci, pelo título e pela trama básica que se podia depreender do comercial, que a obra é uma adaptação do romance homônimo de Nelson Motta lançado em 2002 – estreia do jornalista na ficção, a tentativa de construir uma espécie de policial clássico na tórrida Bahia. Na história, Motta cria um detetive baiano, Augustão, dedicado a solucionar o assassinato de uma popular cantora de axé music em pleno Carnaval de Salvador. Já na capa o livro se definia como um “noir baiano”, uma aparente contradição ao mesclar as enfumaçadas atmosferas do romance policial com a quente e ensolarada Bahia.  Como as coisas ficam mais pasteurizadas na TV, o Augustão do livro, descrito como um baiano corpulento-quase-gordo, será encarnado na telinha pelo galã Marcos Palmeira.

E como a estreia da série, no dia 8 de janeiro próximo, é um bom pretexto para um post, recupero aqui a entrevista que fiz com o autor do livro, Nelson Motta, por ocasião do lançamento do romance, e que foi publicada no Segundo Caderno em novembro de 2002 (“Jeez, it’s been 10 years!”):

Zero Hora – Por que estrear como romancista escrevendo um policial?
Nelson Motta
– Eu estava havia dois anos buscando uma idéia para um novo livro, já meio angustiado. Logo que voltei do Carnaval da Bahia este ano, fui almoçar com minha grande amiga Patricia Mello. Foi ela que me sugeriu um romance policial no meio do Carnaval baiano, que havia me impressionado tanto. Aí se fez a luz, terminou o almoço, eu fui para casa e já comecei a escrever, seguindo as dicas que ela, como craque do gênero, me passou: “Cadáver no primeiro capítulo e assassino no último”.

ZH – Quase toda a sua obra é jornalística. Foi difícil passar para a ficção em um gênero com regras tão demarcadas quanto o policial?
Motta –
Eu adoro literatura policial, mas é muito difícil de escrever. Penei porque tem de ser tudo muito preciso. Acho que a bem da verdade os grandes romances policiais são aqueles em que a descoberta do mistério não é o centro, é uma das coisas.

ZH – A Bahia foi um cenário inusitado.
Motta
– Minha ambição foi fazer um painel de personagens da Bahia contemporânea, que mistura os tambores, a religião, o Carnaval, algo primitivo misturado a um universo high-tech, de celulares, Internet, dinheiro rolando, modernidade, esse contraste que se harmoniza muito bem na Bahia.

ZH – Há um coronel baiano em seu livro, corpulento, poderoso, com muitas características de Antônio Carlos Magalhães, que também aparece de relance como ele próprio. O coronel é ACM disfarçado?
Motta
– O meu personagem se inspira nele, claro, eu o descrevo com aquilo que eu chamo de “dengo viril”, que o ACM tem, o Caymmi também. Mas o ACM é insuperável como personagem. É impossível criar um personagem de ficção mais rico que o próprio ACM, por isso tentei diferenciar dele. O coronel Jotabê do livro é um símbolo daquela Bahia arcaica que está se modernizando para permanecer viva.

ZH – O sr. sentiu alguma dificuldade, sendo um paulista criado no Rio, para escrever sobre a cultura baiana pela voz de um personagem que nasceu e cresceu nela?
Motta
– Não, porque eu sempre fui apaixonado pela Bahia. Tive minha iniciação literária por meio de Jorge Amado e tento mostrar isso no livro, recuperar os aspectos que ainda existem daquela Bahia retratada por ele, comentando o que não existe mais, o que mudou. Tanto que o escritório de Augustão fica na Baixa do Sapateiro dos livros de Jorge Amado, em um sobrado antigo mas com um MacIntosh conectado à Internet. Ao lado,tem um cinema pornô. À frente, uma igreja evangélica.

ZH – O sr. cria em O Canto da Sereia o personagem Augustão,um detetive baiano. É possível um detetive noir na Bahia, um local que parece ser antítese dos cenários sombriosdos livros do gênero?
Motta –
O livro toca em uma das minhas obsessões, digamos, a harmonia entre contrastes. A própria ideia de um detetive baiano provoca risos. “Fala sério”, me dizem meus amigos. É uma contradição em termos. Mas é um personagem que alia a atmosfera baiana à modernidade. Eu explorei nele a simpatia baiana, a preguiça, mas associada à inteligência. No livro, o Augustão não fica correndo atrás de bandido, ele coloca grampo em telefone, compra informação da polícia, põe outros para trabalhar para ele, tem um colaborador hacker, aquela coisa: ele usa a preguiça, o ócio criativo. O Domenico de Masi (sociólogo italiano) vai se apaixonar por ele.

Ficção da desmemória

19 de novembro de 2012 0

O filme Amnésia (2000) chamou a atenção para o talento do cineasta Christopher Nolan - mais tarde elogiado diretor das adaptações de Batman para o cinema. Montado em blocos narrativos ordenados de trás para diante, para dar ao espectador a mesma noção de desorientação na narrativa vivida pelo protagonista, trazia Guy Pearce como um cara que, após ser atacado por um criminoso e ficar à beira da morte, desenvolve uma condição neurológica que o impede de fixar memórias recentes. Tudo o que o sujeito vive e testemunha simplesmente desaparece de sua cabeça após um determinado período que agora não me lembro se era de sete ou de 15 minutos. Como ele está obcecado por encontrar o ladrão que matou sua esposa e o deixou naquela situação, ele toma notas obsessivas em polaroides que usa para se guiar na selva desmemoriada dos contatos cotidianos. Quando algo é de fato muito importante, ele tatua na pele como um lembrete. Apesar da engenhosidade e da qualidade narrativa do filme, há um furo básico de roteiro na história que somos convencidos a deixar de lado, já que Amnésia é tão bacana: o personagem toma notas e tatua mensagens para si mesmo porque sabe que sua memória é fugaz, mas mesmo esse conhecimento refere-se a uma condição posterior ao tal ataque. Logo, pelos próprios postulados narrativos do filme, passados 15 minutos (ou sete, faz tempo que vi o filme), ele não deveria lembrar de nada, inclusive do fato de não se lembrar de nada depois de sete minutos (ou 15, você entendeu).

Cito aqui esse episódio para mostrar como histórias envolvendo perda de memória recorrente podem ser tão intrincadas quanto as que abordam viagem no tempo, com o risco de deixar pontas soltas não importa o quanto o resultado seja bacana. Outra produção cinematográfica que lida com esse mote é um dos poucos filmes simpáticos e assistíveis de Adam Sandler: Como se Fosse a Primeira Vez (2004), no qual ele se vê condenado a cortejar dia após dia a mesma garota vivida por Drew Barrymore, vítima de um acidente de trânsito que também a deixa impossibilitada de manter memórias recentes depois de 24 horas. Todos os dias, mesmo anos após o acidente, ela acorda acreditando viver ainda a mesma manhã anterior ao desastre. Embora regido pela mesma lógica bobinha de qualquer comédia romântica, o filme se vê compelido a arranjar um final feliz que é, também, condizente com a proposta da memória: o casal fica junto, blá, blá, mas ela não recupera a memória perdida, e precisa ser relembrada todas as manhãs de que casou e já tem uma filha, e que a vida seguiu depois daquela manhã.

E por que falei de dois filmes em um blog de livros? Na verdade eu não estava falando necessariamente dos filmes, e sim da força existente na ficção da desmemória. Justamente por a memória ser uma ferramenta fundamental para a invenção da própria identidade, apagar a memória de um personagem ou impedi-lo de adquirir novas lembranças é levar a narrativa a um ponto de abismo que sempre provocará curiosidade e representará um desafio para que a história que se segue a esse recurso tão radical seja digna não apenas do recurso em si, mas da personagem vitimada por ele. É difícil dotar de dignidade um protagonista que não tem uma das ferramentas mais comuns à construção pessoal de qualquer dignidade: a possibilidade de selecionar, dentro de suas próprias memórias, aquelas que corroboram sua própria narrativa pessoal – o choque dessa narrativa com as narrativas dos outros é também um tema de eleição da grande arte por ser outro dos aspectos fundamentais da vida.

Antes de Dormir (Record, tradução de Ana Carolina Mesquita), thriller que marca a estreia literária do inglês S.J. Watson, é, a seu modo, outra obra a encarar esse desafio. É, podemos dizer, uma versão dark da premissa que Como se Fosse a Primeira Vez desenvolveu como comédia romântica – e acrescentando a dificuldade adicional de estar bastante consciente do furo de roteiro essencial em Amnésia: se você não guarda memórias novas, mesmo esse fato está fora de seu alcance. É o que acontece com Christine, a protagonista do livro. Já na primeira cena, ela acorda na cama com um homem que não conhece e sem lembrar de como chegou ali. O homem é grisalho e usa uma aliança – conclusão imediata: em consequência de uma noite bem pegada, ela foi para a cama com um homem casado. Numa escapada ao banheiro para tentar organizar as ideias, ela tem o verdadeiro choque: seu rosto, seu corpo, suas mãos, parecem ter amadurecido da noite para o dia:

“O rosto que vejo me olhando de volta não é o meu. O cabelo não tem volume e está bem mais curto do que costumo usar, a pele nas faces e sob o queixo é flácida, os lábios, finos, a boca, curvada para baixo. Dou um grito, um grito contido sem palavras que se transformaria em um berro de choque caso eu o deixasse sair, mas então noto os olhos. A pele ao redor deles está marcada com rugas, é verdade, mas apesar de tudo vejo que são os meus olhos. A pessoa no espelho sou eu, porém com vinte anos a mais. Vinte e cinco. Mais.”

Essa é apenas a primeira surpresa relacionada com os despertares de Christine. O homem que dorme a seu lado a coloca a par de tudo: ele se chama Ben, e a cada dia é obrigado a recontar a ela a história de ambos. Há fotos dela no banheiro, recados pendurados, alguns lembretes para que tal despertar seja mais suave, mas ainda assim, o choque é real. Depois que Ben sai para o trabalho, ela fica sozinha em uma casa que, para todos os efeitos, não conhece, munida de um telefone celular para emergências – embora ela não saiba muito bem o que é um celular sem que o marido explique, já que sua perda de memória parece anterior à popularização do aparelho. Só que a determinado momento, o celular toca. É um jovem médico com quem Christine vem se tratando, aparentemente às escondidas do marido. E ele a informa onde procurar um diário que ela vem mantendo há algumas semanas após cada dia de consulta. Depois que ela encontra o diário, a narrativa pula para as diversas entradas registradas nas páginas, cobrindo cerca de um mês antes da primeira cena, a que testemunhamos e que abre o livro.

Cada entrada, narrada também em primeira pessoa, acrescenta uma camada de dúvidas e de versões sobre a história de Christine: ela ficou sem memória depois de ser atacada em um hotel, onde havia ido esperar o marido para um encontro romântico. Não, talvez não fosse o marido, e sim um amante. Talvez a abnegação do seu marido, que tem cuidado dela desde então, tenha um pouco de vingança pelo ultraje? Ela teve ou não um filho – cujas evidências parecem ter sido apagadas? Por que ela parece ter se afastado de sua melhor amiga, e que relação isso pode ter com sua condição? Quem é o jovem doutor Nash, que a vem aconselhando a manter o diário – é um homem desinteressado ou tem sua agenda secreta? Por que ele vem sendo mantido escondido de Ben mesmo que o tratamento de registrar as lembranças pareça estar dando resultado, uma vez que algumas memórias sem referência clara às vezes boiam até a superfície?

São vários os desafios, como comentamos, desse tipo de narrativa. Como romance é um thriller, a “trama se complica”: a estrutura básica de uma história de suspense exige que a cada momento uma nova peça para a montagem do quebra-cabeça seja apresentada ao leitor por meio do juízo avaliativo do detetive (e um bom leitor por vezes discorda desse juízo, chegando antes do fim do livro à resolução do mistério). Só que neste caso, a figura que seria a do detetive é também a da vítima: Christine só tem acesso às descobertas que anota em seu diário, e a escrita é a versão depurada do que ela viu ou viveu. E ela não tem como manter anotações de toda a sua vida, até porque depois de um determinado tempo tais anotações se tornariam inúteis porque ela não teria como ler tal massa de material escrito. O que Christine tem não é um juízo avaliativo, uma vez que seu conhecimento das pessoas que compõem sua vida presente parece ser nulo: ela tem apenas (e portanto, também o leitor, uma vez que o livro é narrado em primeira pessoa por Christine, no presente e nos diários) relatos de alguns fatos passados e versões para as perguntas mais importantes da narrativa.

Watson se sai bem desse labirinto que criou para si mesmo, embora um recurso utilizado ao fim da história para que Christine – e o leitor – tenha finalmente um quadro completo de tudo o que aconteceu com ela comprometa um pouco a solidez da narrativa por lembrar um artifício de desenhos animados da Hannah Barbera. Ainda assim, a forma como determinadas coisas ficam necessariamente em aberto ao fim do livro (leia e você vai entender) está de pleno acordo com o desenvolvimento da narrativa. E o autor consegue valer-se com competência do fato de que alguém sem memória, e portanto sem a capacidade de saber quem é, se torna extremamente frágil.

Crimes revisados

20 de abril de 2012 0

Antes que a escola americana de policiais acostumasse os leitores – e mais adiante os cinéfilos e telespectadores – a detetives durões que mergulham no uísque e desbaratam os crimes com os punhos, o romance policial mais “tradicional” era protagonizado por tipos excêntricos, observadores geniais que resolvem o caso na base do raciocínio, mas que seriam triturados em um simples passeio na rua. É a essa linhagem que pertence o peculiar Daniel Hernández, revisor editorial que por vezes colabora com a polícia em casos desconcertantes, como os reunidos em Variações em Vermelho, do escritor argentino Rodolfo Walsh (Tradução de Sergio Molina e Rúbia Prates Goldoni, Editora 34, 240 páginas).

Repórter iluminado e escritor de precisão clínica, Walsh (1927 – 1977) é um nome de ponta das letras latinoamericanas, embora sua produção ficcional tenha sido abreviada pelos esforços dedicados à militância política contra duas ditaduras argentinas e pelo seu assassinato pelas forças de repressão. Militante da esquerda peronista, Walsh é também autor de um clássico do jornalismo investigativo: Operação Massacre, que reconta uma chacina ordenada pela ditadura do general Aramburu em 1955. O livro ganhou edição recente no Brasil pela Companhia das Letras. Emboscado em 1977, já na ditadura dos militares que ele próprio denunciou veementemente, Walsh foi assassinado e seu corpo nunca foi encontrado.

À parte sua atividade jornalística como autor de contundentes romances-reportagens, Walsh construiu uma carreira como contista – no ano passado a mesma 34 editou Essa Mulher e Outros Contos” Fascinado pelo gênero policial, editou antologias e criou seus próprios contos de mistério e crime – os cinco protagonizados pelo revisor Daniel Hernández, um tipo pacato, tímido e extremamente míope (um alter ego bem pouco disfarçado do próprio autor), foram reunidos em Variações em Vermelho, publicado em 1953, quando Walsh contava apenas 26 anos.

As debilidades físicas de Hernández não o tornam um investigador menos eficaz. Já no título Variações em Vermelho remete, não por acidente, ao Estudo em Vermelho de Sherlock Holmes, marcando sua filiação a um tipo de literatura protagonizada mais pelo cérebro do detetive do que por suas armas ou seus músculos. As histórias protagonizadas por Daniel Hernández são exemplos inventivos do policial de feição mais “clássica” – do tipo que o lingüista Tzvetan Todorov, que vem este ano a Porto Alegre para o  Fronteiras do Pensamento, classifica como “romance-jogo”. Mais do que narrativas, são desafios intelectuais que o autor lança ao leitor, criando tramas de crime que flertam com o quebra-cabeça, exigindo do detetive não apenas o esclarecimento de quem cometeu o assassinato, mas também de como ele pôde ser cometido.

A primeira e mais longa das cinco novelas, A Aventura das Provas de Prelo, apresenta Hernández e o que um revisor editorial teria a dizer à polícia em uma investigação de homicídio. Um revisor é encontrado morto debruçado sobre a escrivaninha de trabalho em sua casa. Uma garrafa de uísque sobre a mesa e a arma usada para esfacelar a cabeça da vítima, oculta sob o braço do cadáver, parecem reforçar a hipótese de suicídio – praticamente confirmada com a descoberta de um caso conjugal da mulher da vítima. A chave para a solução do crime será descoberta por Daniel, colega de trabalho do defunto, ao examinar as provas impressas de um livro que o morto se dedicava a revisar.

Daniel é o típico investigador diletante, disposto a colaborar com o policial de carreira encarregado dos casos – o delegado Jiménez, também recorrente nas cinco histórias. Como diz o próprio Walsh no prefácio: “…de todas as faculdades de que D.H. se valeu na investigação de casos criminais eram faculdades desenvolvidas ao máximo no exercício diário de sua profissão: a observação, a minuciosidade, a fantasia (tão necessária, v.g., para interpretar certas traduções ou obras originais e sobretudo essa estranha capacidade de colocar-se simultaneamente em diversos planos que o revisor tarimbado exerce quando vai atentando, em sua leitura, para a limpeza tipográfica, o sentido, a boa sintaxe e a fidelidade da versão.”

Walsh também acena com uma piscadela ao construir o mistério de modo a que os mais atentos dentre seus leitores teriam condições de solucioná-los antes do fim se sua imaginação corresse na mesma direção que a do autor.  O argentino cria exercícios clássicos da literatura de crime. No conto que dá nome ao livro, um assassinato parece ter sido cometido sem que o autor do crime tivesse entrado ou saído do atelier trancado de um artista. Assassinato à Distância encontra Hernández  imerso em uma tarefa aparentemente impossível: provar que um suicídio ocorrido muito tempo antes foi na verdade um homicídio. Em A Sombra de Um Pássaro, a chave para a morte de uma esposa infiel, um crime sem testemunhas, pode estar no pátio da casa vizinha. O quinto conto é também uma ousadia formal: cinco páginas, breves, com a história narrada em frases curtas e repetitivas que lembram um poema ou uma canção.

Não apenas na primeira narrativa, estreitamente ligada ao ofício do personagem Hernández, mas nas demais, Walsh faz de seu investigador um leitor atento dedicado a ler as pistas de crimes cometidos na realidade. E provoca o leitor do livro a ser tão ágil e atilado quanto o investigador.

Detetives no fim da estrada

06 de fevereiro de 2012 0

Quando gosto de algum artista (seja escritor, músico, ator, cineasta) é difícil não gostar de alguma obra dele. É o caso de Estrada Escura, de Dennis Lehane. De longe, não está entre os melhores livros do autor (como Naquele Dia e Paciente 67), muito menos daqueles que fazem parte da série protagonizada pela dupla de detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro (como Um Drink Antes da Guerra e Gone, Baby, Gone). Mesmo assim, o novo livro de Lehane está acima da média da literatura policial atual.

Estrada Escura se passa 12 anos depois do penúltimo livro da dupla Kenzie/Gennaro, Gone, Baby, Gone. E traz de volta personagens da obra. Em Gone…, Patrick e Angie investigam o desaparecimento de Amanda, uma menina de quatro anos que vivia com uma mãe negligente, alcóolatra e drogada. Agora, a menina, que foi devolvida à mãe, volta a desaparecer e as feridas que surgiram naquele caso voltam a abrir. A trama gira em torno de dois dilemas.

O primeiro deles é: fazer a coisa errada e mesmo assim ter razão ou fazer a coisa certa e mesmo assim estar errado? Isso porque quando recuperaram Amanda, mais de uma década antes, eles a tiraram de uma família que poderia lhe fazer feliz e a entregaram de volta à mãe alcóolatra. A menina havia sido sequestrada pelo próprio tio e entregue a um casal. O certo errado era resolver um crime (o sequestro) e devolver a menina a sua mãe. O errado certo era deixar a menina ser criada por quem realmente poderia lhe dar amor e um futuro.

Na nova busca por Amanda, os detetives de Boston dão de cara com a máfia russa e com um emaranhado de crimes que inclui tráfico de bebês, produção de drogas, pedofilia, falsificação de identidade e o roubo de uma relíquia. Só que, diferente dos livros anteriores – além dos já citados, Apelo às Trevas, Sagrado e Dança da Chuva – eles já são quarentões, estão casados e são pais de uma menina de quatro anos.

Eis aí o outro dilema. A vida de ação e violência que os dois estavam acostumados – e até gostavam – passa para o segundo plano já que, agora, têm uma criança para prover e zelar. E como enfrentar bandidos violentos, sem escrúpulos, que não teriam dúvida de colocar em risco a vida de um ser indefeso sem ficar com remorso ou medo?

Lehane não perdeu o estilo veloz – que entremeia os dramas dos personagens e as cenas de ação – e, às vezes, irônico. Nem a habilidade de criar uma atmosfera sombria e ameaçadora, mas ele se perde um pouco no final, ao solucionar a busca por Amanda. Mas os dilemas dos personagens são descritos de forma bastante real,  o que aproxima muito a história do leitor. Ah, vale lembrar que Gone, Baby, Gone foi adaptado para o cinema, com Ben Afleck (isso mesmo) na direção. E só para variar, o filme não ficou tão bom quanto o livro.

Texto de Roberto Jardim

Estratégias comerciais e a função do suspense

17 de novembro de 2011 1

Li recentemente O Enigmista, romance do escritor policial escocês Ian Rankin publicado faz pouco no Brasil, e pensei em duas coisas.

A primeira delas é que o romance policial contemporâneo costuma ser estruturado como uma imensa narrativa sobre a vida e a psique do seu protagonista detetive recorrente. Noções antes válidas para as histórias de Sherlock Holmes ou Miss Marple, como uma cronologia pouco rígida de livro para livro, com as ações e acontecimentos de uma história não interferindo diretamente nas seguintes, mudaram para uma continuidade tão radical que se pode dizer que cada romance policial hoje em dia é um novo capítulo da vida e dos casos criminais de seus detetives. Rankin pertence ao time que estabelece uma cronologia bastante sólida para seus personagens, um time que inclui também Dennis Lehane, Lawrence Block, Michael Connelly, James Ellroy, Henning Mankell, Patricia Cornwell, Peter Robinson e um par de outros. As tramas de um romance fazem referência a episódios narrados em outros e que afetaram decisivamente não apenas a vida do detetive mas a de seus coadjuvantes mais carismáticos. E a vida desses personagens é estreitamente vinculada aos lugares e à atmosfera da cidade em que o policial atua – normalmente uma metrópole contemporânea, uma vez que o número menor de crimes em uma localidade pacata inviabilizaria uma série com diversos romances, obrigando o autor a restringir-se a dois ou três.

No caso de Rankin, o protagonista é o detetive John Rebus – um policial de meia idade com alma punk, lotado em Edimburgo, fã de rock e viciado em arranjar encrencas com seus superiores. Dentre os coadjuvantes da saga, incluem-se um especialista em computadores chamado Eric Bain (e que os outros policiais chamam, sarcasticamente, de “Brains”, ou “Miolos”); a primeiro colega de trabalho, mais tarde amante e mais tarde chefe de Rebus Gill Templer e a também policial Siobhan Clarke, garota de personalidade forte que mantém com o protagonista uma relação carinhosa que passeia do filial ao protetor – sem deixar de incluir uma certa tensão romântica. Mais nova, Siobhan vê em Rebus uma espécie de modelo que, ela sabe, não seria bom para sua carreira seguir, mas não consegue evitar. O Enigmista, que flagra Rebus às voltas com um desaparecimento que pode ter relação com o passado sangrento da Escócia, incluindo dois serial killers que existiram de fato no século 19, é o terceiro volume da série lançado no Brasil – após Questão de Sangue e Os Ressuscitados.

A segunda coisa que pensei – e que terá relação com a primeira até o fim deste texto, prometo -, foi na estratégia de planejamento das editoras nacionais para apresentar ao público séries de livros policiais protagonizadas pelo mesmo personagem. É comum a editora “testar” o mercado primeiro apostando de início em um romance que tenha mais chance de emplacar, seja porque a história parece mais promissora e cheia de ação, seja porque ela não é tão vinculada a aspectos físicos, sociais e históricos da cidade em que o romance se passa, seja porque a recepção internacional da obra foi boa. Só depois de estabelecido um relativo público para os livros desse autor em particular, ou para as aventuras de um determinado personagem, muitas editoras começam a desovar os demais livros do catálogo. O que significa que os romances inevitavelmente acabam sendo publicados fora da ordem cronológica. Não que as histórias não sejam fechadas, mas parte da construção da narrativa policial do autor, calcada em suspense e perigo, é comprometida por esse expediente. A Record, por exemplo, lançou há alguns anos Correntezas da Maldade, de Michael Connelly, um romance no qual o protagonista, o detetive Harry Bosch, vai atrás de um assassino serial que pode ter matado um policial aposentado, seu amigo. Não deixa de ser algo estranho, portanto, ler agora Dívida de Sangue, do mesmo autor, lançado este ano pela mesma editora e protagonizado pelo sujeito que morreu no outro livro – este romance é bem anterior ao que lhe precedeu no nosso mercado editorial. Acontece o mesmo com os romances de Rebus editados pela Companhia. Senão vejamos: Questão de Sangue foi o primeiro dos livros de Rebus publicado no Brasil, em 2007, mas saiu, originalmente, em 2003 na Escócia. Os Ressuscitados saiu aqui em 2008, mas era anterior, foi publicado em 2001. E O Enigmista retrocede ainda mais. Saiu só este ano, mas originalmente é de 2000. Logo, o melhor teria sido lê-los em ordem inversa, mas acabei lendo-os à medida que saíam por aqui e, ao menos no caso de O Enigmista, isso comprometeu alguns efeitos intentados pelo autor. Próximo ao clímax do livro, Rankin tece um capítulo particularmente tenso no qual o assassino é desmascarado por uma personagem secundária de alguma importância para a trama e  parte para cima da testemunha para silenciá-la com sangue. A narrativa se interrompe, pula para outro foco e só depois volta, numa tentativa de prorrogar o suspense sobre o que acontecerá de fato com aquela personagem ameaçada pelo assassino. Pois bem: nesse livro eu não sei, mas a personagem retornará nos demais romances que eu tinha lido antes. Logo, morrer não vai. Nem sofrer incapacitação permanente.

Sei que isso não tem assim tanta importância, mas foram dois pensamentos que cruzaram minha cabeça justamente porque a estratégia editorial de algum modo interferiu na minha experiência de leitura.

P.S.: Os livros de Rankin, em particular, passaram ainda por uma outra mudança em sua breve estadia em terras brasileiras, mudaram de tradutor, o que provoca ao menos uma outra nota curiosa. Um dos policiais da Divisão de Investigações Criminais em que Rebus trabalha chama-se George Silvers. Os colegas o chamam informalmente por um apelido. Nos primeiros dois romances lançados aqui, traduzidos por Álvaro Hattnher, o cara era George “Aiou” Silvers. Em O Enigmista, traduzido desta vez por Cláudio Carina, o mesmo personagem virou George “Hi-Ho” Silvers – o apelido é uma referência ao bordão com o qual O Cavaleiro Mascarado (que no Brasil era chamado também de Zorro, mesmo nome do aventureiro mascarado da Califórnia espanhola) atiçava seu cavalo, Silver (provavelmente é o tipo de coisa que acaba de denunciar minha idade).

Leitura em alta velocidade

22 de julho de 2011 0

Assaltar o banco Wachovia, no centro da Filadélfia, era um trabalho ousado, devido às ruas estreitas e as poucas rotas de fuga. Mas 650 mil dólares que estavam por ser depositados na instituição bancária compensavam o risco e uniram o irlandês Patrick Lennon, aparentemente mudo, e seus dois comparsas, Bling e Harlen. O assalto não foi tão difícil como parecia, nem a rota de fuga um empecilho, principalmente porque Lennon, o protagonista de O Motorista — do jornalista e escritor norte-americano Duane Swierczynski — era um mestre na condução de carros utilizados em assaltos a bancos. No entanto, aquele não era um dia de sorte para Lennon, e o dinheiro acabou se tornar o seu menor problema.

Lennon perdeu os 650 mil dólares, foi agredido e dado como morto e isso era apenas o começo de uma trama que não para de surpreender o leitor. Lennon é o anti-herói, mas é impossível não torcer para que se safe das muitas armadilhas que tem que enfrentar em meio à perseguição do FBI.

As mudanças de tempos narrativos, as viradas da trama e as revelações inesperadas chegam a despertar no leitor de O Motorista a vontade de montar uma espécie de organograma para entender quem é quem e qual o objetivo de cada um dos envolvidos no crime, que coloca em cena um matador contratado, um policial corrupto, estudantes universitários e até as máfias russa e italiana.

Duane Swierczynski dá um ritmo ágil à narrativa. Mantém o leitor em estado de alerta, tenso, à espera de um novo desfecho, que se abre em outra ação e mais uma surpresa. Ler O Motorista (Rocco. Tradução de Antônio E. de Moura Fiho, 224 páginas) é como conduzir um carro em alta velocidade, por ruas estreitas e poucas rotas de fuga, depois de um milionário assalto a banco.

Texto de Bete Duarte

A Comédia Criminal de Michael Connelly

13 de julho de 2011 3

O canadense Michael Connelly, 56 anos no próximo dia 21, é um ex-jornalista que abandonou as redações para se tornar um dos nomes mais aclamados da recente safra de autores policiais. É também um autor com ambições maiores do que criar uma trama de crimes – algo que o escritor faz com maestria. Ao longo de duas décadas e 24 romances, Connelly criou um universo próprio com personagens recorrentes que formam um amplo panorama ficcional da Califórnia contemporânea – daí o título deste post, a “comédia criminal”, referir-se à monumental Comédia Humana de Balzac, também ela repleta de personagens que de coadjuvantes em um livro passam a protagonistas no seguinte, montando um quadro multifacetado da Paris do século 19.

Sua obra vem sendo publicada fora da ordem original no Brasil, o que explica como três livros de fases diferentes saíram só este ano por duas editoras diferentesl: O Espantalho (2009), pela Suma de Letras, e O Poder e a Lei (2005) e Dívida de Sangue (1998), pela Record – estes dois últimos adaptados para o cinema. A edição de O Poder e a Lei pega tanta carona no lançamento recente do filme que reproduz uma cena da produção na capa, quebrando tanto o padrão antigo quanto o novo de sua “coleção negra”. A Objetiva, conglomerado que abrange o selo Suma de Letras, também já prometeu um quarto lançamento a caminho: Nine Dragons, que deve ter sua versão nacional publicada ainda no segundo semestre. Para aproveitar o lançamento desses três livros, montamos uma espécie de “Quem é Quem” dos principais personagens de Connely e o modo como suas vidas se cruzam no decorrer dos romances:

Harry Bosch
É o principal personagem de Connelly: um cético detetive de meia idade chamado Hyeronimous Bosch (em homenagem ao pintor holandês do século 15) e apelidado de “Harry” pela maioria de seus colegas. Nascido em Los Angeles nos anos 1950, é veterano do Vietnã e apaixonado por música. É também a criatura mais usada pelo criador: já compareceu em um punhado de contos e 18 romances escritos pelo autor _ desde o primeiro romance, The Black Echo (1992) até o mais recente, The Drop (2011), com lançamento previsto para novembro nos Estados Unidos. Realista porém decente, Bosch lida ao longo de seus casos com elementos-chave da Los Angeles contemporânea, como a indústria do cinema e as tensões raciais. Um bom número dos livros da série foi traduzido no Brasil, parte pela Record (Cidade dos Ossos, Luz Perdida, O Voo dos Anjos, Correntezas da Maldade, Morte Proibida) ou pela Suma de Letras (Echo Park e O Mirante). Na mais recente aparição de Bosch no Brasil, o detetive se vê obrigado a usar como isca em uma investigação o advogado…

…Mickey Haller
Haller é uma das criações mais recentes de Connelly, e uma das mais bem-sucedidas. Advogado cínico e dono de um vasto arsenal de truques, começa sua participação no universo ficcional do autor em O Poder e a Lei — best-seller nos Estados Unidos recentemente adaptado para o cinema com Matthew McConaughey no papel de Haller. Vivendo tempos turbulentos nos quais atende seus clientes (a escória da comunidade californiana: cafetões, prostitutas, assaltantes, pequenos traficantes) no banco traseiro de seu automóvel Lincoln, Haller é contratado para defender um jovem playboy de Beverly Hills e se envolve em uma trama de morte e mentiras. Haller volta a aparecer em O Veredicto de Chumbo (2008), no qual herda um grande caso de um advogado recentemente assassinado e passa a ser alvo do autor do crime. No mesmo romance, ao mesmo tempo que tenta garantir a segurança de Haller, Bosch decide acompanhar seus passos torcendo para que ele atraia o assassino até uma armadilha. Esse instinto obsessivo de fazer o que for preciso por um caso mais de uma vez já colocou Harry Bosch em problemas, como quando foi investigado por…

….Terry McCaleb
Agente do FBI aposentado por invalidez após um transplante cardíaco, McCaleb passa seus dias em uma marina, reformando seu barco e tomando os remédios necessários à sua saúde de transplantado recente. Um dia, como Connelly narra no livro recentemente lançado Dívida de Sangue, McCaleb recebe a visita da irmã da doadora do coração que agora o mantém vivo. A moça o convence a investigar o assassinato da mulher a quem deve a vida, morta em um assalto, um desafio complicado pela sua condição de investigador extra-oficial e pela sua saúde debilitada. O livro foi publicado originalmente em 1998 e adaptado para o cinema com Clint Eastwood no papel principal em 2002. McCaleb retorna em Mais Escuro que a Noite (2001), no qual se vê investigando um assassinato cujo principal suspeito é o próprio Harry Bosch. Anos mais tarde, a morte inesperada de McCaleb em Correntezas da Maldade leva Harry Bosch a retomar um dos casos que o ex-agente vinha investigando — voltando, assim, a cruzar o caminho de….

…Rachel Walling
Agente do FBI cuja primeira aparição se dá em O Poeta (1996), perseguindo o serial killer que dá nome ao livro: um homem que, após matar suas vítimas, deixa versos de Edgar Allan Poe junto aos corpos. Mais jovem do que Bosch, durona, especializada em traçar perfis psicológicos de criminosos em série, Rachel conhece Bosch quando sua investigação cruza com a dele em Correntezas da Maldade (2004) e ambos acabam caçando o mesmo criminoso. A parceria transcende o trabalho e termina na cama. Rachel reaparecerá para retomar seu caso com Bosch em Echo Park (2006) e O Mirante (2007). Em O Poeta, Walling também já havia se envolvido com um de seus colaboradores no caso do assassino dos versos, o repórter policial….

…Jack McEvoy

A primeira aparição do jornalista obcecado pela morte se dá como narrador em O Poeta — no qual se entrega à exaustiva investigação do caso para exorcisar a morte de seu irmão gêmeo, um policial vítima do criminoso. McEvoy vai juntando por si peças de um quebra-cabeça no qual a morte do irmão se relaciona com outras, tratadas como crimes autônomos, até ser forçado a colaborar com o FBI, que já vinha seguindo a mesma linha de investigação, em troca da exclusividade na matéria. McEvoy retorna em outro dos lançamentos recentes de Connelly: O Espantalho, em que outra vez uma reportagem investigativa sobre um crime o coloca outra vez na trilha de um assassino serial.

As Testemunhas Rebeldes

04 de julho de 2011 0

Depois de três livros da série mais recente do comissário Maigret, os três uma novidade para mim, que não havia ainda lido nenhum naquela primeira fase de devorar Simenons sobre a qual já falei, chego finalmente a um livro da série que já conhecia: As Testemunhas Rebeldes, que eu já havia lido em 1996 em uma edição cujo título ainda era Maigret e as Testemunhas Recalcitrantes. Na época em morava em um JK no 17º andar de um edifício pouco recomendável no centro, e vivia ficando preso dentro do elevador. Esse livro em particular eu me lembro de estar lendo no momento em que a luz apagou e eu fiquei trancado mais uma vez – acho que foi por pouco tempo, mas não tenho como ter certeza, dada a constância com que aquela joça trancava.

Essa releitura comprovou algo que eu já havia intuído quando comecei a recordar os livros que havia lido de Maigret há uns 15 anos. Um dos primeiros e mais importantes teóricos do romance policial foi Howard Haycraft, que, em um estudo dos anos 1940, Murder for Pleasure: the life and times of detective novel, fez um abrangente inventário do gênero até ali. Um extenso capítulo, como não poderia deixar de ser, é dedicado ao inventor da moderna literatura de crime, Edgar Allan Poe, que com três histórias seminais protagonizadas pelo detetive parisiense Dupin fundamentou as bases do gênero como são em larga medida seguidas até hoje. Ele comenta que os contos de Poe costumam se fixar de diferentes modos na memória do leitor: Os crimes da Rua Morgue é daqueles que o leitor retém o crime e sua resolução: as imagens vívidas e surpreendentes dos corpos das vítimas, e o fato de que o criminoso é um macaco fugido de um circo de passagem pela cidade. Mas o leitor raramente lembra como o detetive chegou a essa conclusão, embora o conto pormenorize o caminho delineado pelo raciocínio de Dupin. Em O Assassinato de Marie Rôget, pelo contrário, é o raciocínio tortuoso do detetive através das notícias de jornal que permanece, embora não seja fácil de lembra qual foi a conclusão a que Dupin chegou com elas.

Com As Testemunhas Rebeldes, comprovei minha própria impressão de como os livros de Maigret se fixam na memória: muitas vezes recorda-se as circunstâncias iniciais do crime, mas raramente vêm à memória a solução, ou pelo menos eu não me lembrava dela até chegar ao fim desta segunda leitura. Estava lá, uma atmosfera e a própria maneira como Maigret se relaciona com o caso – pontos fortes da maioria dos romances policiais de Simenon. Em As Testemunhas Rebeldes essa atmosfera é a de um comissário tentando quebrar o muro de silêncio e reticência dirigido contra ele por pessoas de uma classe social que se consideram liberadas de lidar com a polícia em quaisquer circunstâncias. A família no seio da qual o crime foi cometido, Os Lachaume, são, nas palavras de um policial da delegacia local mais próxima, “pessoas das quais a gente não se ocupa muito“.

As Testemunhas Rebeldes é de 1958, e mostra Simenon outra vez exercendo seu método de usar o detetive como um emissário a diferentes mundos e realidades sociais da França que retratava por meio das investigações do comissário. Maigret é encarregado de solucionar o assassinato de Léonard Lachaume, o diretor de uma tradicional fábrica de biscoitos. Lachaume foi encontrado morto logo cedo da manhã em seu quarto na mansão da família – uma propriedade outrora magnífica, hoje decadente, bem como o status social da própria família Lachaume. Outrora expoentes da indústria nacional, os Lachaume hoje vivem para a manutenção da fábrica, em má situação financeira. No momento do crime, deveria haver seis pessoas dentro da casa: os idosos pais de Léonard Lachaume, o irmão Armand Lachaume, a mulher deste, Paulette, o filho do morto, Jean-Paul, de apenas 12 anos, e uma velha empregada pintada com as tintas da caricatura da serviçal fiel e  sombria. Mesmo com tantas testemunhas na casa, ninguém parece saber dar muitos detalhes a respeito do crime, cometido a tiros, aparentemente depois de um invasor haver escalado o muro da casa e entrado pela janela.

Quem ainda tiver na memória nossa última leitura, Maigret se defende, vai recordar que naquele livro, datado de 1964, Maigret comentava, algo melancólico, que tinha ainda três anos pela frente em direção à aposentadoria. Provando que o próprio Simenon tomava liberdades com a cronologia do personagem quando assim precisava, neste livro, escrito anos antes, Maigret, ainda cansado e tornado ainda mais melancólico com a passagem recente do Dia de Finados, diz que “felizmente, só faltavam dois anos e ele não precisaria mais pôr um cachecol para, sob a chuva desagradável da manhã, atravessar uma Paris que, naquele dia, parecia uma cidade de filme mudo, toda em tons de branco e preto“.

Maigret sente-se velho, é o que a narrativa já nos informa em suas primeiras páginas: o corpo começa a dar sinais de desgaste (acorda com um torcicolo incômodo e a mulher insiste para que ponha um cachecol para se proteger do clima instável). Ao  investigar o crime, tem a sensação de que, de alguma forma, duas pontas de sua vida se encontram, uma vez que entrar na casa dos Lachaume é penetrar, também, no interior de uma memória de infância. Ele próprio fôra um ávido comedor dos biscoitos com a marca da família quando criança, décadas antes:

Aquilo lhe trazia recordações da infância passada no campo. Naquele tempo, em todas as pequenas vendas mal-iluminadas do povoado, nas quais oferecia-se tanto galochas quanto feijão, ou linha de coser, podia-se ter a certeeza de sempre encontrar pacotes envoltos em celofane, com uma etiqueta onde se lia: Fábrica de Biscoitos Lachaume.
Havia os amanteigados Lachaume e as bolachas Lachaume, que aliás tinham o mesmo gosto, o mesmo sabor de papelão.
Desde então, Maigret nunca mais ouvira falar nos Biscoitos Lachaume, nem nunca mais vira os calendários tipo folhinha de parede, mostrando um garotinho de faces exageradamente coloridas e sorriso idiota, comendo uma bolacha Lachaume, e era raro agora encontrar, mesmo numa aldeia perdida, aquele nome, mais ou menos apagado, num cartaz de parede
“.

Maigret sente-se, ao mergulhar no crime, investigando a morte de sua própria época, sensação que só piora com a chegada em cena de um novo juiz de instrução para acompanhar o caso, Angelot: “O jovem magistrado, que acabava de ser nomeado, estendeu uma mão firme e cuidada, uma mão de jogador de tênis, e Maigret pensou, uma vez mais, que uma nova geração despontava, desbancando a dele.” O que complica a vida de Maigret é que o jovem Angelot parece partilhar desse mesmo entendimento. Ao serem apresentados, cumprimenta o comissário com um aperto de mão vigoroso, mas não diz absolutamente nada, sequer alude de passagem à fama de Maigret como um antigo e eficiente investigador. “Seria uma atitude estudada, um modo de dizer a Maigret que sua fama não o impressionava? / Ou realmente falta de curiosidade, a indiferença da nova geração?” Para piorar, insiste em estar presente no interrogatório das testemunhas e quer ser informado de cada passo que Maigret dá ao longo da investigação. Em tese, não há nada de estranho nisso, uma vez que Maigret trabalha para a Polícia Judiciária, e seus inquéritos, em última análise, servem para municiar a instrução de um processo, ou seja: são feitos para informar o juiz. Esse apego de Angelot ao legalismo da norma em vez da prática tradicional dos antigos magistrados de receberem o inquérito pronto das mãos do comissário é um ponto de atrito que aumenta no policial a sensação de seu tempo está ficando para trás.

Mais do que rebeldes, como está no título traduzido, as testemunhas do caso mostram-se relutantes, reticentes. Maigret e o juiz de instrução são recebidos não apenas pelos integrantes da família Lachaume, mas por um advogado, chamado ao local antes da chegada da polícia. É por ele, insiste o homem, que se dará qualquer contato com seus clientes – outra instância intermediária que exaspera Maigret, impossibilitado de usar suas técnicas de interrogatório que por vezes beiram o limiar da coerção. A atitude das testemunhas, cada uma delas presente na mesma casa em que o crime foi cometido, também leva os nervos de Maigret ao limite: ninguém viu nada, ninguém sabe de nada, uma carteira sumiu, então é lógico que foi uma tentativa de assalto, então não há motivo, como pensa Maigret, para vasculhar o passado da família, falida mas ainda assim glória da burguesia parisiense – com o tipo de atitude de se considerar acima dos inconvenientes da lei bastante semelhante à das elites econômicas bem conhecidas dos brasileiros.

Como Maigret provará ao longo da narrativa, é sim nas relações algo estranhas entre os membros da família e sua necessidade imperiosa de manter as aparências e a tradicional fábrica fundada em 1817 que está o motivo do crime. Até lá, contudo, o comissário terá ainda mais tempo para sentir-se cansado e afundar em um mau-humor irresistível que chega ao paroxismo quando o novo juiz, desgostoso com os dribles que levou do comissário ao longo do dia todo, exige que Maigret acompanhe em silêncio o interrogatório que pode ajudar a desvendar o crime – e para completar pede que Maigret escreva as perguntas que ele, o juiz, condutor do inquérito, deve fazer. Claro que tal depoimento se torna crucial. para o desenrolar do caso, e Maigret ainda tem de ouvir o juiz vangloriar-se:

- Continua achando, sr. Maigret, que não se possam obter os mesmos resultados sem alarde, sem falar alto, sem ‘encenação’, num gabinete de juiz de instrução, em vez de no Quai des Orfèvres?
Que adiantava responder que ele nada mais fizera do que recitar as perguntas preparadas pelo comissário?

As Testemunhas Rebeldes: L&PM, 188 páginas. Tradução de Vera Neves Pedroso.

Na próxima semana: O Engano de Maigret

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