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Posts na categoria "Política"

Anatomia de um fim

29 de novembro de 2012 0

Texto de Cláudio Rabin

Quando Christopher Hitchens morreu, em 15 de dezembro de 2011, a notícia se espalhou pela internet com a mesma força das palavras que um dia ele fora capaz de expressar. Agora, a voz do jornalista britânico volta a se projetar nas livrarias brasileiras com o lançamento do livro Últimas Palavras (editora Globo Livros, 96 páginas), que reúne seus artigos derradeiros publicados na revista americana Vanity Fair (todos disponíveis em inglês no site da publicação), nos quais narra a descoberta e o tratamento de um agressivo câncer no esôfago.

As palavras finais do jornalista britânico não foram de esperança nem de autocomiseração ou arrependimento. Foram fiéis ao autor: provocativas, céticas e coerentes com sua trajetória intelectual. Hitchens não pediu água ao além, a divindades ou a qualquer religião – objetos de ataques e ironias frequentes do autor de Deus Não é Grande.

Antes: aspectos da própria mortalidade (aliás, o título do livro em inglês é Mortality), e o que representou seu encontro com o câncer em termos físicos e morais é o principal assunto dos ensaios. Ironiza eufemismos médicos como “equipe de gestão de dor”, quando narra as consequências de um tratamento de ponta que lhe permite viver um pouco mais, mas que parece uma forma de tortura. A memória da dor, ele escreve, o fez repensar se teria optado pelo tratamento caso soubesse pelo que passaria. O paradoxo, o jornalista pondera, é que a recusa significaria a própria extinção.

Provavelmente é uma misericórdia que a dor seja impossível de descrever de memória. Também é impossível alertar contra ela“, registra, deixando impresso na memória do leitor o nível de sofrimento físico que uma doença terminal pode causar.

Pela verborragia agressiva, rapidez na escrita e capacidade de intelectual, Hitchens lembra, de certo modo, Paulo Francis. Sua origem e seu talento, porém, são distintos: longe de ser um ensaísta ou cronista, ele segue a tradição do também inglês George Orwell (seu grande ídolo) de estar onde os conflitos acontecem e se guiar por uma moral política sem ceder ao partidarismo.

Foi assim que Hitch (apelido dado pelo escritor e amigo Martin Amis) surpreendeu os que acompanhavam sua carreira ao decidir, por exemplo, apoiar a Guerra do Iraque. Ele havia visto pessoalmente as covas coletivas criadas por Saddam Hussein depois de testar armas químicas na população curda. Por coerência, acreditou que o tirano deveria ser chutado do poder.

O apoio ao poder jamais seria acéfalo. Quando os Estados Unidos se engajaram no debate sobre tortura de prisioneiros acusados de terrorismo, o inglês se submeteu ao procedimento de waterboarding (um método de afogamento), apontou o dedo para as forças armadas americanas e escreveu um artigo cujo título era óbvio mas emblemático: “Acredite em mim, é tortura“. Na sua última coletânea de artigos, ele relembra a experiência e compara o medo que sentiu com alguns tipos de tratamento a que foi submetido.

Com o avanço da doença, se aproxima do fim sua persona. A voz sempre pronta para o debate, para a conversa, para o discurso, acompanha sua saúde e se esvai. “Certamente é morrer mais que um pouco“, relata no quinto capítulo. O cabelo, a massa muscular, a barba mal feita e até os pelos do nariz, vão embora juntos com suas forças.

O maior medo de Hitchens, ao receber uma dose de analgésico para reduzir a dor nas mãos, ele relata em um dos melhores momentos do livro, é não poder mais escrever. É a forma que este jornalista encontrou para existir no mundo. O silêncio forçado, portanto, era uma forma de morrer.

O capítulo final do livro é uma metáfora trágica do momento: não é um artigo como os anteriores. Suas últimas palavras são um conjunto de frases, referências e ideias que Hitchens, muito debilitado pelo câncer, não conseguiu completar. Quando não pôde mais escrever ou falar, quando não foi mais capaz de projetar suas palavras para o mundo, a chama se extinguiu.

Uma terra devastada

20 de julho de 2012 0

A jornalista Adriana Carranca em entrevista no Afeganistão. Foto: arquivo pessoal

Texto de Laura Schenkel

Como o 11 de Setembro afetou o Afeganistão e seu povo? A pergunta é o fio condutor da repórter especial de O Estado de S. Paulo Adriana Carranca em O Afeganistão depois do Talibã (Civilização Brasileira, 2011). O leitor não deve se enganar com o título e pensar que a autora tem um pensamento simplista ou que parte do princípio de que o Talibã já não é importante no território afegão. A jornalista faz justamente o contrário: expõe todos os problemas deixados pelas consecutivas guerras no país, sobretudo pela chamada Guerra ao Terror, privilegiando a dimensão humana da realidade do Afeganistão.

Adriana se propõe a formar um mosaico a partir de personagens do Afeganistão, mostrando como o 11 de Setembro influenciou suas vidas e registrando suas opiniões sobre esses atentados, a ofensiva contra os talibãs, a Al-Qaeda e o islamismo. Ela esteve duas vezes no país, em 2008 e em 2011, e narra a história de seus entrevistados, que incluem um mulá talibã, uma viúva que perdeu os braços após a explosão de um homem-bomba e uma lutadora de boxe, entre outros. Na tentativa de se afastar de uma visão ocidentalizada, Adriana permeia os perfis com muitos dados econômicos e históricos. Sua escrita é bem construída e fluida, em alguns momentos dando mais espaço para impressões e sentimentos, em outros, priorizando números e estatísticas espantosos, jogando-os um após o outro, como que para chocar o leitor. Os personagens não são escolhidos ao acaso: são símbolos da realidade afegã e retratos de um país imerso em guerra e miséria. Ao se ter uma ideia da importância de muitos desses afegãos e de seu protagonismo na história do país – um dos capítulos é uma entrevista com a primeira candidata mulher à presidência nas primeiras eleições diretas realizadas no país e sua difícil empreitada na política –, o leitor se sente mais próximo ainda de uma realidade muito distante, que guarda “uma distância de mil anos” da nossa.

Com brilhantismo, a autora vai construindo uma imagem desse país tão diferente culturalmente, de forma a instigar o leitor a querer descobrir ainda mais. Hospital, centro de desabrigados, campo de refugiados e escola são alguns dos locais que ela visita para entrar em contato com os dramas individuais, que reproduzem o drama de tantos outros afegãos. A obra traz ainda dicas interessantes de livros, filmes e documentários. Aliás, um dos perfilados ficou famoso na literatura mundial. É Shah Rais, o homem que dá título ao best-seller O Livreiro de Cabul. Adriana lhe permite fazer um contraponto em relação à obra da jornalista norueguesa Asne Seierstad (leia aqui entrevista com a autora norueguesa em sua passagem por Porto Alegre, em 2007), mas observa com desconfiança a versão do afegão.

Ao longo do texto, a jornalista apresenta os fatos com ironia. Cita, por exemplo, que em quase uma década de conflitos, o número de civis mortos foi quatro vezes maior que o total de vítimas do ataque às Torres Gêmeas, e que, ao fim da caçada ao líder terrorista Osama bin Laden, descobriu-se que ele estava no vizinho Paquistão. Na sequência, destaca a avaliação que o presidente americano Barack Obama fez em discurso após a operação que culminou na morte de Bin Laden em Abbotabad: “A justiça foi feita”.

Ao inserir sempre dados para dar estofo às entrevistas, em alguns trechos o texto repete informações adiantadas em capítulos anteriores, o que pode incomodar o leitor atento. No intuito de demarcar as diferenças entre o novo e o velho Afeganistão, o livro acaba abusando dos termos “novo” e “velho”, batendo demais nessa tecla e sempre explicitando esses dois aspectos ao fazer comparações, de forma às vezes exagerada e desnecessária. Mas, de um modo geral, o texto é bem construído, organizado de forma interessante, mesclando perfis e história na medida, resultando em uma obra envolvente e impactante, interessante para todos que querem saber mais sobre o Afeganistão. O aspecto da repetição funciona, como um todo, para construir esse panorama do país e de sua população.

O livro apresenta de forma interessante aspectos da cultura islâmica. Como uma boa repórter, Adriana vai além de reproduzir informações. Para melhor compreender o Corão, ela entrevista o egípcio Helim Mohammed Nasr, nomeado um dos 21 sábios do Islã no mundo pela Liga Islâmica Mundial, a mais alta entidade muçulmana, a fim de entender o  islamismo e suas interpretações. Um ponto curioso, por exemplo, explica o surgimento das burcas: diferentemente do que muitos podem pensar, em sua origem a veste não tinha nenhuma relação com o islamismo, até porque antecede o início dessa religião. Era muito mais uma questão de moda. A burca foi idealizada por um rei para que as mulheres nobres da família real pudessem deixar o palácio sem serem vistas ou importunadas por plebeus. Todavia, outras mulheres que se julgavam tão nobres quanto a rainha e as princesas adotaram a roupa.

As condições de vida e a realidade das mulheres afegãs são bem exploradas ao longo da obra, como a dificuldade de acesso à educação, aos serviços de saúde, como funcionam os casamentos e a alta taxa de suicídios entre elas perante todas as dificuldades que enfrentam. Duas em cada três afegãs são vítimas de transtorno de estresse pós-traumático e depressão por causa dos sucessivos e intermináveis conflitos aliados à falta de perspectivas. Em um centro para mulheres queimadas visitado pela autora, pelo menos 30% das pacientes tentaram se matar por autoimolação.

Adriana demonstra muita coragem em trabalhar como repórter em um país em que estrangeiros são alvos de atentados. Mestre em Políticas Sociais pela London School of Economics, Adriana cobriu importantes acontecimentos no Irã, no Egito e em Israel, entre outros. É também coautora de O Irã sob o Chador, publicado em 2010 pela Editora Globo. A sólida carreira de repórter ajudou a autora a construir o livro-reportagem. E, sobretudo, é uma mulher que vai a um lugar onde, mesmo após a invasão estrangeira, a supremacia masculina permanecia soberana. Uma terra onde, na ausência do pai, o filho mais velho assume a chefia da família, mesmo se for criança, e as mulheres lhe devem obediência.  E é ele quem fica com a herança. Afinal de contas, as afegãs sequer podem ter propriedades em seus nomes.

Em poder das Farc

04 de maio de 2012 0

Desaparecido em 28 de abril, na Colômbia, enquanto trabalhava na cobertura de uma operação do Exército contra o narcotráfico, o jornalista francês Roméo Langlois está, provavelmente, em poder das Forças Revolucionárias Armadas da Colômbia (Farc). Repórter do canal de televisão France 24 e do jornal Le Figaro, Langlois, se a forte suspeita se confirmar, é o nome que interrompe a breve trégua dos guerrilheiros, que haviam manifestado recentemente a intenção de não mais manter civis em cativeiro.

Todo episódio envolvendo reféns das Farc faz lembrar o tormento de Ingrid Betancourt, figura controversa que se tornou a face mais conhecida do drama de quem é encarcerado na selva. Libertada em 2008, a ex-deputada e ex-senadora que, à época de sua captura, concorria à presidência da república tem evitado entrevistas. Não Há Silêncio que Não Termine – Meus Anos de Cativeiro na Selva Colombiana (Tradução de Antonio Carlos Viana, Rosa Freire D’Aguiar, Dorothée de Bruchard e José Rubens Siqueira. Companhia das Letras, 560 páginas, R$ 46), publicado no Brasil em 2010, é um relato pungente sobre os seis anos passados – perdidos, para ser mais exata – em acampamentos precários no meio do mato. É também um dos livros mais tocantes que já li, num período especialmente difícil que enfrentava. Tenho certeza de que vai estar para sempre entre os meus títulos preferidos.

A seguir, um trecho das memórias de Ingrid. Não Há Silêncio que Não Termine começa assim:

Tomei a decisão de fugir. Era minha quarta tentativa, mas depois da última vez as condições de detenção tinham se tornado ainda mais terríveis. Eles haviam nos instalado numa jaula construída com tábuas de madeira e folhas de zinco à guisa de telhado. O verão estava chegando, fazia mais de um mês que não tínhamos tempestades à noite. Ora, uma tempestade era indispensável para nós. Eu localizara uma tábua meio podre num canto de nosso cubículo. Empurrando-a fortemente com o pé, consegui rachá-la o suficiente para criar uma abertura. Fiz isso numa tarde, depois do almoço, enquanto o guarda cochilava em pé, equilibrado sobre seu fuzil. O barulho o assustou. Ele se aproximou, nervoso, e deu a volta na jaula devagar, como um animal selvagem. Eu o acompanhava pelas fendas que separavam as tábuas, prendendo a respiração. Ele não conseguia me ver. Parou duas vezes, chegando a grudar o olho num buraco, e por um instante nossos olhares se cruzaram. Deu um pulo para trás, assustado. Depois, para disfarçar, plantou-se bem na entrada da jaula; estava indo à forra, pois não tirava mais os olhos de mim.”

Ingrid Betancourt libertada após seis anos na Selva. Foto: Fernando Vergara, AFP

Às ilustríssimas excelências

09 de maio de 2011 0

Com algum atraso, deixo aqui minha sincera homenagem aos parlamentares gaúchos que aprovaram recente lei sobre a aplicação do uso de estrangeirismos no RS. Demorei um pouco para fazer este comentário porque queria catar o livro com a citação completa e minha casa anda uma bagunça devido à defasagem momentânea de duas estantes tombadas em combate — só consegui revirar as pilhas certas este fim de semana.

Para os senhores deputados que pretendem frear a marcha anglófona por decreto, vai abaixo um trecho bastante significativo do conto O colocador de pronomes, de Monteiro Lobato, publicado em 1924, e que já discutia com as tintas da feroz ironia a preocupação exacerbada dos puristas com a “contaminação” do idioma pela língua imperialista do momento (naquela época, como veem, era o francês). Senão vejamos a angústia que move o defensor da Língua Portuguesa Aldrovando Cantagalo contra o que considera a deturpação da sonoridade límpida da língua lusa dos clássicos oitocentistas. Notem como o vocabulário, propositadamente castiço, aprofunda o efeito cômico, ao mesmo tempo que nos mostra as limitações de um dicionário escolar. Como teste, procurei as palavras mais inusitadas abaixo (bordalenga, espucícia, moxinifada, etc.) no dicionário escolar da Academia Brasileira de Letras, com 30 mil verbetes, e não havia nenhuma delas, o que deve ser desesperador para um texto que pode vir a ser estudado em aula.

Preclaros parlamentares, em vossa homenagem:

Aldrovando nada sabia do mundo atual. Desprezava a natureza, negava o presente. Passarinho conhecia um só: o rouxinol de Bernadim Ribeiro. E se acaso o sabiá de Gonçalves Dias vinha citar “pomos de Hesperides” na laranjeira do seu quintal, Aldrovando esfogueteava-o com apostrofes:
— Salta fora, regionalismo de má sonância!
A língua lusa era-lhe um tabu sagrado que atingira a perfeição com Fr. Luiz de Sousa, e daí para cá, salvo lucilações esporádicas, vinha chafurdando no ingranzéu barbaresco.
— A ingresia d’hoje, declamava ele, está para a Língua, como o cadáver em putrefação está para o corpo vivo.
E suspirava, condoído dos nossos destinos:
— Povo sem língua!… Não me sorri o futuro de Vera-Cruz…
E não lhe objetassem que a língua é organismo vivo e que a temos a evoluir na boca do povo.
— Língua? Chama você língua à garabulha bordalenga que estampam periódicos? Cá está um desses galicígrafos. Deletreemo-lo ao acaso.
E, baixando as cangalhas, lia:
— Teve lugar ontem… É língua esta espurcícia negral? Ó meu seráfico Frei Luiz, como te conspurcam o divino idioma estes sarrafaçais da moxinifada!
— …no Trianon… Por que, Trianon? Por que este perene barbarizar com alienígenos arrevesos? Tão bem ficava — a Benfica, ou, se querem neologismo de bom cunho o Logratório…Tarelos é que são, tarelos!
E suspirava deveras compungido.
— Inútil prosseguir. A folha inteira cacografa-se por este teor. Aí! Onde param os boas letras d’antanho? Fez-se peru o níveo cisne. Ninguém atende à lei suma — Horácio! Impera o desprimor, e o mau gosto vige como suprema regra. A gálica intrujice é maré sem vazante. Quando penetro num livreiro o coração se me confrange ante o pélago de óperas barbarescas que nos vertem cá mercadores de má morte. E é de notar, outrossim, que a elas se vão as preferências do vulgacho. Muito não faz que vi com estes olhos um gentil mancebo preferir uma sordície de Oitavo Mirbelo,
Canhenho duma dama de servir, (*) creio, à… adivinhe ao que, amigo? A Carta de Guia do meu divino Francisco Manoel!…
— Mas a evolução…
— Basta. Conheço às sobejas a escolástica da época, a “evolução” darwinica, os vocábulos macacos — pitecofonemas que “evolveram”, perderam o pelo e se vestem hoje à moda de França, com vidro no olho. Por amor a Frei Luiz, que ali daquela costaneira escandalizado nos ouve, não remanche o amigo na esquipática sesquipedalice.
Um biógrafo ao molde clássico separaria a vida de Aldrovando em duas fases distintas: a estática, em que apenas acumulou ciência, e a dinâmica, em que, transfeito em apóstolo, veio a campo com todas as armas para contrabater o monstro da corrupção.
Abriu campanha com memorável ofício ao congresso, pedindo leis repressivas contra os ácaros do idioma.
— “Leis, senhores, leis de Dracão, que diques sejam, e fossados, e alcaçares de granito prepostos à defensão do idioma. Mister sendo, a forca se restaure, que mais o baraço merece quem conspurca o sacro patrimônio da sã vernaculidade, que quem ao semelhante a vida tira. Vêde, senhores, os pronomes, em que lazeira jazem…
Os pronomes, aí! Eram a tortura permanente do professor Aldrovando. Doía-lhe como punhalada vê-los por aí pré ou pospostos contra-regras elementares do dizer castiço. E sua representação alargou-se nesse pormenor, flagelante, concitando os pais da pátria à criação dum Santo Ofício gramatical.

(*) Journal d’une Femme de Chambre, de Octave Mirbeau.


O caminho da desobediência civil

09 de maio de 2008 1

O termo “desobediência civil” ficou mundialmente conhecido após ser utilizado como uma das bandeiras de luta do líder indiano Mahatma Gandhi (1869-1948), o idealizador da revolução que tornou a Índia independente do império britânico. Através da mobilização popular, da não-violência e da negação às obrigações impostas por um Estado autoritário, a Índia se tornou um exemplo mundial de como enfrentar um opressor violento sem usar a violência, mas sim a consciência e o poder da força coletiva. A obra que influenciou Gandhi e também outros revolucionários, como Martin Luther King, é de 1848, mas possui uma atualidade incrível. A Desobediência Civil, escrita pelo americano Henry David Thoreau (1817-1862), pode ser um livro, um discurso ou um ensaio.

O texto não tem mais do que 30 páginas, mas cada palavra contém uma força impressionante. Thoreau foi um filósofo, ensaísta e poeta que buscou na simplicidade da vida e no poder da natureza a razão da sua existência. Ao buscar esta essência do simples e se negar a apoiar a guerra dos Estados Unidos contra o México, ele conclamou os seus conterrâneos a lutarem contra o autoritarismo e buscarem a liberdade dentro do seu próprio ser. O trecho abaixo ilustra a idéia central de Thoreau sobre como o indivíduo deve se comportar perante uma injustiça evidente. Um século depois, Gandhi usaria estas letras para libertar milhões de indianos:

Se mil homens se recusassem a pagar seus impostos este ano, isso não seria uma medida violenta e sangrenta, como o seria pagá-los e capacitar o Estado a cometer violências e derramar sangue inocente. Esta é, na realidade, a definição de uma revolução pacífica, se tal for possível. (…) Mas suponhamos, mesmo, que deva correr sangue. Não corre algo como sangue quando a consciência é ferida? Por esse sofrimento esvai-se a verdadeira virilidade e imortalidade do homem, que sangra até morrer para sempre.

Thoreau foi tão insistente na sua busca pela simplicidade que viveu durante dois anos no meio da floresta, construindo sua própria casa e cozinhando seu próprio alimento. Ele relatou esta experiência no livro Walden, que acabou se tornando um clássico americano. Por se recusar a pagar impostos que achava injustos, Thoreau foi preso e, ao invés de ficar revoltado ou aborrecido, sentiu uma espécie de liberdade que o próprio Gandhi e seus seguidores experimentariam depois.

Vi que, além do muro de pedra, erguia-se entre mim e meus concidadãos outro muro ainda mais difícil de escalar ou de romper para que pudessem vir a ser tão livres quanto eu era. Nem por um momento me senti encarcerado, e os muros pareciam um grande desperdício de pedra e argamassa. (…) Não nasci para sofrer coação. Respirarei como me aprouver. Veremos quem é o mais forte.

Apesar de ter sido escrito há mais de 150 anos, A Desobediência Civil continua sendo um guia para quem busca se libertar de diversas formas de repressão do cotidiano. Thoreau, Gandhi, Luther King e outros líderes ensinaram que não basta reclamar e jogar a culpa para os políticos, é preciso agir. Vá ao sebo ou à biblioteca mais próxima e experimente este novo horizonte.

Texto de Maurício Tonetto