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Posts na categoria "Prazer da Leitura"

As Primeiras Palavras

19 de abril de 2012 5

Já li escritores afirmarem em entrevistas que o mais difícil ao escrever um livro é achar a primeira frase. Acho que é uma declaração válida com mais frequência no jornalismo, pois o lide, o parágrafo inicial de um texto, é, para muitos, uma das últimas coisas que a mente aceita liberar quando se está aflito na frente da máquina ou do terminal. Outros colegas com quem já trabalhei não conseguem escrever nada antes de ter o primeiro parágrafo para orientar-lhe as ideias nos caminhos futuros do texto.

Não é o meu caso. Escrevo muito rápido mesmo para os padrões de um jornalista porque não tenho essa necessidade de iniciar do começo, e sim posso escrever primeiro uma frase que sei que estará lá no meio da matéria e partir dela. Daí muitas vezes o pensamento se organiza para frente e para trás e eu vou completando. Não é um processo isento de falhas, mas nada no jornalismo diário é isento de falhas. E pra mim funciona muito melhor porque quando chego ao momento de redigir o lide, já estou com toda a matéria escrita, e fica mais fácil, assim, pensar numa frase de mais impacto que possa dar conta do que vem depois.

Com isso não digo que a primeira frase não é importante, pelo contrário. Ela é essencial, tanto que na literatura as primeiras frases de maior impacto sempre foram alvo de minha particular afeição. Sempre gostei de anotar. por curiosidade e por curtição, as primeiras frases de romances e contos cuja leitura me foi grata, ou até mesmo das obras das quais não gostei mas que prometiam muito pela frase inicial. Há que se dizer que a idéia não é exclusiva minha, a maioria das pessoas que conheço já fez ou ainda faz isso em algum momento, e mesmo a ideia de anotar as primeiras frases de clássicos já foi aplicada no romance Buffo & Spallanzani, pelo mestre Rubem Fonseca. O blogueiro e escritor Sérgio Rodrigues tem uma série inteira no seu Todoprosa sobre “começos inesquecíveis”. Mas isso não impede que, numa época em que o blogueiro aqui está de férias, e portanto atualizando o blog para vocês pelo simples prazer de fazê-lo, ele possa replicar a ideia ao seu modo, como na breve seleção feita abaixo (é breve porque vai que outra hora resolvo dar continuidade acrescentando algumas?).

Últimas instruções de uso deste post: quando a frase é extraída de um romance,  o nome do livro está informado após o nome do escritor. Quando, no caso de um conto, o nome do livro for o mesmo da história, bastará um “idem”. Quando não, o primeiro nome designa o conto, e o ultimo, o nome da obra de onde ele foi retirado. E aqui não transcrevi parágrafos iniciais, e sim as primeiras frases – naquela definição básica que todo mundo aprendeu na escola, a frase como algo que finaliza com o ponto, o que explica porque algumas são mais longas do que outras. Essa minicoletânea também não tem o propósito de afirmar, espero que a dedução seja óbvia, que um bom romance necessariamente precisa ter uma grande primeira frase. Há inícios de romance cujos parágrafo inicial vai crescendo em impacto e beleza pela justaposição do que as frases seguintes têm a dizer/negar sobre a primeira. É apenas um reconhecimento àqueles romances que têm tais frases.

La candente mañana de febrero em que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonia que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de la Plaza Constitución habían renovado no sé qué aviso de cigarrillos rubios; el hecho me doló, pues comprendi que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que esse cambio era el primero de una serie infinita.
Jorge Luis Borges (El Aleph - idem)

Tinha ele 6 pés de altura, menos 1 ou 2 polegadas, talvez, forte, espadaúdo, avançava direito para a agente, um pouco curvado, olhar fixo, a cabeça para a frente, como um touro quando vai investir.
Joseph Conrad (Lorde Jim)

Alieksiéi Fiódorovitch Karamázov era o terceiro filho de um proprietário de terras de nosso distrito, Fiódor Pávlovitch, tão conhecido em seu tempo (dele se lembram, aliás, ainda) pelo seu fim trágico, ocorrido há treze anos, de que falarei mais adiante.
Fiódor Dostoiéwski (Os Irmãos Karamázov)

Faço questão de assegurar com toda a clareza que absolutamente não tenho a intenção de colocar minha pessoa num lugar de destaque ao escrever algumas palavras acerca de mim mesmo e de minhas próprias atividades, antes de iniciar o relato da vida do finado Adrian Leverkünh, a primeira e certamente muito provisória biografia do saudoso homem e genial músico, que o destino terrivelmente assolou, engrandecendo-o e derribando-o
-Thomas Mann (Doutor Fausto).

Aqui estamos de novo sozinhos.
Louis-Ferdinand Céline (Morte a Crédito)

José Palacios, su servidor más antiguo, lo encontró flotando en las águas depurativas de la bañera, desnudo e com los ojos abiertos, y creyó que se habia ahogado.
- Gabriel García Márquez (El General en su Labirinto)

Eu estava num daqueles bairros chinfrins perto da avenida Central, ali pelas quadras que ainda não foram totalmente ocupadas pelos negros.- Raymond Chandler (Adeus, Minha Adorada)

Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro PáramoJuan Rulfo (Pedro Páramo)

Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, foi a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo e nada tínhamos, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas das suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação. - Charles Dickens (Um Conto de Duas Cidades)

O maxilar de Samuel Spade era longo e ossudo, seu queixo um V proeminente sob o V mais flexível da boca.
Dashiell Hammett (O Falcão Maltês)

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lembrava-lhe sempre o destino dos amores contrariadosGabriel García Márquez (O Amor nos Tempos do Cólera)

Em meus anos mais juvenis e vulneráveis, meu pai me deu um conselho que jamais esqueci: – Sempre que você tiver vontade de criticar alguém – disse-me ele – lembre-se de que criatura alguma neste mundo teve as vantagens de que você desfrutou. – F.S. Fitzgerald (O Grande Gatsby).

Nosso pai era um homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação.- Guimarães Rosa - (A Terceira Margem do Rio)

A tumba era grande, sólida, deveras imponente: uma espécie de templo entre o antigo e o oriental, como se via nos cenários da Aída e de Nabucco, em voga nos teatros de ópera até poucos anos atrásGiorgio Bassani (O Jardim dos Finzi-Contini)

Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente.
- Graciliano Ramos (Angústia)

A narrativa nos manteve suspensos junto ao fogo; e não fosse a observação, demasiado evidente, de que era sinistra, tal como, em essência, deve ser toda história contada em noite de Natal numa casa velha, não me lembra qualquer outro comentário, até que aconteceu alguém dizer que aquele era o único exemplo do qual tivera notícia, onde um tal castigo havia recaído na cabeça de uma criança.Henry James (A volta do Parafuso)

De um hospital particular para doentes mentais, nas proximidades de Providence, em Rhode Island, desapareceu há pouco tempo uma pessoa extraordinariamente singularH.P. Lovecraft (O Caso de Charles Dexter Ward)

Contudo, nunca foi bem estabelecida a primeira encarnação do Alferes José Francisco Brandão Galvão, agora em pé na brisa da Ponta das Baleias, pouco antes de receber contra o peito e a cabeça as bolinhas de pedra ou ferro disparadas pelas bombardetas portuguesas, que daqui a pouco chegarão com o mar.
João Ubaldo Ribeiro (Viva o Povo Brasileiro)

Para começar, vamos dar-lhes notícias do protagonista.Norman Mailer (Os Exércitos da Noite)

Tudo no mundo começou com um sim
Clarice Lispector (A Hora da Estrela)

O que mais há na terra, é paisagemJosé Saramago (Levantado do Chão)

Era uma vez e uma vez muito boa mesmo uma vaquinha-mu que vinha andando pela estrada e a vaquinha-mu que vinha andando pela estrada encontrou um garotinho engrachadinho chamado bebê tico-taco – James Joyce (Retrato do Artista Quando Jovem)

Para os garimpeiros do livro

22 de setembro de 2011 0

Foto: Ricardo Wolffenbüttel, Agência RBS

Duas boas oportunidades para quem quer prospectar livros bacanas em tempos de contenção de despesas ou mesmo para quem pretende se livrar de alguns dos exemplares que tem em casa. Dois eventos fazem a alegria dos ratos de sebo este fim de semana.

O primeiro é a quinta edição da Feira do Livro Infantil no Jardim Botânico.  Organizada nos moldes de uma feira de livro tradicional, com sessões de autógrafos e encontros com autores, visitas de turmas de escola e livros à venda, o evento, contudo, também é realizado com o intuito de arrecadar doações de livros que são usados para a formação de pequenas bibliotecas para creches, escolas e outras instituições comunitárias No ano passado, foram arrecadados mais de 10 mil livros, distribuídos entre 85 escolas carentes.
O patrono desta edição é o músico e escritor Cláudio Levitan. A programação vai até domingo, das 10h às 17h, no próprio Jardim Botânico (Rua Dr. Salvador França, 1427, Bairro Jardim Botânico, Porto Alegre). A Feira está aberta a todos os públicos gratuitamente – mas a organização pede, apelando para a generosidade dos frequentadores, a doação de um livro infantil (levado de casa ou comprado no local).

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Outra dica bacana para quem estará na Capital neste fim de semana é a 10ª edição da Feira de Troca de Livros, organizada pela Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, através da Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães. No domingo, das 10h às 17h, mais de 15 bibliotecas da Grande Porto Alegre estarão reunidas no Parque da Redenção com livros a postos para trocas. Você leva de casa livros que já leu e estão ocupando espaço e troca, no local, por outras que teria interesse em ler. A organização avisa: não é uma feira comercial, logo, não tem dinheiro nem cartão de crédito na parada. Dependendo de quantos livros você quiser levar, seria melhor você aparecer lá com mochilas, sacolas, carrinhos de feira, essas coisa. A Feira terá lugar junto ao Monumento do Expedicionário, na rua José Bonifácio, e será protegida por uma cobertura montada para o evento –  logo, a feira será realizada mesmo com chuva.

Padecimentos de um leitor que perambula

19 de julho de 2011 5

Kiera Knightley como Elizabeth na versão de "Orgulho e Preconceito"

Ainda na adolescência, em São Gabriel, desenvolvi a habilidade – que mais tarde seria muito útil – de ler andando, ou de caminhar lendo, como queiram. Desde então, a maioria das pessoas de minhas relações (parentes, namoradas, amigos, colegas de trabalho e até um que outro desconhecido que simplesmente passou por mim na rua) condenou a temeridade do procedimento e vaticinou para muito breve o dia em que eu seria vítima desse estranho hábito: cairia em um buraco, meteria o pé num bueiro, seria atropelado, bateria em algum obstáculo do caminho (e isso que na época nem havia os contêineres esses da Prefeitura), seria vítima de um batedor de carteira, seria vítima de um assaltante, etc. Ainda não aconteceu, felizmente para mim.

Ler caminhando não é tão difícil quanto parece depois que se pega a prática, e cada um terá seu próprio método para ajustar o ritmo das passadas ao da leitura. No meu caso, como leio enquanto venho a pé para a Zero Hora, carregando minha pasta de trabalho dependurada  no ombro, mantenho as mãos livres o máximo possível, mas seguro o livro com apenas uma delas, geralmente a direita. A lombada do livro se acomoda na mão na concha formada pelos dedos e pela palma enquanto o polegar faz pressão sobre as páginas no interior do livro, mantendo-o aberto. Para virar as páginas, usa-se a outra mão, ergue-se o polegar como se fosse uma cancela e depois da folha virada retorna-se o dedo à mesma posição. Depois de algum tempo e dependendo de alguns fatores como a antiguidade do livro, a qualidade do papel e a umidade relativa do ar, é possível também virar a página apenas com o polegar que se está usando para manter o livro aberto.

Enxergar o caminho enquanto se lê, obviamente, é impossível, por isso é bom manter os demais sentidos alertas aos ruídos da rua – que identificam se uma aglomeração de pessoas vem na tua direção, se o som dos carros está ficando mais intenso, indicando aproximação da esquina. E, claro, pontualmente dar uma leve conferida erguendo o olhar do livro por alguns instantes e memorizando os obstáculos dos próximos metros. Com essa nesga do caminho memorizada, é só observar o caminho com a visão periférica e o canto de olho para tentar reconhecer os potenciais perigos avistados quando do conferes preventivo.

Não, ao contrário do que os desavisados possam pensar, não são as dificuldades inerentes a andar em cabra cega os maiores obstáculos à leitura ambulante. É, sim o grande número de tijolões literários lançados no último ano. Segurar o livro com uma mão só, mantendo-o aberto com o concurso único e exclusivo do polegar pode até dar certo com os livros mais recentes do Rubem Fonseca, por exemplo, os dois com menos de 200 páginas (e sobre os quais teremos textos em Zero Hora até a semana que vem) ou com as menos de 300 de Orgulho e Preconceito (cuja adaptação cinematográfica ilustra este post e, além de uma leitura sensacional, é um livro curto e direto sem abrir mão da complexidade). Agora, já tentaram fazer isso com as 900 páginas de Sangue Errante, de James Ellroy; as 700 de Freedom, de Jonathan Franzen; as 1000 da biografia de Hitler, as 850 de 2666 de Roberto Bolaño, as 500 de A Viúva Grávida, de Martin Amis, as 700 cada volume de A Guerra dos Tronos?  Portanto, esse é o único conselho que posso dar para quem pretende dominar as artes arcanas da leitura ambulante: escolham livros curtos, sob pena de destroncarem um dedo.

Quarta capa

22 de fevereiro de 2011 6

Que cada um escolhe a próxima leitura de um jeito diferente, eu nem preciso dizer. Alguns pela capa, outros por uma indicação. Tem aqueles que lêem porque pegam emprestado (o/), leram a resenha, ouviram falar, gostam do autor… ou então ficaram interessados na história que a quarta capa e a orelha apresentam.

Eu confesso que não tenho muito método (além do critério empréstimo) e, além disso, raras vezes leio as orelhas e afins antes de começar algumas páginas do livro. Não, não é por questão de princípio, porque acho que eu vá ser influenciada ou coisa que o valha. Apenas me interessam muito pouco antes de começar a leitura da obra em si. Mas inevitavelmente, acabo lendo em alguma pausa de leitura do livro.

De qualquer forma, a tarefa da quarta capa é cruel. Considerando a infinidade de títulos dispostos em uma livraria, até que o leitor coloque o volume na sacola, ele vai passar pela capa, título, autor, sessão na qual está à venda. Aí, se ainda assim, o indivíduo não estiver convencido, cabe àquelas vinte linhas de texto, quando tanto, o papel de convencer.

Então, vamos a um exercício das coisas que nunca devem ser ditas nessas referidas apresentações, sob pena de perder o leitor. No princípio, a ideia era usar alguns textos de exemplo, mas achei melhor não comprar briga com ninguém (hehehe)

Regra 1: nunca diga “o autor lança mão de x recurso” para explicar alguma coisa. Normalmente o recurso do qual o fulano “lança mão” não é nada de importante, mas apenas alguma coisa que vá parecer impressionante ou charmosa no texto. Acredite: não é.

Regra 2: não entregue nada da história que não esteja nas primeiras 20 páginas. Parte da graça de ler é descobrir SOZINHO o raciocínio e a história (adaptado da entrevista que o Michel Laub concedeu para a minha monografia).

Regra 3: Não faça o livro parecer autoajuda, por mais tentador que isso possa ser, comercialmente falando. Nada de “manuais” e nem “pílulas de sabedoria“, se você quiser fazer seu livro parecer sério.

Regra 4: Não diga que o livro é fascinante, delicioso ou encantador. Adjetivos devem ser atribuídos pelos leitores e não pelo povo que trabalha no departamento editorial (por mais competentes que sejam).

Regra 5: Se você for entregar a orelha ou a quarta-capa para algum escritor famoso (que irá assinar o texto), não permita que ele transforme o texto em uma “obra-prima”, mostrando todas as suas competências literárias. Vai dar errado. Também não deixe que ele faça uma resenha – o objetivo dos referidos espaços não é esse.

Tá. Chega de ficar ditando regras sozinha. Diz aí, o que vocês não suportam quando vão ler orelhas e que tais de livros?

Texto de Tássia Kastner

Dos fins que não se conhecem

05 de janeiro de 2011 0

Volta e meia não termino livros. Há sempre esse cansaço antes do fim, essa promiscuidade literária que me faz começar outros e outros e outros e sempre esquecer de terminá-los.

Crusoé deixou a ilha e eu senti falta de Sexta-Feira. A civilização pode ser tão chata todo e atual dia a dia quanto em entrelinhas passadas. É como a aventura que termina e deixa ressaca.

Ana Karênina trocou a aristocracia por um grande amor. No fundo há uma falácia. E ela pode ser contada por Tolstoi ou em Bianca-papel-jornal, não importa o propagador de ideias que, para uma cética, não fazem volume.

Antes de me convencer que, de toda a cegueira, a que mais incomoda é a de que se é volúvel… e frágil… e escatológico, fechei a falta de pontuação de um Saramago na página em que eu já também não marcava.

Esse cansaço antes do fim… essa falta de pontuação… as falácias. Volta e meia não me termino.

Texto de Maria Rita Horn

Dame Agatha e os crimes rocambolescos

15 de setembro de 2010 2

Em um ensaio famoso intitulado Tipologia do Romance Policial (publicado na coletânea As Estruturas Narrativas, da editora Perspectiva), Tzvetan Todorov dividia em duas vertentes a narrativa policial. A primeira era “o romance de enigma”, ou “romance-jogo”, no qual a história que se contava não era a do crime, mas a da investigação para desvendar esse crime, um romance que muitas vezes propunha ao leitor um jogo, um desafio nos moldes estabelecidos pelo escritor S.S. Van Dine em 1928, ao esboçar o que considerava As Vinte Regras do Romance Policial. Numa delas, Van Dine se conformava com a ideia de que em algum momento um leitor perspicaz acabará por desvendar o culpado antes do fim do livro, uma vez que era parte do jogo quando o romance era construído de forma “limpa e honesta” – o que significava tornar o culpado alguém que estivesse lá desde o início, e não um mero personagem ex-machina surgido do nada.

Dominante durante as primeiras décadas do romance policial, esse tipo de narrativa teve de enfrentar, nos anos 1930, a concorrência da segunda e mais cínica vertente apontada por Todorov, a do “Romance Negro” praticado por nomes como Dashiell Hammett, Raymond Chandler e Mickey Spillane. São obras nas quais não há inocentes, as pistas aparecem e desaparecem e o culpado pode ser uma surpresa. O detetiva arrisca a vida, é ferido, tem de sujar as mãos e bater sola de sapato nas ruas em vez de usar métodos meramente dedutivos. E ele não colabora com a polícia, que é tão corrupta e amoral quanto o criminoso (outro teórico a se debruçar sobre o romance policial, o marxista Ernest Mandel, dizia, em Delícias do Crime, que a diferença entre um estilo e outro era que em um deles o detetive agia “integrado” à sociedade, como uma ferramenta do status quo em busca do elemento desviante, da “fruta podre”, o criminoso, a figura aberrande no corpo social. Já o detetive noir agia fora da máquina repressiva, em uma sociedade em desintegração).

Quando se fala no primeiro estilo, é comum citar Sherlock Holmes como um exemplo de protagonista do “romance de enigma” – e ele o é, mas de modo algum seus livros oferecem ao leitor a satisfação do “jogo” de que falava Van Dine. Holmes tem um estilo similar ao do Super-Homem Nietzscheano, seus padrões estão tão acima e a narrativa fornece tão poucas pistas que Conan Doyle usou a figura de Watson como o “representante do leitor”, aquele a quem o detetive explica em tom superior, por vezes até antipático, como chegou à dedução que levou ao esclarecimento do caso. Para o leitor, a coisa toda soa muito esotérica, com Holmes interpretando os sinais que vê e atribuindo a eles um significado que apenas ele poderia atribuir, uma vez que apenas ele tem informações que não foram compartilhadas com o leitor.

Caso bastante diverso é o de Agatha Christie (na foto lá cima), cujo nascimento completa 120 anos hoje e que é a razão deste post. A propósito: a L&PM está promovendo uma caça ao tesouro com as obras da autora em cinco cidades brasileiras. Aqui em Porto Alegre, livros de Agatha na coleção Pocket  da L&PM foram deixados no interior do Shopping Iguatemi, se alguém se interessa. Os locais em que os livros foram “libertados” – para usar o termo que estava na moda quando as brincadeiras desse tipo começaram a ser feitas pela internet, faz já uns bons seis anos – está aqui. E a Editora Globo, que também publica livros da autora, anunciou hoje que, para marcar os 120 anos, está pondo nas livrarias uma caixa especial com três dos melhores livros da autora (Os Cinco Porquinhos, O Assassinato de Roger Ackroyd e o renomeado E Não Sobrou Nenhum – tradução mais literal para o tíulo do romance que a maioria de nós, os mais velhos, conhecia por O Caso do 10 Negrinhos) e um projeto gráfico especial para a ocasião. Detalhes aqui.

Mas voltando aos livros de Agatha Christie. Os romances da autora – tanto aqueles com seus detetives recorrentes, como Hercule Poirot, Miss Marple ou o Coronel Race, quanto os que apresentam uma história fechada sem ligação com os demais – constroem um romance que poderia muito bem ser desvendado pelo leitor mais atento antes de sua revelação.  Agatha, para usar a expressão de Van Dine, “joga limpo” com seus leitores, ainda que reserve uma ou outra surpresa em sua manga. Pedindo desculpas pelo cabotinismo mas aproveitando o fato de que um blog permite uma abordagem mais pessoal da matéria, partilho com o amigo leitor a informação de que traduzi, para a editora L&PM, quatro romances de Agatha Christie: O Mistério do Trem Azul, O Mistério de Sittaford, Um Brinde de Cianureto e E no final a Morte – digamos que fiz parte da “força-tarefa” que, nos últimos dois anos, pôs de volta nas livrarias novas traduções de praticamente todos os romances da autora nas edições pocket da editora.

É com base nisso que lanço as seguintes considerações vadias sobre a obra da autora: Agatha Christie não era um primor de estilo, mesmo no original inglês. Sua prosa é estritamente funcional, muitas vezes repetitiva, sem abundância de recursos. Mesmos os gestos de seus personagens são descritos de modo repetitivos, eles “arregalam os olhos”, “lançam um olhar penetrante” e assentem com acenos de cabeça muito mais do que seria recomendável para não cansar. Mas a tudo isso releva-se, porque seu texto estava a serviço da verdadeira maravilha criada pela autora: seus enredos. Ela não apenas enche a cabeça do leitor de dúvidas sobre quem cometeu o crime mas também a respeito de como tal crime foi cometido – alguns de seus melhores livros complicam a investigação com a ideia de que o crime, embora cometido, tecnicamente não poderia ter sido perpetrado. Talvez o interesse da autora nas doutrinas do espiritismo possa explicar um pouco o quanto a autora gostava de fazer seus enredos flertarem com o sobrenatural, embora a resolução fosse sempre a mais lógica e materialista possível. Nos quatro romances acima mencionados, há, em menor ou maior grau, a suspeita de ação sobrenatural em algum ponto crucial da narrativa – no caso de E No Final a Morte isso até se explica, já que a trama se passa no Egito Antigo, tornando mais fácil a circunstância dos personagens crerem em intervenções divinas ou sobrenaturais.

Já no caso de O Mistério de Sittaford e Um Brinde de Cianureto, o mistério passa pela circunstância de que os crimes não poderiam ter sido cometidos e a solução “espirita” chega a ser aventada por uma ou mais personagens. No primeiro, um oficial aposentado é morto com uma pancada na cabeça durante uma nevasca. No mesmo momento, na casa em que o oficial residia, mas que alugou para uma misteriosa inquilina no topo de um promontório isolado próximo, a locatária e um grupo de amigos estavam fazendo uma sessão espírita, por diversão (ah, o que as pessoas tinham de fazer para se divertir antes da internet e da TV a cabo) e o nome da vítima, Capitão Trevelyan, aparece, citado como vítima de homicídio pelo espírito convocado. O oficial era um sujeito de maus bofes, e aparentemente foi morto pelo sobrinho, que esteve com o tio antes de sua morte. Mas o sujeito é panaca demais para ser homicida, e por isso a sua noiva, a adorável Emily, tem certeza absoluta da inocência do amado, e parte para desvendar o crime – e, o mais surprendente, ela o faz. A solução não é surpreendente tanto pelo culpado quanto pelo método, e mais não digo para não estragar a leitura de ninguém.

Em Um Brinde de Cianureto, a morte ocorre em público. Rosemary Barton, uma bela mas fútil mulher, é envenenada em um restaurante de luxo durante um brinde pelo seu aniversário, à frente de todos os convidados presentes. A um ano depois, seu viúvo organiza uma outra festa com os mesmos convidados e uma nova tragédia toma conta da mesa. A investigação remonta não apenas ao caso em si, mas à reconstrução da personalidade de Rosemary, ligada de um modo a outro a todos os suspeitos – confesso que para mim, como leitor, essa foi a parte que achei mais ambiciosa mas ao mesmo tempo a menos bem-sucedida. A personalidade volúvel de Rosemary quase impede o leitor de sentir empatia pela sua morte. O fato é que mesmo encontrando testemunhas confiáveis e reconstruindo todo o caso em minúcias, o Coronel Race e seus colaboradores da polícia não conseguem estabelecer o momento em que o veneno foi colocado na taça da segunda vítima, a da outra tragédia. A solução é ao mesmo tempo simples e desconcertante. Ao ponto de provocar dúvidas sobre sua verossimilhança, mas ainda assim inesperada.

Durante anos defendeu-se o romance negro como uma evolução do romance de enigma, destinado a suplantá-lo uma vez que flertava com a literatura dita mais séria em vez de ser mero escapismo (o policial ainda é daquele gêneros que parecem precisar de uma distância de 50 anos a cada obra para que o seu autor seja reconhecido como escritor de fato, vide o caso Simenon). Mas apesar disso, Dame Agatha ainda é uma das autoras mais lidas do planeta – o tipo de romance que ela faz envelheceu, mas seus livros não.

S.S. Van Dine, o autor da noção de jogo, hoje em dia é muito pouco lido, bem como metade de seus contemporâneos – mas Agatha permanece, sobrevivendo em adaptações para TV, cinema, quadrinhos. Prova de que, atuando dentro das normas de um dos gêneros mais bem delimitados da literatura, soube alcançar um degrau de excelência na construção da fórmula que garante a sua sobrevivência, a de Conan Doyle e a de muito poucos daqueles autores dos tempos heróicos do romance de crime.

Quatro mineiros

02 de março de 2010 2

Estátuas dos quatro mineiros na Praça Liberdade, em BH: Sentados, Sabino (à direita) e Lara Resende.
Em pé, Paulo Mendes Campos (com o livro na mão) e Hélio Pellegrino. Imagem do fotógrafo Marcelo Lisa

O fato de sermos amigos não impedia que fôssemos implacáveis no julgamento da produção literária de cada um. Quando dei uma novela de quarenta páginas para que o Hélio lesse, ele o fez diante de mim com a maior atenção, durante horas; a única reação que teve, ao terminar, atirando a novela em cima da mesa, foi dizer:
– Quá…
Um julgamento desses era de jogar os originais no lixo, o que todos nós fizemos mais de uma vez. Ninguém se ofendia: dava o troco na primeira oportunidade. E cada um tinha a sua vez.
Numa delas, o Otto, por exemplo, ao entrar em minha casa para jantar comigo, possuído de incontida inspiração, foi direto para a máquina de escrever, disparou a redigir um texto. Intrigado, resolvi ver por cima do seu ombro de que se tratava – ele parou um pouco, aguardando minha opinião. Que não se fez esperar.
– Desse mato não sai coelho, não…
Depois de hesitar um segundo, arrancou o papel da máquina, amassou e jogou na cesta, se erguendo:
– Como é, vamos jantar?
Aprendemos a conviver assim de maneira desabrida e espontânea. E acredito que esse rigor crítico nos foi extremamente valioso: impediu que a gente escrevesse muita bobagem.
Ou não impediu…

Com o tempo, abrandamos um pouco a intransigência, que total, com um pouco de tolerância, que era nenhuma. Não admitíamos orelha elogiosa em livro, foto na capa ou na vitrine, qualquer espécie de estrelismo ou apelação. Um livro tinha de ser, no mínimo, obra literária definitiva.
Um trabalho como este, breve e despretensioso (com S) passeio pelo meu mundo de lembranças, seria considerado por nós um mau passo, capaz de me atirar para sempre na vala comum da subliteratura.
Encontramos Carlos Drummond de Andrade numa livraria – e Carlos era ídolo, sabíamos seus poemas de cor – quando ele vinha de lançar o livro
Viola de Bolso: poesia de circunstância, poeminhas de álbum de moça, coisa sempre de interesse para complementar a obra principal. Quando nos perguntou o que havíamos achado, um de nós respondeu:
– Uma leviandade do poeta.
Augusto Frederico Schmidt foi outro que se deu mal com a nossa presunção. Um dia nos leu um novo poema e como, depois de lido, ninguém dissesse nada, perguntou:
– Vocês acham que estou decadente?
– Achamos – Paulo respondeu por nós.
E Schmidt, conformado:
– Obrigado pela franqueza.
Não sei se presunção era bem a palavra: éramos rebeldes, inconformados, contra a ordem constituída e tudo que representasse instituição, fosse a direção do Colégio, o Governo, a Cúria Metropolitana.

O trecho acima, retirado da coletãnea de crônicas O Tabuleiro de Damas, é um exemplo da prosa límpida e ao mesmo tempo elegante de Fernando Sabino, contando episódios de sua longa e afetuosa amizade com outros três escritores, mineiros como ele – ele diz nesse mesmo texto que essa questão era circunstancial: “a singularidade talvez não esteja na nossa presumível ‘mineirice’, mas no fato de sermos amigos de convivência diária durante mais de cinquenta anos”. Os demais integrantes do quarteto eram Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, todos citados pelo prenome no texto acima.

Sabino, com certeza, foi o mais popular dos quatro, o de mais ampla aceitação por parte de várias camadas de leitores, e, tristemente, pode ser o único que sobrevive como autor lido nos dias de hoje (e não como leitura, uma vez que todos os quatro eram excelentes e saborosos textos). Mesmo assim, não sei se hoje Sabino é lido pela turma mais nova como foi pela minha geração na época em que eu estava no colégio – uma circunstância que fiz questão de representar quando escrevi minha novela Tudo o que Fizemos, fazendo um dos personagens ler em uma cena O Encontro Marcado. Sabino foi parte importante da minha formação como leitor, bem como O Grande Mentecapto, A inglesa Deslumbrada, Cidade Vazia, Faca de Dois Gumes, textos que formaram leitores no sentido mais amplo do termo, escritos que permitem ao leitor gostar de ler, encontrar aquele elemento que é essencial na leitura de qualquer coisa, por mais desculpas que se dê para o ato de ler: o prazer.

Como eu disse, não tenho certeza se Sabino ainda é lido como deveria, e por isso estava devendo fazia horas a divulgação aqui com vocês do site A Falta que ele Faz, que o jornalista Rafael Rodrigues criou no ano passado para homenagear a memória de Sabino. O que me faz pensar… Há uns dois anos, saiu Um Cigano Fazendeiro do Ar, de Marco Antônio de Carvalho, alentada e ótima biografia de Rubem Braga, na qual Sabino é figura de amplo espectro pela amizade que nutriu com o biografado (ambos foram sócios na Editora do Autor, por exemplo.. Sabino também é personagem de destaque no livro Clarice, a biografia de Clarice Lispector escrita pelo americano Benjamin Moser, e em O Santo Sujo, a biografia de Jayme Ovalle escrita por Humberto Werneck. Mas me pergunto se alguém já abraçou a causa de fazer a biografia do próprio Sabino, titã da crônica e figura atuante do cenário cultural nacional, prova é sua presença nas três obras citadas anteriormente. Dependendo de como fosse escrito e pesquisado, estava aí um livro que eu teria muita curiosidade de ler.

Pecados da Acumulação

01 de março de 2010 3

A lógica da acumulação é o que rege a relação do ouvinte contemporâneo com a música – já ouvimos bastante frases como essa, já até proferimos bastante frases como essa: o sujeito enche seu HD de discos e músicas que ele só ouve uma vez, se ouve, e passa adiante, parece haver uma febril ansiedade de acumulação, aquisição, posse de conhecimento em superfície mas não em profundidade.

Sim, sim, talvez na música isso fique mais claro, mas nós, leitores, não temos lá muita moral para falar disso – nenhuma, na verdade, afinal, o que se pode dizer quando um leitor, já que está passando mesmo pela Zona Sul, aproveita para dar uma olhada pela Fnac do Barra, que ele nunca vai por ser fora de mão, e já que está olhando mesmo, o sujeito depara com a edição nacional de Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar, do Lobo Antunes, que não tem nem leu mas estava curioso para ter e ler, e ao lado, bem ao lado na mesinha da livraria, está um exemplar de As Brasas, do Sandor Márai, que ele leu emprestado uma vez e amou e pensou que queria ter pra si, e já que é um sujeito de poucos gastos e ainda tem um resíduo do seu salário o cara vai lá e compra os dois, o que não leu e o que já leu mas está doido para ler de novo mesmo tendo em casa uma boa dezena de livros que ele está louco para ler mas sequer abriu ainda?

Sim, sim, perspicazes leitores. O sujeito acima sou eu. Mas pensando bem, se você é um leitor perspicaz, esse sujeito também é você.

Dando palpite

25 de maio de 2009 22

O jornalista e escritor Sérgio Rodrigues provocou recentemente em seu blog, o Todoprosa (mais especificamente aqui e aqui) uma discussão acirrada em sua caixa de comentários ao levantar a hipótese de que a escola no Brasil peca ao não procurar o mínimo de equilíbrio entre estimular o prazer da leitura e a árida disciplina necessária para o ensino da literatura. Muita gente se manifestou pondo a culpa na gurizada (que tem uma parcela de culpa mesmo) que não lê, não quer saber, prefere o Ipod, o celular que também é canivete suíço, a internet, a televisão. Sim, sim, todas justificativas muito válidas, mas até onde a escola também não está deitada em berço esplêndido exigindo autoritariamente a essa gurizada: virem-se. Não tenho paciência para deixar discussão em comentário no blog de terceiros, principalmente quando a discussão já passou de cinco dezenas de comentários. Logo, meu humilde pitaco sobre a questão eu despejo aqui no blog para compartilhar com vocês – e quem quiser discordar, comente, vamos seguir o debate.

A estruturação do currículo do ensino de literatura no Brasil é um caos. O programa é eminentemente cronológico – priorizando aquela ordem que todo mundo decorou na época do vestibular e depois esqueceu: lírica trovadoresca, barroquismo, arcadismo, simbolismo, parnasianismo, realismo, naturalismo, modernismo, geração de 30, geração de 45 – e isso quando essa ordem não está errada desde o ovo, como essa tal geração de 45 na qual querem encaixar o João Cabral a golpe de marretada.

Se minha memória não embotou depois de anos longe do antigo 2º Grau, acho que essa grade curricular no ensino de literatura, pelo que me lembro, faz muita gente se defrontar com Camilo Castelo Branco e José de Alencar no primeiro ano, Machado de Assis lá no fim do segundo e só pegar a parte mais acessível da coisa no fim do curso do ensino médio: João Ubaldo e Rubem Fonseca, Erico Verissimo, Jorge Amado e Rachel de Queiroz — quando esses não são vistos em resumos pífios na corrida de obstáculos que são os meses que antecedem ao vestibular.

Algumas coisas que somos obrigados a ler no início do segundo grau não deveriam ser lidas por pessoas abaixo de 18 anos. Outras, perdem dois terços de seu encanto se lidas aos 16. E outras ainda, convenhamos, não deveriam ser leitura obrigatória de ninguém. Vai ver por isso somos forçados a ler Lucíola aos 15, no colégio, porque senão nunca o faríamos por vontade própria quando ficássemos mais velhos.

O ensino de literatura deveria ser uma ferramenta para difusão do gosto da leitura — oquei, mais adiante eu descubro que Alencar veio antes de Machado, mas agora eu me dedico a ler livros que eu consiga terminar e, em terminando, entender alguma coisa. Dou só um exemplo. Nada justifica que adolescentes cuja maior preocupação imediata é “ficar na festa” — ou seja, não iniciados ou iniciados há pouco no jogo erótico adulto, mais preocupados com o fator animal da coisa do que com aquelas circunstâncias de que nós, humanos, revestimos nossos atos de amor – tenham de enfrentar algo tão sutil, um jogo de sedução tão lento e paciente quanto o descrito em Missa do Galo, de Machado de Assis.

Há coisas que perdem a graça se conhecidas antes do amor. Outras, são cheias de ressonâncias que nos escapam e que só poderemos perceber de verdade naquele dia em que, analisando em retrospectiva o tempo da faculdade, por exemplo, percebemos que uma colega linda que nos era muito próxima na verdade poderia ter para nós intenções outras que não a mera amizade quando nos falava com voz doce ou nos tocava o braço com carinho, mas que isso naquela época nos escapou por nosso desconhecimento do mundo. E hoje ela sumiu na poeira do tempo ou casou ou sei lá. É o que veremos acontecer com o protagonista de Missa do Galo.

Sei que o que mais tem por aí é pedante proselitista defendendo que Machado é universal e por isso não conta. Conta sim. Conta porque o universalismo de Machado não é ponto pacífico em termos de geração. Pode ser lido hoje sem problemas e dizer tanto quanto em seu século 19, mas não para adolescentes do século 21. Capitu e sua traição misteriosa, seu fascínio de olhar dissimulado passam reto por um adolescente, que também não vai captar a grandeza do humor de Brás Cubas ou o alcance da ironia de Dom Casmurro — uma prova disso é o sucesso entre jovens das passagens mais sentimentais da minissérie Capitu, muitas vezes passagens que a produção descarnou por completo da ironia ácida que é tão fundamental no livro. Esse tipo de leitura cheio de nuanças fica pra mais tarde. Muitas vezes a primeira leitura foi insuficiente — e, convenhamos, mal empregada, já que se poderia ter aproveitado o tempo que usamos lendo mal um livro desses para ler bem um outro livro.

Como saber do que fala a Canção do Exílio numa época em que pouca gente sentiu saudade? Como ler Macunaíma se o conceito de invenção formal e linguística do livro pode servir apenas como uma justificativa para a ignorância – uma forma de escravidão, não da liberdade postulada e defendida pelos modernistas. Fosse eu encarregado dos currículos de literatura acho que inverteria: começaria com os livros que, dentro do espectro das boas obras, dessem prazer, fossem divertidos e repletos de imaginação. Tá certo que o hábito pela leitura se pega em casa, e alguém que chegou no segundo grau sem ele já está a um passo de se tornar um caso perdido. Mas acho que não seria tarde para ao menos, sem abolir de algum critério, tornar a descoberta da leitura algo mais fácil e imaginativo. Às favas a literatura no Vestibular, deveríamos retirá-la dali e dedicar o programa escolar ao estímulo da leitura. E mais tarde as pessoas acabariam por naturalmente derivar para a percepção histórica — tema que poderia ser abordado em uma cadeira qualquer nas faculdades de todos os cursos, ok, talvez opcional nos de exatas.

Pronto. Findo o surto opinativo, volto à minha ignorância. Obrigado.

Estantes

30 de março de 2009 6

Arrumar estantes para pôr em ordem aqueles livros que estão caindo e juntar material para doação é sempre uma experiência tantalizante. Eu, pelo menos, fico com duas semanas de uma bagunça maior ainda antes de começar a imperar uma precária ordem.

E nessas ocasiões a gente sempre descobre que:

* tem menos livros de Philip Roth do que deveria.

* tem mais Jorge Amado do que gostaria.

* tem ao menos uns 10 livros ruins para cuja presença você não tem nenhuma justificativa além de uma mal direcionada curiosidade: de Fernanda Young a Paulo Coelho, de Frederick Forsythe a Charlie Higson.

* tem uns quatro livros emprestados de amigos que você jurava que tinha devolvido.

* não tem mais uns cinco livros que você emprestou para alguém e que pensava que já tinham lhe devolvido.

* tem mais dificuldade para se livrar de livros do que pensava.

* tem uns vinte livros desconhecidos de autores franceses, alemães, húngaros e até suecos que você jurava que ia ler e que largou depois das primeiras cinco páginas.

* tem ao menos três livros em duplicata, porque, distraído, você os comprou de novo porque queria ter e esqueceu que já tinha.