Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "Prêmio Açorianos"

Os vencedores do Prêmio Açorianos 2012

11 de dezembro de 2012 0

A Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Porto Alegre divulgou ontem, na Noite do Livro, a lista dos vencedores do Prêmio Açorianos de Literatura.  O Livro do Ano eleito pelo júri foi a coletânea de ensaios Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler, que retoma em artigos algumas das discussões trazidas a Porto Alegre pelos convidados do projeto Fronteiras do Pensamento – do qual Donaldo Schüler é curador cultural.

O vencedor na categoria Criação Literária, que todo ano premia um original de algum gênero não publicado com um montante em dinheiro e com a edição da obra em livro, protagonizou uma nota curiosa. O prêmio este ano contemplava livros de poesia. O vencedor, entrechos ou valas do silêncio, de Guto Leite, também já havia vencido o concurso do IEL para ser editado pela Coleção Originais do Instituto, a mesma que lançou nove títulos recentemente de nomes como Nei Duclós ou Lourenço Cazarré. Nos exemplares da coleção, inclusive, ainda consta o nome do livro de Guto Leite como uma das obras ainda por publicar na série. De acordo com a diretora do IEL, a escritora Laís Chaffe, não havia nada nos editais da Coleção Originais que exigisse que os livros inscritos não pudessem ser apresentados a outros concursos semelhantes. Agora, o livro de Leite será publicado como vencedor no Açorianos, e não sairá mais pela coleção do Instituto.

Veja abaixo a lista dos vencedores do Açorianos 2012, com um link para resenhas de alguns deles quando já abordamos o livro aqui no blog:

LIVRO DO ANO
Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler (Movimento).

NARRATIVA LONGA
Neptuno, de Leticia Wierzchowski (Record)

CONTO
Enquanto Água, de Altair Martins (Record)

CRÔNICA
Borralheiro: Minha Viagem pela Casa, de Fabricio Carpinejar (Bertrand Brasil)

POESIA
A Chama Azul, de Maria Carpi (AGE)

INFANTIL
Maria Teresa e o Javali, de Gustavo Finkler (Projeto)

INFANTOJUVENIL
Decifrando Ângelo, de Luís Dill (Scipione)

CAPA
Juliana Dischke por A Primeira Vez que Vi Meu Pai (Artes e Ofícios), de Márcia Leite.

PROJETO GRÁFICO
Joãocaré e Juliana Dischke, por A Primeira Vez que Vi Meu Pai (Artes e Ofícios), de Márcia Leite.

ENSAIO DE LITERATURA E HUMANIDADES
Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler (Movimento).

ESPECIAL
O Tempo e o Rio Grande nas Imagens do Arquivo Histórico do RS, organização de Rejane Penna (IEL)

CRIAÇÃO LITERÁRIA – POESIA
entrechos ou valas do silêncio, de Guto Leite.


A lista dos Açorianos

01 de novembro de 2012 0

O prêmio Açorianos de Literatura divulgou hoje sua nominata de finalistas – três selecionados para cada uma DAS categorias. Os vencedores serão conhecidos no dia 10 de dezembro. Veja abaixo a lista, com links para resenhas publicadas no blog quando já resenhamos a obra:

CAPA
Juliana Dischke por A Primeira Vez que Vi Meu Pai (Artes e Ofícios), de Márcia Leite.
Juliana Dischke, de novo, por Bola de Sebo, de Guy de Maupassant (Artes e Ofícios)
Diana Cordeiro, por Estranhos no Aquário, de Adriana Armony (Record)

PROJETO GRÁFICO
João Carlos Camargo Guimarães, por A Primeira Vez que Vi Meu Pai (Artes e Ofícios), de Márcia Leite.
Humberto Nunes e Vanessa Balula, por Notas Sobre o Abismo (Dublinense)
Mathias Dalcol Townsend, por O Blusão Vermelho e o Mistério da Montanha (Editora Elementar)

INFANTIL
Maria Teresa e o Javali, de Gustavo Finkler (Projeto)
Medo dó de Medo Monstro, de Hermes Bernardi Jr (Zit Editora)
O Imperdível Menino que Perdia Tudo, de Marcelo Pires (Record)

INFANTOJUVENIL
Continhos Suspirados com Poesia para Depois das Cinco, de Celso Sisto (Paulinas)
Decifrando Ângelo, de Luís Dill (Scipione)
Eu e o Silêncio de Meu Pai, de Caio Riter (Biruta)

CRÔNICA
Borralheiro: Minha Viagem pela Casa, de Fabricio Carpinejar (Bertrand Brasil)
Jerusalém, de Airton Ortiz (Record)
–  Nas Cox!as do Poder, de Ricardo Giuliani Neto (Dublinense)

CONTO
A Árvore que Falava Aramaico, de José Francisco Botelho (Editoras Asterisco e Zouk)
Correnteza e Escombros, de Olavo Amaral (Editora 7letras)
Enquanto Água, de Altair Martins (Record)

POESIA
A Chama Azul, de Maria Carpi (AGE)
Água para Viagem, de Lorena Martins (7letras)
Sétima do Singular, de Diego Grando (Não Editora)

NARRATIVA LONGA
Entreilha, de Rafael Reginato (UFSC)
Neptuno, de Leticia Wierzchowski (Record)
Outonos de Fogo, de Marcel Citro (Libretos)

ENSAIO DE LITERATURA E HUMANIDADES
A Ciência como Ela É…, de Gilberto R. Cunha (Edição do Autor)
Afrontar Fronteiras, de Donaldo Schüler (Movimento)
Caso Última Hora, de Maikio Guimarães (Edições BesouroBox)

ESPECIAL
Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes com tradução de Aldyr Garcia Schlee (ARdoTEmpo)
O Tempo e o Rio Grande nas Imagens do Arquivo Histórico do RS, organização de Rejane Penna (IEL)
Os 50 Anos da Legalidade em Imagens, organização de Claudio Fachel e Camila Domingues (Corag)

Morte, tempo e memória

18 de dezembro de 2010 1

O poeta vencedor do Açorianos de Literatura de melhor livro na categoria poesia tem uma carreira lenta, dir-se-ia criteriosa. Desde 1999, publicou cinco livros, dois deles em parceria com outros autores e um deles o Livro do Ano segundo o júri do Açorianos, Fim das Coisas Velhas. Não é incomum que poetas, com seu labor artesanal esmerado para concentrar ao máximo a linguagem, publiquem com algum vagar, ainda mais quando acumulam outra profissão – Marco de Menezes, o poeta de quem estamos falando, 42 anos, é médico em Caxias do Sul, onde vive, uma formação que por vezes se deixa entrever nos poemas de Fim das Coisas Velhas (Modelo de Nuvem, 92 páginas, R$ 20).

Fim das Coisas Velhas se divide em quatro seções: Torvelinho, Os Pátios, Como um Peixe de Parede e Ítaca, Itaqui. Embora o título traga a palavra “fim”, é de continuidade, de procura por um espaço dentro da longa e pesada tradição que se constitui a poesia do livro. O primeiro poema do volume, justamente o que dá título ao livro, começa com “por exemplo, os cantos sujos de pó de uma mureta/ ou o derruir de uma curva em um prédio de apartamentos” – o enunciado de um exemplo logo no verso de abertura deixa ao leitor o papel de imaginar o diálogo anterior que levou àquele exemplo, sendo esse diálogo com uma longa tradição o cerne de toda a obra, como exprime o título da seção final: Ítaca, Itaqui, uma busca do equilíbrio entre o que herdamos do modelo clássico e o que cabe na memória do que se viveu.

Claro que se pode argumentar que essa primeira frase na verdade é uma continuação do próprio título, “Fim das Coisas Velhas // por exemplo…“, e assim segue o poema, enumerando conceitos que remetem à transitória condição de tudo o que existe. A morte e o tempo são presenças nada discretas ao longo de todo o livro, bem como a união esparsa de fragmentos promovida pela memória como matéria da poesia. É ainda no primeiro poema que podemos encontrar uma espécie de profissão do que virá a seguir ao longo das menos de cem páginas do livro:

ainda que a morte
esta irmã falante do tempo
carregue bois e naves e luxo e graxa
em seu estômago de torvelinho piedoso
carregue fama e baldes e tordos e lã
em sua absurda inteligência
até o nada

(…)

ainda assim nos resta
cantar pelo fim das coisas velhas
as que não temos
sequer sonhamos
e que nos cortam
com o fio da primeira faquinha
que ganhamos do avô
que agora
neste torvelinho
tenta ajeitar-se na cadeira.

Na poesia de Marco de Menezes, a memória é uma ferramenta que reconstrói a realidade como forma de enfrentar a passagem do tempo e a morte inexorável no fim do trajeto. Um combate que, como tudo, não se dá sem perdas, como se vê em Memória da Mesa:

… e há essa memória que já começa a doer
dos braços de náilon sobre a fórmica verde
e dos pés pretos
sobre o carpete mudo.

Marco de Menezes mostra em Fim das Coisas Velhas que sua produção criteriosa moldou um poeta maduro, de linguagem cuidada, de um lirismo contido, cercado com firmeza pela moldura da sonoridade de que dota seus versos e da dicção que trabalha a memória iluminando o coloquial. Ele também não teme usar expedientes consagrados da tradição, com a métrica e a rima, trabalhando-os de acordo com sua poesia, e não o contrário. Basta ver a primeira estrofe de Recomendação Inútil para Impostores:

“Repara nestes ossos sob a prata
Repara nestes olhos de trapaça
Repara na verdade em uma taça
No poema evocado pela traça”

As referências, veladas ou abertas, vão se apresentando à medida que o livro avança para as divisões seguintes, mesclando em um tom único, sem dissonâncias, tanto o classicismo de Homero (Ítaca, Itaqui, o último poema do livro, que reconta brevemente a Odisseia como um retorno contemporâneo à casa do avô morto) quanto quadrinhos (O Relógio de Corto Maltese), TV (Oração a Andy Kaufmann) e a própria prosa de ficção contemporânea (Roberto Bolaño, Sonhador de Desertos). Se alguma vez essa alusão beira o óbvio (uma epígrafe de Jorge Luís Borges em um poema chamado Imitação que começa com “um tigre/ na armadilha da paisagem / finge que algo fareja”, por exemplo), em outras circunstâncias tais referências ajudam a construir o panorama sutil de colagem memorialística que perpassa todo o livro.

Esse tom esquivo da memória como pretexto (e a memória não é sempre um pretexto esquivo?) é mais flagrante na terceira seção do volume, Como um Peixe de Parede, na qual Marco de Manezes vai garimpar em episódios, pessoas e lugares de seu passado a argamassa para construir seu universo evocativo (“Na Uruguaiana que mora / no poço escuro do peito / não sabe caber Caxias“). Um universo que não está isolado, como falamos lá no início, mas procurando um lugar na ininterrupta cadeia do tempo e da tradição. Em Rua Santana, 1890, uma lírica evocação da infância do autor se confunde, ao final, com a de seu próprio filho (num eco da “prole que dá combate ao tempo” do soneto Shakespeareano):

sem primeira comunhão
água fora do cantil
e era ali a criança

Eu criança agora
sinto meu filho que pula
nas costas desta lembrança
.”

Depois dessa viagem que reconstitui uma identidade, a última parte do livro, Ítaca, Itaqui, se permite ser mais sombria, centrada na morte, revisitando a noção clássica, pagã, da morte como o fecho de uma vida – e o quanto essa concepção está perdida na contemporaneidade. É um encerramento melancólico mas coerente com a reflexão sobre a finitude proposta ao longo de todo o livro. É o momento também em que a voz poética, acordada de suas divagações memorialísticas para a btutal realidade do hoje, se permite ser mais enfática, indignada, como na bela Oração para um Cadáver em Via Pública:

Tudo é deste mundo
e não há o que chamam futuro

o que não já não respiras é o perfume
de um jardim imaturo
crescendo sob os tapumes

do outro lado da aléia
não há o que chamam futuro

só o sorriso pestilento
do corredor sonolento
em seu abrigo de tule
que escorre suor noturno.