Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "Prêmio Nobel de Literatura"

Coetzee e a censura

12 de março de 2013 0

J.M. Coetzee na Flip, em 2007. Foto: Walter Craveiro, divulgação

Um dos maiores escritores vivos estará em Porto Alegre no próximo mês. J. M. Coetzee, autor sul-africano hoje residente na Austrália, agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 2003, virá à Capital para uma conferência sobre censura.

A palestra de Coetzee em Porto Alegre está marcada para o dia 18 de abril, às 19h, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As inscrições custarão R$ 25 para estudantes e R$ 50 para o público em geral e poderão ser feitas, de acordo com a organização, tanto na Difusão Cultural da universidade quanto por meio eletrônico, mas os detalhes ainda não foram definidos. O serviço completo de inscrições será informado no blog oficial do evento, Lendo Coetzee, que está no ar a partir de hoje (em www.lendocoetzee.com).

O sul-africano vem a Porto Alegre devido ao contato com o escritor desenvolvido nos últimos anos pela professora da UFRGS Kathrin Rosenfield. Em 2010, Kathrin organizou, no Núcleo Filosofia-Arte-Literatura, o seminário O Mal Estar na Cultura, que partia de uma leitura de Diário de um Ano Ruim, lançado no Brasil em 2008, para fazer uma aproximação com a obra de Freud O Mal-Estar na Civilização. O Núcleo contou com o apoio Difusão Cultural da UFRGS, que também colabora nesta vinda de Coetzee ao Brasil.

A passagem do Nobel faz parte de uma dupla visita que o escritor fará a cidades brasileiras em abril. Antes de passar pela Capital, falará em Curitiba, no dia 15 de abril , no Teatro Fernanda Montenegro, em uma conferência que servirá como prólogo para o Festival LiterCultura, que se realizará em agosto. Nos dois encontros, Coetzee será apresentado por Kathrin Rosenfield e falará sobre censura, um tema ao qual já dedicou ensaios – alguns deles incluídos em Given Offense, livro de 1996 ainda inédito no Brasil.

Coetzee deve falar por 50 minutos, sem  perguntas da plateia (fez o mesmo em outra passagem pelo país, em 2007, na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip). Tanto em Porto Alegre quanto em Curitiba, autografará um número reduzido de exemplares de seu romance mais recente, A Infância de Jesus, cuja edição nacional está programada pela Companhia das Letras também para abril. A conferência em Porto Alegre também marcará o lançamento de um livro de ensaios, Lendo J.M. Coetzee, organizado por Kathrin e pelo professor e tradutor Lawrence Flores Pereira.

Coetzee é um dos maiores escritores contemporâneos e, como muitos dos grandes autores com características próprias, é também por vezes vítima de um entendimento superficial ou apressado. Romancista célebre e ensaísta arguto, Coetzee, por sua linguagem sóbria e ressecada, sem arroubos de retórica ou sentimentalismo, é normalmente definido, mesmo por aqueles que nunca leram seus livros, com adjetivos simplificadores como “seco”,“pessimista” ou “econômicos. Para além de tais generalizações, Coetzee é um autor com uma obra de múltiplas ressonâncias, na qual se pode ler alegoria (À Espera dos Bárbaros ou mesmo o recente A Infância de Jesus), fissuras de uma história africana construída sobre a infâmia (Vida e Época de Michael K. e Desonra) e um uso desconcertante da própria biografia como material ficcional (Juventude, Verão e Diário de um Ano Ruim – todos livros nos quais se encontram correspondência entre elementos da biografia do autor e do protagonista).

O adeus de Wislawa Szymborska

01 de fevereiro de 2012 3

A Nobel polonesa Wislawa Szymborska

Foi divulgado agora há pouco que a vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1996, a polonesa Wislawa Szymborska faleceu, aos 88 anos, em sua casa, na Cracóvia que tanto marcou seu trabalho. A informação foi tornada pública pelo agente da escritora, Michal Rusinek.

Szymborska, figura praticamente desconhecida no Brasil, protagonizou um dos melhores lançamentos literários do ano passado, a edição de [poemas] (Companhia das Letras, 170 páginas), uma coletânea de seus trabalhos pela primeira vez editados em livro no Brasil – à parte poemas avulsos que pipocaram aqui e ali em alguma revista ou antologia coletiva. Traduzidos por Regina Przybycien (como é que se pronuncia o nome dessa gente, senhor?), são versos que dão prova da grande contenção e domínio que a artista tinha sobre sua arte, musical e evocativa, com uma linguagem que buscava a simplicidade da forma e a complexidade dos conceitos – uma poesia à qual não eram estranhos o humor e a militância política.

Nascida em 1923, em Bnin, na Polônia, Szymborska testemunhou na juventude a ocupação nazista e mais tarde o autoritarismo soviético. De acordo com Rusinek, ela “morreu tranquilamente, enquanto dormia”.

Em homenagem à poeta, vai abaixo um dos poemas reunidos no livro:

A ALEGRIA DA ESCRITA

Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?
Vai beber da água escrita.
que lhe copia o focinho como papel-carbono?
Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?
Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade
sob meus dedos apura o ouvido.
Silêncio – também essa palavra ressoa pelo papel
e afasta
os ramos que a palavra “bosque” originou.

Na folha branca se aprontam para o salto
as letras que podem se alojar mal
as frases acossantes,
perante as quais não haverá saída.

Numa gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho semicerrado
prontos a correr pena abaixo,
rodear a corça, preparar o tiro.

Esquecem-se de que isso não é a vida.
Outras leis, preto no branco aqui vigoram.
Um pestanejar vai durar quanto eu quiser,
e se deixar dividir em pequenas eternidades
cheias de balas suspensas no voo

Para sempre se eu assim dispuser nada aqui acontece
Sem meu querer nem uma folha cai
nem um caniço se curva sob o ponto final de um casco.

Existe então um mundo assim
sobre o qual exerço um destino independente?
Um tempo que enlaço com correntes de signos?
Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.
O poder de preservar
A vingança da mão mortal.

Sexo, repressão e arte

07 de julho de 2011 1

Isabelle Huppert em A Professora de Piano (2001)

Quando recebeu o Nobel de Literatura, em 2004, a escritora austríaca Elfriede Jelinek ainda não fora publicada no Brasil — e seu único texto vertido para o português, a narrativa curta Paula, estava programada para uma antologia do conto alemão que a L&PM previa para dali a duas semanas. De lá para cá, mais nenhuma obra da autora austríaca havia sido traduzida para o português — situação que muda com a publicação de A Pianista (Tradução de Luis Krausz. Tordesilhas, 336 páginas), romance editado pela recém-fundada Tordesilhas (em uma leva de lançamentos que inclui também Os Trinta e Nove Degraus, de John Buchan). A Pianista é a obra mais conhecida de Elfriede Jelinek, 64 anos, não tanto pela popularidade do romance, mas por haver sido adaptado para o cinema em 2001 em um perturbador drama dirigido pelo também austríaco Michael Haneke e estrelado por Isabelle Huppert – que ganhou pela sua intepretação o prêmio de melhor atriz em Cannes.

O impacto provocado pelo filme não é de modo algum resultado exclusivo do estilo cruel de Haneke — o filme é bastante fiel ao livro, e portanto todo aquele desconforto já estava na obra literária, como os leitores menos sensíveis descobrirão. A pianista do título, Erika Kohut, foi criada pela mãe para ser um talento iluminado do piano, uma virtuose internacional. Aos poucos, mergulha na árdua realidade de que não tem o que seria preciso para elevá-la à grandeza. Aos 40 anos, sustenta a si e à mãe dando aulas de piano no conservatório de Viena, a “Cidade da Música” — apelido da capital austríaca há séculos, usado no romance com uma devastadora carga irônica, uma vez que a história que se quer contar não é a da sublime beleza da música, e sim da música como sublimação dos instintos subterrâneos mais predatórios da sociedade austríaca.

Erika, apesar da meia-idade, ainda vive com a mãe, com quem mantém uma relação de sadismo e dependência – ambas têm brigas selvagens nas quais a mãe rasga os vestidos novos que a filha compra na cidade, trocam tapas e empurrões e puxões de cabelo para mais tarde fazerem as pazes em jantares melancólicos. Erika também frequenta cabines de peep-shows, corta os genitais com giletes, dirige todo o recalque pela sua mediania contra o mundo que a cerca – sejam seus temporários colegas de viagem nos corredores de ônibus, a quem gosta de ferir com o peso de um violencelo, sejam as alunas com potencial para irem além do que própria foi — uma delas em particular é vítima de uma sabotagem cruel por parte da mestra. Quando o universo instável e já desequilibrado de Erika precisa reacomodar em seu âmbito o interesse dirigido a ela por um jovem aluno que a corteja, a vida da personagem se precipita em uma espiral de sexo e violência, rompendo o frágil dique de sua sanidade.

Bagagem humana

18 de maio de 2011 4


A romena Herta Müller - Foto Jens Meyer/AP


Ganhadora do Nobel em 2009, Herta Müller era bem pouco conhecida no Brasil — a própria Lya Luft, tradutora de O Compromisso, seu único romance publicado no Brasil naquela época, declarou a um jornal não lembrar sequer de haver traduzido livro, há muito tempo esgotado àquela altura. A visibilidade obtida pelo Nobel, contudo, animou o mercado editorial brasileiro a dar nova chance a seus livros já editados e a publicar seus inéditos. A Globo reeditou no ano passado O Compromisso e a coletânea de contos Depressões. Agora, a Companhia das Letras põe em circulação um poderoso romance: Tudo o que Tenho Levo Comigo.

Tudo o Que Tenho Levo Comigo é um livro no qual a autora enumera fragmentos que tentam passar, na totalidade, a experiência traumática do narrador, um romeno de origem alemã deportado para um campo de trabalho soviético ao fim da II Guerra. O livro começa com a arrumação de uma mala: a do jovem Leo Auberg que, aos 17 anos, prepara-se para a viagem até os campos russos. São os últimos dias da guerra e os nazistas estão sendo derrotados em toda a Europa. Até então aliada dos fascistas, a Romênia muda de lado e recebe os soviéticos de braços abertos _ atendendo à exigência de deportar para os campos todos os cidadãos de origem alemã entre 17 e 45 anos. É nessa leva que Auberg embarca para o que será uma temporada de cinco anos de trabalhos forçados e tentativas de sobrevivência acossada pelo “Anjo da Fome”. É nessa mala que Auberg levará “tudo o que tem” – e não apenas as roupas emprestadas pelos vizinhos, mas uma humanidade florescida no segredo (o rapaz é homossexual, o que era perigoso durante o nazismo e continuou perigoso durante o comunismo).

O livro é construído com base nos depoimentos que Herta colheu de um sobrevivente real, Oskar Pastior, para o que seria um livro de não ficção escrito a quatro mãos por ambos. A morte de Pastior, em 2006, mudou os planos. Depois de anos com o projeto paralisado, Herta decidiu retomá-lo como um romance. Se, como lembrou Benjamin, o horror da guerra não se presta à visão narrativa totalizante, Herta Müller não oferece uma narrativa linear ou unívoca. Cada capítulo opta por focar um aspecto da longa experiência do campo, relatada ora no passado ora no presente _ assim como as lembranças do Auberg já idoso e em liberdade também se misturam à narrativa da viagem aos campos. Auberg conhece a fome, o cansaço, a necessidade de esperteza para negociar ou roubar itens suplementares à mirrada ração fornecida pelos russos. À medida que luta para se manter vivo, Auberg também luta para se manter humano colecionando palavras. E é na mescla entre o presente do idoso Auberg e suas recordações de juventude que a primeira frase do livro, “Tudo o que tenho levo comigo” (o título original em alemão, Atemschaunkel, remete ao ritmo da respiração), assume novo significado: também os anos de fome são algo que o prisioneiro sobrevivente levará consigo.

O Nobel vem aí

07 de outubro de 2010 3

Na foto que ilustra este post, o mais recente Nobel de Literatura, o mestre peruano Mario Vargas Llosa caminha pelas alamedas da Praça da Alfândega durante a passagem do autor pela Feira do Livro, em 1997 (a foto é Adriana Franciosi, ZH). A cena exata não se repetirá, é claro, mas Vargas Llosa estará outra vez em Porto Alegre no próximo dia 14, uma quinta-feira, para uma palestra no ciclo de altos estudos Fronteiras do Pensamento. Llosa foi anunciado há pouco como o Nobel de Literatura 2010, “por sua cartografia das estruturas de poder e suas  imagens mordazes da resistência, da revolta, e da derrota do indivíduo”, escreveu a Academia Sueca em sua justificativa oficial

A escolha de Vargas Llosa, embora plenamente justificável e não totalmente inesperada pela estatura do escritor e de sua obra, não era uma das apostas mais altas para o prêmio deste ano – o que também não quer dizer muita coisa, já que as bolsas de apostas raramente cravam suas fichas no escritor que realmente leva. Vargas Llosa é o primeiro escritor de língua espanhola a ganhar o prêmio desde 1990 – quando o Nobel foi para o mexicano Octávio Paz. E o último autor da América do Sul a levar o prêmio havia sido o desafeto de Llosa, o colombiano Gabriel García Márquez, em 1982.

Llosa já declarou à agência AP que o galardão (palavra bonita, não?) “é um reconhecimento à lingua espanhol em que escrevo e à literatura latino-americana. A verdade é que eu não esperava, foi uma surpresa total, ainda que uma surpresa muito agradável.”

O autor já escreveu mais de 30 livros, entre romances e ensaios, entre eles obras magistrais como Pantaleão e as Visitadoras, Conversa na Catedral, A Casa Verde e A Cidade e os Cachorros. Deve sair até o fim do ano seu próximo romance, El Sueño del Celta, biografia romanceada de um personagem real, o irlandês Roger Casement. O Nobel vem coroar o reconhecimento internacional da obra de Llosa – ele já havia recebido em 1995 o Prêmio Cervantes, o mais prestigioso prêmio para os escritores de língua espanhola.

Amanhã, em Zero Hora, publicaremos material especial sobre a escolha de Llosa como Nobel, incluindo uma entrevista com o autor. Acompanhem

Herta Müller recebe o Nobel de Literatura

08 de outubro de 2009 5

Bernd Weissbrod, EFE

A Academia Sueca anunciou agora pela manhã o nome da escritora alemã (romena de nascimento) Herta Müller como a vencedora do prêmio Nobel de Literatura 2009, porque, de acordo com a justificativa oficial do júri, “retrata, com a concentração da poesia e a franqueza da prosa, o horizonte dos despossuídos“. Müller é o terceiro escritor de língua alemã a receber a honraria nos últimos 10 anos (antes dela, Elfriede Jelinek foi agraciada em 2004 e Günther Grass em 1999). O nome de Müller mantém o hábito da comissão do prêmio de voltar seus olhos para Europa em detrimento dos Estados Unidos ou da América Latina. Apenas nos anos 2000, foramn agraciados o húngaro Imre Kertész, a já mencionada alemã Jelinek, os britânicos Harold Pinter e Doris Lessing e o francês J.M.G. Le Clézio (embora Lessing e Le Clézio tenham vivido parte de suas vidas aquela no Irã e este nas Ilhas Maurício).

Müller é um nome ainda pouco publicado no Brasil. Seu primeiro romance a sair por aqui foi O Compromisso, editado em 2004, pela Globo, com tradução de Lya Luft. E um conto da autora foi reunido por Rolf G. Renner e Marcelo Backes no volume (também de 2004) Escombros e Caprichos: O Melhor do Conto Alemão no Século 20, da L&PM – onde, a propósito, também figura a única obra de Jelinek traduzida por aqui. É desse livro que retiramos a seguinte biografia de Müller, redigida por Marcelo Backes, também responsável pela tradução dos contos:

“Herta Müller nasceu em 17 de agosto de 1953, em Nitzkydorf, na Romênia, numa aldeia de fala alemã. Estudou Literatura Alemã e Romanística em Temeswar e começou ali seus trabalhos literários como tradutora e professora de alemão. Acabou perdendo o emprego por não querer colaborar com o serviço secreto romeno, passou a trabalhar num jardim de infância. Em 1987, pôde abandonar seu país e passou a viver em Berlim Ocidental, mais tarde em Hamburgo.Entre outros prêmios, recebeu o Kleist de Literatura. Seguindo os passos intelectuais de autores como Trakl e Celan, Herta Müller é uma vítima do exílio e estuda o lento e irreversível fenecer das relações humanas em suas obras.”

Para que vocês travem contato com a prosa dessa autora ainda pouco conhecida por aqui, transcrevo abaixo o conto de Herta Müller presente na já mencionada antologia de contos alemães da L&PM:

A Canção de Marchar
Herta Müller

Sempre que o domingo, conforme dizia papai, chegava ao céu, papai encontrava esses estilhaços na sopa. Papai, na condição de herói alemão da guerra, tinha três deles no pulmão. Eles se mudavam de um lugar a outro. Papai tinha medo de que um dia se mudassem para o coração. Aí será o fim, disse papai.

Um dia, os estilhaços chegaram ao rosto de papai, e papai não fez a barba durante vários dias.

Quando eu olhava, papai punha a colher sobre os estilhaços ou enterrava-os debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume. Na hora de lavar a louça, os estilhaços tiniam em seu prato.

Um dia nós estávamos visitando a irmã de papai e ela serviu uma sopa rala. Papai mais uma vez encontrou os estilhaços em seu prato. E como não pôde enterrá-los debaixo de um bolinho de batata ou de um pedaço de legume, papai engoliu os estilhaços. Todos haviam acabado com a sopa de seus pratos e elogiado os dotes culinários de minha tia.

Depois da refeição as mulheres dançaram umas com as outras. Minha mãe, pequena e seca, dançava, suando, com minha tia gorda. A irmã de meu pai ria, e suas bochechas tremiam o tempo todo.

Os homens haviam ficado à mesa e cantavam canções de guerra alemãs. Quando as mulheres passavam por eles dançando, os homens davam palmadas em suas bundas grossas e saltitantes. as mulheres riam alto, davam passos de dança ainda mais saltitantes e movimentavam os braços para cima e para baixo. Papai seguia o compasso, batendo com sua mão imensa sobre o tampo da mesa: “E minha noiva, a Loiva, ela é igualzinha a mim”.

Quando estava anoitecendo, papai se levantou e cantou, em pé e com os lábios tremebundos e os olhos vermelhos, a canção de marchar. Minhas tias balançavam as pequenas cabeças e tinham os olhos úmidos.

Na terceira estrofe papai se curvou de dor.

Desde aquele dia nós íamos todos os anos visitar a irmã de papai e nos era servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres dançavam umas com as outras. Minha mãe ficava sempre sentada, pálida e passando frio, a um canto da sala. Seus olhos ficavam molhados e ela voltava a puxar de volta à testa as lágrimas tépidas que insistiam em forçar passagem através de seu nariz. Ela embolava seu lenço na mão congelada, soluçava, dizendo que meu pai era inesquecível, que ele continuava sendo o mesmo para ela. Também a irmã de meu pai afundava em uma cadeira e chorava longas frases. E suas bochechas tremiam nas palavras afogadas.

Os homens que haviam ficado à mesa cantavam canções de guerra. Sempre, quando anoitecia, eles se levantavam. Ficavam parados em volta da mesa. De seus olhos vermelhos, um brilho profundamente vermelho se deitva sobre a toalha de mesa, entre suas grandes mãos. Eles olhavam paralisados dentro desse brilho vermelho e cantavam, com lábios tremebundos, a canção de marchar.

Todos os anos um deles se curvava de dor na terceira estrofe e morria.

No ano passado nós mais uma vez estávamos visitando a irmã de papai e nos foi servida uma sopa rala. Depois da refeição as mulheres se levantaram e a mesa estava vazia. Cada uma das tias sentou-se, pálida e passando frio, a um canto da sala e chorou, pressionando o lenço sobre as lágrimas tépidas, sobre o rosto, e soluçou dizendo que seu marido era inesquecível e continuava sendo o mesmo para ela.

Quando estava anoitecendo as mulheres se levantaram e puseram-se em volta da mesa. E através do vão da porta do armário semifechada, soou a fita com a canção de marchar. Minhas tias ficaram paradas, imóveis e mudas. Na segunda estrofe minha mãe pequena e seca cantarolou junto, sem abrir a boca. Na comissura de seus lábios movia-se uma sombra fraca. Quando chegaram à terceira estrofe, a irmã gorda de papai cantarolou junto, de boca fechada. A canção tremeu em suas bochechas e sua testa estava branca. Na quarta estrofe a minha tia mais gorda cantarolou junto. Ela respirava profundamente em meio à canção e sobre seus seios os botões em suas molduras finas e douradas brilhava como se fossem medalhas.

Quando a canção chegou ao fim, a irmã de papai estava diante do armário. Suas mãos estavam pesadas da luz do crepúsculo, e com as pontas mudas dos dedos ela fechou a porta do armário.

O cantarolar ainda pairou por longo tempo no ar da sala. O cantarolar já estava monótono e cansado. E ele era ilimitado no crepúsculo.

Meu nome é Pamuk

17 de outubro de 2006 0

O escritor turco Orhan Pamuk/Tolga Buzoglu/EFE

Vê como são as coisas. Na sua edição deste mês, a revista EntreLivros, uma das mais legais editadas sobre literatura atualmente no Brasil, publicou em suas páginas um artigo traduzido do New York Review of Books sobre Neve, o oitavo romance de Orhan Pamuk, um escritor turco que, quando a revista saiu, poucos de seus leitores provavelmente tinham ouvido falar. O que chamava a atenção era justamente a assinatura de quem fez a resenha: a canadense Margaret Atwood, um dos nomes mais profícuos da prosa em língua inglesa e que teve recentemente republicado pela Rocco sua obra mais conhecida, O Conto da Aia. A própria Atwood é um nome que volta e meia surge nos prognósticos dos vencedores do Nobel e não corro o risco de queimar a língua em afirmar que o nome dela, embora não seja de dimensões populares colossais, é mais conhecido do que o dele.

Neve estava já no prelo para ser lançado pela Companhia das Letras, que também pubicou aqui no Brasil o magistral Meu Nome É Vermelho, um romance histórico lírico, sutil e voraz que põe em discussão uma série inacreditável de aspectos da interação entre Ocidente e Ocidente. Embora passado no século 16, Meu Nome é Vermelho enumera questões que são reconhecíveis ainda hoje, como oposições entre fé e fundamentalismo, como a disussão do papel do artista, de sua importância como criador versus sua inescapável condição de artesão, o trânsito de idéias e estilos entre o Oeste, europeu, e o Leste, muçulmano, ou o exotismo que cada um enxerga na condição do outro.

Neve, que como se disse, já estava prestes a ser lançado pela Companhia, é uma história que também se passa no passado, mas um passado imediato: a década de 1990. Um jornalista turco ocidentalizado, que passou os últimos anos na Alemanha, fica isolado durante uma viagem a uma minúscula aldeia na Turquia para onde viajou com a idéia de escrever um artigo sobre suicídios de jovens muçulmanas que, aparentemente, se matam para protestar contra a proibição oficial de usar o véu. Novamente o olhar de um homem ocidentalizado testemunha o conflito entre a tradição feroz e as inovações ao modos ocidental.

E daí? Daí que se você leu jornal com alguma atenção na última semana, deve se lembrar que Pamuk é o novo laureado pela Academia Sueca com o Prêmio Nobel de Literatura, uma distinção que a já mencionada Margaret Atwood comenta com um elogio emocionado em artigo no jornal inglês Guardian, que você pode ler (em inglês), clicando aqui.

Fica aqui uma palhinha, o primeiro capítulo do texto, traduzido mal e porcamente pelo autor deste post:

Orhan Pamuk, o celebrado romancista turco, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Seria difícil conceber um vencedor mais perfeito para estes nossos tempos catastróficos. Assim como a Turquia está situada na encruzilhada do Leste Muçulmano/Oriente com o Oeste europeu e norte-americano, a obra de Pamuk habita o solo movediço de uma crescentemente perigosa sobreposição cultural e religiosa, na qual ideologias, bem como personalidades, colidem.