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Posts na categoria "Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon"

Os finalistas do Prêmio Passo Fundo

13 de agosto de 2013 0

PASSOFUDNOForam anunciados hoje os 10 finalistas do Prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon de Literatura, que paga R$ 150 mil àquele que for considerado o melhor romance em língua portuguesa publicado entre o período de uma jornada e outra. Para quem quiser conhecer um pouco mais dos livros selecionados, vai abaixo um microcomentário de cada um seguido de um link para resenha maior no caso de termos abordado o romance aqui no Mundo Livro.

A Noite das Mulheres Cantoras, de Lídia Jorge.
Romance no qual uma das escritoras mais relevantes do Portugal contemporâneo discute os mecanismos da cultura da fama ao abordar uma banda formada por mulheres no universo da música pop dos anos 1980. Leya

Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera
Um jovem com uma desordem neurológica que o impede de recordar os rostos dos demais muda-se para Santa Catarina, no rastro de um mítico avô que teria sido assassinado. A busca pela solução do crime se torna uma busca pela própria identidade. Companhia das Letras. Leia um texto sobre o livro aqui.

Domingos sem Deus, de Luiz Ruffato
Exemplar que encerra o ciclo Inferno Provisório criado por Ruffato, enfocando por meio de um mosaico de personagens a história do proletariado industrial brasileiro. O título faz referência aos que precisam trabalhar mesmo no “dia do Senhor”. Record. Um texto sobre a série como projeto aqui.

Habitante Irreal, de Paulo Scott
Romance que entrecruza os caminhos de vários personagens, entre eles Paulo, um jovem advogado desiludido politicamente, uma jovem índia a quem ele pretende ajudar e com quem termina por se envolver e o filho de ambos, que cresce afastado de sua origem. Objetiva. Uma resenha aqui.

Infâmia, de Ana Maria Machado
Romance no qual a veterana Ana Maria Machado narra duas histórias paralelas, focadas em uma família de diplomatas e em seu círculo mais restrito de amigos e conhecidos, abalados todos pelo aparecimento de um envelope com documentos antigos e comprometedores. Objetiva.

Lívia e o Cemitério Africano de Alberto Martins
Escrita por um romancista que é também poeta, esta breve novela narra, com prosa seca e limítrofe à poesia, o cotidiano angustiante de um arquiteto em crise com seu trabalho e sua relação com os que o cercam: a mãe, um sobrinho e a namorada de um irmão morto. Editora 34.

O Céu dos Suicidas, de Ricardo Lísias
Outro exercício no território da ficção biográfica, narra a história de um homem com o mesmo nome do autor. Abalado com o suicídio de um amigo de longa data, André, o protagonista Ricardo busca encontrar um sentido ao retomar o hábito antigo de colecionar coisas. Objetiva.

O Que os Cegos Estão Sonhando?, de Noemi Jaffe
Narrativa na qual Noemi Jaffe reconstitui a experiência da própria mãe, Lili Jaffe, como prisioneira do campo de Auschwitz, de onde foi salva em 1945 e depois enviada para a Suécia. Noemi faz dos diários da mãe matéria de reflexão e ficção sobre a experiência. Editora 34.

Solidão Continental, de João Gilberto Noll
Um brasileiro residente em Chicago para dar aulas em uma universidade tem de lidar não apenas com o desejo, mote recorrente da literatura de Noll, mas com o lento e melancólico apagar desse desejo, perdido na anomia do protagonista. Objetiva. Aqui, uma longa entrevista com Noll sobre sua obra, incluindo Solidão Continental.

Uma/Duas, de Eliane Brum
O relato minucioso e angustiado dos conflitos que envenenam e tumultuam a relação da jovem jornalista Laura com sua mãe, um relacionamento feito de embates, conflitos, sabotagens e chantagens emocionais de parte a parte. Leya. Aqui, uma resenha do livro.

Sobre o vencedor do Prêmio Zaffari & Bourbon

23 de agosto de 2011 0

O escritor João Almino. Foto de Jean Schwarz, ZH

Escritor e diplomata de carreira, João Almino veio diretamente de Madri para receber ontem à noite o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura.

– Foi um grande contraste. Lá está fazendo 40 graus – disse ele, sem precisar enunciar que aqui em Passo Fundo ontem à noite a temperatura estava por volta de 6°C.

Almino vem se dedicando em sua ficção, sistematicamente, a tratar do que ele considera um campo vazio na literatura nacional: Brasília. Cidade Livre, o romance escolhido pela comissão julgadora do prêmio de Passo Fundo, é o quinto romance de Almino sobre a capital brasileira, e enfoca o período de construção da cidade pelo ponto de vista dos trabalhadores que a ergueram. O livro aproveita a estrutura de um blog escrito por um homem que recupera sua infância e a juventude do pai com base nas anotações deixadas por este último.

– Brasília é parte de um projeto de modernização nacional, um projeto estrangeiro. É a única cidade do mundo com um núcleo construído com a arquitetura modernista, e hoje já podemos olhar para ela e para esse projeto com um olhar crítico, porque muito da sua ideologia artística está datada. E é uma cidade na qual os problemas das cidades brasileiras se tornam ainda mais visíveis, como a grande desigualdade entre o Plano-Piloto e as cidades-satélites. É onde os problemas do Brasil ganham caráter visível.

Em dezembro passado, publicamos em Zero Hora um texto de Kathrin Rosenfield sobre o romance, que reproduzimos agora para quem quer ter uma ideia do livro:

Um Romance-documento

Kathrin Rosenfield

Brasilia – um mito, uma cidade, um divisor de águas: ou se adora, ou se detesta – eis o clichê sempre repetido. Mas raramente vemos de Brasilia surgir uma imagem tangível ou, talvez seria melhor dizer: envolvente, pois Brasilia tem algo de fantasmagórico – irreal na topografia cósmica que dá a sensação de estarmos no topo do mundo; e irreal também pela combinação de majestade faraônica e de desleixo mesquinho. A monumental falta de cuidado é prova de um déficit de sensibilidade estética (e ética) que rodeia os magníficos prédios. O patente desleixo espalha a atmosfera de decadência pequeno burguesa, acomodada nas frinchas, frestas e ferrugens do concreto armado, com os alagamentos e vidros quebrados e sujos. Todo o cuidado, mimo e protocolo estão voltados para as meteóricas aparições dos homens poderosos que deslizam entre o aeroporto, os escritórios e gabinetes, hotéis e restaurantes em carros oficiais, rodeados por motoristas e secretárias diligentes. As mulheres e filhos destes homens (quando vivem na mesma cidade, o que não é a regra) se parecem com acessórios, que ocasionalmente abrem a porta, atendem o telefone e acompanham esses homens sem serem registrados como parceiros e pessoas pelos assessores, sub-chefes e vice-presidentes que falam da política (e do seu fantasmático e efêmero poder) com a volúpia pedestre dos homens médios.

Eis a realização dos sonhos que entusiasmaram Aldous Huxley como “jornada dramática através do tempo e da história! Uma jornada do Ontem para o Amanhã, do que terminou para o que vai começar, das velhas realizações, para novas promessas.” (171) Para quem teve a oportunidade de mergulhar no fascínio de Brasília de hoje, é apaixonante a leitura do mais recente romance de João Almino, Cidade Livre.  Poucos sabem que em 1959 Cidade livre (hoje o Núcleo Bandeirante) era o nome de um “aglomerado de casas esparsas com cerca de trezentas pessoas, quase todos homens, junto com o acampamento da Candangolândia, a única nova aglomeração de população da região da nova capital.” (p.101) É dessa cidade que se lembra um bloguista-jornalista, num relato extraído em parte do pai encarcerado e a beira da morte. Esse relato – deliberadamente descuidado e errático, como é de costume num blog – torna incrivelmente plástica a essência de Brasília vista através da vida de um menino (porém não mais n’”As margens da alegria” rosiana). O menino é o próprio bloguista anônimo que aí chega com duas tias e um pai biológico que, recentemente, substitui o pai de criação – o traçado deste menino quase se parece com uma modulação (mais urbana, mais recente) da aventura de Riobaldo. Porém despojada da aura mítico-lendária, mais voltada para uma alegoria das derivas tão freqüentes da grande família Brasil nas suas variações pessoais, sociais e políticas. Os perfis quase alegóricos de certas figuras antropológicas da sociabilidade brasileira aparecem em filigrano na história caótica do bloguista, amigo ou alter-ego de infância de João Almino. Ele debita no seu blog a torrente de recordações que recolheu junto ao pai em desgraça numa cela de prisão, acuando impiedosamente o velho moribundo em busca de esclarecimentos de alguns mistérios que rodeiam a instável existência do pai alcoólatra, seus fracassos financeiros e deslizes passionais, e, seu possível envolvimento na morte de um amigo humilde, Valdivino.

Como o próprio livro-blog, construído por mentes fantasmas de outras mentes, Brasília, os homens e mulheres que a construíram, se desdobram em fantasmas simultaneamente tangíveis e irreais, cuja verdade adivinhamos sem jamais trazê-la totalmente à luz. O que vemos desfilar é a versão urbana e ‘moderna’ do “sertão que está dentro da gente” – histórias que repetem as estruturas do mando clientelista, a dependência da gente miúda (inclusive do pai do menino) à espera de apadrinhamento e proteção, os clãs (políticos, policiais, empresariais…) que reproduzem, no seio do milagre utópico, como um deboche da sociabilidade masculina que remonta à ‘genesia violenta’ dos colonizadores solitários de antanho.

A meninice pré-adolescente e adolescente do narrador dá um colorido particularmente erotizado aos fragmentos  que retornam do passado, o que permite aos múltiplos ‘eus’ do bloguista intuir os desejos ávidos e predadores dos homens que circulavam pela cidade em construção, e que o menino, na época, observava apenas de fora. Dessa técnica multi-focal resultam interessantes sobreposições de imagens ‘inocentes’ – descrições muito palpáveis de corpos e roupas femininos, ou da vestimenta masculina com suas conotações hierárquicas e sociais: botas caprichosamente enceradas, por exemplo -, e de vislumbres que adivinham e antecipam os gestos predadores, cálculos assombrosos e armações infames que resultarão pouco a pouco das rivalidades veladas desses conquistadores do novo-nosso Brasil.

A aventura dos engenheiros e políticos, especuladores imobiliários e policiais que mandam na cidade livre entretece-se com a trajetória semi-oculta (e ocultista-espiritista) de Lucrécia – puta baiana, ‘princesa’ brasiliense e sacerdotisa de uma seita de fracassados e criminosos –, que enfeitiça todos os homens da Cidade Livre, destruindo sua paz como uma labareda, mas ao mesmo tempo vítima ‘protegida’, explorada e destruída pelos mais valentes destes mandões. A morte misteriosa e suspeita de Valdivino, seu companheiro baiano marginalizado pelos mais poderosos, é o mistério que intriga o bloguista e o fio vermelho da narrativa.

Não é um romance apenas, é um documento precioso que capta o mundo submerso da história recente de uma cidade, de um pais e de uma forma de vida profundamente ancorada nas tradições (talvez esquecidas) do Brasil.

Alguns avisos de utilidade pública

10 de junho de 2011 1

Sim, vocês são todos pessoas observadoras e eu não preciso repetir que o Maigret da Semana prometido ainda não foi ao ar devido a problemas técnicos de seu autor. Fica para a próxima segunda, sem que eu resolva transformar esse lamentável atraso em hábito, prometo.

***

Um projeto bacana que vem sendo desenvolvido pela Coordenação do Livro e Literatura da Secretaria Municipal de Cultura De Porto Alegre é o seminário Livros que Abalaram o Mundo, uma série de palestras realizadas aos sábados pela manhã, das 9h às 12h, em que grandes títulos literários são debatidos por intelectuais das áreas de história, letras, psicologia e filosofia. Os encontros são no Teatro Renascença (Av. Erico Verissimo, 307). Para este fim de semana, estava prevista a apresentação do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, por  João Carlos Brum Torres, em dobradinha com Liberdade, o mais recente romance de Jonathan Franzen, debatido por Flávio Moura. A mediação é de Felipe Pimentel.

Mas as cinzas do vulcão chileno Puyehue afetaram também a realização do evento. Com o cancelamento dos voos São Paulo – Porto Alegre, Flávio Moura não conseguiu chegar a Porto Alegre, e portanto amanhã a palestra será realizada, no mesmo horário de sempre, mas cumprindo-se apenas metade do programa: João Carlos Brum Torres falará sobre o Manifesto Comunista. A palestra de Flávio Moura sobre o livro de Franzen será remarcada, ainda sem data definida.

***

Encerram-se no dia 15 de junho (quarta-feira que vem) as inscrições para o Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura, concedido durante a 14ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. O certame sempre foi um dos concursos literários nacionais com maior premiação, e este ano a bolada a ser entregue ao grande vencedor aumentou: R$ 150 mil – R$ 50 mil a mais do que no ano passado. Podem participar romances publicados entre 20 de janeiro de 2009 e 31 de maio deste ano. O ganhador será conhecido dia 22 de agosto, na abertura da Jornada.

Instituído a partir de 1999, o prêmio foi entregue, em seu primeiro ano, a Sinval Medina, por Tratado da Altura das Estrelas. Os demais vencedores foram Antônio Torres (Meu Querido Canibal) e Salim Miguel (Nur na escuridão) em 2001; Plínio Cabral (com O Riso da Agonia) em 2003; Chico Buarque (com Budapeste) em 2005; Mia Couto (O Outro Pé da Sereia) em 2007 e Cristovão Tezza (O filho eterno), em 2009. Para se inscrever, escritores ou editoras devem enviar seis exemplares do livro, acompanhados de breve currículo do autor e da ficha devidamente preenchida. Mais detalhes podem ser obtidos no site da Jornada: www.jornadadeliteratura.upf.br.

O Manifesto comunista (Marx e Engels) – João Carlos Brum Torres
Freedom (Jonathan Franzen) – Flávio Moura

Mediador: Felipe Pimentel