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Posts na categoria "Prêmio São Paulo"

Três perguntas para Veronica Stigger

17 de novembro de 2014 0
A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora Veronica Stigger. Foto: Guto Kuerten, Agência RBS

A escritora porto-alegrense Veronica Stigger recebeu, na semana passada, o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante acima de 40anos, por seu romance Opisanie Šwiata. Ela respondeu três perguntas por e-mail. Parte desta entrevista foi publicada, com cortes, no caderno PrOA de Zero Hora deste domingo. Abaixo, segue a versão na íntegra:

Dar a um romance de estreia no Brasil um título em polonês (apesar de todo o sentido que o título assume dentro da narrativa) é, de algum modo, um gesto anticomercial?
Não é a primeira vez que dou um título em outra língua para um trabalho. Meu segundo livro saiu com o título em italiano: Gran Cabaret Demenzial. E tenho vários textos com títulos em línguas estrangeiras: “Argumentum chronologicum”, “Quand avez-vous le plus souffert?”, “L’après-midi de V. S.”, “Des cannibales” – cada um com sua razão própria de ser. Antes de ser um gesto anticomercial, é, para mim, um gesto artístico, um gesto poético. Que poesia e anticomércio, hoje em dia, acabem por coincidir é algo que talvez diga menos sobre meu romance do que sobre nossa sociedade ou nossa “vida cultural”. Com o título Opisanie Šwiata, queria produzir um estranhamento, que colocasse o leitor na posição de estrangeiro, como é a do personagem principal (o título está na língua dele). E não abriria mão deste gesto por um suposto aumento de vendas.

Seu livro dialoga com títulos brasileiros dos anos 1920 e tem até um viajado Bopp como personagem, alusão clara a Raul Bopp, autor do clássico modernista Cobra Norato. Esta aproximação explícita do modernismo é uma tentativa de dialogar com os valores estéticos desse movimento?
Sim. Vejo o Opisanie Šwiata como uma espécie de história poética do modernismo brasileiro, e não só brasileiro – uma homenagem a este período, que venho estudando bastante. Acredito que há uma vontade de experimentação, naquela fase da história artística e literária brasileira, que ainda não foi de todo esgotada. Daí eu ter buscado fazer, como dizem as anotações encontradas por Opalka no caderno de Natanael, “um livro antigo / um livro de viagens / com páginas que se desdobram”, isto é, um livro “moderno”. Às vezes, um desvio pelo passado (e não para o passado), um reencontro com aquilo que ainda permanece vivo no passado, pode ser a melhor maneira de ultrapassar os impasses estéticos do presente, a melhor maneira de seguir adiante. Por exemplo, há um modelo de ficção literária que foi se impondo ao longo dos últimos anos, que é o modelo chancelado e até mesmo promovido pela indústria editorial de língua inglesa. Este modelo, transformado em padrão por algumas editoras hegemônicas e por alguns jornais e revistas a elas associados, arriscou transformar a prosa literária brasileira contemporânea numa espécie de cover da literatura anglo-saxã. O que, convenhamos, é bastante melancólico para uma prosa que já teve um Oswald de Andrade ou uma Clarice Lispector. Todas as experiências que se contraponham, conscientemente ou não, a esse padrão, e à padronização dele resultante, contam com minha simpatia. Felizmente, posso nomear vários autores cujo sucesso (artístico, não comercial) demonstra que o padrão que se tentou e ainda se tenta impor já está em declínio: Nuno Ramos, André Sant’Anna, Marcelo Mirisola, Ricardo Lísias, João Paulo Cuenca, Paloma Vidal, Marcelino Freire, Alberto Martins, Carlos de Brito e Mello, Elvira Vigna, Evandro Affonso Ferreira, Juliano Garcia Pessanha, Vitor Ramil, Juliana Frank. Fico por aqui, mas haveria uns tantos outros nomes a citar.

O livro apresenta um cuidadoso trabalho visual, com imagens e cores que se alternam ao longo das páginas. Também Os Anões tinha um padrão gráfico sofisticado e único que emulava na forma a pequenez do título. Como foi sua participação no processo de edição visual? Você pensa seus livros como objetos artísticos?
Para mim, um livro não se resume ao texto. Costumo pensá-lo como um todo. Quando o estou escrevendo, já vou imaginando a forma que darei a ele, a organização interna dos textos, o tipo de papel, a capa, se terá ilustrações, que ilustrações etc. Por conta disso, quando entrego os originais na editora, sento-me com a equipe de design gráfico e explico toda a concepção do livro em seus mínimos detalhes. Em Opisanie Šwiata, por exemplo, há várias linhas narrativas: em primeira pessoa, em terceira pessoa, cartas, trechos de um guia de viagem, notícias, anúncios. E eu queria que cada uma dessas linhas tivesse uma diferenciação gráfica discreta, evitando recorrer ao itálico ou à mudança muito marcada de tipo de letra. Por isso, as páginas são coloridas. Além disso, imaginei a abertura do livro como a abertura de um filme, em que há uma espécie de prólogo antes dos créditos iniciais. Daí, o livro se abrir com as cartas e só depois disso apresentar seu título e minha assinatura, a dedicatória, as epígrafes.

Os 20 do Prêmio São Paulo

02 de agosto de 2012 0

O número 20 parece cabalístico nos dias que correm. Depois de muita discussão provocada recentemente pela divulgação dos 20 nomes da Granta, contraposta quase em seguida pelo lançamento da coletânea Geração Sub-Zero (com 20 nomes “congelados pela crítica mas amados pelo público”, segundo seu subtítulo militante, agora é a vez da coordenação do Prêmio São Paulo Literatura lançar uma lista com 20 nomes: os finalistas do certame, aquele com o prêmio mais apetitoso em termos financeiros para quem concorre.

Foram escolhidos 10 autores na categoria “Autores Veteranos”, para quem tem mais de um romance já publicado, e outros 10 na categoria “Estreantes”, para os autores que publicaram seu primeiro romance em 2011. Ao todo, 209 livros de 101 editoras brasileiras foram inscritos. O Prêmio, que aceita apenas a inscrição de romances de ficção escritos originalmente em língua portuguesa, é um dos que melhor pagam no Brasil a seus agraciados: os vencedores receberão, cada um, R$ 200 mil.

Dois escritores do Rio Grande do Sul foram selecionados na categoria “Veteranos”: Paulo Scott, com seu O Habitante Irreal, e Michel Laub, com Diário da Queda. Adriana Lunardi, catarinense de nascimento que começou sua carreita literária no Estado, nos anos 1990, também está entre as finalistas. Dentre os autores estreantes, a jornalista Eliane Brum e a também poeta Ana Mariano foram indicadas por suas narrativas de estreia. A vencedora da edição 2008 na categoria “estreante”, Tatiana Salem Levy, retorna à lista, desta vez concorrendo entre os veteranos. A lista dos veteranos contém outros nomes consagrados como Luiz Ruffato e Luiz Vilela, além da concorrência póstuma de Bartolomeu Campos de Queirós, falecido em janeiro deste ano.

Na tradição aqui do blog, vai abaixo a lista completa – com links para resenhas ou entrevistas nos casos em que já publicamos alguma coisa aqui no Mundo Livro:

VETERANOS
Adriana Lunardi
A vendedora de fósforos - (Rocco)
Bartolomeu Campos de QueirósVermelho Amargo (Cosac Naify)
Domingos PellegriniHerança de Maria (Leya)
Hélio PólvoraDon Solidon (Casarão do Verbo)
Luiz RuffatoDomingos sem Deus (Record)
Luiz VilelaPerdição (Record)
Michel Laub Diário da Queda (Cia. das Letras)
Paulo Scott - Habitante Irreal (Alfaguara)
Silvio LancellottiEm nome do Pai dos Burros (Global)
Tatiana Salem Levy Dois rios (Record)

ESTREANTES
Ana Mariano Atado de Ervas (L&PM)
Bernardo KucinskiK (Expressão Popular)
Chico LopesO Estranho no Corredor (Editora 34)
Edmar Monteiro Filho Fita azul (Babel)
Eliane BrumUma duas - (Leya)
Júlian FuksProcura no romance (Record)
Luciana Hidalgo O Passeador (Rocco)
Marcos BagnoAs memórias de Eugênia (Editora Positivo)
Susana Fuentes Luzia (7 Letras)
Suzana MontoroOs Hungareses (Ofício da Palavra)
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O estreante do Prêmio São Paulo

02 de agosto de 2010 2

A organização do Prêmio São Paulo de Literatura anunciou agora há pouco os vencedores da edição 2010 do prêmio nas categorias estreante e autor veterano da premiação, que paga R$ 200 mil a cada um dos vencedores. Raimundo Carrero, pioneiro das oficinas literárias no Brasil, venceu como melhor romancista com A minha alma é irmã de Deus (Record, 154 páginas), enquanto o prêmio de melhor estreante foi para o jornalista Edney Silvestre, repórter da Rede Globo e apresentador do Espaço Aberto Literatura na GloboNews. O livro pelo qual Silvestre venceu a premiação, Se eu Fechar os Olhos Agora (Editora Record, 304 páginas), foi lançado no ano passado bem na época da Feira do Livro de Porto Alegre, e o jornalista veio à Capital para autografá-lo. Na época, este seu blogueiro aqui publicou a seguinte breve resenha do livro, que eu republico agora aproveitando o “gancho”, como se diz no jargão da categoria. O artigo saiu na coluna Rato de Livraria do Caderno da Feira no dia quatro de novembro de 2009:

O Aprendizado da Violência:

Os espectadores que já assistiram às entrevistas realizadas pelo jornalista Edney Silvestre com grandes nomes da arte literária – brasileira ou internacional – têm ciência do envolvimento do jornalista com a literatura e de sua qualidade de atento leitor. É essa última característica que se encontra em Se eu Fechar os Olhos Agora, primeiro romance de Silvestre. A própria cena de abertura não deve passar inadvertida. Em uma cidade pequena, em uma manhã de abril de 1961, dois adolescentes, Eduardo e Paulo, que haviam fugido do colégio depois de serem expulsos de sala de aula por um professor e encontram em um matagal próximo ao rio em que nadavam o corpo mutilado de uma mulher.

A violência da cena vai ressoar na mente do leitor com ecos claros da obra-prima de James Ellroy, Dália Negra. A mulher está de pernas abertas, o vestido levantado, o corpo perfurado a facadas, o seio direito arrancado. A partir daí, contudo, a toada de Silvestre, é diversa da do mestre do romance policial. Ele intercala tempos e vozes na condução da narrativa. Ora quem conta a história é uma voz em primeira pessoa que evoca a cena e o crime de algum ponto no futuro (talvez o nosso presente), ora uma voz narrativa interveniente em terceira pessoa dá conta de descrever as interações dos dois jovens com o mundo ao redor e com as consequências de seu achado brutal: uma breve experiência de coerção policial tentando fazê-los confessar, os problemas da relação deteriorada de ambos com suas respectivas famílias, as sequelas do primeiro contato com a violência. A prosa é refinada, por vezes cede ao floreio de um autor que se sabe dono de seus recursos, mas a construção trabalhada da trama e dos diálogos transforma o livro em um bom exemplar de estreia e de uma leitura surpreendente.

O Clone no escuro

14 de agosto de 2009 7

Dia desses fui parar em um site ligado a uma publicação hypada e li uma coluna de livros assinada por uma jornalista e escritora brasileira. Tinha um texto grande sobre os dois recentes vencedores do Prêmio São Paulo de Literatura, Galiléia, de Ronaldo Correia de Britto, e A Parede no Escuro, do gaúcho Altair Martins. Fui lendo, fui lendo, estava gostando, confesso. Até que chegou na parte em que a autora da coluna dedicava-se a falar um pouco do romance. E alguma coisa me soou muito familiar na primeira frase. E me soou mais familiar ainda em outros trechos adiante.

Não que eu não soubesse de onde vinha aquela sensação estranha de familiaridade, eu sabia, era essa a questão. O texto parecia um tanto com o texto que eu próprio escrevi e que foi capa do Segundo Caderno em outubro do ano passado. logo no lançamento do romance. Não era uma cópia integral, mas parecia que a maneira como o pensamento era encadeado era muito semelhante à descrição que eu próprio havia feito no meu texto. Para não ser leviano em minhas impressões, fui até o post publicado aqui mesmo no blog em 14 de julho, onde havia republicado o texto por conta da indicação do romance entre os semifinalistas do prêmio Passo Fundo Zaffari Bourbon. E comprovei que, ao menos para mim, há coisas bem semelhantes.

Para não dizer que eu sou paranoico, transcrevo abaixo o meu texto e o texto da escritora/colunista, com as passagens que me soaram familiares destacadas, e pergunto aos considerados leitores. Não parece ter havido uma inspiração bastante acentuada, ao ponto de ultrapassar a simples coincidência? Palpites nos comentários:

O meu texto:
Chove a cântaros quando o padeiro Adorno estaciona a Kombi velha na qual faz as entregas à frente de uma padaria onde vai deixar um lote de pãezinhos. No meio do vendaval, não vê nem é visto por um carro que entra na mesma rua no exato momento em que ele tenta atravessá-la.
O acidente na chuva é um dos pontos-chave da narrativa de A Parede no Escuro, primeiro romance do escritor Altair Martins, 33 anos, até aqui conhecido pela originalidade e pelo cuidado com a linguagem em seus contos, nos livros Se Choverem Pássaros, Dentro do Olho Dentro e Como se Moesse Ferro - um cuidado que lhe valeu duas vezes o prêmio Guimarães Rosa, organizado pela Rádio France Internationale, em 1994 e 1999. A Parede no Escuro é narrado por uma profusão de narradores que se cruzam no mesmo capítulo e às vezes na mesma cena.
- Nesse livro eu me propus um desafio: buscar a possibilidade de colocar mais de um narrador no mesmo espaço narrativo em cena sem quebra.
Tive alguns contos anteriores nos quais experimentei coisas assim, mas no romance em particular eu queria trabalhar na forma a idéia central do tema, a de as pessoas invadindo abruptamente o espaço e o discurso umas das outras – conta o autor, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS em 2006 com uma dissertação na qual defendia os procedimentos narrativos desse mesmo primeiro romance, na época provisoriamente chamado de Desencanto.
Uma série de personagens se cruzam numa narrativa circular na manhã do já descrito atropelamento. Adorno, padeiro doente mas ainda na ativa, acorda depois de um sonho opressivo e de passar mal, discute com a mulher, Onilda, acende o forno e faz seus pães. Sai e é colhido na frente da padaria por um carro dirigido pelo professor de matemática Emanuel. Este, por sua vez, dirigia-se à casa do pai, Fojo, para apanhá-lo e levá-lo a uma consulta médica. Emanuel vinha, perturbado, do apartamento em que dormiu com uma aluna, Lisla – que vem, pelas artes circulares do romance, a ser colega de quarto de Maria do Céu, filha do padeiro atropelado. Cada um deles, e outros personagens colaterais que a trama vai agregando, narra um fragmento da história, numa polifonia narrativa quebrada às vezes por um narrador em terceira pessoa, distante, que também tem voz nas transições entre um episódio e outro.

O texto dela:
O romance “A Parede no Escuro” é resultado de dissertação de mestrado do autor, sobre discurso narrativo. O objetivo de Altair era mostrar a possibilidade de colocar mais de um narrador no mesmo espaço narrativo, no caso do livro, no mesmo capítulo, ou na mesma cena. O ponto de partida é um acidente: chove a cântaros, quando o padeiro Adorno sai para cumprir sua rotina de entregas de pães. Ele havia passado uma noite péssima, para piorar, ao acordar, discutira com a mulher, Onilda. No meio da tempestade, não vê nem é visto por um carro que entra numa rua no exato momento em que ele tenta atravessá-la. O motorista, o professor de matemática Emanuel, dirigia-se à casa do pai, Fojo, para levá-lo a uma consulta médica. Emanuel, assim como Adorno, estava desorientado, vinha do apartamento em que dormira com uma aluna, Lisla, que, por sua vez, é colega de quarto de Maria do Céu, filha do padeiro atropelado. Esses personagens, além de outros que vão surgindo no desenrolar do enredo, relatam fragmentos da história, produzindo um texto polifônico, o qual, às vezes, é interrompido por um narrador em terceira pessoa, descolado da trama, e que também aparece nas transições entre um episódio e outro.

Ah, antes que perguntem: Não, não vou declinar o nome da moça. Primeiro porque espero a opinião de vocês, e segundo porque não é do meu feitio subir nas tamancas quando sou plagiado - se plagiado fui, não terá sido a primeira vez que texto meu foi parar sem crédito em outros pontos da rede, por aí.