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Posts na categoria "Quadrinhos"

Luta pela vida em meio à guerra

12 de novembro de 2013 0
Cena da graphic novel O Boxeador, de Reinhard Kleist

Cena da graphic novel O Boxeador, de Reinhard Kleist

Texto de Cristina Duarte 

Vem dos ringues a mais recente graphic novel do quadrinista alemão Reinhard Kleist. Em O Boxeador – A História Real de Hertzko Haft, descobrimos um aspecto pouco conhecido da crueldade dos campos de concentração da II Guerra Mundial.

Os prisioneiros eram obrigados a participar de lutas de boxe para a diversão dos oficiais nazistas. Foi em um desses campos que o judeu polônes Haft descobriu a vocação para o esporte. Publicado este ano no Brasil, a obra foi lançada na Bienal do Rio com a presença do autor, que também assina o livro Johnny Cash – Uma Biografia.

Toda em preto e branco, a narrativa elaborada por Kleist a partir da biografia Um Dia Eu Contarei Tudo: a História de Sobrevivência do Boxeador Judeu Hertzko Haft, de Alan Scott Haft, ainda inédita no Brasil, comove pela crueza com que a vida do prisioneiro é apresentada. Diante da perversidade do contexto da guerra, na narrativa da história real do pugilista não poderia faltar as muitas dores: a separação forçada da família, a tortura cotidiana nos campos de concentração, o desespero pela sobrevivência, a fome e ainda a saudade de um amor juvenil nunca vivido com a mesma intensidade com que era lembrado.

Amor esse que era a motivação de vida do boxeador após o término do conflito, quando viaja para os Estados Unidos atrás da namorada. Haft torna-se então um pugilista profissional na esperança de que a fama e as aparições nos jornais cheguem até sua amada, também imigrante na América.

A obra é a quarta graphic novel do autor lançada pela 8INVERSO Graphics – linha editorial dedicada aos quadrinhos. O livro recebeu o Prêmio Peng! 2013 do Festival de Quadrinhos de Munique como melhor álbum em língua alemã, o grande prêmio 2013 do Festival de Quadrinhos de Lyon e o recente e mais prestigiado Prêmio Alemão de Literatura Juvenil, na categoria não ficção. Este último veio em um momento em que os quadrinistas alemães fazem um movimento para que o HQ seja incluído na categoria arte, independente da literatura.

A Alemanha é o país homenageado na 59ª Feira do Livro de Porto Alegre. O Boxeador… pode ser encontrado na banca 8Inverso.

boxeador capa frente real

Guerra pelos leitores

10 de setembro de 2012 0

Há algum tempo, escrevemos aqui umas breves considerações sobre o quanto os quadrinhos talvez ainda precisem de uma fortuna crítica consolidada para serem mais reconhecidos como expressão artística séria. Citei no artigo uma série de bons livros sobre o gênero disponíveis em português, mas deixei um bom título de fora, o que só percebi depois que uma moça perguntou em um grupo do qual faço parte no Facebook se alguém já havia lido A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Júnior (Companhia das Letras, 433 páginas, 2004).

Na época a omissão fez sentido, mas não deixa de ser injusta, uma vez que A Guerra dos Gibis é um daqueles livros preciosos que mistura pesquisa rigorosa sobre um campo de estudo pouco explorado com o texto fluente e a obsessiva apuração de uma grande reportagem. A obra narra a consolidação das histórias em quadrinhos no Brasil, nos anos 30, e o papel fundamental que tiveram nesse processo dois homens: os jornalistas Adolfo AizenRoberto Marinho (é, aquele mesmo que você pensou).

Filho de imigrantes russos residente no Brasil desde a infância, Aizen viajou aos Estados Unidos em 1932, passou lá cinco meses e, ao voltar, estava encantado com uma novidade que os periódicos americanos exibiam: suplementos semanais ilustrados com contos policiais, notícias esportivas e histórias em quadrinhos. Empolgado, elaborou um projeto de publicação de suplementos para jornais e o ofereceu ao seu empregador, Roberto Marinho, que recusou a oferta. Aizen deixou o emprego como repórter em O Globo e dedicou-se ao projeto, levando-o a efeito no periódico getulista A Nação. Foi em um desses cadernos, o Suplemento Juvenil, que Aizen passou a publicar personagens estrangeiros representados pelo escritório do King Syndicate no Brasil. Dentre eles, Jim das Selvas e Flash Gordon.

O fulminante sucesso do Suplemento Juvenil, logo desvinculado de A Nação e tornado um semanário próprio, levou Marinho a mudar de ideia, lançando ele próprio suas páginas de quadrinhos no suplemento Globo Juvenil. Com recursos financeiros que Aizen não tinha, Marinho fez mais do que criar sua própria versão de um caderno de quadrinhos: ele esmagou a concorrência, comprando por mais dinheiro os mesmos heróis que Aizen havia apresentado ao público primeiro no Suplemento Juvenil.

Caso para uma rivalidade para a vida toda? Pior que não. A Guerra dos Gibis mostra também como Aizen e Marinho precisaram mais tarde unir forças contra um inimigo comum: a censura, reivindicada por grupos conservadores preocupados com o “desvirtuamento da juventude” pelos quadrinhos, considerados alienantes e emburrecedores.

O livro traz um subtítulo auto-explicativo que mais parece saído daquelas áridas teses repletas de jargões tecnicistas: A Formação do Mercado Editorial Brasileiro e a Censura aos Quadrinhos (1933-64). Impressão equivocada que logo se desfaz. Documentado com o rigor de uma pesquisa acadêmica, A Guerra dos Gibis é também um livro fluente, escrito com leveza e carinho pelo assunto que aborda. O livro teve uma continuação publicada em 2010, Maria Erótica e o clamor pelo sexo: Imprensa, Pornografia, Consumismo e Censura na Ditadura Militar (1964 – 1985), pela editora Peixe Grande, mas esse eu não li, então não posso opinar.

Ele próprio roteirista de quadrinhos, Gonçalo Júnior tornou-se na última década um dos principais pesquisadores da cultura pop nacional. Publicou a biografia de mestres da ilustração no Brasil, Benício (Clusq, 2006), sobre o ilustrador de centenas de icônicos pôsteres cinematográficos, entre outros trabalhos e Alceu Pena e as Garotas do Brasil (Amarylis, 2010), sobre o artista famoso em todo o Brasil por suas charges para a revista Cruzeiro (e que também publicou na americana Esquire). A biografia de Pena recebeu o Jabuti da categoria no ano passado, e depois foi desclassificada pela comissão julgadora, que considerou que uma versão anterior do livro, publicada em 2004, desqualificava o trabalho como “inédito”, requisito para concorrer ao prêmio.

Mafalda, atemporal com qualquer idade

26 de março de 2012 0

Mafalda acaba de realizar o sonho de milhares de mulheres. Completou 50 anos e, por decreto, voltou a ter 48. Mal começaram a se multiplicar as homenagens pelo meio século de vida da mais famosa personagem do quadrinista  argentino Quino, criada para uma campanha publicitária jamais divulgada em 15 de março de 1962, o autor se manifestou adiando o aniversário em dois anos: o nascimento oficial da garota preocupada com os rumos do mundo seria em 29 de setembro de 1964, quando ela apareceu pela primeira vez em uma tira.

A confusão deixa margem à pergunta: entre todas as mulheres (de carne e osso ou papel), Mafalda comemoraria a chance de protelar os emblemáticos 50 anos? Sua amiga Susanita — aquela apaixonada por si mesma e que acreditava que a conjugação do verbo amar no presente perfeito era “filhos” — com certeza adoraria a possibilidade. E Felipe? O dentuço perdido em reflexões, provavelmente precisaria de uma superdose de Nervocalm diante da incerteza do dia do próprio nascimento. Mas Mafalda…

O mais fascinante sobre a garotinha que saiu de cena em 1973, mas segue cultuada por fãs fiéis ao redor do mundo, é seu olhar agudo sobre a realidade e as pessoas. Garimpando suas tiras, entre um comentário irônico sobre o embate entre o capitalismo e o comunismo naqueles agitados anos 1960, as aspirações da classe média e temas universais como a relação pais e filhos, ela aparece refletindo sobre o passar do tempo. Ao pensar no futuro, dali a 30 anos, quando a Terra teria 7 bilhões de habitantes e ela e seus amigos a idade de seus pais, ela conclui que estariam, além de apertados, velhos. Em outro momento, pergunta quantos anos alguém precisa ter para ser velho, ao que a mãe  responde que o importante é ser jovem de espírito. Então, Mafalda arremata: “E quando o espírito começa a precisar de maquiagem?“.

Mas, a despeito da certeza infantil de que qualquer idade além dos 20 é velhice, Mafalda certamente estaria agora, seja aos 48, seja aos 50, mais preocupada com os desdobramentos da Primavera Árabe ou o novo bate-boca pelo domínio das Ilhas Malvinas do que com crises etárias. A garota que ainda na pré-escola se questionava sobre os rumos do movimento feminista e, olhando as roupas passadas, a louça lavada e o chão brilhando, perguntou certa vez à mãe o que ela gostaria de ser se vivesse, é anticonvencional demais para se preocupar com idade.

Aliás, mesmo cinquentona, Mafalda, pelas artes do traço, seguirá sendo a criança que ainda hoje, quando seus leitores se aproximam ou há muito passaram dos 50, é capaz de nos desconcertar. Afinal, como ela mesma disse, entre as pequenas e as grandes questões do mundo, “a humanidade não é nada mais que um sanduíche de carne entre o céu e a terra”.

Os gêmeos quadrinistas e o preço da vida

13 de fevereiro de 2012 3

A série Daytripper (Panini), escrita pelos gêmeos quadrinistas Fábio Moon e Gabriel Bá, é uma leitura perturbadora que ficará reverberando no leitor por um bom tempo após o fim das 256 páginas do álbum. E essa é uma afirmação praticamente impossível de ser feita sobre a maioria das coisas que a a indústria dos quadrinhos publica atualmente. Quem não leu e tem medinho de spoiler, sem querer saber nada do que acontece, não deveria passar deste parágrafo. Se bem que quem tem frescura de spoiler e não quer saber nada de um livro não deveria ter começado sequer o primeiro parágrafo de uma resenha antes de ler o livro, mas espero ter me feito entender.

Estruturada em 12 capítulos, Daytripper foi publicada originalmente em inglês, pelo selo Vertigo, marca voltada para quadrinhos autorais da DC Comics, a mesma de Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha. O álbum é protagonizado por brasileiro chamado Brás de Oliva Domingos, jornalista que trabalha com obituários em um grande jornal, intimidado com a sombra de seu pai, grande escritor. Em 10 capítulos, os gêmeos nos mostram momentos que, por alguma circunstância, transformam a vida do protagonista, tomadas de decisões impulsivas ou mesmo bastante ponderadas que levam Brás a  enfrentar o que de mais drástico existe em qualquer vida: a morte.

Cada capítulo  (com exceção do nono) traz, em seu título, apenas um número: a idade de Brás naquele momento da narrativa. Ele começa sua trajetória com 31. Está de aniversário, mas ninguém parece lembrar disso, uma vez que todas as atenções estão voltadas para uma homenagem solene que seu pai receberá no Theatro Municipal de São Paulo pelo transcurso de seus 80 anos. Trabalha no jornal escrevendo obituários mas o que gostaria de estar fazendo era mesmo escrever seu primeiro romance. Sobre isso: li uma série de entrevistas com os irmãos Bá e Moon nos quais eles comentam as diversas leituras e influências que definiram Daytripper enquanto ela estava sendo moldada – Hemingway e Neil Gaiman eram duas delas, para encontrar a voz em inglês que queriam para seu roteiro (que saiu primeiro lá fora, lembremos). Curiosamente, não encontrei menção alguma de ambos à reportagem Sr. Má Notícia, perfil elaborado por Gay Talese sobre o obituarista do The New York Times, Alden Withman (incluído na coletânea Fama e Anonimato, da Companhia das Letras).

Mas voltando a Brás. Logo na primeira parte da série, vemos no traço sutil, fluído e ao mesmo tempo expressivo dos irmãos um mergulho no cotidiano de um homem preso na própria vida, e insatisfeito com isso. Brás claramente está se debatendo contra o que considera o malogro de algum sonho impreciso que havia traçado para si mesmo aos 21 anos, quando ele e o melhor amigo, o fotógrafo Jorge, eram colegas de faculdade e fizeram uma viagem de férias a Salvador. Mesmo um tanto decepcionado por seus pais não lembrarem de seu aniversário, ele vai à recepção oferecida ao pai, mas antes de entrar, resolve comprar cigarros e acaba ficando para tomar um café por insistência do dono do boteco que o atendeu. Aí ocorre um assalto. E Brás morre, algo inequivocamente expresso no texto de obituário que encerra o capítulo.

E é com esse impacto que o segundo capítulo passa a narrar a citada viagem a Salvador – um flashback melancólico quando se tem em mente o que aconteceu no primeiro capítulo. Brás conhece durante um mergulho uma mulata estonteante e misteriosa por quem se apaixona e, em vez de voltar para São Paulo com Jorge para uma entrevista de emprego, fica mais um dia, para acompanhar o festival de Iemanjá. Espera a amada na beira da praia e é abordado por um homem misterioso. O sujeito, uma figura difusa que parece fantasmagórica, diz que sabe onde a namorada espera Brás, e que pode levá-lo até ela de barco. Ele aceita e ajuda o suposto pescador a lançar ao mar as oferendas feitas à deusa das águas. E aí é empurrado do barco – e morre.

Neste momento a cabeça do leitor está dando milhões de voltas. Peralá, como é isso? E o que aconteceu no primeiro capítulo? Não ajuda no desconcerto o fato de o episódio seguinte já flagrar Brás com 28 anos prestes a se separar da mesma mulher que o vimos conhecer em Salvador.  E esse estranhamento é tornado ainda mais inquietante pela qualidade do texto escrito por ambos, pela maneira como o desenho ou a cor do colorista americano Dave Stewart (que às vezes emula o tom aqualerado sutil característico do trabalho dos gêmeos) conseguem fazer de uma página uma expressão mesma das sensações de Brás.

O leitor incomodado talvez largue o livro aí mesmo se não tirar da cabeça a linearidade da narrativa tradicional e não pensar em cada capítulo como uma célula de uma vida possível, resultado de uma escolha que pode ou não ter tido desfecho trágico. Ao longo dos 10 capítulos, cada novo vislumbre da personalidade de Brás por meio dos momentos cruciais de sua vida reforça o caráter muitas arbitrário e gratuito da vida humana. Brás toma uma decisão que pode mudar sua vida ou que pode matá-lo, mas a mudança, mostrada em outro capítulo antes ou depois, não é garantia de nada, uma vez que uma nova encruzilhada leva Brás novamente a uma escolha que pode… etc, etc, até o fim – do livro e de tudo. Na exegese parece complicado, mas a leitura é de uma fluência e poesia visual desconcertante.

Mesmo uma leitura como esta que estou fazendo, que muitos talvez considerem excessivamente detalhista no revelar alguns pontos da trama, pode estar também equivocada, dado que o nono capítulo oferece uma chave de leitura alternativa a essa e que também pode explicar coerentemente todos os momentos vistos anteriormente. É nos pequenos instantes poéticos arrancados das garras do cotidiano que se monta um panorama da vida de Brás, na qual o que importa são as decisões, ligações, conexões frágeis e desesperadas. A morte está lá em vários momentos porque também ela é um elemento fundamental da vida humana, mas seu caráter muitas vezes não importa. Porque, como na vida, ela nunca parece vir na hora que deveria e sempre deixa o travo melancólico de uma interrupção brutal, por mais que se viva e faça.

O Mundo dos Quadrinhos...

21 de outubro de 2011 1

A repercussão de um artigo da revista Veja publicado há duas semanas apresentando os resultados de uma pesquisa da UFRGS a respeito das exigências de leitura do ENEM provocou alguma discussão na rede não tanto pela suposta ausência da literatura como tema de questionamento para o estudante entrar no ensino superior, mas pela comparação com a suposta presença supervalorizada das histórias e tiras em quadrinhos no exame – e estou usando “suposta” porque não li a pesquisa, estou partindo da interpretação oferecida só pela matéria. E eu só uso a pesquisa e a matéria, aqui, como gancho para outra coisa, como vocês verão, então não me estenderei muito sobre esse ponto.

Entre os que contribuiram com solidez para a discussão estão o professor Paulo Ramos, no Blog dos Quadrinhos, e o blogueiro Liber, em sua página Liberland. Em ambos os casos, os textos escritos por eles estranhando a necessidade de se demonizar os quadrinhos para alertar para o abandono da literatura geraram produtivas caixas de debates – contando com a presença do próprio autor da matéria, Jerônimo Teixeira. Acompanhem lá. Os defensores da abordagem (note que não emito aqui opinião sobre o ensino de literatura, e sim sobre esse caso em particular, minha opinião sobre o ensino da literatura na escola já foi expressa nestes dois posts) lembram que a comparação procede uma vez que os quadrinhos são um objeto de leitura menos exigente do que qualquer literatura – e para fechar a conta comparam com Graciliano e Guimarães Rosa, uma comparação algo tendenciosa, a meu ver, uma vez que vai direto ao topo da pirâmide. Ok, Machado, Graciliano, Guimarães são ápices de nossas letras, mas antes de chegar lá o aluno ainda vai passar por muito entulho passadista que ainda se mantém no cânone pela abordagem eminenemente historicista e aestética do ensio de literatura – penso rapidamente em Casemiro de Abreu ou Coelho Neto, por exemplo.

Creio que isso denota sim uma certa má-vontade contra os quadrinhos. Como uma leitura se pronunciou no blog do liber, a revista, um veículo de imprensa, não comparou a ausência de literatura nas questões do Enem à reprodução de textos jornalísticos, e sim aos quadrinhos, que são tidos como menores porque, na opinião mais corrente, são livros “que vem com as figurinhas” e, portanto, são de mais fácil assimilação – e a culpa desse preconceito não é só dos literatos, de modo geral: algumas editoras se lançam a adaptações de quadrinhos que apenas resumem a história de um livro consagrado mirando o leitor jovem preguiçoso ou a imagem que se faz desse leitor. Isso mais atrapalha do que ajuda.

Ao pensar sobre as razões dessa imagem algo pueril dos quadrinhos, me dou conta que talvez o problema esteja também na falta de uma fortuna crítica sólida. A indústria dos quadrinhos de super-herói vive um de seus momentos mais tristes e apelativos em décadas, mas o universo das revistas não se restringe a isso. No universo da literatura de ficção, por exemplo, creio que apenas Jonathan Safran Foer e Don de Lillo ofereceram peças mais relevantes sobre o 11 de Setembro do que, acredite, quadrinhos como ZDM, de Brian Wood e Riccardo Burchielli, ou Ex-Machina, de Brian K. Vaughan e Tony Harris, pra ficar em apenas um exemplo. Mas um dos elementos essenciais para que uma forma de arte se estabeleça e angarie até mesmo respeito é o desenvolvimento de conjunto de reflexões teóricas que ampliem os horizontes estéticos dessa arte. E apesar de ser chamada por seus apreciadores de “Nona Arte”, a História em Quadrinhos – “Narrativa” ou “Arte Seqüencial” são outros nomes possíveis – ainda engatinha nesse quesito.

A L&PM relançou este ano a monumental Enciclopédia dos Quadrinhos, um trabalho pioneiro do jornalista Hiron Goidanich, o Goida, agora atualizado com a colaboração de André Kleinert – uma obra alentada que apresenta em verbetes a história de grandes autores. Pelo seu teor enciclopédico é livro de referência obrigatório, mas não estaria incluída na necessária obra crítica que falei. Por enquanto, acho que os livros ainda mais bem acabados a pensar questões estéticas, narrativas e conceituais das HQs com a seriedade necessária ainda são os de de Scott McCloud, principalmente Desvendando os Quadrinhos (M.Books, 266 páginas 2005), uma aula sobre os quadrinhos como arte e seus recursos técnicos.

Como autor de quadrinhos propriamente dito, McCloud é pouco conhecido no Brasil. Escreveu uma série de cunho experimentalista chamada Zot!, nos anos 80, e histórias para Superman Adventures, a revista que adapta para páginas de gibi o desenho animado do Homem-de-Aço. Quase nada desse material foi publicado por aqui. E McCloud também já teve lançado por aqui Reinventando os Quadrinhos e Desenhando os Quadrinhos, o segundo sobre o impacto das novas técnicas computadorizadas e as possibilidades da Internet e o terceiro sobre questões de narração e desenho. O livro de McCloud é uma daquelas obras que, se olhadas com pressa, podem ser vítimas de injustiça. Classificá-lo é tarefa ao mesmo tempo das mais fáceis e das mais difíceis – a classificação costuma ser inimiga dos quadrinhos.

É, primeiramente, um livro em quadrinhos, isso está claro desde a introdução – também apresentada em desenhos. Mas é também um texto teórico inteligente, amplo, estruturado com segurança e que apresenta argumentos consistentes de forma clara, ou seja, tudo o que se espera de um exemplar da boa prosa ensaística sobre arte (não apenas literatura, mas teatro e artes plásticas, por exemplo). Ao mesmo tempo, é e não é uma história em quadrinhos no sentido mais comum do termo, uma vez que quadros, desenhos e variantes narrativas são sim usadas para contar uma história: a dos próprios quadrinhos como meio de expressão. Nas 266 páginas do livro, McCloud disserta sobre as HQs como veículo de ideias, mapeia as origens da narrativa por imagens e estuda detalhadamente o progresso técnico e narrativo dos quadrinhos. Os nove capítulos abordam as definições do que seria arte seqüencial, as formas de relação, interação ou mesmo oposição entre texto e imagem e os diversos estilos de representação encontráveis nas páginas dos comics – ou seja, todos os elementos negligenciados pela polêmica quando se classifica os quadrinhos de cara como literatura menor ou menos exigente.

McCloud constrói seu livro em torno de dois pilares teóricos. O primeiro é de que o cartum, a forma de desenho mais simplificada, permite uma identificação maior do leitor ao podar traços específicos, levando o espectador a ocupar em sua imaginação o espaço do desenho. O segundo é de que, no espaço entre os quadros, o leitor é convidado a, em sua imaginação, atribuir significado ao que seriam duas imagens isoladas – em última análise, vale dizer que o leitor constrói a obra com o autor o tempo todo por meio de um processo que McCloud denomina Conclusão, a dedução do que não foi mostrado. A obra de McCloud rende tributo a outro estudo seminal dos gibis como linguagem e arte: Quadrinhos e Arte Seqüencial, de Will Eisner. As diferenças básicas entre as duas obras são que Eisner escreve em prosa e ilustra com páginas de quadrinhos, enquanto McCloud argumenta em quadrinhos o tempo todo – fazendo a crítica teórica da forma na forma, o que não deixa de ser ambicioso. Ele também tece considerações sobre cor, representações de tempo e movimento e expande o leque para discussões sobre a arte em geral, a formação do gosto do público, a evolução tecnológica.

Por que então a obra de McCloud é uma ave tão rara? Com grandes obras já publicadas provando o quanto os quadrinhos como veículo expressivo, artístico e formal podem ir longe (Scott Pilgrim, Asteryos Polip, Fun Home, American Born Chinese, Persépolis), por que tais obras não despertam mais ensaios argutos e entusiasmados, estudos breves e incisivos, comentários mais aprofundados? Será que o calcanhar de Aquiles dos quadrinhos como gênero são as poucas ressonâncias que ficam no leitor após o fim da obra? Não creio. Mas também não sei apontar um motivo.

Ah, sim, citei obras que são arte de fato em quadrinhos, enquanto o Enem vai de Garfield e outras tiras de jornal. Tá ok, mas quando o que valia era o vestibular unificado já havia tiras de jornal na prova de literatura e português, e a gente precisava responder a sério perguntas sobre Fagundes Varella. Logo, o centro da questão não é esse: mesmo uma prova de 35 questões de literatura não ia direto ao osso, e sim ficava em circunvoluções históricas, e nem toda literatura brasileira é Guimarães Rosa e Machado de Assis.

Supergêmeos: palestrar

24 de agosto de 2011 0

Paulo, Chico, Gabriel e Fábio: talento em dobro. Foto: Jean Schwarz, ZH

Na lona vermelha do Circo da Cultura – um picadeiro auxiliar onde ocorrem encontros com escritores como programação da Jornadinha – as duplas de gêmeos Paulo e Chico Caruso e Fábio Moon e Gabriel Bá quadruplicaram os risos na plateia lotada por bem mais do que os 1,5 mil lugares. Parte da Jornight, a programação voltada para os jovens na festa literária, a conversa entre os dois pares de clones naturais versou.

Se Paulo e Chico são fisicamente muito semelhantes, os mais jovens tentam se diferenciar. Não assinam com o mesmo sobrenome e há cinco anos Gabriel cultiva uma barba que o distingue do irmão. O desenho, contudo, é a marca comum.

– Para nós desenhar era a “coisa de gêmeos” que tínhamos. Estávamos sempre juntos e quando íamos à escola éramos os únicos que sabiam desenhar. Desenhar era o nosso amigo imaginário – definiu Fábio, que lembrou também que desde o início da carreira a dupla sempre manteve em mente a ideia de não fazer quadrinhos para crianças.

– Começamos a querer contar histórias lendo livros, de Jorge Amado, Guimarães Rosa, então queríamos contar histórias que gostássemos de ler – completou Gabriel.

Ao tomar a palavra, os hilários Paulo e Chico improvisaram um jogral, declarando em uníssono.

– Queremos dizer que não somos clones. Somos pessoas completamente diferentes. Eu trabalho em um grande jornal do Rio e ele em uma revista de São Paulo, e ele não (apontando um para o outro).

Depois, ambos recordaram que o incentivo ao desenho veio da família, mais especificamente do avô materno – perguntados por Paulo, Bá e Moon também recordaram que o incentivo veio da família, no caso deles a mãe. Ao comentar a complementaridade do trabalho de ambos, Chico brincou com o multitalentoso irmão:

– O Paulo não só desenha, ele toca bateria, piano, e eu não toco nada. Sou o Mick Jagger e o Zagallo dele nesta banda. Ele tem de me engolir – disse Chico, numa referência ao fato de que ambos também mantém um grupo musical, que se apresentou ao fim da palestra com a adição do também cartunista Aroeira.

Paulo levou um conjunto de imagens – parte de uma exposição do trabalho da dupla e do amigo Aroeira, para falar sobre o trabalho como cartunista. Quando o projetor entrou em pane e mostrou apenas a luz branca, Caruso, rápido no gatilho, aproveitou a deixa, arrancando gargalhadas.

– A tela branca, por exemplo. É muito importante para o começo do trabalho.

Kafka, de novo e sempre

03 de junho de 2011 0

No fim eu estou até atrasado para comentar isso, mas me esqueci de fazer antes, desculpem. É que saiu no ano passado e ainda está nas livrarias uma nova edição de Kafka de Crumb, um livro que une textos e quadrinhos para apresentar a visão pessoal de um dos maiores quadrinistas em atividade a respeito da vida e da obra de Franz Kafka.

Uma reedição relativamente recente, uma vez que o mesmo livro já havia sido lançado em 2006 em formato pequeno pela Relume Dumará, com 176 páginas (o volume de capa verde neste post). Com a vinda de Crumb ao Brasil para a Flip do ano passado, o grupo Ediouro resolveu publicar uma nova edição por outro de seus selos editoriais, o Desiderata, onde se concentram os lançamentos de quadrinhos da corporação. A edição mais recente é maior e tem mais páginas, 184 (é o da capa roxa na ilustração).

Kafka de Crumb é um encontro de malditos. A vida e a obra torturadas do autor checo Franz Kafka — e o quanto a condição judaica européia é responsável por ambas — são apresentadas em um volume com textos do escritor David Zane Mairowitz e desenhos do mestre underground americano. Mairowitz, também autor de um outro volume de apresentação dedicado a Albert Camus, discorre agora sobre a obra de Kafka. Para isso, busca na vida do escritor — um judeu nascido numa época em que as tensões do Império Austro-húngaro opunham nacionalistas checos e checos de língua alemã (como o próprio Kafka e sua família) – as origens das peculiares obsessões cristalizadas em suas obras claustrofóbicas, muitas delas inacabadas.

É uma abordagem interessante, com o pecado de se apresentar como a “única correta” numa série de “equívocos de interpretação” aos quais o autor tem sido submetido desde sua morte. O texto de Mairowitz sobre a vida de Kafka — para o qual os desenhos de Crumb são ilustrações adicionais — alterna-se com páginas de quadrinhos propriamente ditos, nos quais Crumb adapta em imagens sombrias as obras mais aclamadas do escritor. Estão lá A Metamorfose, Na Colônia Penal, O Processo, O Castelo e alguns dos contos mais conhecidos, como O Veredicto e a pequena obra-prima Um Artista da Fome.

São adaptações que fogem do mero resumo das tramas. O traço de Crumb – sujo, hachurado –, suas mulheres de proporções exageradas, o clima opressivo do preto-e-branco, todas as marcas que fizeram do artista o papa do alternativo casam perfeitamente com a paranóia que emana dos textos do autor checo. Paranóia traduzida em imagens mesmo na parte “real” da narrativa, nos desenhos que ilustram a vida de Kafka, seu trabalho burocrático numa repartição pública, seu medo das mulheres e sua relação de sufocamento com relação ao pai autoritário – temas que ecoariam mesmo nas obras mais delirantes de Kafka, num mosaico que Mairowitz e Crumb constroem com sucesso. Em qualquer das duas edições, vale a leitura, embora quem achar o da capa verde em sebo estará provavelmente fazendo melhor negócio.

A visão dos assassinos

30 de maio de 2011 4

A recente notícia da prisão do criminoso de guerra mais procurado da Europa, o general sérvio Ratko Mladic, despertou em mim uma série de indagações sombrias que me acompanham desde a primeira vez que ouvi falar dessa guerra que ocorreu nos bálcãs: era 1992 e eu trabalhava como redator do jornal do meio-dia da Rádio Batovi, em São Gabriel, e vasculhava as edições de Zero Hora e Correio do Povo atrás de uma ou duas notas internacionais que pudessem completar o noticiário sobre as mazelas da política semicoronelista local.

Os anos passaram, aquela guerra que parecia tão confusa e tão absurda (e que no fim tinha muito a ver com religião, como a maioria das guerras) primeiro chacinou milhares e depois acabou. E começaram a aparecer as contribuições literárias para refletir sobre aquela (mais uma) insanidade europeia. Foi um momento em que problemas étnicos, religiosos ou ódios ancestrais levaram legiões a cometerem atrocidades com pessoas que eram, naquele momento, totalmente diversas delas, embora não houvesse à primeira vista para um observador externo parcamente informado, como eu, diferença alguma.

Provavelmente uma dos melhores contribuições sobre o conflito veio do injustamente relegado campo dos gibis, com Joe Sacco e seu Área de Segurança: Gorazde, uma visceral reportagem em quadrinhos sobre a guerra, e uma das coisas mais fundamentais que se escreveram sobre aquela confusão que, confessem, a maioria de vocês também não entendeu muito bem na época. Sacco voltaria ao tema em Uma História de Sarajevo, em que se dedicava a apresentar os três principais “senhores da guerra” das milícias sérvias — não me lembro se Ratko era citado. Como jornalista e como artista gráfico Sacco é minucioso mas não excessivamente didático ao explicar quem, naquela guerra, estava matando quem e por quê. E um dos pontos mais impressionantes no relato de Área de Segurança: Gorazde é sua narrativa dos massacres perpetrados contra a população bósnia no auge do conflito.

De um dia para outro, todos os sérvios adultos pareciam haver abandonado suas casas em Gorazde, deixando apenas os bósnios na cidade. E  dias depois, sem nenhum aviso, os sérvios retornaram cruzando o rio Drina, que limita a cidade separando-o de bosques e florestas na outra margem, e atacaram de maneira fulminante, chachinando bósnios que até então eram seus vizinhos. Mais de um depoimento colhido por Sacco conta que muitos, assassinos e vítimas, freqüentavam as próprias casas uns dos outros antes do conflito. A Iugoslávia já era uma coisa só desde pouco depois da Segunda Guerra,ou seja, quase meio século antes, e nas cidades como Gorazde as mesmas famílias moravam já havia tempo o bastante para que ambas as etnias houvessem criado juntas seus filhos. A maioria dos guerreiros e milicianos de um exército normalmente é jovem, então de onde brotou essa noção tão sólida a separar sérvios, croatas e bósnios, todos nascidos no mesmo território, ao ponto de na calada da noite parte deles simplesmente sumir para atacar os outros desprevenidos e dizimá-los? (a palavra dizimar e sua ressonância com “dízimo”, aqui, não deixa de ser morbidamente adequada, uma vez que a religião foi um dos motores do ódio. E mais: como eles sabiam se diferenciar uns dos outros? Pelo simples sobrenome?

Foi a mesma questão que me assaltou ao ler o dilacerante Gostaríamos de Informá-lo de que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias, reportagem de Philip Gourevitch sobre o massacre que os hutus de Ruanda praticaram contra os tutsins nos anos 90. Lá estão os mesmos elementos que na Bósnia chocavam o Ocidente por se tratar de europeus de olhos azuis de cabelo clarinho se matando, mas que na África teve uma dimensão tão ou mais trágica. Na época, contudo, enquanto o massacre ocorria, a indiferenca foi generalizada, mesmo nas Nações Unidas. O entendimento era que “aqueles lá” viviam se matando mesmo e nunca superariam suas “divergências tribais” (palavras textuais do até hoje inexplicavelmente tido como “porta-voz da inteligência” Paulo Francis). Novamente, no livro de Gourevitch (que ganhou recentemente uma reedição em formato bolso), o que temos é o relato de como de um dia para outro um pesadelo parecia haver tomado o cotidiano de pessoas comuns, gente que chegava ao trabalho e era evitada pelos colegas como se uma lepra repentina houvesse descido sobre eles. Gente que pedia refúgio em igrejas e era queimada viva lá dentro, muitas vezes com a própria anuência do missionário (cristão – e muito cristão que eu conheço que adora falar do “fundamentalismo islâmico” não tem a decência de se lembrar desse fato, bem como dos massacres de cristãos contra muçulmanos no Líbano, retratados no filme Incêndios, ainda em cartaz em Porto Alegre). E à noite, nas aldeias, uma parte dos negros de Ruanda invadia as casas da outra parte, arrastavam-nos para fora e os liquidavam com um nível de requinte surpreendente para tão toscas ferramentas utilizadas: paus, enxadas, machados, machetes, facões e vez por outra até armas de fogo.

E o que me asssalta é a dúvida sobre se um Tutsi poderia se refugiar em cidade que não fosse a sua e passar como Hutu, já que, pelo que conta Gourevitch, já não havia, naquela época, diferença física significativa entre as duas tribos, ambas falavam a mesma língua e havia centenas de casos de casamentos mistos. Há até casos relatados no livro de Tutsis que escaparam do massacre nas estradas simplesmente se dizendo hutus e alegando que haviam perdido as identidades durante a viagem (um dos solertes estratagemas do governo Hutu já visando ao massacre foi o recadastramento da população acrescentando na carteira de identidade a informação da etnia de origem).

E sendo assim, me pergunto quais são os sinais externos que te transformam em uma vítima, uma vez que todo mundo se parece muito fisicamente nesses casos de pessoas chachinadas por vizinhos próximos – seja a vizinhança o país ou a casa do lado. Vivendo em um Brasil em que o que mais se tem é variedade de traços físicos e sobrenomes improváveis aplicados às pessoas com as características mais diversas do que se associaria a eles, a idéia de etnia para mim é não só imprópria como vagamente alarmante.

O que, de uma hora pra outra, torna tanta gente merecedora da morte na mente distorcida de seus algozes?

Acho que grande parte da minha inquietação é que, quase vinte anos depois daquela primeira notícia lida em 1992, ainda não sei.

Um olhar sobre os Sertões

08 de março de 2011 0

Numa época em que “despretensioso” estranhamente é empregado como elogio, não se pode acusar de falta de ambição os gaúchos Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa. Ambos aceitaram um desafio mais espinhoso que mandacaru: a adaptação em quadrinhos de Os Sertões: A Luta, uma tentativa de verter em uma narrativa audiovisual a prosa fascinante e complexa de Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha. Os Sertões: A Luta adapta em quadrinhos a terceira parte da obra-prima de Euclides, justamente a mais extensa, a que apresenta a complexa rede de circunstâncias e eventos que levaram a ainda nascente República brasileira a enviar quatro expedições militares a um arraial de terra e sapé no meio do sertão baiano. Um verdadeiro fracasso dos ideais republicanos nos quais Euclides da Cunha acreditava.

Os Sertões já foi adaptado para o teatro por Zé Celso Martinez Corrêa, e a Guerra de Canudos gerou um filme em 1997, de Sérgio Rezende, mas as melhores adaptações da obra de Euclides da Cunha foram mesmo por meio de outros livros: os romances A Guerra do Fim do Mundo, do peruano Vargas Llosa, e Veredicto em Canudos, do húngaro Sándor Márai. Sabedores da dificuldade de transformar a prosa suntuosa de Euclides da Cunha em quadrinhos, o roteirista Ferreira e o ilustrador Rosa selecionaram a parte mais “romanesca” da obra, justamente a narrativa das expedições militares – as demais, eminentemente descritivas da paisagem e do homem do sertão, poderiam ser abordadas com a interpretação visual dada a Canudos e sua gente.

Com um traço detalhista e nervoso, que se vale de muitas hachuras e de sombras e tons escuros profundos, Rodrigo Rosa constrói o sertão árido e ressecado, em que a poeira da paisagem se confunde com a fumaça dos canhões — as cenas de batalha estão entre as melhores já realizadas no quadrinho nacional. O roteiro de Ferreira se afasta deliberadamente d’Os Sertões de Euclides, transformando o autor em personagem da história e acompanhando sua perplexa compreensão do que ocorre à medida que acompanha a quarta expedição a Canudos como enviado especial pelo jornal O Estado de S.Paulo. O recurso de retratar Euclides em seu papel de jornalista é uma boa solução narrativa para reconstruir os antecedentes da guerra e as três expedições anteriores, narradas em flashback por personagens entrevistados pelo escritor. Talvez um reparo a ser apontado é que a história já começa com uma das versões para a história do Conselheiro: um homem desiludido por uma traição que se converte em missionário da fé. Por ser a primeira cena da história, dá a entender que os autores tentarão oferecer uma interpretação própria para a esfinge que foi a personagem do Conselheiro, o que não acontece. O santo popular vestido de brim azul permanece um mistério para Euclides, para as tropas da República e até para os autores – e portanto, também para o leitor.

O livro faz parte da coleção Grandes Clássicos em Graphic Novel, inaugurada há três anos com O Alienista, de Machado de Assis, adaptado pelos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, e que conta ainda com versões como a de Eloar Guazelli para O Pagador de Promessas, de Dias Gomes. A série começou pelo selo Agir e, com a reestruturação do grupo Ediouro, passou para a Desiderata, o que atrasou a publicação da obra, a rigor pronta há quase dois anos. Pela complexidade da obra original, contudo, é a adaptação mais ambiciosa da série até agora — o que é ótimo em um tempo em que, estranhamente, “despretensioso” passou a ser elogio.

O tricô e os bordados

20 de janeiro de 2011 1

Em volta do samovar cheio de chá (cozido, não fervido), um grupo de mulheres, livres dos homens que representam a repressão institucional que as obriga a usar véus, partilha as suas experiências no espinhoso território do casamento. E mostra que a vida a dois é uma obsessão humana seja no Ocidente, seja no Oriente. É uma tarde de chá como a descrita acima que sustenta a obra Bordados (Tradução de Paulo Werneck. Companhia das Letras, 136 páginas, R$ 35), mais recente livro da quadrinista iraniana Marjane Satrapi. Tornada famosa com a repercussão internacional de sua série Persépolis, sobre sua infância e juventude passadas no Irã dos Aiatolás (publicada na íntegra no Brasil pela mesma Companhia das Letras que edita Bordados e adaptada para o cinema em uma animação que concorreu ao Oscar), Marjane Satrapi ganhou a oportunidade, nem sempre disponível para autores de quadrinhos, de ter outras obras traduzidas no Brasil.

O que Bordados, bem como outra obra anterior, Frango com Ameixas, tem em comum com Persépolis é a matéria-prima: as histórias de Marjane são recolhidas na crônica de sua própria família. Embora aqui haja uma perceptível mudança de tema. O olhar abrangente e histórico de Persépolis dá lugar em Bordados a uma narrativa  íntima de uma única tarde na qual, após um almoço, as mulheres da família de Marjane, amigas e vizinhas, reúnem-se ao redor do samovar na sala e partilham histórias enquanto os homens fazem a sesta em outra parte da casa.

No contexto do livro, a palavra “bordados” ganha dupla significação. É a conversa informal e repleta de troca de informações entre as mulheres – algo semelhante ao “tricotar” da língua portuguesa. Mas também pode ser uma referência eufemística à cirurgia de reconstrução do hímen, tema recorrente das conversas retratadas por Marjane no livro – na cultura machista e religiosa do Irã, a virgindade da mulher pode significar a diferença entre um bom e um mau casamento. O grande achado de Marjane ao ordenar os depoimentos que narra em sua história é que, de acordo com as mulheres que se reúnem em volta do samovar, nada é garantia de nada para as mulheres iranianas, e a diferença entre um bom casamento e um mau é mais tênue do que parece numa sociedade que faz da repressão da mulher política de Estado.

Uma das mulheres conta a história de seu casamento com um vigarista que, apesar de aparente bom partido, rouba-lhe as joias, volta para o Exterior (em tese para buscá-la mais tarde) e de lá pede o divórcio – depois da noite de núpcias, claro, acrescentando infâmia à ofensa. Outra, casada por meio dos tradicionais arranjos à distância entre famílias, recebe os convidados, na festa de seu casamento, sentada não ao lado do noivo, mas de um retrato dele – ele está ocupado demais na Europa, onde vive, para ir até o Irã. Outra ainda conta como fugiu do noivo arranjado pela família, um homem quase meio século mais velho, para mais tarde unir-se a um dos exilados que escaparam do Irã durante o regime do Xá – e que, com a desculpa de reorganizar a resistência no exílio, a trai descaradamente.

O desfiar desse rosário de penas, contudo, não transforma o livro em uma tragédia lacrimosa ou em um melodrama de telefilme. Tanto Marjane quanto as mulheres que ela retrata em sua história são dotadas de um humor desabrido, corajoso, franco, tornado ainda mais leve e direto pela segurança com que as mulheres da casa falam umas com as outras sem a presença dos homens. A forma também é novidade para quem acompanha o trabalho da autora. Enquanto Frango com Ameixas e Persépolis eram quadrinhos com uma estrutura mais próxima do que o leitor de HQ se acostumou a esperar (quadros retos, texto dividido entre balões de fala e recordatórios, imagem e texto complementares), Bordados voa em outra direção, assemelhando-se, em certas passagens, a um livro ilustrado, no qual texto e ilustração se completam mas parecem ocupar campos de significação distintos. Algo que provoca estranheza se somado com o desenho intencionalmente simples, por vezes falho tecnicamente – alguns painéis lembram xilogravuras, outros, desenhos infantis.