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Posts na categoria "Retratos Poéticos"

Retratos Poéticos - Ismar Tirelli Neto

03 de junho de 2012 0

Em mais uma entrevista com novíssimo autores da poesia contemporânea nacional, vai abaixo a íntegra da conversa que tivemos com Ismar Tirelli Neto, 27 anos. Nascido no Rio de Janeiro, já publicou dois livros pela editora 7Letras: Synchronoscopio (2008) e Ramerrão (2011). Como as anteriores, esta entevista foi concedida por e-mail.

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem?
Ismar Tirelli Neto
- Não sei se tenho autoridade para me colocar em parte alguma. Evito entrincheiramentos desnecessários. Por mais que a pluralidade tenha se tornado, de si, um cliché, ela ainda me entusiasma. Meu único critério de avaliação – falho, pessoalíssimo – é a seriedade. Não a gravidade, não a sisudez: a seriedade. Se um trabalho me parece sério, procuro me delongar um pouco mais, estabelecer com ele alguma relação, por mais que me pareça proibitivo, por mais que não tenha nenhum ponto de contato imediatamente detectável com minhas próprias pesquisas. Como se vê, é um critério bastante abrangente, dá ensejo a convívios mais ou menos insólitos. Quanto aos “fantasmas”, tenho muitos, uns mais aparecidos que outros. Há, no que tenho feito, muito Drummond, bastante Ana Cristina Cesar, um bocado dos poetas da New York School. Mas é um favoritismo que se assume favoritismo, procuro não desdobrá-lo em juízo de valor, procuro não defender ninguém. Os autores – especialmente os falecidos – passam muito bem sem que eu os defenda.      

ML – Com quem dentre os poetas em atividade você acreditas que sua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma. E quem são seus interlocutores entre os atuais poetas?
Tirelli Neto –
Tenho a sorte de ter por perto interlocutores bastante valiosos. Inclusive, tenho tido a imensa felicidade de apresentar o trabalho de alguns deles num evento que estou organizando no Espaço Cultural Interseções, chamado “Panorama Parcialíssimo da Nova Poesia Carioca“. Sublinhe-se o “parcialíssimo”. Enfim, a lista de convidados é bastante representativa: Victor Heringer, Leonardo Gandolfi, Marília Garcia, Mariano Marovatto e Alice Sant’Anna. O diálogo com esses autores é sempre, invariavelmente, estimulante e rico. Mas isso é aqui no Rio, e em literatura (poesia, mais especificamente). Há, por aqui, várias outras pessoas que tenho em conta altíssima: na música, no cinema, no teatro, nas artes visuais. Isso é um ponto crucial; o diálogo que excede os limites formais da poesia, ou mesmo da escrita. O encastelamento formal é um perigo muito grande.

ML- Você já publicou ou participou (e ainda participa) em um bom número de revistas e jornais, além da própria internet. A reunião em grupos nessas publicações, mesmo que não haja um sentido estético comum ou uma única direção criadora, como nas revistas das antigas vanguardas, continua sendo uma forma de um poeta encontrar ressonância para seu trabalho?
Tirelli Neto –
Sim, naturalmente, e que ninguém cometa a tolice de diminuir o alcance das revistas e dos jornais especializados. Até porque seria uma baita grosseria. Tocar uma empreitada dessas – tanto no papel quanto online – é tarefa heroica.     

ML – O que li de tua poesia até o momento me pareceu marcado por um forte senso de ironia, além de não rejeita a comunicação com o público, principalmente em um certo tom narrativo que perpassa sua poesia. Você busca de fato essa comunicação, a poesia que toca o leitor mesmo quando o desconcerta?
Tirelli Neto –
Veja bem, buscar a comunicação, pura e simples, não é da poesia, ou pelo menos não da poesia como eu a entendo. Encaro com extrema desconfiança o autor que procura se fazer entender. A poesia que me interessa pede o contributo do leitor, participação ativa, não apenas acenos conformados da cabeça. Como ela literalmente não existe sem o auxílio do leitor, algum enredamento deve existir. Caso contrário, a coisa não resulta. De qualquer forma, sou péssimo teórico, sempre preferi historinhas [sem moral, por favor] à exposição de conceitos abstratos. Prefiro encarar a narratividade – e, em alguma medida, a ironia – como pontos de partida, como dispositivos. É no plano da narratividade, do humorístico, do confessional, que se dá o convite. É vital, no entanto, que exista algo para além desse primeiro momento de enredamento; a confusão, o espanto, a recusa ao chá com bolachas.

ML – Você se sente um artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Tirelli Neto –
Sim, bastante à vontade. Mas não confundamos as coisas. Ninguém chegou aqui sozinho. Estamos todos trabalhando espaços franqueados pelos programas de ruptura do passado, cuidando para que permaneçam franqueados, possíveis, realizando um trabalho não exatamente glamoroso de manutenção. Quanto à ausência de um programa poético-político centralizado, manifesto, dogmático, digamos apenas que a figura do poeta tornou-se de tal maneira irrelevante para a sociedade de uns tempos para cá que reconhecer-se poeta já é um ato político. A dimensão está no gesto. A poesia a sério é um gesto anti-establishment, fundamentalmente contraproducente, propositor de mal-entendidos. Mas não falo nenhuma novidade. Digo isso apenas para que não nos tomem toda e qualquer função. Prefiro o gesto à palavra de ordem. Ademais, minhas convicções estão nos poemas. Não há separação.

Um poema de Ismar Tirelli Neto

Canibalismo
(De Ramerrão)

Anna chega exausta, digo-lhe que o jantar está pronto. ghoulash de pai e mãe. É crença de certos canibais que a digestão não constitui processo meramente físico: metabolizam-se igualmente os predicados morais, por assim dizer, do ente refeiçoado. A matrona do lar, esta cozinha está impraticável, escrutando, cheio de dedos (mais ou menos fictícios), as ofertas do Supermercado. Saio de casa na chuva para comprar incenso, a praça de permeio, tomo meu café. Tornando já. Nossa sala cheira a baunilha, as pequenas odisséias do dia pegam consistência de milk-shake. Pois bem, esta é minha prova de amor para você, ele observa, palitando os dentes. Como foi a entrevista de emprego segunda-feira?

Retratos poéticos - Ricardo Domeneck

03 de junho de 2012 2

Outro dos poetas com quem conversamos em nosso balanço da novíssima geração da poesia contemporânea é Ricardo Domeneck, 35 anos, paulista de Bebedouros e hoje residente em Berlim. Domeneck já publicou Carta aos anfíbios (Bem-Te-Vi, 2005), A cadela sem Logos (Cosac Naify, 2007), Sons: Arranjo: Garganta (Cosac Naify, 2009), Cigarros na Cama (Berinjela/Modo de Usar & Co., 2011) e Ciclo do amante substituível (Rio de Janeiro: 7Letras, 2012).

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem?
Ricardo Domeneck -
Eu não acredito em “sombras” da tradição. Quando um poeta começa a trabalhar e formar-se, há uma série de poetas ditando os parâmetros de qualidade, ou, simplesmente por serem populares, aqueles com os quais começamos a aprender o que pode ser poesia. Acho difícil que um poeta de minha idade possa ter escapado de lições (seja do que quer fazer ou não quer fazer) de poetas como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes ou João Cabral de Melo Neto. Mas em algum momento, é claro, por afinidades que poderíamos chamar de espirituais, estéticas ou outro nome, alguns de nós tomamos certos poetas por mestres eleitos. O que talvez não passe de uma paixão especial por certos autores. Para mim, na Língua Portuguesa, tenho uma admiração gigantesca por autores como Murilo Mendes, Mario Cesariny e Hilda Hilst.

ML – A sua poesia, ao menos a que li, é marcada por um lirismo conciso que parece casar o pop e o elevado com muita clareza de enunciação e de prosódia. Aceitas, em teus poemas, uma dimensão comunicativa da obra? Teus versos tentam se comunicar com o universo interior do leitor?

Domeneck –
O que você diz talvez possa se aplicar a livros meus como Cigarros na cama (2011) e Ciclo do amante substituível (2012), como a alguns poemas de Carta aos anfíbios (2005), mas em um livro como Sons: Arranjo: Garganta (2009) eu pratiquei propositalmente uma espécie de curto-circuito comunicativo, buscando o que se poderia chamar de “efeito anti-paráfrase”. Uma expressão como “dimensão comunicativa” é muito complicada numa discussão sobre poesia. O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein escreveu que “ainda que redigido na linguagem da comunicação, não é usado no jogo de linguagem da comunicação”. Minha crença, recorrendo aos termos de Jakobson, é de que a função poética da linguagem não oblitera necessariamente a função referencial. O clichê usado por muitos poetas sobre a poesia como “dizendo indizível” é um absurdo mistificado (em geral por pura auto-mistificação). Eu acredito que o campo do poeta é o dizível. O que não significa entregar-se ao fácil.

ML – Você se sente um artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Domeneck –
As vanguardas do século XX tampouco tinham um projeto político unificado. Eram plurais. No Brasil isso segue, em geral, a visão de Haroldo de Campos, de que as vanguardas eram primordialmente utópicas. As vanguardas germânicas, por exemplo, eram em minha opinião muito mais distópicas que utópicas, como é o caso do expressionismo e do dadaísmo. Eu acredito que todo projeto artístico tem implicações políticas, mesmo que não sejam apresentadas num manifesto Explícito..

ML – Com quem dentre os escritores/poetas em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma, ou mesmo quem são teus interlocutores entre os atuais poetas?
Domeneck –
Meus interlocutores principais no Brasil são muitas vezes poetas com visões bastante diferentes das minhas. Às vezes, opostas. Sempre mantive um diálogo e debate com Érico Nogueira, e talvez não haja dois poetas mais diferentes entre si. Também mantenho um diálogo com Dirceu Villa, e tenho grande afinidade estética com Angélica Freitas e Marília Garcia. Mas este diálogo é tão intenso quanto o que tenho com certos poetas estrangeiros, como o argentino Ezequiel Zaidenwerg e o catalão Eduard Escoffet. Na Alemanha, onde moro, meus diálogos mais intensos são com Odile Kennel (poeta e também minha tradutora para o alemão) e com Johannes CS Frank, poeta e meu editor aqui em Berlim.

Um poema de Ricardo Domeneck
(De Cigarros na Cama)

Comecei a fumar porque você fuma
e eu certamente não queria viver
mais que você. Agora já sem
o seu hálito, suas bitucas e cinzas
na mesma cama, começo o dia
com um cigarro, exatamente
e ainda pelo mesmo motivo.

Retratos Poéticos – Lorena Martins

02 de junho de 2012 0

Gaúcha de Dom Pedrito, Lorena Martins não aborda a viagem apenas no título de seu livro de estreia, Água para Viagem (7Letras). Já morou em Paris, Londres e Brasília, e atualmente reside no Irã.

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem?
Lorena Martins –
Acho complicado me colocar no atual momento da poesia nacional. quem pode fazer isso é o crítico, o teórico, o leitor. eu apenas escrevo e gosto de compartilhar a minha poesia com as pessoas. Sobre “sombras”, posso apenas falar sobre o que leio.  Alguns dos meus poetas de cabeceira são Drummond, Ana Cristina Cesar, Wislawa Szymborska, Alejandra Pizarnik, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, Armando Freitas Filho, Hilda Hilst, Ferreira Gullar, Fabrício Carpinejar.  E há também a presença da prosa na minha formação e naquilo que escrevo, é claro.

ML – Com quem dentre os  poetas em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma. E quem são seus interlocutores entre os atuais poetas?
Lorena –
Dentre os poetas em atividade, dialogo e me identifico mais com fabrício corsaletti, bruna beber, armando freitas filho e ana martins marques. se a minha poesia estabelece um diálogo com a deles, entretanto, é uma outra é questão; é possível e seria uma honra para mim, são poetas que muito admiro.

ML – Seus versos, ao menos em Água para Viagem, não rejeitam o lirismo, o sentimento, e parecem buscar as sensações do leitor, provocá-lo emocionalmente, comunicar-se com ele. Você aceita essa dimensão comunicativa da poesia conscientemente em seu trabalho?
Lorena
– Poesia, para mim, tem de ter sangue. se for muito cerebral, nada me diz. partindo desse pressuposto, muitos temas e caminhos podem ser percorridos. Eu escolho o amor, a observação do mundo, a experiência, o suspiro.
A poesia nasce do espanto, como diz Gullar.

ML – Você se sente uma artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Lorena
– Sem dúvida. a poesia é o lugar onde eu exerço toda minha liberdade e individualidade. não me interessa nenhum programa poético/político

Um poema de Lorena Martins

eu curo meu silêncio
com gaze, museus
mercúrio
a noite em claro

a semana chove
ferida
ninguém mais suporta
molhar os pés

eu peço um duplo
cafeína, vodka,
versos
fotos de abajur

à meia-noite
suspira
billie na calçada
a heaven just for two

é uma saga

Retratos Poéticos - Fabrício Corsaletti

02 de junho de 2012 0

Para a matéria deste sábado no Cultura, conversamos também com o poeta Fabrício Corsaletti. Nascido em Santo Anastácio (SP), em 1978,  hoje reside em São Paulo. Publicou seu primeiro livro, Movediço, em 2001, seguido por Sobrevivente (2003) – ambos por editoras pequenas, e mais tarde reunidos a inéditos no volume Estudos para o Seu Corpo, publicado em 2007 pela Companhia das Letras. Esquimó é seu lançamento mais recente, pela mesma editora. É colunista da Folha de S.Paulo

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem?
Fabrício Corsaletti –
Me coloco como alguém que escreve poesia porque precisa fazer isso. Não sei me situar dentro da poesia nacional, nem acho que seja meu papel pensar nesse tipo de coisa, e sim da crítica, dos leitores. Não vejo minhas influências como sombras, mas como inspiraçoes. São elas: Manuel Bandeira, Drummond, Vinicius, Murilo Mendes, Joao Cabral, os modernos, enfim. Dos poetas recentes, gosto muito de Paulo Henriques Britto, Alberto Martins, Fabiano Calixto, Angélica Freitas, Eucanaã Ferraz.

ML – A sua poesia, ao menos a que li, é marcada por concisão, um humor  com pegada pop e ao mesmo tempo muita clareza de enunciação e de prosódia. Aceitas, em teus poemas, uma dimensão comunicativa da obra? Teus versos tentam se comunicar com o universo interior do leitor?
Corsaletti –
Aceito a comunicação, sim, mas não me preocupo com isso. Mesmo porque não sei como um outro, o leitor, lê os meus poemas. Escrevo-os como acho que eles pedem pra ser escritos. Sou fiel à minha intuição. Todo o resto é secundário.

ML – Mesmo os pontos mais experimentais de tua poesia me parecem imbuídos de ironia, de tratar também a experimentação como uma atividade lúdica. Te sentes um artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Corsaletti –
Sim, me sinto, dentro dos meus limites, que são muitos, bastante livre. Não tenho um programa poético/político. Penso poema a poema, e depois livro a livro.

ML – Com quem dentre os escritores/poetas em atividade acreditas que tua obra  estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma, ou mesmo quem são  teus interlocutores entre os atuais poetas?
Corsaletti –
Os poetas que citei na primeira pergunta. Sem ter lido a poesia da Angélica Freitas, por exemplo, não sei se eu teria chegado em alguns dos poemas de Esquimó, meu último livro de poemas. Ler os poemas dela foi uma descoberta, uma felicidade.

Um poema de Fabrício Corsaletti

Everything is broken
(de Esquimó)

a rua está quebrada
minhas botas
estão quebradas
minha voz
está quebrada
meu pensamento
está quebrado
as portas
estão quebradas
o despertador está quebrado
a noite está quebrada
a manhã
será quebrada _

há uma pessoa no mundo
que não está quebrada
e eu estou ao seu lado
como se não estivesse quebrado _

a alegria
está quebrada
o cansaço
está quebrado
tudo está quebrado

Retratos poéticos - Ana Guadalupe

02 de junho de 2012 0

Quem leu a página central do Caderno de Cultura de hoje encontrou um pequeno panorama de 10 jovens poetas contemporâneos cuja produção resolvemos apresentar ao leitor do jornal. São autores na casa dos 20 e dos 30 anos, que vêm publicando a partir do nosso jovem milênio e formam uma rede mais de contatos do que propriamente de colaborações ou influências. Entrevistei uma boa parte deles (alguns não conseguiram responder minhas perguntas em tempo hábil), e portanto divido com vocês as íntegras dessas breves entrevistas para que os leitores do blogue conheçam a nova mocidade (adoro usar esse termo desde que meu amigo Gabriel Brust me disse, há uns anos, que parecia uma palavra de velho) poética.

Começamos por Ana Guadalupe. Nascida em Londrina (PR) em 1985, hoje reside em São Paulo. Em 2011, teve publicado seu livro de estreia, Relógio de Pulso (7Letras). Mantém o blog Roxy Carmichael Nunca Voltou:

Mundo Livro – Como você se colocaria no atual momento da poesia nacional? Quem são suas “sombras” dentro da tradição, se é que existem, ou essa é uma questão que não está presente em seu projeto artístico?
Ana Guadalupe –
Acho que sou principalmente uma leitora entusiasmada da poesia brasileira contemporânea. Embora eu não conheça da mesma maneira a poesia escrita hoje em outros países, acredito que escrevemos ótima poesia aqui. O que escrevo deve ser uma resposta a esse carinho pelo que leio. Tento escrever poemas que eu gostaria de ler, enquanto também tento, claro, buscar aquilo que chamam de “voz própria”. Acho que a tradição está nos ecos do que li como vasculhadora de sebos e bibliotecas na juventude, e também como estudante do curso de letras. Tem o Modernismo bem presente, mas também tem rima e certa preocupação com a métrica, por exemplo. também tem muito dos livros independentes/locais de poesia que sempre gostei de ler, aqueles com pouca validade, mas que sempre têm umas pérolas. e muito da poesia que veio depois do modernismo, os “marginais” etc.

ML – Com quem dentre os  poetas em atividade acreditas que tua obra estabelece algum diálogo, seja em temas, seja na forma. E quem são seus interlocutores entre os atuais poetas?
Ana –
Acho que a minha poesia está próxima de muitos dos poetas em atividade. Existem muitas semelhanças visíveis (tanto no tema quanto na forma) com os poemas de autores que eu gosto de ler, como a Bruna Beber, Alice Sant’anna, Angélica Freitas, Paulo Scott, Rafael Mantovani, etc. etc.

ML – Você já publicou ou participou (e ainda participa) em revistas e jornais de poesia, além da própria internet. A reunião em grupos nessas publicações, mesmo que não haja um sentido estético comum ou uma única direção criadora como nas revistas das antigas vanguardas, continua sendo uma forma de um poeta encontrar ressonância para seu trabalho?
Ana –
Claro! E acho também que deve ser maravilhoso pro leitor que só conhece a poesia brasileira até o Drummond, digamos, como acontece muito, ter contato com uma dessas antologias de vários poetas atuais e descobrir vários de uma vez.  Pode ser uma surpresa ver que existem tantos, produzindo tanto, e com linguagens tão variadas.

ML – Sua poesia em Relógio de Pulso mescla referências de “universos” distintos, como o pop, alta literatura, dicções antiquadas, versos curtos e incisivos. Parece buscar também atingir o leitor emocionalmente. Você tenta um casamento entre a poesia mais cerebral e a comoção do leitor, comunicar-se com ele (algo que movimentos poéticos do século XX de certo modo recusariam)?
Ana –
Nunca tinham analisado minha poesia dessa forma, e gosto bastante, porque essa é mais ou menos a minha intenção, sim. Acho que tenho uma preocupação “cerebral” com vários aspectos do poema, especialmente o ritmo e a métrica, que talvez resultem numa “dicção” repetitiva. Também tento evitar sobras, tanto na forma quanto no conteúdo. Tenho tentado cada vez mais, depois do primeiro livro, chegar a uma unidade de tema mais rígida em cada poema, por exemplo. e o ritmo e a simetria continuam sendo preocupações constantes. No entanto, acho que dá pra unir essas tentativas de “exatidão” à inclinação de falar (bobagens, até) com o leitor. Gosto dessa mistura de complicação e simplicidade. eu, como leitora, consigo apreciar poesia engenhosa e também poesia divertida, comovente, coloquial; e não sou tão fã de poesia totalmente racional ou acadêmica. acho que dá pra colocar essas coisas juntas.

ML – Você se sente uma artista à vontade para experimentar sem que haja necessidade de um programa póetico/político como o das vanguardas do século 20?
Ana –
Sim, muito, mas acho que também são bem-vindos programas, propostas, experiências e discussões sobre o papel do poeta neste momento, por exemplo.

Um poema de Ana Guadalupe:
Passé composé

subiu as escadas
para perguntar sobre as palavras
derrubadas pelo meu sotaque

afirmei que meu amor é
enorme, um móbile
perdido entre arandelas;

disse que meu amor é
firme, retorna com maçãs
e canela das pernas;

se perguntasse sobre a
fertilidade, os perni-
longos, a falta de sorte,

responderia que meu amor é
forte, chacoalha as árvores
sempre que parte.