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O conto em revista

09 de dezembro de 2008 2

Perguntou-me se sabia em que estava pensando. Como ia saber? “Bom, estou pensando na cara que faria minha avó se soubesse que estou jantando com um menino.” Alvíssaras: o menino era eu. E o garçom que me perguntava se ia pedir o cardápio econômico. Claro. E o garçom que me perguntava se minha irmãzinha também. E ela, sim claro, “Por algo somos inseparáveis.” O garçom se foi e eu disse: “Oxalá”. “Oxalá o quê?” Percebi que tinha conseguido desorientá-la. “Oxalá fôssemos inseparáveis.”
Ela entendeu que era algo assim como uma declaração de amor. E era.

No Exterior, o território por excelência do conto sempre foi a revista, mais até do que o livro. Foram nas páginas de revistas literárias que vieram a público textos fundamentais como O Falcão Maltês, por exemplo, obra que mudou para sempre o gênero policial e saiu pela primeira vez em uma revista de papel jornal vagabundo, a Black Mask. Isso já valeu também para o Brasil, mas hoje não se aplica. O território da literatura, em sua maioria, continua sendo o livro (por enquanto deixemos a internet de fora dessa equação), e o público médio brasileiro associa imediatamente o termo “revista” a períodicos de reportagens, informação e variedades, não de literatura. Talvez hoje a Piauí, que publica ficção inédita ou traduções exclusivas dividindo espaço com muito jornalismo literário, cumpra um pouco desse papel, embora ela seja a única publicação de grande circulação a fazer isso depois do fim da saudosa Entrelivros. Mesmo a prestigiosa Granta, que está em seu terceiro número no Brasil, tem o formato de um livro, não de uma revista propriamente dita.

O que nos deixa com as iniciativas esparsas de circulação e periodicidades tímidas, embora heróicas, e que se mantêm bravamente, como a Coyote, de Londrina, que sai semestralmente, a Front, que mistura ficção e quadrinhos e sai no mínimo de quatro em quatro meses, a ETC., da Travessa dos Editores, de Curitiba, que eu não sei, particularmente, se ainda está sendo publicada. E, claro, as publicações acadêmicas que misturam ensaios e estudos com contos e poemas. A maioria desses exemplos são de revistas publicadas com um número exíguo de exemplares, de distribuição artesanal, quando não mambembe.

Por isso que, ao descobrir a Arte e Letra: Estórias (imagem acima), uma publicação trimestral da editora Arte e Letra, também de Curitiba, dedicada exclusivamente à publicação de contos, de autores nacionais e estrangeiros, achei que estava na obrigação de dar um toque aqui no blog para mais essa boa iniciativa. A revista já está no terceiro número, cuja capa vocês lêem acima, ou melhor, sua terceira letra, já que até agora elas não foram numeradas, e sim identificadas por letras, A, B e C, esta última saiu do forno agora mesmo em dezembro. Nesta terceira edição, a Arte e Letra traz, entre outros, contos dos autores Arthur Schnitzler (austríaco contemporâneo de Freud e mestre de uma narrativa psicológica pré-freudiana, digamos), Jonathan Coe (inglês autor dos ótimos Bem-Vindo ao Clube e A Casa do Sono), Horacio Quiroga (nome fundamental da ficção uruguaia), M.R. James (britânico mais conhecido como autor de histórias de horror e assombração). Há na Arte e Letra C duas narrativas inéditas no país. O primeiro é O conto de natal de Auggie Wren, do norte-americano Paul Auster, escrito com exclusividade para o New York Times e agora traduzido por Thiago Tizzot. O segundo é Pontes como Lebres (título sensacional esse), do mestre uruguaio Mario Benedetti, do qual vocês leram o trecho que abre este post, na tradução de alguém que se intitula I. Portbou. Benedetti faz da trajetória de encontros e desencontros de um casal um pretexto para uma história do próprio Uruguai.

Somando com os volumes A e B da mesma revista, já foram publicadas histórias de Saramago, J.M. Coetzee, Cristóvão Tezza, Stephen King, Eça de Queirós e Bioy Casares, entre outros. E o melhor: como o formato é de revista (nunca mais de 80 páginas), o preço não é de livro. A revista sai por R$ 16,50, mas, como deve padecer dos mesmos problemas de distribuição e colocação em livrarias que a maioria das demais publicações literárias citadas aqui, sugiro que o leitor interessado tente adquirir a sua direto no site da editora: (http://www.arteeletra.com.br/estorias/)